Foi bem legal a jornada de Jornalismo Cultural ontem, na Faculdade São Luís. Assim que receber fotos, penduro algumas aqui. Abaixo, texto que saiu no Pequeno de hoje.
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O PALCO DA BOA MÚSICA EM SÃO LUÍS
Templo do choro da Ilha, o restaurante Chico Canhoto se abre também ao samba. Na sexta (5), A Voz do Samba; no sábado (6), Clube do Choro Recebe.
POR ZEMA RIBEIRO*
ESPECIAL PARA O JP TURISMO
Caminha para completar dois anos – em setembro próximo – a ideia, aparentemente simples, de reunir músicos e apreciadores do choro em São Luís no Bar e Restaurante Chico Canhoto, localizado no Residencial São Domingos, Cohama, por trás do Supermercado Mateus.
“Tudo começou com uma visita do músico mineiro Paulinho Pedra Azul à São Luís. Ele veio fazer um show e eu já havia encontrado com ele em outras ocasiões e sabia que ele gostava de conhecer músicos, bater papo, e tocar informalmente, trocar idéias, influências. Em outra visita, já o havia levado ao Bar do Léo [Vinhais] e ele havia ficado encantado. Desta vez, para deixá-lo tocar [o Bar do Léo já não trabalha com música ao vivo], levamos ao Terraço Casa Grande [nome “oficial” do Chico Canhoto, como é simplesmente conhecido]. Tivemos um bom público com a visita do compositor e no sábado seguinte, o público voltou querendo mais”, explica Ricarte Almeida Santos, produtor do Clube do Choro Recebe, que sábado após sábado, desde 1º. de setembro de 2007 é espaço privilegiado da boa música na capital maranhense.
O Regional Tira-Teima, mais antigo e tradicional grupamento de choro em atividade em São Luís, já se reunia ali para tocar, pero sem compromisso – e também sem plateia, praticamente. Não houve dúvidas: eles seriam os primeiros anfitriões do projeto que se iniciava. Para dar a largada, o convidado foi Léo Spirro, voz boêmia das mais bonitas do Maranhão. O formato estava definido: um grupo instrumental apresenta um show, recebendo e acompanhando, na sequência, um cantor ou cantora, um instrumentista ou, mais raramente, outro grupo instrumental. Depois dos dois shows da noite, é a vez das canjas, onde o grupo anfitrião se mistura a músicos que então estavam na plateia, além de cantores e cantoras, e mais raramente poetas. Neste terceiro momento, tudo rola no improviso.
Raros foram os sábados em que não houve sarau, nesse mais de ano e meio: “Somente em algumas épocas festivas, quando não temos como concorrer com outras atrações que acontecem na cidade e, mais recentemente, alguns cancelamentos têm ocorrido por conta das chuvas”, comenta Ricarte. Sábado passado (30), foi um exemplo: a apresentação do grupo Chorando Calado recebendo a cantora Lena Machado foi adiada. “Quando isso acontece, reprogramamos a apresentação para uma data à frente, não podendo ser no sábado seguinte, por agendarmos as atrações com antecedência”, explica. Ironia: no último dia 2 de maio, o Clube do Choro do Maranhão em parceria com a Cáritas Brasileira Regional Maranhão lançariam uma campanha em favor das vítimas das enchentes no estado. Uma chuva torrencial castigou toda a São Luís naquele sábado e o lançamento da campanha foi adiado para 9 de maio, quando, na data de aniversário do recém-falecido Mestre Antonio Vieira, o grupo Urubu Malandro – outrora integrado pelo “velho moleque” – recebeu diversos nomes da música do Maranhão para um repertório exclusivamente composto pelo autor de Banho cheiroso.
Neste sábado (6), a convidada é a cantora Célia Maria, de inegável talento mas, infelizmente, ainda pouco (re)conhecida dentro de seu estado natal. Com um único disco gravado, o homônimo Célia Maria (2001), a cantora deu ao compositor Joãozinho Ribeiro dois prêmios Universidade FM daquele ano, nas categorias melhor letra e melhor música, pelo choro Milhões de uns, certamente presente ao repertório dessa apresentação. No disco, todo arranjado por Ubiratan Sousa – e no show –, figuram ainda compositores como Cesar Teixeira, Chico Maranhão, Bibi Silva, João do Vale, Antonio Vieira, Chico Buarque e Tom Jobim, entre outros.

