Uma lição de vida

Tomás Vidiella e Jaime McManus em cena de La memoria de mi padre. Frame. Reprodução

 

Peguei por acaso, ontem, no Canal Brasil.

La memoria de mi padre, drama chileno [2017, 90 min.], estreia do diretor e roteirista Rodrigo Bacigalupe Lazo, conta uma história familiar cada vez mais próxima de qualquer um de nós.

Ficção baseada no drama real vivido pelo próprio diretor, filmada pelas lentes da delicadeza, La memoria de mi padre trata de laços familiares, de vínculos perdidos e reatados.

Alfonso (Jaime McManus) é um roteirista de televisão insatisfeito com o trabalho. Seu pai, Jesus (Tomás Vidiella), acometido de Alzheimer, não suporta a perda da esposa, Ester (María Izquierdo), vitimada por um câncer. Com uma viagem a trabalho por um mês de sua irmã, Claudia (Tamara Tello), Alfonso acaba se vendo obrigado a assumir a tarefa de cuidar do pai.

O que a princípio ele aceita a contragosto e enxerga como um fardo é a oportunidade de reatar laços com o pai, cuja doença acaba por expor ambos a situações perigosas – e vez por outra engraçadas, como o talento de galanteador não perdido pelo velho.

Jesus não aceita a morte de Ester, que crê estar esperando por ele, num hospital, sem dinheiro. É em busca deste encontro irrealizável que ele tira literalmente o sono de Alfonso, que tem dificuldade em compreender a doença do pai. No meio disso tudo, Alfonso tira lições para sua relação com o próprio filho, distante, fria e desinteressada – quase protocolar –, talvez temendo um replay na vida.

Um filme sobre altruísmo, uma lição para nós, espectadores.

La memoria de mi padre reprisa esta madrugada, às 2h, no Canal Brasil (150 na Net).

Vida (a)ventureira do outro lado do Atlântico

 

Os caminhos de Bárbara Eugenia e Tatá Aeroplano já se cruzavam havia algum tempo. Artistas de trajetórias distintas, ano passado chegou o momento de registrarem esse encontro: gravaram e lançaram juntos o álbum Vida ventureira [2017], coleção de delicadezas que agrega elementos de rock rural, folk, psicodelia e punk, com a sonoridade ora remetendo a Zé Rodrix, ora a Kraftwerk, em 12 faixas cerzidas por bucolismo.

Tatá Aeroplano já comparou o (seu) ofício de fazer discos à produção orgânica de vegetais: em pequena escala, sem preocupação com a grandeza dos números, mas com a qualidade e alimentando uma fatia importante da população. Múltiplo, já esteve à frente das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, e se divide entre ele mesmo e o personagem Frito Sampler, que já assina dois álbuns de sua vasta discografia.

Após sua estreia em 2010, com Journal de Bad, Vida ventureira é o segundo, digamos, casamento musical de Bárbara Eugenia. O primeiro foi o álbum Aurora [2014], dividido com Chankas, guitarrista da banda Hurtmold. Sua Coração, faixa que abre É o que temos [2013], integrou a trilha sonora da novela global Velho Chico. Foi em seu segundo disco, aliás, que a parceria com Tatá Aeroplano começou: deles, ela gravou Eu não tenho medo da chuva e não fico só.

Produzido por eles com Dustan Gallas, Junior Boca e Bruno Buarque (os cinco assinam os arranjos coletivos), Vida ventureira é um disco que simula um road movie, sobre um casal que cai na estrada. “A vida ventureira é a vida ao Deus dará/ é vida pé na estrada/ mania de jogar/ as coisas lá pro alto e se mandar”, avisa a letra da faixa-título. “Jogados nesta saga/ viemos descobrir/ novos horizontes/ pra se sorrir”, continua.

Os versos iniciais de As asas são escadas pra voar – “se eu te contar o que eu sinto/ você vai me dizer que também já sentiu desse jeito” – dialogam diretamente com os de Petróleo do futuro – “Ah, se eu soubesse lhe dizer/ o que eu sonhei ontem à noite, você ia querer/ me dizer tudo sobre o seu sonho também” –, do primeiro disco da Legião Urbana [1985].

Em Pro mundo virar shopping uma crítica feroz, mas bem humorada, à sociedade de consumo, máquina azeitada por preconceitos, antenada com o noticiário, citando o Nobel de Literatura Hermann Hesse e o lendário Flávio Basso, por sua alcunha mais conhecida, Júpiter Maçã.

Tatá e Bárbara vivem em São Paulo. Vida ventureira é uma espécie de escape: um disco que exala tranquilidade e doçura em contraponto à violência e ao corre-corre da metrópole. “O verde das matas nos dá/ calma, coragem, sentido pra continuar”, entrega O verde das matas.

Tanto ele quanto ela se preparam para lançar discos novos este ano. Enquanto isso, estão na Europa, onde iniciaram ontem (22), a Portugal e Galícia Tour, com shows em cidades como Coimbra e Lisboa, entre outras, serviço completo no e-flyer abaixo. Avisem os amigos d’além mar!

Arte: Julia Valiengo. Divulgação

Nove perguntas para Juliano Gauche

Afastamento. Capa. Reprodução

 

Escrevi sobre Afastamento, terceiro disco solo de Juliano Gauche, para o site do Itaú Cultural. Para tanto, conversei com o artista capixaba radicado em São Paulo. A quem interessar possa, eis o papo:

Juliano Gauche em foto de Haroldo Saboia

Afastamento começa com Silmar Saraiva, homenagem a uma figura de tua terra natal. No release do disco, Jotabê Medeiros comparou a faixa a um épico dylanesco. Gostaria que falasse um pouco mais sobre o personagem e a comparação.
O Saraiva era de uma turma um pouco mais velha que a minha. Ele, Seliomar Lobão, Adalberto Albino, Kim Kaveira… foram esses caras que fizeram minha cabeça, em Ecoporanga. Eles são meus ídolos, meus santos. E a música fala disso: de indivíduos que se machucam atrás de experiências transformadoras, das respostas difíceis, da verdade, da liberdade, e de um povo mecanizado, repetitivo, frio, guiado por sistemas de falsas seguranças.  Acho que o que o Jotabê quis colocar é que Silmar Saraiva se encaixa nos moldes das canções longas do Dylan que também citam personagens em seus títulos.

