a liberdade de expressão é um direito, e como tal, não deve ferir outro. até ler o artigo que cito no texto abaixo, não tinha parado para pensar nisso, ao menos não de forma mais séria e/ou profunda, sei lá. e pensar nisso só me fez aumentar o não gostar dessa “música” (?) a que chamam forró (gonzagas, jacksons, joões do vale e marineses devem remexer-se em seus túmulos). a música é ruim, as letras piores ainda. uma verdadeira desgraça, praga que se multiplica infinita e rapidamente, esgotos a céus e porta-malas abertos, com outros “malas” ao(s) volante(s).
não, não há aqui preconceitos (conceitos, eu diria que sim, mas isso é julgamento que não me cabe fazer) nem desrespeito à(s) diversidade(s) cultural(is).
o tema merece debate. sério, diga-se.
abaixo, nosso texto na tarde de ontem.
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Liberdade de expressão tem limites
Liberdade de expressão em debate: um direito humano não pode violar outro.
por Zema Ribeiro
da Editoria de Cultura
O artigo “Expressões ilimitadas e liberdades tolhidas: um olhar crítico sobre a “liberdade de expressão””, assinado por Sheila Bezerra, mestra em Antropologia (UFPE), publicado na Revista do Terceiro Setor acende um debate interessante sobre a indústria “musical” brasileira e preconceitos por ela incitados.
Um dos sucessos do momento, em ônibus, esquinas e porta-malas abertos é “Bomba no Cabaré”, de um tremendo mau gosto – péssimo, eu diria. Trechos da letra: “jogaram uma bomba no cabaré / voou pra todo lado pedaço de mulher / foi tanto caco de puta pra todo lado” e tome aberrações a torto e a direito. E este é apenas um exemplo do que se ouve ininterruptamente por aí, dia após dia.
Sheila Bezerra diz em seu artigo: “A questão que se aborda aqui nesse espaço, não está mais na limitação ditatorial do que é pensado, mas, no seu extremo, aos abusos porque a liberdade de expressão vem passando e quais os caminhos a serem trilhados no combate aos mesmos, uma vez que direito à liberdade de expressão não pode ferir outros direitos humanos”.
A questão merece profundo debate, para além da clássica pergunta-faca de dois gumes: o povo tem que se contentar com as porcarias que as rádios tocam ou as rádios tocam porcarias para satisfazer o gosto popular? A questão é batida, sei. É necessário que se garanta o acesso do povo a obras de qualidade, entendendo a cultura como um direito humano fundamental, em vez de mera “mercadoria” – mercadoria, aqui, entre aspas, podendo ser entendida como o eufemismo dominical, também batido, sempre usado por Fausto Silva.
É questão complexa, obviamente [, repito]. Mas é urgente que comecemos uma mudança. E pensar sobre o tema já é um bom começo. Como nos diz Oscar Wilde em determinado trecho de “A alma do homem sob o socialismo” [L&PM Editores, R$ 9,90 em bancas de revista]: “A arte nunca deveria aspirar à popularidade, mas o público deve aspirar a se tornar artístico. Há nisso uma diferença muito ampla”. Nosso papel deve ser o de garantir essa aspiração ao público. E não ser entendido aqui, como mero preconceituoso.
