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O uivo do poeta

Aldeia, minha faixa predileta de Parador, disco mais recente de Nosly, parceria dele com Celso Borges que, na gravação original, tem a participação de Zeca Baleiro, que produz a bolachinha.

CB, parceiro de ambos, soma-se a outro parceiro, Beto Ehongue, para seu primeiro espetáculo poético-musical de 2013.

Clássico do Pink Floyd completa 40 anos

“Eu não sei nem se foi ironia ou se por amor”, como cantaria outro grande de nossa música, resolveu batizá-lo, o espetáculo, White side of the moon, justo nos 40 anos do outro, o Dark side of the moon.

O show acontecerá 27 (noite de lua cheia), às 21h, no Chico Discos, e terá poemas da trilogia A posição da poesia é oposição, formada pelos livros-discos XXI, Música e Belle Epoque, além de quatro poemas inéditos. Além de CB (poemas, voz) e Beto Ehongue (laptop e trilhas eletrônicas), a apresentação contará com as participações especiais de João Simas (guitarra) e Luiz Cláudio (percussão).

A produção não informou o valor dos ingressos, à venda no local.

De obituários

São ridículos os obituários do apresentador Jairzinho da Silva, morto na última sexta-feira (4), vítima de um ataque cardíaco. Das três, uma: ou o homem não tinha qualidades que merecessem registro e/ou destaque ou ninguém o conhecia e/ou admirava tanto a ponto de realizar um belo texto. Ou simplesmente a incompetência para a redação de um obituário decente reflete o atual cenário jornalístico do Maranhão.

Como sempre por aqui, optou-se pela santificação que faria corar o próprio defunto, se isto fosse possível. Na Sarneylândia a morte apaga quaisquer defeitos, basta lembrar do recente caso Décio Sá. Ou, antes, de Walter Rodrigues, para nos determos a jornalistas.

De uma hora para outra, baboseiras como “excelente vereador por três mandatos” e “referência na Comunicação do Maranhão” surgiram em textos paupérrimos, incluindo notas de pesar da Câmara Municipal e do Governo do Maranhão. Uns ainda lembraram sua condição de vice-prefeito quando a municipalidade foi comandada por Gardênia Gonçalves, esposa de João Castelo, recém-destituído. O tucano fez de tudo para superá-la em má-gestão, andando perto de conseguir, mas o título permanece com ela. Esse mês de atraso no salário dos barnabés é fichinha perto do que aprontou a ex-primeira dama quando prefeita. É claro que há aí, não neguemos, um quê de elegância e dignidade, de não dar conotação política à morte, muito embora o próprio Jairzinho, em vida, não tenha se preocupado muito com isso.

O apresentador era engraçado (para quem gostava), dizia alguns bordões, criou um boneco e a gíria “migué”, o nome do boneco, sinônimo de enrolação, golpe, hoje incorporada no “maranhês” que se fala por aqui. E só.

Imparcialidade jornalística não existe. Uma notícia sempre será a interpretação de um fato, um ponto de vista sobre determinado fato, nunca o fato em si. O problema é quando a “opinião” emitida por um jornalista não se resume às suas convicções e à interpretação do mesmo sobre determinado fato. Quando entram outros interesses, em geral escusos, no jogo, o que, infelizmente, movimenta a maior parte de nossa mídia, da tevê à blogosfera, passando por rádios e jornais, não sem um grau de irresponsabilidade.

Para ilustrar, lembro um recente episódio “dois em um”: o nome do cantor e compositor Zeca Baleiro foi proposto pela classe artística para assumir a presidência da Fundação Municipal de Cultura de São Luís na gestão de Edivaldo Holanda Jr., antes, é claro, deste assumir a prefeitura. Sabedor da repercussão da campanha sobretudo em redes sociais e do endosso de diversos artistas, Jairzinho não poupou preconceito ao supostamente alertar o então futuro prefeito de que se o mesmo fosse atrás de artistas, “a turma do fumacê”, estes iriam “queimar” o dinheiro do povo, numa clara alusão à tão maranhense diamba (maconha, traduzindo para os poucos mas fieis leitores de fora).

