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Bota Pra Moer

Antônio Lima era o nome próprio daquele pernambucano entroncado, de cor clara, cabeça a la Rui Barbosa, natural de Caruaru e do qual os maranhenses recordam muitas histórias. Devido a sua impressionante inteligência, logo que aqui chegou foi batizado pela plebe de “Bota Pra Moer” e essa alcunha o acompanhou até o fim de sua existência. “Bota Pra Moer” era simplesmente impressionante, um matemático como até então nunca tinha aparecido igual em São Luís. Para quem não teve o privilégio de conhecê-lo, basta dizer que “Bota Pra Moer” chegava para uma pessoa e perguntava o dia, mês, ano e hora em que aquela pessoa nascera. De posse destes dados e num rápido cálculo que fazia mentalmente, dali a minutos respondia quantos anos, meses, dias e horas aquela pessoa tinha vivido até aquele instante. Outra faceta impressionante deste personagem era ler (mas ler mesmo) um jornal de cabeça para baixo e ficava lendo com a maior naturalidade. Depois relatava tudo o que os jornais estavam noticiando.

“Bota Pra Moer” usava sempre roupas de segunda mão que ganhava de famílias mais abastadas. Almoçava, jantava e, às vezes, dormia na residência do farmacêutico Garrido, proprietário da Farmácia Garrido, na Rua Grande. O farmacêutico não admitia que o chamassem pelo apelido e tinha, juntamente com sua esposa, uma estima muito grande pelo excêntrico matemático. Conta-se que, certa vez, “Bota Pra Moer” chegou à farmácia do seu Garrido e perguntou-lhe, num tom muito sério

“Seu Garrido, o senhor gosta de carne de boi?”

Garrido que estava muito atarefado, respondeu que sim, gostava de carne de boi. “Bota Pra Moer”, depois de algum instante, novamente tirou o farmacêutico de suas tarefas e perguntou-lhe:

“Seu Garrido, o senhor come carne de boi?”

Um pouco chateado, Garrido respondeu:

“É claro, Antônio, eu gosto e como carne de boi. E tu, não comes?”

Ao que “Bota Pra Moer” respondeu, ironicamente:

“Comer eu como, seu Garrido, mas é sentado…”

O farmacêutico caiu na gargalhada, diante daquela tirada de “Bota”.

Os bolsos de “Bota Pra Moer” viviam cheios de pão, que ele comia constantemente. Em outros bolsos guardava papéis e tocos de lápis para fazer seus cálculos. Às vezes era contratado por firmas para sair fazendo propaganda de casas comerciais. Nessas ocasiões andava pelas ruas com duas placas, uma na frente e outra atrás, anunciando os produtos e preços da firma comercial que o contratara. E como ficava feliz e sorria quando os transeuntes paravam para olhar as placas que conduzia!

“Bota Pra Moer” gostava também muito de crianças, sempre tinha alguma coisa para oferecer aos petizes que o cercavam. Um de seus hábitos era fazer casinhas de papelão que vendia para as crianças, a preços módicos, porque, para ele, o importante era fazer felizes aqueles pequeninos seres. Outra mania do nosso personagem: colecionar nos bolsos bolinhas de gude. Quando encontrava alguém disposto fazia aposta de como era capaz de engolir aquelas bolinhas e quase sempre ganhava, trazendo-as de volta na hora em que fazia as necessidades fisiológicas. Tirava as bolinhas da “massa fecal” e limpava, guardava-as novamente nos bolsos, à espera de novos apostadores.

São Luís é conhecida como “Ilha Rebelde” devido à célebre greve de 1951, quando o povo se revoltou contra a posse no governo do Sr. Eugênio Barros. Um dia os grevistas entregaram a “Bota Pra Moer” a bandeira nacional e o colocaram à frente, numa marcha rumo ao Palácio dos Leões. Os grevistas se autointitularam de “Soldados da Liberdade”. Quando a turba chegou à Praça Pedro II e “Bota Pra Moer” viu aquele monte de policiais em frente ao Palácio, com as armas em ponto de bala, prontamente entregou a bandeira para o primeiro que apareceu, afirmando:

“Até aqui eu vim, mas daqui pra frente arranjem outro que seja mais doido do que eu…”

Outros fatos pitorescos que se conta de “Bota Pra Moer”:

Certa vez telefonaram da residência do Sr. João Pereira, avô do Dr. Gabriel Cunha (que morava na Rua das Hortas) pedindo que fosse com urgência com determinado medicamento para uma pessoa da família que estava passando mal. Nessas ocasiões, o farmacêutico sempre pedia a “Bota Pra Moer” para fazer tais entregas. E foi o que aconteceu naquele dia. Seu Garrido tirou o remédio da prateleira, chamou “Bota” e deu-lhe o medicamento, instruindo-o quanto ao endereço onde deveria entregá-lo.

“Bota Pra Moer” chegou à porta da casa do Sr. João Pereira e bateu. Não foi atendido, tornou a bater e nada. Insistiu mais uma vez e ninguém dava sinal de vida. Vendo uma janela aberta, “Bota” pulou a referida janela, foi até a varanda da casa, deixou o remédio em cima de uma mesa, voltou a pular a janela e retornou para a farmácia. Ao chegar àquele estabelecimento, seu Garrido perguntou-lhe:

“Como é, Antônio, deixaste o remédio lá onde eu te disse?”

“Deixei, seu Garrido. Não tinha ninguém na casa e eu coloquei em cima de uma mesa.”