Pra festejar em silêncio é uma declaração de amor a Sil Ramalhete, sua esposa e produtora? Que papel tem ela no som que você vem fazendo desde o disco solo de estreia? Pergunto pela declaração que ela postou por estes dias em uma rede social, ela comenta algo sobre interferir em teu som.
Pra festejar em silêncio é sobre o amor em tempos de guerra. Foi inspirada pelo Grande Sertão: Veredas. Nela, eu projeto minha vida com a Sil, nossa travessia entre o mesmo sistema que vou frisar aqui o tempo todo, nossa militância aberta contra esse sistema, nossa vontade de fugir dessas armadilhas… Temos um mundo próprio, ultrarromântico, onde construímos tudo juntos. Tudo que eu faço é cantar esse mundo que a gente vive nele.

Pelas temáticas, Longe, enfim e Dos dois, são as músicas que mais diretamente dialogam com o título do disco, Afastamento. Do que você buscou se afastar nesse disco?
O afastamento está em todas as músicas do disco. Principalmente o afastamento do indivíduo do seu meio. Como também o afastamento do indivíduo de si mesmo. Na Dos dois há o tradicional afastamento entre parceiros. E na Longe, enfim o afastamento é a fuga da realidade através da energia sexual. Não teve uma busca por afastamentos necessariamente. Só me dei conta de que esse movimento é muito comum ao meu redor. E tem um efeito estranho. Meio duplo. Afastamentos trazem frieza, vazios; mas também alívios, ar, outras forças. Foi isso que mapeou o disco.

Em se tratando de um deslocamento, sempre que nos afastamos de algo nos aproximamos de outro algo. Assim, do que você se aproximou neste terceiro disco?
Acho que me aproximei mais de mim mesmo. Comecei este trabalho muito subdividido. Era membro de uma banda. Era intérprete das coisas do [Sérgio] Sampaio. Trabalhos com personalidades diferentes. E em nenhum deles eu me expressava plenamente. E é isso que eu estou buscando desde o primeiro disco. Talvez por isso tanto deslocamento. Pra me achar. E acho que estou conseguindo. Como diz o refrão: com uma pequena ajuda dos meus amigos.

Tua voz de autor é única. Mas já é meio que uma tradição a cada disco você trazer uma música de um parceiro, neste disco Tem dia que é demais, parceria com Gustavo Macacko. Fale um pouco de parceiro e parceria.
O Macacko é um dos meus parceiros mais antigos. Ele foi um dos que me receberam em Vitória quando fui morar lá. Fizemos muita coisa juntos. Muitos shows. Uma banda que só tocava Raul [Seixas]. Produzi o primeiro disco solo dele. E numa de suas passagens por aqui, fizemos a Tem dia que é demais.

Dos cachorros sisudos, faixa que encerra o disco, é a mais diretamente relacionada à violência dos dias em que vivemos, sob a égide de um golpe e a iminência do retorno à ditadura. A seu ver, é impossível para o artista, hoje, se alienar?
Só se for um artista conservador de boas com o sistema. Maconheiros como eu, que não gostam de igreja, nem de televisão, e principalmente de ordens militares, vão ter um pouquinho de problema pra ficar quietinho alienado.

A meu ver, Afastamento é um título natural para um disco teu, cuja vida, de algum modo, é feita de afastamentos: primeiro de sua terra natal, ao se aventurar por São Paulo, depois de Sérgio Sampaio, ídolo a quem chegou a dedicar um disco inteiro de covers. Esse seria apenas um comentário, não necessariamente uma pergunta, aí eu aproveito para emendar: qual a tua relação com Roberto Carlos e Rubem Braga, para citar outros capixabas famosos, adorados e motivos de orgulho para os conterrâneos?
Do Roberto eu gosto do projeto como um todo, aquelas gravações, aqueles arranjos, a ousadia dos primeiros discos, o Erasmo, o perfeccionismo, a grandeza. O Rubem tem aquela violência bonita, aquele jeito de sofisticar com palavras simples. Tentei absorver o melhor que pude dos dois também.

A exemplo de seus discos anteriores, Afastamento também foi disponibilizado para audição e download gratuito. O que te motiva a distribuir tua obra gratuitamente? Alguma convicção, sinal dos tempos ou a impossibilidade de lutar contra isso?
É aquela coisa. Quando é de graça o produto é o consumidor. Ou algo assim. Mas quando a pessoa se conecta à minha música, ela agrega valor ao meu trabalho com um todo. Continua tudo refém dos números. As moedas é que são outras.

Além da banda que tradicionalmente te acompanha, afastamento conta com a participação especial dos guitarristas cearenses Edson Van Gogh [de Jonnata Doll e Os Garotos Solventes] e Fernando Catatau [do Cidadão Instigado], quase onipresente em se tratando da música pop contemporânea que vale a pena. Como se deram essas amizades e presenças no disco e como foi trabalhar com eles?
Conheci o Catatau desde que a Sil começou a trabalhar na produção do Cidadão Instigado. Vi o disco Fortaleza nascendo. A primeira vez que ouvi foi com ele cantando o disco em cima das bases gravadas, tipo karaokê. Muito emocionante. E desde o início ele foi me apresentando coisas e mais coisas. Mostrando referências de toda espécie. Durante o processo de gravação do [Nas estâncias de] Dzyan, eu já consultava muito ele. Trazer ele pro disco foi muito natural. E o Vang Gogh eu conheci na casa do Catatau também. Começamos a conversar lá e não paramos até hoje. A gente interrompe e quando se encontra, volta do mesmo lugar. Há anos.

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Ouça Afastamento:

O espírito de Tarso de Castro

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro. Cartaz. Reprodução

 

Tarso de Castro foi um divisor de águas no jornalismo brasileiro, para além do clichê da afirmação e de qualquer julgamento por sua vida pessoal. É daqueles personagens de vida tão intensa que nos dá a impressão de que a maior dificuldade sobre remontar sua trajetória é escolher que histórias contar.

Não há hipérbole no título A vida extra-ordinária de Tarso de Castro [documentário, Brasil, 2018, 90 min.], que deve atrair novas atenções à memória do jornalista, continuando o trabalho do biógrafo da lenda Tom Cardoso, que comparece ao documentário, – seu 75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros saiu pela editora Planeta em 2005.

Inventor de Pasquim, Enfim e Folhetim (suplemento da Folha de S. Paulo, jornal no qual chegou a ser o colunista mais lido do país na década de 1980), Tarso, filho do jornalista Múcio de Castro, enveredou pelo jornalismo praticamente criança, visitando as oficinas tipográficas de O Nacional, que o pai mantinha em sua Passo Fundo natal. Mudou-se para o Rio de Janeiro onde, entre o jornalismo e a boemia virou ele próprio um sinônimo de Ipanema.