Depois, por isso chamo de episódio dois em um, Jairzinho chegou a afirmar em seu O povo com a palavra, programa que apresentou na TV Guará até falecer, que a gravação de Milhões de uns, disco de estreia de Joãozinho Ribeiro, em show ao vivo no Teatro Arthur Azevedo em novembro passado, seria um ato pró-Zeca Baleiro na Fundação Municipal de Cultura. E mais: que eles e Chico César integravam uma “esquadrilha da fumaça”, que tinham no repertório uma música chamada Mato verde (na verdade é Erva santa, de Joãozinho Ribeiro, já gravada por nomes como Papete e Fauzy Beidoun), e que os três estariam se juntando para exportar a boa maconha do Maranhão.

Este é apenas um pequeno exemplo do jornalismo cometido por Jairzinho, mas infelizmente não apenas por ele, para tentar esclarecer um pouco as coisas num ambiente de falsas lágrimas e elogios baratos.

Jairzinho, requiescat in pace.

Música e poesia em duas noites memoráveis

Joãozinho Ribeiro, "o gregário"

Joãozinho Ribeiro, “o gregário”

ZEMA RIBEIRO

Joãozinho Ribeiro adiou por muito tempo a gravação de seu disco de estreia, que reunirá pequena parte de sua significativa obra, fruto de mais de 30 anos de carreira, contados aqui a partir de sua participação em um festival de música universitária na capital maranhense em que nasceu em 1955.

Ocupou-se de outras missões, não menos nobres, tendo estudado engenharia e economia, sem concluir, formando-se bacharel em Direito. À época do citado festival era liderança ativa nos movimentos da greve da meia passagem e contra a ditadura militar então vigente. Hoje, ajuda a formar novos bacharéis, dividindo com o ofício de professor universitário a existência de também funcionário público e, não menos importante, poeta e compositor.

Não por acaso Do ofício de viver e outros vícios é título de um segundo livro, a ser lançado sabe-se lá quando, que as coisas com Joãozinho não funcionam de modo tão planejado, exceção feita às ocasiões em que foi gestor público. João Batista Ribeiro Filho, seu nome de pia, já foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e secretário de estado da Cultura do Maranhão, além de ter sido coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, função que ocupou no MinC, quando Juca Ferreira era o ministro. Aquele título se somará ao livro-poema Paisagem feita de tempo que ele publicou em 2006, 21 anos depois de concluído.

Milhões de uns, o disco de estreia, toma emprestado o título de sua música talvez mais conhecida, imortalizada na voz de Célia Maria, que venceu o Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos. O disco foi gravado ao vivo nos últimos 27 e 28 de novembro, ao vivo, no Teatro Arthur Azevedo, em duas noites memoráveis. Noites de música, poesia, teatro, arte, encanto, beleza, vida, enfim.

Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro

Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro

Milhões de uns não é apenas um título de música. Ou de disco. É a mais perfeita tradução de Joãozinho Ribeiro, o “gregário”, como cravou Chico César, um de seus ilustres convidados, que presenteou o compositor e o público musicando-lhe um poema: Anonimato, que escrevera em homenagem ao vimarense João Situba, seu pai.

Só entre convidados e participações especiais estavam Alê Muniz, Célia Maria, Cesar Teixeira, Coral São João, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro, fora o o ator Domingos Tourinho, que apresentou belas intervenções poéticas durante os shows. Fora a superbanda arregimentada por Joãozinho Ribeiro para o par de noites que deixou a plateia pisando em nuvens: Arlindo Carvalho (percussão e direção artística), Celson Mendes (participação especial ao violão), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Barbosa (trompete), Josemar Ribeiro (percussionista convidado), Kleyjane Diniz (vocal), Luiz Jr. (violão, guitarra, viola, direção musical), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo), Wanderson Santos (percussão), Xororó (percussionista convidado) e Zezé Alves (flauta).

"Cantador que canta só canta mal acompanhado"

“Cantador que canta só canta mal acompanhado”

O público merece esse registro. Joãozinho, apesar de não ter disco gravado até hoje, é um de nossos mais gravados compositores, em vozes alheias. O próprio Joãozinho merecia – e se/nos devia – esse registro, como fez por merecer cada aplauso nestas noites memoráveis.

