A potência de Juliana Linhares

Juliana Linhares e trio no palco do Festival BR-135 - foto: Zema Ribeiro
Juliana Linhares e trio no palco do Festival BR-135 – foto: Zema Ribeiro

Quem já ou/viu sabe que Juliana Linhares é uma das mais potentes artistas da música brasileira surgidas neste primeiro quarto de século e sua apresentação, ontem (14), no Festival BR-135, reafirmou isso.

A potiguar se agiganta no palco, dona da situação, canta com o corpo, com os olhos, ao mesmo tempo cantora e também atriz que canta, nordestina nutrida por seu chão, que também ajuda a nutrir com seu canto, mais que agridoce, agreste-doce.

Quando esteve na bancada do Sem Censura, com Cissa Guimarães, na TV Brasil, por ocasião da entrevista de Chico César e Zeca Baleiro, ela revelou que ouvia seus discos na solidão de seu quarto e cantava acompanhando. Hoje é parceira de ambos.

Acompanhada por Elísio Freitas (guitarra e direção musical), Renata Neves (violino) e Estevan Cípri (bateria), Juliana Linhares apresentou um vigoroso show de uma hora – aliás, de parabéns o BR-135: todas as apresentações começaram pontualmente.

O repertório passeou por seu merecidamente aclamado álbum Nordeste Ficção (2021), desde a faixa-título, e covers de Belchior (“Comentário a Respeito de John”, parceria com José Luís Penna, num original arranjo forró), Zé Ramalho (“Galope Rasante”) e Elino Julião (“O Rabo do Jumento”, no bis), “um conterrâneo”, como fez questão de frisar, cantada à capela, como na véspera, quando Juliana deu uma palinha no Festival Por Terra, Arte e Pão, que celebrava os 40 anos do MST.

Ao longo da apresentação, como o álbum, aberta por “Bombinha” (Carlos Posada), Juliana Linhares ainda havia de dar recados políticos, postura que ela nunca escondeu: em “Balanceiro” (Juliana Linhares/ Khrystal Saraiva/ Moyseis Marques/ Sami Tarik), por exemplo, que frequentou a trilha sonora da novela Renascer, já está embutida no refrão: “eu não posso mudar o mundo, mas eu balanço”. Outro recado direto, carregado de fina ironia, é “Aburguesar” (Tom Zé).

“Vamos rir da cara desse povo que está destruindo o nosso país e fazer rápido alguma coisa para mudar”, disse antes de emendar gargalhadas em meio a “Tareco e Mariola” (Petrúcio Amorim). Chamou o intérprete de libras para cantar com ela “Embrulho” (Juliana Linhares/ Chico César). Gestualmente celebrou a liberdade sexual da mulher ao cantar “É Mais Embaixo”, sucesso da alagoana Clemilda (1936-2014), a rainha do duplo sentido, emendada com a “Lambada da Lambida”, outra parceria com Chico César. E agradeceu a oportunidade de estar em São Luís pela primeira vez, a convite do Festival BR-135, celebrando a iniciativa de um line up completamente formado por artistas nordestinos e com forte presença feminina.

Ao set list de Juliana Linhares compareceriam ainda “Meu Amor Afinal de Contas” (parceria dela com Zeca Baleiro), “Armadilha” (Caio Riscado/ Juliana Linhares), a singela “Bolero de Isabel” (Jessier Quirino) e “Frivião” (Juliana Linhares/ Rafael Barbosa de Araújo), a celebrar o dia do frevo, comemorado ontem. Mais uma vez parabenizando o festival e agradecendo toda sua equipe, revelou, sobre sua presença ali: “eu já estava há anos num namoro com Luciana Simões, finalmente deu certo”. E convidou a cantora, compositora e produtora para outro bis, num dueto em que repetiram “Bombinha”.

No segundo palco, na sequência, os piauienses da Boi de Piranha não deixaram ninguém parado, num bailão que foi de carimbó, lambada e calipso, com referência e reverência a Poly e Seu Conjunto no clássico “Moendo Café” (Bella Maria/ Manzo).

Na sequência – sempre pontualmente, frise-se novamente – a turma do Seu Pereira e Coletivo 401 era super aguardada e fez também um show entre o dançante e a sofrência, agradando enormemente o público presente.

Apoteótica e simbólica foi a volta de Juliana Linhares ao palco para dividir com a banda, após uma troca de gentilezas e admiração recíproca, um medley que foi um verdadeiro passeio pelo Nordeste, que começou com “Pedra de Responsa” (Chico César e Zeca Baleiro), continuou com “Sinhá Pureza” (Pinduca) e clássicos do forró, como “Forró Desarmado” (Cecéu/ Lindolfo Barbosa) e “É Proibido Cochilar” (Antonio Barros).

Serviço: O Festival BR-135 continua hoje (15), a partir das 15h, no Forte Santo Antonio (Ponta d’Areia). A programação (gratuita) de hoje tem DJ Jorge Choairy (15h, Palco 1), Instrumental Pixinguinha (16h, Palco 2), Baque Mulher São Luís (17h, 1), Athuy (18h, 2), Cátia de França (19h, 1), Femme Fusion (20h, 2) e Mombojó (21h, 1).

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