Atingidos pela Vale concedem entrevista coletiva

Coletiva de imprensa é parte do Encontro Tripartite Canadá-Moçambique-Brasil, que acontece em São Luís

“Questões trabalhistas e socioambientais de comunidades afetadas pela Vale”. Este é o tema do Encontro Tripartite Canadá-Moçambique-Brasil que acontece em São Luís entre 23 e 25 de novembro, para tratar de diversos conflitos ocorridos nas áreas de atuação da empresa mundo afora.

Dia 25 (sexta-feira), às 11h, acontecerá uma coletiva de imprensa, de que participarão Lorraine Michael (líder do Novo Partido Democrático na província de Newfoundland, Canadá), diversos representantes moçambicanos, da Rede Justiça nos Trilhos e das comunidades Vila Diamante, em Igarapé do Meio, e Santa Rita, em Itapecuru- Mirim.

A entrevista coletiva será realizada no Hotel Praia Ponta d’Areia (Av. dos Holandeses, quadra XIII, s/nº.). Na ocasião será lançada a cartilha Que trem é esse?, que, de acordo com a organização do encontro, “tem o objetivo de orientar as comunidades sobre como se organizarem para não serem enganadas por promessas da empresa, além de partilhar experiências positivas de comunidades e pessoas que lutaram e conseguiram manter seus direitos garantidos”.

História – Estatal fundada em 1942, no Governo Getúlio Vargas, a Vale – então Companhia Vale do Rio Doce – foi privatizada em 1997, no governo Fernando Henrique Cardoso, pela bagatela de 3,3 bilhões de reais. Desde então já lucrou 45,8 bilhões e os conflitos com comunidades que vivem ao longo de sua área de atuação têm se acirrado.

Serviço

O quê: Entrevista coletiva com atingidos pela Vale.
Quem: Lorraine Michael (líder do Novo Partido Democrático na província de Newfoundland, Canadá), diversos representantes moçambicanos, da Rede Justiça nos Trilhos e das comunidades Vila Diamante, em Igarapé do Meio, e Santa Rita, em Itapecuru- Mirim.
Quando: dia 25 (sexta-feira), às 11h.
Onde: Hotel Praia Ponta d’Areia (Av. dos Holandeses, quadra XIII, s/nº.).

Trem musical, Parador de Nosly encosta amanhã (29) na estação Arthur Azevedo

Do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: “Iniciou a vida artística em 1984 na cidade de São Luís, capital do Estado do Maranhão.// Residiu em Minas entre os anos de 1986 e 1995, onde integrou a Orquestra de Violões do Palácio das Artes. No ano 2000 lançou pela gravadora Dabliu o cd Teu lugar, no qual interpretou várias composições de sua autoria, entre elas, Brinco, Noves fora e Japi, as três em parceria com Zeca Baleiro; Coração na voz (c/ Nonato Buzar e Gerude); Gueno (c/ Glauco Barbosa) e June, parceria com o poeta Celso Borges, entre outras.// No ano de 2003, ao lado de César Nascimento e Mano Borges, apresentou-se no “Projeto Prêt-à-porter”, com direção artística de Sérgio Natureza, no Teatro Café Pequeno, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.// Em 2010 lançou o cd Nave dos Sonhos, no qual figura a faixa-título composta em parceria com o também maranhense Nonato Buzar, disco lançado em show homônimo no Bar Severyna, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro. No show contou com a participação dos músicos Ney Conceição (baixo), Kiko Continentino (teclados) e Victor Bertrami (bateria).// Entre seus diversos parceiros destacam-se os letristas Celso Borges, Tibério Gaspar, Chico Anísio, Fausto Nilo e Sérgio Natureza, além do compositor e sambista carioca João Nogueira.”

Do texto do encarte de Parador [ouça na Rádio UOL], assinado pelo parceiro-produtor Zeca Baleiro: “Parador é o terceiro disco de Nosly, compositor maranhense que já zanzou por muitas plagas sem fixar-se em nenhuma – São Luís, Rio, Belo Horizonte, Düsseldorf… Como seu conterrâneo Gonçalves Dias, Nosly vive no exílio, no abandono apaixonado da música, urdindo canções como quem tece num tear seu artesanato de afetos, sua teia de ritmos (…)// Sem mais delongas, digo: Nosly é um craque inquestionável da sempre nova (e muito viva) canção brasileira”

Parador abre com a regravação de Aquela estrela (Ronald Pinheiro e Jorge Thadeu) e fecha com Maria Luiza (Nosly), único tema instrumental do disco, homenagem à mãe do compositor. Entre as 13 faixas, parcerias, regravações e inéditas.

Amanhã (29), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, acontece o show de lançamento de Parador (2011), novo disco de Nosly, produzido por Zeca Baleiro (mais sobre o show no release escrito pelo parceiro Fernando Abreu). Abaixo, a entrevista exclusiva que o músico concedeu ao blogue, por e-mail.

ENTREVISTA: NOSLY

ZEMA RIBEIRO – Nosly, como foi sua infância e em que momento você sentiu que ia ser músico, que ia viver de música?

NOSLY – Nasci em Caxias/MA, em agosto de 1967. Sou o sétimo filho de uma família de 10 e carrego o nome do pai, Nosly. Cresci ouvindo muita música boa, música de qualidade, orquestradas e interpretadas por grandes nomes. A minha primeira lembrança, eu deveria ter talvez quatro ou cinco anos, foi colocar na “radiola”Agostinho dos Santos cantando Estrada do Sol (Tom Jobim e Dolores Duran). Depois, com sete, me divirtia com os instrumentos musicais (xilofones, saxofones, clarinetes etc.) que ganhava na época de natal. Acho que os meus pais, de alguma maneira, já identificavam meu interesse pela música. Só lá pelos 13 é que pintou o violão na minha vida. Daí foi paixão à primeira nota.

Parador pode ser considerado teu disco mais pop, embora nunca descartável, como acentua o parceiro Fernando Abreu no release de divulgação do show de lançamento. Como foi sua gestação? O disco começou a ser idealizado no começo do novo milênio, mas por conta da agenda do Zeca [Baleiro, produtor do disco] e a minha decisão de passar um tempo na Europa, foi sendo adiado, até, finalmente em 2010, partirmos pra por em prática e realizar o sonho antigo. Muitos e-mails trocados com o Zeca até chegarmos a esse repertório que aí está. Compus algumas coisas especialmente pra esse cd, como por exemplo Oh, baby perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), Aldeia (Nosly e Celso Borges) e Apesar de doer (Nosly e Vanessa Bumagny). Muitas idas e vindas, São Luís, São Paulo, São Luís, até a conclusão e lançamento em maio deste ano.

