O protagonismo de Torquato

Torquato Neto – Todas as horas do fim. Cartaz. Reprodução

 

A voz de Jards Macalé em sua parceria com Torquato Neto em Let’s play that (1972) e a voz de Jesuíta Barbosa no poema Cogito, cujo último verso dá título a Torquato Neto – Todas as horas do fim [documentário, Brasil, 2017; em cartaz no Cine Lume, sessão diária às 20h30], abrem o filme de Eduardo Ades e Marcus Fernando, coalhado de referências, fazendo jus ao homem múltiplo e intenso que foi o tropicalista piauiense.

O primeiro anuncia: “quando eu nasci/ um anjo louco/ um anjo solto/ um anjo torto/ muito louco/ veio ler a minha mão”. E arremata: “vai bicho/ desafinar o coro dos contentes”. O segundo, voz que acompanhará o espectador por todo o filme, lê poemas, cartas e textos jornalísticos de Torquato Neto – cuja voz, de seu único depoimento gravado, de 1968, também é usada.

É um filme reverente, cuja montagem inteligente evoca todas as facetas de seu protagonista: poeta, letrista de música popular, jornalista, ator. Os depoimentos que ajudam a contar sua história são cobertos por trechos de filmes do cinema marginal e do cinema novo. As rápidas aparições de nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Tom Zé são filmadas em super oito, de modo a manter a estética da época e não destoar das imagens de arquivo – resultado semelhante ao de No, de Pablo Larraín.

Curioso é o depoimento de Moreira Franco, ex-governador do Rio de Janeiro, hoje ministro-chefe da secretaria-geral do governo do ilegítimo, nome ligado a escândalos na política nacional, apelidado pelo saudoso Brizola de Gato Angorá, primeiro amigo de infância de Torquato Neto.

Entre as inúmeras citações cinematográficas – uns mais conhecidos, outros mais raros – comparecem O bandido da luz vermelha (1968, de Rogério Sganzerla), Vidas secas (1963, de Nelson Pereira dos Santos), Macunaíma (1969, de Joaquim Pedro de Andrade), Deus e o diabo na terra do sol (1964, de Glauber Rocha), Nosferato no Brasil (1971, de Ivan Cardoso, em que Torquato atua), O demiurgo (1970, de Jorge Mautner, em que Caetano atua), Apocalipopótese (1968, de Raymundo Amado), e Hitler terceiro mundo (1968, de José Agripino de Paula).

Se Gal Costa (uma das grandes intérpretes de Torquato) e Jards Macalé (um de seus muitos parceiros) não comparecem em depoimentos, aparecem cantando Mamãe, coragem (parceria com Caetano Veloso), ele tocando violão na banda dela. Não faltam composições como Pra dizer adeus (parceria com Edu Lobo), Geleia geral, A rua e Marginália II (as três com Gilberto Gil) e Deus vos salve esta casa santa (com Caetano), a dar ideia do quão relevante foi Torquato, não apenas para o Tropicalismo, apesar do suicídio aos 28 anos.

Torquato Neto escrevia compulsivamente. Foto: divulgação

A morte de Torquato Neto completou 45 anos em novembro passado e as homenagens que lhe têm sido prestadas ajudam a jogar novas luzes sobre sua obra. O piauiense foi o homenageado da última edição da Balada Literária, organizada pelo incansável Marcelino Freire – ano passado, além de São Paulo, seu território tradicional, chegou a Teresina, cidade natal de Torquato, e Salvador, para onde ele se mudou aos 16 anos e onde conheceu “o pessoal da Tropicália”.

A gaúcha radicada no Maranhão Isis Rost transformou seu trabalho de conclusão de curso em Ciências Sociais (UFMA) no livro O risco do berro – Torquato Neto: morte e loucura [ed. da autora, 2017], cujo projeto gráfico evoca a Navilouca, revista de número único editada por Torquato com Waly Salomão (1943-2003), que no filme sintetiza o amigo como uma atualização de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Décio Pignatari. A autora foca, desde o título, em dois temas pouco presentes a Torquato Neto – Todas as horas do fim.

O documentário não especula, nem tira conclusões, mas faz bonito ao somar-se aos esforços de manter vivo o espírito de Torquato, protagonista da Tropicália, através de sua obra, vasta e diversa, para alguém que morreu tão jovem.

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Veja o trailer de Torquato Neto – Todas as horas do fim:

Titane percorre as estradas de Elomar

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro. Capa. Reprodução

 

Em show amanhã (10), às 21h, no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte/MG, a cantora Titane lança seu novo disco, inteiramente dedicado ao repertório do baiano Elomar Figueira Mello.

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro é o primeiro disco dedicado por uma mulher ao repertório do autor de O violeiro, Chula no terreiro, Cantiga do estradar e Na quadrada das águas perdidas, para citar algumas das 10 que ela gravou. O resultado é sublime.

Antes, em 1986, Xangai dedicou ao cancioneiro elomariano Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar [Kuarup]. Recentemente, em 2015, seu filho João Omar gravou o instrumental Ao sertano – Peças para violão solo de Elomar F. Mello.

Sobre Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, conversei com exclusividade com a cantora, para a coluna mensal Emaranhado, que assino no site do Itaú Cultural. O texto fruto da conversa será postado por lá por estes dias (este post será editado com o link tão logo aconteça); antecipo a seguir a íntegra da conversa.

Foto: Luiza Palhares

Em sua carreira é a primeira vez que você dedica um disco ao repertório de um único compositor. A responsabilidade é maior?
Dedicar um disco todo à obra de um único compositor é novidade pra mim. Eu tenho, até aqui, feito discos e shows onde a grande variedade, mais que variedade, onde o contraste entre diferentes compositores é muito importante pra mim. Então, por um lado, nos meus shows, eu tenho, por exemplo, um anônimo de Araçuaí, do Vale do Jequitinhonha, ao lado de um Tom Jobim, ao lado do Edvaldo Santana, que é um compositor do subúrbio paulistano. Eu sempre tive muita necessidade desses contrastes pra dizer ao mundo o que eu penso da vida, que é uma vida cheia de contradições, uma cultura brasileira cheia de muitas culturas, um dia a dia que eu tenho que me faz estar em estradas de terra e em grandes avenidas asfaltadas. Enfim, eu sou aquela intérprete que leva recado de um mundo pro outro. Tem sido assim.

Por que Elomar?
Agora eu quis focar em um único autor e acho que fiz isso por que existe o Elomar. O Elomar me permite um recuo de espírito, lá pro fundo da alma humana, aquela alma que existe em todos os tempos, em todos os lugares, em diferentes culturas, então eu recuei pra esse mundo encantado do Elomar, que pra mim é o mundo da natureza humana no que ela tem de mais profundo. E não só profundo, mas inquieto, dolorido e cheio de beleza. Um mundo da natureza humana onde o homem tá sempre buscando entender o sentido da vida.

Diante de um universo tão vasto como o cancioneiro elomariano, como foi escolher as 10 que estão no disco?
As primeiras canções do Elomar que sempre me chamaram a atenção foram aquelas onde o Nordeste brasileiro está bem evidente. Então a primeira escolha, foi assim, foi com músicas onde o Nordeste se fizesse muito presente, inclusive ritmicamente. Os violeiros, os aboiadores, as mulheres firmes que vivem na seca. Depois, num segundo momento, que é a maneira como eu sinto muito o Elomar nesse instante, são as canções que contam histórias de reis, cavaleiros, aventureiros, que me conectam na nossa herança ibérica. Eu nunca tinha me debruçado sobre ela com tanta vontade. Até então meus discos, meu trabalho investigava muito a minha vida ligada ao mundo afro-brasileiro. E agora com Elomar eu caio de vez na cultura ibérica, assim de cabeça. A segunda temática assim, de canções escolhidas, é desse universo. E em terceiro lugar, logo que conversamos com Elomar sobre a possibilidade de gravar o repertório que a gente já começou a trabalhar, ele nos mandou uma lista de sugestões. Então eu incluí algumas sugestões do Elomar no repertório do disco.

Xangai já disse que o Brasil tem Tom Jobim, Pixinguinha e muitos outros, mas que Elomar é o maior. Você concorda com ele?
Tom Jobim, Pixinguinha e Elomar são genialidades irmãs, todas brasileiras. Cada um projeta um Brasil muito rico e complexo. O que talvez Elomar tenha diferente é que os grandes gênios do sertão, em sua grande maioria, são ainda conhecidos só lá dentro, e pouco apreciados. A gente tem pouca oportunidade de conviver com eles, mas eles são também a nossa alma cantante.

