Tudo é extremamente real em Nossa vida não cabe num Opala, filme brasileiro que obteve relativo sucesso no cenário alternativo, ano passado. Talvez o excesso de álcool incomode certos puristas. É bom que saibam que existem pessoas assim, de verdade.
Essa realidade nua e crua é o que há de melhor no filme: a história de irmãos ladrões de carros que precisam continuar no ofício para honrar uma dívida do pai falecido com um mafioso de desmanches, saga de tragédia e chantagem geração após geração, maldição (?). As vidas dos ladrões, “coisas” pelas quais, às vezes, não damos o mínimo valor.
O filme, no entanto, não tenta nos passar lições de moral, ao menos não no sentido formal, “moral da história” ao pé da página. Mas chega a incomodar – e este é um bom sentimento para durar além das letras subindo ao final.
Adaptação da peça Nossa vida não vale um Chevrolet, de sua autoria, o dramaturgo Mário Bortolotto não gostou do resultado final, segundo depoimentos em seu blogue, o Atire no Dramaturgo. Bortolotto, aliás, aparece tranqüilo, bebendo num boteco, numa das cenas.
Leonardo Medeiros (Lavoura Arcaica) é Monk, o filho mais velho que deseja honrar Oswaldão, o pai falecido. Medeiros se sai bem como protagonista: é, a contragosto, exemplo para Slide (Gabriel Pinheiro), que também por conta da dívida do pai vai lutar boxe – ofício abandonado por Monk: “Eu queria mesmo era ser ladrão”, o irmão mais novo confessa a admiração pelo mais velho.
O elenco conta ainda com nomes como Jonas Bloch, Milhem Cortaz (Tropa de Elite), Maria Manoella (Crime delicado), Maria Luiza Mendonça, Paulo César Pereio, o pugilista Maguila e Dercy Gonçalves – sua última aparição no cinema, recheada de palavrões.

[Dercy disparando palavrões em sua última aparição no cinema. Foto: divulgação]
Reinaldo Pinheiro saiu-se muito bem em sua estreia como diretor. Por trás, uma trilha sonora impecável, a cargo do Maestro Amalfi e Mário Bortolotto. Somada à bem trabalhada fotografia, cria um clima diferente do que é comumente visto no cinema nacional.
Eu recomendo: Nossa vida não cabe num Opala está em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com sessões às 16h, 18h30min e 20h30min. Os ingressos custam R$ 4,00 e R$ 2,00 (para estudantes com carteira e pessoas com mais de 60 anos; para todos, aos domingos).
