Pré-festa

A banda Canal Raja em luau no Espigão Costeiro da Ponta d'Areia. Foto: Diego Chaves
A banda Canal Raja em luau no Espigão Costeiro da Ponta d’Areia. Foto: Diego Chaves

 

Semana que vem o BR 135 e sua programação paralela de debates e formação, o Conecta Música, ocupam diversos espaços da Praia Grande, no quinto ano do Festival que já consolidou seu lugar no calendário cultural do Maranhão.

Este ano, entre diversas outras atrações, estão confirmados shows com Liniker, Di Melo e Nação Zumbi, além do maranhense radicado em São Paulo Bruno BatistaHomem de vícios antigos voltará à programação em momento oportuno.

Hoje (17), às 20h30, no Bangalô Gastrolouco (Av. Litorânea, Calhau), acontece o lançamento oficial do festival, com as bandas Canal Raja e Telúricos (ambas participaram da edição do BR 135 ano passado), Forró Pé de Serra de Seu Raimundinho e discotecagem de Jards Zue.

“Além da música, nesta edição outras linguagens estarão nos palcos e na rua em um amplo painel de formas de expressão. Nossa ideia é mostrar que a estrada do festival está aberta para os artistas que resistem fora da indústria cultural tradicional”, explica Luciana Simões, realizadora do evento ao lado de Alê Muniz, com quem forma o duo Criolina – que lança disco novo ainda este ano.

Este blogueiro mediará um debate na próxima sexta-feira (25), às 16h30, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). A mesa, “Jornalismo cultural além da “grande mídia””, terá Marcelo Costa (blogue Scream&Yell), Roberta Martinelli (TV Cultura e Rádio Eldorado, leia-se, Cultura Livre e Som a Pino) e Alexandre Matias (blogue Trabalho Sujo e Ecossistema da Música).

Fotografeministas

A fotógrafa Maria Thereza Soares, uma das organizadoras do evento. Foto: Neto Vasconcelos
A fotógrafa Maria Thereza Soares, uma das organizadoras do evento. Foto: Neto Vasconcelos

 

Daqui a pouco, entre 15h e 18h30, de graça, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), acontece o I Encontro de Fotógrafas de São Luís, com o objetivo de dar visibilidade às mulheres na profissão e denunciar o machismo ainda presente no ofício.

Maria Thereza Soares e Julyane Galvão são as organizadoras do encontro, que dá continuidade e dialoga com um evento do tipo ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 6, iniciativa da fotógrafa carioca Wania Corredo. Lá a atividade aconteceu em frente à escadaria do Theatro Municipal, na Praça da Cinelândia.

Em São Luís será realizado o registro fotográfico da reunião do grupo, além da exposição dos trabalhos em um varal fotográfico. A ideia, segundo as organizadoras, é projetar o trabalho das profissionais que já estão no mercado e incentivar a participação de outras mulheres no universo fotográfico.

“Há sexismo e outros preconceitos. Os dados das disparidades podem ser obtidos em pesquisas na literatura histórica fotográfica, nos festivais de fotografia, nos prêmios etc. Muitas fotógrafas seguem na invisibilidade mesmo produzindo trabalhos de qualidade. Esse contexto desigual pode ser observado em nível mundial”, afirma Maria Thereza Soares no release enviado à imprensa.

Para Julyane Galvão, “a mulher em seu convívio social tem uma exclusão de diversas funções perante a sociedade. Esse momento de união mostra a garra e competência que qualquer uma de nós é capaz de fazer ou desenvolver atividades. Em relação à fotografia, mostraremos destaques locais que em muitos casos não possuem oportunidades para demonstrar seu trabalho, ou mesmo daremos espaço para que relatem seus depoimentos vividos em seu meio pessoal e profissional”.

O evento deve agregar a presença de brechós e foodbikes.

Comentários a respeito de Belchior

A cantora Tássia Campos. Foto: Quilana Viégas
A cantora Tássia Campos. Foto: Quilana Viégas

 

A cantora Tássia Campos apresenta hoje (11), meia noite, no Odeon (Travessa João Victal de Matos ou Beco da Pacotilha, Praia Grande), mais uma edição do show Encontrando Belchior. Desta vez, com a presença do biógrafo do cearense, Jotabê Medeiros (Farofafá), que na ocasião lerá um trecho de Pequeno perfil de um cidadão comum, livro que lança ano que vem – amanhã medeio a mesa “Jornalismo cultural: a desaparição do artista em plena era da superexposição (O caso Belchior: como ele cantou antes o que viveria depois)”, palestra que o jornalista profere na programação da 10ª. Feira do Livro de São Luís, às 20h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande).

Tássia elege Coração selvagem como seu disco preferido entre os lançados pelo artista, que resolveu sumir do mapa há alguns anos. E Todo sujo de batom, terceira faixa do álbum, como sua predileta. “Embora Coração selvagem, que dá título ao álbum, seja um retrato fiel da minha vida”, confessa.

Ela, que já realizou tributos a nomes como Sérgio Sampaio e Novos Baianos, entre outros, sempre trata com reverência os artistas escolhidos para homenagear. Não é diferente com Antonio Carlos Belchior. “É um desafio cantá-lo para além do que já foi eternizado por Elis [Regina]. A métrica é difícil, não é uma tarefa simples cantar, mas sem dúvida são as mensagens em garrafas que Belchior mandou ao mar. Não envelhecerão nunca, assim como espero como artista permanecer me reinventando”, exige-se a recompositora, como afinal este modesto repórter chama os que, como Tássia, imprimem uma marca tão pessoal naquilo que interpretam, reinventando canções às vezes consagradas, como se as compusessem novamente.

Ela sobe ao palco do Odeon acompanhada da banda Os Joões dos comentários a respeito: João Simas (guitarra), João Paulo (contrabaixo), João Vitor (teclado) e Thiago Guerra (bateria) – fora o biógrafo, nascido João Batista em João Pessoa/PB, e a cantora, “moça de Joãozinho no cabelo”, como canta Vanessa da Mata.

Sobre as origens do espetáculo e as expectativas para o encontro com Jotabê Medeiros, ela comenta: “Quando Emilio Azevedo me atentou que eu devia fazer um show em homenagem ao Belchior, ele estava de fato sumido, meio esquecido. Entre a divulgação, o show e após os shows começaram a falar muito de Belchior, creio que pelo momento atual do país. Eu estava sintonizada com a obra dele já fazia um tempo, pelo preparo do show. Receber o Jotabê é mais uma mostra dessa sintonia. Queremos o Belchior de volta porque ele é muito importante”.

Ao repertório de Encontrando Belchior não deixarão de comparecer a música que dá título à obra em progresso do jornalista, além de “Paralelas, Comentário a respeito de John, Velha roupa colorida, Todo sujo de batom e Coração selvagem”, que ela cita, repetindo as preferências e citando algumas das mais conhecidas, sem dar pistas dos lados b que escolheu e sem vontade de estragar a surpresa de quem tem, via sua voz, um encontro marcado com um bigodudo que anda fazendo uma falta danada.

Divulgação
Divulgação

Serviço

O quê: show Encontrando Belchior
Quem: Tássia Campos e banda Os Joões dos comentários a respeito. Participação especial de Jotabê Medeiros, biógrafo de Belchior
Quando: hoje (11), meia noite
Onde: Odeon Sabor e Arte (Rua João Victal de Matos ou Beco da Pacotilha, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00 (metade para estudantes)

Bumba meu boi, poesia, literatura infantil e direitos humanos

Bumba, nosso boi. Capa. Reprodução
Bumba, nosso boi. Capa. Reprodução

 

Jornalista de ciência, Diego Freire parte da mais conhecida manifestação da cultura popular do Maranhão, o bumba meu boi, para discutir a questão do bullying. O resultado é o belo livro-poema Bumba, nosso boi [Empíreo, 2016, 40 p.], verdadeira obra-prima da literatura infantil, ilustrado por Rogério Maroja, com trabalhos espalhados por revistas como Superinteressante, Recreio, Placar, Saúde e Playboy.