O que o público ludovicense pode esperar do show de lançamento do disco, que contará com a participação especialíssima de Toninho Horta? O show tem como base o repertório do cd e toco ainda algumas músicas do primeiro [Teu lugar] e do segundo cd [Nave dos sonhos]. A banda é sensacional: VICTOR BERTRAMI – BATERA, NEY CONCEIÇÃO – BAIXO e KIKO CONTINENTINO – PIANO [grifos dele]. O Toninho é amigo desde 86, quando eu participei do I Seminário Brasileiro da Música Instrumental, realizado em Ouro Preto. Considero o Toninho um dos maiores violonistas, guitarristas do mundo, além de consagrado compositor, grande ídolo, desde o tempo que ouvia o Clube da Esquina. Melhor agora, depois de tantos anos de amizade, poder estreitar mais ainda nossos laços musicais e contar com a presença dele no show. É uma honra pra mim e acredito que será também para o público que vai nos prestigiar.

Parador traz uma série de parcerias, com nomes como Celso Borges, Fausto Nilo, Fernando Abreu, Olga Savary, Vanessa Bumagny e Zeca Baleiro, entre outros, o primeiro e o último aqui listados talvez os mais antigos, parceiros desde o começo da carreira. Como se dão essas parcerias? Como é lidar com essa pluralidade? Cada parceiro tem sua importância e admiro todos eles, pois a parceria nasce antes, no coração da gente, só depois vira música. Já compus de n maneiras distintas, não dá pra prever nem premeditar, tudo nasce como deve ser, naturalmente. Recebo letras de música, poemas, ideias de melodias, enfim cada caso é um caso. O importante mesmo é que o momento seja pleno e que a ideia venha à cabeça. Tive a honra de compor com grandes nomes da MPB, como Nonato Buzar, Chico Anysio, João Nogueira, Tibério Gaspar, Sérgio Natureza, Zeca Baleiro, Chico César, Fausto Nilo, Luis Carlos Sá, Celso Borges, Fernando Abreu, Gerude, Luis Lobo, Olga Savary, Lúcia Santos, Cláudia Alencar, enfim, a lista é longa e sempre cabe mais um. É muito bom poder compartilhar momentos e afinidades e a parceira é a junção dessas duas coisas.

Como foi trabalhar com o parceiro Zeca Baleiro assinando a produção? Foi muito prazeroso trabalhar com o Zeca. Já fizemos tantas coisas juntos no passado, que facilitou nesse agora. Temos muita afinidade, crescemos juntos e ouvimos muita música naquelas tardes de Monte Castelo. Além disso, nossa concepção é bem parecida, embora cada um tenha sua maneira particular de evidenciar isso. Pra resumir, foi uma beleza fazer esse cd produzido por ele, pelas ideias que dividimos e pelo despojamento sobre qualquer sentimento de vaidade que pudesse macular esse nosso encontro.

Faixas como Oh, baby, perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), I’ll be over you (Steve Lukather e Randy Goodrum) e So I’ll have to say I love you in a song (Jim Croice), têm um acento brega, seja pela temática romântica da primeira, a segunda uma balada original que aqui ganha versão reggae e a terceira por ter tido uma versão em português gravada por um ídolo do gênero, Fernando Mendes. Sobretudo em relação às duas últimas, como se deu a escolha para que entrassem no repertório de ParadorApesar de ter ouvido na infância Odair José, Fernando Mendes, Amado Batista, Wando etc., tudo aquilo soava natural, era rotulado de brega, mas isso já tomou outra conotação dos dias de hoje. Tanto é que grandes nomes  da MPB continuam gravando esses compositores ditos brega até hoje. Nada foi intencional, recebi a letra do Zeca pela internet, via e-mail, daí apenas dei vasão ao sentimento do momento. Melodia não tem hora pra acontecer e nem se sabe como vai ser. Você sente e põe no violão. Quando gravamos não tivemos essa preocupação de fazer um acento como se fora brega. Quisemos sim, fazer rememorar alguns timbres dessa época que caíram em desuso. Seria, pois ,uma retomada de algo que foi bom e se perdeu durante um tempo e que agora temos a chance pelo menos de registrar à nossa própria maneira e entendimento.

A faixa-título é uma homenagem a um tio teu, em cuja casa tu moraste, no Rio de Janeiro. Composta em parceria com Gerude e Luis Lobo, também dá a ideia de um Nosly cosmopolita, que já morou inclusive na Alemanha, onde foi gestado outro disco teu, o anterior Nave dos Sonhos. Qual o melhor lugar em que você já morou, seja por aspectos pessoais, mas sobretudo musicais? É muito bom ser cidadão do mundo, falar quatro línguas, sair em busca do aprimoramento, da melhora que todos almejamos. Belo Horizonte é bem marcante na minha vida. Tenho saudades de lá. O Rio de Janeiro, especialíssimo, e tenho sangue carioca: meu pai era carioca. Foi muito importante pra mim o tempo que vivi lá. E por último Düsseldorf, na Alemanha, onde vivi por cinco anos maravilhosos. Fica difícil apontar essa ou aquela cidade, cada uma tem sua medida de importância em meu coração. E quanto aprendizado!

Como você analisa o cenário da produção musical do Maranhão hoje? E no seu caso particular, é mais fácil ser reconhecido aqui, sua terra, ou lá fora? Claro que se você está num grande centro, São Paulo, Rio, BH etc., você tem mais oportunidades de mostrar seu trabalho, não tem o que comparar. Quanto à produção local, acho que fazemos música de altíssimo nível, lindas poesias, letras, lindas melodias que poderiam com certeza embalar corações mundo afora. Basta, pra que isso aconteça, oportunizar, formar plateia e ocupar espaços ociosos com bons espetáculos, seja de música, teatro, poesia, artes plásticas, dança, enfim, qualquer manifestação cultural com que o povo se identifique. Na Europa, tenho público cativo, são três cds editados lá. No Brasil, minha música é ouvida de norte a sul. Vivo em busca do reconhecimento, não importa onde seja, onde esteja. Se o povo quer me ouvir, lá sempre estarei.

Semana Sérgio Sampaio #4

Por conta do (re-)lançamento de Sinceramente (1982), de Sérgio Sampaio, pelo selo Saravá, de Zeca Baleiro, este blogue ofereceu a seus poucos-mas-fieis leitores a Semana Sérgio Sampaio, que se encerra com este post, que traz a entrevista, inédita, que Rodrigo Moreira, autor da biografia Eu quero é botar meu bloco na rua (2000, esgotada), concedeu a este blogueiro, por e-mail, em 10 de abril de 2007.

Não há merchandising na parada: a Semana Sérgio Sampaio é a soma de forma e ocasião de eu desovar material inédito que ficou na gaveta. Penso que Sampaio e seus fãs mereçam! Espero que tenham gostado (tirei daqui o recorte que abre o post).

ENTREVISTA: RODRIGO MOREIRA

ZEMA RIBEIRO – O que te levou a escrever a biografia de Sérgio Sampaio?
 
RODRIGO MOREIRA – Bem, eu sempre fui fã, e como todos os demais fãs, não muito esclarecido sobre como foi mesmo a trajetória dele. Isso fez crescer a curiosidade, que aliada à vontade de fazer algo por seu resgate, acabou me levando a começar a pesquisa, cerca de dois anos depois de sua morte.