[A cantora Célia Maria é a convidada do projeto neste sábado (6)]
Quem acompanha Célia Maria é o grupo Choro Pungado, talvez o mais inventivo da cena choro maranhense contemporânea, fruto já do Clube do Choro Recebe. “O grupo surgiu de uma ideia de Ricarte, de reunir alguns músicos para acompanhar o cantor Bruno Batista. Éramos eu, Luiz Cláudio [percussão], João Neto [flauta] e Rui Mário [sanfona] e o grupo se chamava Quartetaço, por causa da música Aço, de Bruno Batista. Depois Robertinho Chinês [bandolim e cavaquinho] juntou-se a nós e nasceu o Choro Pungado”. É Luiz Jr. [violões de seis e sete cordas e viola caipira] quem explica a gênese do grupo, cuja proposta musical principal é mesclar o choro aos ritmos da cultura popular maranhense – cacuriá, lelê, tambor de crioula, bumba meu boi em seus diversos sotaques, tribo de índio, tambor de mina, coco, samba e o que mais pintar.
A apresentação repete encontro acontecido sexta-feira passada (29), quando Célia Maria e o Choro Pungado apresentaram-se juntos, no projeto Choro Pungado Convida, no Bar Maloca [Lagoa]. “A experiência do Clube do Choro Recebe deu uma renovada na cena da música instrumental do Maranhão e, após o sucesso do Chico Canhoto como palco do choro em São Luís, vários grupos surgiram, vários instrumentistas passaram a se dedicar mais ao mais brasileiro de todos os gêneros musicais e várias casas já abriram espaço para o choro e há programa para quem aprecia o gênero praticamente todas as noites”, comenta Lena Machado, cantora que está finalizando seu segundo disco, onde registra diversos sambistas e chorões maranhenses: Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Aquiles Andrade, Chico Nô, Ricarte Almeida Santos, Chico Canhoto – sim, o anfitrião também compõe – Joãozinho Ribeiro e Gildomar Marinho, entre outros.
A cantora se refere à agenda semanal do choro na Ilha: o Regional Um a Zero se apresenta todas as segundas-feiras, às 19h, no Bar e Restaurante Antigamente [Praia Grande]; nas terças, a partir das 20h, o Instrumental Pixinguinha manda ver no Por Acaso [Lagoa]; às quintas é a vez do Regional Tira-Teima, com a voz de Zeca do Cavaco à frente, em repertório de samba e choro no Espaço Armazém [Praia Grande]; além dos já tradicionais saraus do Clube do Choro, no Restaurante Chico Canhoto, aos sábados.
Tido por uns apreciadores como “o templo sagrado do choro no Maranhão”, o ponto certo de sábado, se transforma num templo de celebração ao samba, às primeiras sextas-feiras do mês: é o projeto A voz do Samba, que nesta sexta-feira (5), a partir das 20h, leva ao palco o encontro do grupo Espinha de Bacalhau com o cantor e percussionista Boscotô e o músico Gari do Cavaco, ambos integrantes dos grupos Regional 310 e Máquina de Descascar’alho, além do Regional Os Madrilenos, grupo de choro que surgiu para acompanhar nomes da Madre Deus em apresentações no Clube do Choro Recebe, a exemplo de Adão Camilo e Eudes Américo.
Ricarte Almeida Santos, que ganhou o epíteto de “embaixador do choro no Maranhão” quando o Instrumental Pixinguinha venceu a categoria “melhor disco de música instrumental” do prêmio Universidade FM 2006, por sua estreia, Choros Maranhenses (2006), explica, didático: “O surgimento do choro se dá por diversas hibridizações. Os grupos e instrumentistas foram abrasileirando ritmos europeus e africanos e polca virou choro, maxixe virou choro e o gênero musical brasileiro por excelência foi se formando. É interessante irmos repetindo nesses espaços essa experiência de trocas, entre a velha guarda e a jovem guarda, entre o tradicional e o moderno, entre o choro e o samba, os ritmos da cultura popular, enfim, misturando o que é diferente é que surge algo novo”.
SERVIÇO
O quê: A Voz do Samba e Clube do Choro Recebe.
Quando: sexta-feira (5), às 20h; sábado (6), às 19h30min.
Quem: Espinha de Bacalhau com os convidados Boscotô e Gari do Cavaco (A Voz do Samba); Choro Pungado recebendo a cantora Célia Maria (Clube do Choro Recebe).
Onde: Restaurante Chico Canhoto (Residencial São Domingos, Cohama)
Quanto: R$ 10,00 (A Voz do Samba) e R$ 6,00 (Clube do Choro Recebe) (entrada).