Seu disco é patrocinado com recursos públicos, através de mecanismos de renúncia fiscal [o disco é patrocinado pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais]. Como você avalia a necessidade destes mecanismos, sobretudo para artes que correm mais à margem do mercado, e como enxerga o momento de recuo das políticas públicas, não apenas culturais, no difícil momento que o Brasil atravessa?
Todos os lugares do mundo onde a produção artística é exuberante existem ou existiram em algum momento políticas públicas muito determinadas pra fazer a produção artística avançar e cumprir o papel que cabe a ela dentro da sociedade. No Brasil nós temos mecanismos que fazem, que intervêm realmente, na nossa produção cultural. Eu falo principalmente de Minas Gerais, que eu posso falar com mais tranquilidade. A existência dos mecanismos de apoio, de políticas públicas, são fundamentais pra que a nossa produção possa acontecer. Acho que o recurso público deve ser destinado a grandes segmentos da produção cultural que já não estejam excessivamente comercializados. Não faz sentido o dinheiro público ser usado pra grandes produções já comercialmente estabelecidas. Por quê? Por que quando se estabelece comercialmente uma grande faixa de mercado, é por que já há 10, 20 anos, há uma ou duas gerações, existe um grande coletivo de artistas elaborando aquela linguagem. Vamos usar como exemplo um grande ícone da axé music: ele só foi possível existir, de maneira comercial, como produto, por que há uma, duas, três gerações, existe uma grande comunidade, uma grande cultura consolidando aquela linguagem que vai ser a base de projeção comercial desse artista. A política pública tem que atuar no nascedouro, ela tem que atuar nas fontes criativas realmente da cultura e da arte, que são coletivas, que são disseminadas em muitos lugares, em muitos artistas. Sou contra o excesso, talvez até contra mesmo o uso de recursos públicos em grandes eventos comerciais. Esse momento pro país é terrível. A sensação de perda é muito grande, de história girando ao contrário. É nesse contexto que a gente teme pelas políticas públicas. Se nós saímos de um período em que houve um divisor de águas para melhor no governo Lula, por que a gestão do Gilberto Gil, ao lado do Juca Ferreira, foi uma gestão transformadora na ideia de cultura, na ideia institucional de cultura, na ideia das políticas públicas, o que estava por trás da gestão do Juca e do Gilberto Gil, dentro do governo Lula, era a ideia de um grande país com uma grande cultura construída por diferentes culturas étnicas e culturas de diferentes origens sociais, enfim, culturas urbanas, culturas sertanejas, culturas indígenas, de matriz africana, enfim. O grande conceito que se consolidou dentro da política pública no governo Lula foi esse conceito amplo, complexo, rico, que realmente corresponde à cultura brasileira. Nós estamos no momento, agora, onde acontece o contrário. É preciso acabar com a política pública da cultura, pensar que cultura, entre aspas, não existe, e o que deve haver é um monte de cabeças não pensantes, não produtoras de conhecimento, mas cabeças que atendam aos interesses econômicos que regem esse novo modelo político, que é o do governo Temer, que eu acho que são modelos econômicos pensados pra colocar o Brasil numa condição muito ruim internacionalmente mesmo, numa condição de servo das grandes empresas internacionais, pra gente ser apenas servo. Nós paramos de pensar nossa música, não damos palpite nas políticas de mineração, que são irresponsáveis e predadoras, enfim, por aí vai.

Outro guardião da obra de Elomar é o violonista João Omar, filho dele. Você teve algum contato na feitura do disco?
O João Omar é uma grande luz quando se trata da obra do Elomar. É um grande músico e se dedicar também à obra do Elomar é um presente pra nós todos. O disco do João Omar onde ele executa as peças para o violão feitas pelo Elomar é uma pérola, e o diálogo nosso com o João Omar começa nesse momento, ouvindo muito a maneira dele tocar, ouvindo a maneira dele proceder diante da obra do Elomar. Nós temos tido um contato já há algum tempo, o João Omar já nos ouviu tocando, cantando, espero que esse contato nosso se estreite cada vez mais. Eu tive uma oportunidade de cantar com ele, ano passado, num concerto do próprio Elomar. O Elomar convidou vários de nós em Minas pra poder participar da apresentação que ele fez comemorando seus 80 anos em Belo Horizonte. Nessa oportunidade a gente cantou juntos com Elomar, eu cantei e também cantei acompanhada pelo João Omar, e é uma experiência que eu espero que se repita muitas vezes.

Merece destaque o time de músicos arregimentado para esta empreitada. Vamos falar um pouco do convívio durante a realização do álbum?
Músicos todos inspiradores. Eu devo a atitude, a decisão de gravar esse disco a dois músicos: primeiro ao Kristoff Silva, que eu convidei pra produzir o cd junto comigo, que tempos atrás falou pra mim: “Titane, tá na hora de você dedicar um disco a um autor e esse autor deve ser o Elomar”. Então eu fiquei com isso em mente e agora na hora de gravar, convidei o Kristoff para produzir comigo. O segundo ser fantástico [risos] é Hudson Lacerda, que é um artista muito, muito, muito especial, um violonista privilegiado, virtuosístico, com uma formação acadêmica muito rigorosa, muito consistente, mas acima de tudo um grande músico brasileiro, que domina a música brasileira de todos os tempos, toca tudo, canta música da década de 1930, 40, 50, a produção nossa recente e também domina muito a música latino-americana. Então é um violonista que recentemente se dedicou à obra do Elomar tendo todo esse lastro de conhecimento e de prática com a música, como solista, inclusive, com a música brasileira e latino-americana. Junto com o Kristoff Silva, ele foi um dos quatro violonistas que transcreveu para partituras a obra do Elomar. Dos quatro, o Hudson foi o que pegou o violão para conferir as partituras ao lado do Elomar. É um privilégio ouvir Hudson tocando Elomar. Quando eu comecei a cantar com ele eu fiquei muito encantada, muito tomada pela excelência do violão dele, eu decidi fazer o repertório junto com ele, fizemos alguns shows juntos, só nós dois, em salas sem amplificação nenhuma de som, feitas pra música de câmara, e agora ele tá junto comigo no disco. O violão do Hudson no disco e também nos shows é o ponto de partida pra toda a construção dos arranjos e a chegada dos outros instrumentos. Nós, Kristoff e eu, decidimos pela inclusão de um contrabaixo, coisa que a gente tem pouca oportunidade de ver atuando no repertório do Elomar e precisávamos de um baixista atento, disponível e que topasse encontrar a melhor forma de fazer o baixo, de criar, de fazer o contrabaixo, que encontrasse a melhor maneira de fazer com que o contrabaixo cumprisse sua função dentro da música. Então a gente convidou o Aloízio Horta que fez isso com muito esmero. A presença do baixo é fundamental no disco, inclusive serve bastante como contraponto pra minha voz, que tem um colorido muito claro, eu sinto sempre muita falta do contrabaixo, dos tambores, contracenando com a minha voz e o Aloízio veio dar essa grande contribuição. O outro músico é André Siqueira, que é um músico com habilidades muito grandes assim, que toca várias cordas, violões, violas, charangos, cavaquinhos, toca isso tudo com muita versatilidade, com uma capacidade de improvisação muito grande. Ele foi convidado, trouxe vários instrumentos e acabou tocando a viola de 14 e o bouzouki [instrumento de cordas semelhante ao alaúde], que é um instrumento celta que ele trouxe e que se encaixou muito bem no que a gente gostaria de ter. O André Siqueira atualmente é radicado em Londrina e veio gravar conosco. O outro músico convidado, de presença definitiva no disco, e agora também convidado especial do show, é o grande Toninho Ferragutti. O Toninho Ferragutti tem um papel fundamental na construção da história do acordeom dentro da música brasileira. Eu considero o acordeom um dos instrumentos fundantes da nossa música e o Toninho, dentro da história do acordeom, ele é peça chave. É aquele cara que consegue pensar um instrumento e fazer com que ele colabore com todo tipo de linguagem musical, de linhagem musical, ele consegue mostrar o quanto o acordeom é fundamental e pode contribuir pra essa construção da música. Houve um momento em que eu conversando com Elomar, falei: “Elomar, em algumas canções eu queria ter um volume sonoro maior, uma variedade maior de timbre, tou pensando em que instrumento colocar”, e ele falou: “acordeom, acordeom, é claro que é o acordeom”. Foi seguindo o palpite do Elomar que a gente decidiu pelo acordeom e inevitavelmente recaímos sobre o Toninho Ferragutti e eu sou muito agradecida por ele ter topado trabalhar conosco. Não podia faltar o querido grande Pereira da Viola, um dos grandes violeiros da música brasileira, que inova na linguagem da viola e ao mesmo tempo permanece como um legítimo folião de reis, de uma família que faz sua folia de reis até hoje, lá no meio do sertão. Ele é muito querido, tem uma voz que evoca outras vozes, que nos remete a outros tempos. Ele está mais uma vez como meu convidado no meu disco. Eu sou convidada em vários trabalhos dele, ele é meu convidado também em vários dvds, cds, nossa parceria permanece.