Quais as principais dificuldades enfrentadas? Na verdade, eu até que tive sorte, pois logo no início de tudo conheci Sérgio Natureza, amigo e parceiro dele, que já tinha delineado o projeto de resgate Balaio do Sampaio. Ele facilitou bastante meu trabalho, me apresentando diversas pessoas importantes na vida de Sampaio, como familiares, ex-mulheres, músicos, produtores etc. Minha maior dificuldade foi mesmo não ter conhecido Sérgio Sampaio pessoalmente, talvez se tivesse sido amigo dele eu pudesse ter muito mais informações.

A que você credita o quase total desconhecimento dele por parte da população brasileira? Bem, ele realmente não chegou a se tornar um artista conhecido em larga escala, apesar de ter tido uma música de sucesso que marcou época, que foi o [Eu quero é botar meu] Bloco [na rua]. Acredito que o fato daquele sucesso não ter tido uma continuidade, uma permanência maior, ele acabou sendo esquecido, ficando apenas na memória de uma parcela mais retrita do público, que são os fãs, que acompanharam e curtiram suas outras obras e foram aos seus shows ao longo dos anos.

Qual a importância de iniciativas como o Balaio do Sampaio, de Cruel e de tua biografia no sentido de preservar a memória de Sérgio Sampaio e de torná-lo conhecido das gerações mais jovens? Na realidade, todas essas iniciativas não foram isoladas, foram meio que interligadas. Primeiro foi o cd, depois minha biografia, ambos correndo paralelos, e mais à frente o Cruel, a pilastra definitiva do resgate. Pelo menos pra mim tudo faz parte de um mesmo projeto (de uma mesma ideia pelo menos), que foi o Balaio do Sampaio. Acho até que deveríamos ter criado um logotipo, ou coisa assim, que estampasse as capas desses trabalhos. Bem, acho que todo esse esforço serviu para, ao menos, chamar a atenção de parte da mídia e do público para a obra que o Sérgio deixou. Inclusive ele estava inédito em cd até a época que saiu o Balaio (1998), depois disso o Charles Gavin editou em cd o primeiro disco (na época troquei informações com ele, na realidade chamei sua atenção para o Tem que acontecer, já que ele estava trabalhando na ocasião com os arquivos da Continental/Warner, mas ele acabou fazendo o primeiro disco). Depois saiu uma coletânea (Warner 25 anos), que contém todas as músicas do Tem que acontecer, mais algumas raras músicas de compactos.

Semana Sérgio Sampaio

SARAVÁ RELANÇA SINCERAMENTE

Em 2005 Zeca Baleiro inaugurava seu selo Saravá Discos lançando Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio, coleção de 10 poemas do livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), de Hilda Hilst, musicados pelo maranhense e interpretados por um time feminino de primeira linha da MPB, e Cruel, póstumo inédito de Sérgio Sampaio.

Fã confesso de Sampaio, Baleiro anunciaria, pouco tempo depois, o desejo de trazer ao formato digital Sinceramente (1982), disco do capixaba que até pouco tempo era encontrado apenas em vinil ou para download na internet.

Demorou, mas Sinceramente finalmente é relançado: disco tão bom quanto raro, foi o último lançado em vida, de forma independente, por Sampaio, que morreria 12 anos depois, em 1994, aos 47 do primeiro tempo.

Em 2007, quando Sérgio Sampaio completaria 60 anos, fiz pequenas entrevistas com algumas pessoas acerca de sua vida e obra. A ideia era escrever uma matéria por ocasião da data. Acabou não rolando. As entrevistas e depoimentos permaneceram inéditos.

Para festejar o lançamento Saravá, inicio aqui uma série de posts para tirá-los das gavetas virtuais. Ou colocá-los, sabe-se lá.

Começo com Zeca Baleiro, que me respondeu por e-mail, dia 12 de abril de 2007, as cinco perguntas abaixo, sobre Sampaio, Cruel e um site dedicado à memória do artista (que este blogueiro não tem notícias atuais sobre o mesmo ter sido lançado ou não).

ENTREVISTA: ZECA BALEIRO

ZEMA RIBEIRO – Qual a importância, o devido lugar de Sérgio Sampaio na música popular brasileira?

ZECA BALEIRO – Acho que o Sérgio, junto a outros de sua geração como [Jards] Macalé, [Jorge] Mautner e [Luiz] Melodia [que participa de Sinceramente] inauguraram uma mistura de música brasileira com blues e rock, diferente da que foi experimentada pelos tropicalistas, muito bem-sucedida. Hoje seriam chamados de ecléticos, mas eram muito mais que isso, eram artistas muito intuitivos e sagazes que abriram uma picada nova, vigorosa e com muita, muita poesia.

Por que artistas de seu quilate morrem, na miséria, em quase completo desconhecimento por parte da maioria da população? Não saberia discorrer sobre o tema, que é muito complexo. Não gosto de simplificações, há sempre muitos fatores a serem analisados, inclusive a própria postura do artista diante do mundo, do mercado, do “sucesso”. Enfim, difícil dar qualquer palpite sobre isso.

O que significa para você produzir um disco póstumo de um grande ídolo? O resultado satisfez tuas expectativas, sejam elas comerciais, estéticas, emocionais etc.? Sobretudo emocionais. Pra mim foi um acerto de contas com o Sampaio, com o que a sua música causou em mim, de uma forma definitiva. Foi um disco também muito bem recebido pela crítica. E tem tido uma venda modesta mas satisfatória, sempre crescente.

De onde partiu a ideia de lançar um site, cuja intenção, imagino, é, além de preservar a obra de Sampaio, torná-la conhecida dos mais novos? Quem está envolvido neste projeto? Há muita gente envolvida no projeto, que começou após uma conversa com Angela e João, sua ex-mulher e seu filho. Há colaboradores como Sérgio Castellani, jornalista e grande fã do Sampaio; Rodrigo Moreira, que escreveu sua biografia e Sérgio Natureza, parceiro do Sampaio e grande poeta e compositor. Acho importante a existência do site, pois garante um pouco mais de permanência do Sampaio, o personagem, pois sua música já está no panteão dos grandes, mesmo que o mundo a desconheça.

O lançamento de Cruel cumpre uma função importantíssima no sentido de difundir a obra de Sampaio, mas a tiragem é pequena, bem como o relançamento dos discos do compositor em cd, cujas tiragens, idem, logo se esgotam. A que você credita o, ainda hoje, quase total desconhecimento da obra do autor de Eu quero é botar meu bloco na rua, como Sampaio é mais comumente lembrado, pelos brasileiros? Sampaio teve um sucesso estrondoso com o [Eu quero é botar meu] Bloco [na rua], vendeu mais de 500 mil cópias à época, um verdadeiro fenômeno de vendas, comparável apenas a Roberto Carlos, seu conterrâneo e maior vendedor de discos do país. Depois disso, sua carreira desandou, e embora tenha feito discos artisticamente fantásticos, foram grandes fiascos comerciais, o que o relegou a um grande ostracismo. A desinformação do público também colabora, por isso é tão importante a criação do site.

