Tive ontem uma experiência ímpar: apresentei o Chorinhos e Chorões. A história toda foi de uma tremenda coincidência: mostrei a Ricarte Almeida Santos a música O goleiro, inédita de Edvaldo Santana cujo mp3 está disponível para download em seu site oficial (e cujo arquivo eu havia recebido do compositor, por e-mail). Para não apresentarmos essa única música do mestre de São Miguel Paulista, eu disse ao embaixador do choro no Maranhão: “vamos mostrar essa, mais um choro dele, Choro de outono, e completamos um bloco dele com alguma coisa que tenha a ver” – e aí eu já havia pensado em Reserva de alegria, a abolerada faixa-título do mais recente bonito disco de Santana.
Ricarte pediu-me então que eu escrevesse um texto apresentando Edvaldo aos ouvintes da Universidade FM. Tomei gosto pela coisa e me dei a liberdade e escrevi o script para o primeiro bloco do programa. Como eu já estava diante do computador, mandei ver: selecionei umas coisas de Sérgio Sampaio mais afeitas ao choro (Que loucura, Velho bode e Velho bandido) e ao samba (Polícia bandido cachorro dentista, Cala a boca Zebedeu e Eu quero é botar meu bloco na rua), escrevi o roteiro para mais dois blocos e fechei o quarto bloco do programa com as duas últimas músicas que Mestre Antonio Vieira cantou em vida: Cocada (com direito a versão declamada, antes de cantada) e Tem quem queira, de sua canja em 14 de março no Clube do Choro Recebe, quando o Urubu Malandro, grupo por ele integrado, recepcionou a cantora Rosa Reis. O programa estava pronto, óbvio o link entre Santana e Sampaio: dois caras, entre muitos muito bons que, apesar da música de extrema qualidade, não tocam no rádio. Nem quem ‘tá vivo nem quem… “cala a boca Zebedeu! O poeta não morreu!”
Era sábado à noite e mais uma chuva torrencial castigava a Ilha – e o Maranhão como um todo. Tanto que, ironia do destino, o lançamento de uma campanha de arrecadação de donativos em favor das vítimas das enchentes no interior do estado, fruto de parceria entre o Clube do Choro do Maranhão e a Cáritas Brasileira Regional Maranhão, teve que ser adiado. Justo por causa das águas que impediram a realização do tradicional sarau musical, que acontecerá sábado que vem, com as bênçãos de São Pedro, quando o Clube do Choro Recebe homenageará Mestre Vieira, que completaria, dia 9 de maio, 89 anos, se não tivesse nos pregado a peça de subir antes da hora.
Domingo de manhã, Lucas me liga: Ricarte, seu pai, estaria em minha porta em 20 minutos. Era cedo e eu, órfão do Clube do Choro na noite anterior acordei sem ressaca – apesar de ter trocado o Chico Canhoto do não-sarau pelo Bar do Léo da não-música ao vivo. Resolvi tomar um banho rápido: como Ricarte não havia lido nada do script, eu estava pronto para, se fosse o caso, ir à rádio e, ao longo do programa, em off, ir esclarecendo dúvidas, acrescendo informações, enfim, dando-lhe apoio, além do técnico de Val Monteiro, que opera lá os aparelhinhos e faz a música rolar.
Chegamos ao estúdio pouco mais de meia hora antes do início do programa. Dali a pouco Ricarte receberia de sua esposa um telefonema com o motivo de força maior que o tiraria do ar na manhã de ontem. Um nervosismo natural tomou conta do blogueiro: a responsabilidade é(ra) (muito) grande. Alguns telefonemas, ao longo do programa, me tranquilizar(i)am: do apresentador substituído, de Arnold Filho, diretor da rádio, de diversos familiares, na Ilha e em Rosário, além dos elogiosos comentários de Val Monteiro, que apresenta os programas de antes e depois do Chorinhos e Chorões.
Experiência ímpar, repito. Alguém aí ouviu? O que achou?
Abaixo, a Tribuna Cultural (Tribuna do Nordeste) de ontem também, também choro. Eu acho que saiu. Como não peguei o impresso ontem, e mandei o texto com atraso para o jornal, reproduzo aqui, otimista (isto é, espero que tenha rolado).
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PORTABERTA, ELETRICHORO
4aZero mostra amadurecimento em Porta Aberta – Memórias do Choro Paulista, segundo disco do grupo.
[Capa. Reprodução]
Guitarra, contrabaixo, bateria, piano. Se você pensou em rock, errou. Se sente urticária à simples menção da palavra choro (ou sua variante chorinho), piorou. O novo disco do quarteto paulista 4aZero – um grupo de choro – tem esse instrumental – de rock –, soa inovador, mas mantém firmes os pés na tradição. Tanto é que o repertório revisita compositores, através de seus não poucos clássicos, do interior paulista.
Porta Aberta – Memórias do Choro Paulista [Cooperativa, 2008, R$ 20,00] é o segundo título da discografia iniciada com Choro Elétrico [2005] e fica evidente o amadurecimento de Daniel Muller (piano acústico e elétrico), Danilo Penteado (baixo elétrico e cavaco), Eduardo Lobo (guitarra elétrica) e Lucas da Rosa (bateria e percussão), quiçá fruto de suas participações em projetos paralelos envolvendo outras vertentes musicais, além do choro: jazz, latina, samba, regional e erudita.
Passado, presente, tradição e modernidade se fundem – o choro como maneira de tocar, mesclando ritmos diversos – pendendo o cd menos à urbe rocker, mais ao cenário bucólico de uma quitanda ou coreto de praça de cidade do interior, de nomes sonoros como Guaratinguetá, Indaiatuba e Piracicaba, entre outras do interior paulista natal de nomes como Zequinha de Abreu (Bafo de onça e Tico-tico no fubá), Laércio de Freitas (Camondongas e O cabo Pitanga), Bomfiglio de Oliveira (Amor não se compra e Flamengo), além do contemporâneo Nailor Proveta (Choro da Clara), que faz participação especial em sua composição.

Olá Zema!!! So pude ouvi os dois primeiros blocos do “Chorinho e chorões” gostei foi bem, Ricarte quando quiser ja pode tirar umas férias ou dormir até mais tarde. rsrsrsrsr. abraço
obrigado, grande ivo! espero é que da próxima vez que eu precisar substituí-lo seja por um desses motivos que você cita. grande abraço!
Nossa homenagem ao samba! Assista.
http://www.youtube.com/watch?v=Fbhy_erNI7U
obrigado pela dica. vou ver. abração!