João foi ao fundo do baú. Ou melhor, do cofo. Milhões de uns botou na roda diversos gêneros musicais – choro, samba, bumba meu boi, tambor de crioula, blues, afoxé – feitos na solidão (nunca, que “cantador que canta só, canta mal acompanhado”, como ele mesmo canta) ou em parceria. Na primeira categoria estão Matraca matreira (interpretada por Chico Saldanha), Pegando fogo (por Rosa Reis), Amália, Erva santa (interpretada pelo autor com Chico César e Zeca Baleiro), Saracuramirá (interpretada pelo autor com Chico César), Saiba, rapaz (interpretada por Célia Maria), Esquina da Solidão (por Cesar Teixeira), Derradeiro trem (por Zeca Baleiro), Palavra (idem), Passamento, Terreiro de ninguém (por Josias Sobrinho) e Milhões de uns (que o autor cantou com o Coral São João). Na segunda, Samba do capiroto (parceria com Cesar Teixeira, que os dois cantaram juntos), Cidade minha (parceria com Marco Cruz, interpretada pelo Coral São João), Gaiola (parceria com Escrete, interpretada por Lena Machado), Rua Grande (parceria com Zezé Alves, idem), Tá chegando a hora (idem, que marcou o encerramento das noites, em que todos os convidados retornavam ao palco para cantá-la juntos) e Coisa de Deus (parceria com Betto Pereira), cuja interpretação arrebatadora de Milla Camões, programada para participar apenas do primeiro dia, fizesse a cantora voltar ao palco na noite seguinte, que protocolos e scripts não podem barrar sentimentos e/ou Joãozinho Ribeiro.

Há material para um cd duplo, no mínimo, e um dvd. A quem não foi, resta esperar. E a quem foi, também, torcer para poder reouvir/rever o quanto antes. Como já disse ao próprio “little John”, apelido carinhoso com que o tratamos alguns íntimos: o resultado não pode demorar (mais ainda) a ganhar estantes, coleções, cd-players, ouvidos, cabeças e corações.

Vias de Fato, dezembro/2012. Leia o texto que escrevi para o programa de Milhões de uns (distribuído aos espectadores por ocasião do espetáculo). Continuar lendo

A maior miniturnê de lançamento do mundo

O Fabreu é um cara sábio, já ouvi não sei quantas vezes o mano Reuben dizer isso, com o que concordo.

Ele tem um jeito de monge, seja pelos óculos ou pelo pouco cabelo que conserva, num corte militar, à falta de outro adjetivo, que de militar o poeta tem nada e, nunca ouvi a opinião dele, mas aposto meu reino que ele é até contra o serviço militar obrigatório (como este blogueiro também é, e a favor da desmilitarização das polícias, mas isso é outro assunto). Além do quê, tirando o deslocamento cotidiano para o trabalho, Fabreu quase nunca sai de casa, a não ser que a coisa valha muito a pena (estou devendo ajudá-lo a devorar uma peixada em seu apartamento, dívida que, não duvidem, terei o maior prazer de pagar em breve).

Como é o caso de ele lançar em Brasília seu mais recente livro, aliado involuntário, como anuncia a imagem que ilustra este post.

Fabreu, aliás, é como nós, íntimos, chamamos o jornalista e poeta Fernando Abreu, figura querida, parceiro de Zeca Baleiro em hits como Alma nova, Cachorro doido e Guru da galera. Autor de três livros de poesia, o que ele lança quarta-feira em Brasília mais O umbigo do mudo e Relatos do escambau.

À colônia maranhense em Brasília e/ou aos que gostam de poesia em geral, fica o recado. E digo mais: Fabreu tem o que dizer, um dos argumentos com que lhe convenci a abrir o blogue. E mais: acredito que um dos segredos da sabedoria do bardo Fabreu está na capacidade de zo(mb)ar de si mesmo. O título deste post, roubado daqui, prova isso.

Ora, se a gente não tira uma auto-onda, alguém vai fazê-lo, né? Como perguntaria o Tom Zé, “por que então essa mania de parecer tão sério” que acomete a tantos poetas por aí?