Ficção e realidade em corda bamba sobre o oceano

Em março do ano passado o escritor Luís Cardoso esteve no Brasil para lançar o romance Requiem para o navegador solitário [Língua Geral, Coleção Ponta de Lança, 303 p.], seu primeiro livro publicado no Brasil – de 2007, aportou por aqui em 2009. Noites de autógrafos no Rio de Janeiro e em São Paulo com aquele que é considerado o mais importante escritor de Timor Leste – país-ilha onde também se fala o português –, cujas obras já foram traduzidas para o alemão, francês e inglês, entre outras.

Prosa de alta voltagem poética, personagens fortes marcam as páginas do Requiem: a própria ilha natal de Cardoso e a doce e inocente Catirina, que cresce com seus dramas, como o povo timorense querendo apenas recuperar o que é seu.

Aproveitando a passagem do escritor pelo Brasil, Zema Ribeiro entrevistou-o, ainda em março de 2010, por e-mail. Talvez os mistérios dos mares das páginas de Cardoso possam explicar o porquê de a entrevista ter permanecido inédita por mais de ano e meio. Vias de Fato recupera-a e presenteia seus leitores (optamos por manter a grafia com que o autor respondeu ao e-mail com o bloco de perguntas enviado).

Cardoso esteve no Brasil ano passado. "Requiem para o navegador solitário" é seu primeiro título publicado aqui
ENTREVISTA: LUIS CARDOSO
POR ZEMA RIBEIRO

Vias de Fato – Para começar, gostaria que você falasse de sua infância. Nasceu em Timor Leste, mudou-se para Portugal com que idade? Com quantos anos a literatura entra na tua vida, seja como leitor e/ou escritor? Luís Cardoso – Nasci em Timor-Leste, no dia 8 de Dezembro de 1958, numa localidade chamada Cailaco. O meu pai era enfermeiro e tinha que se deslocar de uma localidade para outra, pelo que pude contactar com vários idiomas e vários povos no território que hoje se chama Timor-Leste. Mas, o local com que mais me afeiçoei foi a ilha de Ataúro. Para onde as autoridades mandavam os presos políticos. Assim o fizeram os portugueses, os japoneses e os indonésios durante as ocupações. Em 1975 fui para Portugal para continuar os estudos. Uma vez terminado o liceu ingressei no curso de medicina. Contudo, esta opção não se revelou a mais acertada: consigo aguentar melhor as minhas dores do que as dores de outros. Desta forma, depois de um ano a estudar medicina optei pela Silvicultura. A invasão de Timor pela Indonésia deu-se na altura em que estava em Portugal. Comecei a fazer parte da Resistência Timorense e mais tarde da sua Frente Diplomática. A literatura entrou muito tarde na minha vida. Só quando cheguei a Portugal tive oportunidade de ler as obras literárias de vários escritores portugueses e estrangeiros. Mas a escrita aconteceu muito cedo, desde os tempos da escola primária, quando tinha que fazer as minhas redacções e as de um colega, filho de um desterrado português que tinha uma padaria. Normalmente fazia duas versões do mesmo tema, uma para ele e outra para mim, e recebia como recompensa um pão com manteiga. Um bem apenas acessível aos endinheirados. Posso dizer que foi a escrita que, pela primeira vez, me deu a ganhar o pão.

Quais as suas principais referências literárias, livros a que você sempre volta para novas leituras? Infelizmente não pude ler os livros dos grandes mestres da literatura na altura em que toda a gente o fazia. Simplesmente porque não chegavam a Timor. As autoridades coloniais portuguesas não o permitiam. Na infância o único livro que me deram a ler foi a Bíblia. Releio muitas vezes.

Você é tido como o primeiro romancista de Timor, última colônia portuguesa a deixar essa condição. Você citaria algum outro escritor timorense de destaque? Cito o poeta Borja Costa, a quem eu chamo de Pablo Neruda timorense. Foi morto pelos indonésios no dia da invasão em 7 de dezembro de 1975. Também faço referência a um outro poeta desconhecido que se chama Jorge Lautém.

Como é morar em Portugal e ter sido um dos ativos militantes pró-independência do Timor? Morar em Portugal foi uma opção. Libertada a Pátria, libertei-me da Pátria. Sou um homem livre, sem que contudo tenha abdicado da minha identidade timorense. Timor hoje é um país independente, onde há democracia e os cidadãos são livres de escolherem o que pretendem fazer das suas vidas. Alguns dos meus colegas dos anos da Resistência elegeram a política como actividade principal das suas vidas. Eu escolhi a literatura e viver fora do meu país foi uma opção, como a de muitos brasileiros que vivem na Europa, nos Estados Unidos ou na África. Ser cidadão de um país não quer dizer que se tenha de viver amarrado a um território.

Como ocorreram as negociações para o lançamento de seu livro no Brasil, pela Língua Geral? É o primeiro livro publicado no Brasil. O contacto foi feito pelo meu colega e amigo José Eduardo Agualusa [romancista e contista angolano, contemporâneo de Cardoso, autor de Estação das chuvas e As mulheres do meu pai, entre outros].

Há no romance certa tendência ao poético, seja na construção dos parágrafos, por vezes deixando, no bom sentido, confuso o leitor, se a fala é a continuação da fala de determinado personagem ou da narradora, seja nos nomes dados aos gatos e mesmo no imaginário de navegantes que permeia o enredo. Você escreve poesia? Não, não escrevo poesia. Mas gosto e adoro poesia. Leio mais poesia que romances. Os meus escritores preferidos são mais poetas que romancistas. Cito os portugueses António Lobo Antunes, que embora escrevendo prosa é um grande poeta, Sophia de Mello Breyner Andresen, Ruy Cinatti, os timorenses Borja Costa e Jorge Lautém, os brasileiros Manuel Bandeira e Drummond de Andrade.

Quanto há no livro de ficção e de realidade? Há personagens reais que povoaram sua infância e adolescência? Em Timor a ficção e a realidade confundem-se. Muitos desses personagens povoaram a minha infância. Navegadores solitários, aventureiros, presos políticos, antropólogos que um dia aportaram em Timor. Mas também outros seres fantásticos que povoam o fabuloso imaginário timorense.

Você já visitava o Brasil, vez por outra, e agora volta como escritor, para lançar um livro. Que novas impressões leva do país? O Brasil é tão grande e tão pujante que se renova com uma velocidade estonteante. Para o conhecer é preciso ter tempo. Das outras vezes que estive no Brasil também não tive oportunidade para o conhecer bem, uma vez que a minha prioridade era tentar convencer o Itamaraty que a independência de Timor não era uma utopia, fora dos parâmetros do pragmatismo económico.

Em Requiem, cada gato, além de um nome, substantivo, recebe um adjetivo. Que adjetivo definiria melhor Luis Cardoso? Talvez amigo. Deve ser por isso que adoro ouvir a Canção da América do Milton Nascimento.

[Vias de Fato, agosto/2011]

Clipping

Dando um sinal de vida, duas materinhas que andei publicando por aí, estes dias.

