[recordações desalinhadas de uma noite que não me sairá da memória]
[ou: (aos que não foram) ó o que vocês perderam!]
boa noite a todos e a todas. essa é a quinta edição do sarau projeto “clube do choro recebe“.
a idéia do projeto é possibilitar um espaço democrático para prática e fruição da boa música brasileira, especialmente o choro, o samba, por que não dizer os ritmos da cultura popular do maranhão, mas tendo sempre como matriz instrumental o choro, enquanto linguagem musical brasileira já profundamente entranhada na produção musical maranhense.
e então? os nossos saraus de sábado têm sempre um grupo anfitrião, que hoje será o já tradicional regional tira-teima, integrado por paulo trabulsi (cavaco solo) francisco solano (violão de sete cordas), joão neto (flauta), gugu (pandeiro), henrique (percussão) e zeca (cavaco centro).
têm também, a cada sábado, um convidado ou uma convidada especial. já passaram por esse palco figuras como os léos espirro e capiba, fátima passarinho e chico nô. para o sarau de hoje, o clube do choro recebe lena machado.
lena machado é uma grata revelação da nossa música. ano passado gravou o cd “canção de vida“, comemorativo aos 50 anos da cáritas brasileira, que já teve diversas indicações ao prêmio universidade fm de música.
depois é a hora de participações e canjas especiais, quando outros instrumentistas e cantores poderão mostrar também suas capacidades musicais, dentro dessa linha samba-chorística. então, com vocês, regional tira-teima.
anunciados pelo texto acima, escrito/dito por ricarte almeida santos, que mais e mais merece o epíteto de embaixador do choro no maranhão, o regional tira-teima subiu ao palco e sentou-se à mesa, num autêntico clima de botequim para os primeiros números da noite. o pequeno atraso para o início nem de longe ameaçou o brilho da festa.
é domingo de manhã enquanto posto e ouço chorinhos e chorões, apresentado pelo mesmo ricarte, que já falou de ontem no programa, fazendo breve retrospectiva desta mais recente edição do sarau, sucesso absoluto. como eu disse ontem aos amigos jaime e lucineth: nada do que eu escreva traduzirá. portanto, caro leitor, que tal aparecer por lá sábado que vem? o bar e restaurante chico canhoto fica ali no residencial são domingos (cohama, por detrás do hiper mateus). em pouco tempo, o espaço certamente já se transformou no novo templo sagrado do choro no maranhão.
perdoem-me a desordem dos pensamentos. se a noite de ontem não tira dez pelo particularíssimo motivo da ausência de minha namorada (que viajava à trabalho), ela foi simplesmente impagável: r$ 3,00 de couvert artístico é nada.
chico maranhão chegou para compor a platéia. cumprimentei-o. “recebi seu convite e vim ouvir”, ele me disse. agradeci e disse que queríamos tê-lo como convidado especial, um sábado destes.
ricarte passou-me o bloco onde estava anotada a sua fala inicial: “zema, escreva algo para apresentar nossa amiga lena”. seu pedido era uma ordem, e eu a cumpri assim:
se ainda restam dúvidas do talento de lena machado, é hora de tirar a teima. no samba, no choro e no riso, ela vem se mostrando uma grata surpresa da música maranhense, aliando o canto à luta por um mundo melhor. e o que seria do mundo sem música? sabe-se lá. nossa certeza é que com boa música, ele é bem melhor.
agora os instrumentos do tira-teima unem-se à voz de lena machado, nossa convidada especial desta quinta edição do projeto “clube do choro recebe”. é com muito prazer que nós, o clube do choro e o regional tira-teima recebemos lena machado. uma salva de palmas!
lena atacou com a já clássica “flanelinha de avião”, de cesar teixeira, que apareceu no meio da música e dividiu a mesa conosco até que anunciamos-lhe a presença de chico maranhão. de uma saudação entre gênios, o homem ficou por lá, num encontro raro e belo.
