É na apresentação do Coco de Tebei que o tema da edição 2017/2018 do circuito Sonora Brasil faz mais sentido: “na pisada dos cocos”. Estado reconhecido por ofertar ao Brasil grandes mestres do gênero, de Bezerra da Silva a Selma do Coco, passando pelo grupo Raízes de Arcoverde, o grupo que se apresentou ontem (30), na Casa do Maranhão, é diferente de tudo o que se poderia esperar.
O Coco de Tebei é dançado por casais e cantado por mulheres, tendo como marcação rítmica apenas seus próprios passos, isto é, os pés dos dançarinos “socando” o chão, herança do taipar de casas de pau a pique, em que doses de trabalho e diversão se misturam coletivamente. Nenhum instrumento acompanha seus nove integrantes: três casais de dançarinos e três cantadeiras – que também dançam.
A dança é praticada por agricultores e tecelões de Olho d’Água do Bruno, povoado de Tacaratu – até o nome da cidade é sonoro e parece ser marcado também pela pisada de seus dançarinos. Por vezes, ao longo da apresentação, a sonoridade me evocava um maracatu. Mas na maior parte do tempo, pensava na catira e no toré indígena. Outras vezes também pensei em samba rock, imaginando que certamente aqueles homens e mulheres poderiam dançar qualquer coisa.
As saias de chita, floridas e rodadas, remetem às coreiras do tambor de crioula. Elas calçam sandálias, que são arrastadas em determinadas músicas, num delicioso “chep chep”. Os homens calçam sapatos pretos, vestem calça e camisa em diferentes tons de azul e usam um chapéu de couro, parecido com os que Lampião e Luiz Gonzaga tornaram moda, só que brancos.
O Coco de Tebei tem um disco, de 2008, cujo título é Eu tiro o couro do dançador. Penso que é apropriado: treino dá ritmo de jogo. Tivesse me arriscado a acompanhar-lhes alguns passos era capaz de estar com os pés e panturrilhas doendo até agora – muitos dos presentes se arriscaram e como de praxe nas apresentações do circuito Sonora Brasil, desde a última sexta-feira, em São Luís, a de ontem também terminou com uma imensa roda, uma espécie de oficina informal.
Ao final, já na praça em frente à Casa do Maranhão, cumprimentei um de seus integrantes, que saíra para fumar. Parabenizei-o pela performance. Ele sorriu e agradeceu. Ao dar-lhe um amistoso tapa no ombro, senti a camisa grudada à pele pelo suor que imediatamente me encharcou a mão.
Serviço
A passagem do circuito Sonora Brasil por São Luís termina hoje (31). Às 19h, na Casa do Maranhão, com entrada gratuita, se apresenta o grupo sergipano Samba de Pareia da Mussuca. Em Caxias/MA, a programação do Sesc continua até quarta-feira, programação completa no post anterior.
Os integrantes do Coco de Zambê de Mestre Geraldo, entre tocadores, cantadores e dançadores, vindos de Tibau do Sul/RN, multiplicaram-se: um deles percorreu a plateia convidando o público à dança. Logo, praticamente todos os presentes integraram-se à animada roda nos jardins do Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, Centro), ontem (28).
Era a estreia do circuito Sonora Brasil 2017/2018 em São Luís. Zambê é o nome de um dos instrumentos utilizados pelo grupo: um irmão do tambor grande de nosso tambor de crioula, com que identifiquei algumas semelhanças. Este tambor é também chamado de pau furado ou oco de pau e é o maior e mais grave dos instrumentos. Isto eu descobri lendo o belo catálogo distribuído pelo Sesc aos presentes. Compõem ainda a “parelha”, o chama, um tambor menor – para seguir no paralelo com o nosso tambor de crioula, equivaleria ao meião – e ainda uma lata de tinta, de 18 litros, percutida por um par de varetas. Todos tocados amarrados à cintura dos tocadores.
Não há mulheres no Coco de Zambê, embora as presentes entre o público não se tenham feito de rogadas e tenham participado, dançando, cantando os refrões e batendo palmas. Ao fim da apresentação, espécie de bis, a coisa se configurou numa oficina, com curiosos experimentando os instrumentos inusitados.
Sobre o Coco de Zambê, outra coisa que descobri lendo o catálogo foi que “há notícias de sua existência desde 1903, quando foi publicada no jornal A República, órgão oficial do governo do Rio Grande do Norte, a notícia cujo conteúdo repudiava com veemência a prática de um “samba” que acontecia na casa de um sujeito conhecido como Paulo Africano, no município de Tibau do Sul. Também Mário de Andrade, na década de 1920 faz, com entusiasmo, alusão à “brincadeira””.