A dedicatória a Papete, um dos maiores embaixadores da cultura maranhense mundo afora, evoca o Boi de lágrimas, clássico de Raimundo Makarra, gravado pelo próprio Papete e tantos outros: “também sente dor, e boi também chora”, diz a letra. É um mote para entrar no debate.

O poema conta a história de Bumba, o boi preferido do fazendeiro, cuja língua desejada por Catirina, é arrancada por Pai Francisco para satisfazer o desejo da esposa grávida, tal qual no auto do bumba meu boi.

Mas no poema de Diego Freire, em vez de morrer e ser ressuscitado pela pajelança de índios e cazumbás, “Bumba acabou sem língua” e “passou por poucas e não tão boas com os outros bichos da fazenda, que caçoavam do jeito diferente como ele passara a falar”.

O autor extrapola o universo do bumba meu boi do Maranhão e propõe o diálogo da lenda central do auto da manifestação com outras lendas bastante conhecidas em todo o Brasil: o Saci, a Mula sem Cabeça e o Boitatá, “que, bem, nem boi é”.

As criaturas, que a princípio deviam assustar o protagonista Bumba, acabaram por se afeiçoar a ele, que afinal havia encontrado sua turma: “Mas Bumba sorriu em vez de gritar./ “Parece que enfim achei meu lugar!”/ É que Bumba viu que toda aquela “gente”/ era como ele: diferente”.

O poema conta uma história de superação, por um viés sui generis, o que demonstra que o auto do bumba meu boi é fonte inesgotável de metáforas para compreendermos melhor o mundo, nosso lugar nele e lutar pelo fim das injustiças sociais – afinal, não é disso que tratou o enredo junino desde sempre?

Para ser lido em qualquer época, não apenas por crianças, Bumba, nosso boi é um livro, no fundo, sobre “direitos humanos”, expressão em geral detratada pelos que insistem em sua abstração como uma espécie de entidade sobrenatural, generalizando órgãos e instituições como “defensores de bandidos”.

O grande trunfo do livro de Diego Freire reside bem aí: escolhe um tema, apresenta sua necessidade de debate e faz isso de maneira leve, longe, muito longe de soar panfletário. Sobra até para a hoje onipresente Galinha Pintadinha.

O autor, em foto de divulgação
O autor, em foto de divulgação

Serviço

Diego Freire autografa Bumba, nosso boi na programação da 10ª. Feira do Livro de São Luís. Dia 13 de novembro (domingo), às 19h, na Casa do Escritor Maranhense, na Vila dos Livros (Praça da Casa do Maranhão). Toda a programação da FeliS tem entrada franca.

Goleada

Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga: quatro craques Dobrando a Carioca. Foto: Fernanda Torres/ Divulgação
Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga: quatro craques Dobrando a Carioca. Foto: Fernanda Torres/ Divulgação

Foi encerrado em grande estilo o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, ontem (6), na cidade balneária terra do padroeiro. Jards Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga cantaram – os três primeiros revezando-se entre violão e percussão; o último apenas ao violão – para o ótimo público presente à praça da basílica.

Um público equilibrado entre moradores do lugar – uns sequer tiveram o trabalho de descer de suas calçadas, as cadeiras pelas portas da vizinhança do santo que dá nome a boa parte da população maranhense – e aqueles que fizeram de Ribamar uma espécie de cidade satélite cultural no último final de semana.

“É tão raro no Brasil, numa cidade do interior, as pessoas estarem ouvindo música popular brasileira à meia noite. Isso aqui é o futuro!”, vaticinou Moacyr Luz. Corroborando de sua profecia, passei a imaginar o que será esta produção de Tutuca Viana daqui a 10 ou 15 anos. O festival está no caminho certo, primando pela qualidade. Seu crescimento e continuidade depende de elementos externos: patrocinadores precisam acreditar que sua marca será vista por mais gente a cada ano, o poder público investir em estrutura (a sinalização da Estrada de Ribamar é precária, por exemplo) e o comércio local acreditar no potencial do evento (não há, na cidade vizinha à capital, um hotel com estrutura para receber os artistas – isto é, eles precisam se hospedar em São Luís, a mais de 30 km do local em que se apresentam). De todo modo, aposto que o São José de Ribamar Jazz e Blues Festival tem tudo para se transformar em uma nova Guaramiranga, talvez o maior evento do gênero hoje no Brasil, também realizado numa cidade do interior em um estado do Nordeste.

O repertório do quarteto no palco é completamente baseado no recém-lançado Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], comercializado pela primeira vez ontem, em São José de Ribamar – disco e dvd haviam acabado de chegar da fábrica e puderam ser adquiridos pelos fãs que enfrentaram a fila após o show para cumprimentar o timaço.

A metáfora futebolística é plenamente cabível: são quatro grandes craques de nossa música e, não à toa, abrem o show com Um a zero (Pixinguinha/ Benedito Lacerda/ Nelson Angelo), ao final da qual Macalé sopra um apito e aponta para o centro do gramado imaginário à beira do palco, para delírio da plateia e gargalhadas de Zé Renato, posicionado a seu lado.

Ao final de Favela (Padeirinho da Mangueira/ Jorge Pessanha), há tempos presente ao repertório de Macalé, o mais performático do quarteto, ele simula um trombone, imitando o som do instrumento com a boca e movimentando as mãos como se o soprasse; depois, tira um revólver de brinquedo de um penico e simula um tiro na própria cabeça, numa crítica à violência que ainda domina os morros, berços de tantos bambas, alguns deles lembrados no set list de Dobrando a Carioca.

O show é, em sua maior parte dedicado ao samba, mas grandes momentos surgem também quando fogem do gênero, casos, por exemplo, de Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé), que fez a plateia cantar junto, e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), idem.

Em Como tem Zé na Paraíba (Catulo de Paula/ Manezinho Araújo), imortalizada por Jackson do Pandeiro, Zé Renato tira onda consigo mesmo, ao entoar o verso final, “mas o diabo é que eu me chamo Zé”, ao que Macalé emenda, aproveitando a ocasião: “de Ribamar”.

Díficil escolher um ponto alto do show, em que os quatro permanecem o tempo inteiro no palco. São sublimes momentos como as interpretações de Moacyr Luz para Cachaça, árvore e bandeira (Moacyr Luz/ Aldir Blanc), merecida homenagem ao mangueirense Carlos Cachaça, com citação de Alvorada (Cartola/ Carlos Cachaça), de Guinga para Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), imortalizada por Leila Pinheiro, e de Macalé para O mais que perfeito (Vinicius de Moraes/ Jards Macalé) e Acertei no milhar (Wilson Baptista/ Geraldo Pereira), samba de breque cuja quebradeira faz novamente Zé Renato gargalhar.

“Até pinico dá bom som/ se a criação é mais, se o músico for bom”, dizem versos de Chá de panela (Guinga/ Aldir Blanc), em que, novamente para deleite e delírio da plateia e novas gargalhadas de Zé Renato, Macalé percute o penico que esteve a seu lado (portando seus instrumentos de percussão) o show inteiro. A música que encerra o show (e o disco e o dvd) é uma homenagem a Hermeto Pascoal, com fundo tetra-autobiográfico: nunca é demais lembrar que estamos diante de quatro gigantes. O Um a zero do bis é placar pequeno diante da goleada que foi o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival e, particularmente, seu encerramento com este já antológico Dobrando a Carioca.

 

Um quarteto fantástico dobrando na praça da basílica

Dobrando a Carioca - Ao vivo. Capa. Reprodução
Dobrando a Carioca – Ao vivo. Capa. Reprodução

Em meio a suas carreiras solo e outros projetos, o espetáculo Dobrando a Carioca já é apresentado há 17 anos. Zé Renato, Jards Macalé, Guinga e Moacyr Luz se apresentam hoje (6), às 22h30, na programação especial que celebra os 70 anos do Sesc, encerrando o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, na praça da Basílica do município. Produção de Tutuca Viana, o evento tem patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

A ideia de Moacyr Luz, que convidou os demais, vingou e acabou enveredando pelo samba, faceta comum presente às obras dos quatro. A apresentação de hoje ganha um sabor especial: acabam de sair o cd e dvd Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], gravado em dezembro passado no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro. São José de Ribamar será o primeiro município em que os fãs poderão adquiri-lo e pegar autógrafos.