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Veja a participação de Titane e Hudson Lacerca no Sr. Brasil, apresentado por Rolando Boldrin na TV Cultura. A dupla interpreta Cavaleiro do São Joaquim (Elomar):

Receitas para a liberdade

Taurina. Capa. Reprodução

 

Anelis Assumpção não é uma vaca sagrada da MPB. Tampouco descende de uma – Itamar Assumpção – ou é casada com outra – Curumin. Operária e artesã, Taurina [Scubidu/ Natura Musical, 2017], seu terceiro disco solo, demonstra a consolidação de uma carreira pautada pela coerência.

Pintada por Camile Sproesser, Anelis Assumpção figura na capa com os seios à mostra, misto de mulher e vaca, animal de muitos significados, segurando os ingredientes com que preparará e servirá o banquete, coisa fina.

A cantora posa para a pintura da capa do disco. Foto: Caroline Bittencourt

Sozinha ou em parceria, Anelis Assumpção é autora das 13 das 14 faixas – a única exceção é Receita rápida, parceria de seu pai com Vera Motta –, ambientadas entre a cozinha e a feira, com seu Pastel de vento (título de uma das faixas), seus Caroços (I e II, sambas em parceria com Russo Passapusso), sua Água (parceria com Rodrigo Campos) e sua Moela.

Segunda a sexta, primeiro single lançado (ainda em janeiro), fala de um amor proibido, de forma bastante sutil, pontuado pelo trocadilho entre o dia da semana e o utensílio em que se carregam frutas e verduras: “Eu fui na feira pra te ver/ você ñ foi na feira ñ/ é de segunda a sexta/ é de segunda a sexta/ de segunda a sexta/ eu fui sozinha pra te ver/ alguém pegou na tua mão/ meu coração na cesta/ meu coração na cesta/ coração na cesta/ minha fruteira está vazia/ burocracia mandou avisar/ tão insalubre que essa vida/ anda/ com dia e hora para te encontrar”, diz a letra.

Em Chá de jasmim, parceria com a irmã Serena Assumpção (falecida em março de 2016), a quem ela dedica Taurina, canta: “joguei água na chaleira/ deitei a flor do jasmim/ naquele dia/ eu te dava na cozinha/ cê gozava e eu fingia/ que tinha amor ali”.

Anelis Assumpção subverte. A feira e a cozinha, às quais as mulheres sempre estiveram confinadas, torna-se o lugar em que elas estão por opção, fazendo o que bem entendem. Pastel de vento, por exemplo, brinca com a típica iguaria para falar de amor e prazer: “Pastel de vento/ silêncio no meio/ receio meu coração dentro/ nada de recheio no recreio/ coração ao meio/ é lento e ligeiro/ meio tensão/ meio tesão”, canta.

Sobre a liberdade de estar onde quiser e fazer o que quiser, Anelis Assumpção também canta em Amor de vidro (parceria com Russo Passapusso e Saulo Duarte): “Nosso amor é feito de vidro/ ½ dúzia de cervejas que tomamos/ num boteco ali na esquina/ frágil e delicado nosso amor pode quebrar/ uma ampola e dois cigarros/ e me entrego sem pestanejar”.

Ex-integrante do cult DonaZica (que também tinha Andréia Dias e Iara Rennó, para citarmos apenas as cantoras), é difícil falar em disco solo de Anelis Assumpção, ela que está sempre bem acompanhada. Em Taurina destacam-se as guitarras de Lelena Anhaia e Cris Scabello, mellotron, wurlitzer, violão e piano de Beto Villares (produtor do disco), os contrabaixos de Zé Nigro (coprodutor) e MAU, a bateria de Bruno Buarque, além da participação especial do Negresko Sis (Anelis, Céu e Thalma de Freitas) em Receita rápida.

Por falar em receita, nas de Anelis Assumpção todo ingrediente vira música: neste disco, áudios de whatsapp de amigos (Tulipa Ruiz, Céu, Karina Buhr, Ava Rocha e Laís Sampaio em Chá de jasmim) dialogam com tudo o que está posto à mesa.

Merecem destaque ainda o reggae Paint my dreams e Escalafobética (parceria com João Donato), em que inventa palavras, num texto que evoca Graciliano Ramos para novamente falar da mulher – afinal de contas, pauta principal desta obra de arte.

O disco, aliás, abre com um convite: “senta aqui comigo nessa/ pedra/ descobre teu drama/ meu sangue/ rio escorre/ vamos dar um mergulho interior”, chama em Mergulho interior. Quem tiver apetite, curiosidade e sensibilidade não recusará.

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Veja o lyric video de Segunda a sexta (Anelis Assumpção):

Quantas vidas cabem numa só?

Lou. Frame. Reprodução

 

Quantas vidas alguém precisará viver para viver uma vida como a de Lou Andreas-Salomé [1861-1937]? Esta é uma das perguntas possíveis ao término de uma sessão de Lou [drama/histórico/biografia, Alemanha/Suíça; 113 min.; em cartaz no Cine Lume], de Cordula Kablitz-Post, cinebiografia da escritora e psicanalista que influenciou Sigmund Freud [interpretado por Harald Schrott], o pai da psicanálise – só dizer isto já dá ideia da grandeza da personagem.

Bem realizado na reprodução de cenários e figurinos da época, o filme parte da decisão da protagonista de escrever sua biografia, aos 72 anos. Entra em cena a figura de Ernst Pfeifer [Matthias Lier], então desempregado, que acabará por virar o administrador do espólio de Lou Andreas-Salomé [Nicole Heesters interpreta a personagem aos 72 anos; Katharina Lorenz, dos 21 aos 50; Liv Lisa Fries, aos 16; e Helena Pieske, aos seis], até sua própria morte, responsável pela redescoberta da mulher que se insurgiu contra os padrões então vigentes.

A história tem início em 1933, no período entre-guerras. Lou  é uma senhora reclusa que já havia parado com os atendimentos. O filme se equilibra bem entre os diálogos entre a protagonista e seu datilógrafo – que acaba assumindo um papel misto de repórter e confidente –, que também acaba se apaixonando por ela, e no vaivém das histórias que conta, remontando à infância em São Petesburgo e ao mundo que ganhou ao desafiar a mãe e o status quo, após a morte do pai.

Numa época em que às mulheres não era dado o direito de estudar, é isto o que Lou faz, simplesmente por não aceitar a condição subalterna imposta ao sexo feminino. Seu primeiro livro é publicado com um pseudônimo masculino: os editores de então não acreditavam no sucesso de um livro escrito por uma mulher. Acabou por tornar-se pioneira da psicanálise e do feminismo; no primeiro campo dedicou-se à sexualidade feminina; no segundo, antecipou-se a sistematizações acadêmicas que só aconteceriam no século XX.

Em suas conferências é seguida por um devotado René Maria Rilke [Julius Feldmeier] que, por sugestão dela, adota o pseudônimo Rainer e vem a ser o poeta que conhecemos hoje, tantos anos depois. É ele quem irá quebrar sua repulsa ao casamento, que acreditava ser um sinônimo de perda de liberdade, após a dispensa de pretendentes do naipe dos filósofos Paul Rée [Philpp HauB] e Friedrich Nietzsche [Alexander Scheer].

Sua luta por liberdade tinha um quê de egoísmo, ela mesmo admite a determinada altura. “O que mudou para as mulheres?”, pergunta a seu privilegiado interlocutor noutro momento. Mas certamente inspirou a insurgência de outras mulheres e a (r)evolução que vemos, infelizmente ainda, mais lenta do que gostaríamos e do que o necessário.

A cinebiografia certamente ajudará a jogar luzes sobre esta personagem tão importante quanto desconhecida do grande público. O silêncio sobre ela e sua obra ajuda a compreender as relações de poder estabelecidas, contra as quais Lou dedicou toda a sua vida e obra.

Merecem destaque os grafismos em que Lou movimenta-se por estáticos cartões postais. Piegas é a forma como se apresenta o deus com quem conversa na infância e de quem se lembra no divã de Freud, o que nem de longe tira o brilho do filme, ousado como sua protagonista, ao decidir abarcar tantos aspectos da vida – ou das vidas? Quantas ela viveu numa só? – de Lou Andreas-Salomé.

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Veja o trailer de Lou:

Intimidade, bom humor, beleza e afeto

Foto: Zema Ribeiro

 

Zé Renato esteve em São Luís como convidado do show de lançamento de Avessa manhã, novo disco que Tutuca Viana lançou quinta-feira passada, do qual o capixaba tornado carioca participa.

Aproveitou a passagem pela ilha para uma hora extra e fez um show intimista e bem humorado, de repertório afetivo, para um seleto público, no Clube do Chico, ontem (3).