A essas alturas, na residência do Sr. João Pereira, estava todo mundo estupefato, sem saber como aquele precioso remédio fora parar em cima da mesa, sem que ninguém tivesse aparecido. Já estavam considerando um verdadeiro milagre, quando Garrido telefonou e contou a presepada de “Bota Pra Moer”.

Em outra ocasião, o então Presidente Dutra estava em visita a São Luís, trazido pelo Senador Vitorino Freire. Como parte da programação, Dutra e Vitorino foram para o Estádio Santa Isabel, onde o Presidente deveria dar o pontapé inicial de uma partida entre Sampaio e Moto. Quando as autoridades adentravam ao gramado (como dizem os locutores esportivos) lá atrás ia o “Bota Pra Moer”, muito na dele, jogando ioiô de tampa de panela. Nas arquibancadas e gerais a gritaria era infernal, todos se deliciando com o feito do “Bota”…

Pouco antes de “Bota Pra Moer” deixar este mundo, foi protagonista de outro episódio interessantíssimo. Tocava uma valsa numa das casas comerciais da Praça João Lisboa e nosso personagem, desinibido como era, apanhou a esmoler conhecida por Tiririca e com ela saiu valsando pelo calçadão existente em frente ao Moto Bar. Foi um acontecimento! Muita gente parou para ver aquele casal dançando feliz em plena praça, deixando de lado as tristezas da vida.

“Bota Pra Moer” costumava banhar-se numa lagoa infecta que se formava na Rua Paulo Frontin (no hoje bairro Retiro Natal) e que na época estava sendo aterrada. Aquela lagoa era, para o “Bota”, uma espécie de piscina, de rio ou de mar. Numa dessas vezes, vitimado por um mal súbito, “Bota Pra Moer” pereceu naquela lagoa e seu corpo foi encontrado no dia seguinte por populares que ali transitavam.

O corpo de “Bota Pra Moer”, depois de autopsiado, foi entregue à Faculdade de Medicina, onde os acadêmicos dele fizeram uso para seus estudos. Mesmo morto, o conhecido matemático foi útil – ou continua sendo útil – para os maranhenses…

*

Lopes Bogéa no raro Pedras da Rua [São Luís, 1988, 320 p.], cuja capa desenhada por Elvas Ribeiro, vulgo Parafuso, abre-ilustra este post. No livro o saudoso compositor dedica-se a perfilar estas “figuras populares”,  ”gente simples de São Luís”, merecedoras de “nosso respeito e o nosso carinho”, como alerta o autor no preâmbulo da obra.

64 anos após lançado Carrossel da esperança permanece atual

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Comédia de Jacques Tati é uma crítica ao corre-corre desenfreado da sociedade contemporânea

Carrossel da esperança [Jour de fête, 1949, 77min.] inaugurou hoje a mostra Tati por inteiro, promovida pelo Sesc, no Cine Praia Grande, que recebeu um bom público para a sessão de abertura.

No filme, o próprio Jacques Tati interpreta o carteiro François, um atrapalhado de bom coração que tem em ajudar um prazer. Na praça de um vilarejo francês – alguns moradores compõem o elenco – instala-se um carrossel, a despertar o interesse, por motivos diversos, de adultos e crianças.

Nosso adorável carteiro, entre fazer o seu e bebericar em serviço, acaba assistindo, em um cine-mambembe a um filme sobre os carteiros americanos, cujo ideal de rapidez passa a perseguir. E é a partir daí que o filme torna-se ainda mais engraçado.

Muitos comediantes sem graça de hoje em dia deveriam assistir Tati e aprender com ele: é impressionante como mais de 60 anos depois de lançado, o filme continue despertando o sorriso em adultos e crianças. Carrossel da esperança não é cinema mudo, mas a fala ali é quase detalhe, o que facilita o entendimento para crianças que por vezes não conseguirão acompanhar as legendas. Ou mesmo para os que ainda não aprenderam a ler: o cineasta é recomendável para todas as idades. Sem contraindicação, sem moderação. Aproveite a mostra Tati por inteiro por inteiro.

Outro detalhe curioso sobre o filme é que durante muito tempo conheceu-se apenas sua versão em preto e branco: o colorido era uma tecnologia experimental na época e a versão em cores só veio a público em 1995, durante o restauro da obra de Tati, coordenado por sua filha. A música de Jean Yatove mereceria um comentário à parte: impecável trilha sonora de ares circenses.

Não se enganem os que pensam que a atualidade do humor de Tati está na facilidade, no fazer rir descompromissado de tropeços e quedas típicos dos pastelões. Isso está lá também. Mas não só. No fundo, a busca de François pela velocidade dos carteiros americanos em Carrossel da esperança acaba sendo uma crítica ao nosso correr desenfreado em busca de não sei o quê – dinheiro, celular último modelo, carro zero em não sei quantas prestações, casa própria, sucesso e reconhecimento profissional. Quer algo mais atual que isso?

&

A mostra Tati por inteiro continua até sábado, programação de amanhã (22) na imagem que abre o post. Abaixo, trailer de Meu tio (Oscar de melhor filme estrangeiro de 1959, 20h); o de As férias do sr. Hulot (18h), no post anterior.

A intrusa: adquira já a sua!

O escritor Bruno Azevêdo reuniu os 12 capítulos de A Intrusa, folhetim que publicou ao longo do ano passado no jornal Vias de Fato, e publica agora um livro com sua história de amor, voltada sobretudo ao público feminino, nos moldes de hits de bancas de outrora, vide Julia, Sabrina e Barbara Cartland, entre outros que eu sempre vi tia Sara comprando e lendo.

