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Barulhinho Bom: palco de reencontros

Os músicos durante a turnê pelos CCBNBs

O guitarrista Chiquinho França esteve recentemente representando o Maranhão no VIII Festival da Música Instrumental, realizado nos Centros Culturais do Banco do Nordeste em Fortaleza e Juazeiro do Norte, no Ceará, e Sousa, na Paraíba.

Nas ocasiões, o músico tocou acompanhado de Luiz Jr. (violão) e Carlos Pial (percussão), este atualmente radicado em Brasília/DF.

O público ludovicense, que, se muito, só ficou sabendo das apresentações pelos jornais e redes sociais, terá a oportunidade de conferir uma única apresentação do trio, amanhã (16), às 21h, no Barulhinho Bom (Lagoa).

Sob o sugestivo título de Reencontro, o espetáculo terá, no repertório, clássicos do choro e da música brasileira e mundial, de compositores como Armandinho, Ernesto Nazareth, Vitorio Monte e Waldir Azevedo, para citar alguns.

Reencontro terá ainda participações especiais de Aquiles Andrade e Milla Camões. Os ingressos custam R$ 15,00 e podem ser adquiridos no local.

OUTRO REENCONTRO – Outro reencontro musical que acontece no palco do Barulhinho Bom é o do cantor e compositor Djalma Lúcio (que assina os desenhos deste e-flyer) com o DJ Franklin. Eles já tocaram juntos em 2010.

No show, que acontece sexta-feira (17), às 21h, Djalma Lúcio passeia pelo repertório de seu EP solo Conforme prometi no réveillon, mostra músicas inéditas e alguns covers afetivos, acompanhado de Rodrigo Smith (guitarra), Sandoval Filho (baixo) e Thierry Castelli (bateria).

DJ Franklin tira exclusivamente de vinis  samba, reggae, hip hop, drum’n bassmanguebeat e house: é a Radiola Muderna, que conquista mais e mais apreciadores a cada giro do vinil n’agulha. Os ingressos também custam R$ 15,00, à venda no local.

Gildomar Marinho fará show de encerramento do Salimp

Músico fará show autoral, passeando pelo repertório de Olho de Boi, Pedra de Cantaria e Tocantes, este último a ser lançado ainda em 2013

Aquarela da capa de Tocantes. Reprodução

Bancário de profissão. Músico de corpo, alma e vocação. Esta poderia ser uma boa definição – perdão da aliteração – para Gildomar Marinho, maranhense de Santa Inês que, por conta de um dos ofícios trocou o estado natal pelo Ceará onde atualmente finaliza seu terceiro disco, Tocantes (no soundcloud já integralmente disponível para audição e download), a ser lançado ainda em 2013.

O maranhense foi escolhido para encerrar com um show a programação do 11º. Salão do Livro de Imperatriz (Salimp), no próximo domingo (19). Gildomar Marinho (voz e violão) será acompanhado dos músicos Aziz (percussão) e Jr. Schubert (violino). Sua apresentação acontecerá na Arena Multicultural, às 21h, e como toda a programação do Salimp, tem entrada franca.

Gildomar Marinho fará um show autoral, mostrando músicas de seus três discos e inéditas. No repertório estarão músicas como Alegoria de saudade (de Olho de Boi, a estreia de 2009, que no disco contou com a participação da mineira Ceumar), Pedra de cantaria (faixa título do segundo disco, de 2010, parceria com o jornalista Zema Ribeiro) e Navegante (Erasmo Dibell), gravada por ele em Tocantes.

“Será uma honra voltar a cantar em Imperatriz, cidade na qual vim morar criança e onde aprendi meus primeiros acordes”, festejou o compositor, que conviveu, às margens do Rio Tocantins – homenageado por ele em música do primeiro disco –, com nomes consagrados da cena maranhense, entre os quais Carlinhos Veloz, Erasmo Dibell, Nando Cruz, Neném Bragança e Zeca Tocantins.

Tocantes, o disco que lança em breve, tem projeto gráfico ilustrado por aquarelas assinadas pelo músico, retratando manifestações da cultura local, a exemplo do bumba meu boi e tambor de crioula. O trabalho cita autores como Pablo Neruda (em Pé na estrada) e Fernando Pessoa (em Navegante).

“Como será também um momento de rever a família e os amigos, não descarto a possibilidade de algumas participações especiais no show”, revelou o músico, cujas filhas moram em Imperatriz. O elemento surpresa certamente também será um elemento da “diversidade cultural” que tematiza o Salimp. Diversidade não falta ao repertório de Gildomar Marinho.

[release que escrevi para o show que Gildomar Marinho apresenta domingo (19) no encerramento do Salimp]

Pontos de Luz marca retorno de Lena Machado aos palcos

[release que escrevi para o show da próxima sexta, 10]

Há quase um ano e meio sem apresentar um show solo, cantora mostrará, no Barulhinho Bom, repertório com algumas experimentações

Com dois discos na bagagem, Lena Machado está há quase ano e meio sem se apresentar em shows solo. Alguns fatores contribuíram para esse exílio temporário: o trabalho além da música, a conclusão do bacharelado em Comunicação, grau obtido ano passado, e as dificuldades de captação de recursos para realizar um show com a qualidade e o capricho que o público merece.

A cantora não reclama da ausência nem dá tom resignado à própria fala. “É uma ausência aparente, por que embora eu não tenha feito shows solo, apareci, aqui e ali, em participações especiais, em apresentações de amigos, a exemplo do Regional Tira-Teima e da gravação ao vivo do primeiro disco de Joãozinho Ribeiro, momento de grande emoção e aprendizado”, conta.

Pontos de Luz foi o nome escolhido pela cantora para seu novo espetáculo. “É o título de um poema do [médico, músico e ator] Marcelo Bianchinni. Ele postou no face[book], falando das “pessoas raras que amamos, que são pontos de luz na madrugada louca em que vivemos””, revela a cantora, conectada aos tempos modernos.

Público e banda certamente serão pontos e luz a iluminar a cantora, ela ponto de luz que iluminará os presentes com seu talento e graça. No show Lena Machado será acompanhada por João Simas (violão e guitarra), Rui Mário (acordeom e teclado), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Fofo (bateria). No repertório, obras de nomes como Adriana Calcanhotto, Batatinha, Bororó, Cartola, Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Flávia Wenceslau, Odibar, Paulo César Pinheiro, Paulo Diniz, Pedro Luís, Roque Ferreira, Suely Mesquita e Vanessa da Mata.

Poucos nomes se repetem ao longo dos 14 números pensados para o show. Uma coisa que Lena Machado não deixou durante a ausência nem nunca deixa de fazer é ouvir música. “A linha do repertório que adotei pro show é toda uma experimentação; as músicas estão entre o que tenho escutado neste período, coisas que gosto e que estava buscando a oportunidade de fazer, mas ao mesmo tempo não são canções que ficam longe daquilo que tenho feito. É música popular brasileira na sua diversidade, canções que nem sempre são executadas, por isso podem até soar como inéditas para alguns. Tem um pouquinho de tudo nessa história, mas é um show com uma pegada mais intimista, de quem tá retomando a produção musical e tá continuando um caminho. Como um alongamento depois de uma noite de sono”.

Em Pontos de Luz Lena Machado contará com as participações especiais de Chico Saldanha, Dicy Rocha e Tássia Campos. Antes e depois do show haverá discotecagem com Victor Hugo, do blogue Música Maranhense. O show acontece dia 10 de maio (sexta-feira), às 21h, no Barulhinho Bom (Lagoa). Os ingressos custam R$ 15,00. A produção é assinada por Tairo Lisboa.