O repertório equilibra-se entre temas autorais e músicas de artistas reverenciados pelo quarteto. Não faltam clássicos como Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé) e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), sucesso do grupo vocal Boca Livre.

Também comparecem Pixinguinha (Um a zero, que abre o show, parceria com Benedito Lacerda, que ganhou letra de Nelson Angelo), Padeirinho da Mangueira (Favela, parceria com Jorge Pessanha), Manezinho Araújo (Como tem Zé na Paraíba, parceria com Catulo de Paula, sucesso de Jackson do Pandeiro) e Geraldo Pereira (Acertei no milhar, parceria com Wilson Baptista), entre outros.

Com o tempo espremido entre um último ensaio, num salão do hotel em que estão hospedados, e a saída para o almoço e a passagem de som, Homem de vícios antigos conversou com o quarteto. Em tempo curto, os quatro desataram a falar, esbanjando bom humor, tirando sarro uns com os outros, tornando quase desnecessárias as perguntas do repórter. A entrevista começou com uma declaração de Macalé.

Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)
Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)

Jards Macalé – Eu declaro a independência do Brasil.

Como é conciliar a agenda do Dobrando a Carioca com suas carreiras solo e outros projetos?
Zé Renato – A gente vem tentando incluir o Dobrando a Carioca na nossa história profissional, na nossa trajetória. A gente tem um carinho muito grande pelo trabalho, o que dá uma motivação maior ainda.
Moacyr Luz – Uma coisa que eu nunca pensei: o Dobrando a Carioca é um exercício de despojamento que cada um de nós tem. Cada um tem sua carreira solo, faz seus shows individuais, o Zé com as coisas dele, eu com meus sambas, o Guinga, o Macalé. Quando chega aqui a gente troca mais.

É um show devotado ao samba? Foi um desembocar natural?
Zé Renato – A gente exercita a percussão. O foco maior é no samba. Não foi feito com essa intenção. É samba assim, vamos considerar o Um a zero um samba do Pixinguinha. Tem samba-canção, Como tem Zé na Paraíba, tem música que foge.
Moacyr – Guinga é o cara que gravou com Cartola, As rosas não falam, gravou com João [Nogueira], Beth Carvalho, Clara Nunes.
Guinga – Compositor brasileiro que não gosta de samba não é compositor.
Moacyr – [para Macalé] Você fez o 4 batutas e 1 coringa [disco de intérprete de Macalé de 1987, dedicado ao repertório de Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola].
Macalé – Sim.
Guinga – [para Macalé] Tem um elemento forte, virou disco [Jards Macalé canta Moreira da Silva, de 2001], o Moreira da Silva na tua vida.
Zé Renato – O Um a zero surge dessa ideia, a gente abre o show com Um a zero por causa dessa ideia de bater uma bola [a produtora Memeca Memeca Moschkovich adentra o salão com cds e dvds na mão].
Macalé [gritando] – Deixa eu ver! A gente sente saudade uns dos outros. Eu sinto saudades deles, eles dizem que sentem saudades de mim.
Zé Renato [para Moacyr Luz] – Você sente saudade do Macalé?
Moacyr [em tom de galhofa] – Não.
Guinga – [gargalhadas]
Zé Renato – [gargalhadas]
Macalé – Ele é um sincericida.
Guinga [rindo] – Eu odeio o Macalé. Nós estamos aqui para ver se a gente se mata. Quando Moacyr convidou a gente, isso é uma coisa engraçada, ele falou assim pra gente, “vê lá, vocês têm que ter paciência um com o outro”. Pô, criador de problemas zero [referindo-se a Macalé]. Nunca tivemos um problema. Nenhum problema.
Macalé – Como não? E quando a gente se desfez lá em Fortaleza?
Guinga – Você disse que ia seguir carreira solo [gargalhadas]. Esse filho da puta, saiu uma porrada de matéria em tudo quanto é jornal, com a foto dele na capa, ele ficou nervoso. Eu me lembro que foi muito engraçado, a gente estava no café da manhã e ele não se uniu com a gente.
Macalé – Mentira!
Moacyr – A gente tava no lobby do hotel e ele chega [imita Macalé puxando uma mala com rodinhas e gargalha]
Guinga – [gargalhadas] Dois dias depois a gente chega no Rio de Janeiro, tinha saído uma foto dele nos jornais, com a perna cruzada, com uma meia preta, quadriculada. Dois dias depois, quem está sentado no calçadão, pernas cruzadas, com a mesma meia da fotografia? Esse maluco! Eu digo, não é possível! Mas você pode perguntar uma coisa a ele: essa galera aqui, tudo amigo, não cria problema, tudo humilde. Não é, Macalé?
Macalé – [enfático] Não! [gargalhadas gerais]

Você também é um sincericida?
Macalé – Eu amo esses caras.
Moacyr – Outra coisa engraçada, a gente foi fazer o primeiro ensaio, fizemos o primeiro show, começamos a viajar e a primeira coisa que eu via era hotel e horário, pra não chegar atrasado. E eu falei: “Macalé, olha você!” E o Macalé todo dia chegava 20 segundos antes do horário [risos], “eu sou o primeiro, hein? Cheguei primeiro”.
Macalé – Hoje eu cheguei primeiro.
Guinga – Você só é indisciplinado artisticamente. Mas como homem, como cidadão, é super sério. Por que artisticamente você não tem vontade de ensaiar, você esquece o tom da música. Hoje quando você perguntou [imitando Macalé]: “lá menor ou si menor?” Eu ri muito por dentro. Eu digo: há 17 anos esse filho da puta toca essa música sozinho. Você tem defeitos e tem qualidades. A gente pode falar bem da gente?
Macalé – Agora vamos à entrevista.

Claro! Além de todos já terem vindo aqui com outros projetos, qual a relação de vocês com o Maranhão?
Guinga – Eu conheci João do Vale muito jovem. Eu era aluno de Jodacil Damasceno e ele tinha um assistente, João Pedro Borges. Depois eu passei a ter aulas com João e esses caras mudaram a minha cabeça em 180 graus, impressionante. Me mostraram a música brasileira que eu não conhecia, me mostraram o violão que eu não conhecia. Eu não sabia quem era Leo Brouwer [violonista e compositor cubano], eu me formando em odontologia. Esses caras foram muito importantes. Isso influencia minha música até hoje. Eu passei a tocar violão por causa deles.
Zé Renato – Meu primeiro contato com a música do maranhão foi o Popó [o compositor Cláudio Valente] e o Sérgio Habibe [compositor, de quem o Boca Livre gravou Boi danado], quando eles se apresentavam com o Papa Légua [músico], no show Mostração.
Macalé – Eu trabalhei uma vida com João do Vale no Opinião [show que o maranhense dividiu com Zé Keti e Nara Leão]. Eu fui casado com uma irmã de Turíbio [Santos, violonista], você quer mais relação do que isso? Eu toco num violão que foi de Turíbio, com que ele ganhou prêmio internacional na França. Até hoje ele pergunta: quanto você quer no violão? João Gilberto tentou roubar, mas eu recuperei. Ele foi fazer um concerto no Rio de Janeiro e estavam procurando um bom violão. Eu emprestei, com a condição de que no dia seguinte à apresentação o violão estivesse de volta no meu apartamento. Depois eu fiquei lendo as manchetes sobre o espetáculo, passaram dois dias e nada, eu fui bater no hotel. Comprei umas goiabinhas e fiquei comendo ali embaixo, até que apareceu o Otávio Terceiro [empresário de João]. Ele disse: “João adora goiabinha”. Ele subiu, entrou no quarto e trouxe o violão. Eu troquei meu próprio violão nas [aumenta o tom de voz] minhas goiabinhas [Zé Renato gargalha]. Nesse violão só tocaram Turíbio, Paulinho da Viola, João Gilberto e eu.