Subiu ao palco após apresentações de Gabi, Luiz Jr. e Marconi Rezende – com quem dividiu o primeiro número, quando o anfitrião confessou só ter descoberto recentemente que Feito mistério (Lourenço Baeta e Cacaso), que tanto ouviu com o Boca Livre, havia sido também gravada pelo grupo – de que Zé Renato é integrante – com a participação especial de Chico Buarque. Zé Renato agradeceu a participação especial elogiando-o: “Marconi Rezende Buarque de Holanda. Eu estava ouvindo o Marconi cantando, não só Chico Buarque, eu tenho certeza que qualquer autor gostaria de ser cantado por ele”, declarou.

Em Anima (Zé Renato e Milton Nascimento) – que Zé Renato já havia cantado em sua participação especial no show de Tutuca – contou a história: “eu morava num apartamento na Gávea, dividia com o Vinicius Cantuária e um dia o Chico Buarque apareceu. Pediu para mostrar o que estávamos fazendo, eu mostrei essa melodia, ele levou e disse que ia musicar. Daí eu fui fazer um show em Minas com o Boca Livre e mostrei pra Milton e disse que Chico ia musicar. Aí ele disse: diga para o Chico que essa quem vai musicar sou eu. Aí eu liguei para o Chico desconvidando, eu tenho isso no meu currículo”, riu junto com a plateia.

“Por falar em Milton, a primeira vez que eu o ouvi”, afirmou antes de cantar Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant). “Quando eu vi o show de Milagre dos peixes [1973], em que Milton era acompanhado pelo Som Imaginário, foi que eu decidi que música era o que eu queria para minha vida”, confessou.

Zé Renato passeou pelos repertórios de sua carreira solo e do Boca Livre, mas demonstrou também sua ascendência musical, enumerando nomes importantes para a sua formação. Antes de cantar Diana (Fernando Brant e Toninho Horta), anunciou: “essa é do Fernando Brant com um dos maiores guitarristas do Brasil”, ocasião em que lembrou que 2018 marca os 40 anos do Boca Livre. Em seguida cantou Mistérios (Joyce e Maurício Maestro), também do repertório do grupo.

Depois foi a vez de reverenciar outro nome da MPB. “Outro cara importante, o Boca Livre tem a honra de ter gravado Geraldinho Azevedo em dois discos”, lembrou, antes de emendar Barcarola do São Francisco (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando) e Caravana (Geraldo Azevedo e Alceu Valença).

Em roteiro tão coeso, difícil apontar destaques, mas Acontecência (Cláudio Nucci e Juca Filho) botou parte do público para cantar junto. A hora e a vez (Ronaldo Bastos, Zé Renato e Cláudio Nucci) antecedeu Estácio, holly Estácio (Luiz Melodia), cujo compositor Zé Renato afirmou figurar em seu repertório afetivo.

“Agora uma compositora, a grande Sueli Costa”, anunciou antes de cantar Dentro de mim mora um anjo (Sueli Costa e Cacaso). Após cantar Diz que fui por aí (Zé Keti e Hortensio Rocha) lembrou de quando conheceu Zé Keti. “Meu querido José Flores de Jesus, Zé Keti. Eu já conhecia o Zé Keti compositor, sabia seus sambas, mas só depois de gravar o disco dedicado a seu repertório [Natural do Rio de Janeiro, de 1995] é que fui conhecê-lo pessoalmente. E o Zé Keti dava em cima de todo mundo. Inclusive de nossas mulheres, com nosso consentimento [risos]. Uma vez chamaram a gente para gravar um programa de tevê, ele lembraria a Lapa de seu tempo, eu falaria da Lapa de agora, na época. Tudo combinado, botaram o microfone lapela nele, ele vinha caminhando e de repente passa uma mulher e ele: que bela bunda! E o pessoal: corta!”, tornou a rir com a plateia.

Quando Zé Renato veio participar do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, no final de 2016, com o projeto Dobrando a Carioca, em que divide o palco com Guinga, Jards Macalé e Moacyr Luz, eles estavam lançando o cd e dvd ao vivo, de modo que o município da ilha recebeu o primeiro show após aquele trabalho ficar pronto. Desta vez ele trazia na bagagem Bebedouro [2017], seu novo disco, que ainda não teve show de lançamento. De lá, cantou Vamos curtir o amor, parceria com Moraes Moreira.

A bem humorada Como tem Zé na Paraíba (Manezinho Araújo e Catulo de Paula), do repertório de Jackson do Pandeiro, gravada por ele em Cabô [1999], lhe cai à perfeição: “mas o diabo é que eu me chamo Zé”, brinca a letra.

Outra do repertório do Boca Livre, Desenredo (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro) precedeu o bloco dedicado a Chico Buarque – a que dedicou, ao lado de Noel Rosa, o disco Filosofia [2001]; o poeta da Vila, no entanto, não foi lembrado ontem.

Seguiram-se Morena dos olhos d’água (Chico Buarque), Samba do grande amor (Chico Buarque), Samba e amor (Chico Buarque) e Tua cantiga (Chico Buarque e Cristóvão Bastos), de Caravanas, disco mais novo de Chico Buarque. “Estou fazendo um show com Cristóvão Bastos, parceiro do Chico nessa música e pedi a ele umas dicas; se eu errar, vocês me perdoam, mas eu acho que vocês vão cantar juntos, vocês sabem tudo”, provocou, antes de cantar lendo a letra. O bloco de Chico foi fechado com Eu te amo (Tom Jobim e Chico Buarque), gancho para O amor em paz (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), que levou o cantor a se lembrar da honra do convite para gravar a trilha sonora de O tempo e o vento, de que a música faz parte.

Zé Renato devolveu a gentileza e convidou Tutuca Viana ao palco. Emprestou-lhe o violão e juntos cantaram Que prazer (Tutuca Viana), faixa que abre Avessa manhã, com a participação especial de Zé Renato. Do palco, Tutuca pediu a Zé Renato que mostrasse uma parceria inédita com Zeca Baleiro: “é a estreia mundial”, brincou Zé Renato. Depois cantaram juntos Boi danado (Sérgio Habibe), outra música gravada pelo Boca Livre.

Em Boca Livre, aliás, terminaria a noite. Ou melhor: o show de Zé Renato. Ele cantou Toada (Na direção do dia) (Zé Renato, Cláudio Nucci e Juca Filho), outra que já havia figurado em sua participação no Teatro Arthur Azevedo, dois dias antes. Atendendo aos pedidos de “mais um” emendou Quem tem a viola (Zé Renato, Cláudio Nucci, Juca Filho e Xico Chaves).

A noite continuou com a volta de Marconi Rezende ao palco, em gratidão que era sua mas que traduzia a de todo público presente, satisfeito com o espetáculo de rara beleza que presenciou.

Conflito kafkiano – e a resistência quixotesca da Pequena Companhia de Teatro

O diretor Marcelo Flecha ladeado pelos atores Cláudio Marconcine (E) e Jorge Choairy. Foto: Rose Panet

 

Ontem, ao fim da sessão de Pai e filho, quando teve início o debate com o diretor e o par de atores da peça, calei. Não era apenas o receio de antecipar algo deste texto. Era o impacto do espetáculo.

Ninguém é obrigado a participar do debate. Ao fim da apresentação, a porta é aberta, mas o exercício é interessante: Marcelo Flecha (dramaturgia e direção), Cláudio Marconcine (o pai) e Jorge Choairy (o filho) bateram um papo informal com o bom público presente à sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande; lotação: 45 lugares). Mais que “gente do teatro”, são pensadores do Teatro, com T maiúsculo.

A noite de ontem foi histórica: estava presente o espectador número 10.000, após 148 apresentações de Pai e filho em 62 cidades de 22 estados brasileiros, desde 2010, quando a peça foi encenada pela primeira vez. Pode parecer pouco, mas o Teatro da Pequena Companhia de Teatro é realizado para pequenas plateias e também por isto merecem aplausos estes quixotes.

Baseada na Carta ao pai, de Franz Kafka, Pai e filho mereceu todos os prêmios que conquistou, e não foram poucos: Myriam Muniz/Funarte e Sated Maranhão, para citar apenas dois, além da participação em diversos festivais e mostras. Foi o primeiro espetáculo maranhense selecionado para o projeto Palco Giratório, do Sesc.

Volto a mim, ao fim do espetáculo. A primeira sensação foi a de tempo perdido: como pude levar tanto tempo para ver a peça?

Este texto, agora, diz tudo o que eu poderia ter dito ontem ao trio (bem como aos demais integrantes da Pequena Companhia de Teatro), mas não o fiz.

A começar pelos parabéns pela transposição da literatura ao palco. Se adaptações em si já não são fáceis pelas comparações quase sempre sem sentido – o livro é fiel à peça? A peça é melhor que o livro? Ora, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Mas a adaptação de Flecha é feliz ao transformar uma carta não enviada pelo escritor a seu pai, ou seja, um monólogo, já que, se não foi enviada, não teve resposta, em um diálogo.