‘Chorões’ comemoram a vitalidade do gênero genuinamente brasileiro

Pixinguinha e o Choro brasileiro confundem-se no imaginário popular. Não é à toa que o dia escolhido para homenagear esse gênero musical (23 de abril) é também o aniversário de Alfredo da Rocha Vianna Filho, que ficou conhecido como Pixinguinha, um dos maiores compositores, arranjadores e instrumentistas da Música Popular Brasileira.

Genuinamente brasileiro, o Choro é tocado – e apreciado – no país todo. Zema Ribeiro, jornalista e produtor do projeto Chorografia do Maranhão, costuma dizer que há sotaques diferentes no Choro tocado em cada lugar, fruto das influências das culturas locais.

“A formação instrumental pode variar, mas não é por conta da geografia. Nos primórdios do choro, fins do século 19, início do século 20, a formação dos Regionais (nome dado aos grupos que tocam choro) era quase invariável, ficando entre flauta, cavaquinho, pandeiro e violão. Depois, outros instrumentos se somaram, como o violão sete cordas, o bandolim, a sanfona, o clarinete, o piano e tantos outros. O piano, inclusive, está nas origens do Choro, mas sem integrar grupamentos”.

O produtor também conta que, hoje, com o interesse das novas gerações, o Chorinho, como é também chamado, renova-se, ganha sobrevida, tem o advento de instrumentistas mais novos no tocar e apreciadores mais jovens no ouvir. “Por isso que dizemos que o Choro é, além de gênero musical, uma maneira de tocar”, afirma.O SaraivaConteúdo conversou com músicos e especialistas de várias partes do país. Eles deram dicas bacanas para quem quer ouvir e saber mais sobre o Choro.

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Trecho inicial da matéria que a jornalista Maria Fernanda Moraes escreveu para o SaraivaConteúdo sobre o Dia Nacional do Choro, para a qual dei um depoimento. Texto completo aqui.

Em São Luís, o aniversário de Pixinguinha será lembrado na AABB: organizado pela Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, um show gratuito, a partir das 19h, reunirá diversos nomes da cena choro ludovicense, entre os quais o Instrumental Pixinguinha e o Regional Tira-Teima. Além do aniversariante do dia também será homenageado o flautista Serra de Almeida (que, na foto que ilustra este post, aparece sendo entrevistado para a série Chorografia do Maranhão por Ricarte Almeida Santos e este que vos tecla).

Greatest hits

Entre o Uemipase lotado às seis da tarde e a pista de dança à meia luz, rosto coladinho no rosto de quem se gosta, todo mundo, de algum modo, tem The Platters nalguma lembrança.

A trilha sonora de abertura desse post não me deixa mentir nem me exige dizer muito mais: o grupo vocal toca hoje (13), no Centro de Convenções Governador Pedro Neiva de Santana, a partir das 22h, com abertura do DJ Glaydson Botelho.

O que você já ouviu aí em cima e muito mais, no repertório. Os ingressos custam entre R$ 60,00 e 100,00.

Bota o teu, o palco da solidariedade

Dois meses após as chuvas terem varrido, ou melhor, lavado, ou pior, levado tudo o que tinham os moradores da Vila Apaco, por detrás da UEMA, nas imediações da Cidade Operária, estudantes universitários resolvem unir-se em um evento artístico solidário.

Sob o inspirado nome de Bota o teu, gíria local, artistas plásticos, músicos e humoristas ocuparão o palco do Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy) para arrecadar alimentos às vítimas das chuvas em nossa cidade.

O espetáculo multicultural acontecerá graças aos esforços próprios dos artistas e da produção envolvida. Os ingressos custam um quilo de alimentos não-perecíveis (quem quiser pode doar mais, exceto sal).

Entre as atrações estão confirmados os nomes dos artistas plásticos Felipe Figna, Rodrigo Hemilianenko e Kenny Oliveira; os músicos Zanto e Tiago Máci (da banda Saga dos Salientes); e o ator e humorista Jonatas Barbosa. Outros nomes devem se somar à empreitada até lá.

O uivo do poeta

Aldeia, minha faixa predileta de Parador, disco mais recente de Nosly, parceria dele com Celso Borges que, na gravação original, tem a participação de Zeca Baleiro, que produz a bolachinha.

CB, parceiro de ambos, soma-se a outro parceiro, Beto Ehongue, para seu primeiro espetáculo poético-musical de 2013.

Clássico do Pink Floyd completa 40 anos

“Eu não sei nem se foi ironia ou se por amor”, como cantaria outro grande de nossa música, resolveu batizá-lo, o espetáculo, White side of the moon, justo nos 40 anos do outro, o Dark side of the moon.

O show acontecerá 27 (noite de lua cheia), às 21h, no Chico Discos, e terá poemas da trilogia A posição da poesia é oposição, formada pelos livros-discos XXI, Música e Belle Epoque, além de quatro poemas inéditos. Além de CB (poemas, voz) e Beto Ehongue (laptop e trilhas eletrônicas), a apresentação contará com as participações especiais de João Simas (guitarra) e Luiz Cláudio (percussão).

A produção não informou o valor dos ingressos, à venda no local.

A Madre Deus na Praia Grande

Parceria é a palavra que melhor define a realização do primeiro videoclipe da cantora Lena Machado. Há tempos, desde que lançou Samba de Minha Aldeia, seu segundo disco, a artista buscava alguém que conseguisse captar a emoção que imprimiu nas gravações e a levasse para as telas. O cinegrafista Elson Paiva, abrindo uma produtora, buscava algo que lhe servisse de cartão de visitas. A escolha não poderia ser mais acertada.

Ambos trouxeram a Madre Deus para a Praia Grande, digo, emolduraram a beleza do samba Colher de Chá, de Patativa, com a da paisagem do Centro Histórico ludovicense.

“Juntamos a fome com a vontade de comer. A música de Patativa foi escolhida porque quis reverenciar a única mulher presente no elenco de compositores de meu disco, e aí foi fundamental o cenário do mercado da Praia Grande que é a casa da Patativa, com suas tiquiras, geleias de pimenta, artesanato, etc.”, explicou a cantora.

O videoclipe marca o desejo em Lena Machado de retomar o processo produtivo musical. Serve como aperitivo para um show que ela pretende apresentar na ilha até maio, o maior obstáculo até aqui justo o que não a impediu de presentear os fãs com o que os poucos mas fieis leitores conferem a seguir.

Club Cult em ritmo de Festejos

No geral, tenho gostado do que tenho visto no Club Cult: pautas interessantes, competência na abordagem dos temas, boa edição, um capricho que diferencia o caçula dos programas independentes da tevê maranhense de seus “pares” de horários comprados.

Em se mantendo o nível, desejo vida longa ao programa apresentado pela simpática e talentosa Letycia Oliveira.

Abaixo, matéria que a trupe fez sobre Festejos, par de shows de lançamento do disco homônimo, estreia de Alexandra Nicolas no mercado fonográfico. E que estreia!

Quem perdeu o programa na tevê [Guará, aos sábados, às 13h30min], pode revê-lo a seguir. Quem perdeu o show vai ter que se ligar nas datas da turnê nacional que a cantora anuncia e inicia em breve.

Festejos, o início de um duradouro voo

[Sobre Festejos, de Alexandra Nicolas, 7 e 8 de março de 2013, Teatro Arthur Azevedo]

A artista esbanjou talento, simpatia e sinceridade em Festejos

Na condição de assessor de comunicação, talvez o conflito de interesses pudesse me impedir, mas não podia deixar, ainda que tardiamente, de dizer algumas palavrinhas sobre Festejos, o par de shows com que a cantora Alexandra Nicolas lançou seu disco homônimo em São Luís, 7 e 8 de março passados.