Uma jangada carregada de poesia

Escrito nas jangadas. Capa. Reprodução
Escrito nas jangadas. Capa. Reprodução

Escrito nas jangadas [2016] marca os cerca de 40 anos de parceria dos cearenses Eugênio Leandro e Márcio Catunda. O primeiro, cantor, compositor e instrumentista; o segundo, poeta, hoje morando na Argélia, na burocracia da diplomacia.

Desde a presença implícita no título, o mar é o personagem/paisagem mais constante, citado em quase todas as faixas, todas assinadas em parceria pela dupla – Grandes esperanças é assinada ainda pelo também cearense Nonato Luiz (que toca violão na faixa). Mas engana-se quem pensar que é um disco monótono – como não o é o vai e vem das ondas do mar.

Minha rua abre o disco com os tons da melancolia da saudade da infância, pontuada pelos violinos de Paulo Leniuson e Humberto Castro, arranjados por Tarcísio Lima. A faixa seguinte, que intitula o disco, lembra as noites de boemia e o vagar a pé pelas madrugadas de uma Fortaleza de outrora. A rica fortuna crítica do encarte ajuda a compreender melhor a parceria e alguns contextos.

Leandro e Catunda são de outra geração, mas é impossível negar a influência da música do chamado Pessoal do Ceará sobre o conjunto de canções de Escrito nas jangadas – como de resto sobre toda a produção cearense a partir de então. Novamente convém observar que isso não significa estarmos diante de uma cópia pura e simples de nomes como Ednardo, Fagner ou o desaparecido Belchior.

O disco é também uma celebração a uma geração ainda mais nova. Nomes como os cantores Fernando Neri (voz em El Malecon Cisneros), Clarice Trummer (voz em Arrebol), Gero Camilo (sim, o ator também é cantor e compositor – voz em Sortilégio marítmo) e Izaíra Silvino (voz em Grandes esperanças) formam um pequeno panorama da boa música produzida hoje no Ceará.

A poesia de Márcio Catunda se assenta no canto de Eugênio Leandro (voz e violão), com o acompanhamento de Lu de Sousa (violão, viola, contrabaixo, teclado), Igor Ribeiro (percussão), Rossano Cavalcante (percussão), Ricardo Pinheiro (bateria) e Nonato Lima (sanfona).

A onírica Ermo, que fecha o disco, leva o ouvinte a uma viagem por Cuba, guiado pelos sopros de Carlos Montanha (trompete) e Rômulo Santiago (trombone e arranjo de metais). Canto provinciano, que a antecede, remete ao início da parceria – a música deu título a um show de Eugênio Leandro em 1981, no auditório da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Daquele show participaram outros artistas, entre os quais o poeta Márcio Catunda.

“A infância do destino e da beleza/ são os versos da esperança/ são as faces da lembrança/ dos mares de Fortaleza”, diz a letra, cujo sabor nostálgico nos dá uma certeza: continuam belos os mares da capital alencarina e a obra consistente de Eugênio Leandro – que neste disco divide os créditos com Márcio Catunda.

Passeando por jazz e blues sem perder o próprio estilo

Retrato: Ben Mendes

 

A primeira vez que ouvi Ceumar foi completamente por acaso: flanava pela Rua de Santana (Centro), quando entrei numa loja de discos hoje extinta e me deparei com Dindinha [1999], cuja capa, desenhada pelo artista pernambucano Romero de Andrade Lima, dava vida à protagonista da canção de Zeca Baleiro, que produziu seu disco de estreia, inspirada na morna Sodade (Armando Zeferino Soares), sucesso do repertório de Césaria Évora, a musa de pés descalços cabo-verdiana.

Até então eu nunca tinha ouvido falar em Ceumar ou em seu disco. Quando virei o cd, deparei-me, na contracapa, com os nomes de Zeca Baleiro, Josias Sobrinho, Itamar Assumpção, Sinhô, Luiz Gonzaga, Chico César, Jacinto Silva e outros. Era a senha: levei sem pestanejar.

Foi paixão à primeira audição, o que aconteceu com muita gente e continua acontecendo até hoje: há quem descubra Ceumar e quem se apaixone ainda mais a cada disco novo. Ela não precisou de mais que Dindinha para mostrar a que veio: cantora, compositora (faceta que só revelaria em outros discos, depois), instrumentista, firmou seu nome entre os grandes da MPB em qualquer tempo.

A Dindinha seguiram-se Sempre viva! [2003], Achou [2006], dividido com o violonista Dante Ozzetti , Meu nome [2009], Live in Amsterdam [2010] e Silencia [2014].

Lançada por pequenos selos, a artista sempre fez o que quis, da seleção de repertório à arregimentação e arranjos. Uma artista livre. Mineira de Itanhandu, ganhou o mundo. Após uma temporada em Amsterdam, na Holanda, está de volta ao Brasil. Lá, chegou a gravar um álbum ao vivo, acompanhada do Mike Del Ferro Trio.

Após um hiato, ela reencontra-se com o público maranhense: na Praça da Basílica de São José de Ribamar, dia 4 de novembro (sexta-feira), ela se apresenta na noite de abertura do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, evento inteiramente gratuito, produzido por Tutuca Viana, com patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. No repertório, músicas de diferentes fases de sua carreira, inclusive Silencia, o mais recente de sua discografia. Por e-mail ela conversou com Homem de vícios antigos.

Retrato: Ben Mendes
Retrato: Ben Mendes

Há alguns anos você mudou de endereço, trocando o Brasil pela Holanda. Quais as principais vantagens e desvantagens da mudança?
Passei quase seis anos em Amsterdam, fiz muitos projetos bacanas e criei um pequeno público por lá. A vantagem de morar na cidade das bicicletas e canais foi mesmo a liberdade e facilidade de ir e vir. Mas sentia saudade de coisas simples, andar de chinelo (a maior parte do ano é frio) e comer uns quitutes mineiros. Em termos profissionais também há uma diferença grande, pois no Brasil já tenho um público cativo e que me acompanha há muito tempo. Voltei este ano para Minas e acredito que toda experiência lá fora me enriqueceu muito como pessoa e artista.

Você está na programação do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival. Quem são os músicos que te acompanham e o que o público da Ilha pode esperar em termos de repertório?
O duo é formado por baixo acústico, meu sobrinho Daniel Coelho, que gravou o último álbum e tem feito muitos shows comigo, e Adriana Holtz no violoncelo, uma grande cellista que toca na Osesp [a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo] e nos acompanha em vários shows. Vamos tocar músicas do mais recente álbum, Silencia, e outras da carreira.

Através de nomes como Zeca Baleiro, que produziu teu primeiro disco, batizado por música dele, e Josias Sobrinho, de quem no primeiro disco você gravou duas músicas [Rosa Maria e As “perigosa”], o Maranhão sempre esteve presente em teu trabalho. Quais as expectativas e sensações a cada retorno por aqui?
Tenho muito afeto pelo público maranhense, desde as primeiras vezes em que estive aí. Trabalhei também com o grande percussionista Luiz Claudio Farias, que trouxe vários ritmos lindos para o som. Até hoje Dindinha é a canção que me arrebata. E as músicas de Josias são pérolas que pude conhecer através do Zeca. Tenho certeza de que será emocionante nossa participação no festival!

Já há planos de disco novo? O que você pode adiantar em relação ao assunto?
Estou compondo devagar, logo devo colocar mais foco nisto.

Desde o pioneiro Free Jazz no Brasil até festivais de jazz internacionalmente reconhecidos sempre aceitaram um pouco de tudo, em misturas bastante frutíferas. Na Holanda você chegou a gravar disco com o Mike del Ferro Trio, o que em tese credenciaria você ainda mais a este tipo de evento. Mas sua trajetória já uma prova de que vai mais longe quem não tem preconceitos nem se importa com rótulos. Qual o lugar de Ceumar?
Eu adoro o jazz e o blues. Fico muito feliz em poder transitar por estes estilos sem perder o meu próprio.