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro é uma bela e divertida homenagem ao “outro cabeludo” do clássico Detalhes, de Roberto Carlos. O filme foge de depoimentos convencionais, em que entrevistados encaram câmera ou entrevistador e mostra telefonemas e mesas em que amigos relembram o ícone, além de imagens de arquivo em que o próprio Tarso de Castro aparece, entrevistando, por exemplo, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim e Leonel Brizola – indagando ao então presidenciável, de forma de algum modo pioneira, sobre a posição de seu partido sobre o tema da homossexualidade, tabu à época.

Seu sucesso com as mulheres é ilustrado por trechos de diálogos de filmes brasileiros – sem falar uma palavra de inglês, namorou, por exemplo, a atriz Candice Bergen, que depois se casaria com o cineasta Louis Malle, levando Tarso a gracejar: “dos Malles o menor”.

O filme garante boas risadas, mas seu objetivo é reconhecer a grandeza de Tarso de Castro. Há um exercício de futurologia – ou presentologia, já que ele faleceu em 1991, antes de completar 50 anos – quando especula-se o que o jornalista estaria fazendo hoje, em tempos de golpe e internet. Tarso flertava com o poder enquanto bon vivant, adorava luxos como beber bem, tendo, no entanto, sempre se posicionado contra o status quo – foi preso pela ditadura militar, por exemplo. Seu filho, o ator João Vicente, já fez novela na Globo e é um dos nomes do coletivo humorístico Porta dos Fundos, cuja audiência de qualquer vídeo supera as maiores tiragens do Pasquim.

Entre depoimentos de Jaguar, Sérgio Cabral (o pai, obviamente!), do recém-falecido Luiz Carlos Maciel, todos seus companheiros na chamada “patota do Pasquim”, dos jornalistas Palmério Dória, José Trajano e do ator Paulo César Pereio, além de Gilda Midani (mãe de João Vicente), Ada Maria de Castro (mãe de Tarso, já falecida) e Lilian Pacce, entre outros/as, o filme de Leo Garcia e Zeca Brito não soa saudosista, apontando semelhanças e diferenças entre o Brasil e a imprensa brasileira de hoje e os vividos por Tarso de Castro, cuja morte, em decorrência de problemas hepáticos por conta do alcoolismo, completou 27 anos no último dia 20 de maio.

Neste sentido, o filme extrapola o personagem, deixando clara a impossibilidade conjuntural de um novo Tarso de Castro ou um novo Pasquim, apesar das semelhanças entre, por exemplo, os golpes militar de 1964 e político-jurídico-midiático de 2016. Ele mesmo afirmava que a democracia no Brasil é intervalo.

Não é que Tarso, se estivesse vivo, fosse achar o jornalismo ou tudo uma porcaria. Como nos ensina o saudoso Millôr Fernandes, também seu ex-colega no hebdomadário, cito de memória: “numa roda é fácil identificar o jornalista: é o que está criticando o jornalismo”. Ele já achava uma porcaria. Talvez por isso tenha se sobressaído: por tentar (e conseguir) fazer diferente (e melhor).

Àquela época já anunciava, enterrando uma das maiores lendas ensinadas e repetidas sobre o ofício: “eu sou um jornalista honesto: eu sou parcial”. Invertida a equação – não era o bar a extensão da redação do Pasquim, mas o contrário –, Tarso conta sua teoria para a invenção do jornalismo: a profissão foi inventada pelo primeiro que transformou uma conversa de bar em texto. E já ali apontava para uma das misérias do jornalismo atual: jornalistas não vão mais ao boteco ou à rua à cata de histórias, contentando-se com os releases enviados pelas assessorias.

Nome comprovadamente fundamental para o jornalismo brasileiro e, portanto, para o Brasil, Tarso de Castro ressurge, nesta comovente cinebiografia, num momento em que é imperativo discutir o jornalismo e sua função social, sobretudo diante da turbulência como a que o Brasil volta a atravessar.

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Veja o trailer de A vida extra-ordinária de Tarso de Castro:

Todo mundo vai pedir bis

[baita honra e responsabilidade escrever este release a pedido de Cláudio Lima]

Cada mesa é um palco é um verso de Bis, bolero de Cesar Teixeira, que dá título ao segundo disco do cantor Cláudio Lima, lançado em 2006, dividido com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles.

A música conta a história de um artista entre o ofício e o amor e o verso evoca diversas leituras. Cada mesa é um palco foi o título escolhido para o show que Cláudio Lima (voz), Rubens Salles (piano) e Luiz Cláudio (percussão) apresentam no próximo dia 9 de junho (sábado), às 20h, no Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande). Os ingressos – à venda no local – custam R$ 20,00.

A curiosidade é que o disco nunca teve show de lançamento. “Posso dizer que vou finalmente lançar meu segundo disco, depois de ter lançado o terceiro”, diverte-se Cláudio Lima, que além de Cada mesa é um palco, lançou também Cláudio Lima (2001) e Rosa dos ventos (2017).

Os discos de Cláudio Lima são profundamente marcados pelo flerte com a música eletrônica e com uma criteriosa seleção de repertório. Ao disco – e ao show – Cada mesa é um palco comparecem nomes como o citado Cesar Teixeira, além de Bruno Batista, Tom Zé, Luiz Gonzaga, Herivelto Martins e Tom Jobim, entre outros.

O show reunirá no palco três virtuoses: Cláudio Lima é hoje reconhecidamente um dos maiores intérpretes da música popular produzida no Maranhão, tendo-se aventurado com desenvoltura como compositor em seu disco mais recente; Rubens Salles é pianista aclamado internacionalmente, com sua mistura de jazz, world music e a ginga brasileira, com os discos Munderno e Liquid Gravity Plus na bagagem; e o paraense radicado no Maranhão Luiz Cláudio é um de nossos mais requisitados percussionistas, atualmente desenvolvendo um trabalho solo, já tendo emprestado seu talento ao trabalho de nomes como Cesar Teixeira (Shopping Brazil), Ceumar (Dindinha), Lena Machado (Samba de Minha Aldeia) e Zeca Baleiro (Vô Imbolá), entre muitos outros.