A aproximação com o samba aí se dá pelo preconceito da época: era uma espécie de rótulo para qualquer ajuntamento de negros. Outras aproximações perceptíveis do Coco de Zambê se dão com o frevo e a capoeira – seus dançadores apresentam-se nus da cintura pra cima.
Mestre Geraldo, que dá nome ao grupo, foi fundamental para evitar o desaparecimento do Coco de Zambê, no fim do século passado. “Liderando um grupo familiar, retomou o zambê buscando fidelidade à sua prática tradicional”, também li no catálogo.
O grupo torna a se apresentar amanhã (30), às 19h, em Três Corações (Praça Salustiano Rego, Caxias/MA), com entrada franca.
Outros grupos de coco apresentam-se em São Luís e Caxias/MA, até a próxima quarta-feira. Veja a programação:
Casa do Maranhão (Praia Grande), 19h:
Hoje (29): Coco de Iguape (CE).
Amanhã (30): Coco de Tebei (PE).
Segunda (31): Samba de Pareia de Mussuca (SE).
Segunda (31), das 9h às 12h e das 14h às 17h: Oficina de Coco de Roda: da Pisada ao Verso, com Adiel Luna/PE. Vagas limitadas. Inscrições gratuitas pelo telefone (98) 3216-3830.
Três Corações (Praça Salustiano Rego, Caxias/MA), às 19h:
Amanhã (30): Coco de Zambê (RN).
Segunda (31): Coco de Iguape (CE).
Terça (1º./8): Coco de Tebei (PE).
Quarta (2): Samba de Pareia da Mussuca (PE).
Há vários pontos de interseção entre Carminho canta Tom Jobim [Biscoito Fino, 2016] e Até pensei que fosse minha [MP,B, 2016], discos mais recentes lançados pelos portugueses Carminho e António Zambujo, respectivamente. Ambos, de algum modo, são artistas de exceção: embora entre um círculo restrito, são conhecidos no Brasil, que em termos de música e artistas portugueses, com raras exceções, quase sempre para no Roberto Leal que serve de trilha sonora para danças portuguesas no período junino.
São dois dos maiores compositores brasileiros em todos os tempos relidos por uma das maiores intérpretes da terra de Fernando Pessoa e por um cantor e compositor idem bastante interessante. Ambos já haviam mostrado seus talentos em participações em discos de artistas do lado de cá do Atlântico.
Tanto no disco dela quanto no disco dele há participações especiais de brasileiros: Chico Buarque comparece a ambos (como intérprete e compositor), enquanto ela, além dele (em Falando de amor), recebe Marisa Monte (em Estrada do sol) e Maria Bethânia (em Modinha); já Zambujo tem, além do compositor tributado (em Joana francesa), Roberta Sá (em Sem fantasia) e a conterrânea Carminho (em O meu amor).
Até pensei que fosse minha. Capa. Reprodução
Em Carminho canta Tom Jobim, ela é acompanhada pela brasileiríssima Banda Nova: Paulo Jobim (violão), Daniel Jobim (piano), Jacques Morelembaum (violoncelo) e Paulo Braga (bateria). Em Até pensei que fosse minha – título tirado de um verso de Até pensei –, Zambujo é acompanhado por um time que mescla portugueses e brasileiros. Entre os virtuoses de cá estão Ronaldo do Bandolim, Zé Paulo Becker (violão) e Marcelo Gonçalves (violão sete cordas, divide com Ricardo Cruz a produção e assina a direção musical e arranjos), mais conhecidos como Trio Madeira Brasil, além de Marcelo Caldi (acordeom) e Paulino Dias (percussão).
Os tributos fogem do óbvio, vão além do superficial. As seleções de repertório, por exemplo, ultrapassam o mero “o melhor de”, e as releituras não desconstroem músicas já cristalizadas no imaginário do brasileiro. Em Carminho canta Tom Jobim, entre outras, Inútil paisagem, Triste, Sabiá, Luiza e A felicidade; em Até pensei que fosse minha, Futuros amantes, Injuriado, Cecília, Cálice, Januária, João e Maria, Tanto mar e Valsinha.
Com estes dois discos, Portugal redescobre um pequeno e importante pedaço de Brasil. Espero que o Brasil (re)descubra Portugal, para além deste comprovadamente talentoso par de artistas. E além: que o Brasil, cada vez mais, (re)descubra o Brasil.