Ouça Engasga gato (Kiko Dinucci), com Ceumar:

Programação da noite de abertura do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival:

Sexta-feira (4):

20h15: Marcos Lussaray e Quarteto
21h15: Ceumar
22h30: Jefferson Gonçalves e Kléber Dias

Amor sempre! E música!

Caixa de música. Capa. Reprodução
Caixa de música. Capa. Reprodução

 

Xê Casanova assina simplesmente Xê em seu primeiro disco solo, Caixa de música [2016]. No álbum ele escancara a devoção a Marcelo Yuka (ex-O Rappa), que produziu o trabalho, a começar pela capa, em que credita o produtor.

É um disco sobre o amor, otimista, de vibrações positivas, com mensagens como “amor sempre” e “que todos os seres, em toda a parte, encontrem a felicidade”, no encarte, esta última tradução do mantra “loka samastha sukhino bhavantu”, misto de incidental e epígrafe em Todas as cores, cuja letra diz: “surgem no céu as cores/ de um novo tempo/ levam meu sonho adiante/ um mundo diferente, sim/ mas sem preconceitos”.

Alessandro Fontanari Casanova, seu nome de batismo, paulista de Mogi das Cruzes, onde mora, distante cerca de 80 km da capital São Paulo, vai com frequência ao Rio de Janeiro, onde gravou Caixa de música – no home studio de Yuka, na Tijuca, Zona Norte do Rio –, de que assina sozinho seis das oito faixas – as exceções são Ano bom, de Rui Ponciano, e Deixa rolar, que Xê assina em parceria com Sandra Vianna e Tatiana Fernandes.

Caixa de música foi gravado por uma banda enxuta, com os músicos se revezando entre instrumentos: Xê Casanova (voz, violão), Marcelo Yuka (bateria eletrônica, programação eletrônica, vocalize, colagem, egg shaker), Jomar Schrank (contrabaixo, guitarra, teclados, escaleta, backing vocal) e Fred Inglez (guitarra, guitarra cítara, revers), além de Katunga (violoncelo em O batuque, Todas as cores e Ano bom), Felipe Sobral Loureiro (guitarra em Deixa rolar, Ano bom e Não precisa falar) e Wagner Bagão Dubalize (sintetizadores e contrabaixo em Não abala).

Xê Casanova conversou com Homem de vícios antigos sobre o disco, o encontro com Marcelo Yuka, otimismo, amor e política.

O artista em foto de divulgação

Caixa de música é teu disco de estreia? Como foi sua gestação?
É meu primeiro disco solo. Já tive outras bandas [Tribo Brasil e Colomi], mas este é um disco em que me aventurei, eu que sou de Sampa, de Mogi das Cruzes, em ir pro Rio de Janeiro, a procura de algo “novo”, algo que me renovasse. E acabei tento um encontro com o Marcelo Yuka, que quis fazer esse trabalho. Demorou cinco anos essa gestação. Porque era só pra gravar no estúdio do Yuka, porém ele gostou das músicas e acabou sendo o produtor e tocando em todas as faixas, então só dava pra gravar quando ele tinha tempo, ele me chamava e eu ia pra casa dele gravar.

Parece-me até um som diferente de tudo o que eu conhecia do Yuka, sobretudo nO Rappa. Essa adoção dele por teu som acaba demonstrando a força de tuas composições, não acha?
Exatamente. Yuka curtiu a minha verdade, o simples. Você sabe o quanto ele é um grande poeta e tantas outras coisas. Isso que ele fez comigo, de gravar, se você pensar bem, é uma parceria. Poderia eu colocar que o disco é do Xê e do Yuka, mas eu não quero isso. Só a força, como você bem disse, da assinatura dele, é pra mim um divisor na minha carreira.

Caixa de música é um disco carregado de otimismo. Desde as composições até mensagens no encarte, como “amor sempre”, que lemos logo ao abrir, e o “loka samastha sukhino bhavantu”. Nestes tristes tempos que o Brasil vive, o quanto é necessário de otimismo e realismo para sobrevivermos?
Ufa, irmão! Eu acredito que o AMOR [maiúsculas dele], explicar essa palavra “amor” fica muito vaga, piegas, não sei como dizer. Quando comecei a praticar ioga, há sete anos, eu fui entendendo que o amor muda, transforma, e que se você pensar no amor de servir, deixar ser servido, olhar pro próximo, cachorro, inseto, água, sei lá, as coisas mudam. Pois bem, tô eu tentando, sempre, pinta a oportunidade de ir pro Rio encontrar o Yuka, eu sem banda, sem saber o que fazer. Pensei: é o amor me mandando a porra da parada. Fui. Se fosse antes não sei se acreditaria em mim, entende?

Perfeitamente. A ioga te permitiu ouvir uma voz interior?
Sim. A de confiar. Tem dias que é difícil, mas é uma ferramenta, e quando eu encontrei o Yuka, a primeira coisa que ele falou, juro: “agora que sou um praticante de ioga, blá blá blá”. Cara! Eu não acreditei

Lembrei da história do encontro de Baby Consuelo [hoje Baby do Brasil] com o [contrabaixista] Dadi. Ela nunca o tinha visto e mandou: “você toca contrabaixo, não toca?”. O resto é história. Caixa de música é um disco enxuto, poucos músicos tocando, coeso, você assina quase todas as faixas. E o amor permeia o conjunto. Quais as doses de acaso, inspiração e trabalho?
Eu gravei todas as canções só voz e violão. O Fred Inglez, técnico de som, fez os beats no metrônomo, em cima do meu jeito de tocar e ponto. Em dois dias já tava pronta a base do cd, sem nome sem nada de ideias. Yuka gosta da madrugada, do barulho que o silêncio faz. Então começamos o processo, desses anos todos, amizade, cumplicidade, amor, cozinhar com ele, ser uma extensão de seu corpo na hora de fazer um rango do jeito dele. Tudo isso foi refletindo no disco, nas longas madrugadas, o respeito com minha música. Quando entrávamos no estúdio, era pra ficar no mínimo 10 horas, sem choro.

A faixa Não abala é o momento do disco em que você mais se aproxima da temática social que norteia o trabalho do Rappa, do Furto [grupos que Yuka integrou] e do Yuka. Ela não destoa do resto do disco, já que é impossível amar sem medo, concorda?
Pois é! Medo de ser livre, de escolher. Daí a ignorância e a inteligência. Batem cabeças. Me lembrei da musica do Beto Guedes [cita trecho de O medo de amar é o medo de ser livre, parceria de Beto Guedes com Fernando Brant]: “O medo de amar é o medo de ter/ de a todo momento escolher/ com acerto e precisão/ a melhor direção”.

E o que você tem a dizer a quem ousar criticar Caixa de música por ser um disco sobre o amor e, portanto, talvez dirão, piegas?
Pô, tá no direito. Eu sei que pra mim foi uma honra ser produzido por uma pessoa que  influenciou toda uma geração, um cara visionário, olhos atentos no futuro. Então, se o conceito que ele deu ao Caixa de música for classificado por alguns como piegas, eu aceito. AMOR SEMPRE! [maiúsculas dele].

Você visita com frequência o Rio de Janeiro, onde gravou seu disco. O que achou do resultado da eleição para prefeito lá? E em São Paulo?
[Risos]. Gravei na casa/estúdio do Yuka, na Tijuca, Zona Norte do Rio, bairro de tantos artistas, terra de Tim Maia. Na eleição passada o Yuka foi [candidato a] vice[-prefeito] do [Marcelo] Freixo, então já tava torcendo pra ele. Fiquei chateado sim com o resultado, mas acho que é um trabalho de formiguinha. O bispo papão é foda. Em Sampa? [gargalhadas]. Jura mesmo?. Dória Jr.? Não rola.

Ouça Caixa de música, o disco:

As conexões de som e sentimento

Conectar. Capa. Reprodução
Conectar. Capa. Reprodução

 

Uma leitura mais apressada, menos atenta, pode enxergar o convite: “vem conectar”. Não estará de todo errado. Mas ali está Wem Conectar [2016], nome do artista e título do disco, em cuja capa ele aparece, emoldurado por bela paisagem, sentado num cubo com seu nome/marca, com um fio caído do céu plugado – conectado – ao violão que empunha. O verbo-título transforma o “ar” em voo de pássaros.