Acompanhar o processo de dentro deixa-nos em posição privilegiada, mas não quero aqui simplesmente dizer as músicas que ela cantou e/ou seus autores, as mesmas do maravilhoso disco, que gravou no Rio de Janeiro, acompanhada de grandes mestres do choro brasileiro, interpretando 13 obras assinadas por Paulo César Pinheiro, sozinho ou em parceria – foi dica dele, aliás, o “gosto de quero mais” que ela deixou a quem assistiu a um ou aos dois dias de espetáculo.

Alexandra Nicolas protagonizou um espetáculo musical de alto nível, seja por sua própria qualidade artística, indiscutível – é uma de nossas grandes cantoras, embora estreie em disco apenas agora, após 20 anos de carreira, e daí? –, seja pela qualidade do repertório escolhido, seja pelos exímios instrumentistas escolhidos, seja por outros aspectos que contam: sonorização, cenário, luz. Tudo estava “na medida” para a plenitude da artista no palco. De emocionar!

Nada lhe faltava, nada lhe sobrava, embora a artista não seja um robô de gestos meramente ensaiados. Contradigo-me: sobrava-lhe sinceridade, aquela era a sua verdade, como bem disse em diversas entrevistas antes dos shows, por vezes justificando sua demora em estrear no mercado fonográfico.

Em arte não há isso de cedo ou tarde: podem existir momentos certos e errados. Alexandra Nicolas estreou em boa hora, presenteando o público sempre ávido de boa música com um repertório que valoriza as mulheres brasileiras, e em que, qual João do Vale, outro gênio de nossa composição, também canta sua terra.

Alexandra Nicolas veio parir Festejos em sua terra natal, mas feito ave cantadeira voará para sacudir a poeira de sua saia, noutros terreiros em que reinará soberana. Por que seu disco, repertório, talento e carreira terão vida longa, a começar pela turnê anunciada para breve, por diversas capitais brasileiras, terminando no Rio de Janeiro.

E isso é só o começo da festa, abram alas, como bem recomendou Paulinho, do alto de sua experiência, sabedoria e intimidade de compositor-padrinho.

Chorografia do Maranhão: Serra de Almeida

[Primeira entrevista da série Chorografia do Maranhão, publicada em O Imparcial, 3/3/2013]

O flautista Serrinha inaugura série de entrevistas com grandes instrumentistas do Choro maranhense. Chorografia do Maranhão será publicada quinzenalmente aos domingos em O Imparcial.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Mais conhecido pela alcunha de Serrinha, Serra de Almeida é um senhor tranquilo e elegante. Naquela tarde quente, típica de São Luís, estava mais à vontade, de bermuda, camisa e boné. E flauta em punho, tocada em alguns momentos do bate-papo, a ilustrar musicalmente a conversa, acontecida no bar e restaurante Cumidinha de Buteko (Cohajap, São Luís/MA). Sua imagem, uma espécie de Copinha timbira, contrastava o senhor de camisa e calça sociais, sempre muito bem alinhadas, quando de apresentações em espaços como a Serenata Caixa Alta, o Clube do Choro Recebe e as mais recentes rodas com o Regional Tira-Teima que têm ocupado as sextas-feiras do Hotel Brisa Mar.

Aos 76 anos, diz ser um velho sem muito tempo dedicado ao choro – para ele a música maior. Isso apenas para explicar que passou a maior parte da vida trabalhando com petróleo. Mas só no Tira-Teima já está há quase um quarto de século.

José Serra de Almeida nasceu em São Bernardo/MA, em 13 de novembro de 1936, filho de Francisco Coutinho de Almeida, comerciante que chegou a prefeito do município, flautista diletante, e da dona de casa Maria Magnólia Serra de Almeida. Ainda na infância o menino se apaixonou pela música. A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Fale um pouco de suas experiências profissionais, além da música, com o petróleo e hoje trabalhando em cartório. Nesses 70 e poucos anos que eu tenho, já fiz muita coisa. Mas o trabalho que eu perdurei mais na vida foi quando eu fui petroleiro, petrolista, não sei como é que chama. Eu era auxiliar técnico de petróleo. A empresa investiu muito em mim, fiz vários cursos de petróleo: refinaria, terminal. Houve uma época em que eu passava muito tempo naqueles navios.

Você trabalhava no Maranhão? Não. Eu trabalhei na Bahia, todo esse tempo. 21 anos. De fevereiro de 1960 até 1980. Voltei novamente ao Maranhão, aí saí da empresa. Eu digo 21 anos, mas incompletos.

E quando o senhor saiu do ramo do petróleo, foi fazer o quê? Vim pra cá, fui ser comerciante, comércio de madeira, exploração de madeira, aqui em São Luís. A maior burrice que já fiz. Peguei um ramo errado na minha vida. Foi onde eu gastei quase tudo o que eu ganhei na minha vida, lá na Bahia. Terminei indo à falência. Aquela recessão de 1983, 84, eu comprei uma serraria ali no Anil. A maior serraria de São Luís era a minha, mas eu não tinha experiência. Passei a vida toda trabalhando na Petrobrás, cheguei aqui, fui me meter nisso, arranjei um sócio quebrado, meu irmão, o mais novo, que me induziu a esse tipo de coisa. Sempre muito humilde, eu aceitava tudo aquilo. Nunca tive a impressão que aquilo estivesse errado, sempre tocava pra frente, pagava tudo à vista, pagava os impostos rigorosamente como manda a lei, tinha empregados além do que precisava. Se eu precisava de oito, eu tinha 16. Tinha um caminhão trucado que eu puxava tora do interior pra cá, pra serrar.

E hoje, está aposentado? Eu tive que me aposentar. Foi aí que eu comecei minha vida de novo. Essa flauta aqui [está com o instrumento nas mãos], que eu tocava muito fraco [tinha pouco conhecimento] nesse tempo, ainda, que me ajudou a manter inclusive meus filhos no colégio.

Você se tornou um flautista respeitado em São Luís. Teu pai era flautista. Além do teu pai, qual era o universo musical de tua cidade? Tu conviveste com bandas? Como era o universo musical na tua infância e adolescência? Isso aí sempre teve muita influência por que eu era apaixonado por música. O padre de lá, Padre Nestor, que mataram lá em São Bernardo, não sei se você soube dessa história, ele era formado em música e conseguia tudo pra lá, instrumentos, tudo. A banda tocava em festas, em cidades vizinhas. Lá, só tinha mais do que em São Bernardo, só em Brejo. Brejo sempre foi uma cidade muito musical, histórica. Teve uma época que teve o Pedro Ambrósio, um grande músico, nascido em São Luís, que era muito amigo desse padre.

Havia algum músico, além desse padre, do Pedro Ambrósio, que tu observava em São Bernardo e tinha admiração por ele? Tinha. Não só um, mas vários. Tinha Chico Vaz, que tocava clarinete, o Assis, que tocava trompete e trombone, o Elpídio tocava cavaquinho, o Péricles tocava violão. Essa turma toda, eu menino ainda, convivia com eles. Eles gostavam muito de mim, eu só andava pelo meio.

O fato de tu ter um pai flautista foi o que te levou pra flauta? Nunca teve vontade de aprender outro instrumento? Em parte foi. Em parte foi essa herança de meu pai. A flautinha dele era uma flautinha de ébano, de sete chaves.

E ele foi quem te deu as primeiras aulas? Não, pelo contrário. Eu depois que comprei uma flauta na Bahia, que eu trouxe uma flauta dessas, ainda dei umas aulas para ele [risos].

Tu tinha que idade? Eu já era coroa, já tinha mais de 40 anos.