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Veja o videoclipe de João e Maria (Chico Buarque/ Sivuca), com António Zambujo:
Como boa tropicalista, Gal Costa flertou com a Bossa Nova, tendo dedicado um disco ao repertório de um dos papas do movimento, Tom Jobim, Gal Costa canta Tom Jobim, de 1999.
A releitura de Jussara Silveira e Renato Braz, dois dos mais talentosos cantores de nossos tempos, para o repertório da baiana, uma das maiores em todos os tempos, está mais para Bossa Nova, pelos refinados arranjos e direção musical de Dori Caymmi – a produção musical é de Mario Gil e a direção artística de Luiz Nogueira.
Cabe dizer que o par de intérpretes não se acomoda em zonas de conforto: releitura é palavra que aqui faz sentido, indo além de mera regravação. Nada soa forçado. Eles já dedicaram discos ao repertório de mestres: ela, Canções de Caymmi, em 1998; ele, Silêncio – Um tributo a João Gilberto, em 2014. Tudo se liga.
O Bicho Gal, da série Fauna Brasiliensis, de Regina Silveira, na capa, é o mais próximo da “psicodelia” tropicalista a que chega Fruta gogoia – Uma homenagem a Gal Costa [Selo Sesc, 2017; R$ 20,00].
O disco é, além de uma reunião de músicos talentosos, um abrangente songbook brasileiro, e não poderia ser diferente em se tratando de um mergulho na discografia de uma das mais talentosas cantoras brasileiras em todos os tempos, de longeva carreira – já são mais de 50 anos desde o compacto de estreia, quando ainda assinava Maria da Graça, seu nome de batismo, em 1965.
As bases são executadas por Dori Caymmi (violão), Mario Gil (violão), Swami Jr. (violão sete cordas), Sizão Machado (baixo), Toninho Ferragutti (acordeom), Itamar Assiere (piano), Teco Cardoso (sax), Celso de Almeida (bateria) e Bré Rosário (percussão), além de um octeto de sopros, mais cordas, violas e violoncelos, que passeiam por um repertório que abrange do citado Tom Jobim (Estrada do sol, parceria com Dolores Duran, e Tema de amor de Gabriela) a Caetano Veloso (nome mais presente na discografia de Gal Costa e não por acaso também neste Fruta gogoia: Tigresa, Meu bem, meu mal, Baby, Não identificado e Força estranha), passando por nomes como Chico Buarque (Folhetim), Jards Macalé (Vapor barato, parceria com Waly Salomão), Luiz Melodia (Pérola negra), Lupicínio Rodrigues (Volta) e Dorival Caymmi (Só louco e Modinha para Gabriela), além de nomes menos conhecidos mas fundamentais, como Tuzé de Abreu (Passarinho) e Pereira da Costa e Milton Villela (Teco, teco).
Fruta gogoia foca um repertório antológico e diverso de Gal Costa, passeando por diversas fases de sua carreira. A bela e merecida homenagem é mais uma prova de sua profunda e definitiva influência sobre cantoras e cantores brasileiros e de seu lugar na preferência dos apreciadores de música brasileira.
Cantora se apresenta hoje (22) em São Luís e conversou com exclusividade com o blogue
Karina Buhr é dona de uma das mais coerentes trajetórias artísticas do Brasil. A artista está acostumada a multiplicidades: é cantora, compositora, atriz, ilustradora e escritora. Com a infância passada entre o Recife natal e Salvador, hoje radicada em São Paulo, é cidadã do mundo. Vida, obra e militância confundem-se, não se sabe onde acaba uma e começa outra, tão impregnadas estão entre si, retroalimentando-se.
Com três discos solo na bagagem, ela já conta mais de 20 anos de artes, embora setores mais preguiçosos da grande mídia tenham saudado seu “aparecimento” como “novidade”, quando ela lançou o disco solo de estreia, Eu menti pra você, em 2010. Em 2015, com Selvática, o mais recente, Karina teve a capa, em que aparece com os seios à mostra, censurada por uma rede social. Se a vida te der limões, faça uma limonada: o tiro saiu pela culatra, o disco e diversos temas caros à artista acabaram ganhando ainda mais visibilidade.