Semana Joãozinho Ribeiro 4

Ontem postei aqui um texto de Chico Saldanha em que ele comenta a emoção de participar de Milhões de uns, show que resultará no primeiro disco de Joãozinho Ribeiro. No texto, o autor de Itamirim bem define Zeca Baleiro: “esse maqueano, “chefe de torcida” dos compositores maranhenses”, ele, o filho de seu Tonico e dona Socorro, certamente um dos maiores entusiastas das noites de hoje e amanhã e do que nelas/delas (se) vi(ve)rá.

Abaixo, palavras de Zeca Baleiro sobre Joãozinho Ribeiro e Milhões de uns. Palavra, no singular, a propósito, é uma das peças da lavra do segundo que o primeiro cantará.

JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS

POR ZECA BALEIRO*

Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.

Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.

Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.

Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.

Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.

Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.

Saravá, João, meu poeta!

*O cantor e compositor Zeca Baleiro participa das duas noites de Milhões de uns, hoje (27) e amanhã (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo. Os ingressos custam R$ 50,00 e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro.

Semana Joãozinho Ribeiro 2: o convite de Zeca Baleiro

Semana Joãozinho Ribeiro

O poeta e compositor Joãozinho Ribeiro grava ao vivo seu primeiro disco, Milhões de uns, em show homônimo que apresentará nas próximas terça (27) e quarta-feira (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.

Nas duas noites, o artista terá como convidados Alê Muniz, Coral São João, Célia Maria, Cesar Teixeira, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro.

Até o segundo dia de apresentação do artista e seus amigos de copo, alma, música e vida a Semana Joãozinho Ribeiro trará a este blogue diversas histórias, notícias, textos, imagens etc., deixando a galera por dentro da empreitada. Para inaugurá-la, texto que o último convidado listado escreveu em agosto passado sobre a iniciativa.

JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS
POR ZECA BALEIRO

Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.

Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.

Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.

Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.

Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.

Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.

Saravá, João, meu poeta!

“Prefiro continuar a ser um produtor de cultura que me tornar um gestor”

Baleiro em pose de “alto lá!”

Indagado pelo blogue sobre a campanha “Eu quero Zeca Baleiro Secretário de Cultura de São Luís”, que ganhou alguma repercussão no Facebook, assim manifestou-se o cantor e compositor maranhense, através de sua assessoria. Sábio Zeca!

Ao lado de diversos outros nomes, Baleiro participa nos próximos dias 27 e 28 de novembro, no Teatro Arthur Azevedo, do show Milhões de uns, de Joãozinho Ribeiro, quando este grava ao vivo o primeiro disco de sua carreira.

Pra ver/ouvir antes de votar

Música: substantivo feminino

Cantoras do Brasil, série que estreou hoje no Canal Brasil, é agradável de verouvir. No primeiro programa Tulipa Ruiz interpretou canções eternizadas na voz de Dalva de Oliveira.

É um programa curto: duas músicas apenas. E aí reside seu maior pecado: por que não logo um show inteiro, hora e meia de boa música?

Gravado em preto e branco nos estúdios YB, o mesmo em que, por exemplo, Zeca Baleiro gravou parte de O coração do homem bomba, exatamente a parte em p&b do dvd.

As cores, ou a falta delas, garantiram ao programa de hoje um ar de coisa antiga, certo saudosismo, a memória afetiva de que fala ligeiramente Tulipa ao comentar uma das faixas que escolheu para inaugurar a série. O comentário é breve e não aborrece o telespectador com qualquer tentativa de aula, explicações, notas de rodapé ou coisas que o valham. É uma pausinha entre música e outra, jogo rápido.

Impossível simplesmente Tulipa reler Dalva de Oliveira. É sua leitura particular. Moderniza-a sem desconstruí-la, sem descaracterizá-la. O clima “afastem as navalhas” é mantido no tango Fim de comédia (Ataulfo Alves), a segunda da noite. “Que será/ da luz difusa do abajur lilás/ se nunca mais vier a iluminar/ outras noites iguais?”, atire a primeira pedra quem nunca assobiou a primeira, Que será? (Marino Pinto e Mário Rossi). Esta ganha ares de forró, demonstrando a devoção de Tulipa pela homenageada e sua versatilidade.

