Nova edição do Almanaque JP Turismo nas bancas. No Quintal Poético desta edição, assino a presente, já lançada em “Uma crônica e um punhado de poemas de amor crônico”. Dia 7 de setembro, relançamento da (s)obra, no Bumba Lanches (em frente ao Convento das Mercês), durante a realização da 3ª Semana Cultural do Desterro [Mais detalhes por aqui, em breve].
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O amor dói, é claro, mas dá prazer. É droga que vicia, é igreja que liberta. Sacro e profano no mesmo altar/terreiro. A antítese mais gostosa, como nos versos de Camões, musicados pela Legião Urbana. O cronista está apaixonado. “Mais uma vez”, aporrinham alguns amigos. “Mas dessa vez é pra valer”, retruca.
O destino nos prega peças agradáveis. Digo isso por que é vontade do cronista namorar alguém que detesta as músicas que ele ouve; e pior: ele detesta as músicas que ela ouve. Tem andado com cara de bobo e bebido um bocado, arranhando os cotovelos no balcão de um bar vizinho à faculdade onde ambos estudam, à espera de sua musa; enquanto espera, ouve música ruim. O cronista tem escrito poemas quase diariamente; ela lê, e demonstra gostar.
Cansado de escrever sobre uma mulher diferente a cada revista, o cronista quer fazer de sua musa, a musa eterna – ao menos enquanto dure, como já diria o saudoso poetinha. Fazê-la personagem. A sua “baixinha de olhos graúdos e brilhantes”, como a “menina triste de olhos verdes” das crônicas de João Paulo Cuenca. Ela receia, “não serei mais uma?”, deve se perguntar. O cronista imagina, pois vive também de ficção, embora saiba o quanto é real tudo o que sente por ela.
O cronista não consegue se concentrar em nada. Começa a ler diversos livros, mas pensa tanto nela, que acaba desistindo antes do fim do primeiro capítulo; isso, quando consegue vencer a barreira da primeira página, por mais interessante que seja o livro. Só um romance interessa: o próprio. Outrora, palavrões em cada frase. Agora, só diz poemas. Não consegue escrever outra coisa que não poemas para a musa. E da redação, ligam: “cadê a crônica?”. Detesta ser irresponsável e decepcionar. Mas desta vez não haverá crônica. Desistam, o cronista não mais escreverá. Virou poeta.