Teus pais, então, nunca apoiaram, essa iniciativa de tocar? Meu pai nunca desapoiou. Pelo contrário, ele gostava demais disso. Agora, ele não tinha bagagem assim, pra me ensinar. Ele foi aluno desse padre, do maestro Pedro Ambrósio, e lia música. Melhor do que eu. Eu leio muito mal.

O rádio teve alguma influência? Muita! Eu gostava daqueles programas americanos, jazz, aquele Benny Goodman, eu era louco por aquele cara. Eu tenho um dvd em casa que a maior parte é com ele. É um tributo a Louis Armstrong que parece muito com aquela época. A Orquestra Tabajara. Severino Araújo saiu aqui da Paraíba muito novo, mas já formado.

Fora esses, quem são os músicos que te influenciaram, flautistas ou não, brasileiros ou não? Depois que eu comecei a tocar flauta, Altamiro Carrilho. Minha maior referência sempre foi Altamiro Carrilho. Onde eu via qualquer coisa dele eu comprava. Até hoje é assim. Tudo o que passa [na tevê] dele eu gravo. O bom humor dele. Eu tenho um programa que eu gravei já perto de ele morrer, em que ele começava a tocar [imita o som da flauta com a boca] Mozart, um arranjo que ele fez [toca o trecho de abertura na flauta]. Isso ele começou a tocar e no meio da música parece que faltou alguma coisa na memória. Aí ele botou a flauta assim [põe a flauta no colo] e “quiá, quiá, quiá” [imita], caiu na gargalhada [risos]. Aí ele voltou e começou a explicar que a paixão dele era Mozart.

E hoje tu estando aposentado e tendo mais tempo para te dedicar à música, dá para dizer que tu vive ou já viveu de música. Ou é só prazer? Como aposentado eu não tenho muito tempo para música. Já tive. Mas aí eu saturei e tive que arrumar algo para fazer, se não ia ficar estressado, ia adoecer. Há muito tempo vinham me oferecendo uma vaga no cartório, e eu resolvi pegar, já tinha trabalhado com isso. Ele [o proprietário] morreu e eu assumi um compromisso com a filha dele. Sobre a questão de me sustentar com música, isso só nessa época que te falei, que a flauta me ajudou. Eu tava quebrado mesmo. Mas eu, pela ajuda de Deus, eu tive muita sorte, e na Caixa Econômica [Associação do Pessoal da Caixa] tinha uma seresta [Serenata Caixa Alta], e quem fazia, não deu certo. Paulo Trabulsi, Sadi, esse pessoal, não deu certo. Aí eu entrei. Entrei e como eu sempre respeitei muito tudo aquilo que eu pego pra fazer, eu não gosto de falhar, eles não ligavam para nada e eu comecei a mostrar que eu tinha interesse pela coisa. Aí os diretores me chamaram. “Serra, você é que vai ser o chefe do grupo”. E eu digo, “mas rapaz, Paulo é meu amigo”. “Não senhor, é você quem é o chefe do grupo, ou então nada feito”. Me encostou na parede, né?

Como era o nome do grupo? Era Chão de Estrelas. Anos 80. Durante três anos aquilo ali foi dinheiro. Era organizado. Sempre vinham grupos de fora. Eu conheci muita gente boa. Dominguinhos, por exemplo. Sempre que chegava gente, me diziam: “toma conta desse cara”. Aí eu ia andar com Dominguinhos, com outros.

De que grupos musicais você já fez parte? Você disse ainda há pouco que já tocou com Agnaldo [Sete Cordas, lenda vida do instrumento em São Luís]. Agnaldo era do grupo lá da Caixa. Paulo, cavaquinho, Agnaldo, violão [não consegue lembrar de outros nomes]. Ivone cantava, muito boa, Paulo deve ter alguma coisa dela gravada…

Esse era o Chão de Estrelas. Antes, tu já tinha tocado em outro regional? Antes disso aí eu tocava com Paulo mesmo. Era eu, Paulo e Zé Carlos [percussão]. Era esse trio.

Tinha nome esse trio? Não. Era o Tira-Teima mesmo. Por que ele [o regional Tira-Teima] varia muito a formação. O único original que ainda está no grupo é Paulo.

De que grupo você participou por mais tempo? O Tira-Teima mesmo. Do Chão de Estrelas foram quatro anos. No Tira-Teima eu estou desde 89.

Qual a sua opinião sobre o Tira-Teima? O que você acha desse grupo? É muito cheio de caracol, é muito enrolado [risos]. Mas pra mim, não é por que eu participo do grupo não, mas pra mim ainda é um dos grupos que toca tudo. Tudo o que você pensar o Tira-Teima toca. É um grupo genuinamente de choro, o nosso forte é choro, mas se você quiser valsa, baião, música clássica, se toca. Esse que eu toquei agora é um clássico. De Mozart. Minueto do divertimento, o nome dele.

Além de instrumentista, você desenvolve outros tipos de habilidades na música? Compositor, arranjador… Eu me meto a tudo, a compor, a arranjar, a ler música, que eu não sei. Mas quando eu quero eu faço. Faço e escrevo. Paulo fica admirado: “rapaz, como é que tu escreveu isso?” Quando eu tinha tempo, né? Agora…

Tu tens quantos choros, quantas composições? Três. Dom Chiquinho, um choro amaxixado. Eu fiz um choro, e eles [os músicos do Regional Tira-Teima] mudaram. Zé Carlos, com a batida dele, terminou ficando um maxixe. Tem o Choro nobre, que é o segundo. E tem Chorinho embolado, um choro muito bonito [toca um trecho na flauta]. Por aí você já vê que é um choro bonito. Mas mais bonita é a terceira parte [toca novamente; e a pedido de Ricarte, um trecho de Dom Chiquinho]. Eu comecei a cismar com ele [o choro Dom Chiquinho] por que quando eu fiz esse choro eu não conhecia um choro chamado Cheguei [de Pixinguinha], e a segunda parte dele tem muito disso aqui [toca um trecho de Cheguei]. Tem alguma coisa diferente, mas é quase todo igual. Parece demais! Mas eu nem conhecia esse choro. Depois que eu conheci, eu comecei a querer aleijar o Dom Chiquinho, mas já tinha pegado.

Serra, tu já participou da gravação de algum disco? Já. Tem um disco aí, Na palma da mão [verso de Uns e alguns, de Jorge Aragão, que dá título ao primeiro disco do grupo Serrinha & Companhia], que eu participei, no Tributo a Zé Hemetério [outra faixa do disco, de Gordo Elinaldo, executada pelo Regional Tira-Teima, em participação especial] e em Das cinzas à paixão [de Cesar Teixeira, cantada no disco por Zeca do Cavaco, membro do Tira-Teima; Serra de Almeida toca um trecho na flauta]. No cd de Anna Cláudia, num do Festival da Caixa na Paraíba, tem até uma música de Paulo [Trabulsi].

Quem são os compositores do Maranhão que tu mais admira? Da música em geral. Aqui do Maranhão Cesar Teixeira para mim é o melhor. Gosto muito de Ubiratan [Souza], também é um cara muito inteligente.

Na tua opinião, qual a importância do choro para a música brasileira? O choro é a única música brasileira, genuinamente brasileira. Se não fosse tão boa não era tão admirada lá fora. Não era invejada. Causa inveja em algumas partes do planeta. Alemanha, França, Espanha. E difícil! O choro é isso: ninguém consegue dominar com facilidade.

Tu acha que o choro, enquanto linguagem, influencia a música popular brasileira? Não deixa de influenciar. O samba, por exemplo.

