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De obituários

São ridículos os obituários do apresentador Jairzinho da Silva, morto na última sexta-feira (4), vítima de um ataque cardíaco. Das três, uma: ou o homem não tinha qualidades que merecessem registro e/ou destaque ou ninguém o conhecia e/ou admirava tanto a ponto de realizar um belo texto. Ou simplesmente a incompetência para a redação de um obituário decente reflete o atual cenário jornalístico do Maranhão.

Como sempre por aqui, optou-se pela santificação que faria corar o próprio defunto, se isto fosse possível. Na Sarneylândia a morte apaga quaisquer defeitos, basta lembrar do recente caso Décio Sá. Ou, antes, de Walter Rodrigues, para nos determos a jornalistas.

De uma hora para outra, baboseiras como “excelente vereador por três mandatos” e “referência na Comunicação do Maranhão” surgiram em textos paupérrimos, incluindo notas de pesar da Câmara Municipal e do Governo do Maranhão. Uns ainda lembraram sua condição de vice-prefeito quando a municipalidade foi comandada por Gardênia Gonçalves, esposa de João Castelo, recém-destituído. O tucano fez de tudo para superá-la em má-gestão, andando perto de conseguir, mas o título permanece com ela. Esse mês de atraso no salário dos barnabés é fichinha perto do que aprontou a ex-primeira dama quando prefeita. É claro que há aí, não neguemos, um quê de elegância e dignidade, de não dar conotação política à morte, muito embora o próprio Jairzinho, em vida, não tenha se preocupado muito com isso.

O apresentador era engraçado (para quem gostava), dizia alguns bordões, criou um boneco e a gíria “migué”, o nome do boneco, sinônimo de enrolação, golpe, hoje incorporada no “maranhês” que se fala por aqui. E só.

Imparcialidade jornalística não existe. Uma notícia sempre será a interpretação de um fato, um ponto de vista sobre determinado fato, nunca o fato em si. O problema é quando a “opinião” emitida por um jornalista não se resume às suas convicções e à interpretação do mesmo sobre determinado fato. Quando entram outros interesses, em geral escusos, no jogo, o que, infelizmente, movimenta a maior parte de nossa mídia, da tevê à blogosfera, passando por rádios e jornais, não sem um grau de irresponsabilidade.

Para ilustrar, lembro um recente episódio “dois em um”: o nome do cantor e compositor Zeca Baleiro foi proposto pela classe artística para assumir a presidência da Fundação Municipal de Cultura de São Luís na gestão de Edivaldo Holanda Jr., antes, é claro, deste assumir a prefeitura. Sabedor da repercussão da campanha sobretudo em redes sociais e do endosso de diversos artistas, Jairzinho não poupou preconceito ao supostamente alertar o então futuro prefeito de que se o mesmo fosse atrás de artistas, “a turma do fumacê”, estes iriam “queimar” o dinheiro do povo, numa clara alusão à tão maranhense diamba (maconha, traduzindo para os poucos mas fieis leitores de fora).

Depois, por isso chamo de episódio dois em um, Jairzinho chegou a afirmar em seu O povo com a palavra, programa que apresentou na TV Guará até falecer, que a gravação de Milhões de uns, disco de estreia de Joãozinho Ribeiro, em show ao vivo no Teatro Arthur Azevedo em novembro passado, seria um ato pró-Zeca Baleiro na Fundação Municipal de Cultura. E mais: que eles e Chico César integravam uma “esquadrilha da fumaça”, que tinham no repertório uma música chamada Mato verde (na verdade é Erva santa, de Joãozinho Ribeiro, já gravada por nomes como Papete e Fauzy Beidoun), e que os três estariam se juntando para exportar a boa maconha do Maranhão.

Este é apenas um pequeno exemplo do jornalismo cometido por Jairzinho, mas infelizmente não apenas por ele, para tentar esclarecer um pouco as coisas num ambiente de falsas lágrimas e elogios baratos.

Jairzinho, requiescat in pace.

Música e poesia em duas noites memoráveis

Joãozinho Ribeiro, "o gregário"

Joãozinho Ribeiro, “o gregário”

ZEMA RIBEIRO

Joãozinho Ribeiro adiou por muito tempo a gravação de seu disco de estreia, que reunirá pequena parte de sua significativa obra, fruto de mais de 30 anos de carreira, contados aqui a partir de sua participação em um festival de música universitária na capital maranhense em que nasceu em 1955.

Ocupou-se de outras missões, não menos nobres, tendo estudado engenharia e economia, sem concluir, formando-se bacharel em Direito. À época do citado festival era liderança ativa nos movimentos da greve da meia passagem e contra a ditadura militar então vigente. Hoje, ajuda a formar novos bacharéis, dividindo com o ofício de professor universitário a existência de também funcionário público e, não menos importante, poeta e compositor.