Com Emílio Azevedo entrevistei Ricarte Almeida Santos (visto acima em clique deste que vos bafeja) para o Vias de Fato de agosto. Íntegra da entrevista aqui.

E para o Jornal Pequeno escrevi sobre as reivindicações de parte da população luziense por uma estrada de 62 km, que conduz os moradores do povoado Campo Grande à sede e vice-versa. A matéria saiu domingo (4) no JP, também com fotos minhas (acima, cruzes sinalizam mortes ocorridas em acidentes no citado percurso). Versão pré-edição aqui.

Música e ponto.

Já conhecia e gostava bastante de DonaZica quando ouvi o primeiro disco solo de Andreia Dias, lançado depois dos dois trabalhos da banda em que ela dividia os vocais com Iara Rennó e Anelis Assumpção. Boas letras em melodias idem, opinião que mantive quando tempos depois a moça botou o segundo filho na rua. Parece haver três donazicas agora, com os muito interessantes trabalhos solo de suas três cantoras, embora isso pareça diminuir muito a questão, e não é o que se quer aqui.

A notícia dada por Alê Muniz por msn me entusiasmou: Andreia Dias faria um show em São Luís. Data, horário, local, preço do ingresso, o homem Criolina passou-me todos os detalhes e o blogueiro tentou logo cavar uma entrevista com a cantora paulista, por e-mail.

Ela só me responderia após o show, enxuto – “não deu tempo de ensaiar”, ela me justificaria depois, no bate papo do facebook –, em que cantou apenas três músicas de sua lavra (Asas, O fio da comunicação e Seu retrato), reverenciando grandes mestres: Sérgio Sampaio (Que loucura!), Roberto e Erasmo (Mesmo que seja eu), Cláudio Zoli (À francesa, sucesso de Marina Lima), Benito de Paula (Do jeito que a vida quer) e Zeca Pagodinho (Maneiras, composição de Silvio da Silva).

Andreia Dias iniciou a turnê Fora do Eixo por Belém, no mesmo esquema de São Luís, seu segundo palco na jornada: ao todo serão dez cidades brasileiras, ela viajando sozinha, se aliando a uma produção local e tocando acompanhada por uma banda idem. Ao palco do Novo Armazém na última quarta-feira (15), subiram com ela Edinho Bastos (guitarra), George Gomes (bateria) e João Paulo (contrabaixo). “Com uma banda dessas fica até fácil”, brincou a certa altura.

Os DJs Pedro Sobrinho e Natty Dread foram os pães da noite-sanduíche, cujo recheio contou ainda, além de Andreia Dias, com o casal Criolina Alê Muniz e Luciana Simões, indicados ao 22º. Prêmio da Música Brasileira, na categoria Canção popular, sobre o que falaremos em hora oportuna. Confira a seguir a entrevista que a cantora paulista concedeu com exclusividade, sem pudores nem papas na língua, a este modesto blogue.

Sem papas na língua, ela não poupa ninguém. Sobre a "nova" geração: "tem muita gente mala e bunda mole que acha que 'tá abafando, muita masturbação musical e lixo muito mais pesado sendo consumido"

ENTREVISTA: ANDREIA DIAS
POR ZEMA RIBEIRO

Zema Ribeiro – Em fevereiro você reverenciou Sérgio Sampaio no projeto Bendito é o maldito entre as mulheres. Sérgio é um de teus ídolos? Quais as tuas principais influências?
Andreia Dias – Acabei conhecendo mais o Sérgio através do convite pra esse show [a série homenageou ainda Jards Macalé, interpretado por Camila Costa com participação do mesmo, Tom Zé por Anna Ratto, com participação de Anelis Assumpção, e Jorge Mautner, que participou do show das Chicas]. Virei entusiasta e desde então tenho que cantar umas músicas dele, elas já fazem parte do meu ser. Me identifico muito com a obra dele. Minhas principais influências vêm do gospel, rock e do samba. Depois passei a assimilar outras linhas, mas essas três são as principais vertentes da minha obra. O gospel ainda de forma bem sutil, nota-se em Astro ReiO Fio [da comunicação, música já gravada pela DonaZica, retomada por ela em Vol. 2] etc.  Um dia pretendo gravar um disco de metal do senhor.

Em que momento você “decidiu” ser artista? Quando descobri que não gostava de estudar nem trabalhar. Com 16 anos.

A relação com as ex-colegas da DonaZica parece ser boa, pelas participações delas em teu disco de estreia. A banda acabou ou continua acontecendo em paralelo à tua carreira solo? DonaZica acabou, mas continuamos amigas e participando das fuleiragens umas das outras.

Em recente entrevista ao caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, o cantor, compositor e pensador Rômulo Fróes, disse que “essa é uma geração das mais brilhantes da história da música brasileira”. Como você, que faz parte dessa geração, analisa a afirmação? Eu acho essa afirmação muito pretensiosa, quase arrogante.  Nem sei mesmo se ele falou isso por que também não confio muito nos jornalistas, Nada pessoal, só acho que alguns filhos de Marat [o jornalista francês Jean-Paul Marat, 1743-1793] distorcem  muitas vezes o que dizemos. Se ele disse mesmo, do meu ponto de vista está equivocado. Todas as gerações têm o seu brilho e o seu encantamento, seu peso e sua influência nos costumes e na sociedade como um todo. Nenhuma é mais ou menos que a outra. A nossa tem grande potencial, tem artistas interessantes, mas também tem muita gente mala e bunda mole que acha que ‘tá abafando, muita masturbação musical e lixo muito mais pesado sendo consumido. Falta muita distorção e sangue nos olhos pra muita gente. Acho que essa geração deixa muito a desejar em vários aspectos.

Essa geração, que não dá satisfação, por exemplo, a grandes gravadoras, tem, em tese, mais liberdade para construir sua obra. No entanto, em tempos em que todo mundo é repórter de si mesmo em twitter, orkut, facebook, myspace e toda a internet, “conquistar espaço” parece bem mais difícil. Os discos já não têm mais as vendagens de outrora. Como você enxerga este atual momento da música popular brasileira? Acho que esse é um grande momento pra se saber quem é quem de verdade. A mentira não cabe mais. Tá todo mundo exposto com a cara pra bater. Todo mundo tem potencial artístico e não cabe mais o modelo do artista glamourizado imposto pela  grande mídia. A ditadura do super artista, o ser superior e iluminado está ruindo a cada dia. Ninguém mais deixa de cantar ou tocar sax por que não vai fazer sucesso e precisa trabalhar no escritório pra pagar as contas. Todo mundo pode fazer, as armas estão aí;  partindo deste princípio saberemos quem sobreviveu daqui há uns dez, vinte anos. Daí saberemos se essa geração foi brilhante mesmo.

Música popular brasileira, um conceito, aliás, cada vez mais contestável. Como você define a música que faz? Música, só. Eu faço música. Antes eu gostava de dizer ‘musica popular contemporânea da América latina’. Mas também já acho isso uma punheta. Música e ponto.