Do forró ao tango passeia também a magistral sanfona de Daniel Grajew, destaque da Tulipa band. Nas próximas quintas-feiras, sempre às 18h45min desfilarão ainda, entre parênteses as homenageadas, Lulina (Ademilde Fonseca e Miriam Batucada), Tiê (Celly Campelo), Roberta Sá (Carmem Miranda), Nina Becker (Dolores Duran), Mariana Aydar (Clara Nunes), Gaby Amarantos (Clementina de Jesus), Camila Pitanga (Maysa), Lurdez da Luz (Nara Leão), Mallu Magalhães (Elizeth Cardoso), Luísa Maita (Elis Regina), Andreia Dias (Aracy de Almeida) e Blubell (Sylvia Telles), não sei se nessa ordem.

Portanto, se os queridos e queridas leitores e leitoras têm preferência por uma ou outra entre as que homenageiam e as homenageadas, a dica é não perder nenhum programa. Cantoras do Brasil começou com os dois pés, que só o direito da superstição é pouco! Aliás, dois pés, não: dois olhos, dois ouvidos e um coração.

Arte pela arte

Longe do descompromisso: Chico Saldanha e Josias Sobrinho fazem show hoje, no Chico Discos, em prol da próxima empreitada do Papoético.

 

Chico Saldanha e Josias Sobrinho voltam a subir juntos em um palco hoje (7), acompanhados de Marcão (violão e cavaquinho), Mauro Travincas (contrabaixo) e Jeca Jecowisky (percussão). Depois de pouco mais de mês da estreia do show DoBrado ResSonante em Brasília/DF, o espetáculo poderá finalmente ser conferido pelos ludovicenses. Os artistas já haviam se apresentado juntos em São três léguas, outros bois e muito mais, de 1999, e Noel, Rosa secular, que teve edições em 2010 e 2011, ocasião em que homenagearam o Poeta da Vila ao lado de Cesar Teixeira e Joãozinho Ribeiro.

Na capital federal foram duas apresentações. Aqui não há anúncio, ao menos por enquanto, de um bis, embora o Chico Discos, bar que abrigará o show de hoje, comporte confortavelmente apenas cerca de 60 pessoas, plateia certamente menor do que merecem os autores de clássicos como Terra de Noel e Linha puída, Josias e Chico, respectivamente.

Mas a causa é boa: a ideia inicial era angariar fundos para o I Festival de Poesia do Papoético, que após muita ralação de Paulo Melo Sousa, o Paulão, seu idealizador, e do envolvimento de mais alguns teimosos e de doações de amigos e simpatizantes, conseguiu se pagar. DoBrado ResSonante, no entanto, continua sendo um show beneficente, em prol da arte: o valor arrecadado com os ingressos vendidos para a noite de hoje será revertido para a premiação do I Concurso de Fotopoesia do Papoético, cujo regulamento será publicado em breve (aqui neste blogue). A premiação deve acontecer em setembro, mês de comemoração dos controversos 400 anos de São Luís.

Sobrinho e Saldanha estão no cenário musical desde a década de 1970. O primeiro integrou a trupe do Laborarte, o segundo correu por fora, tendo ambos participado de festivais de música desde então. Ambos estrearam em disco na década seguinte, o primeiro no rastro do reconhecimento proporcionado pela gravação de Papete para quatro músicas suas no antológico Bandeira de aço [Discos Marcus Pereira, 1978] – De Cajari p’ra capital, Dente de ouro, Engenho de flores e Catirina –, o segundo fazendo de sua Itamirim clássico imediato e retumbante, na interpretação arrebatadora de Tião Carvalho em seu disco de estreia [Chico Saldanha, 1988].

Seus discos mais recentes são Dente de ouro (2005), de Josias, e Emaranhado (2007), de Saldanha. Ambos completamente autorais, o primeiro uma mescla de grandes sucessos e músicas inéditas, com participações especiais de César Nascimento, Papete, Lenita Pinheiro (sua esposa) e Zeca Baleiro; o segundo, quase completamente inédito, a exceção é Linha puída, gravada num arranjo diverso do bumba meu boi que é originalmente, com a participação de Lenita Pinheiro. Josias, ao lado de Gerude e Inaldo Bartolomeu, canta com Saldanha em É tudo verdade, onde este conta em versos a história de seu Mário Mentira, como era conhecido um morador da Rua de São Pantaleão de sua infância e adolescência. Zeca Baleiro, diretor musical em algumas faixas, canta na faixa-título, moderno boi de zabumba.