Com ilustrações de Eduardo Arruda, capa de Frédéric Boilet, e prefácio de Xico Sá, a obra, que será lançada em maio, já pode ser adquirida no site da Beleléu, que lança a obra junto da Pitomba.

Em tempo: 18 de maio (sábado), às 14h30min, Bruno Azevêdo divide uma mesa com Ronaldo Bressane e Pedro Franz, sob mediação de Augusto Paim, sobre Narrativas gráficas sequenciais na Festipoa Literária.

Blogue em manutenção

Pensando (sempre) em melhor atender seus poucos mas fieis leitores. Voltaremos o mais rápido que pudermos, aguardem!

Mais Ernesto Nazareth

Esta semana o blogue tem lembrado de Ernesto Nazareth, por ocasião dos 149 anos de seu nascimento e pelo lançamento do site do IMS que o homenageia. Abaixo, algumas pérolas deste compositor, executadas por nomes do primeiro time de nossa música instrumental:

 

Lembrando que domingo (25), às 9h, na Rádio Universidade FM tem Chorinhos & Chorões, com Ricarte Almeida Santos e as participações deste que vos perturba e João Pedro Borges. Não percam!

Para roer as Pitomba!s até o caroço

Para ler, baixar e/ou imprimir (e queimar em praça pública), vão aí os dois números da Pitomba! publicados até agora (em breve o site da editora homônima estará no ar). Pois como disse meu amigo-irmão Reuben da Cunha Rocha, um de seus editores, “se seguirão outros números ainda piores, aos trancos & barrancos”. Divirtam-se, pois como ele também disse, antes, a revista que ele edita com Bruno Azevêdo e Celso Borges é “dedicada a proporcionar o máximo de diversão possível através do maior número possível de provocações — & isso basta”.

http://www.zemaribeiro.wordpress.com

Gente dizendo que eu ‘tava há dias sem escrever. Não ‘tou. Só não escrevo mais aqui. Mudei de endereço, esse aí que batiza o post. Já tinha avisado, basta clicar, ‘tá ligado?

Pra que não restem dúvidas: eu agora escrevo no http://www.zemaribeiro.wordpress.com (um cliquezinho resolve).

Eu agora escrevo

ali.

Reuben Bandeira Borges

Eu tava na plateia. Saudades: simplesmente lindos estes vídeotextofoto.

Antiode à Ilha capital

Colaborador do Vias de Fato inicia série de anti-homenagens à Ilha. Vozes dissonantes se pronunciarão em contraponto aos discursos oficiais, oficiosos e falaciosos das esferas pública e privada, pela efeméride vindoura: São Luís, 400 anos, 1.000 problemas.

ZEMA RIBEIRO


Buraco na Rua da Palha (Centro) é só uma palha dos inúmeros e enormes problemas da capital maranhense. Foto: Francisco Colombo.

Cantada e contada em verso e prosa, a lenda da serpente reza – e rezada – que São Luís do Maranhão afundará tão logo uma serpente que dorme sob a cidade, quiçá nas galerias da Fonte do Ribeirão, tenha sua cabeça e seu rabo de encontro um a outro, despertando-a.

A serpente continua dormindo. Mas a cidade parece afundar, mais que um pouquinho a cada dia. A serpente não acordou, mas na capital maranhense dormem os alcaides e seus asseclas. Como num barco há tempos à deriva – embora os ratos ainda não tenham pulado fora – a água (de esgoto) invade cada buraco. E estes não são poucos por suas ruas, avenidas, becos, ladeiras, vielas e demais logradouros.

Há os que desafiem a lei da gravidade, equilibrando-se em ladeiras. Em asfalto, paralelepípedos ou mesmo onde não há calçamento, lá estão eles, prontos a derrubar e/ou engolir pedestres e/ou carros, que cada vez mais disputam espaço, incivilizadamente.

Às vésperas de completar 400 anos – tendo como referência sua fundação francesa, mito cada vez mais contestado – São Luís parece uma cidade parada no tempo, sem que isso signifique saudosismo ou mesmo sirva de mote a uma campanha publicitária do trade turístico.

Aliás, o que encontram aqui os turistas que ainda se arriscam? Fétidas praias de águas poluídas, onde foi parar a beleza da Ponta d’Areia cantada por Chico Maranhão em música homônima? Ou a beleza do Araçagy de Cristóvão Alô Brasil? Patrimônio cultural da humanidade se transformando em Patrimônio cultural profano, como em poema de Cesar Teixeira, prédios teimando em manter-se de pé, a despeito de chuva, mato, lodo, lixo e do cochilo demorado de governantes – o casario, velho e teimoso, não quer cair e fazer esquecer o eufemismo contido em “tombado”. A depender do estado de conservação de nosso patrimônio, hoje, todos os nossos versos seriam poemas sujos.

A Praia Grande já tem de grande apenas o sobrenome. Conjunto de ruelas malcheirosas, escuras a partir das seis da tarde. Conhecida apenas pela alcunha de “Reviver”, pelas gerações mais novas, “revivida” que foi, por projeto homônimo há pouco mais de 20 anos, gozou de melhor sorte que os vizinhos Desterro e Portinho, os outros dois primos pobres que compõem o centro histórico ludovicense.

