redondas

dois discos

lembram do lance das unanimidades rodrigueanas? pois é. pode parecer bobo preconceito ou arrogância pura, mas funciono assim: se 90% da turma diz que fulano de tal lançou um disco m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o – e isso está longe de ser uma u-n-a-n-i-m-i-d-a-d-e – tenho de tudo para desconfiar. fico com a pulga atrás da orelha e adio a audição enquanto posso. às vezes posso dizer: bosta pura, eu estava certo. às vezes me engano. foi o que aconteceu com “back to black”, de amy winehouse (cantora que tem muito mais que um nome interessante). depois de ver gente como ademir assunção, ronaldo bressane e gisele brasil falando, tive que me render. valeu a pena. antes tarde do que nunca.

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outro disco que agora não sai do cd-player é a trilha sonora de “juno”, filme que ainda não vi. tem uma beleza e uma unidade dylanescas, longe da mesmice ou do “cansativo”.

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e uma bobagem

acesso a blogs do wordpress no brasil pode ser bloqueado”. é o que informa esta notícia (péssima, para leitores do impostor e dos cerca de um milhão de blogues hospedados por lá no brasil) do g1, a que cheguei via idelber. o que acho disso? uma tremenda e redonda bobagem, sem dúvida.

diálogo

(ou: ainda guardanapos)

bar. noite. três cervejas enxutas. na quarta, o peixe frito chega, junto aos apetrechos: vinagrete, farofa, pimenta. e guardanapos.

homem: “não posso ver guardanapos…”

mulher: “por que?”

homem: “me dá vontade de te escrever um poema”

mulher, irônica: “tá! vou fingir que acredito…”

homem: “é verdade! embora tu ache uma merda o último que te fiz…”

silêncio da mulher.

homem: “acho que tu não gostou e jogou fora”

a mulher permanece em silêncio enquanto mexe na bolsa, de onde tira sua carteira, que abre, mostrando o poema guardado.

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anotado em horrenda caligrafia num guardanapo na noite de ontem.

certeiro 2

“[…]

Se assim é, qual é a lógica que sustenta ataques e contra-ataques, futricas e fofocas na própria categoria (não é nem o caso de se falar em “classe”)? Por que as atitudes de desagregação, de fragilização dos trabalhadores da Comunicação Social têm um poder maior do que as ações em prol da união, do fortalecimento e do aperfeiçoamento profissional?

[…]

Acabar, ou reduzir, esse jornalismo de vizinhança, essa Imprensa de recados (somos jornalistas ou “office-boys“?), essa Comunicação Social que não é social, é tarefa não apenas para profissionais competentes, mas sobretudo para seres humanos conscientes — conscientes de que há um consumidor esperando um produto ou serviço cada vez melhor. Conscientes de que há um processo permanente de (re)construção de si mesmo.

É assim que se faz crescer uma categoria e uma classe: com categoria e com classe.

[…]

Basta dessa nossa vidinha de ir escapando por aqui ou por ali. […] Precisamos ser necessários à nossa população como o são, para ela, o ar, a água e o pão de cada dia. Basta de sermos apenas passatempo! […] Basta de sermos USADOS. Temos de ser OUSADOS.

[…]”

Trechos de “A imprensa inimiga”, artigo de Edmilson Sanches nO Estado do Maranhão de hoje, 7 de abril, dia do jornalista. Grifos do autor.

certeiro

“Voltei para a minha arrumação de malas, enchi uma valise e a carreguei para o carro, onde o resto das minhas coisas — máquina de escrever, livros, roupas — estavam empilhadas no banco traseiro. Agora que eu estava pronto para ir embora pela última vez, havia uma questão não concluída. Parei ao lado do carro e resolvi. Eu provavelmente nunca mais encontraria Edgington. Como poderia gravar nele a recordação desta partida neste dia chuvoso? Por fim resolvi a questão e voltei para dentro da casa. Ele estava no sofá.

— Estou indo embora agora — anunciei.

Ele levantou e estendeu a mão.

— Boa sorte, gringo.

Acertei-o no rosto e derrubei-o no sofá. Ficou lá sentado, cuidando da hemorragia nasal. Voltei para o carro e fui embora. Eu não devia ter batido em Edgington. Ele tinha sido hospitaleiro, amigável, generoso e gentil. Mas eu não podia agüentar a arrogância dele. Era bem-sucedido demais para mim. Tudo estava acontecendo para ele. Eu não tinha arrependimentos. A vida era assim. Eu lamentava pela hemorragia nasal, mas ele bem que a merecia. Quanto a Velda van der Zee, que se fodesse. O que era mais um diretor? A cidade estava fervilhando deles.”

John Fante, Sonhos de Bunker Hill. L&PM, 2003. Tradução de Lúcia Brito.

uivos

cachorros latindo longe, como na música de josias sobrinho. menos melodiosos, os latidos me deixam irritado. apesar de tudo, procuro manter a paciência. aliás, tudo o que tenho, quase um monge, de tanta.

mais longe que os cachorros, mano reuben me manda um e-mail intitulado “ginsberg zen”, fruto de uma madrugada insone, com duas traduções do autor de “uivo”. leiam abaixo.

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———- Forwarded message ———-
From: reuben ! <reubencr@gmail.com>
Date: 01/04/2008 02:14
Subject: Ginsberg Zen
To: reubencr@gmail.com

Queridos,
Duas traduções recentes do Ginsberg,
poemas de pegada mais tranqüila,
mas nem por isso com menos pegada.
Espero que estejam bem,
r.

Guru

É a lua que desaparece
A estrela que se esconde, não eu
A Cidade que se apaga, eu permaneço
com meus sapatos esquecidos
minhas meias invisíveis
É a batida de um sino

Florianópolis, Março 2008

Guru

It is the moon that disappears
It is the stars that hide not I
It’s the City that vanishes, I stay
with my forgotten shoes,
my invisible stocking
It is the call of a bell

Primrose Hill, May 1965

Vila em Teton

Montanhas nevadas
vistas pelas asas
da mosca na vidraça

1 de Abril, 2008

Teton Village

Snow mountains fields
seen thru transparent wings
of a fly on the windowpane

November 29, 1973

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um cabra bom, com o que dizer (mesmo quando por bocas ou dedos alheios, como eu acho que já escrevi por aqui). jéssica já voltou, reuben. agora é a sua vez!

na mosca!

COMO DIZIA LEMINSKI: MORRA, VOCÊ NÃO SABE O QUE ESTÁ PERDENDO

pessoas acham graça
da desgraça alheia

pessoas bem vazias
se acham muito cheias

ilhas habitadas
por ratos e serpentes

tanta gente que nem sabe
mais o que é ser gente

celebridades big brother
pastores bad boy

vendendo a mãe o padre
e um lugar ao sol

o paraíso em prestações
melhores juros do mercado

deus meu, que bom negócio
jesus, muito obrigado

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poema de ademir assunção, postado ontem em seu blogue. como sempre certeiro, não preciso dizer mais, preciso?