O espetáculo terá apresentação única, aproveitando a passagem de Rubens Salles por São Luís. O set list será focado em Cada mesa é um palco, mas Cláudio Lima passeará pelo repertório de seus outros discos, lembrando músicas como Black is the color of my true love’s hair (tradicional canção folk, gravada por Nina Simone), do primeiro, além de umas poucas que não figuram em seus discos, caso de My valentine (Paul McCartney). Ao longo da apresentação haverá espaço também para Rubens e Luiz Cláudio exibirem seu virtuosismo, num diálogo-duelo entre piano e percussão.

Sobre o encontro do trio no palco, Cláudio Lima relembra: “foi Luiz Cláudio quem me apresentou a Rubens Salles, em 2003, em São Paulo. A gente tentou montar uma banda, foi o começo de tudo. A banda acabou não dando certo e pouco tempo depois veio o Cada mesa é um palco”. É a primeira vez que os três artistas se apresentam juntos.

Alterando o verso final da música que dá título ao segundo disco de Cláudio Lima, podemos antecipar do show Cada mesa é um palco: quando a noite terminar e a cortina fechar, todo mundo vai pedir bis.

Serviço

O quê: show Cada mesa é um palco
Quem: Cláudio Lima (voz), Rubens Salles (piano) e Luiz Cláudio (percussão)
Quando: dia 9 de junho (sábado), às 20h
Onde: Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00 (ingresso individual)

Revelando Louzeiro

José Louzeiro (D) acompanha o depoimento de Jorge Duran. Foto: Paula Monte

 

A certa altura de José Louzeiro – Depois da Luta [documentário, Brasil, 2018, 15 min.], o cineasta Jorge Duran afirma que o escritor, jornalista e roteirista maranhense tem o devido reconhecimento por sua primeira faceta, mas não pela última. Coloca-se/nos a pulga atrás da orelha ao afirmar que mesmo diante de clássicos do cinema, pouca gente lembra o nome do roteirista, de modo geral. Faz sentido.

Causou-me particular indignação a leitura dos obituários do cineasta argentino radicado no Brasil Hector Babenco (1946-2016): ao citarem Carandiru (2003), por exemplo, constava a informação de que o filme era baseado no livro homônimo do médico e escritor Dráuzio Varela; ao citarem Pixote, a lei do mais fraco (1980) ou Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), “esqueciam” de dizer que os filmes, além de baseados em livros de Louzeiro, tinham o maranhense no time de roteiristas.

A amiga de infância Marita Freitas é taxativa ao afirmar que até hoje pouca gente sabe que Louzeiro é maranhense. O documentário de Maria Thereza Soares, nesse sentido, busca fazer justiça, longe de pretender esgotar o personagem José Louzeiro, tarefa impossível em um filme de 15 minutos.

Assim, com pesquisa e argumento da jornalista Bruna Castelo Branco – que atualmente dedica seu projeto de pesquisa a José Louzeiro no Mestrado em Cultura e Sociedade na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) –, foca na relação de Louzeiro com o cinema, embora não deixe de abordar, ainda que sucintamente, a infância em São Luís (“eu sou de uma rua chamada Camboa do Mato”, diz o protagonista), a mudança ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde foi “aprendiz de repórter de polícia”, o pioneirismo no romance-reportagem, gênero em que estão seus livros mais conhecidos, o diabetes que lhe amputou uma perna, mas não a veia de repórter e a necessidade de escrever – o que seguiu fazendo até falecer, em 29 de dezembro passado, sem ver concluído o filme/homenagem.

O filme está longe de ser triste. “Esse Depois da Luta é engraçado, né? Tinha que ser antes, Antes da Luta”, sorri Louzeiro, que afirma não ter sentido o peso do diabetes. Ele chega a dizer mesmo que venceu a doença.

Além de Louzeiro, o filme é enriquecido por depoimentos do escritor e amigo Benedito Buzar, da amiga de infância Marita Freitas, da amiga, divulgadora e ex-esposa Ednalva Tavares, dos cineastas Jorge Duran (corroteirista, com Louzeiro e Babenco, de Pixote, a lei do mais fraco), José Joffily (diretor de entre outros, Quem matou Pixote?, 1996), Sérgio Rezende (diretor de O homem da capa preta, 1987, do qual Louzeiro integra o time de roteiristas), e o produtor Roberto Mendes, além de enriquecido por imagens de arquivo, com roteiro original, correspondência e fotografias de bastidores de gravações. Neste sentido, José Louzeiro – Depois da Luta vai fundo: há comentários até sobre filmes que não chegaram a ser realizados.

Cineastas sempre filmam mais do que usam. O que os espectadores vemos são só um percentual do captado em suas idas a campo – no caso de Maria Thereza Soares, as filmagens entre o Maranhão e o Rio de Janeiro. Assim, José Louzeiro – Depois da Luta é o tipo de filme que instiga o espectador a ir em busca de seu protagonista, a recuperar o tempo perdido: Louzeiro é maior e mais importante que a atenção em geral dispensada por nosso jornalismo e nossas escolas de comunicação e cinema.

Realizado com recursos do II Edital de Audiovisual do Governo do Estado do Maranhão, José Louzeiro – Depois da Luta foi selecionado para a Mostra Competitiva Guarnicê de Filmes Maranhenses do 41º. Festival Guarnicê de Cinema. O filme será lançado hoje (18), em sessão para convidados, às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Amanhã (19), às 18h, no mesmo local, haverá sessão gratuita aberta ao público, seguida de debate com a diretora Maria Thereza Soares e a pesquisadora Bruna Castelo Branco.

A obra de Louzeiro sempre esteve do lado dos fracos e oprimidos. A escolha de 18 de maio para a data de estreia não poderia ter sido mais acertada: hoje, data que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o brutal e covarde assassinato da menina capixaba Aracelli Cabrera Sánchez Crespo completa 45 anos. O caso inspirou Louzeiro a escrever o romance-reportagem Aracelli, meu amor (1976).

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Veja o trailer de José Louzeiro – Depois da Luta:

Bastidores

O processo. Frame. Reprodução

 

A estreia nacional de O processo, aguardado documentário de Maria Augusta Ramos, acontece hoje (17), em todo o Brasil. Em São Luís o filme será exibido no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença). Por enquanto, o filme tem apenas quatro exibições garantidas na sala: hoje e amanhã, às 18h20 e às 20h40. Sua continuidade em cartaz depende de seu desempenho e fica aqui o puxão na orelha esquerda: melhor ir ver um filme declaradamente de esquerda que ficar a torto e à direita pedindo boicote ao Netflix, ao Padilha e aO mecanismo, não é?