Não por acaso Do ofício de viver e outros vícios é título de um segundo livro, a ser lançado sabe-se lá quando, que as coisas com Joãozinho não funcionam de modo tão planejado, exceção feita às ocasiões em que foi gestor público. João Batista Ribeiro Filho, seu nome de pia, já foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e secretário de estado da Cultura do Maranhão, além de ter sido coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, função que ocupou no MinC, quando Juca Ferreira era o ministro. Aquele título se somará ao livro-poema Paisagem feita de tempo que ele publicou em 2006, 21 anos depois de concluído.

Milhões de uns, o disco de estreia, toma emprestado o título de sua música talvez mais conhecida, imortalizada na voz de Célia Maria, que venceu o Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos. O disco foi gravado ao vivo nos últimos 27 e 28 de novembro, ao vivo, no Teatro Arthur Azevedo, em duas noites memoráveis. Noites de música, poesia, teatro, arte, encanto, beleza, vida, enfim.

Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro

Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro

Milhões de uns não é apenas um título de música. Ou de disco. É a mais perfeita tradução de Joãozinho Ribeiro, o “gregário”, como cravou Chico César, um de seus ilustres convidados, que presenteou o compositor e o público musicando-lhe um poema: Anonimato, que escrevera em homenagem ao vimarense João Situba, seu pai.

Só entre convidados e participações especiais estavam Alê Muniz, Célia Maria, Cesar Teixeira, Coral São João, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro, fora o o ator Domingos Tourinho, que apresentou belas intervenções poéticas durante os shows. Fora a superbanda arregimentada por Joãozinho Ribeiro para o par de noites que deixou a plateia pisando em nuvens: Arlindo Carvalho (percussão e direção artística), Celson Mendes (participação especial ao violão), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Barbosa (trompete), Josemar Ribeiro (percussionista convidado), Kleyjane Diniz (vocal), Luiz Jr. (violão, guitarra, viola, direção musical), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo), Wanderson Santos (percussão), Xororó (percussionista convidado) e Zezé Alves (flauta).

"Cantador que canta só canta mal acompanhado"

“Cantador que canta só canta mal acompanhado”

O público merece esse registro. Joãozinho, apesar de não ter disco gravado até hoje, é um de nossos mais gravados compositores, em vozes alheias. O próprio Joãozinho merecia – e se/nos devia – esse registro, como fez por merecer cada aplauso nestas noites memoráveis.

João foi ao fundo do baú. Ou melhor, do cofo. Milhões de uns botou na roda diversos gêneros musicais – choro, samba, bumba meu boi, tambor de crioula, blues, afoxé – feitos na solidão (nunca, que “cantador que canta só, canta mal acompanhado”, como ele mesmo canta) ou em parceria. Na primeira categoria estão Matraca matreira (interpretada por Chico Saldanha), Pegando fogo (por Rosa Reis), Amália, Erva santa (interpretada pelo autor com Chico César e Zeca Baleiro), Saracuramirá (interpretada pelo autor com Chico César), Saiba, rapaz (interpretada por Célia Maria), Esquina da Solidão (por Cesar Teixeira), Derradeiro trem (por Zeca Baleiro), Palavra (idem), Passamento, Terreiro de ninguém (por Josias Sobrinho) e Milhões de uns (que o autor cantou com o Coral São João). Na segunda, Samba do capiroto (parceria com Cesar Teixeira, que os dois cantaram juntos), Cidade minha (parceria com Marco Cruz, interpretada pelo Coral São João), Gaiola (parceria com Escrete, interpretada por Lena Machado), Rua Grande (parceria com Zezé Alves, idem), Tá chegando a hora (idem, que marcou o encerramento das noites, em que todos os convidados retornavam ao palco para cantá-la juntos) e Coisa de Deus (parceria com Betto Pereira), cuja interpretação arrebatadora de Milla Camões, programada para participar apenas do primeiro dia, fizesse a cantora voltar ao palco na noite seguinte, que protocolos e scripts não podem barrar sentimentos e/ou Joãozinho Ribeiro.

Há material para um cd duplo, no mínimo, e um dvd. A quem não foi, resta esperar. E a quem foi, também, torcer para poder reouvir/rever o quanto antes. Como já disse ao próprio “little John”, apelido carinhoso com que o tratamos alguns íntimos: o resultado não pode demorar (mais ainda) a ganhar estantes, coleções, cd-players, ouvidos, cabeças e corações.

Vias de Fato, dezembro/2012. Leia o texto que escrevi para o programa de Milhões de uns (distribuído aos espectadores por ocasião do espetáculo). Continuar lendo

Semana Joãozinho Ribeiro 5

PEQUENO DANADO, SIÔ!

POR JOSIAS SOBRINHO*

Já faz um tempão que conheço o João, Batista Ribeiro Filho.

Se bem que, talvez, desde sempre…

…. me alembro bem de um dia na casa de Óder, na companhia luxuosa de Paquinha e sua viola espertíssima, num domingo de feijoada regada a garrafões de sangue de boá, como diz Bertinho, meu querido bróder, quando lhe ouvi versos inquietos querendo galgar o mundo.