Por que batizar os discos simplesmente de Vol. 1 e Vol. 2? Por que fazem parte de uma trilogia ainda em construção.

Você que tem asas e precisa abri-las, para citar a letra de Asas, que abre teu disco de estreia, em que projetos está envolvida atualmente, incluindo próximos discos? Estou em uma circulação por 10 cidades do Brasil através do coletivo Fora do Eixo. A ideia é percorrer 10 pontos em dois meses de viagem. Estou sozinha na estrada e em cada cidade que chego tem uma banda pra me acompanhar. Comecei por Belém onde já gravamos duas faixas inéditas e um videoclipe em parceria com músicos de lá. Minha segunda cidade está sendo São Luís e já comecei uma faixa com o casal Criolina. A ideia é acabar com um disco e um documentário da expedição, que batizei de tatuducerto.

Qual o segredo para tratar dos amores e das inevitáveis rimas para eles, as dores, sem meramente cair no brega, quer coisa mais brega que o amor? Quanto há de autobiográfico e de ficção em tuas letras? O segredo é viajar e se amar acima de tudo. Minha obra é bastante autobiográfica, na música exorcizo meus sentimentos e minhas dores, como também minhas alegrias.

O que você achou do show desta quarta-feira (15) no Novo Armazém? E o que tem achado da cidade? São Luís estava no roteiro desde o começo. Eu, antes de ir pra Belém, já tinha batido uma bola com a Lu [a cantora Luciana Simões], daí então surgiu o convite. Embora aqui não tenha um ponto Fora do Eixo definido, o Criolina atua como representante e através deles foi criada toda a rede de produção e interação com os músicos. Fiquei muito satisfeita com o show e a ideia é voltar em breve e fazer mais shows. Tô amando essa cidade, as pessoas são muito calorosas e a comida muito boa, vou conhecendo aos poucos.

Volto um pouco à questão dos grandes avanços tecnológicos, não só em relação à música: como você enxerga, por exemplo, a questão dos downloads? A seu ver, downloads gratuitos atrapalham ou ajudam as vendas? Acho que deve atrapalhar por que incomoda muita gente. Eu acho massa!! Vamos baixar o universo! Pau no cu das grandes instituições que dependem de vendas, de juros e lucros!! Malditos escravocratas!!!! Tá tudo aí, é só querer pegar. O mundo é nosso e ninguém pode impedir mais a tecnologia. Eles vão tentar, mas a casa deles ‘tá caindo e enquanto isso vamos downloadeando!!

Sobre anjos musicais

O cantor e compositor Bruno Batista acaba de lançar Eu não sei sofrer em inglês, seu segundo disco. Via Facebook ele conversou com o Vias de Fato.

Maranhense nascido em Pernambuco, Bruno Batista (foto) já morou no Piauí e no Rio de Janeiro antes de cravar residência em São Paulo, onde vive hoje. Na terra de São Sebastião gravou seu primeiro disco, que levava apenas seu nome no título, Bruno Batista (2004), elogiado pela crítica. (Re-)gravado por nomes como Cecília Leite, Cláudio Lima e Lena Machado, é um dos principais nomes da cena musical contemporânea do Maranhão.

Na terra da garoa Bruno Batista gravou seu segundo disco, o belíssimo Eu não sei sofrer em inglês (2011). Se no primeiro disco já eram surpreendentes suas elaboradas letras e melodias, neste segundo o cantor e compositor se supera. “O primeiro era um disco sem pretensão nenhuma”, afirma modesto o jovem de fã-clube cada vez maior.

O novo disco ainda nem estava pronto e só chegou às lojas pouco antes deste número do Vias de Fato, já neste maio. Pode ser encontrado nas lojas Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande) e Playsom (Tropical Shopping), além do Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais) – onde a reportagem tentou encontrá-lo por duas vezes, conversa adiada diante de problemas na agenda ou do artista ou do repórter.

“Esse jogo não pode ser um a um”, diria outro poeta da canção. O desempate aconteceu via Facebook: pelo site de relacionamentos, entre os dias 7 de abril e 11 de maio, Bruno Batista concedeu a entrevista abaixo ao Vias de Fato.

ENTREVISTA: BRUNO BATISTA
POR ZEMA RIBEIRO

Vias de Fato – Quando é que, de fato, Eu não sei sofrer em inglês será lançado? Bruno Batista – O Eu não sei sofrer em inglês, que já deveria ter sido lançado no fim do ano passado, deverá chegar nas lojas no início de maio [chegou]. O atraso todo se deu no processo de mixagem, que se prolongou além do previsto. Atualmente ele ‘tá na fábrica e, só pra não deixar dúvidas: há realmente um disco no forno, chamado Eu não sei sofrer em inglês, que, muito em breve, estará circulando por aí . Não é lenda urbana, não [risos].

A que se deveu a demora entre a estreia e este segundo trabalho? O primeiro disco, muito embora seja muito importante pra mim pessoalmente, não tinha nenhuma pretensão. A proposta inicial era apenas registrar aquelas canções, de uma forma cuidadosa, claro, com as minhas ideias na época. Mas o fato é que, a partir dele, eu peguei gosto pela coisa – a experiência em estúdio e a troca com as pessoas que ouviram o disco me contaminaram – e passei a considerar, realmente, seguir no terreno musical. Esse tempo sem gravar me permitiu conhecer mais profundamente o mundo da música no Brasil, a enorme quantidade de artistas independentes que faz um trabalho incrível, e me deixar influenciar por eles. Muito embora no Eu não sei sofrer em inglês haja canções feitas há nove anos, além de duas regravações, eu esperei a minha própria música se modificar e se estabelecer em mim pra fazer um novo registro.

Eu não ouvi todos os discos [título de uma das faixas do primeiro disco] não é, mas bem poderia ter sido o título de teu primeiro disco. Eu não sei sofrer em inglês, título do segundo, tem a mesma quantidade de letras daquela faixa que Ricarte Almeida Santos referenciou em artigo de relativa fama no meio jornalístico e intelectual da capital maranhense. Para além dessa coincidência, digamos, numerológica, que diferenças e semelhanças entre um e outro tu poderias apontar? Sério? Que coincidência maravilhosa [risos]. Não tinha atentado para isso. Mesmo. Na verdade, Eu não ouvi todos os discos deveria, sim, ter sido o nome do meu primeiro disco. Não lembro mais a razão de não tê-lo batizado assim. Muito provavelmente se deveu à tal despretensão de que falei. Mas o fato é que, se fosse hoje, esse teria sido o nome do disco. Tanto que é o nome do meu blog [o desatualizado http://www.batistabruno.wordpress.com]. Quanto ao outro ponto, vejo mais diferenças que semelhanças entre os dois álbuns. A começar pela concepção: enquanto aquele recebeu arranjos de um maestro sofisticado – e saudoso – Alberto Farah, este foi gravado em três sessões, com uma banda tocando ao vivo e sem conhecimento prévio das canções. Além disso, penso que também ficou flagrante a inclinação mais “pop” do trabalho, com maior espaço para guitarras, bateria, coros. Mas, sobretudo, acho que ter gravado em São Paulo, com essa geração muito especial de músicos que forma a atual cena paulistana, deu um sabor bem distinto ao disco.