Você tem acompanhado o desenvolvimento do choro no Brasil? Tem desenvolvido demais. Pelos contatos que tenho, alguns amigos, televisão, a gente vê. O [clarinetista brasiliense] Fernando Machado me conta muita coisa sobre a evolução do choro lá em Brasília, as novas gerações, todo mundo, os jovens entusiasmados tocando choro. Esse Dom Chiquinho ele levou a partitura. Depois esteve aqui e disse: “Serra, teu choro tá sendo tocado lá pelos garotos”.

Isso te alegra? Não deixa de me alegrar, né? Eu já tou mais pra lá do que pra cá e vou levar uma coisa que eu sei que agradou alguém.

Tu participou daquele show de Zé da Velha e Silvério Pontes [lançamento do cd Só Pixinguinha, da dupla, no Circo da Cidade, em 2006, produzido por Ricarte Almeida Santos, com participação de diversos nomes da cena local]. O que foi pra você dividir o palco com aquelas figuras nacionalmente reconhecidas? Foi um verdadeiro banho de orgulho, por estar tocando ali. Aquilo foi um orgulho pra mim. Esse orgulho que tenho não me diminui, não faz mal. Acho que sou capaz de fazer algo semelhante ao que eles fazem.

Eles disseram isso. Compararam com Copinha, que é um dos maiores. Isso também Turíbio Santos já me disse. “Rapaz, você até parece com o Copinha!” Apesar de eu não zelar como devia, pela desenvoltura ao instrumento. Se eu pegasse todo dia no instrumento, como músico tem que fazer.

Tu acha que o choro hoje é diferente de antigamente? Houve algumas modificações, mas em se tratando de choro, na essência, é a mesma coisa. Isso aí ninguém pode mudar.

Qual a tua avaliação do choro praticado no Maranhão hoje? Eu vejo muito pouca coisa. No Maranhão nós somos poucos. Destaque tem você [Ricarte], que é um homem que se dedica, tem que respeitar. Depois tem grupos como o nosso [o Regional Tira-Teima], o [Instrumental] Pixinguinha. Tem muita gente aí que toca choro, mas não é com a alma. Não é como nós, que tocamos e admiramos outras músicas, mas o choro é a principal.

Tu acha que falta, no Maranhão, um espaço de valorização da cultura do choro? Fora o programa de Ricarte [Chorinhos e Chorões, aos domingos, às 9h, na Rádio Universidade FM, 106,9MHz], o [projeto] Clube do Choro Recebe, que aconteceu no bar do Chico Canhoto. Eu acho. O negócio vai mudando muito devagar. Não é como em Brasília que a gente vê o entusiasmo. O Chico Canhoto foi importante, mas o vento levou. Aquilo deixou um resultado. A gente [o Regional Tira-Teima] tá tocando no Hotel Brisa Mar [Ponta d’Areia], toda sexta-feira, de sete e meia às 10 e meia da noite. O rádio tá divulgando, de vez em quando chega gente que era de lá [frequentadores do Chico Canhoto].

Quem são os maiores instrumentistas de choro no Maranhão hoje? Essa pergunta é um pouco difícil. Flauta, eu e João Neto. João Neto é um músico que toca choro. Eu sou chorão. Eu toco choro por prazer, não troco por nada, não desisto. João Neto não é um entusiasta do choro. A pessoa que eu admiro tocando choro aqui é Paulo Trabulsi. Ele é um entusiasta do choro. E não é por que seja meu colega, não.

O Tira-Teima é o mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão. O grupo não já devia ter um disco gravado? O que falta para isso? Sim. Isso é um descaso. Uma falta de responsabilidade nossa, até. Falta unificar o pensamento e o interesse do grupo. Eu nunca perdi o ânimo, continuo na esperança de a gente gravar um disco. Quando o negócio tá pra se encaminhar, todo mundo esquece. Não é falta de condição financeira, é falta de responsabilidade mesmo.

Tu arriscaria dar um chute sobre como estará a cena daqui a alguns anos? Eu faço votos de que a gente esteja muito melhor. Nomes novos estão surgindo, mas não é a essência do choro. Eles mudam as coisas. Outro dia eu ouvi o Luizinho [Sete Cordas, músico paulista] dizendo: “gente, vamos respeitar o choro! Vocês estão querendo colocar o carro adiante dos bois”. É isso mesmo!

Hoje tem o grande Magah no Chico Discos

Tenho um tio motorista de ambulância do SAMU. Em nosso encontro mais recente, embora eu não tenha dito isso a ele ou cantarolado com a boca (só com o pensamento), a música de Marcos Magah ficou me martelando o juízo: “mas quando eu cheguei no chão/ ninguém chamou o SAMU”.

Magah vai direto ao ponto. Acho que sua música tem tudo para acontecer fora do Maranhão embora o lance, ao menos para mim, é que, qual a literatura de Bruno Azevêdo, você se ouve dentro da música do cara. Você é parte da paisagem sonora. Não por acaso Z de Vingança, o disco, saiu pela Pitomba.

Aí ontem eu tava bebendo com DP e uma turma (era aniversário de mamãe), quando alguém falou em “centro da cidade”, no que eu emendei, sem muito pensar: “lá onde ela vende bugigangas”.

Se você não entendeu nada, só tem um jeito: ir lá no Chico hoje.

A música no traço de Máci

cartaz chico tairo

Logo mais às 20h, no Chico Discos, acontece a exposição Musicaricultura, do desenhista Tiago Máci, composta de 20 trabalhos retratando figuras da música, entre compositores e intérpretes. O autor dos desenhos também é músico e se somará a um grupo de amigos em pequenas apresentações durante a exposição.

Sobre Musicaricultura, Máci conversou com o blogue por e-mail.

Musicaricultura, o título de tua exposição, é bastante ousado e original, e dá uma ideia do que será a noite de hoje, soma e desfile de talentos. Como chegou a ele? O motivo do nome é que foi escolhido um tema pros caricaturados. Serão somente artistas, compositores, intérpretes, enfim, de música, além de existir musica de fundo tocada e cantada por jovens compositores daqui da ilha. São 20 caricaturas, dentre elas figuras de São Luís, nacionais e internacionais expostas de uma forma diferente, tentando agregar todo o espaço possível do Chico Discos como no isopor da cerveja, ímãs de geladeira, teto, janelas, banheiro.

O compositor Cesar Teixeira no traço de Máci

Você também é músico? Sim, também sou músico. A música chegou bem mais depois do desenho. Comecei a compor em rodas de amigos que também escrevem e aprendi bastante com eles. Posso dizer que foram muito importantes para o meu “amadurecimento” musical. Sou vocalista da banda Saga dos Salientes, em que fazemos rock, blues, country e funk. Mas além disso tenho alguns sambas de minha autoria, baladas e outras linguagens, outras ideias. Um outro lado que vou apresentar hoje, na noite da exposição.