Intenso diálogo, diga-se. Marconcine e Choairy agigantam-se no palco. Sua entrega é tamanha, suas máscaras estão para muito além da maquiagem. Um deles, cito de memória, revelou, em entrevista ao Balaio Cultural, programa que tenho a honra de apresentar na Rádio Timbira AM, com Gisa Franco por companheira de bancada, que na dramaturgia de Flecha não há um fio de cabelo fora do lugar.

É impressionante como isso diz bastante sobre o que vi ontem. Mais que vi: senti.

O pai é um lojista-alfaiate e o filho um escritor, “o intelectual”, como desdenha ironicamente o primeiro. Eles estão o tempo todo em movimento, quem ainda não viu não perca tempo imaginando, pensando em monotonia ou coisa que o valha, longe disso.

Não há excessos, mas em cena, Marconcine e Choairy parecem vestir não só outros corpos, mas outras vidas. Está tudo milimetricamente calculado: as vozes e trejeitos de um e de outro, a lida do pai com linhas e panos e do filho com livros e cadernos.

“Por que você tem medo de mim?”, a pergunta do pai norteia o diálogo, recheado de violência, pontuado de bom humor, não o do riso fácil e gratuito e por isto Pai e filho merece mais aplausos: a longevidade de um espetáculo que não é entretenimento puro e simples.

Os personagens travam uma conversa – ou tentativa de – em que os argumentos se anulam. O pai quer sempre ter razão, mesmo sendo incoerente, e o filho, se/quando responde, se arrepende e pede desculpas. Ou simplesmente silencia.

O poeta Roberto Piva dizia que não existe poesia experimental sem vida experimental. A julgar por esta carta levada ao palco, a própria vida de Kafka foi kafkiana, o autor já praticava a autoficção tão em voga atualmente.

Pai e filho é uma metáfora das relações familiares e sociais, uma crítica a hierarquias e a estruturas de poder convencionadas. Um convite à rebeldia – como é o próprio fazer artístico da trupe da Pequena Companhia de Teatro, a quem desejamos teimosia e merda!

Serviço

Pai e filho tem duas novas sessões hoje (4) e amanhã (5), às 19h, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Os ingressos, à venda no local, meia hora antes de cada sessão, custam R$ 20,00 (meia para estudantes: R$ 10,00).

Corpos poéticos, corpos políticos

Momentos de Chico, eu e Buarque. Fotos: Clarissa Anfevi e Louise Mendes/ Divulgação

 

Dividido em três atos, o espetáculo de dança Chico, eu e Buarque – Fragmentos poéticos é um mergulho no vasto universo do compositor Chico Buarque, cujos versos de enfrentamento à ditadura militar brasileira nunca ficaram datados, seja por sua genialidade poética em si, seja pelo Brasil nunca ter acertado contas com o passado e vivermos a iminência (?) da repetição da história como tragédia.

Idealizado pelo diretor do Teatro Arthur Azevedo Celso Brandão, dirigido e coreografado por Anderson Couto e realizado pelo Núcleo de Arte Educação (NAE) do TAA, parceria das Secretarias de Estado de Educação (Seduc) e Cultura e Turismo (Sectur), Chico, eu e Buarque marca um novo momento nas artes cênicas do Maranhão e na história do próprio TAA, quando a casa, além de receber espetáculos e produções, produz seus próprios feitos – além deste espetáculo de dança, também o maravilhoso João do Vale – O musical.

11 bailarinos em cena: 10 do corpo do NAE – André Lima, Calina Rubim, Daniel Lima, Geisa dos Anjos, Heide Cabral (que deu nome ao espetáculo nos estudos que o precederam), Isabella Sousa, Kleverson Froz, Weber Bezerra, Miriam Martins e Nuiliane Lago – mais a professora Débora Buhatem, que surge sozinha e leve, para “ficar em teu corpo feito tatuagem”, após a explosão de Geni em Geni e o zepelim, fechando o primeiro ato.

O espetáculo se abre com Construção/Deus lhe pague (1971), em que cenário e luzes simulam o trânsito apressado de operários brasileiros, com todos os bailarinos do NAE em cena. É o bloco das músicas de protesto, longe de panfletos datados: seguem-se Cálice (Gilberto Gil e Chico Buarque, 1978), na interpretação de Chico e Milton Nascimento, Apesar de você (Chico Buarque, 1978), O que será (À flor da terra) (Chico Buarque, 1976), novamente cantada em dueto com Milton, Geni e o zepelim (Chico Buarque, 1979) e a versão instrumental de Tatuagem (Chico Buarque e Ruy Guerra, 1973).

O segundo ato traz à cena o Chico romântico, valorizando trios e pas de deux: Samba e amor (Chico Buarque, 1970), Terezinha (Chico Buarque, 1977), João e Maria (Chico Buarque e Sivuca, 1977) e Todo sentimento (Chico Buarque e Cristóvão Bastos, 1987), quando as flores do cenário descem quase ao chão e uma dançarina brinca com elas, antes de fazê-las novamente voar, alusão ao “sopro do criador” de que falava outro compositor, aqui mais um motivo para celebrar o Chico criador de alguns dos momentos mais sublimes de nossa vasta música popular.

O ato final marca o diálogo da obra de Chico Buarque com os ritmos da cultura popular do Maranhão. Os bailarinos saem de longas fitas – evocando os chapéus dos caboclos de fita do bumba meu boi – nas cores da bandeira jamaicana (afinal de contas celebra-se Chico Buarque na Jamaica brasileira). Ou seria a bandeira do Sampaio Correa aludindo ao tricolor carioca por que torce o compositor?

Neste ato, novas gravações e arranjos (de Rovilson Pascoal) para a obra de Chico Buarque, inserindo os tambores de crioula e mina e o bumba meu boi, a provar que o universo buarqueano é mais vasto e aberto do que sonha a nossa vã filosofia.

Nessa pegada, seguem-se Cotidiano (Chico Buarque, 1971), Paratodos (Chico Buarque, 1993) e Roda viva (Chico Buarque, 1968) – cujo uso a TV Cultura teve desautorizado na abertura do programa homônimo, após a emissora veicular uma entrevista com o ilegítimo Michel Temer (não havia contrato formal com a emissora para uso da canção, mas um acordo verbal entre o autor e o produtor Fernando Faro, falecido em abril de 2016).

Chico, eu e Buarque é um espetáculo político e não poderia deixar de ser, em se tratando do homenageado, autor da trilha sonora. O corpo fala e no palco está mais livre do que nunca, para reinterpretar a riqueza de um verdadeiro craque da canção brasileira – interpretações erradas de uma entrevista que ele deu ao jornalista Fernando de Barros e Silva, para a Folha de S. Paulo, em dezembro de 2004, levaram muita gente a acreditar que Chico Buarque teria decretado “a morte da canção”.

Mas voltemos ao espetáculo, que fecha com outra canção de protesto, cantada até hoje em plenos pulmões carnavais afora: Vai passar (Francis Hime e Chico Buarque, 1984). A arte imita a vida e tudo termina em samba. Que fique o alerta e nossa pátria mãe tão distraída pare de ser subtraída em tenebrosas transações. E a tragédia brasileira deixe de se repetir. Para Chico Buarque seguir atual por outros motivos.

Um sebo novo na ilha. Alvíssaras!

Os sócios Riba e Natan. Foto: Zema Ribeiro

 

Há mais de 10 anos entrevistei a saudosa Moema de Castro Alvim, então proprietária do sebo Papiros do Egito, para um trabalho de faculdade – o resultado viria a ser publicado depois, no Overmundo.

Naquela conversa – uma das muitas que tivemos ao longo de mais de 20 anos de amizade – ela alertou para uma equação que não fechava: enquanto faculdades particulares eram abertas, livrarias e sebos se fechavam.

A pulga atrás da orelha me acompanha até hoje.

São Luís é uma cidade que convive com vários títulos – ou apelidos, como queiram. Uns se justificam por si só. Outros acabam ganhando status de verdade de tanto se repetirem, na perspectiva de Goebells, ministro da propaganda nazista.

Um bom exemplo é a rixa entre os atenienses e jamaicanos locais. A meu ver a questão se encerra facilmente: enquanto quase ninguém lê, os clubes de reggae estão lotados – e não, a meu ver, uma coisa não inviabiliza a outra.

Acompanho há algum tempo o trabalho do professor Natan Máximo, que já teve sebo fixo no Centro da cidade (na Rua das Flores), mas que ultimamente tem literalmente montado a barraca em eventos culturais como o projeto RicoChoro ComVida na Praça, de que acompanhou boa parte das edições: enquanto o público prestigiava a boa música no palco, podia também adquirir livros, cds e vinis usados.