Dito isto, devo dizer mais: O processo é um filme ao mesmo tempo doloroso e hilariante. Doloroso por comprovar a farsa que foi o processo, o impeachment, o golpe, a tomada do poder pelos golpistas. Hilariante por mostrar o quão ridícula e mesquinha é a direita brasileira. E olha que Maria Augusta Ramos fez o filme por dentro do time de defesa de Dilma, isto é, o acesso privilegiado da cineasta foi à esquerda, tomando partido, enterrando de vez a balela da imparcialidade, se é que alguém ainda acreditava nisso.

Mas é um filme honesto. Justamente por isso. Aliás, para ser melhor, talvez apenas se em vez de O processo se chamasse O veredito: ora, só os que insistem na cantilena de que não foi golpe não creem que o destino, não de Dilma Rousseff, presidenta legitimamente eleita, mas o do país, já estava traçado, em um jogo de cartas marcadas. Havia o remédio, era preciso inventar a doença.

Tecnicamente, O processo é um filme relativamente fácil de fazer. Um filme que acompanha os bastidores de figuras de proa na defesa não de Dilma Rousseff, mas da Constituição Federal, da democracia brasileira e das instituições que por elas deveriam zelar. Além da direção e roteiro de Maria Augusta Ramos cabe destacar o trabalho da montadora Karen Akerman.

Às imagens feitas propriamente para o filme, unem-se imagens de arquivos de emissoras de tevês, sobretudo públicas, mostrando o ridículo de votos pró-impeachment como os de Jair Bolsonaro (que dedicou-o a Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido torturador de que a própria Dilma Rousseff foi vítima quando presa política) e Eduardo Cunha (“que Deus tenha misericórdia dessa nação”), o choro cínico de Janaína Paschoal (advogada autora da peça inicial do processo), ao pedir desculpas à presidenta, e a nobreza e elegância de Chico Buarque, presente à sessão de depoimento de Dilma ao Senado, a dar mais uma prova de que o compositor sempre esteve do lado certo da História.

Como bons brasileiros, o ex-Ministro da Justiça e ex-Advogado Geral da União José Eduardo Cardozo, a senadora Gleisi Hoffmann e o senador Lindberg Farias riem no melhor estilo “seria cômico se não fosse trágico”, no decorrer do filme, o que lhes torna mais humanos e portanto mais próximos da parcela de eleitores/espectadores que verá O processo.

Eis um trunfo do trabalho de Maria Augusta Ramos, merecidamente premiado nos festivais de Berlim (terceiro lugar no prêmio do público de melhor documentário), Visions du Réel (Suíça, melhor longa-metragem) e IndieLisboa (melhor longa-metragem, júri popular, em Portugal), entre outros.

Linear e quente, O processo estreia hoje no Brasil, após iniciar uma trajetória bem-sucedida na Europa, citando fatos ocorridos mês passado, com o país sob a égide do golpe político-jurídico-midiático. No meio disso tudo, Dilma Rousseff denuncia o caráter machista e misógino do enredo kafkiano que a destituiu do poder, devolvendo o Brasil à linha da pobreza e transformando-o de potência em piada no cenário internacional.

Michel Temer, o ilegítimo, na cadeira que não lhe pertence desde o início do teatro do golpe, amargando o mais alto índice de impopularidade de um presidente desde a redemocratização (se é que podemos falar nisso no Brasil), não aparece no filme. Uma sacada inteligentíssima de Maria Augusta Ramos, que antecipa o exercício que a História fará muito em breve: colocá-lo no seu devido lugar, de personagem insignificante, apesar de tudo.

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Veja o trailer de O processo:

Mais com menos

Still: Evandro Filho. Divulgação

 

De algum modo acompanhei a feitura de Avesso, novo curta-metragem de ficção do premiado diretor Francisco Colombo.

Digo de algum modo por não ter estado no set no dia da filmagem, e simplesmente por isso. De resto, acompanhei o amadurecimento do roteiro, as primeiras versões brutas do filme, um dia de edição etc.

Avesso foi filmado em um dia, durante as férias de Colombo, então residindo temporariamente em Portugal, onde cursava mestrado, valendo-se da “dramaturgia da pobreza”, um tema sobre o qual, conforme anunciou em entrevista, um dia escreverá. Mas que consiste basicamente no seguinte: fazer o máximo com o mínimo.

Impossível não ligá-lo ao neorrealismo italiano e particularmente ao Vittorio De Sica de Ladrões de bicicleta (Ladri di Biciclette, 1942), bonito filme rodado na bombardeada Itália do pós-guerra. Colombo lembra que tanto o neorrealismo italiano quanto o por ele influenciado cinema novo brasileiro lhe inspi(ra)ram.

Entre Reverso, seu filme anterior, e Avesso, nove anos. Entre um e outro, filmes feitos às próprias custas s/a, como diria Itamar Assumpção. Entre aquele e este, a violência, tema que permeia a obra de Colombo como um todo: de sua estreia, No fiel da balança (2002), que abordava a sofrida por quilombolas em Alcântara com o deslocamento para as agrovilas após a implantação do Centro de Lançamento de Alcântara, passando por O incompreendido (2008), que toca na violação de direitos de crianças e adolescentes, ao citado Reverso (2009), sobre a violência urbana, até este Avesso.

Escrever sobre curtas-metragens é sempre correr o risco de spoilers. O que posso afirmar é que não é um filme fácil, no sentido de entregar de bandeja as coisas ao espectador, o ouro ao bandido, como no linguajar popular. O espectador precisa pensar – e repensar, diante das reviravoltas contidas em seu enredo. É outro filme em que o diretor e roteirista não hesita arriscar-se ao não rezar pela cartilha do politicamente correto, outra característica marcante de seu trabalho: Colombo vem da escola de Murilo Santos e sua veia de documentarista permeia a faceta ficcionista, neste caso, o vídeo imita a vida, contrariando a banda gaúcha oitentista.

Avesso marca ainda a estreia de Beto Ehongue como ator. O músico, autor das trilhas sonoras de Avesso e Reverso, convence ao interpretar Mathias. O elenco, enxuto como exige a citada dramaturgia da pobreza, se completa com Daniel Sam e Gil Maranhão.

Avesso foi selecionado para a Mostra Competitiva de Filmes Maranhenses do 41º. Festival Guarnicê de Cinema, promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão (DAC/UFMA). O festival acontece entre 9 e 16 de junho, no Centro Histórico da capital maranhense.