Não se trata aqui de odiar ou não amar a São Luís outrora e ainda hoje tão cantada em verso e prosa, por autóctones, forasteiros e filhos adotivos. Nem de deflagrar uma campanha anti-ilhéu. Ao contrário: como uma mulher a quem amamos, queremos São Luís mimada e mais bonita a cada dia – para continuarmos na metáfora, governantes parecem querer apenas fodê-la.

Boiando feito merda n’água, pregada ao continente por um Estreito dos Mosquitos cada vez mais estreito e cada vez com mais mosquitos, insuficiente, São Luís em breve, qual debutante, ganhará um estojinho de maquiagens. Além de um pouco de pó e batom, visita a manicure e cabeleireiro e quem sabe ganhe até mesmo uma depilação no esgoto jogado in natura no Atlântico – nem falo dos rios, pois a Ilha há tempos não os tem. A Lagoa só não morreu ainda por que os bacanas insistem em fingir-lhe área nobre, apesar do mato alto e do fedor, de defuntos insepultos – entre estes alguns legisladores –, entre outros problemas.

São Luís segue o curso desumano de presídios e hospitais superlotados, presos e doentes gozando do mesmo tratamento degradante, como a cantar a Louvação de Tribuzi: “oh, minha cidade, deixa-me viver”. A cidade agônica, parece também reivindicar para si mesma o mesmo desejo, ante os governantes: “oh, gestores, deixem-me viver”. A Ilha teima. Não quer afundar antes de assoprar as 400 velinhas de um bolo que já lhe preparam, já que “a mão que afaga é a mesma que apedreja” (cf. Augusto dos Anjos).

A capital maranhense poderá afundar, leia-se, morrer, com tantas estacas cravadas em seu corpo: as estacas que darão suporte a tantos outdoors com campanhas publicitárias pela efeméride dos quatro centenários. Muito mais estacas que as cravadas em Cristo, São Luís segue sua via crucis, seu calvário, não se sabendo se merece parabéns ou obituário.

Em estado terminal, São Luís não consegue se autorregenerar, como o fígado maltratado de qualquer de seus boêmios, ilustres ou anônimos. Às vésperas de completar 400 anos, São Luís já conta 1.000 problemas. A máxima jobiniana, com o maestro soberano se referindo ao Brasil, não vale para a Ilha que tanto amamos: em São Luís, nem o aeroporto é a saída.

[Vias de Fato, abril/2011]

Dose dupla

Aliás, tripla: o duo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, se encontra com o poeta Celso Borges, em São Paulo, conforme e-flyer abaixo.

Ano passado a trinca abiscoitou o troféu de melhor música no prêmio Universidade FM, com São Luís Havana, composição dos três, gravada no segundo disco do Criolina, com participação de CB. Uma viagem entre paisagens imagéticas e sonoras das cidades que batizam minha faixa predileta de Cine Tropical.

Balaiada nas ondas do rádio

24 programas de 15 minutos são adaptação de histórias em quadrinhos. Magno Cruz é homenageado

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

Insurreição popular ocorrida no Maranhão no segundo quarto do século XIX, a Balaiada será lembrada pela radionovela Dom Cosme, o tutor da liberdade. O título alude a Negro Cosme, liderança do movimento, até hoje um herói lembrado, sobretudo pelo movimento negro do Maranhão.

A radionovela foi aprovada pelo Grêmio Recreativo e Cultural Libertos na Noite, em edital público da Associação Brasileira de Rádios Públicas (Arpub), de 2010. A citada entidade ludovicense organiza o bloco afro Netos de Nanã e é ponto de cultura – o Dagbá Dijó Emi: em liberdade, juntos pela vida.

Os 20 mil reais assegurados pela seleção no edital garantiram a pesquisa, produção e gravação dos 24 programas, de 15 minutos cada – seis horas no total, tempo previsto no instrumento público de seleção. O time envolvido na feitura da radionovela ainda busca apoio para realizar um lançamento oficial da mesma, em São Luís. Magno Cruz, militante histórico do movimento negro maranhense, será homenageado: todos os programas são dedicados a ele, falecido em agosto do ano passado, durante o desenvolvimento do projeto.

“Uma das revistas em quadrinhos que adaptamos era de autoria dele [Negro Cosme e a Guerra da Balaiada]. A ideia da radionovela foi dele, que procurou a mim e a[o ator] Lauande Aires ainda em 2001. Na época havíamos acabado de fundar a Rádio Conquista FM [comunitária, sediada no bairro do Coroado]. O projeto à época acabou não vingando, só sendo retomado com o lançamento do Prêmio Roquete Pinto, em 2010”, explica a atriz e gestora cultural Elizandra Rocha, diretora-geral do projeto.


Balaiada: A Guerra do Maranhão. Capa. Reprodução

A outra revista adaptada para o rádio foi Balaiada: A Guerra do Maranhão, de Iramir Araújo, Ronilson Freire e Beto Nicácio. “Foi uma opção consciente, embora a literatura sobre o assunto seja escassa. As HQs retratam o movimento sob a ótica dos revolucionários, os líderes da Balaiada: Negro Cosme, Cara-Preta, Balaio, entre outros. Nas bibliotecas, o que encontramos sobre o assunto em geral trata estes herois como sanguinários desordeiros”, continua.

O elenco de Dom Cosme mescla nomes bastante conhecidos do teatro maranhense a talentos promissores: Urias de Oliveira e Gigi Moreira somam-se a Lauande Aires [diretor de elenco] e Neto de Nanã. Os dois últimos dividem a direção musical. Para Elizandra, “foi uma experiência muito interessante juntar saberes e fazeres tão distintos. Fazer rádio é estimulante. É um veículo de comunicação que ainda exerce muito fascínio nas pessoas. A dramaturgia em rádio exige muito talento e dedicação dos atores, já que toda a interpretação está na voz”.

