Festival Estadual da Rede Mandioca celebra aniversário da Cáritas

[O Debate, hoje]

Evento integra a programação da Semana Nacional da Solidariedade, que se encerra dia 12 de novembro, quando a Cáritas completa 54 anos de atuação no Brasil

ZEMA RIBEIRO
EDITOR DE CULTURA

Atualmente articulando mais de 70 grupos, comunidades e associações de produtores, a Rede Mandioca está presente em mais de 30 municípios, em todas as regiões do Maranhão. Entre as premissas de sua Carta de Princípios, documento discutido e aprovado em plenárias estaduais, está a valorização da cultura da mandioca, tida como “o pão dos pobres”, elemento muito importante da mesa do maranhense.

A Rede Mandioca e a Cáritas Brasileira Regional Maranhão realizam, dias 10, 11 e 12 de novembro, em São Luís, o 1º. Festival Estadual da Rede Mandioca. O evento integra a programação da Semana Nacional da Solidariedade, que celebra em todo o Brasil, os 54 anos de atuação da Cáritas no país. O organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil integra a rede Caritas Internationalis, presente em cerca de 200 países.

O Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e a Praça Valdelino Cécio, ambos na Praia Grande, serão o palco dos três dias do festival: atividades de formação (debates, seminários, palestras), feira (comercialização da produção de grupos e associações filiadas à Rede Mandioca) e atividades culturais (shows musicais) compõem a programação (veja abaixo).

Armando a Rede – A Rede Mandioca surgiu em 2004, inspirada em outras experiências bem sucedidas de articulação em rede, pautadas nos princípios da economia popular solidária. Sua área de atuação é o estado do Maranhão, embora vez por outra, dialogue com experiências em outros estados. A Cáritas Brasileira Regional Maranhão assume a assessoria técnica à articulação.

Foi na entidade, aliás, durante um encontro de planejamento, que surgiu a ideia de articular em rede, produtores, não só de mandioca: a Rede Mandioca congrega também artesãos, criadores de pequenos animais, extrativistas e agricultores, entre outros.

O 1º. Festival Estadual da Rede Mandioca terá representantes de todas as regiões do Maranhão. O Debate conversou com Jaime Conrado, assessor de Desenvolvimento Solidário Sustentável Territorial da Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Cearense radicado no Maranhão, ele é bacharel em Filosofia (Faculdade Evangélica do Meio Norte) e mestre em Agroecologia (UEMA).


O assessor em visita de acompanhamento a um grupo produtivo. Foto: Zema Ribeiro

ENTREVISTA: JAIME CONRADO

O Debate – A Rede Mandioca surgiu há quanto tempo e de que premissas?

Jaime Conrado – A discussão sobre a criação da Rede teve início ainda no começo dessa década e veio se concretizar em 2006, a partir do trabalho iniciado nas comunidades de Riacho do Mel e Vila Ribeiro, ambas no município de Vargem Grande. Esse trabalho foi motivado basicamente pelos seguintes pontos: necessidade de dar continuidade à ação Cáritas na região de Coroatá, iniciado com conquista da terra, construção de cisternas, formação de crianças e adolescentes etc., combate ao aliciamento de trabalhadores rurais para o trabalho escravo, em parceria com a CRS [a organização Catholic Relief Services] através do [projeto] Trilhas de Liberdade e fortalecer a economia popular solidária a partir de uma experiência de rede produtiva.

O Debate – Como funciona a Rede Mandioca?

Jaime Conrado – A Rede Mandioca tem uma coordenação geral com 14 participantes de suas sete regiões de abrangência: Baixada, Vale do Pindaré, Mearim, Cocais, Baixo Parnaiba, Tocantina-Sul e Central. Há reuniões semestrais e uma plenária anual para o processo de avaliação, monitoramento e planejamento das ações da Rede. Todo o trabalho tem o assessoramento da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, através de técnicos especializados em todo o processo produtivo da agricultura familiar.