E não foi de outra forma.

… ou no Corre Beirada, de tão nobre memória, onde mambembes cruzávamos
a cidade, seja lá como fosse, carregados de arte e com vontades de ver o circo
pegando fogo,

…. e, tínhamos Paulinho bicho do mato, Omar tiro de misericórdia, Zezé rabo
de vaca e tais e tantos,

…. como bendiz Mestre Vieira, que nem é rasta, mas como quem sabe arrasta:
… a pedra rolou…

Rolou pra nós nas trincheiras que ao longo dos dias fomos incrustando em
nossas carnes, cheios de esperança de ter vez e dar voz ao fado, de silenciar o
enfado.

Ora, ora…

Pois sim, pois não! Alguns companheiros de viagem vão pouco a pouco se
tornando permanentes em nossas cruzadas, como Neymar, que nem Pelé ou o
Santo Ofício, ou a Sharon Stone, pela vida se rebobinando vão. Milhões de uns
raimundosgeraldosfranciscas um dia nos chegam iluminando caminhos,
derrubando porteiras; aquém nós, nos vamos segurando, à borda, dando tempo
ao tempo de dar pé, até podermos mergulhar profundamente ao mais longínquo
profundo, por âncoras seguras, seguros de nós.

O João que conheço é um desses cabras danados de grandes, cheios de olhos
perscrutando tudo, que tudo que vêem, que tudo sentem. Que o absoluto
pressentem e apoderados das coisas que acreditam, dão sentido e são
significados por uns milhões de unsoutros. Das amálias aos capirotos.
Amealhando parcerias a torto e a direito, as trilhas dos poetas são cheias de
revolteios e, belas como pindobas aos ventos de maio numas manhãs quaisquer
de uns barros vermelhos de um dia, iluminando tudo em volta como se a
totalidade coubesse no pio de um coroca ou no dorso de uma égua resoluta
pastando na calmaria de um vasto campo à beira do Aquirí.

Cheio de planos, não somente urbanos, acima de tudo humanos, meu querido
little John, as coisas de Deus lhe acompanham.

No espetáculo da vida, tu e tua trupe de bardos e bardas, esse cangaço da
gente a volta da mesa reunido, rapaziando o pão, e o vinho!!! reclama, esse terreiro de ninguém onde seu Ninga vende uma erva na santa esquina da solidão da palavra passamento, enquanto um derradeiro trem matraca matreiro sobre minha cidade, cidadela sitiada, na beira duma praia absurdamente voltada pro mar.

*O compositor Josias Sobrinho participa do show Milhões de uns na noite de hoje (27). Veja abaixo a programação das duas noites de espetáculo, sempre com início às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.

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1. Cidade Minha (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João
2. Coisas que Acredito (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
3. Estrela (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
4. Tire as Mãos do Meu Pandeiro (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
5. Terreiro de Ninguém (Joãozinho Ribeiro) – Josias Sobrinho
6. Pegando Fogo (Joãozinho Ribeiro) – Rosa Reis
7. Amália (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
8. Te Gruda no Meu Fofão (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
9. Gaiola (Joãozinho Ribeiro / Escrete) – Lena Machado
10. Planos Urbanos (Joãozinho Ribeiro / Alê Muniz) – Alê Muniz
11. Coisa de Deus (Joãozinho Ribeiro / Beto Pereira) – Milla Camões
12. Passamento (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
13. Palavra (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
14. Derradeiro Trem (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
15. Milhões de Uns (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro e Coral São João
16. Tá Chegando a Hora (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João + Todos

28

1. Cidade Minha (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João
2. Coisas que Acredito (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
3. Tire as Mãos do Meu Pandeiro (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
4. Matraca Matreira (Joãozinho Ribeiro) – Chico Saldanha
5. Pegando Fogo (Joãozinho Ribeiro) – Rosa Reis
6. Amália (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
7. Te Gruda no Meu Fofão (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
8. Azulejo (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
9. Saiba Rapaz (Joãozinho Ribeiro) – Célia Maria
10. Rua Grande (Joãozinho Ribeiro / Zezé Alves) – Lena Machado
11. Samba do Capiroto (Joãozinho Ribeiro / Cesar Teixeira) – Cesar Teixeira e
Joãozinho Ribeiro
12. Esquina da Solidão (Joãozinho Ribeiro) – Cesar Teixeira
13. Erva Santa (Joãozinho Ribeiro) – Chico César
14. Saracuramirá (Joãozinho Ribeiro) – Chico César
15. Passamento (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
16. Palavra (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
17. Derradeiro Trem (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
18. Milhões de Uns (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro e Coral São João
19. Tá Chegando a Hora (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João +
Todos

Semana Joãozinho Ribeiro 4

Ontem postei aqui um texto de Chico Saldanha em que ele comenta a emoção de participar de Milhões de uns, show que resultará no primeiro disco de Joãozinho Ribeiro. No texto, o autor de Itamirim bem define Zeca Baleiro: “esse maqueano, “chefe de torcida” dos compositores maranhenses”, ele, o filho de seu Tonico e dona Socorro, certamente um dos maiores entusiastas das noites de hoje e amanhã e do que nelas/delas (se) vi(ve)rá.