A Arpub já disponibilizou todos os programas contemplados para audição e download em seu site. Os programas podem ser baixados por instituições que não tenham fins lucrativos, mediante cadastro no site. Os programas serão distribuídos a rádios públicas e educativas brasileiras, filiadas à associação.

No Maranhão Dom Cosme irá ao ar pelas ondas da Rádio Universidade FM, dentro do programa Santo de Casa, transmitido de segunda à sexta-feira, às 11h, dedicado à produção musical maranhense – até o fechamento da matéria, ainda não estava confirmada a data de início da veiculação, nem sua periodicidade.

Magno Cruz, o homenageado, era um aficionado por rádio. Apresentava um programa na Conquista FM e era ouvinte assíduo do Chorinhos e Chorões, dominical apresentado por Ricarte Almeida Santos, dedicado ao mais brasileiro dos gêneros musicais, como o nome já entrega. “Era costumeiro receber suas ligações nas manhãs de domingo. Às vezes para pedir maiores informações sobre determinado disco ou artista tocado. Às vezes simplesmente para um elogio sincero. Era um ouvinte fiel. Não há melhor meio para homenageá-lo que pela via do rádio, acertada escolha”, comentou o apresentador, vibrando ao saber, pela reportagem de O Imparcial, de Dom Cosme, o tutor da liberdade.

[O Imparcial, 3/5/2011]

Cineclubismo à ludovicense

Apreciadores da sétima arte juntam-se em bandos para fugir à ditadura do padrão hollywoodiano

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL


Reprodução. CosacNaify

A cinefilia surgiu na França em meados da década de 1950 – prima temporal, portanto, do rock’n roll que nascia, à época, nos Estados Unidos. Seus adeptos, os “mordidos por cinema”, elegiam seus cineastas prediletos, a quem defendiam com ardor. Lançado no Brasil no posfácio do ano passado, Cinefilia [CosacNaify, 464 p., R$ 82,00], de Antoine de Baecque, conta um pouco da história da paixão francesa que lhe empresta o título, valendo-se de vasta pesquisa, sobretudo em arquivos pessoais – François Truffaut e André Bazin, entre outros – e nos Cahiers du Cinéma, a mais conhecida revista sobre cinema em todos os tempos.

De cinefilia vem “cinéfilo”, o “viciado” em cinema, por excelência. Em São Luís, “única capital brasileira fundada pelos franceses”, como reza a lenda e apregoa(va) um apresentador de TV, ainda se encontram, resistem, assistem, debatem, apaixonam-se. Mas não são apenas as mais de cinco décadas de “fundação” da cinefilia até os dias atuais, o clima, ou mesmo um oceano que tornam diferente a prática, hoje em dia, na capital maranhense.

Se no nascedouro cinquentista da prática brotaram publicações para sempre lembradas, com a crítica de cinema alçada ao status de arte, a atividade cineclubista em São Luís é uma válvula de escape: a crítica cinematográfica – como de resto a crítica de quaisquer das artes – quase inexiste por aqui e grupos de amigos se reúnem para furar o cerco imposto pela maioria absoluta das poucas salas de cinema da Ilha, em geral voltadas tão-somente à produção hollywoodiana.

Cumprem seu papel, mas ainda assim, são poucos os cineclubes em atividade por aqui. O Cineclube Laborarte, ou Cine Labô, como é mais conhecido, tem sessões ordinárias aos sábados, mostrando, principalmente, documentários sobre música, artes e cultura popular em geral, pinçados dos pacotes da Programadora Brasil, “central de acesso ao cinema brasileiro”, como se apresenta no site, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. O Cine Labô funciona na sede do Laboratório de Expressões Artísticas, o Laborarte [Rua Jansen Müller, 42, Centro].

Em maio, a capital ganhará mais um cineclube: a Cinemateca Lume [Cobertura do Edifício Executive Center, Rua Queóps, Renascença] abre suas portas dia 17, com capacidade de oito lugares. Ao contrário das outras, gratuitas, esta cobrará R$ 5,00 de ingresso. O cineasta Frederico Machado, diretor da Lume, que também administra o Cine Praia Grande, explica: “É uma taxa simbólica, para manter o espaço. Não há patrocinador nenhum bancando o espaço”.

A Lume é também a maior distribuidora de cinema autoral e independente do país. “Mas não exibiremos apenas filmes lançados e relançados pela Lume. Temos fechadas parcerias com a Cinemateca Francesa, Instituto Goethe, Fundação Japão, Centro Cultural Banco do Brasil e diversos outros centros culturais, cinematecas e consulados, além de diversas distribuidoras”, afirma Fred.

O Cine Praia Grande é, em São Luís, a única sala de cinema voltada à exibição de filmes de arte e fora do circuito comercial. Sobre a possibilidade de vir a abrigar um cineclube, ele arremata: “Dificilmente, pelos próprios gastos com o espaço. A não ser que existisse um patrocinador forte que topasse a coisa”.

Outros cineclubes devem voltar à ativa em breve: articulam-se para isso o Calu, que deverá ocupar o Restaurante do Poeme-se [o misto de sebo, livraria e cybercafé que funciona na Rua João Gualberto, 52, Praia Grande], e o Cineclube Casarão 447, que em breve deve voltar a exibir filmes no MHAM [o Museu Histórico e Artístico do Maranhão, na Rua do Sol, 302, Centro].