Uma andorinha só não faz verão, sabemos, e ao abordar o universo das conexões, as humanas, sem mediação de máquinas, o disco de Wem soa como uma doce lufada de esperança no humano, na humanidade. Doçura, aliás, não falta. Outro ponto destas conexões que merece destaque é o fato da realização de Conectar ter sido possível graças a uma campanha de financiamento coletivo.

Wem é autor das 11 faixas de Conectar, somente as três iniciais com parceiros: Se eu te encontrar (com Chico Salem), a faixa-título e Nosso quarto (ambas com Amanda Basani). “As manchetes vão virar poema/ Marginal Pinheiros vira mar/ a televisão vira cinema/ roda de fogueira vira altar”, diz o otimismo escancarado da faixa de abertura. “A segunda vira sexta-feira/ a quaresma vira carnaval/ qualquer gafe vira gafieira/ bad trip vira alto astral”, continua, com o lendário Dadi ao contrabaixo e piano, o que conecta o artista a Novos Baianos, A Cor do Som e Tribalistas.

Em Antes, a voz de Wem é emoldurada pela companhia de Marcelo Jeneci, que além de cantar, toca piano e sintetizador. São artistas de timbres, estilos e doçuras parecidos – aliás, quem gostou dos dois discos solos de Jeneci certamente vai gostar também de Conectar, mais uma em um disco de tantas conexões.

As letras, com cifras para violão no encarte, tratam basicamente do amor – a melhor conexão possível. Wem (voz, violão, assovio, piano, guitalele, guitarra, cuatro, palma) é escoltado por – ou conectado a – Fabio Pinczowsky (guitarra, palma, violão, teclado), Ricardo Prado (sanfona, teclado, contrabaixo, palma, piano, guitarra), Guilherme Kastrup (bateria, percussão) e Bruno Buarque (bateria em Se eu te encontrar).

Nestes tempos botocudos, Conectar é um disco necessário e preciso. Como as constatações e o convite da faixa-título: “Não consigo te conectar/ mas não canso de te procurar/ sobra megabyte falta amor/ desencana desse servidor/ Chega a hora de dormir/ liga a tv pra se distrair/ queria tanto te conquistar/ larga desse celular e vem pra cá me amar/ Meu bem vem que tem/ um abraço um amasso é melhor/ que essa tela fria, vai na minha/ isso é alta tecnologia humana/ se enrosca na rede real do amor a dois”.

Veja o clipe de Solidão Jamais (Wem):

Vanessa Bumagny e o poder (do) feminino

O segundo sexo. Capa. Reprodução
O segundo sexo. Capa. Reprodução

 

Vanessa Bumagny toma emprestado do clássico de Simone de Beauvoir, o título de seu terceiro disco, O segundo sexo [2015], mas engana-se quem esperar encontrar ali um manifesto feminista ou coisa do tipo.

No entanto, esta discreta parceira de nomes como Chico César e Zeca Baleiro – que comparece ao disco em participação especial na faixa-título – demonstra seu empoderamento feminino, por exemplo, ao assinar, sozinha ou com parceiros, todas as faixas do disco.

Acompanhada de músicos como Adriano Magoo (sanfona, teclado), Érico Theobaldo (programação de bateria, bateria, baixo, guitarra), Fernando Nunes (contrabaixo), Roger Menn (guitarra, violão), Rovilson Pascoal (violões) e Zeca Loureiro (guitarra), entre outros, Vanessa Bumagny desfila toda sua versatilidade e talento.

O segundo sexo (Luiz Pinheiro/ Vanessa Bumagny) tem clima de new wave e lembra o pop do Metrô. “É duro ser o segundo sexo, o primeiro, o terceiro e todos os demais”, provoca a letra, para reafirmar, mais adiante: “é duro ser o primeiro filho, o caçula, o do meio e todos os demais”. Música alegre para tristes tempos: no fundo, é duro ser humano, hoje em dia.

Nada igual por aí evoca Cor de rosa choque (Rita Lee/ Roberto de Carvalho): “isso vermelho é sangue cuidado está vivo e pulsa/ quente como nunca se viu nada igual por aí”, diz a letra de Vanessa Bumagny, cujo arranjo é outro ponto do disco que nos leva a pensar em bons momentos do pop rock nacional oitentista. “Este disco é dedicado a quem escuta inocentemente como se fosse sempre a primeira vez”, a artista arremata no encarte provocantemente.

No repertório do sucessor de De papel [2003] – título que é o significado de seu sobrenome – e Pétala por pétala [2009] – batizado por parceria com Chico César, também gravada pelo parceiro – destacam-se ainda O que for melhor (Vanessa Bumagny), faixa que abre o disco com sua luminosidade musical, a valsa Você era meu sonho (Heloiza Ribeiro/ Vanessa Bumagny), A Carlos Drummond de Andrade, em que ela musica um poema do “anti-musical” João Cabral de Melo Neto, Tristeza só (Vanessa Bumagny), samba à base de baixo, guitarra e bateria, e Do meu jeito (Luiz Tatit/ Vanessa Bumagny), em que a protagonista parece fraquejar, mas no fundo é senhora de sua decisão.

Ouça Tristeza só (Vanessa Bumagny):

A sinceridade de Kleber Albuquerque e Rubi

Cantores apresentam o show Contraveneno logo mais às 20h30 no Cine Praia Grande

Foto: ZR (28/10/2016)
Foto: ZR (28/10/2016)

É praticamente a estreia de Contraveneno, o show que Kleber Albuquerque e Rubi apresentam logo mais, às 20h30, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com produção da Sete Sóis (selo que lança seus discos) e produção local de Gilberto Mineiro. Ou pelo menos é, com essa formação: eles serão acompanhados por Rovilson Pascoal (guitarra) e Mário Manga (violoncelo).

O show deve circular e há a vontade de transformá-lo em disco. A ideia para o espetáculo em parceria surgiu há pouco mais de um mês, mas as carreiras de Kleber e Rubi se cruzam há bastante tempo. Rubi se lembra de, ao ouvir o disco de estreia de Kleber [17.777.700, de 1997], ter procurado o produtor Mário Manga, através de quem se conheceram. Contraveneno acaba sendo também uma espécie de reencontro, quase 20 anos depois.

Estamos diante de dois dos mais autênticos e sinceros artistas surgidos para o mercado fonográfico a partir da segunda metade da década de 1990. Compõem e cantam simplesmente o que lhes emociona. Ou isso ou nem tentam, como provam suas trajetórias regulares de discos tão belos quanto verdadeiros, com temas que vão do amor a questões sociais.

Homem de vícios antigos encontrou-os na manhã desta sexta-feira (28), em frente ao hotel em que se hospedaram, na Avenida Litorânea. Conversamos com os cantores entre idas e vindas dos músicos para uns mergulhos na praia do Calhau. A conversa foi acompanhada também pelos produtores Flávvio Alves (Sete Sóis) e Gilberto Mineiro. A seguir, os melhores trechos da conversa à beira-mar.

Foto: ZR (28/10/2016)
Foto: ZR (28/10/2016)

Contraveneno já tinha sido apresentado ou é um show novo?
Rubi – Estamos estreando esse show. A primeira mostra foi em Londrina. Mas sem o Rovilson e sem o Mário Manga. A gente pretende fazê-lo girar, circular. Com essa formação, preferencialmente.
Kleber Albuquerque – É uma alegria muito grande ter o Manga novamente, ele produziu nossos primeiros discos. Eu nem tinha pensado nessa coisa de 20 anos há até umas duas semanas. O Flávvio comentou de a gente gravar o disco novo.