A barraca de Natan, com seu caráter agregador e a presença do sócio Riba (outro, não o do Poeme-se), acabou por ganhar o nome de Feira da Tralha, exibido na faixa na fachada do sebo – fixo – que ele e Riba (ambos na foto que abre este post) inauguram hoje, às 18h, no térreo do Edifício Colonial (sala 8, esquina das ruas Godofredo Viana com Sol, Centro).

A inauguração terá apresentação do Regional Deu Branco, formado por Cleiton Canhoto (violão sete cordas), Erivan Neri (flauta), Jamil Cartágenes (cavaquinho), Kleiton Groove (trombone) e Valdico Monteiro (pandeiro). O grupo terá as participações especiais de Joãozinho Ribeiro e Rosa Reis. Na ocasião serão vendidos caldo de sururu e cerveja.

É outra coisa de que há tempos me ressinto: não há um bar nas proximidades do Teatro Arthur Azevedo, para o caso de uma resenha regada a chope e bom papo, após este ou aquele espetáculo. A Feira da Tralha é um sebo, não um bar, mas poderá em parte preencher essa lacuna. Tomara!

De um modo ou de outro, é sempre motivo de comemoração a inauguração de um sebo, uma livraria, uma loja de discos, uma banca de revistas e estes estabelecimentos em extinção – ou melhor, na contramão.

Divulgação

Noite de prazer

Foto: Fernanda Torres

 

Tutuca Viana referiu-se acertadamente ao Teatro Arthur Azevedo como palco sagrado. Festejou seu reencontro com a casa enquanto cantor e compositor, ele que, costumeiramente, nos últimos anos, tem estado mais entre a plateia e os bastidores, assistindo ou produzindo shows.

O artista estava em casa, entre amigos. A começar pela banda: Marcelo Carvalho (teclado), Nema Antunes (contrabaixo), George Gomes (bateria), Darklilson (percussão) e Israel Dantas (violão, guitarra, arranjos e direção musical).

Fez um show divertido, tão à vontade se sentiu. Abriu com Broto (João Marques). Lembrou-se de seus tempos de esquina de Alecrim com Sete de Setembro, no Centro da cidade, quando começou a compor. Confessou influências e partilhou histórias com a plateia. Contou com a participação especial de Rui Mário (sanfona) em dois números.

Não se envergonhou ao admitir ter esquecido a letra de Tão dia, parceria com o piauiense Cruz Neto. O público aplaudiu mesmo o erro e ele começou novamente, sentado, ao violão, acompanhado apenas por Israel Dantas.

Ao longo do show, passeou por todo o repertório de Avessa manhã e, ainda sentado, ao violão, acompanhado pelo irmão Marcelo Carvalho, lembrou sucessos antigos: Beijo de luz (Tutuca Viana, Reinaldo Barros e César Nascimento), Canoa quebrada (Tutuca Viana e Gigi Castro) e Morada de trem (Tutuca Viana e Reinaldo Barros). A plateia fez coro.

Chamou a primeira convidada da noite. Acompanhada por Tutuca ao violão, e Darklilson ao tamborim, Tássia Campos cantou Nada como o tempo (Tutuca Viana e Veiga Neto), bonito samba inédito. Em seguida, ela ficou só no palco, gracejou com a solidão e a escuridão, desculpou-se por não ser uma exímia violonista, e lembrou-se de um prêmio recebido na Rádio Universidade FM por sua gravação de Logradouro (Kléber Albuquerque), que cantou.

Tutuca botou o público para estalar os dedos no jazz Meu grande amor (Tutuca Viana) e em seguida chamou Zé Renato ao palco, com quem dividiu os vocais em Que prazer (Tutuca Viana), faixa que abre Avessa manhã, que está tocando bem nas rádios locais. Ambos trocaram gentilezas e fizeram trocadilhos com o título da música e o prazer mútuo de estarem ali. O anfitrião revelou ter mostrado a música a Jards Macalé e este ter dito que “é a cara do Zé Renato”, imitando a voz do autor de Vapor barato. “Que bom que você gostou e topou participar”, tornou a agradecer.

Capixaba adotado pelo Rio de Janeiro, Zé Renato ficou sozinho ao palco e lembrou três sucessos, sentado, ao violão: Anima (Zé Renato e Milton Nascimento), Papo de passarim (Zé Renato e Xico Chaves), que intitulou o disco que dividiu com Renato Braz em 2011, e Toada (Na direção do dia) (Zé Renato, Cláudio Nucci e Juca Filho), talvez o maior sucesso do Boca Livre – certamente um aperitivo do show que ele não anunciou ontem, mas fará amanhã (3), às 20h, no Clube do Chico (Rua Uirapuru, 17, Calhau – entrada do Grand Park, pela Av. dos Holandeses, primeira à esquerda; ingressos: R$ 45,00; reservas limitadas pelo telefone (98) 99988-9186).

Tutuca lembrou-se ainda de “um cara que eu sempre admirei e acabei me tornando amigo, que infelizmente nos deixou”, antes de tocar “uma que não estava no script”, Na hora do almoço (Belchior). Com a banda de volta ao palco, teceu elogios a Zezé Alves, autor de Índio guri (parceria com Ricardo Valente), que defendeu “em um festival no [ginásio] Costa Rodrigues. Foi acompanhado por um coro de cinco crianças.

Encerrou o show com a pegada rock de O caos de cada dia (Tutuca Viana) e Segredo (Tutuca Viana e Sérgio Habibe). Com o público aplaudindo de pé, perguntou: “vocês querem que a gente saia, dê um tempinho e volte para o bis, ou a gente faz logo?”. Fizeram logo: Zé Renato voltou ao palco e novamente cantaram juntos Que prazer.

Alexandra Nicolas lança Coco Fulero, primeiro single de seu novo disco, Feita na Pimenta

[release]

Foto: Veruska Oliveira

Em seu disco de estreia, Festejos [Acari Records, 2013], completamente dedicado ao samba e ao elogio do universo feminino, a cantora maranhense Alexandra Nicolas já fazia esvoaçar a saia rodada, deixando à mostra a ponta dos pés e um desses pés já se voltava ao Nordeste.

Em Feita na Pimenta [2018], ela entra com os dois no terreiro, em cofo em que cabe de tudo o que se abriga sob o que costumeiramente chamamos forró – xote, baião etc. –, além de tambor de crioula e coco.

O disco equilibra-se entre temas caros ao forrobodó: amor e chamego, jocosidade e duplo sentido, com muita malícia e bom humor.

O primeiro single é Coco Fulero (João Lyra e Zeh Rocha), que não foge aos acalorados debates do momento: em ano eleitoral, Alexandra Nicolas dialoga com o noticiário político, em faixa recheada de referências atuais. “É uma música bem humorada, longe de pregar a alienação ou o voto nulo. Há um componente político forte, sem destoar de todo o conjunto do disco, que tem a festa como tema central, mesmo quando fala de amor – porque o amor é festa”, resume Alexandra.

“O título do disco brinca com a pluralidade feminina. É a mulher moleca, que arde em brasa na festa e no amor, no ‘chamego bom’, de que fala uma das letras, a mulher que é pura doçura, mas também a mulher que quando se zanga, sai de perto [risos]. E o Coco Fulero tem essa carga de revolta contra essa sacanagem, esse absurdo por que passa o Brasil”, continua.

Coco Fulero, que fecha o disco Feita na Pimenta, ganhou lyric vídeo, com produção e animação de Cristiano Pepi e direção de Cristiano Pepi e Alexandra Nicolas. A cantora é acompanhada por João Lyra (arranjos, violão e guitarra), Adelson Viana (sanfona), Durval Pereira (zabumba e pandeiros), Zé Leal (pandeiro e triângulo) e Ana Zinger, Jamil Filho, Marcio Lott e Viviane Godoy (coro). A música está disponível no iTunes, Apple Music, Deezer, Spotify, Google Play, Amazon MP3, Napster, Rádio Uol, YouTube, Vevo, Soundcloud e em outras mais de 100 plataformas digitais.

Brincar com as palavras e dizer as coisas de modo inteligente para fugir aos censores de outrora também sempre foi algo que o forró – e grande parte da dita música popular brasileira – soube fazer com maestria. Nos tristes tempos que o Brasil atravessa, parece mesmo que só o humor salva, e nisto também Alexandra Nicolas não é de meias palavras.

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Veja o lyric video de Coco fulero (João Lyra e Zeh Rocha):

Revirando o passado do avesso

Avessa manhã. Capa. Reprodução

 

Avessa manhã [2017], o novo disco de Tutuca Viana, é uma espécie de bootleg. A maior parte do conjunto de nove canções remonta aos anos 1980 e foi encontrada em uma velha fita k7. O cantor e compositor acercou-se de talentosos instrumentistas para trabalhar.

