BEIJINHO DOCE

(LEMBRANDO A GRAVAÇÃO DE PATRÍCIA AHMARAL)

Li, em algum dos cadernos da edição de ontem de O Imparcial, um texto sobre a música Beijinho doce, recorrentemente entoada por Flora na novela das oito da Globo. Bom, eu ia dizer “vilã” Flora e ia dizer o nome da novela, mas como eu não assisto, não sei se Flora é vilã, nem o nome da novela. Juro! Não, não se trata de preconceito. Não bato arrogantemente no peito: “eu não assisto novela”. O que estou dizendo, vocês entendem, é que eu não assisto, no sentido de acompanhar, essa novela. Vá lá, vez em quando corro os olhos, distraído, tendo levantado as vistas da leitura de alguma revista.

Bom, sem muita atenção também, li o texto, que trazia informações sobre a música citada, sobre seu compositor, um obscuro Nhô Pai, gravações importantes etc. Entre estas, infelizmente não cita a bela roupagem que lhe deu a cantora mineira Patrícia Ahmaral em seu disco de estréia, Ah! (1999), produzido por Zeca Baleiro. A gente tenta, aqui, corrigir a omissão, que pode ter se dado por qualquer motivo. O engraçado é que, pode ser pura coincidência, no mesmo Ah!, Ahmaral gravou também Fala (João Ricardo e Luli), outro hit d’A Favorita (juro que lembrei do nome da novela enquanto escrevia o post e preferi não editá-lo lá em cima), entoada por um maluco beleza, um bicho grilo cujo nome do personagem não sei e cujo nome na vida real terminei aqui os dois paragrafinhos e não lembrei.

NELSON BRITO SOBE

Há certos telefonemas que não deveriam acontecer. Não pelas pessoas que ligam, sempre próximas, queridas, amigas. Mas pelas notícias que trazem. Não ouvi meu celular tocar e ele já acumulava algumas chamadas não atendidas e uma mensagem, que resolvi ler: Nelson Brito havia falecido. Choque.

Troquei uma ligação com uma amiga e soube de um acidente vascular cerebral e da subida inesperada do ator e diretor teatral maranhense, diretor do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte) e ex-presidente da Fundação Municipal de Cultura. Tristeza.

Nunca mais versos no Testamento de Judas, nunca mais par no Cacuriá de Dona Teté, nunca mais aquela fantasia de padre de onde, moleque, um cacete se erguia quando de suas ordens como a abençoar bebuns no carnaval. Dor.

Nelson Brito era casado com a cantora Rosa Reis que certamente encontrará nos amigos – este blogueiro, inclusive, que dá a notícia tarde e foi covarde o suficiente para não ir ao velório, enterro ou, sequer, para um telefonema de pêsames – o apoio necessário para seguir com os propósitos em que acreditam. Força!

Falecido ontem, o saudoso Nelson Brito foi sepultado na tarde de hoje no Cemitério do Gavião, na Madre Deus. Que ao lado de Felipe e Terezinha Jansen, como um grande mestre que também era, ajude os que ficam por aqui a vencer as pedras do meio do caminho, como diria outro poeta. Amém!

DEZ

Minha amiga Elen Mateus acaba de passar por aqui convidando-me para uma cerveja: estava (merecidamente) muito feliz com o 10 que havia acabado de conseguir ao defender sua monografia, concluindo o curso de Relações Públicas na UFMA.

Ainda não li o trabalho (que ela ficou de me enviar), mas o sucesso da moça me deixou muito contente. Versa sobre “maranhensidade“, usa texto desse blogue e entre os agradecidos figura este quase-jornalista, vagabundo que já já se forma também.

Ah, ela e o namorado estavam vestidos numas camisetas muito legais, com estampas e poemas sobre lendas do Maranhão. Como eu ganhei uma no finzinho do ano passado, mui bonita, a do Rei Sebastião, depois fotografo e penduro aqui, para os poucos-mas-fiéis leitores deste blogue morrerem de inveja. Ou encomendarem as suas.

Elen, querida, parabéns! Um compromisso pré-agendado me impedirá de acompanhá-la nessas cervas. Mas beba todas, que você merece. Ou beba tudo que você merece.

