2010 foi um ano de grandes notícias. Destaques para o lançamento da Caixa Preta, que reuniu a obra completa de Itamar Assumpção, incluindo discos inéditos, e o relançamento do Catatau de Paulo Leminski.
Antes de eu dar outra grande notícia de 2010, voltemos a 2006: dois poemas de Marcelo Sandmann, de seu Criptógrafo amador (Medusa):
CERVEJA E PROSA
“A arte é uma Dama que distrai a morte
Enquanto se atira aos braços da vida.”
(“Poesia e Vinho” – Adalberto Müller)
Um copo de cerveja
e dois dedos de prosa,
junto ao balcão de um boteco encardido.
Um salgado, que seja,
e pimenta cheirosa.
Pois bem: a ocasião faz o bandido.
Porque lá pelas tantas,
pela porta entreaberta,
a tal “Dama” daquele teu poema
chegou, um tanto às tontas,
e justo na hora certa,
de braços dados com o velho Tio Lema.
Sentaram ali do lado,
de costas para nós,
e como gargalhavam, gargalhavam…
Já eu, muito calado,
ouvia logo após.
(Mas como gargalhavam, gargalhavam…)
Sumiram de repente,
evaporados no ar.
Nem um eco restou do bate-papo.
Me aproximei, bem rente,
o tempo só de olhar
uns versos truncados no guardanapo.
E cá comigo eu disse,
em bem claro e bom som:
“preciso achar caneta que não borre”.
E sem que alguém pedisse
minha conta ao garçom,
saí dali, um gole antes do porre.
(p. 74-75)
PARA QUE LEDA ME LEIA
(voltas sobre mote de leminski)
para que leda me leia
escrevo em papel de seda
à mão, mas mão que tateia
muito lenta, quase queda
a mão de alguém que receia
romper a trama da teia
queimar-se na labareda
para que leia me leda
escrevo com grãos de areia
que ampulheta, sim, me ceda
sobre manchas, a mancheias
grãos bem claros, como greda
por que a gemas só suceda
de restarem na bateia
para que leda me leia
escrevo a vera vereda
que a laguna, em lua cheia
logo leve, lá onde leda
ao doce canto que enleia
(fero canto de sereia?)
seu sorriso me conceda
(p. 79)
Antes, ainda, da notícia, o próprio Sandmann, acompanhado da Zirigdansk, diz um poema do livro (p. 38-39), em vídeo que vi há muito tempo num extinto blogue de JRT:
Pois bem: outra grande notícia, para fechar o ano bonito, é o lançamento de A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez Estudos sobre a Obra de Paulo Leminski, livro que reúne dez ensaios sobre a criativa e multifacetada obra do “tio Lema”, organizado por Sandmann e publicado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.