Naquele ano ela esteve em São Luís em duas ocasiões: autora de Desperdiçando rima [Fábrica 231/Rocco,2015], participou da Feira do Livro; pouco depois voltou para apresentar Selvática durante a Aldeia Sesc Guajajara de Artes. Hoje (22), ela volta à ilha para um show no Festival Elas, evento idealizado e realizado majoritariamente por mulheres que desde quinta-feira (20), ocupa o sempre simbólico Convento das Mercês (Desterro). Sua apresentação acontece no pátio interno, às 23h30.
De acordo com seu slogan, o Festival Elas “promove cultura e poder feminino”. Mais que apropriada a presença de Karina Buhr. Por e-mail, ela conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
Foto: Priscilla Buhr
Cantora, compositora, atriz, ilustradora, escritora. Ser artista multimídia é um imperativo destes tempos? É possível separar as várias Karinas? Em que faceta você se sente mais realizada? Pra mim isso não é “desses tempos” nem uma necessidade no sentido de “tenho que fazer mais coisas pras coisas rolarem mais”. Sempre fiz essas coisas todas e a cada hora uma se destaca mais, embora a música tenha acabado ficando de frente mesmo. Não tem como separar uma coisa da outra e não vejo muito como realização, no sentido de me sentir bem com o êxito de uma ou de outra. Não são várias, é tudo eu, na saúde e na doença [risos].
Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo. O cosmopolitismo parece ser outra necessidade, hoje em dia. O quanto ajuda e atrapalha ser mais pássaro que árvore? Isso é uma realidade da minha vida desde sempre, não sei como é ser de outro jeito. Meu pai nasceu na Bahia, minha mãe em Pernambuco e eu sempre pulei de Recife pra Salvador, sentindo as duas como minhas cidades. São Paulo veio pelo Teatro Oficina e acabei adotando como minha também. Não acho que ajude nem atrapalhe, só é assim. E gosto muito assim.
Quando do lançamento de Eu menti pra você [2010] você foi saudada como “revelação”, com parte da crítica ignorando sua participação, para citar apenas o campo musical, em grupos como o Eddie e o Comadre Florzinha. Como você avalia o episódio? “O que era velho no norte se torna novo no sul” [risos]. Tem a ver com Rio e São Paulo serem considerados O Brasil e o resto ser “regional” e também tem machismo aí. Essa coisa de “novas cantoras”, de não saberem muito bem como tratar mulheres que cantam e compõem, de uma necessidade de colocar todas as cantoras no mesmo balaio – com recorte social também, afinal as cantoras de funk são tratadas como setor à parte, como se os outros setores todos tivessem também relação uns com os outros –, de me tratar como “nova cena”. Não sou nova cena, tenho 43 anos e comecei a tocar (nos maracatus Piaba de Ouro e Estrela Brilhante) em 1994. Enfim, tenho muita história antes de 2010, mas tem esse fetiche ainda de “São Paulo descobriu agora então existe a partir de agora”.
Sua obra e atitudes têm engajamento: letras de música, conteúdo de textos e ilustrações, engajamento presencial e virtual em causas, por exemplo, o feminismo e o movimento Ocupe Estelita, no Recife, para citar apenas dois. Nestes tempos duros, caretas e conservadores, é impossível ser diferente, não? Pra mim isso também sempre foi uma realidade, de acompanhar de perto essas coisas e de dar opinião e botar mão na massa. Na verdade gostaria de botar bem mais a mão na massa, faço bem menos do que gostaria. Acho que, de um modo geral, somos muito apáticos na ação. Falamos demais e fazemos pouco de fato. Fosse diferente a polícia não tava exterminando pretos e pobres.
Capa de Selvática, censurada pelo Facebook. Reprodução
Quando do lançamento de Selvática [2015], seu disco mais recente, a capa foi censurada por uma rede social. A que você credita a caretice e o ridículo do episódio? Como reagiu? Ao machismo, de novo. Mulheres estão nuas em todos os lugares, mas sob um olhar machista. Se elas resolvem ficar nuas do jeito que querem aí já é vandalismo. Na verdade essa censura, que é uma grande merda violenta e cafona, acabou alavancando não só a capa do disco como começaram discussões maravilhosas em torno dela e sobre liberdade dos corpos das mulheres e isso foi precioso. Uma coisa ruim gerou uma maravilhosa. Fiquei muito emocionada com esse desfecho e vendo questões que eu colocava nas músicas que ninguém tinha escutado ainda sendo levantadas a partir da capa. O que aconteceu depois é que foi bem ruim. Se você procurar na imprensa o que saiu sobre meu disco vai ler basicamente sobre meus peitos na capa. Dos meus três discos foi o mais fraco de imprensa a respeito do conteúdo mesmo, das letras e tal. Tem sempre o “o disco tem temática feminista”, que é uma frase que não diz absolutamente nada a respeito das composições. No caso, a frase correta seria “é um disco de temática feminista comentado por uma imprensa machista” [risos]. A sorte é que as músicas tocaram as pessoas e o público sacou tudo a fundo e de uma forma linda.