O Debate – Que procedimentos devem ser tomados por quem deseja se filiar? É possível a filiação individual?

Jaime Conrado – A filiação à Rede Mandioca acontece somente de forma coletiva, seja de grupos formais e informais, associações, cooperativas, clubes de mães etc. Para filiar-se à Rede Mandioca, cada grupo deve realizar uma assembleia geral fazer a leitura de sua Carta de Princípios, e concordar com ela. Em seguida escreve uma ata da referida assembleia e encaminha à coordenação da Rede, que faz sua leitura nas reuniões de coordenação, que posteriormente será apresentada na plenária anual da Rede.

O Debate – Qual o tamanho da Rede Mandioca hoje?

Jaime Conrado – A Rede está presente em todas as Regiões do Estado. Atualmente fazem parte da Rede Mandioca cerca de 35 municípios e mais de 70 comunidades rurais com um público de aproximadamente 10 mil famílias beneficiadas com as ações da Rede Mandioca

O Debate – Qual o papel da Cáritas Brasileira Regional Maranhão em todo o processo?

Jaime Conrado – O papel da Cáritas Brasileira foi e ainda é fundamental para a animação do processo de criação e, agora, de assessoramento técnico dos grupos desde a organização da produção até a comercialização direta ao consumidor final. Cabe à Cáritas a parte da formação político-pedagógica dos agentes locais que apoiam no desenvolvimento das ações junto aos grupos nas suas Dioceses.

O Debate – Como você analisa a atuação do Governo do Estado com relação à cultura da mandioca?

Jaime Conrado – Historicamente a mandioca é a base da alimentação dos maranhenses. Mas infelizmente ela não tem o mesmo tratamento que é dado a outras culturas introduzidas no nosso Estado, a exemplo da soja, eucalipto e outras. Nos últimos 30 anos a agricultura familiar no Maranhão passou e passa por dificuldades devido à falta de apoio governamental no tocante à questão da assistência técnica, extensão rural, pesquisa e falta de recursos, entre outros, provocando diminuição da produção e produtividade, elevando mais ainda os índices de pobreza do nosso Estado. Nesse período foram criados alguns programas de governo, como por exemplo Comunidade Viva, Prodim, Fumacoop, que além de não dar conta de todas as demandas agrícolas do Estado, ficaram restritos apenas ao mandato de cada governo, pois não eram políticas públicas voltadas para o desenvolvimento do setor e sim um programa de governo, que interessava apenas a alguns.

O Debate – Quais as principais conquistas da Rede Mandioca desde seu surgimento até hoje?

Jaime Conrado – Já podemos citar algumas conquistas durante esse período: organização política e produtiva dos grupos beneficiados, melhora na qualidade, aumento e diversificação da produção, garantindo aumento da renda e perspectiva de autossustentabilidade, inserção nas discussões, articulações e conquistas de políticas públicas e desenvolvimento sustentável, novas perspectivas de comercialização, através de feiras locais, estaduais e nacionais, compra direta, saindo de cena a figura do “atravessador”, preços mais acessíveis, recuperação da autoestima dos produtores de mandioca, retomada do fundo de crédito na lógica da economia popular solidária e direcionada para a cultura da mandioca, maior visibilidade das temáticas e maior reconhecimento da instituição e da Rede junto à sociedade e Estado, papel articulador e de referência da Rede e movimento de economia popular solidária, favorecimento de intercâmbio com experiências de grupos acompanhados pela Cáritas Brasileira de outras regiões do Estado, entre outros. Também nessa caminhada temos alguns desafios: ampliação da Rede estadual e regionalmente, diversificação de fontes de financiamento e apoio, que temos hoje do Banco do Nordeste, aprimoramento do processo produtivo na perspectiva da garantia da qualidade, certificação, diversificação e verticalização, ampliação dos contatos para favorecer o fortalecimento e diversificação do processo de comercialização, constituição de um espaço de apoio e referência da cultura da mandioca, criação de condições de apoio às novas comunidades e grupos que estão aderindo à Rede e maior incidência junto ao Estado para definição de políticas públicas específicas de fomento à cultura da mandioca junto a Rede, como assistência técnica e crédito.