Abaixo, palavras de Zeca Baleiro sobre Joãozinho Ribeiro e Milhões de uns. Palavra, no singular, a propósito, é uma das peças da lavra do segundo que o primeiro cantará.

JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS

POR ZECA BALEIRO*

Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.

Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.

Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.

Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.

Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.

Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.

Saravá, João, meu poeta!

*O cantor e compositor Zeca Baleiro participa das duas noites de Milhões de uns, hoje (27) e amanhã (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo. Os ingressos custam R$ 50,00 e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro.

Semana Joãozinho Ribeiro 3

QUE SE ACENDAM OS FOGOS!

POR CHICO SALDANHA*

Lembro-me bem, noite de lua cheia, no Bar Coqueiro, ano de 1990, quando fui surpreendido pela musica de Joãozinho Ribeiro.

Identifiquei-me, de pronto, com a sua musicalidade, seu talento imenso e peculiar, com a sua versatilidade na arte de compor sem se prender a determinado tema ou ritmo.

Já naquela época eu poderia ter antecipado o célebre bordão: “quando é que tu vais gravar vinil?”

De lá prá cá, passaram-se duas décadas e Joãozinho calcou seu nome não só no campo da música e da poesia. Transitou com afincada coerência pela política e administração pública onde se destacou como único secretário de cultura a pensar e discutir os rumos da política cultural do Estado, com seriedade.

Mas, essa variedade e amplitude de seus interesses não me bastavam como admirador do seu trabalho musical. Queria que uma gama maior de pessoas conhecesse também sua obra. Queria ver aquele cofo de canções rodando mundo.

Afinal, a arte, fenômeno individual gerado por cada indivíduo é o mais coletivo dos fenômenos quando atinge toda a humanidade.

Mas, a história é a história e o artista teve que encarar.

Não é que o Capiroto, influenciado por esse maqueano, “chefe de torcida” dos compositores maranhenses, Zeca Baleiro, vai gravar não só CD, mas DVD, tudo em dose única. De quebra ainda me convida para colaborar na Matraca Matreira.

A minha participação no projeto Milhões de uns como artista, ao lado de tão queridos companheiros, me deixa muito feliz e é uma forma de reverenciar e agradecer a um dos maiores nomes da nossa música.

Que se acendam os fogos!

Salve Joãozinho!

*O compositor Chico Saldanha participará do show Milhões de uns, em que Joãozinho Ribeiro grava ao vivo seu disco de estreia. O espetáculo será apresentado em duas noites (27 e 28/11) no Teatro Arthur Azevedo, às 21h. Saldanha participa cantando a citada Matraca Matreira, quarta-feira.

Semana Joãozinho Ribeiro 2: o convite de Zeca Baleiro

Semana Joãozinho Ribeiro

O poeta e compositor Joãozinho Ribeiro grava ao vivo seu primeiro disco, Milhões de uns, em show homônimo que apresentará nas próximas terça (27) e quarta-feira (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.

Nas duas noites, o artista terá como convidados Alê Muniz, Coral São João, Célia Maria, Cesar Teixeira, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro.

Até o segundo dia de apresentação do artista e seus amigos de copo, alma, música e vida a Semana Joãozinho Ribeiro trará a este blogue diversas histórias, notícias, textos, imagens etc., deixando a galera por dentro da empreitada. Para inaugurá-la, texto que o último convidado listado escreveu em agosto passado sobre a iniciativa.

JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS
POR ZECA BALEIRO

Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.

Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.

Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.

Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.

Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.

Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.

Saravá, João, meu poeta!

“Prefiro continuar a ser um produtor de cultura que me tornar um gestor”

Baleiro em pose de “alto lá!”

Indagado pelo blogue sobre a campanha “Eu quero Zeca Baleiro Secretário de Cultura de São Luís”, que ganhou alguma repercussão no Facebook, assim manifestou-se o cantor e compositor maranhense, através de sua assessoria. Sábio Zeca!

Ao lado de diversos outros nomes, Baleiro participa nos próximos dias 27 e 28 de novembro, no Teatro Arthur Azevedo, do show Milhões de uns, de Joãozinho Ribeiro, quando este grava ao vivo o primeiro disco de sua carreira.

Que os anjos batuquem no céu para receber Michol literalmente à altura

Na Fonte do Ribeirão Michol fala, ladeada por brincantes de bloco tradicional em foto roubada do facebook de Letícia Cardoso

Um torpedo do amigo Joãozinho Ribeiro, ex-secretário de cultura do Estado do Maranhão, me alcança logo cedo, nem bem havia eu chegado ao trabalho. Dava conta do falecimento de Maria Michol Pinho de Carvalho, com quem tivemos a oportunidade de trabalhar.