O da Faculdade São Luís, coordenado pelo cineasta e professor universitário Francisco Colombo, está em fase de implementação. Já realizou eventos, cursos e oficinas e as primeiras sessões estão previstas ainda para maio. Acontecerão entre 18h e 19h, inicialmente com a exibição de curtas-metragens maranhenses: “Para não concorrer com as aulas”, explica o coordenador. O Cineclube São Luís já dispõe de sala equipada e já adquiriu pacotes da Programadora Brasil.

A central do MinC tem pacotes de filmes nacionais prontos para exibição em todo o país. O cadastro é simples, e os custos, baixos: o acervo adquirido passa a pertencer aos cineclubes, que podem funcionar em bares, padarias, escolas, faculdades, ONGs, entre outros estabelecimentos. Maiores informações podem ser obtidas na citada home-page, um bom caminho para quem se interessa por filmes, cinema e cineclubismo.

[O Imparcial, 2/5/2011]

O Imparcial, 85 anos

[O jornal O Imparcial completou ontem, 1º., 85 anos. A edição comemorativa apresentou a seus leitores um novo projeto gráfico-editorial. Abaixo, íntegra de entrevista que publiquei por lá]

O LEGADO DOS 400 ANOS

São Luís terá grande festa para seus 400 anos, mas não só: erradicação do analfabetismo e combate à pobreza estão entre as metas do comitê organizador.

ZEMA RIBEIRO

Doutor em Inteligência Artificial pelo Inria (França, 1995), o tunisiano Sofiane Labidi, 46, está no Maranhão há 17 anos. Aqui já exerceu diversos cargos públicos. Entre outros, foi Pró-Reitor de Pesquisa da Universidade Virtual do Maranhão (Univima) no Governo Jackson Lago (2007-2009). Em 2008 recebeu da Assembleia Legislativa o título de Cidadão Maranhense, e do Governo do Estado sua maior honraria, a medalha do Mérito Timbira, pelos relevantes serviços prestados à ciência do Maranhão.

Desde o ano passado Labidi é Coordenador Executivo do Programa São Luís 400 anos, que cuidará das ações programadas para a efeméride da fundação francesa da capital maranhense.

O Decreto Municipal 40.282, de 11 de agosto de 2010, criou o Conselho Gestor do programa, presidido pelo prefeito João Castelo (PSDB). Ele subdivide-se em três comitês: o Executivo, formado por nove secretarias municipais (Planejamento, Governo, Comunicação, Cultura, Turismo, Patrimônio Histórico, Obras e Serviços Públicos, Urbanismo e Habitação, e Desporto e Lazer); o Estratégico Organizador, formado por representantes dos governos federal e estadual, da Câmara Municipal e Assembleia Legislativa, Associação Comercial do Maranhão, Fiema, Sebrae, CDL, ICE, AML, São Luís Convention & Visitors Bureau e universidades; e o Consultivo, espécie de ouvidoria em que pessoas e instituições podem apresentar sugestões.

O Conselho foi empossado em março passado e aguarda a indicação de um representante do Governo do Estado para iniciar um calendário ordinário de reuniões, com vistas a programar as festividades e obras com que São Luís apagará com a brisa de seu mar suas 400 velinhas.

Em entrevista a O Imparcial, Sofiane Labidi explicou o que é o programa, como e por quem é composto e o que está sendo planejado para a grande festa.


Foto: Blogue do Itevaldo

O IMPARCIAL – O que é o Programa São Luís 400 anos?
SOFIANE LABIDI – Tudo começou com um decreto assinado pelo Dr. Castelo em agosto do ano passado, criando o Conselho Gestor, constituído por três comitês: o Comitê Executivo, formado por secretarias do município que têm ligação com o quarto centenário de São Luís; o Comitê Estratégico Organizador, para empoderar a sociedade civil organizada; a Prefeitura não quer preparar sozinha este grande programa, o aniversário da cidade, então este comitê tem representantes do Governo Federal, do Governo Estadual, Sebrae, Fiema, da Associação Comercial, do ICE, o Instituto de Cidadania Empresarial, universidades, então, vários órgãos envolvidos, e o Comitê Consultivo, para que mais entidades participem do processo, por que não dá para colocar muita gente no Comitê Estratégico Organizador. Todos aqueles que têm interesse em participar, podem estar nesse Comitê Consultivo. Tudo forma o Conselho Gestor, que é presidido pelo próprio Castelo, e tem como presidente de honra Dona Gardênia [Castelo, esposa do prefeito]. Iniciamos os trabalhos preparando uma programação para o aniversário da cidade, que se inicia no aniversário deste ano, em setembro, e vai até 31 de dezembro de 2012.

Qual o critério de seleção das entidades da sociedade civil que compõem o Comitê Estratégico Organizador? A representatividade. Quando se fala em Fiema, Sebrae, ICE, Governo do Estado, Governo Federal, universidades, são membros que têm que estar presentes, são fundamentais nesse trabalho. Não dá para colocar todo mundo nesse comitê, por isso foi criado o consultivo, para aqueles que gostariam de participar, de dar sua opinião, ideias. É o que a gente quer: ideias inovadoras, preparando a cidade para seu quarto centenário.

No Comitê Consultivo as entidades não têm acento, ele é uma espécie de ouvidoria… Exatamente.

Entre o Comitê Executivo e o Comitê Estratégico Organizador, são quantas entidades, instituições e organizações envolvidas? No Executivo são nove secretarias municipais que têm uma ligação direta com o aniversário. No Estratégico Organizador são 12 entidades do estado, município, Fiema, Sebrae e outros.

