“Não diria que eu tenho um sonho de consumo, mas gostaria de um dia poder viver da escrita e poder fazê-lo em casa, de calção e chinelos”, costuma repetir o cronista. Contente com o “dez” na monografia de uma prima da mulher amada, no Curso de Medicina da Federal, e apaixonadíssimo, num gesto inédito, botou um terno e foi ao baile. Não foi barrado e gostou muito da experiência. “Mas vou propor à minha turma que faça a festa de formatura com todos vestidos de forma simples, com churrasco, à beira de uma piscina”, adianta. A foto que ilustra este texto está disponível em meu fotoblogue (link ao lado).
Os que conhecem o cronista sabem de sua preferência pelo simples. No vestir, não é diferente: calção, chinelos, de preferência havaianas (sem merchandising), camiseta regata, “São Luís é quente, pra quê mais que isso?”, pergunta/argumenta, e suapochete, inseparável. “Sem a pochete é como se eu perdesse uma parte de meu corpo”, costuma dizer ele sobre o quase-apêndice.
Quando soube que iria à formatura de uma prima da namorada, “em medicina”, ficou agoniado. “Terno?, carece mesmo tudo isso?”, “Claro! É só uma noite”. Tudo bem. O que não fazia o amor? Pensou em comprar um. Duzentos paus, em média. “Não usarei um termo tão cedo”. Aluguel: quarenta e cinco. Resolvido.
Na locadora, experimenta daqui, experimenta dali. Tá apertado. “A gente folga”. Tá folgado. “A gente aperta”. Estica daqui, puxa dali, “como é que folga essa gravata? E o lance do nó?”, não tinha experiência nenhuma com estes trajes. A moça da locadora teve toda paciência e o cronista saiu dali, “paga a metade agora e a outra metade no recebimento”, deixando reservado o terno.
Era o dia da festa. “Você não está esquecendo o terno, está?”, uma mensagem no celular, sua namorada perguntava. “Estou chegando à locadora”, respondeu. Era quase meio-dia, a velha mania de deixar as coisas para a última hora. Deixou o terno em casa, encontrou dois amigos e tome cerveja a tarde toda. Voltou para casa, cochilou. Com a velha mania de deixar as coisas para a última hora, levantou-se e foi procurar pilhas para a máquina fotográfica. Alguns amigos ficaram sabendo das vestes e “não acredito! Não deixe de tirar retratos, quero ver essa cena única”. Foi em duas farmácias, “sou do tempo em que farmácias só vendiam remédios”, costumava lembrar-se da canção de Zeca Baleiro, quase um dito popular para ele, perto de sua casa e não achou as tais pilhas. “Compro no caminho”. Não comprou.
Vestiu o terno e suou em bicas. Misto de nervosismo, “será que estou bem?”, agonia e calor. Mais um pouco e a namorada o apanharia em casa para o baile.
Na festa, sentou-se à mesa com a namorada, a irmã da namorada e seu namorado, uma prima da namorada – não era a nova médica – e seu namorado e mais um casal que só conheceu ali. A namorada sentada à sua direita; à esquerda, o namorado da prima da namorada. Com este, portou-se como uma velha comadre: “olha só que à toa” e apontava para este ou aquele desalinhado que adentrava o grande salão.
Sempre com a namorada, dançou um pouco de tudo o que a banda tocou. Embora não soubesse dançar. “E você diz não saber dançar, hein?”, ela dizia. “Mas eu não sei”, ele respondia. E dançava. E dançavam. Gostou bastante da festa, serviço de primeira, “não consegui secar meu copo em nenhum instante”.
Chegou em casa, galos cantando ao longe. Logo raiaria um domingo de pré-carnaval, o terceiro domingo comum para a igreja católica. Tirou o traje festivo e pôs logo a beca no plástico (acompanhado da cruzeta) em que a mesma veio da locadora. Na segunda-feira, devolveria tudo, prevendo um diálogo com o rapaz ou a moça do balcão, onde um deles mostraria algum defeito novo na roupa e querendo que ele pagasse a fortuna prevista no termo de responsabilidade assinado por ele: quatrocentos paus o terno, cem a calça, cento e oitenta o sapato, trinta a gravata e por aí vai. O diálogo não aconteceu, ainda bem.