Por falar nisso: e o disco novo? Ou: há a chance de Contraveneno virar disco?
Kleber – É um projeto muito recente, um mês e meio. A gente se encontrou em casa, o repertório já surgiu.
Rubi – A gente conviveu muito durante muito tempo, tínhamos afinidade com algumas canções e o universo musical de alguns artistas muito próximos da gente. A referência é família, rádio. A gente tem algumas coisas que confluíam muito. Quando a gente se encontrou agora, acordou um monte de coisas dessa memória.
Kleber – Foi muito natural. A gente ia lembrando, o show tá quase na ordem disso.

É um best of?
Kleber – Tem muitas músicas inéditas. Em alguns momentos, canções muito próprias do trabalho dele, a alegria de cantar em duas vozes, músicas que eu ouvia quando era moleque.
Rubi – Uma coisa que ficou muito clara a partir do encontro é a delícia que é cantar junto. Eu gosto muito de cantar com ele. Eu sempre gostei muito de cantar com ele.

Quando eu ouço o título Contraveneno eu penso em antídoto. A música de vocês se pretende antídoto pra quê?
Kleber – Eu tenho a impressão de que essa questão do antídoto, no sentido de um remédio, um medicamento que melhore um pouco a vida, ele é especialmente pra gente, um contraveneno pessoal, pra suportar a vida. Esse nome vem de uma das canções do repertório, no sentido de não se render, uma certa resistência, embora as canções inéditas não sejam propriamente panfletárias, as letras têm um foco social, um olhar político por trás das letras.
Rubi – De uns tempos pra cá eu comecei a entender por onde a minha arte passeia. Eu me questionava com relação às minhas escolhas, a meu repertório. Uma coisa que ficou muito forte de uns tempos pra cá é o compromisso de eu viver a minha arte. Eu canto pelo viés da emoção. Quando eu canto tanto eu quero me sentir tocado pela canção, quanto criar a possibilidade de despertar essa sensação, essa emoção, não só pela coisa política do discurso em si. A gente tem vivido tempos muito ásperos, de muita intolerância, tudo é muito veloz, e isso tira o tempo de reflexão. Eu gosto de cantar coisas que mexem com minha emoção. Eu não vejo quem me escuta de maneira passiva. Pra mim é uma troca, é um vai e vem. Quem para para ouvir, é tão importante quanto a gente que toca. Ter um bom ouvido é tão importante quanto ter o que dizer.

As formas de o público lidar com a música têm mudado, mas vocês ainda fazem discos.
Kleber – Talvez mais por fetiche. Pro artista é muito bom ter algo pra te dar uma unidade. Antigamente você fazia o compacto com uma canção só e hoje está voltando, por conta da internet. Hoje você pensa em 13 canções e tem a oportunidade de pensar em uma unidade para o trabalho. Essa forma de embrulhar ainda é usada mais por uma questão de resquício do formato que por uma exigência de mercado. Há um valor simbólico, mas essas coisas estão se transformando mesmo.
Rubi – Isso de você fazer sua própria trilha, você não ouve um álbum. As pessoas não estão mais habituadas. Você se conecta, ouve a música, acha interessante, vai saber se você vai lembrar do autor? Vão ficando as células, não fica o corpo.

Vocês sempre trazem, em suas obras, a questão social.
Kleber – Às vezes é o amor que afeta, mas do meu ponto de vista, como uma pessoa que tá vivendo a vida, é uma forma de elaborar pessoalmente. Pra mim acaba sendo uma extensão natural lidar com alguns temas. Eu não me acho apto a dizer nada pra vida do outro, a falar o que é certo ou o que é errado. Por outro lado, essas coisas acabam envolvendo a gente de uma forma mais forte do que em outras épocas. A força da palavra poética pode vir a ter uma importância grande como já teve, não pra música, mas pra vida das pessoas. Eu, tirando pra mim, tenho algumas canções, alguns versos, que influenciaram minha vida a ponto de eu descobrir que eu queria fazer isso. A música, a poesia, a arte de modo geral, têm um poder transformador.
Rubi – Eu tenho uma coisa muito forte pra mim. Com o passar do tempo a gente vai maturando. As pessoas me imaginam cantando x, y, z. Meu critério não é o que o outro imagina. É duro falar assim, mas é exatamente isso. Eu preciso estar envolvido. A música pode demorar uma vida inteira para me escolher, mas a música tem que fazer um sentido pra mim. Eu não me considero um cantor, minha formação acadêmica [Rubi é bacharel em artes cênicas] não tem nada a ver com música. Toda minha ligação com a música é muito intuitiva. Muito nesse lugar de me respeitar dentro de cada canção, respeitar a canção e me colocar dentro dela. Eu dependo muito das minhas escolhas, eu preciso da minha relação com aquela obra pra ela se expressar através de mim. Todo meu processo de canto passa pela palavra, eu tenho um amor pela palavra muito grande. Minhas escolhas caem muito aí. A canção é minha dramaturgia, por que eu sou ator. Eu não me considero um cantor, de fato. Quem canta em mim é o ator.

Ouçam Brasa (Kleber Albuquerque), com Kleber Albuquerque:

Ouçam Ai (Kleber Albuquerque/ Tata Fernandes; poema incidental: Gero Camilo), com Rubi:

Filhos de Freud

Documentário traça rico painel da psicanálise no Brasil

[O Imparcial, ontem] 

 

Hestórias da psicanálise. Cartaz. Reprodução
Hestórias da psicanálise. Cartaz. Reprodução

A princípio, o título Hestórias da psicanálise – Leitores de Freud [documentário, Brasil, 2016, 96 minutos; em cartaz no Cinépolis São Luís Shopping] pode afastar espectadores que não se julguem conhecedores da obra do pai da psicanálise, mas o que vemos no filme de Francisco Capoulade, ele também psicanalista, é um desfile de depoimentos sobre diversos aspectos da obra e vida do importante pensador austríaco.

Sérgio Paulo Rouanet, que empresta nome à controversa lei federal de incentivo à cultura, sancionada quando ele era secretário da Cultura do governo Collor, inicia aproximando o universo de Freud do de Machado de Assis, quando relata ter recomendado a alguém, ao fim de uma palestra, livros do bruxo de Cosme Velho, insistindo na dica quando é aprofundado o recorte: “mas eu estava falando de psicanálise”, disse sua interlocutora, ao que ele repete, “Machado de Assis”.

É uma espécie de senha para o elogio da linguagem em Sigmund Freud. Não são poucos os relatos dos que se apaixonaram pelo autor pela forma como ele escreve, a despeito de, a princípio, não terem entendido nada – não é um filme baseado em achismos, estamos diante de autoridades quando o assunto é o legado freudiano, uma espécie de mapa psicanalítico do Brasil, cujas belas paisagens, ao lado de Áustria e Alemanha, ligam os diversos capítulos que formam a película, passeando, além do personagem lido, por temas como cultura, história e tradução – não à toa o trocadilho do título do filme, que começa com o vai e vem da maré e vozes sobrepostas dialogando em alemão, língua em que Freud escreveu toda a sua obra.

É uma espécie de desnudamento de Freud – autor para o qual o sexo, “assunto popular”, é tão caro – para iniciados ou não, a partir de particularidades do pensamento brasileiro, em que o autor é, de algum modo, popular, mesmo entre os que nunca o leram ou nunca frequentaram um divã. Impossível não lembrar o “Freud explica” com que Zé Ramalho pontua sua Chão de giz, quase um dito popular.

Depoimentos, entre outros, de André Carone (filósofo e tradutor), Christian Dunker (psicanalista e escritor), Cristiana Facchinetti (psicanalista e historiadora da psicanálise), Hannes Stubbe (psicólogo e escritor), Joel Birman (psicanalista), Lúcia Valladares (psicanalista e historiadora da psicanálise), Luiz Alberto Hanns (psicanalista e tradutor), Lya Luft (escritora), Mário Eduardo C. Pereira (psicanalista e psiquiatra), Paulo César de Souza (germanista e tradutor), Ricardo Goldenberg (psicanalista e escritor) e Terêncio Hill (psicanalista e pensador) ajudam a compor um rico – e brasileiríssimo – painel sobre a importância, pluralidade, popularidade e atualidade de Freud.