O Debate – A Rede Mandioca realiza, de 10 a 12 de novembro, seu primeiro festival estadual. É ideia torná-lo anual? Itinerante?

Jaime Conrado – Sim. Pensar na criação de um espaço onde os grupos possam, além de obter mais informações e trocar experiências sobre as suas realidades, possam também mostrar e comercializar seus produtos diretamente ao consumidor, tendo a oportunidade de explicar o processo de produção, manuseio das culturas, uso de remédios alternativos etc. Quanto à questão de se tornar itinerante, teremos que pensar junto com a coordenação da Rede, pois quando pensamos em realizar o Festival em São Luís, era principalmente pela visibilidade. Mas vamos ver essa possibilidade de realizarmos em outros lugares.

O Debate – Apesar do nome, a Rede Mandioca trabalha com outros produtos, como pequenos animais, azeites, coco babaçu, cachaça, artesanato, produtos do extrativismo, entre outros, dentro das perspectivas da economia popular solidária. Quais os principais avanços neste campo, tanto no cenário nacional quanto estadual?

Jaime Conrado – O grande avanço nesta questão foi a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, no início do primeiro mandato do Presidente Lula, que permitiu, ainda timidamente trabalharmos com algumas políticas para o setor. No Maranhão foi criada uma Secretaria do Trabalho e Economia Solidária que iria tratar das questão voltadas para a economia solidária. Durante os dois anos de sua existência as ações da secretaria estavam direcionadas para a capacitação de jovens para o mercado de trabalho, visando principalmente os grandes projetos que virão para o Maranhão. As ações de economia solidária foram pontuais e conforme o interesse das pessoas que estavam à frente da referida secretaria e com isso não avançamos nesse campo da economia solidária aqui no Maranhão. Atualmente essa secretaria está a serviço do grande capital. Todo o trabalho realizado está reduzido a capacitações de jovens formando mão de obra para a siderúrgica e a refinaria. Estão sendo realizadas algumas feiras em quase todo o Estado, algumas mais permanentemente, a exemplo de Vargem Grande e outras mais esporádicas, como em Codó, São Mateus e Imperatriz.

O Debate – Passadas as eleições, é possível prospectar um cenário para os próximos quatro anos a partir dos resultados, tanto no Brasil quanto no Maranhão?

Jaime Conrado – Acredito que a Senaes [a Secretaria Nacional de Economia Solidária] possa migrar para uma secretaria especial ligada à Presidência da República, que com certeza irá ampliar mais as ações para a economia solidária. No Maranhão, não vejo esses quatros próximos anos com otimismo para economia solidária. É claro o direcionamento do governo do estado para o grande capital, portanto, a economia solidária será vista como caridade, solidariedade, e não como uma política para esse setor econômico da sociedade.

PROGRAMAÇÃO

Dia 10 (quarta-feira): 16h: Abertura oficial do 1º. Festival Estadual da Rede Mandioca > Lançamento da nova logomarca da Rede Mandioca > Feira (Praça Valdelino Cécio) > 19h: Show de Chico Nô (Praça Valdelino Cécio).

Dia 11 (quinta-feira): Seminário Estadual sobre Produção, Beneficiamento, Comercialização e Consumo Ético Solidário (Auditório Rosa Mochel, Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho). 9h: Mesa: Produção e beneficiamento da produção agroecológica (Rede de Agroecologia do Maranhão/RAMA, Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão/ASSEMA, Associação dos Trabalhadores(as) Rurais da Comunidade de Cantos dos Bois/Vargem Grande/MA) > 10h30min: Mesa: Fundos Rotativos (Clarício dos Santos Filho/BNB/ETENE) > 15h: Feira (Praça Valdelino Cécio) > 19h: Show: Forró Pé no Chão de Seu Raimundinho (Praça Valdelino Cécio).