Seu blogue anda meio parado. Como já aconteceu com outra experiência, de blogueiro do jornal O Imparcial, e como aconteceu com o próprio curso de Comunicação Social, que tu abandonaste sem concluir. Podemos dizer que tu abandonou tudo pela música? Ou o cantor e compositor Bruno Batista se conciliará em breve com as letras, passando a trabalheira de “parir” um novo disco? Acho que não tenho muita vocação pra blogueiro, né? [risos]. Mas o instinto jornalístico é muito presente em mim. Vou conciliar as duas coisas, sim, e tem novos projetos vindo por aí.

Sobre estes novos projetos, podes adiantar alguma coisa? Tenho conversado muito com o Pedro Henrique Freire [editor-chefe de O Imparcial] sobre um novo projeto jornalístico. É uma proposta bem legal, mas ainda não posso adiantar muita coisa. E, musicalmente, após passar esse primeiro momento de lançamento do novo disco, quero muito viabilizar o meu trabalho de músicas infantis, além de um grupo de baião. Este último é um desejo antigo, que recrudesce à medida que meu trabalho autoral vai se distanciando dos signos nordestinos. É meio louco isso, não? Mas é o que acontece.

Entre as feras que estão em Eu não sei sofrer em inglês, como foi chegar a nomes como Chico Salem e Marcelo Jeneci, ambos da banda de Arnaldo Antunes, mais Estevan Sinkovitz, da de Kléber Albuquerque, Guilherme Kastrup, que já tocou com Zeca Baleiro, que participa de regravação de Acontecesse, mais Rubi, Juliana Kehl e Tulipa Ruiz? Na verdade, tudo começou quando assisti ao Partimpim, da Adriana Calcanhoto. Lá tinha um percussionista que tirava som de tudo, com muita graça no palco. Foi assim que cheguei ao nome do Guilherme e o procurei pela internet. Mandei algumas canções, ele curtiu, e começamos a pensar no trabalho. Em princípio, ele iria fazer só as percussões mas, ao ouvir o disco Vol. 1, da Andréia Dias, percebi que ele também era um puta produtor e o convidei pra produzir também. Pra minha sorte, ele aceitou e convocou esse time maravilhoso. O curioso é que, exatamente nessa época, eu estava ouvindo muito o Ao Vivo no Estúdio, do Arnaldo, e entusiasmadíssimo com o Jeneci, o Chico Salem. Foi demais poder contar com todos eles. Quanto às participações, uma das coisas mais gratificantes desse disco foi poder dividir uma faixa com o Zeca. Ele sempre foi um dos meus grandes mestres, lembro de ter ouvido um milhão de vezes o [Por onde andará] Stephen Fry, o Vô Imbolá, e acho mesmo que, ele e o Chico César, foram os responsáveis por eu ter me tornado compositor. Isso em falar no prazer de conhecer o Rubi, um dos timbres mais especiais da música brasileira, a Tulipa, que é uma fofa e tem uma personalidade artística incrível. Ambos foram muito generosos e me emocionaram enquanto gravavam. Mas, talvez o mais bacana de tudo, foi a relação que construí com o Guilherme e o Chico. Depois de tanto tempo depurando o disco, burilando, refletindo acerca de todas as questões, ficamos amigos. São músicos fantásticos e pessoas raras.

As referências trazidas por ti, aqui, são bastante contemporâneas: Chico César e Zeca Baleiro não têm, ainda, 20 anos de carreira. Partimpim e Ao vivo no estúdio são discos novíssimos, embora estes conceitos estejam cada vez mais dissolvidos, em tempos de produção musical cada vez mais efêmera, onde tua música não se insere, obviamente, dado o apuro, a preocupação, o cuidado com cada detalhe. Teu blogue homenageia na definição Zico, Kusturika, Oscar Wilde e Waldick Soriano. Tarantino, Marley, Lennon, Bowie, Morris Albert, Bob Dylan, Joan Baez são outras personalidades que passeiam pelas letras de Eu não sei sofrer em inglês. Gostaria de citar outras influências e referências? Sim, eu citei algumas referências contemporâneas porque, atualmente, é o que tenho ouvido com mais frequência. Mas minha memória afetiva, inelutavelmente, me remete a Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Gonzaguinha, Amelinha, Egberto Gismonti, que era o que meu pai ouvia quando eu era criança. Minha casa sempre foi muito festiva e musical, e se consumia, fundamentalmente, música brasileira. Além disso, havia a casa da minha avó, em Teresina, onde passava as minhas férias ouvindo o violão dos meus tios, sobretudo o do meu tio Naeno. A minha maneira de tocar, meu dedilhado, advém dele. É um artista maravilhoso. Quando citei o Zeca como responsável por me tornar compositor foi, além de todo o entusiasmo e impacto que sua música causou em mim, ele ter provado que um artista saído dali, da cidade em que eu vivia, podia, sim, ser bem sucedido, construir uma carreira além muros. Mas, com relação estritamente à herança musical, o meu maior credor, provavelmente, é o Naeno. Um dos meus grandes desejos é, um dia, gravar um álbum só com suas canções.

Se teu primeiro álbum não tinha pretensões, podemos dizer que este segundo te consolida como cantor e compositor, além dos planos e sonhos para o futuro: um disco infantil, outro com canções de Naeno, de quem tu herdas também uma doce melancolia. Em que momento, antes do primeiro disco, tu te sentiste artista? E quando, talvez na feitura do segundo, tu pensaste em fazer deste o teu principal ofício? Na verdade, esta sempre foi uma questão pra mim. Antes do primeiro disco eu nunca me senti, de fato, artista. Não percebia em mim a necessidade de dialogar com as pessoas através da música, nunca tive um fascínio especial pelo palco ou encantamento pela carreira artística. Tanto que as canções que fazia ficavam restritas ao ambiente familiar e, não fosse a iniciativa dos meus pais e irmãos, talvez repousassem lá ainda hoje. Mas, para citar um momento importante, lembro de quando ouvi pela primeira vez a gravação de Já me basta, feita pela Cecília Leite. Ali percebi que eu tinha uma voz e que ela poderia encontrar eco em algumas pessoas. Foi, talvez, a minha primeira afirmação enquanto compositor.

Outros nomes que já te gravaram são Lena Machado e Cláudio Lima. O último, com quem já dividiste o palco em shows, assina o projeto gráfico de teu novo disco. Em tempos em que é possível baixar discos em qualquer esquina virtual, informação e um bom projeto gráfico são, a meu ver, fundamentais. O disco, além de aos ouvidos, precisa agradar aos olhos. Como foi dialogar com Cláudio Lima neste sentido, de dar a cara a Eu não sei sofrer em inglês? Trabalhar com Claudio é sempre um privilégio, é um dos artistas mais sensíveis que eu conheço. A arte gráfica é apenas uma de suas facetas. A de cantor, mais conhecida, dispensa comentários – é um dos melhores do país – mas, além disso, ele escreve, compõe e anda de monociclo [risos]. É de um perfeccionismo comovente, tende a ruminar muito antes de apresentar qualquer trabalho e eu compreendo isso muito bem. Já foi uma delícia poder dividir o show Hein – que fizemos em São Luís em 2008 – e ainda iremos gravar um disco juntos.