Que solenidades estão previstas? Já há algo programado para este um ano e três meses? Inicialmente fizemos uma consulta às secretarias municipais, por que elas têm seus projetos, seus planejamentos para 2012. E aqueles projetos mais interessantes, mais impactantes, mais estruturantes, e que têm ligação com o aniversário da cidade, a gente chancelou e entraram na programação dos 400 anos, embora a chancela final seja do Comitê Estratégico Organizador, que vai se reunir em breve. Há uma programação que vai ser discutida; outros projetos vão ser colocados, alguns devem ser retirados, dependendo da evolução das reuniões e das opiniões do Comitê Estratégico Organizador. São muitos projetos. Estamos trabalhando em cinco eixos e estamos numa fase de integração desses eixos com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, criados pela ONU, mas há vários eventos culturais, artísticos, religiosos, históricos, esportivos. São cerca de 60 eventos previstos, não há nada fechado, nada definido, estamos construindo. Mas há coisas bem adiantadas. Temos mais de 60 projetos de várias naturezas. Posso dizer que os carros-chefes do que a gente colocou nessa programação são o combate ao analfabetismo, o combate à pobreza e uma campanha de cidadania.

Quais os cinco eixos que estão sendo trabalhados? De eventos, educação, ciência e tecnologia, marketing e promoção da cidade, isso é importante para o turismo, para a divulgação de São Luís fora do estado e do país, desenvolvimento e meio ambiente, e infraestrutura. São Luís precisa melhorar muito sua infraestrutura. Cada eixo tem vários projetos, que a gente chama de produtos.

A programação cultural certamente será um dos pontos altos das comemorações. Quem e o quê constarão nessas solenidades, em se tratando de pontos da cidade, artistas, manifestações culturais? Como se dará a seleção? Alguns eventos já vêm acontecendo e vão continuar acontecendo, mas com um diferencial. O carnaval, o São João, as festas natalinas vão ter um gosto de aniversário da cidade. A Fundação Municipal de Cultura está tentando que as escolas de samba enfoquem o tema São Luís 400 anos. Inclusive estamos em negociação com escolas de samba, tipo a Beija Flor, no caso do Rio de Janeiro, e São Paulo, para adentrarem o tema dos 400 anos de São Luís em seus carnavais, como forma de promover a cidade. Além desses projetos e ideias que se colocaram, teremos o lançamento de um edital que vai chamar para projetos de eventos culturais. Os artistas plásticos, os músicos, a área do teatro, entre outras, poderão acessar esse edital e os classificados receberão apoio financeiro para desenvolver seus projetos durante o ano de 2012.

Para além das festividades, que são uma coisa natural do período, o que o programa prevê, em se tratando de fomento, do ponto de vista de deixar um legado para a cidade? Não adianta fazer muita festa e no final nos perguntarmos: em quê a gente melhorou a cidade? O que deixamos para nossos filhos? O povo maranhense é festeiro, tem que ter festa, mas não pode ser apenas isso. Além do monumento dos 400 anos, quando lembramos São Paulo com o Ibirapuera, uma construção fantástica que hoje é uma referência, estamos pensando em algo para cá, um monumento que seja uma marca, que as pessoas possam subir, tirar fotos. Além do monumento estamos pensando em projetos estruturantes, que tenham um impacto na estrutura e na sociedade ludovicenses. Por isso pensamos em dois projetos: o combate ao analfabetismo e o combate à pobreza. Isso mexe com as pessoas. É inconcebível que em pleno século XXI ainda existam analfabetos. Numa capital como São Luís, patrimônio cultural da humanidade, nós temos mais de 50 mil analfabetos. Isso é absurdo! Existem vários programas de combate ao analfabetismo, de alfabetização, mas a gente precisa de um esforço arrojado, de uma força-tarefa. Fizemos um projeto, que está em fase de captação de recursos. É possível se acabar com o analfabetismo. Este será um dos melhores presentes para São Luís, no seu aniversário de quarto centenário: uma declaração da ONU, da Unesco, São Luís uma cidade, um território livre do analfabetismo. Temos cerca de 5% da população analfabeta. A Unesco considera território livre do analfabetismo até 4%. Precisamos baixar 1%, mas não queremos parar aí, queremos chegar à zero. O outro grande projeto é o combate à pobreza, como foi demonstrado, na experiência internacional, pelo professor Muhhamad Yunus, em Bangladesh, que ganhou o Nobel da Paz em 2006. Ele está sendo convidado a vir à São Luís. Sua vinda será um marco, a capital maranhense nunca recebeu um Nobel e esta não será uma vinda apenas para uma palestra, visitar os bairros, Itaqui-Bacanga, Cidade Operária, Cidade Olímpica. Estamos trabalhando na criação do chamado Banco do Povo, que é a experiência que deu certo em Bangladesh. Este professor tirou muita gente da pobreza. Graças a um fundo que ele criou, depositado em um banco, que já existe em toda a América do Sul, exceto no Brasil. A ideia é dar microcrédito às pessoas mais pobres. Às vezes o microcrédito permite a um cidadão, a uma família, ter sustentabilidade, manter seu próprio negócio, pequeno, mas que ele precisa para comprar matéria-prima. Lá começa com 200 dólares, a pessoa gasta, presta contas, paga juros pequenos, e vai até 5 mil dólares. As pessoas realmente saíram da pobreza. O que a gente precisa é de um programa dessa natureza. O bolsa-família é importante, mas tem que ser acoplado a um projeto de geração de renda e este é um projeto de geração de renda. Interessante observar que 97% dos clientes do Muhhamad Yunus são mulheres. Demonstrou-se que mulheres têm mais sensibilidade, respeitam mais o recurso, pensam na família, nos filhos, no homem. Em São Luís estamos fazendo um mapeamento de que tipo de atividades vão ser apoiadas, por que não é só dar recurso, mas todo apoio, acompanhamento, assessoria, formar agentes de crédito. Existem programas do Banco do Brasil, do Banco do Nordeste, Crediamigo, entre outros. A filosofia do Muhhamad Yunus é que mesmo que as pessoas tenham restrição, por exemplo, SPC, Serasa, que o Banco Central proíbe a concessão de crédito, para eles é que precisa do crédito, para que saíam da pobreza e paguem suas dívidas. O terceiro grande projeto que a gente precisa muito é uma campanha de cidadania. Fiz diversas visitas a instituições, universidades, e surgiram ideias interessantes. Não adianta preparar grandes festas, grandes eventos, se o povo não está preparado. A gente percebe isso. A gente precisa cuidar mais de nossa cidade, não sujar, pensar a questão da poluição sonora, que incomoda muita gente. É uma campanha de solidariedade: as pessoas estão cada vez menos solidárias. Precisamos aproximar as pessoas, conciliar o cidadão com sua cidade. Para esta campanha a gente precisa do apoio da mídia, do jornal O Imparcial, das tevês. É uma campanha de cidadania, focando principalmente na limpeza, mas também em outros aspectos. Eu acho que é fundamental nos prepararmos para os 400 anos.