Comparecem Israel Dantas (violões, guitarras, direção musical e arranjos), Marcelo Carvalho (piano), Ricardo Cordeiro (contrabaixo) e Wallace Cardozo (bateria), além das participações especiais de Zé Renato (voz em Que prazer), Nicolas Krassik (violino em Meu grande amor e Índio guri), Zé Américo (acordeom na faixa-título) e Gabriel Grossi (gaita em Que prazer).

Atualmente mais conhecido como o bem sucedido produtor dos festivais de jazz e blues dos Lençóis e de São José de Ribamar, Avessa manhã marca também o reencontro de Tutuca Viana com estúdios e palcos.

O disco tem ecos do Clube da Esquina e da música popular que se produzia no Maranhão entre as décadas de 1980 e 90, no rastro do sucesso do LP Bandeira de Aço, lançado por Papete em 1978. Para termos ideia do peso do passado, é um disco “com gosto de guaraná e bolo”, para citarmos um verso de Broto (João Marques), gíria em desuso, que há décadas designava mulheres jovens e bonitas.

“Eu mostrei a música para [o compositor Jards] Macalé e ele me disse que era a cara do Zé Renato. Mostrei para Zé Renato, ele adorou, e topou participar”, revela Tutuca, sobre a participação de um dos convidados especiais do disco – que estará no palco no show de lançamento, amanhã (1º/3), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos, à venda na bilheteria do Teatro, custam R$ 30,00 (com direito ao cd). A outra convidada do artista para o show é a cantora Tássia Campos.

Sozinho ou em parceria, Tutuca assina sete das nove faixas do disco. A faixa-título é uma parceria sua com Reinaldo Barros (in memorian), a quem Avessa manhã é dedicado. Reflexo de sua atuação como produtor – certamente Tutuca Viana será descoberto como cantor e compositor agora para a geração mais nova –, o disco traz elementos de rock, jazz, blues e balada.

Merecem destaque ainda Segredo, parceria com Sérgio Habibe, artista de uma geração anterior à de Tutuca Viana, e Índio guri (Zezé Alves e Ricardo Valente), que fecha o disco.

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Veja o clipe de Que prazer (Tutuca Viana), com participações especiais de Zé Renato e Gabriel Grossi:

O cabaré musical de uma estrela

Cabaré Star. Capa. Reprodução

 

Edy Star demorou 43 anos entre seu solo de estreia, Sweety Edy [Som Livre, 1974] e Cabaré Star [Saravá Discos, 2017], segundo disco de sua carreira. Aos 80 anos recém-completados, é o único remanescente do antológico pastiche Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, clássico maluco que dividiu com Miriam Batucada, Raul Seixas (autor do bolero-título, cantado por Edy) e Sérgio Sampaio em 1971.

“Há muito tempo/ eu vivo dividido entre Caetano e Raul”, cita os conterrâneos em Rock’n’roll é fodaço (Edy Star), que brinca com A bossa nova é foda, do primeiro.

Baiano de Juazeiro, Edy Star é uma espécie de fênix da música popular brasileira. Com Ney Matogrosso, então de cara pintada e à frente do Secos & Molhados, cultivou a androginia, num período de maior conservadorismo (será?), abrindo veredas para todos/as os/as que viriam depois, com ou sem polêmicas (vazias).

Ney, Caetano e Raul – um trecho de entrevista abre O crivo (Waldir Serrão e Mauricio Almeida), que fecha o disco –, além de Angela Maria, Emílio Santiago, Felipe Catto e Zeca Baleiro (que divide a produção com Sérgio Fouad) estão no disco, como a recuperar o tempo perdido.

“É o maior barato […], é incrível”, elogia-o Raul. Caetano Veloso canta em Se o cantor calar (Zé Rodrix e Maria Lúcia Viana) e Merda, dele. Ney Matogrosso se/nos diverte em Peba na pimenta (João do Vale, José Batista e Adelino Rivera). Emílio Santiago deixou sua participação gravada antes de falecer em Ave Maria no morro (Herivelto Martins). Em Perdi o medo (Odair José), Edy Star recebe a visita de Felipe Catto. Já Zeca Baleiro participa de Dezessete vezes, de sua autoria, aberta por citação de Tango pra Tereza (Evaldo Gouveia e Jair Amorim), interpretada à capela por Angela Maria.

Há uma diversidade de temas, gêneros e gerações em Cabaré Star – marca de Edy desde a estreia. Os outros parceiros de Sociedade da Grã-Ordem Kavernista também comparecem: Sérgio Sampaio é o autor de O que será de nós e Miriam Batucada de Você é seu melhor amigo. Eu fiz pior, de Lula Côrtes, abre o disco, com estrofes bem humoradas sobre os bastidores do show business: “Meus parceiros, entre aspas/ meus cúmplices de nada/ cem críticos de arte que nem tinham emprego/ chegavam nos jornais/ com papo de manchete/ achando que uma enquete me faria medo”, canta Edy.

“A vida é um cabaré/ foi assim que eu aprendi/ sonho, emoção e prazer/ você escolhe o que quer/ se vai sorrir ou sofrer/ seja lá homem, mulher/ só interessa o viver/ na noite de cabaré”, canta em A vida é um cabaré (versão de Edy Star e Zeca Baleiro para Y’a la rumba dans l’air, de Alain Souchon), devolvendo elegância ao ambiente, também espaço de fruição artística, em oposição à visão pejorativa, porém rentável, de letras típicas do breganejo e da sofrência – “há muito tempo/ não ouvia tanta shit na MPB”, voltamos à letra de Rock’n’roll é fodaço.

O disco traz ainda Procissão, talvez a faixa mais conhecida do disco: é o clássico lançado por Gilberto Gil em 1967, cuja parceria só foi reconhecida em 2008 – de lá para cá, todos os discos lançados com a música trazem-na com os devidos créditos também a Edy Star.

Ele é acompanhado por Adriano Magoo (piano, teclados e acordeom), Tuco Marcondes (guitarra), Fernando Nunes (contrabaixo) e Kuki Stolarski (bateria e efeitos), além das participações especiais de Emílio Martins (percussão), Hugo Hori (saxes), Tiquinho (trombone e tuba de Bauru), Jorge Ceruto (trompete e voz de cafetão cubano em A vida é um cabaré), Zeca Baleiro (violão “peba” em Peba na pimenta), Swami Jr. (violão sete cordas e arranjo em Ave Maria no morro) e Webster Santos (violão, violão sete cordas, cavaquinho e bandolim em Procissão e Merda).

“Se no nosso país houvesse respeito ao talento e à dignidade de nossos artistas, o nosso Edy seria visto como um artista superior. Seria não, ele é!”, atesta o folclorista e produtor musical Roberto Sant’Ana (pai do músico Lucas Santtana), em texto no encarte de Cabaré Star.

“Edy é uma antologia que anda, sabe tudo de música brasileira e outras bossas o rapaz, um pé no rock e na transgressão, outro no cabaré e na reverência à tradição. […] Tudo com alma teatral, farsesca ou, como ele gosta de dizer, cabareteira”, arremata Zeca Baleiro, produtor e parceiro.

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Veja o lyric video de Rock’n’roll é fodaço (Edy Star):

Encontro de almas*

Nossas noites. Frame. Reprodução

 

Baseado no livro de Kent Haruf, o homônimo Nossas noites [Our souls at night; Companhia das Letras, 2017], o filme de Ritesh Batra [drama, 2017] leva vantagem: nem o leitor de imaginação mais fértil poderia pensar no casal protagonista sendo materializado por Robert Redford e Jane Fonda.

Esta seria a primeira vantagem do filme sobre o livro, para quem gosta de comparar expressões artísticas distintas – um livro é um livro, um filme é um filme, e mesmo que um seja adaptado do outro, cada qual é uma obra de arte a seu modo. Neste caso, o filme é fiel ao livro, mas nem sempre é ou deve ser assim. Produção da Netflix, a película é dedicada à memória do autor do livro.

Addie (Fonda) e Louis (Redford) são dois viúvos em na pacata Holt, Colorado. Um dia ela resolve ir à casa dele, convidá-lo para dormirem juntos, “ajudar a passar a noite. A noite é a parte mais difícil, não acha?”, ela pergunta ao encabulado vizinho.

Ele aceita a proposta e começa a frequentar a casa da vizinha, à noite, pela porta dos fundos, com medo da fofoca da vizinhança. Ela lhe serve vinho, eles começam a conversar desajeitadamente, buscando saber mais sobre si mesmos – apesar de vizinhos há décadas, pouco se falavam quando os cônjuges eram vivos, embora soubessem muito da vida um do outro.

A história dos dois não demora a ganhar outros contornos, com a visita do neto de Addie, seu filho que não aceita a relação, ao julgar Louis por seu passado. Não demora também para que a preocupação deste se mostre fundada: seu gesto de levantar-se e ir embora quando os colegas de terceira idade tentam começar a brincar com seus encontros noturnos é também uma declaração de amor, ainda que tardio.