Ela, ex-Superintendente de Cultura Popular do Maranhão, dirigente do Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, uma das casas de cultura do Maranhão ligadas à secretaria de Estado da Cultura. Era uma pessoa alegre e brincalhona, extremamente séria e zelosa com seus afazeres. Membro da Comissão Maranhense de Folclore, era uma apaixonada pelo que fazia.

Atuou ativamente no processo de inventário dos blocos tradicionais do Maranhão, que busca dar ao segmento status já obtido por outra manifestação cultural legitimamente nossa, o tambor de crioula. O processo está em tramitação no Ministério da Cultura, com as digitais de Michol.

“Melhor chefe que tive na vida! Michol foi essencial para que eu acreditasse em minha profissão, na minha escolha profissional. Além de chefe foi sempre uma incentivadora e, acima de tudo, amiga”, confessa-me Cris Ribeiro, jornalistamiga com quem também trabalhamos. Lembro que, à época em que chefiei a assessoria de comunicação da Secma, tentei “sequestrá-la” para integrar minha equipe. Pela amizade, companheirismo e confiança na saudosa Michol, Cris não deixaria a equipe do CCPDVF, apesar de não ser pequena também nossa amizade, carinho e respeito mútuos.

“Sem dúvidas a morte de Michol Carvalho é uma grande perda para todos os maranhenses, em especial os militantes da área cultural”, manifestou-se por e-mail o presidente da Fundação Municipal de Cultura Euclides Moreira Neto.

Também por e-mail o jornalista Joel Jacintho lamentou a perda: “Tive enorme prazer de trabalhar com Michol no inventário dos blocos tradicionais. Uma pessoa séria, incentivadora, humana e amiga, sem contar que levava a sério tudo o que envolvia a cultura. Com certeza uma grande perda”.

Professora do Departamento de Comunicação da UFMA, Letícia Cardoso criticou a cobertura da mídia local em relação ao falecimento da pesquisadora. “Os textos pobres de informações, quase idênticos (até a foto é a mesma!), não fazem jus à longa trajetória e à profunda dedicação da pesquisadora no campo da cultura popular maranhense. Eu cheguei a acompanhar alguns trabalhos de Michol, ela serviu de fonte para minha pesquisa de mestrado, tive alguns embates teóricos com ela em meu trabalho, mas reconheço que, a seu modo, desenvolveu um papel importantíssimo de luta pela legitimação e (re)conhecimento de diversas expressões culturais populares, como o Divino Espírito Santo, o Bumba meu boi, os rituais de Natal e mais recentemente os blocos carnavalescos. Os repórteres poderiam ter feito pelo menos uma breve pesquisa no currículo de Michol, não custava nada”, protestou em sua conta no Facebook.

Maria Michol faleceu na madrugada desta segunda-feira, em Fortaleza/CE, vítima de parada cardíaca. Tinha 62 anos. Seu corpo será velado na residência do percussionista Arlindo Carvalho, seu irmão, na Rua dos Afogados, Centro de São Luís, em frente à Padaria Santa Maria. Seu corpo está sendo velado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, na Rua do Egito, Centro de São Luís. O sepultamento será amanhã à tarde, no Cemitério do Gavião, na Madre Deus.

Shopping Brazil vai virar DVD

Show de hoje será gravado e imagens irão compor primeiro DVD de Cesar Teixeira, ainda sem data definida de lançamento

Durante o show Shopping Brazil, hoje (3), às 22h, no Trapiche, serão captadas pelo cineasta Frederico Machado imagens para compor o primeiro DVD de Cesar Teixeira. Trata-se, por mais este motivo, de uma apresentação histórica e imperdível.

Ainda sem data prevista de lançamento, anuncia-se um pacote de lançamentos do artista, incluindo DVD, disco novo e a reedição de Shopping Brazil (2004), seu único disco lançado até aqui e há muito esgotado.

Presente no disco, o compromisso do compositor com a defesa dos direitos humanos se fará presente no espetáculo de hoje: a música que lhe empresta o nome trata da questão ambiental, denunciando a situação vivida por quem habita e sobrevive em condições subumanas nos lixões do país. O público poderá doar lixo reciclado, cuja renda será revertida em favor das crianças atendidas pelo Centro Beneficente da Paróquia Nossa Senhora da Glória.

No repertório não faltarão músicas como Bandeira de Aço, Flor do Mal, Boi da Lua e Oração Latina, entre as mais conhecidas, além de inéditas. A apresentação contará com participações especiais do ator Auro Juriciê e do compositor Joãozinho Ribeiro.

Shopping Brazil, o show, tem patrocínio do Banco da Amazônia (BASA) e apoio da Fundação Municipal de Cultura (FUNC), Serviço Social do Comércio (SESC) e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SESC).

Adler São Luís no Papoético hoje (26)

Logo mais às 19h quem participa do Papoético é o compositor Adler São Luís. Ele lança o livro Substância rara (poemas, Linear B Gráfica e Editora, São Paulo, 2012) e faz show na ocasião, com participações especiais de  Ângela Gullar, Chico Saldanha,  Daffé, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Smith Junior e Uimar Cavalcante.