Algumas músicas de Dente de ouro e Emaranhado estão no repertório de DoBrado ResSonante, que se completa com músicas inéditas de Josias Sobrinho e Chico Saldanha, além de releituras de conterrâneos como Cesar Teixeira [Botequim] e Zeca Baleiro [Babylon], entre outros.

Um Maranhão Sarney-free

O Maranhão tem jeito? Nesse momento de saúde frágil (dele), que pensamentos dedica ao ex-presidente José Sarney?

Anseio muito por uma virada política do Maranhão. É um estado soterrado por corrupção, miséria e usura. Mas é também lindo, rico e culturalmente abençoado. Não posso desejar a morte do Sarney, porque isso contraria meus princípios, afinal fui criado em família católica, não fui ensinado a torcer pela morte de ninguém, nem mesmo do inimigo. Mas a única perspectiva de mudança que vislumbro pro Maranhão depende da morte política de seu legado tirano.

*

Zeca Baleiro a Pedro Só na Billboard Brasil nº. 30 [maio/2012, capa: Keith Richards e Mick Jagger]. Sobre seu O disco do ano, um dos temas da entrevista de que catei o trecho acima, escrevo em breve por aqui.

A poesia cortante de Celso Borges

Fazia tempos eu não experimentava a sempre deliciosa porção de paçoca e creme de macaxeira preparada por dona Antonia, ela uma das vendedoras de comida daquelas barracas ali por perto do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, na Praia Grande. A terceira opção, para quem prefere, é o arroz de maria isabel. Meu pratinho foi acompanhado por um copo “considerado” de suco de abricó. Uma delícia!

Apesar do coquetel servido – e disputado – ao final, foi a fome quem me fez deixar o recinto apressado, na noite da última terça-feira (10), ocasião em que, no citado centro, o poeta Celso Borges apresentou seu Sarau Cerol, acompanhado por Beto Ehongue (trilhas e efeitos eletrônicos no laptop), Alê Muniz (guitarra) e Luiz Cláudio (percussão) – anunciados como participações especiais, os dois últimos tocaram o show inteiro. Se na barraca de dona Antonia eu saciava minha fome de comida, antes eu já havia me embriagado de poesia da melhor qualidade.

Da esquerda para a direita, Alê Muniz, Celso Borges, Luiz Cláudio e Beto Ehongue

A apresentação aconteceu numa Galeria Valdelino Cécio absolutamente lotada. Celso Borges leva ao palco sua experiência de misturar poesia e música, sobretudo a comprovada em seus livros-discos XXI (2000), Música (2006) e Belle Époque (2010), onde a palavra de papel vira a palavra de ruído e este/esta é música. Qual Cacaso, Chacal e Leminski, para citar apenas três poetas que admira, ele, também letrista de música popular, parceiro de gente que sai pelo ladrão, incluindo os integrantes de seu power-trio aquela noite.

Uma São Luís surreal, de propósito ou por acaso, sabe-se lá, lhe servia de fundo de palco, perfeito contraste para um poeta que tira sarro do cânone, da oficialidade em torno dos controversos 400 anos de sua cidade natal e até mesmo dos “turistas de pacote” com seus “boizinhos de butique”.

“O futuro tem o coração antigo”: Celso Borges, quase 53, talvez por isso não tenha saudades do passado. Copia a frase do escritor italiano Carlo Levi – que já usara de epígrafe em XXI – para colar no título de seu próximo livro, a ser publicado ainda em 2012. “Antigamente era antigamente e era muito pior”, reza noutro poema, A saudade tem seus dias contados, de Belle Époque.

De uma forma ou outra, ninguém sai intacto, imune, impune de uma apresentação de Celso Borges – e aí caberiam palavras como show, espetáculo e quetais: quem já gosta(va) de poesia sai gostando ainda mais, quem não gosta(va), passa a gostar, nem que seja um tiquinho, todos contentes com as possibilidades que a poesia pode oferecer, para além de saraus modorrentos, monótonos, mofados, enfadonhos.