Como está o diálogo com o governo do Estado? Todos estão envolvidos nesse projeto comum, o quarto centenário de São Luís. O Governo do Estado tem assento no Comitê Estratégico Organizador, receberam ofício. Estamos esperando apenas a indicação do representante pela governadora Roseana Sarney. Acredito que vá ser Luis Fernando [Chefe da Casa Civil] ou [o secretário de Cultura Luiz Henrique de Nazaré] Bulcão. Já já iniciaremos nosso calendário ordinário de reuniões mensais.

Quando será a primeira? Logo. Acreditamos que ainda este mês. Estamos esperando apenas a definição do nome do representante do Governo do Estado.

Essas duas frentes, a erradicação do analfabetismo e o combate à pobreza, são bastante grandiosas. Qual o volume e a origem dos recursos envolvidos no programa São Luís 400 anos, de agora, com a instalação do comitê, até dezembro de 2012? Estamos fazendo esse levantamento agora. São cerca de 130 projetos que estão sendo cadastrados em uma ferramenta de gerenciamento, por que é quase impossível se monitorar e acompanhar isso manualmente, recursos, prazos etc. Existem as secretarias que já têm recursos alocados. Um grande evento de ciência e tecnologia, a [reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência] SBPC vai acontecer em São Luís em 2012. Teremos cerca de 22 mil pessoas envolvidas. Existe um recurso assegurado pelo Governo Federal, com apoio da Prefeitura e da própria Universidade. A programação dos 400 anos não é apenas da Prefeitura, o Governo do Estado também se colocará para que tenhamos uma programação para todos os ludovicenses. Para a erradicação do analfabetismo e combate à pobreza precisaremos de cerca de 30 milhões de reais, que já estamos buscando captar. Já há sinais positivos de conseguir estes recursos.

São Luís já foi tida como Atenas brasileira. Como fica a produção literária no contexto desse programa? Já há alguma coisa prevista ou ainda vai ser discutido? Teremos muitos concursos para incentivar a produção cultural. Temos muitos artistas e nos últimos anos, infelizmente, o foco ficou apenas no carnaval e São João. Quando se fala em cultura, em São Luís, no Maranhão, a gente pensa muito em carnaval e São João. Claro que é muito bonito, importante, mas a questão de nossa cultura é bem mais rica que apenas estes dois períodos. A literatura maranhense é bastante conhecida e forte, a poesia, o teatro, as artes plásticas precisam de incentivo. Vários concursos serão lançados para incentivar a produção cultural com foco no São Luís 400 anos. Estamos até pensando em produzir livros como 400 olhares sobre São Luís, a história de São Luís através do tempo, então, estamos buscando incentivar, através desses concursos e editais que serão lançados, a produção cultural, enfocando a história de São Luís e sua riqueza cultural, artística, turística.

De Atenas, com o advento do reggae a cidade passou a ter também a alcunha de Jamaica brasileira. Como você reagiria aos que enxergam São Luís, hoje, como apenas brasileira? Eu não concordo com isso. Uma das belezas de São Luís é essa riqueza cultural que ela tem e outras cidades não. É algo encantador. É muito bonito o reggae, que tem raízes jamaicanas. Tem músicas de raízes africanas, indígenas, europeias. Essa diversidade cultural que São Luís tem faz sua beleza. Uma das coisas mais belas que a gente tem é essa miscigenação cultural, essa riqueza cultural.

Terças poéticas


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O poeta Celso Borges estará amanhã (3) em Belo Horizonte/MG, no projeto Terças poéticas. O maranhense participará de homenagem a John Cage. Mais aqui.

Dia 10, com Otávio Rodrigues e Zeca Baleiro, Celso Borges apresenta ao vivo o Biotônico, com transmissão pela Rádio Uol. O programa comemorará um ano d”o seu programa de rádio na rede”.