A apresentação será uma grande jam, um reencontro de amigos, aproveitando a passagem do artista pela cidade que lhe dá nome artístico — atualmente São Luís mora em São Paulo, onde está gravando disco novo, provisoriamente intitulado Repente de repente.

Debate-papo semanal articulado pelo poeta e jornalista Paulo Melo Sousa, o Papoético tem como palco o Restaurante Cantinho da Estrela (Rua do Giz, Praia Grande, em frente à Praça Valdelino Cécio). O couvert artístico para o show de Adler São Luís custa apenas R$ 5,00. A produção não informou o valor do livro.

Concurso – O Papoético está com inscrições abertas para seu concurso de fotopoesia. Mais informações na aba homônima neste blogue.

Haroldo Sabóia, este o povo apoia*

Gravei ontem minha declaração de apoio à candidatura de Haroldo Sabóia (PSol) à prefeitura de São Luís:

Outros depoimentos (Joãozinho Ribeiro, Lena Machado, Luis Antonio Câmara Pedrosa, Ricarte Almeida Santos, Wagner Cabral etc.) podem ser assistidos na página da coligação São Luís, o caminho é pela esquerda no Youtube.

*O título do post é lembrança de um jingle do passado, que permaneceu inédito.

Nossa miséria cultural (ou: acorda, serpente!)

[Do Vias de Fato de maio]

Pode haver luz no fim do túnel, será um trem vindo na direção oposta?, Nossa Senhora da Vitória, rogai por nós!

POR ZEMA RIBEIRO

Um texto revoltado da cantora Nathália Ferro, publicado primeiro em sua conta no Facebook e depois repercutido por alguns periódicos locais, ganhou certa repercussão, apontando diversos problemas por que passa nossa produção cultural, digo, da Ilha de São Luís do Maranhão e do estado como um todo.

Criticava o marasmo a que está relegada a cena artística na capital maranhense, cujo aniversário de 400 anos se avizinha e sobre o que nada foi feito – aquele relógio ridículo na cabeceira da ponte do São Francisco, não conta.

A cantora criticava a tudo e a todos – e suas críticas, claro, eram merecidas, tendo sido repercutidas e comentadas também pelo poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, ex-secretário de cultura do Estado do Maranhão, em sua coluna semanal no Jornal Pequeno.

Keyla Santana, atriz, também colocou a boca no trombone. Ela buscou o financiamento de uma peça em que atuava pela internet, num sistema de crowdfunding, financiamento coletivo já bastante utilizado no centro-sul do país, que aqui sequer engatinha, com razão: a iniciativa estatal aposta em mais do mesmo, a privada faz jus ao trocadilho. Como incentivar pessoas comuns, como este que escreve, o caro leitor, a cara leitora, a enfiar a mão no bolso e bancar o que quer que seja?

Diversos agentes culturais envolvidos com a feitura do projeto BR-135, capitaneado pelo casal Criolina, Alê Muniz e Luciana Simões, têm discutido propostas e possibilidades para que se avance no rumo da implementação de efetivas políticas públicas de cultura por estas plagas. Além de reuniões e debates, a galera está fazendo, se movimentando, mostrando nomes e coisas interessantes, misturando, experimentando. É daí e assim que pode surgir o novo.

Foi justamente o mote para o texto de Nathália Ferro: o pouco público presente às edições do BR-135, realizadas no Circo Cultural da Cidade, fruto inclusive, segundo ela, da desunião da classe artística local – alguns certamente mais preocupados com “meus projetos” e a procura por financiamentos (quase sempre estatais) para “meu próximo disco”, “meu próximo livro”, “minha próxima peça de teatro” ou mesmo para a inclusão de “meu show” no circuito junino.

O BR-135 tem a ideia de mostrar o que de novo a cena ilhéu tem produzido, numa demonstração de altruísmo digna de louvor: com o reconhecimento nacional que têm hoje, Alê Muniz e Luciana Simões sequer precisariam morar em São Luís. No entanto, preferem ficar, tentar fazer algo diferente e mostrar que é possível conquistar o país a partir da Ilha (sem qualquer daqueles adjetivos cuja maioria perdeu completamente o sentido).

Keyla Santana, pela internet, conseguiu algo próximo da metade dos três mil reais de que necessitava para botar seu bloco na rua, isto é, sua peça no palco de um teatro da capital, uma pequena temporada de dois dias. Para não perder o que alguns haviam investido, seu marido completou, do próprio bolso, a outra metade do valor restante.

Experiência bem sucedida de crowdfunding, fora da rede mundial de computadores, foi a realização do I Festival de Poesia do Papoético – Prêmio Maranhão Sobrinho, organizado pelo poeta e jornalista Paulo Melo Sousa. O Papoético, tertúlia semanal realizada no Bar Chico Discos, no centro da capital maranhense, é um espaço privilegiado para a discussão de assuntos relativos à arte e cultura, tendo aberto uma trincheira para os insatisfeitos com o status quo.