O novo filme de Francisco Colombo está concorrendo, por voto popular online, para participar do 13º. Festival de Cinema de Taguatinga, no Distrito Federal. Avesso pode ser assistido e votado no site do festival.

Uma de cinco

O cantor e compositor Bruno Batista disponibilizou hoje o primeiro webclipe de uma série de cinco canções que em alguns meses irão compor um EP do artista. Para um amor em Paris, de sua autoria, é a única regravação da série – a música foi lançada originalmente em Eu não sei sofrer em inglês (2011).

Para a regravação, Bruno Batista contou com a participação especial de Rita Benneditto (voz). Acústico e em clima intimista, o dueto foi acompanhado por Guilherme Kastrup (percussão) e Mário Manga (violoncelo, violão e produção musical), marcando também um reencontro: em 1997, ao lado dela e Zeca Baleiro, o ex-Premeditando o Breque foi um dos produtores do disco de estreia da maranhense, quando ela ainda assinava Rita Ribeiro.

A música é recheada de referências: o título evoca o Paulinho da Viola de Para um amor no Recife, remete, pelo uso bem colocado de expressões estrangeiras, a músicas como Samba do approach e Babylon, ambas de Zeca Baleiro, Tem francesa no morro (Assis Valente) e Cabrochinha (Paulo César Pinheiro e Maurício Carrilho), além de citar textualmente o Alceu Valença de La belle de jour (que por sua vez citava o Luis Buñuel de A bela da tarde, no título da película em português). Entre as citações, comparecem ainda o Bernardo Bertolucci de O último tango em Paris e o Jacques Brel de Ne me quitte pas. A direção do webclipe é de Alessandra Fratus.

Uma por mês, Bruno Batista disponibilizará ainda Quedê, com participação especial de Lívia Mattos, Fire Babylon (parceria dele com Alê Muniz e Luciana Simões), com o duo Criolina, Duvido (parceria com Celso Viáfora), com Celso Viáfora e Fabiana Cozza. A quinta música, também inédita, está ainda por definir, segundo o artista.

Previsto para setembro, o EP será lançado apenas em formato digital. A série de webclipes tem patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Solidão e ironia

Todos nós. Capa. Reprodução

 

Carlos Careqa é um dos artistas mais incompreendidos, e consequentemente injustiçados, do Brasil. Problema do Brasil.

“Feito às próprias custas. Este disco não recebeu nenhum incentivo fiscal”. O recado no encarte atesta a necessidade de fazer música, fina ironia e um eco de Itamar Assumpção, a quem Careqa dedica Morrer ainda vai ser um bom negócio, faixa que, citando verso do próprio Itamar, encerra Todos nós [Barbearia Espiritual Discos, 2018], seu novo álbum.

“Mas a canção me fez refém por uma vida inteira. Me casei com a música. A musa de todas as horas. Difícil analisar o próprio trabalho assim de chofre, mas quero deixar rastros pelo caminho percorrido. Alguém vai escutar”, anota em texto no encarte. Azar o dos que não o fizerem.

Marcio Nigro (violões, teclados, contrabaixo) é citado nominalmente por Careqa neste mesmo texto, como aquele “que entende um pouco minhas propostas e transforma tudo em algo mais mastigável”. O núcleo central do disco se completa com Thiago Big Rabello (bateria) e Luiz Guello (percussão).

Fernanda Takai canta com Careqa na divertida Karma Wall, com metade da letra em inglês, sobre um carnaval no Japão. Em Canção de autoajuda (parceria com Delia Fisher), destila ironia sobre o que comumente é considerado sucesso. “Eu vou fazer uma canção de autoajuda/ uma canção que seja fofa/ uma canção que seja muda”, provoca a letra.

A faixa-título ganha os reforços de Luiz Amato (violino) e Fabio Tagliaferri (viola) ao versar sobre uma contradição característica de nossa época: a solidão em tempos de hiperconectividade. A bela letra de Mãe não é tudo (parceria com Chico César) louva a dedicação das mulheres a seus filhos em qualquer tempo e circunstância.

“Enquanto você faz mil acordes/ para explicar sua canção/ a minha única intenção/ é repousar meu coração”, Careqa puxa o cartão de visitas em Da bolacha ao farelo, faixa que abre Todos nós. Quem o acha complicado certamente o faz sem tê-lo ouvido. “Alguém vai escutar”. Hora apropriada para ser esse alguém.

Em busca dum afeto nunca perdido

Os diálogos entre tia e sobrinha movem Quarto Camarim. Divulgação

 

É difícil classificar Quarto Camarim [Brasil, 2017, 101min.], filme que se equilibra entre o drama (familiar) e o documentário, dirigido por Fabricio Ramos e Camele Queiroz – esta acaba transformando-se em personagem com o desenrolar da trama.

Há uma tensão permanente no enredo, que aborda a aproximação – ou reaproximação? – entre Camele e sua tia Luma Kalil, travesti, nome por que agora atende Roniel, que a diretora não via há 27 anos.

O filme traz Camele para o outro lado da câmera por que, ao mesmo tempo em que é drama e documentário, é também a história por detrás do filme, um making of de um projeto – selecionado pelo edital Rumos, do Itaú Cultural – que a determinada altura poderia ter sido abortado.

Para Camele, tudo vira elemento cinematográfico. Um vídeo da tia, enviado por whatsapp, ferramenta de comunicação inicial das duas, aceitando participar do filme, uma mensagem posterior, em que Luma se recusa a fazer parte do filme, desenhos e objetos pessoais.

Entre idas e vindas, uma dúvida passa a afligir Camele, e consequentemente envolve também o espectador: estaria a diretora efetivamente interessada em reatar os laços afetivos com a tia ou simplesmente em fazer o filme?

Luma é cabeleireira e o filme remonta ao início, em Feira de Santana, no interior baiano, quando foi uma das primeiras a ousar usar saia, nos longínquos anos 1980, ainda mais preconceituosos que os tristes tempos em que vivemos. É desta época que vem o título do filme: na cabeça da menina Camele, o quarto do tio, que ainda morava com a mãe, era um camarim.

O filme debate uma série de temas, longe de qualquer panfletarismo ou julgamento de valor: preconceito, homofobia, intolerância, incompreensão, trabalho, amor. Camele não alivia nem a barra do próprio pai, há tempos rompido com o próprio irmão – a própria irmã.