Atores experientes, Redford e Fonda dão conta de sobra dos diálogos bem construídos e intensos. Nossas noites é uma bonita história de amor, que mostra que para este não há limites, amarras, proibições – entre as quais a idade ou outras convenções sociais. A uns, o filme poderá parecer lento demais ou mesmo dar a impressão que nada acontece. Como no amor, seu tema principal, o encanto está na sutileza, na delicadeza.

*uso aqui o mesmo título que dei ao texto sobre o livro no qual o filme se baseia.

Um sábado chuvoso e choroso

Foto: Rose Panet

 

Apesar do clima chuvoso, um bom público prestigiou a apresentação do Instrumental Pixinguinha, ontem (24), no Auditório Itapecuru do Centro Cultural Vale Maranhão (Rua Henrique Leal, 149, Centro).

João Neto (flauta), Juca do Cavaco, Raimundo Luiz (bandolim), Domingos Santos (violão sete cordas) e Nonatinho (pandeiro) tinham, todos, diante de si, o Caderno de partituras – Choros maranhenses, organizado pelo flautista Zezé Alves, membro emérito do grupo, também professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM), em cujos corredores o Pixinguinha se formou ainda no final da década de 1980.

“O único da formação original é Domingos. Ele costuma dizer que é o dono do conjunto”, gracejou Juca, mantendo a marca bem humorada das apresentações do grupo. Mais adiante, brincou com a plateia: “vocês já repararam que tem dois caladinhos aqui, não é? Mas eles vão falar já já”, disse, referindo-se a Domingos e Nonatinho, no que o violonista retrucou: “tu já falou o que eu ia falar”, referindo-se ao fato de Juca ter feito os comentários anunciando o choro Miritibano, de sua autoria, a segunda da apresentação. O título é o gentílico de Miritiba, antigo nome do município de Humberto de Campos, onde o autor nasceu.

João Neto, Juca e Raimundo Luiz revezavam-se nas explicações entre as músicas, ora comentando autorias, ora contando histórias sobre as composições, determinados contextos, dando um ar didático ao concerto. “Muito obrigado pela presença de todos vocês, apesar do clima chuvoso”, agradeceu Juca. Neto emendou: “é um sábado chuvoso e choroso”.

A apresentação do Pixinguinha, penúltima da temporada 2017 do programa Pátio Aberto, do CCVM (provavelmente transferida de lugar em virtude da chuva), foi aberta com Nova república, do saudoso advogado e cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva, o Six, também gravado pelo grupo em Choros maranhenses [2006]. Se o Regional Tira-Teima é o mais longevo grupamento de choro em atividade no Maranhão, o Pixinguinha foi pioneiro: seu disco de estreia foi o primeiro inteiramente dedicado ao gênero por estas plagas.

O Caderno de partituras por que se guiavam ontem é uma espécie de ampliação do repertório do disco, este composto por choros autorais e choros de autoria de mestres do gênero, já então saudosos, caso por exemplo de Um sorriso, de autoria do rosariense Nuna Gomes.

Chorinho da Beatriz (Domingos Santos) “foi a música com que participamos da Mostra de Música Sesc Onde Canta o Sabiá, apesar de ser uma música instrumental”, revelou João Neto. Na sequência foi a vez de Luar do sertão (Catulo da Paixão Cearense). “Cearense era sobrenome mesmo, ele era maranhense”, riu Juca, cujo cavaco evocava uma viola, dando certo ar caipira à execução da música. No meio dela ele soltou um “vocês!”, encorajando o público a cantar o refrão: “não há, oh, gente, oh, não, luar como esse do sertão”. “Com um coral desses, a gente nem precisa de cantor”, elogiou o cavaquinhista.

Após tocarem Viajando para Carajás (Zé Hemetério), Juca revelou terem alterado a ordem do set list. “Era para termos tocado a que vamos tocar agora, os nomes das cidades são até parecidos”, fez a plateia rir, ao anunciar De Cajari pra capital (Josias Sobrinho) e perguntar para João Neto: “de quem é essa música?”, ao que o flautista respondeu, rindo também: “de titio” – para quem não sabia, sim, João Neto é sobrinho de Josias Sobrinho.

Juca derreteu-se em elogios ao choro Elegante (Raimundo Luiz), cheio de nuances. “É uma das que eu mais gosto de tocar”, emendou João Neto, no que o cavaquinhista relembrou o Prêmio Universidade FM de melhor música, conquistado pela composição em 2006, ocasião em que o quinteto recebeu também o troféu de melhor disco instrumental. Cabe lembrar que durante muitos anos foi o Pixinguinha também o responsável pelo espaço dedicado ao choro na noite ludovicense, quando ocupavam semanalmente o palco de um bar, hoje extinto.

Ontem ao luar (Catulo da Paixão Cearense) antecedeu Lembro-me de você assim (Juca do Cavaco). “Essa música eu fiz quando a gente estava gravando o disco. Houve uma ocorrência na família, meu sogro faleceu. Era uma pessoa animada, dançante, eu sempre lembro dele desse jeito”, revelou o autor. “É difícil falar mesmo”, completou, a emoção travando a garganta, o sentimento percebido pelo público em comunhão.

A sequência formada por Candiru (Zezé Alves e Omar Cutrim) e Choro axixaense (José Maria Fontoura) garantiu também um passeio pela brejeirice e malemolência do lelê e do bumba meu boi de orquestra, manifestações culturais típicas da região do Munim, particularmente os municípios de Rosário e Axixá, num diálogo saudável entre o choro e estes ritmos.

Catulo da Paixão Cearense ainda voltaria ao repertório, com Flor amorosa (parceria com Joaquim Callado), que antecedeu Chora cavaco (Juca do Cavaco). Antes de tocarem a saideira, o grupo mais uma vez agradeceu a presença do bom público. João Neto anunciou: “para fechar, uma de Cesar Teixeira. Esse choro é a cara dele, enrascado, cheio de passagens harmônicas e melódicas complexas”. Terminaram a noite, após pouco mais de uma hora de apresentação, com Conversa fiada.

A certa altura, Juca havia gracejado que o grupo havia ensaiado seis meses para aquela apresentação. “Seis meses e um dia, não vamos mentir por um dia”, emendou João Neto, também rindo. Brincadeiras à parte, o fato é que poucas vezes, por aqui, o choro foi tratado com tanto esmero, em execuções impecáveis. Uma apresentação como a de ontem demonstra que também em se tratando do gênero o Maranhão não deve nada a outras praças brasileiras.

As elipses

Jovem mulher. Frame. Reprodução

 

Jovem mulher [Jeune femme, drama, França, 2017; em cartaz no Cine Lume], da estreante Léonor Serraille, vencedor da Câmera de Ouro em Cannes, é um filme que se explica pelas elipses: é no não dito que os espectadores têm que prestar atenção. Por exemplo: Paula [Laetitia Dosch] engravida, mas não há sequer uma cena de sexo explícito na película. Tampouco há a certeza se ela e Ousmane [Souleymane Seye Ndiaye], colega segurança da loja de calcinhas em que trabalha, transam.

Se nas primeiras cenas a protagonista parece uma fracassada, obcecada que rasteja em busca do homem que supostamente ama, aos poucos vamos nos afeiçoando à personagem de olhos bicolores e percebendo que ela é senhora de si, dona da situação.

Abandonada pelo namorado após uma década de relacionamento, Paula, sem dinheiro, abriga-se na casa de amigos, em hotéis baratos, até “fixar residência” num “buraco de rato”, como ela mesmo dirá. Zanza por Paris, com quem tem uma relação de ódio. Em Paris ou qualquer lugar temos que viver, é mais ou menos o que invariavelmente responde a quem pergunta por que então ficar na cidade.

O filme é carregado de bom humor, em tiradas sutis. Num encontro no metrô, por exemplo, ela finge ser quem não é; noutro, responde com certa agressividade a um passageiro que lhe alerta que o celular está tocando e que ela se esqueceu de tirar o crachá: “e você se esqueceu de tirar a gravata. A gravata é o crachá dos idiotas”.

Jovem mulher perpassa diversas situações e relacionamentos. As conturbadas relações de Paula com Joachim Deloche [Grégoire Monsaingeon], o professor e fotógrafo de quem engravida, e com sua mãe [Nathalie Richard], com Lila [Lila-Rose Gilberti], de quem se torna babá, e com a mãe da menina [Erika Sainte], que a contrata, numa inversão de sentimentos: quando a garota se afeiçoa à babá, a mãe perde a confiança, diante de deveres de casa mal corrigidos, serviços domésticos pendentes, horários não cumpridos e, sobretudo, guloseimas oferecidas à criança.

No meio disso tudo há uma bela gata, peluda e graúda, e uma cicatriz que acompanhará Paula por todo o filme, talvez simbolizando outras cicatrizes colecionadas em sua vida de jovem mulher.