PUXÕES DE ORELHA


[Foto: Bruno Torturra Nogueira, no site da Trip]

[…]

Mais do que isso… música popular, por mais que seja um produto, tem um poder político e medicinal, assim como qualquer arte. O poder de tocar o coração, emocionar, ou seja, de fazer os fluidos de uma pessoa circularem melhor, mais rápido, por um instante. Eu digo fluidos querendo trazer o sentido do humor, que é a capacidade de os fluidos circularem. Então, se eu for capaz de emocionar alguém, se eu for capaz de fazer alguém olhar para si mesmo com novos olhos, se essa pessoa tiver vontade de dividir essa bobagem que é uma musiquinha com outro… Então, essa é a minha pequena contribuição para a crise. É uma musiquinha que vai fazer a pessoa se sentir melhor, e talvez reflita numa outra coisinha que ela vai fazer depois. Isso tem um poder político, entende?

[…]

O jornalista tem um papel crucial, ele é o tradutor de mensagens do mundo, ele é o explicador, o denunciador…

[…]

[Sobre se o papel está sendo cumprido ou não] Não, não está. Claro que em determinadas instâncias sim. Existem pessoas excelentes e veículos seriíssimos, mas esses veículos estão sendo sufocados. “Antigamente” é um termo bastante ignorante… mas vou continuar com esse termo. Antigamente as instituições eram quem determinava o que ia ser feito, ou uma censura reacionária, censura militar, que definia o que ia ser exposto e o que não ia. No nosso tempo são os publicitários, ou nem os publicitários, os anunciantes! São os empresários que decidem a que a gente vai ter acesso. Tem muita gente que vai ficar puta porque diz: “Não, o passado era muito pior!”. Não tô dizendo que o passado era melhor. Eu não sou saudosista em momento nenhum, só digo assim: agora quem determina são os comerciantes!

[…]

Aí entra o refinamento do capitalismo. O dinheiro vai comprando as coisas, as instituições e os veículos. E agora é assim, tudo tem um patrocínio [nota engraçadinha: menos este blogue]. Infelizmente, é assim que vejo. E o jornalismo cultural então…

[…]

[Sobre o jornalismo cultural] Tem muito recalque. É uma preocupação muito mais com o bastidor, a vida pessoal. É o bom e velho sensacionalismo, mas na cultura parece que a preocupação é em chegar ao ponto fraco para mostrar o fundilho daquela pessoa. Tá muito mais focado na pessoa do que propriamente no que ela está fazendo. Vamos dizer, você está me entrevistando, mas vamos dizer que você não gosta da minha música. Mas você escreve para quem possivelmente vai gostar – é assim que deve ser.

[…]

[O repórter comenta parecer que a maioria de seus/nossos pares se preocupa mais em parecer fazer parte do circuito que em entendê-lo, fazer parte da fofoca a ir além dela] Isso mesmo. Acho que o recalque vem um pouco daí também, de uma frustração. Aí fodeu, não vai ficar bom mesmo. É aquele mesmo lance da música [citando trecho anterior da entrevista], fazer pra receber em vez de fazer pra dar algo. Principalmente em jornalismo cultural, que envolve muito ego, vira um exercício de chupação do próprio pau, de tentar fazer uma carreira baseada na persona, menos que no conteúdo em si, na visão.

[…]

*

Trechos da entrevista que Rodrigo Amarante, integrante da banda Little Joy, concedeu a Bruno Torturra Nogueira em Oklahoma City. Tá nas Negras da Trip de dezembro [173].

Não é uma pena a fala do músico ser tão verdadeira? Não deveríamos nós fazer o contrário, para nem ele nem ninguém ter do que reclamar? Reinventar? (Re-)Aprender? Tá na hora, né? É bom aproveitar esse comecinho de ano, época das famosas listas do que vamos e não vamos fazer, para prometer fazer jornalismo (cultural) com mais responsabilidade, aprofundamento, seriedade. É dois mil inove! Leia a entrevista completa aqui.

A PRIMEIRA DO ANO

O PECADINHO DE MARCIA CASTRO: PECADO É NÃO OUVIR!

A cantora baiana Marcia Castro reúne diversos compositores brasileiros em avenida musical vasta e charmosa: Pecadinho, seu disco de estréia.