O encontro – reencontro – é por si só emocionante. Camele é ousada e altruísta em compartilhar com quantos queiram ver – sobretudo os/as dispostos/as a se despir de preconceito, conservadorismo e, por que não dizer, nestes tempos dominados por ele, ódio? – momento tão terno, delicado, afetuoso, íntimo.

O espectador vai até a cozinha de Luma, que acende um cigarro numa das bocas do fogão enquanto prepara algo para comerem, diverte-se com a comemoração de terem conseguido ligar a churrasqueira elétrica, festeja o abrir de mais uma latinha de cerveja, para regar a conversa há tanto presa na garganta.

Luma, estrela das performances que faz em boates, é a protagonista de um filme que nos faz perceber a grandeza de personagens que na maioria das vezes insistimos em não enxergar. Sentadas em colchões no chão, iluminadas apenas por um abajur, sobrinha e tia continuam, como se não houvesse ninguém olhando, menos ainda câmera filmando, a conversa, tão íntima, como se recuperassem alguma cumplicidade perdida.

Por isso percebemos a protagonista tão humana. Gente como a gente. Com sua história, coragem, sonhos, sua vida, enfim. O Belchior da trilha sonora não é apenas “fundo musical”: ajuda a contar a história. “Essa é forte, hein, tia?”, aponta Camele, entre revelações sobre que versões da música cada uma prefere. Bonito e necessário, por ensinar tanto sem soar pretensioso, Quarto Camarim é um grande filme, embora, parafraseando o cearense: “qualquer filme é menor do que a vida de qualquer pessoa”. É que Luma e o gesto de sua sobrinha são enormes.

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Veja o trailer:

Joia de estreia

Diamantes na pista. Capa. Reprodução

 

A cantora paulista Malu Maria disponibiliza hoje (3), via Tratore, nas principais plataformas digitais de música, o disco Diamantes na pista, com nove faixas, todas de sua autoria, produzido por ela e Tatá Aeroplano (que participa de algumas faixas, entre vocais, violão e teclados).

Malu Maria, que além de compor e cantar, toca flauta e percussão no disco, é acompanhada da banda Diamantes: Carlos Gadelha (guitarra), Eristhal (contrabaixo), Gustavo Souza (bateria) e Otávio de Carvalho (sintetizadores). Diamantes na pista tem ainda participações especiais das cantoras Laya Lopes, Kika e Laura Wrona.

Escrevi cantora aí em cima, mas ela não é apenas cantora, multiplicidade que se reflete nas composições. Formada em Comunicação e Artes do Corpo pela PUC, Malu Maria é fundadora do Teatro de Bolso do IV Mundo e apresentadora do programa Tranbordando o Copo (no youtube). Ela assina a arte e a capa de Diamantes na pista.

Homem de vícios antigos ouviu em primeira mão e fez um faixa-a-faixa simultâneo à audição, grande desafio, enorme responsabilidade.

Música de pista, mas orgânica. Um convite à dança e ao sonho. Se essa rua fosse minha, “esparramando diamantes na pista”, verso de Diamantes na pista, faixa que abre e dá nome ao disco de estreia da cantora Malu Maria.

Doctor Strangelove tem uma pegada psicodélica, retrô/futurista, homenagem ao filme de Stanley Kubrick lançado em 1964, ano em que por aqui começava aquela outra ditadura.

A percussão e o baixo que abrem Estrada remetem a Ando meio desligado, dOs Mutantes, cuja sonoridade, de resto, permeia o clima do disco, mais para saudável influência que para imitação.

Calcado na eletrônica, Devires é um quase-frevo, “meu sapato é o chão/ meu chapéu é o céu/ meus braços são pra voar”, instiga a letra, um convite ao sacolejo, jogue-se!

Amores ao mar é pura entrega. Voz e violão dialogam a sós na abertura da faixa, do verso “alimentar o gozo sem dissimular”. Malu Maria é autêntica num tempo em que originalidade é artigo vendido em série, em geral gato por lebre.

“Sem você eu fico triste/ mesmo com tudo azul/ o corpo, o copo, o coração/ sugar blue”, começa Circo para todos, bateria evocando o tarol de bandinha de coreto de cidade do interior, como a anunciar a chegada da trupe. A faixa homenageia ainda o Cine Jóia, outrora cinema, palco de shows musicais na capital paulista.

Na também dançante Jardim do Éden Malu Maria junta samba, maracatu e guitarrada. “Quero nada além/ do que essa nossa paz/ dançar com você/ nesse Éden e nada mais”, derrama-se, romântica.

Amando do espaço recomenda amar em qualquer lugar, qualquer caminho. Um sábio conselho nestes tristes tempos. “Salvem os amores delirantes”, diz a letra, quase a redundar – não deve demorar muito a serem considerados delírios o amor, a emoção, o encanto.

A delicadeza de Nosso eclipse fecha o disco, como se fechasse um ciclo. Tudo faz ainda mais sentido (embora nem precisasse, diante de tanta beleza), “pro mundo girar”, como um disco a girar, um mundo particular, um belo disco de estreia.

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Ouça Diamantes na pista:

Um mundo em extinção

Severina. Cartaz. Reprodução

 

Um sebista solitário, ermitão, com pretensões literárias permite a visita constante de uma cliente cujo único intuito é roubar livros. Atraído por sua beleza e por seu gosto literário, ele acaba se apaixonando pela mulher misteriosa, a despeito de logo descobrir não ser sua única vítima: ela tem um séquito de livreiros furtados e corações partidos. É esta paixão o mote de Severina [Brasil/Uruguai, 2018, drama; direção: Felipe Hirsch; em cartaz no Cine Lume], antes de qualquer coisa uma bela declaração de amor aos livros.

Parece falar sobre um mundo que não existe mais: os personagens dialogam com uma arquitetura tida como decadente, apenas em nome de um suposto conforto e segurança trazidos pela modernidade – a urbe tem papel destacado no filme, nos passeios a pé do casal protagonista, ou de bicicleta, quando ele sai à procura dela.

Parece falar sobre um mundo que não existe mais, no qual, por conta desta mesma suposta modernidade, não há mais espaço para sebos, livrarias de rua ou cinemas fora dos ambientes climatizados dos shopping centers e vizinhos de barulhentas praças de alimentação.

Mais que aos livros, Severina é uma declaração de amor à literatura, ao cinema, às artes em geral, e a um modo de vida infelizmente a cada dia mais tido como démodé, sem espaço para qualquer delicadeza.