É um documentário convencional e um pouco cansativo, os depoimentos seguindo-se, um após o outro, na montagem do rico painel. Necessário para, desta vez, em vez de algo ser explicado por Freud, tentar entendê-lo.

Veja o trailer:

As lutas de Clara. E nossas

Aquarius. Cartaz. Reprodução
Aquarius. Cartaz. Reprodução

 

Creio ainda não ser possível mensurar se a polêmica envolvendo a equipe de Aquarius [drama, Brasil, 2016, 145 minutos; em exibição no Cine Praia Grande] em Cannes, que protestou contra o golpe que cassou a presidenta Dilma Rousseff, ajudou ou atrapalhou os números da bilheteria do novo filme de Kléber Mendonça Filho. Independentemente disso, trata-se de uma obra-prima do cinema nacional.

Dono de uma voz bastante particular, o cineasta pernambucano soa talvez profético em Aquarius. É a história de Clara (Sônia Braga), jornalista aposentada, que venceu um câncer e agora luta sozinha contra os tubarões da especulação imobiliária na grande Recife. É o prédio em que Clara mora, na praia de Boa Viagem, e do qual não quer sair, que dá título ao filme.

Quem assistiu O som ao redor certamente também o aprovará. Os filmes têm alguns paralelos: ambos têm Recife como cenário, repetem alguns atores da predileção de Kléber Mendonça Filho (Irandhir Santos e Maeve Jinkings, entre outros), são divididos em capítulos, têm mais de duas horas de duração, não possuem uma moral da história explícita – ao fim o espectador crê que a história não acaba ali e se pergunta que rumos tomam os personagens após os créditos.

No microcosmo de seu enredo o cineasta acaba trazendo à tona problemas brasileiros bastante comuns. Clara é quilombola, negra, indígena, ribeirinha, camponesa, quebradeira de coco, presidenta da República apeada do poder. Clara são todos os que significam algum obstáculo ao desenvolvimento, ao progresso, à modernização – mesmo que modernizar seja apenas botar um nome espalhafatoso (e ridículo) em inglês e instalar umas câmeras de segurança.

A protagonista representa todo esse povo sofrido, mas estamos longe de alguém sem instrução ou desprovida. Viúva, possui cinco apartamentos – poderia se mudar para qualquer um ou mesmo comprar outro em qualquer lugar com o dinheiro que lhe é oferecido pela construtora que, afinal de contas, já comprou todos os outros apartamentos do edifício Aquarius.

É uma questão não de birra, mas de resistência e memória. “Esse apartamento é onde vocês foram criados”, diz durante uma visita dos três filhos. Clara passa a sofrer as investidas de quem quer por força despejá-la, numa espécie de guerrilha psicológica – e biológica.

Aquarius critica as elites do país e os reacionários que acham que tudo pode se resolver na base do dinheiro. “A questão não é dinheiro”, diz Clara noutra cena, investindo na contraofensiva.

Drama com ares de suspense e uma trilha sonora também emocionante, que ajuda a contar a história – Clara possui uma invejável coleção de vinis, embora não nutra desprezo por mídias digitais. O tema, afinal, é mote para uma crítica ao jornalismo contemporâneo, quase sempre mais preocupado com manchetes sensacionalistas que com (a veracidade d)o conteúdo publicado – os jogos de poder travados nos bastidores do jornalismo também comparecem à trama.

A luta solitária de Clara não se encerra em si mesma, como nenhum problema brasileiro está isolado e o filme toca em questões sensíveis como a violência (o filho da empregada atropelado enquanto volta do trabalho) e a ausência (ou o desinteresse) de um debate sobre a questão das drogas (o pequeno traficante branco e classe média acima de qualquer suspeita), ingredientes de nossa barbárie cotidiana.

Independentemente de questões extra-cinematográficas – o protesto em Cannes, a classificação indicativa com tons de censura militar e/ou o boicote na indicação do título nacional ao Oscar – boicotar Aquarius, como de resto qualquer obra de arte, é burrice. Ou medo. De o cinema ser espelho e se ver refletido nalgum daqueles papéis. Ou de perceber que está errado e nem sempre quem fala bem ou anda arrumadinho é o melhor para desempenhar determinada função na imensa engrenagem chamada Brasil. Longe de ser panfletário, Aquarius é também um convite à luta pelo que acreditamos.

A pintura da fachada do edifício, autorizada por Clara que, afinal de contas, agora mora ali sozinha, é um novo ponto da guerra travada pela construtora, do qual a personagem precisa se defender, juridicamente inclusive. É também uma alegoria: há tanto para descascar em Aquarius que dificilmente uma resenha dará conta. Sobretudo nestes tristes tempos de Fla x Flu político, em que o filme tem sido injustamente reduzido ao que não é: Aquarius é maior que o protesto de sua equipe em Cannes e outros eventos cinematográficos mundo afora e bem maior que a minha e a sua opinião ou posição político-ideológica neste momento conturbado e sempre.

Veja o trailer:

Intimidade e entrega

Lancamento de Dois tempos de um lugar no Auditório Ibirapuera. Foto: Chema Llanos
Lancamento de Dois tempos de um lugar no Auditório Ibirapuera. Foto: Chema Llanos

 

Ex-namorados, Dandara e Paulo Monarco esbanjam intimidade ao figurarem nus na capa e encarte de Dois tempos de um lugar [2016], disco produzido por Swami Jr. e Tó Brandileone e mixado por Ricardo Mosca (Pau Brasil). O par não precisa de mais que uma faixa para provar que estamos diante de dois artistas talentosos.

Ela, cantora habilidosa, que ouvintes mais antenados lembrarão de [2013], terceiro disco de Bruno Batista, que poderia também ter sido assinado por ela; ele, compositor interessante, autor, com diversos parceiros, de quase todo o repertório do disco – as exceções são Toca aí, de Túlio Borges, Trovoa, de Maurício Pereira, e a faixa-título, de Celso Viáfora.

Ame (Paulo Monarco/ Kleuber Garcêz), quase toda rimada no título, entre a “delicadeza do origami” e a “força do índio Yanomami”, abre o disco, cumprindo bem o papel de apresentar a dupla e despertar o interesse do ouvinte pelas faixas restantes.

É basicamente um disco de vozes (Dandara e Monarco) e violão (Monarco, que toca guitarra em Escuta). As únicas exceções são o piano de armário em Toca aí e a gaita em Escuta, ambos tocados por Tó Brandileone. Zeca Baleiro canta em Tem dó, parceria dele com Paulo Monarco.

Dois tempos de um lugar. Capa. Reprodução
Dois tempos de um lugar. Capa. Reprodução

Dois tempos de um lugar é um disco profundo, de entrega. Como atesta a letra de Pra acordar (Paulo Monarco/ Suely Mesquita): “sorrir sem medo com a alma em carne viva/ alargo o peito pra poder acomodar/ um coração que cresce além da sua medida”.

É um disco para se apaixonar à primeira vista – ou melhor, à primeira escuta. Em tempos líquidos, a intimidade se dá ligeira, mas no que a dupla canta não é mera aventura. Em Escuta (Paulo Monarco/ Túlio Borges), pedem atenção com uma pitada de erotismo: “Escuta a história que vou te contar/ que vou te lamber/ o aparelho auditivo/ que vou te chupar/ a intimidade do ouvido”.

O ofício musical e suas delícias também são temas em Dois tempos de um lugar. Na faixa-título voltam a pedir atenção e a demonstrar intimidade: “É tudo muito estranho, eu sei, você nunca me viu, mas por favor, escuta/ não me pergunte como nem por que, mas sei que temos vidas muito juntas”. Em Madrigal (Paulo Monarco/ Dandara/ Bruno Batista), que fecha o disco, idem: “talvez seja essa tristeza/ ou o costume da esperança/ que me faz, nunca querendo,/ querer sempre mais/ e o meu único desejo é morrer cantando/ o meu único desejo é sempre cantar”, este certamente também o desejo de quem ouvi-los.

Ouça Contenteza (Paulo Monarco/ Alisson Menezes):