“aniceto, pega isso aí! capte as emoções”, eu “orientava” nosso retratista oficial a fazer imagens do par de compositores. aniceto neto, que tantas vezes já cedeu imagens para este blogueiro, em posts aqui ou no overmundo, pacientemente clicava tudo o que podia. como sou apressado e não podia guardar este texto (melhor postar antes que me fuja algum detalhe), depois penduro fotos de ontem por aqui.
depois de cesar teixeira, lena machado cantou chico maranhão (“ponto de fuga” e “meu samba choro”) e podíamos ver sorrisos de aprovações em suas faces. pareciam dar o devido aval à cantora.
“acho que chico e cesar estão esperando apenas uma provocação”, provocou-me márcio jerry. lena ainda passeou por josias sobrinho, dona ivone lara e clara nunes, antes das canjas de osmarzinho do trombone e zé luiz do sax, este, pai do violonista luiz jr., ora em turnê por portugal. subiram ainda ao palco os léos capiba e espirro, que dialogaram em inspirada interpretação de “teresa da praia” (billy blanco e tom jobim).
enquanto eles passeavam por diversos clássicos, eu usava novamente o bloquinho de ricarte (irresponsável, trazia nem caneta), a que ele acrescentou o parágrafo inicial:
zeca baleiro e chico césar escreveram uma música gravada por elba ramalho [“face”, parceria de zeca baleiro, chico césar e itamar assumpção, gravada pela paraibana no disco “flor da paraíba”, 1998] que dizia “dou a minha cara para bater, mas se quiser pode beijá-la”. dou aqui a minha à tapa.
sem nenhum desmerecimento a nenhum dos artistas aqui presentes, por mais redundante que isso possa parecer, criou-se aqui, grande expectativa, a partir de suas presenças, por ouvirmos os gênios, os mestres chico maranhão e cesar teixeira.
chico e cesar, como o nome de um terceiro compositor, da nem tão longínqua paraíba. um traz o maranhão no sobrenome artístico, ambos trazem o maranhão nas veias de suas composições. ambos aqui presentes como platéia, e que riquíssima e belíssima platéia. cada qual terá seu sábado como convidado especial ou, quiçá, um sábado conjunto.
aceitem nosso convite, desafio, desejo e, mesmo sem ensaio, abrilhantem ainda mais a noite cuja lua brilha mais com suas brilhantes presenças — e redundo de novo. sem ensaio, pois monstros sagrados não carecem disso. brilhem, além da platéia, cá no palco!
da mesa em que estava, cesar teixeira fez um belíssimo discurso sobre a importância daquela iniciativa do clube do choro. “assustado”, chico maranhão subiu ao palco, “eu não sei discursar, então o jeito é cantar”, disse, e, sozinho ao violão, cantou uma das músicas encartadas no livro que ele lançou quinta-feira passada. reclamou do som e (não) ouviu impropérios de um “esquentadinho” da platéia, que logo foi embora e tudo se transformou em grande festa (depois de ricarte negociar com outro, que, da platéia, desafinava com um surdo). o regional tira-teima voltou ao palco e acompanhou chico em mais alguns números, incluindo uma “vassourinha meaçaba” com performance de cesar teixeira, que dançava como se varresse o bar. em dupla, cantaram “ponto de fuga” e depois era a vez de cesar teixeira tomar conta do palco, com direito à diversas voltas de chico maranhão, que deixou sua participação especial pré-agendada (na hora certa divulgaremos por aqui).
além dos diversos clássicos que tem de sobra, cesar teixeira passeou ainda pelos repertórios de cartola (“cordas de aço”), noel rosa (“feitiço da vila”) e lupicínio rodrigues (“nervos de aço”).
já tendo feito intervenção na apresentação de léo espirro, quando, dentro de “eu sei que vou te amar” declamou o “soneto de fidelidade” (vinícius de moraes), a poeta kátia dias encerrou a noite recitando dois poemas cujos créditos não tenho.
certamente uma noite para entrar na história. se você quer fazer parte dela, caro leitor, apareça lá sábado que vem. nós te esperamos.