A película mistura elementos de drama, comédia romântica e romance policial. O espectador, qual um detetive, se vê envolto num mistério, a começar por saber se o enredo aconteceu de fato (ainda que na ficção) ou se é tudo fruto da imaginação do protagonista.

Severina. Frame. Reprodução

 

Baseado no livro homônimo, do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa, Severina percorre o convívio entre o sebista e a mulher misteriosa, loucuras de amor, o cotidiano de um casal que lê junto, e um velho em coma. Em tempo: o diretor é brasileiro, o casal protagonista argentino (Javier Drolas e Carla Quevedo) e o filme foi rodado em Montevidéu, no Uruguai.

Obviamente Severina é recheado de citações literárias, entre capas expostas no sebo, nas mãos dos leitores, trechos lidos em tertúlias ou sublinhados pelo livreiro, a vida imitando a literatura (e o cinema) e ajudando a construir a narrativa, de rara delicadeza poética.

A determinada altura, por exemplo, quando o livreiro oferece seu sebo para pagar uma dívida por furtos passados de sua companheira, outro sebista, já tendo aceitado o negócio, troca toda a livraria por um único exemplar, supostamente roubado por ela da biblioteca de Jorge Luis Borges, com anotações do escritor nas bordas do livro, gesto cuja grandeza somente será compreendida pelos devotados aos “objetos transcendentes”.

Bob Dylan, não exatamente um escritor, apesar de ter escrito livros, venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 2016, dado que não está em Severina. Dele lembro apenas para dizer do enorme prazer proporcionado, como se já não bastasse tudo isso, por citações a Hermeto Pascoal e João Gilberto.

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Veja o trailer:

O Divino e o guia

O Divino em mim. Frame. Reprodução
O Divino em mim. Frame. Reprodução

 

Vinicius Maciel é literalmente o guia de O Divino em mim [documentário, Brasil, 2018, 30 minutos]. Guia de turismo em Alcântara, o jovem chama a atenção pela enorme barba e grandes alargadores que usa nas duas orelhas – além do sorriso cativante, que ele mesmo destaca, longe de imodesto, em uma de suas falas.

É ele que a câmera de Luiza FC – que assina direção, roteiro, câmera e edição do documentário – segue ao longo de meia hora de filme, com depoimentos de outros personagens importantes da Festa do Divino de Alcântara, a mais tradicional e possivelmente a mais longeva do Brasil, como a bandeirinha Andressa, o coordenador Seu Moacyr, as caixeiras Marlene e Romana, entre outros.

Vinicius é narrador, mas o protagonista é o Divino Espírito Santo, a festa a ele devotada, exercício de fé em catolicismo popular que une sacro e profano.

Distante pouco mais de 22 quilômetros de São Luís, o município de Alcântara é cinematográfico e sobrenatural, o que por si só já garante belas imagens. Luiza FC opta pelo percurso que faz a maioria absoluta dos turistas que vai até o município: de barco, a partir do cais da Praia Grande, em São Luís, atravessando a Baía de São Marcos, em uma viagem de cerca de uma hora. Já durante a travessia Vinicius começa a falar de sua relação com o município e com a festa.

É um filme que abarca a importância dos festejos para a população local, para o turismo de Alcântara, da preservação da tradição e, de modo divertido, as relações desta com o dia a dia do lugar: os papéis de cada homem e mulher na sua realização – a Festa do Divino tem lugar certo no calendário religioso, mas mobiliza tarefas durante todo o ano – e o bom humor de quem a faz, entre doses de licor, cachaça e conhaque, doces de espécie (iguaria típica do lugar) e uma bandinha de metais e percussão tocando músicas religiosas e sambas e marchinhas como Trem das onze (Adoniran Barbosa) e O teu cabelo não nega (José Victor Valença, José Raul Valença e Lamartine Babo). Nunca é demais lembrar que é desse híbrido de sagrado e profano que surge a Dança do Cacuriá, cuja base rítmica é alicerçada nas caixas do Divino.

O documentário foi realizado pela maranhense Luiza FC como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da USP. Sábado passado (28), às vésperas do início de mais uma Festa do Divino, o filme foi exibido em Alcântara, no Café com Arte (Rua Grande, 76, próximo à Casa do Divino). Hoje (30), às 18h, O Divino em mim será exibido no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro), com entrada franca.

As sessões do filme integram a Mostra Divino Tambor, junto com o documentário Coreiras, da documentarista também maranhense Júlia Antunes, com apoio da Unesp. Semana que vem os filmes terão exibições no Rio de Janeiro (serviço na imagem abaixo).

Divulgação

Provando do próprio veneno

Eu não sou um homem fácil. Frame. Reprodução

 

Eu não sou um homem fácil [Je ne suis pas un homme facile, 2018, 98 minutos, produção: Netflix] é uma comédia inteligente sobre a guerra dos sexos. Equilibra-se entre engraçadíssimo e caricato, mas propõe reflexões importantes e urgentes.

Seu protagonista, Damien (Vincent Elbaz), um machista contumaz (redundância intencional), bate a cabeça e acorda em um mundo em que os papéis se invertem e os homens passam a sentir na pele (literalmente) toda a opressão desde sempre relegada às mulheres: agora são os homens as vítimas de assédio, os que se preocupam com a barriga que o chope pode proporcionar, os que recebem cantadas nas ruas, os que precisam se depilar, já que “pelo é sinônimo de nojeira”, entre outras violências a que as mulheres sempre estiveram submetidas, supostamente em nome de padrões morais, estéticos e, por que não dizer?, machistas.

O filme faz pensar rindo (ou rir pensando), ao tocar de forma bem-humorada numa chaga social, infelizmente naturalizada, pois profundamente enraizada por diversas culturas, geografias e tempo afora. Eu não sou um homem fácil demonstra como seria ridícula essa troca de lugares de opressores/as e oprimidos/as.

A diretora Eleonore Pourriat já havia pautado o tema no curta-metragem Maioria oprimida [Majorité Opprimée, 2010], em que os papéis também se invertem e um homem é vítima de opressão pelo simples fato de ser homem.

Não chega a ser um libelo anti-machista, mas pode levar à desnaturalização de certos padrões nocivos de comportamento. Tanto que o protagonista, após voltar ao “mundo real”, de antes da pancada na cabeça, engaja-se numa passeata pelos direitos das mulheres. Como deveríamos fazer todos/as nós, homens e mulheres, na construção de uma sociedade justa e igualitária.