A madredivina Patativa, por Máci

Quando começou a se interessar por desenho e artes em geral? Teus pais incentivaram? Quais as tuas influências? Comecei a me interessar com uns oito anos. Meu tio, Tatto Costa, cantor e compositor também da ilha) ainda tocava em barzinho e chegava em casa pra comer alguma coisa, não lembro direito, e eu e meus irmãos éramos muito atentados. Ele também desenhava muito e ocupava a gente com os desenhos. Um dia a professora pediu que fizesse um trabalho sobre meios de transporte e meu grupo ficou com o avião. Pedi então que meu tio desenhasse um avião lindão e assim fez. Levei pra sala de aula, mas falando que eu tinha feito [risos], ninguém acreditou e eu fiquei muito chateado. Não entendia por que achavam que eu não era capaz de fazer. E me convenci que poderia fazer. Daí comecei a copiar os desenhos que meu tio fazia, guardava, rasgava, colava, até que me vi ampliando desenhos tipo Pokémon, Digimon, mangá etc. A caricatura mesmo apareceu bem depois, por volta dos 15 anos. Meu professor de física me deu três pontos numa prova que eu tinha certeza que ia tirar quatro. Eu também fiquei muito chateado e por raiva desenhei o professor sacaneando muito! Nesse momento não tinha nenhuma ideia que um dia pudesse estar fazendo uma exposição com caricaturas de minha autoria. Entao eu passei o desenho pra sala toda. O professor viu. Todos os professores viram e curtiram. Então comecei a fazer todos os professores, desenhar a galera e trocar os desenhos por vale transporte, lanche. No começo acho que meus pais olhavam aquilo como uma coisa que ia passar, eu que dizia que ia ser advogado, mas com o tempo perceberam que dali poderia sair alguma coisa se existisse estudo, empenho e seriedade. Comecei a estudar, a ler mais sobre o assunto e a conhecer outros caricaturistas nacionais e internacionais, como o mineiro Gilmar Fraga, que conheci virtualmente e de quem tenho bastante influência no traço. Foi com ele que percebi que não era necessário eu fazer realmente toda a figura humana na caricatura. Poderia fazer só um olho, uma perna, não colocar um nariz. O importante é a expressão, o sentimento do desenho.

O que significa juntar os amigos músicos para canjas no ato da exposição? É lindo! Curto e respeito o trabalho de todos. Desde o intimismo de Sergio Muniz à graça poética de Paulo Linhares. É um prazer mesmo estar somando e fazendo música com eles.

Cesar Teixeira transborda poesia no vazio do Ceprama

[Sobre apresentação de Cesar Teixeira, ontem (3), no Ceprama]

“E o carnaval?” é pergunta que costumo ouvir e que tenho respondido com um “ainda não estou no clima do bumbumpaticumbumprugurundum”.

Depois de convidado para ir verouvir o Monobloco na Praça Deodoro, declinei. O grupo me interessa, tenho discos em casa, mas fujo de multidões.

Preferi ir verouvir Cesar Teixeira no Ceprama (ontem, 22h). Minha primeira saída “carnavalesca” em 2013. Ele o artista de quem seguramente mais vi shows na vida.

Ele que ontem fez uma apresentação quase perfeita. Mas o que não tirou nota dez foi o som, algo que lhe foge ao controle, impossível culparmos o artista naquele entra e sai do palco, as apresentações em sequência (grade), entram músicos (bandas) saem músicos, tudo tem que ser trocado muito rapidamente.

Este, aliás, outro aspecto do carnaval que precisa ser repensado, explico. Cesar Teixeira é exceção: fez uma apresentação de cerca de 50 minutos, com repertório completamente autoral, inédito e carnavalesco. Resgatou a nau catarineta (auto nordestino, catalogado por Mário de Andrade), do toré (ritmo indígena) e do baralho, além de frevos, marchas, marchas-rancho, sambas e até salsa, entre o bom humor, as homenagens (a Faustina e Rosa Papagaio) e a política (o congresso nacional sempre merecedor de críticas, piadas e avacalhação).

Os poucos que estavam no Ceprama puderam deliciar-se com um repertório original e diferente. Ou seja: em geral, o modelo sequencial das apresentações patrocinadas pelo governo em praças e quaisquer outros espaços públicos, acaba dando ao folião que se demorar por mais que um show por ali mais do mesmo: vários artistas cantarão e tocarão os mesmos clássicos carnavalescos que incluem aí de Moraes Moreira ao Bicho Terra, passando por Carmen Miranda e Chico Buarque, entre outros.

O Monobloco de graça na praça Deodoro, fazia o “carnaval da mistura” em horário próximo ao em que Cesar Teixeira fazia seu ótimo show para um Ceprama esvaziado, certamente não pela qualidade de seu espetáculo, em que ele se mostrava em plena forma artística, com repertório inédito, adequado ao período. Lá, no panteão sem bustos, o grupo carioca era escoltado pelos apadrinhados de sempre, cujos nomes mais se repetem nas programações oficiais. Perto da continência espúria o que significam qualidade e relevância artística?

A menina que conquistou o coração dos mestres do choro

[Release para Festejos, estreia em disco de Alexandra Nicolas]

Festejar é o destino de Alexandra Nicolas e de seus ouvintes

Maranhense estreia em disco com repertório de Paulo César Pinheiro

Festejos sai pela Acari, maior gravadora especializada em choro do Brasil

Márcio Vasconcelos

TEXTO: ZEMA RIBEIRO

“Eu cheguei sem ninguém saber que eu vinha”. Desde antes de nascer Alexandra Nicolas já era uma surpresa. Filha de mãe solteira, foi cúmplice da genitora, que escondeu a gravidez enquanto pode. O pai, músico e boêmio, ela só viria a conhecer aos cinco anos de idade. Foi criada por três mulheres – a mãe, a tia e a avó.

Sua mãe gostava de cantar e foi em uma tertúlia que seus pais se conheceram. Desde cedo a menina pegou gosto pela coisa. “Eu cantava desde criancinha. E eu não podia sair das rodas, que eles me chamavam: “agora é a vez da menina!”. E eu me lembro, muito nova, de cantar músicas de Nelson Gonçalves, Silvio Cesar, Elizete Cardoso, Clara Nunes, Rita Lee, Novos Baianos, Genival Lacerda, Elba Ramalho”, cita entre gostos passageiros e referências que permanecem até hoje.

Acreditando nos sonhos, a adolescente Alexandra chegou a largar o curso de Pedagogia e foi ao Rio de Janeiro estudar canto, dança e teatro. Sua mãe hospedou-a num pensionato, à época inviabilizando a carreira: “Todos os lugares em que eu podia cantar eram à noite e eu tinha que voltar para casa antes da meia noite”, lembra a cinderela de então.

Do pensionato para a música? Nem pensar! Alexandra só pode mudar-se para um apartamento quando passou no vestibular para Fonoaudiologia, profissão em que se formou e exerceu por pouco mais de 10 anos – a música sempre em paralelo, nunca de menor importância, a vida entre o consultório e os palcos. Após coordenar o curso de fonoaudiologia em uma faculdade particular em São Luís, ela deixou a profissão. Da música, afastou-se apenas para dedicar-se às primeiras infâncias de seu casal de filhos, hoje com sete e seis anos. Uma parada apenas temporária, embora ela não viva, ainda hoje, exclusivamente de música.

“Tudo o que fiz até hoje foi por necessidade, por amor, por que eu não consigo fazer nada que eu não pense em fazer bem feito”, diz, talvez explicando a demora em gravar o primeiro disco, Festejos. Mas nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Eu já gostava muito do Paulo César Pinheiro, principalmente suas parcerias com Mauro Duarte, Sivuca, João Nogueira. Vinha de alguns shows por aqui e estava com a ideia de fazer um em homenagem a Clara Nunes. Numa viagem ao Rio, meu amigo Celson Mendes mandou um e-mail para Luciana Rabello. Segundo ele, ela poderia me dar algumas dicas. De início não acreditei muito que ela fosse responder. Ela respondeu e me convidou para ver e ouvir o bandão da Escola Portátil. Algo incrível! Todos os alunos da Escola Portátil, 40 pandeiros, 15 cavaquinhos, 10 flautas etc., juntas, sob uma árvore, tocando ao mesmo tempo com [o baterista] Bolão de maestro”. Terminada a apresentação, Luciana levou-a para tomar um chopp na Visconde de Caravelas, em Botafogo. Era a rua em que ela tinha morado, e Amélia Rabello, irmã de Luciana, morava no mesmo apartamento que Alexandra ocupou em seus dias e noites cariocas. Sem saber, a anfitriã acabou escolhendo ainda a mesma mesa em que a maranhense costumava sentar vindo da faculdade.

Nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Então você quer homenagear a Clara Nunes? Mas você gosta da cantora ou do compositor?”, indagou Luciana Rabello ao notar que nove das 16 músicas do roteiro eram de Paulo César Pinheiro. “Eu tenho certeza que Clara Nunes ia adorar este show se você pudesse transcender isso. Você precisa se mostrar como artista, sair de detrás dela. Eu recebo 80 e-mails por dia de gente querendo homenagear Clara”, aconselhou-a. “Paulinho [forma carinhosa como se referem ao compositor maiúsculo] tem mais de 2.000 canções. Se quiser eu te dou tudo inédito”, ofereceu.

Luciana Rabello acabou por descobrir a voz autoral de Alexandra Nicolas, mesmo esta não sendo compositora, e assumiu a função de diretora musical de Festejos. Mais que isso, se tornou amiga íntima, uma irmã querida e escolhida. “Ela foi uma bênção de Deus na minha vida”, diz a maranhense.

Tudo começou em Senhora das Candeias, show que ela apresentou duas vezes no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, e que batiza o projeto patrocinado pela Eletrobrás, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, que permitiu a feitura de Festejos, que sai pela Acari Records, a maior gravadora de choro no Brasil. Inicialmente ela recebeu uma fita com 20 composições de Paulo César Pinheiro: era o repertório do espetáculo. Para o disco, a amostra aumentou para quase 60 músicas, das quais 13 foram escolhidas, entre inéditas – a maioria – e regravações.

“Eu quero essas mulheres da festa!”, escolheu. “Todas as que Paulinho canta, elas são fascinantes, lindas e sensuais. É um amor puro! Elas possuem uma beleza que ninguém consegue ver. Quase ninguém consegue ver a beleza de uma lavadeira. Aí eu vi a verdade. Não era fantasia. Era palpável”. Alexandra começava a eleger o repertório de seu disco. Entre idas e vindas foram quase dois anos só na seleção do repertório, mergulhada de cabeça, corpo e alma.

“Paulo César Pinheiro é a pessoa mais leve que eu já vi na vida. Não sei de onde tira tanta simplicidade. Nem parece que existe, me deu o maior presente. Ele me deu a bênção e disse: “se você tiver que gravar um disco, quero que você grave aqui [no Rio de Janeiro]. Foi a partir daí que eu descobri verdadeiramente meu caminho”.

A partir de então, muitas idas e vindas na ponte aérea São Luís – Rio de Janeiro. Com ela festejam Adelson Viana (sanfona), Celsinho Silva (percussão), Dirceu Leite (flauta, picolo), Durval Pereira (percussão), João Lyra (arranjos, violão, viola), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Luciana Rabello (cavaquinho e produção musical), Magno Júlio (percussão), Marcus Tadeu (percussão), Maurício Carrilho (arranjos, violão sete cordas), Paulino Dias (percussão), Pedro Amorim (bandolim) e Zé Leal (percussão).

Ao final de um processo de aprendizado, amadurecimento, risos, lágrimas e muita emoção, o próprio Paulo César Pinheiro definiu a ordem das músicas no disco e, acima de qualquer suspeita, escreveu sua apresentação: “acho que a maranhense conseguiu um belo disco. Abram alas pra ela que a festa começou”, para ficarmos com apenas um trecho.

Embalada pelo capricho do design de Raquel Noronha, a bolachinha é ilustrada por fotos de Márcio Vasconcelos, que captam Alexandra Nicolas, risonha e faceira, no sobrado em que nasceu o dramaturgo maranhense Arthur Azevedo, em 1855, uma segunda coincidência literária – a primeira é que Paulo César Pinheiro, apesar de nunca ter estado em São Luís do Maranhão, conhece-a bem a partir da obra de Josué Montello, e escreveu uma música que leva o nome da capital maranhense, faixa que fecha o disco.

Alexandra Nicolas sonha: “Eu quero fazer o Brasil cantar”. Nada na vida dela acontece por acaso.

FAIXA A FAIXAMárcio Vasconcelos. Festejos. Capa. Reprodução

1. Mironga (Paulo César Pinheiro): “É uma música que abrange todas elas [as mulheres], uma espécie de resumo
do disco. São os homens tocando tambor para as mulheres dançarem e festejarem. É uma música completamente
masculina, mas eu consigo ver a mulher nela, as mulheres que dançam ao som do tambor. Ele descreve, na verdade, a maneira de tocar, como se aprende a tocar um tambor. No final ele diz que tem mironga aí, ou seja, tem algo muito especial na maneira de tocar. “Tem quem bate e faz zoeira/ tem quem toca como quê/ quem comprou tambor na feira/ esse não sabe bater./ Foi no couro e na madeira/ que me disse um alabê/ tocador de capoeira/ não é de maculelê”. Então ele começa a fazer uma série de pontuações no ato de tocar tambor e as mulheres, como ele diz no texto que me apresenta, estão mirongando ao som do tambor. Mironga é uma festa!”

2. Balacoxê de Iaiá (Paulo César Pinheiro): “Na hora em que eu li o título eu fiquei imaginando um bumbum enorme de Iaiá. Na verdade, Balacoxê veio por essa sensualidade, de cortar cana, da mulher, e eu fiquei fascinada, por que a maneira como Paulo cantou essa canção, o que eu ouvi, é como se estivesse na fala dele, essa mulher, Iaiá, que corta cana, que “bota a roda pra rodar/ eu só vejo esse desenho na cintura de Iaiá”. Foi uma canção em que eu me vi. Me perguntei, meu Deus, será que eu vou cantá-la eu vendo Iaiá ou eu sendo Iaiá? Eu acho que de todas que eu cantei, eu era a Iaiá. Tava em mim, passava por mim, essa história de “como eu vejo, com o punho nas cadeiras/ Iaiá fazer”. Essa descrição pra mim, essa mulher, essa Iaiá, ela é incrível”.

3. Passista (Paulo César Pinheiro): “Foi o primeiro refrão que me chamou muito a atenção: “seu povo já foi do cativeiro/ mas hoje que o samba é uma nobreza/ é ela que reina no terreiro/ do samba outra vez virou princesa”. Achei muito forte ele ter trazido como o povo dela sofreu e como hoje ela é uma rainha, comanda o samba na escola. Isso me fascinou, saber que tem muita gente que vai pra vê-la. O samba trouxe essa majestade pra ela”.

4. Coqueiro novo (Paulo César Pinheiro): “Foi a praia daqui. Uma homenagem à minha praia, à praia em que eu cresci, em que eu brinquei na areia e, lógico, às morenas do Cabedelo, na Paraíba, às quais ele se refere, que fazem acessórios com a palha do coqueiro, vivem disso. São mulheres sofridas, mas quando escuto, eu me vejo na praia, sombra, vento nos cabelos e água fresca. Uma valorização do trabalho dessas mulheres, transformando a palha em objetos, bolsas, cintos, acessórios femininos”.

5. Presente de Iemanjá (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Quando Luciana me mostrou ela falou de uma pessoa que tinha que dirigir os arranjos do disco, chamada João Lyra [que assina parte dos arranjos, violões e viola do disco]. A primeira vez que o ouvi cantando, fiquei fascinada por ele, com a alegria que ele põe na canção. E eu ouvi Presente de Iemanjá com ele cantando e me remete à fartura. Quando fala de “jogar a rede pro céu/ e a rede cai no mar/ o que cai na rede é peixe/ é presente de Iemanjá”, isso me vem como abundância, as mulheres tendo o que comer, os homens saem para pescar e trazem o pão de cada dia, o peixe para fazer o almoço. Eu me vejo numa vila de pescadores. Ele trouxe um arranjo fantástico com Toré de índio pra canção, ficou muito forte. Tem o canto pra sereia, por trás de tudo isso, que é muito marcante. Eu não cantei orixás no disco, mas cantei pra Iemanjá, que pra mim sempre foi uma mulher encantadora, embora eu de início não soubesse bem o que era um orixá. Eu sabia que ela vivia no mar e eu sempre lembro da Iemanjá da Ponta D’Areia toda vez que eu canto”.