Dá para culpá-lo um pouquinho pela demora do Eu não sei sofrer em inglês? Brincadeira [risos]. E aqui o Vias de Fato, novamente, apresenta em primeira mão outro projeto de Bruno Batista: um disco com Cláudio Lima. Ficando no disco novo, vamos ao repertório: por quê abri-lo com regravações de Já me basta e Acontecesse, músicas de teu disco de estreia, a primeira agora ganhando uma levada bumba meu boi, ainda que deixando a tradição de lado, a segunda com participação especial de Zeca Baleiro? [Risos]. Dá sim, ele também tem culpa nisso. Quando fomos selecionar o repertório, acabei apresentando 18 canções para os produtores que iriam comandar o processo. Entre elas, Acontecesse e Já me basta. Pensei: “Já que estou encarando este como meu primeiro trabalho, por que não mostrar tudo o que tenho?”. Eles acabaram escolhendo as duas e, num primeiro momento, eu hesitei. Mas depois veio a possibilidade da participação do Zeca, a gravação de Já me basta foi um dos momentos altos daquele processo, passei a me entusiasmar com os novos arranjos. No fim, elas iriam abrir o disco numa, digamos, coincidência intencional.

Encarar Eu não sei sofrer em inglês como primeiro trabalho não significa renegar Bruno Batista, o disco de estreia, ou significa? E seguindo no faixa-a-faixa: e a faixa-título, soma de referências em música de ninar gente grande? Não, não. Tem a ver, apenas, com a tal despretensão que já mencionei. A faixa-título foi composta na bacia das almas, praticamente dentro da cabine de gravação. Ia gravando os takes e alterando a letra [risos]. Mas tinha tido a ideia uns dois anos antes e sabia que seria o título do disco. Tem uma candura na própria melodia que acabou contaminando o arranjo. Mas gostei da tua definição “música pra ninar gente grande”. Talvez seja isso mesmo, muito embora eu já recebido alguns e-mails do tipo “Bruno, meu filho, sempre que entra no carro, pede pra colocar aquela música do sofrer em inglês”.

A faixa seguinte, Tarantino, meu amor é uma desbragada declaração de amor ao ator, diretor e roteirista, certamente outra referência, um tango, digamos, impuro… Sim. Na verdade, antes de uma declaração de amor, é uma alegoria, uma sacanagem. Acho que tem a ver com ele. É um diretor que eu gosto muito e, na canção, trato de alguns temas que são caros a ele, como a personagem feminina, alguma violência e humor. Ele tem um humor sádico incrível. Originalmente tratava-se de um xote, que era pra dar uma coisa mais louca na canção – um sujeito tão cosmopolita como o Tarantino ser tratado num xote e chamado de “quentín”. Mas o arranjo tomou outro caminho com a banda e acabou, sim, transformando-se num quase tango. Quase.

Depois vem Vaidade, samba-choro modernoso de letra belíssima, com a participação de Rubi, uma das mais belas vozes do Brasil… Sim. A melodia deste samba foi composta em Recife há alguns anos. Lembrei dele quando estávamos selecionando o repertório e fechei a letra. De cara, sabíamos que ela seria uma faixa que teria participação especial, mas faltava definir quem convidar. Foi o Gui Kastrup quem sugeriu o Rubi e eu pirei na ideia. A gravação foi muito especial, o Rubi interpretou magistralmente e, ao final, sem que nos déssemos conta, estávamos todos chorando. Lindo e inesquecível.

Sobre anjos e arraias te devolve ao Nordeste, entre o Pernambuco de nascença e o Maranhão e Piauí da infância e adolescência… Sim, acho que é a faixa mais “nordestina” do disco. A influência pernambucana é mais consciente que atávica, uma vez que não lembro da minha vivência no Recife. Mas ouvi muito Chico Science e toda a geração do mangue beat. Tem o lance do acordeom, a percussão que assume o papel do baixo. Curioso é que essa canção foi criada para ter um único acorde, queria que ela soasse renitente, como um filho que não larga as saias da mãe. O arranjo final amenizou um pouco isso, o que, no fim das contas, acabou me deixando contente.

Quem é a Bonita? Na verdade, Bonita não foi feita especificamente pra ninguém. Partiu de uma imagem, do verso “Que te fez, Bonita!”. Depois, fui delineando a letra.

E Hilda Regina? Hilda Regina já foi inspirada numa amiga que adorava viajar, era castrista e fascinada por música cubana. Por isso, fiz uma salsa em que a personagem passeia pelo mundo.

Para um amor em Paris evoca dois compositores: Paulinho da Viola, por seu Para um amor em Recife e Zeca Baleiro, pela mistura de línguas da letra, o que já ocorria em Hilda Regina Sim, O título de Para um amor em Paris é uma alusão clara á obra-prima de Paulinho da Viola, uma de minhas preferidas da sua obra. Já o uso dos estrangeirismos tem ligação, sobretudo, com os poetas brasileiros modernos, como Jorge de Lima, que se valiam muito desse recurso.

Em Nossa paz, a participação especial de Tulipa Ruiz, personagem de um novo momento da música brasileira que merece ser descoberta por mais e mais gente, tal qual Bruno Batista, que devagarinho vai conquistando seu espaço… A Tulipa é, definitivamente, um novo momento na música do Brasil. Acho que há tempos não aparecia alguém com uma personalidade artística tão singular. E com tanto carisma também. Nossa paz é uma canção terna, cotidiana, que foi composta com essa intenção mesmo. Acho que acabou tendo uma boa aceitação porque muita gente se identifica com aquele sentimento.

E a mulher a quem você aconselha em Lia, não vá? É uma música otimista, esperançosa que, ao suceder Nossa Paz, cria certo momento de aconchego dentro do disco. A Lia, especificamente, não existe, mas talvez tenha inspirada numa antiga namorada que passou por um momento difícil.

E fechando o disco a densa e bela As cigarras As cigarras é meio tropicalista, rápida, esquizofrênica. É o único rock do disco e, por isso, foi até difícil encaixá-la. Quase não entra. Mas acho que ela, também por isso, acaba fechando bem os trabalhos.

Todas as músicas são assinadas por ti, o que também aconteceu no primeiro disco. Compor sozinho é uma opção? Acho que por muito tempo foi uma opção, sim, porque é mais fácil. Não há embate de ideias ou propostas. Mas, com o tempo, você acaba se tornando refém de si mesmo e ter parceiros que possam te desamarrar parece ser o melhor caminho. Tanto que já tenho algumas parcerias com o Chico Salem, Djalma Lúcio e, no próximo álbum, quero explorar bastante essas novas influências.

[Vias de Fato, maio/2011]