[A baiana Marcia Castro foge de obviedades em seu disco de estréia. Foto: site da cantora]

Certas coisas não merecem obediência: a placa de “pare” numa das esquinas da Avenida Otávio Mangabeira, exposta na capa de Pecadinho (2007), estréia da baiana Marcia Castro em disco é uma delas. E não se preocupe com o cão aparentemente feroz que a cantora traz na coleira: é avançar a sinalização e, literalmente, cair no Frevo, isto é, no Pecadinho (1972) de Tom Zé e Tuzé de Abreu, que acaba por batizar o belo trabalho, vencedor do prêmio Brasken Cultura e Arte 2006.

Ao longo da avenida musical de Marcia Castro – uma Bahia, um Brasil inteiros – em vez de placas de “pare”, placas de “ouça!” deveriam ser instaladas. Por lá passeiam compositores como Zeca Baleiro (Nega neguinha), Sérgio Sampaio (Em nome de Deus), Kléber Albuquerque (Futebol para principiantes), Roque Ferreira (Barulho, cujos vocais Marcia divide com Zélia Duncan), Manuela Rodrigues (Barraqueira, com participação especial da compositora), J. Velloso (Medo), Itamar Assumpção (Tua boca), Jorge Mautner (Rainha do Egito) e, entre outros, Luciano Salvador Bahia, que além de assinar Queda, é responsável pelos arranjos, direção e produção musical.

Uma faixa bônus, vídeo clipe interativo, transforma o Pecadinho em Picadinho, onde aparece Tom Zé, que não canta, mas (se) diverte. A audição deste disco, aliás, é pecadinho que todos devem cometer – a igreja da boa música brasileira há de perdoar quem o fizer. Mas sem “o ano inteiro pra gente pagar”: a audição é que tem que ser constante. Corrigindo a placa da capa: “ouça(m) sem parar!”. Ou, já que o disco não é cerveja, “aprecie sem moderação!”


[capa de Pecadinho. Reprodução]

[Primeira Tribuna Cultural do ano, Tribuna do Nordeste, 4 de janeiro de 2009]

AMIGOS DO RIO,

imperdível: amanhã, 7 de janeiro, o mago Ubiratan Sousa lança seu Bruxaria, às 21h, no Estrela da Lapa (Av. Mem de Sá, 69, Lapa, fone: (21) 2507-6686).

A apresentação do maranhense terá participações dos músicos Luizinho 7 Cordas, Wagner Ortiz, Nando Souza, Marco Barros, Cacau Amaral, Rui Alvim e Quinteto de Clarinetes. Os ingressos custam R$ 10,00 e 5,00 (meia).

TORNANDO…

Definitivamente 2008 não foi um ano ruim. A gente reclama por hábito, sempre tem alguma coisa, já que a perfeição não existe. Casei, fiz 27 anos, trabalhei bastante (continuo), não conclui a graduação (de 2009 não passa!), ‘tou feliz. É isso!

Que 2009 tenha encontrado bem todos os poucos-mas-fiéis leitores deste modesto espaço.

Abaixo, dois momentos de dezembro, antes de voltarmos às atividades (a)normais.


[A Vida é uma Festa!, dia 18 de dezembro. Já passava de meia-noite quando o blogueiro batia palmas, acompanhado por, em sentido anti-horário, Jordânia (simulando um voo), Nilra (os cabelos sem corpo que aparecem na foto), Graciane e Graziela; depois (ou antes?), Jordânia subiu ao palco e cantou os parabéns, acompanhada de ZéMaria Medeiros e banda Casca de Banana]


[“Macaco velho não mete a mão em cumbuca”, mas o blogueiro precisava comprar os ingressos para o reveião no Chamamaré: só reggae lindo do começo até a hora que ficamos — 5h30min da manhã –, tanto nas discotecagens de Neto Miller, Frank Wailer e Ademar Danilo, quanto no repertório da banda Barba Branca, de Alcântara]

UM CLIQUE AINDA DE 2008

Certamente essa imagem não vale mais que as mais de mil palavras que eles trocaram. Disparei o flash (insuficiente, como se percebe) dia 27 de dezembro, quando da memorável apresentação de Cesar Teixeira e do Regional Tira-Teima na última edição de 2008 do projeto Clube do Choro Recebe.

Aí está o registro: Joaquim Santos conversando com João Pedro Borges. Dois maranhenses. Dois gênios. Dois dos mais importantes violonistas do Brasil e do mundo. Dois ex-integrantes da Camerata Carioca, onde tocaram, entre outros, ao lado do também genial Radamés Gnattali.