Sarau, a palavra em si, geralmente assustadora, lembrando professoras de literatura velhas, chatas e de óculos fundo de garrafa, recitando de cor e por força nos querendo obrigar a decorar sonetos do século retrasado.

“Serol foi feito pra cortar”, já havia escrito, com s, em Pedra de cantarei, poema de Persona non grata (1990) que virou música, um tambor de mina em parceria com Zeca Baleiro (em XXI). Para cortar de vez clichês e sustos, o poeta unta com cerol a linha do sarau.

Por que poesia pode e deve pulsar e fazer pulsar. Como ele diria em A serpente (Outra lenda), outra parceria com Zeca Baleiro, além do saudoso Ramiro Musotto: “eu quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”.

Cerol é com c ou com s?

Foi a pergunta que fiz, até em tom de brincadeira, ao poeta Celso Borges, por telefone, na manhã quente desta quinta-feira-feriado. Recebi dele, por e-mail, com a singela intimação “eu quero é ver tu não ir. Te vira!”, fina ironia por tantos furos recentes, a imagem que ilustra este post, e-flyer que divulga sua próxima subida ao palco, acompanhado do poeta-músico-dj Beto Ehongue (eles já apresentaram juntos A palavra voando).

À leitura do título do espetáculo, me veio à cabeça o martelar da dúvida de quem tem uma razoável coleção de discos: pergunto à minha esposa se ela lembra de alguma música que fala em cerol (serol?). Ela diz que não e eu retruco um “mas eu tenho” e fico em dúvida sobre em que disco encontrá-la, já olhando para uma das estantes.

Cerol (serol?), cerol (serol?), cerol (serol?)… A palavra-dúvida ecoava em minha cabeça. “Cerol (serol?) foi feito pra cortar”, me veio o verso, matei a charada: era Pedra de cantarei, poemúsica de XXI (2000), primeiro livro-disco de Celso Borges.

Há palavras que de tanto falarmos (desde a infância), nunca escrevemos. “Cerol é com c ou com s?” “Com c, de cera”, me responde o poeta ao telefone. “Mas no XXI tá com s, ‘serol foi feito pra cortar’”, retruco, lendo o verso. “Lá ‘tá errado. Cerol é com c, não é, galera?”, ele responde, perguntando ao bando com que andava.

“pedra de cantarei/ o futuro ao deus dará o futuro sem deus/ serei serás/ serol foi feito pra cortar/ matei e cortei o passado papagaio presente/ lá vai!// pedra de cantarei/ meu futuro a mim pertence/ iris arco do non sense/ vídeo-rei/ eu não errei/ meu coração de charlie brown/ ninguém sabe onde foi dar/ só eu sei/ pedra de cantarei”, a voz de Zeca Baleiro no poema de Celso Borges com música assinada por ambos, a 42ª. faixa de XXI.

Não fui ao Aurélio matar a dúvida. Entre o C e o S cabe Celso BorgeS e sua Poesia com P maiúsculo.

Baleiro, ímpar, íntegro

“Adoraria fazer algo aí, especialmente pra essa ocasião [os 400 anos de São Luís], mas diante do contexto político da cidade e do estado, não posso tomar parte. Confesso que às vezes sinto uma certa vergonha da situação social e politica do Maranhão. Temos vocação para a riqueza e somos miseráveis. Temos uma cultura exuberante e nossos artistas morrem à míngua. Temos um patrimônio arquitetônico único e a cidade de São Luís é só ruínas. Triste!”

&

Afiado e certeiro, Zeca Baleiro em entrevista a Samartony Martins nO Imparcial de hoje (28) [Impar, p. 1]. Com participações especiais de Nosly e Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões) o cantor e compositor faz show acústico no Teatro Arthur Azevedo na próxima terça-feira (31), às 20h30min. O espetáculo, beneficente, se dá em prol da finalização da construção da Casa da Acolhida Nossa Senhora da Graça (Rua Touro, nº. 10, Recanto dos Signos, Cidade Operária), em São Luís.