Paulão, como é mais conhecido seu mentor, levantou os fundos necessários à realização do festival principalmente entre os frequentadores habituais do debate-papo semanal, além de entre amigos, professores universitários e artistas em geral. O festival, cuja final será realizada dia 31 de maio no Teatro Alcione Nazaré, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, na Praia Grande, premiará em dinheiro os primeiros lugares em poema e interpretação e os segundos e terceiros lugares em cada categoria com livros, discos, revistas e outros produtos culturais, tudo arrecadado entre aqueles citados doadores e com a realização de rifas.

A organização solicitou ao Comitê Gestor dos 400 anos de São Luís, integrado por secretarias e órgãos públicos municipais e estaduais, apoio para a realização do festival, de orçamento modestíssimo. Sequer recebeu resposta, mostrando o desinteresse generalizado dos poderes públicos para qualquer iniciativa criativa que não parta de sua burocracia interna. O problema é que nada criativo parece vir dali. O festival recebeu mais de 100 inscrições de diversas cidades do Brasil e custou menos de 3 mil reais, com cortes em gorduras como material de divulgação (folders e cartazes), importantes em qualquer empreitada cultural.

Teimosos, os organizadores do Papoético já anunciam sua próxima invenção: um concurso de fotografia terá regulamento anunciado já em junho, com base no mesmo esquema. Dia 7, Chico Saldanha e Josias Sobrinho apresentam, no Chico Discos, o show DoBrado ResSonante, que estreou em Brasília/DF. Os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos antecipadamente no local. Toda a renda será revertida para a realização do concurso de fotografia.

O Estado – tanto faz ler prefeitura e/ou governo – é tímido e continua apostando apenas em grandes festas populares, quais sejam, os períodos carnavalesco e junino, salvo raríssimas exceções. É o que dá mídia, é, em tese, o que dá voto – sobretudo, embora pareça óbvio, em ano eleitoral.

Faltam cerca de 100 dias para o aniversário da cidade. Não se ouve falar ainda em programação ou, antes, em planejamento de quaisquer ações comemorativas. Mas não é por isso, ou não só por isso, que clamam os artistas revoltados, aqueles que não se satisfazem com o tilintar de umas poucas moedas nos pires, um tapinha nas costas, a logomarca de um órgão público em seu disco, livro ou programa, e, no fundo, um grande “cala a boca” em qualquer vírgula que se oponha às péssimas gestões que hoje têm o Maranhão e sua capital São Luís. E aqui o comentário não se restringe ao aspecto cultural.

O que estes artistas requerem, com propriedade, é a pulsação constante da Capital Americana da Cultura, é que ela faça jus ao título. Mais que um troféu, um papel, um certificado, um evento, São Luís e o Maranhão precisam deixar o passado e a teoria de lado. É preciso viver o presente e vivê-lo na prática: já não somos Athenas Brasileira – se é que um dia fomos – e mais que bumba meu boi e/ou tambor de crioula para turista ver, é preciso que nossos logradouros sejam ocupados por arte permanentemente. É capital da cultura ou não é?

São Luís e o Maranhão não estão as maravilhas anunciadas na televisão pelas gestões municipal e estadual. Na propaganda, tudo parece correr às mil maravilhas, de propaganda nossos gestores são bons – pudera, é preciso descarregar toneladas de maquiagem para ludibriar o povo e garantir a perpetuação dos grupos no poder. A realidade é outra e é esta que precisa ser enfrentada para que algo mude. Que não emudeçam os artistas que estão corajosamente tocando as feridas para curá-las. E que ao coro dos descontentes somem-se cada vez mais artistas. Ou não, que cultura é coisa de todos nós.

A nossa miséria cultural está exposta, fratura que carece de urgente cura. Só não sente nem vê quem não quer. Já é mais que hora dessa serpente acordar!

Arte pela arte

Longe do descompromisso: Chico Saldanha e Josias Sobrinho fazem show hoje, no Chico Discos, em prol da próxima empreitada do Papoético.

 

Chico Saldanha e Josias Sobrinho voltam a subir juntos em um palco hoje (7), acompanhados de Marcão (violão e cavaquinho), Mauro Travincas (contrabaixo) e Jeca Jecowisky (percussão). Depois de pouco mais de mês da estreia do show DoBrado ResSonante em Brasília/DF, o espetáculo poderá finalmente ser conferido pelos ludovicenses. Os artistas já haviam se apresentado juntos em São três léguas, outros bois e muito mais, de 1999, e Noel, Rosa secular, que teve edições em 2010 e 2011, ocasião em que homenagearam o Poeta da Vila ao lado de Cesar Teixeira e Joãozinho Ribeiro.