6. Lavadeira (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Paulinho me mostrou essa canção, eu já fascinada pelas mulheres, e ele não me contou que ia me mostrar. Eu tava na cozinha da casa dele, comendo, e ele colocando músicas, que ele adora. Quando eu ouvi isso na cozinha eu saí correndo pra sala, “Paulinho, o que é isso?”, e ele já com o sorrisão aberto, por que sabia que eu ia me interessar pela música. Pedi pra ele botar de novo, ele botou. Eu ouvi na voz da Andréia, que é uma cantora que gravou a música. A Luciana perguntou, “mas Alexandra vai gravar? Já gravaram!” E ele disse “não importa. A Andréia sumiu. É ela [Alexandra] quem vai fazer essa música aparecer”. É a canção mais cinematográfica do disco, descreve tudo o que uma lavadeira faz. É de uma sensualidade, de uma sensibilidade tão profunda. A lavadeira passa a ser uma deusa em vez de uma simples lavadeira. Luciana faz um cavaquinho que dói na alma, Mauricio Carrilho fez o arranjo perfeito e ainda criou um canto para a lavadeira: “Lá lá lá ia lá ia/ Madalena foi lavar” e vai embora”.

7. Roda das sete saias (Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro): “Eu ouvi cantada por Roque Ferreira, em uma das minhas viagens ao Rio, me apaixonei pela festa. Ela tem oito minutos, é um samba de roda fantástico. Fala das festas populares, tudo o que é cantado nas rodas das festas. Imagina um festejo acontecendo num terreiro, numa casa de festa… os grupos se formam a partir das afinidades: uma roda de samba aqui, uma caixeira tocando ali. Versos que surgem dessas afinidades da festa compondo um samba de roda com a música de Roque Ferreira, a letra de Paulo César Pinheiro e o arranjo de Maurício Carrilho. Eu costumo dizer que não sinto os oito minutos. Termino de cantar e pergunto: “vixe, já foi?” Ela foi uma música muito eleita aqui na minha terra. Fiz uma sessão com os compositores para ouvirmos o disco e muita gente gostou dela, por que ela é forte, ela lembra a gente, ela é muito Maranhão, é nossa…”

8. Coco da canoa (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Eu sou apaixonada por coco. Eu fui atrás de outro coco. Eu já tinha um coco no disco, acho um ritmo que mexe muito comigo. Quando eu era pequena, eu ia para a Rua Grande, e tinha uma cega que cantava um coco com um chocalhinho. Eu cresci com o coco muito presente na minha vida, mamãe sempre cantava em casa. Eu busquei mais um coco e como eu já tava encantada com o trabalho do João Lyra, com a alegria que ele emprega nas coisas, foi uma das canções que eu trouxe. Ela fala de um flerte na praia, de uma mulher faceira que não sabemos bem se é uma mulher ou uma sereia encantada. Gostei muito desse coco meio embolado, gostoso demais”.

9. Coco (Paulo César Pinheiro): “O coco é uma paixão. Ele é um trava-língua e a Luciana me mandou como um desafio para uma fonoaudióloga [risos]. Quando eu ouvi, pensei: “não vou conseguir cantar nunca!” É muita coisa e tudo muito rápido. Quando cantei e vi que o teatro todo cantou de novo… eu ensinei apenas uma vez e quando cantei a segunda parte todo mundo riu de tão embolado que tudo fica… e lindo… Fala de quebrar o coco, das quebradeiras de coco, a maneira como quebram o coco, que fazem a roda. Eu ia muito pra Pinheiro passar férias e comia muito coco babaçu. E pra mim não valia comer coco babaçu guardado, que mofa. Eu queria ver era ver o coco babaçu tirado por dona Mariazinha, que trabalhava na casa de meu pai, e a gente ia lá para um cantinho do quintal, debaixo duma árvore, quebrar coco”.

10. Bisavó Madalena (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Foi outra pescaria. Paulinho já atrás dos seus tesouros guardados e ele tentava falar para mim como era a canção. Mas como não vou me apaixonar por uma música que fala da bisavó de Wilson das Neves? Que rodou o Brasil inteiro, que era dançarina de primeira e rodou o país dançando todos os ritmos e era boa de gogó, de samba, de bumba meu boi… quando ouvi fiquei encantada pela música. Wilson já gravou e eu não resisti, por que ela dá um resumo dessa matriarca que recebe esse festejo. E eu pretendo abrir o show com ela”.

11. Soberana (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Wilson das Neves novamente. Essa música eu me lembro de Paulinho, ele não só me mostrou, mas ele dançou, me mostrando como eu devia fazer no palco com minha saia. Foi a maneira mais poética, mais romântica, mais soberana que eu vi um homem falar de uma mulher. Eu acho que qualquer mulher no mundo dava qualquer coisa para ser essa mucama à qual ele se referiu. Ela “nunca foi mucama de qualquer laia”. É a música que mais mexe comigo no disco. É a minha música! Eu sou apaixonada… As pessoas perguntam “qual é a música de trabalho?” Eu só digo Soberana. Eu sei que existe essa mulher, até por que eu sei de muitas mulheres que são soberanas. Mas você chega a duvidar, de tão incrível que ela é, você se pergunta, “é tudo isso?”, por que sempre escapa algo, ela é incrível”.

12. Ava Canindé (Paulo César Pinheiro): “Foi um Divino Espírito Santo que foi trazido para mim. Luciana mandou propositalmente, pois sabia que eu fui imperatriz na infância [em festejos do Divino, em Pinheiro, pagando promessas de sua mãe]. Eu sempre falo que vejo as mulheres indo para as festas do divino, as caixeiras, as arrumadoras da bandeira, e ela fala da simplicidade e da organização dessa festa. O dia a dia, como as pessoas se vestem, como chegam, descreve a cidade, a igrejinha. E João Lyra trouxe o que há de mais surpresa no disco, o arranjo dessa música. Para quase todos os músicos ela é a mais forte. João não conhecia a batida do Divino Espírito Santo, e no entanto ele trouxe sopros, viola. Ficou muito linda, simples, nostálgica. Para eu conseguir cantá-la do jeito que eu cantei eu me imaginava com João e Paulinho, em um morro bem alto, olhando lá de cima para esta cidade e cantando”.

13. São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro): “A maneira como Paulo descreve o Maranhão, a impressão que a gente tem é a de que ele estava aqui, e de uma maneira também muito cinematográfica. Você consegue ver o boi de uma forma tão simples. Cantar minha terra foi uma honra, com a letra dele, então. E ele não conhece. Conhece através de Josué Montello e é capaz de conhecer até mais que eu, por que Paulinho quando vai em um assunto, ele vai fundo, vai além, muito além… Pra mim foi um presente, ele interferiu nesse arranjo, ele estava presente nessa gravação, acompanhou de perto [o saudoso parceiro João Nogueira era, até então, o último artista visitado por Paulo César Pinheiro em estúdio durante a gravação de um disco]. E nada como o nosso mestre Arlindo Carvalho para dirigir e dar esse toque de Boi de Pindaré. Ela fecha o disco, fecha com minha terra, fecha onde nasci, fecha com São Luís”.