Dia 12 (sexta-feira): 10h30min: Mesa: Comercialização e Consumo Ético Solidário (Instituto Marista de Solidariedade/IMS, Companhia Nacional de Abastecimento/Conab, Cooperativas dos Trabalhadores Agroextrativistas de Vargem Grande/Coopervag, FNDE/PNAE) (Auditório Rosa Mochel, Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho) > 15h: Feira (Praça Valdelino Cécio) > Show: Cesar Teixeira (Praça Valdelino Cécio).

SEMANA DA SOLIDARIEDADE

DOM DEMÉTRIO VALENTINI*

O mês de novembro sempre evoca a Cáritas. Não é por menos. Ela faz aniversário no dia 12, lembrando sua fundação em 1956, por obra e graça de Dom Helder Câmara. No mês do seu aniversário, para festejá-lo bem, a Cáritas Brasileira promove a Semana da Solidariedade, tendo o dia 12 como referência para definir seu calendário.

Neste ano, a Semana da Solidariedade faz apelo a duas circunstâncias, ambas especiais, e que interpelam a Cáritas. A primeira é a importante definição política que o País acaba de realizar, com o término das eleições, que dessa vez foram amplas e gerais.

Definidos os comandos políticos, nas esferas nacional e estadual, sejam quais forem as composições resultantes, uma constatação salta aos olhos: o governo sozinho nunca resolverá todos os problemas do povo. Sempre haverá necessidade de iniciativas e de participações, que superam as restritas obrigações legais e apelam para a solidariedade.

A solidariedade não precisa ser eleita, mas sim reconhecida, incentivada, organizada e assumida. Ela motiva a cidadania, que lhe aponta as urgências prementes, dando-lhe os contornos definidos; oferece ao Estado os seus préstimos, que acabam viabilizando uma administração pública com plenas garantias de estar a serviço das verdadeiras causas do governo, é sempre bem-vinda, sempre tem seu lugar, sempre contribui com valores que passam a ser melhor integrados nos relacionamentos sociais, econômicos, políticos e culturais.

Semente fecunda – A outra circunstância especial da Semana da Solidariedade deste ano é o Prêmio Odair Firmino, criado recentemente e que terá o seu primeiro ganhador nessa ocasião. O nome lembra a pessoa que todos recordam com saudade e admiração Odair Firmino. Ele esteve décadas ligado à Cáritas, deixando um inequívoco testemunho de humanidade, respeito, competência e identificação com os ideais dessa instituição. Odair foi a pessoa que todos gostariam de ter como companheiro de luta, como amigo de todas as jornadas, como figura a inspirar otimismo e confiança.

Realmente não podia ter sido escolhido nome mais adequado do que este, que recorda uma presença inesquecível para a Cáritas Brasileira. O objetivo do Prêmio Odair Firmino é incentivar a consolidação das Cáritas Diocesanas e impulsionar o surgimento das Cáritas Paroquiais, conforme meta estabelecida na última Assembleia da Cáritas Brasileira.

Enfim, cada vez mais se comprova que a semente fecunda da solidariedade encontra chão propício no seio das comunidades próximas à vida do povo, às paróquias, com suas ramificações comunitárias.

Neste chão, a solidariedade encontra mais facilmente condições propícias para a gratuidade, que enobrece sobremaneira a solidariedade e lhe dá o sabor especial da caridade consciente, atenta e organizada, permitindo iniciativas que dão motivações novas para as comunidades, despertando-as para a participação social adulta e comprometida.

A Semana da Solidariedade, com a concessão do Prêmio Odair Firmino, certamente deixará marcas especiais neste ano que tem muito de especial para a nossa realidade brasileira.

*Dom Demétrio Valentini é bispo de Jales (SP) e presidente da Cáritas Brasileira. Artigo originalmente publicado na Revista Família Cristã nº. 76, de novembro/2010.

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