Na capital federal foram duas apresentações. Aqui não há anúncio, ao menos por enquanto, de um bis, embora o Chico Discos, bar que abrigará o show de hoje, comporte confortavelmente apenas cerca de 60 pessoas, plateia certamente menor do que merecem os autores de clássicos como Terra de Noel e Linha puída, Josias e Chico, respectivamente.

Mas a causa é boa: a ideia inicial era angariar fundos para o I Festival de Poesia do Papoético, que após muita ralação de Paulo Melo Sousa, o Paulão, seu idealizador, e do envolvimento de mais alguns teimosos e de doações de amigos e simpatizantes, conseguiu se pagar. DoBrado ResSonante, no entanto, continua sendo um show beneficente, em prol da arte: o valor arrecadado com os ingressos vendidos para a noite de hoje será revertido para a premiação do I Concurso de Fotopoesia do Papoético, cujo regulamento será publicado em breve (aqui neste blogue). A premiação deve acontecer em setembro, mês de comemoração dos controversos 400 anos de São Luís.

Sobrinho e Saldanha estão no cenário musical desde a década de 1970. O primeiro integrou a trupe do Laborarte, o segundo correu por fora, tendo ambos participado de festivais de música desde então. Ambos estrearam em disco na década seguinte, o primeiro no rastro do reconhecimento proporcionado pela gravação de Papete para quatro músicas suas no antológico Bandeira de aço [Discos Marcus Pereira, 1978] – De Cajari p’ra capital, Dente de ouro, Engenho de flores e Catirina –, o segundo fazendo de sua Itamirim clássico imediato e retumbante, na interpretação arrebatadora de Tião Carvalho em seu disco de estreia [Chico Saldanha, 1988].

Seus discos mais recentes são Dente de ouro (2005), de Josias, e Emaranhado (2007), de Saldanha. Ambos completamente autorais, o primeiro uma mescla de grandes sucessos e músicas inéditas, com participações especiais de César Nascimento, Papete, Lenita Pinheiro (sua esposa) e Zeca Baleiro; o segundo, quase completamente inédito, a exceção é Linha puída, gravada num arranjo diverso do bumba meu boi que é originalmente, com a participação de Lenita Pinheiro. Josias, ao lado de Gerude e Inaldo Bartolomeu, canta com Saldanha em É tudo verdade, onde este conta em versos a história de seu Mário Mentira, como era conhecido um morador da Rua de São Pantaleão de sua infância e adolescência. Zeca Baleiro, diretor musical em algumas faixas, canta na faixa-título, moderno boi de zabumba.

Algumas músicas de Dente de ouro e Emaranhado estão no repertório de DoBrado ResSonante, que se completa com músicas inéditas de Josias Sobrinho e Chico Saldanha, além de releituras de conterrâneos como Cesar Teixeira [Botequim] e Zeca Baleiro [Babylon], entre outros.

De Cajari p’ra Capital Federal

(OU: EMARANHADO EM BRASÍLIA)

Ali pelo final dos anos noventa, início dos zero zero, eu ‘tava começando na boemia e perdi o antológico São três léguas, outros bois e muito mais, show que reunia, no mesmo palco, o do Circo da Cidade, os compositores Chico Saldanha e Josias Sobrinho, cuja obra eu já conhecia.

Do segundo, sobretudo as quatro músicas incluídas em Bandeira de Aço (1978), clássico absoluto de Papete – De Cajari p’ra capital, Engenho de flores, Dente de ouro e Catirina; do primeiro, principalmente Itamirim, imortalizada em seu disco de estreia, Chico Saldanha (1988), por Tião Carvalho. A música, que quase fica de fora, fez tanto sucesso que Saldanha colocou a mesma faixa, de bônus, em Celebração (1998) – é de Morena de Itamirim, uma das faixas do disco, aliás, o verso-título do show.

Tempos depois eu assistiria a vários, muitos shows dos dois, separados, juntos ou em bandos, caso do premiado Noel, Rosa Secular, homenagem ao centenário de Noel Rosa que arrebatou o troféu de melhor show no Prêmio Universidade FM do ano passado, que além deles levava ao palco ainda Cesar Teixeira e Joãozinho Ribeiro, mais as participações especiais de Célia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro.

Com o título DoBrado ResSonante, Josias e Saldanha voltam a se encontrar, desta vez em Brasília/DF, acompanhados de Marcão (violão e cavaquinho), Mauro Travincas (contrabaixo) e Carlos Pial (percussão). O show acontece em dose dupla: amanhã (14), no Feitiço Mineiro (CLN 306, Bloco B, Lojas 45/51, (61) 3272-3032); quarta-feira (18), no Espaço Cultural Silvino Filho/ Nosso Mar (CLN 115 – Bloco B – lojas 3,77, (61) 3349-6556), sempre às 22h – no segundo show a dupla conta com a participação especial de Erasmo Dibell. A produção não informou o valor do ingresso, mas custe o que custar, vale a pena.

Dente de ouro (2005), de Josias, e Emaranhado (2007), de Saldanha, seus discos mais recentes, estarão à venda nos shows.