Selvática tem uma pegada mais punk, longe, no entanto, de rotulá-lo e/ou à tua obra. Essa guinada é sinal da urgência dos tempos? Acho que não. Não sei [risos]. O tempo sempre foi urgente.
Em 2015 você esteve duas vezes em São Luís. Participou da Feira do Livro e pouco depois cantou na Aldeia Sesc Guajajara de Artes. Quais as impressões e lembranças da cidade e do público? Foi maravilhoso, apesar de corrido. Fico triste de só ir aí correndo, dessa vez vai ser de novo assim. Quero voltar com calma, me devo isso, quero muito, sempre quis, chegar, ficar, respirar São Luís e essa maravilha toda, os tambores, a dança, que me ligam tanto a esse lugar.
Qual a expectativa para o show no Festival Elas? Espero que seja massa, que vá um monte de gente e quem for fique feliz também e a gente faça junto esse show. É sempre junto, né, o que fazemos no palco reverbera em quem assiste e o que quem assiste sente e faz toca na gente também. Essa é a mágica da brincadeira. E que maravilha ser no Elas, com esse mote de feminismo, de mulheres ocupando todos os espaços, como deve ser.
Como você avalia a importância de um festival desse nível, feito principalmente por mulheres, destacando o protagonismo feminino? É muito importante! Que a ideia se espalhe sempre! Quanto mais mulheres juntas falando, realizando, se encontrando e trocando mais a gente avança, mas a gente se fortalece.
Do golpe que tirou Dilma Rousseff do poder passando pela escalação do ministério, gestos, atitudes e declarações, o governo do ilegítimo é muito machista. O Brasil retrocedeu bastante. Há luz no fim do túnel? A luz do túnel são as mulheres todas se organizando e agindo. É sintomático a primeira mulher presidente ser arrancada do poder. Mesmo enquanto ela estava lá isso era muito visível, o machismo todo, acompanhamos tudo, né, os discursos contrários a ela eram sempre com uma carga machista que impedia até de se ter contato com o que queria o problema real. Temos que lembrar também que mesmo com Dilma na presidência o machismo era reinante. Retrocedemos em muitas coisas e uma coisa muito grave foi ela sempre ter se colocado contrária a legalização do aborto, por exemplo. Uma tristeza muito grande vê-la se resignar e tratar o assunto dessa forma. Estamos falando de direitos humanos das mulheres e uma presidente mulher foi totalmente incapaz de tratar isso da forma que merecia e que é urgente. As mulheres seguem morrendo.
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Veja Karina Buhr em Eu sou um monstro (Karina Buhr) no Cultura Livre:
Foi a cantora Lena Machado, quando de sua participação, quem sintetizou o sentimento de quem compareceu ontem (20) ao Anfiteatro Betto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), quando Chico Saldanha lançou Plano B, seu mais recente disco, o quarto da carreira, em um show de bolso.
“Para mim é uma honra enorme estar aqui, participar deste disco, deste show. Este aqui é o Plano BDe Buriti”, afirmou juntando a faixa-título com a música que cantam juntos, num trocadilho feliz – o disco quase muda de nome durante a elaboração do projeto gráfico. “Saldanha é imprescindível, é dessas pessoas que se não existissem a gente mandava fazer de buriti”, afirmou a cantora, o feitiço a favor do feiticeiro.
Um bom público foi prestigiar o compositor. A cidade tinha diversas opções a custo zero, como seu lançamento. Muita gente conhecida se reencontrava na plateia, mas a animação geral não tirou a atenção do que realmente importava: o desfile do bom repertório de Plano B, em que Saldanha foi acompanhado por Marquinhos (bateria e percussão), Rui Mário (sanfona), Luiz Jr. (violão sete cordas e guitarra) e Marcão (contrabaixo).
Saldanha abriu com Clichês e passeou por Afeganistão, Ela só queria ser Ella, Ela se move, Remoto botequim, Choro de memórias. É impressionante, e não sei se digo isto por estar por dentro do processo (meu nome figura, baita honra, como assessor de comunicação na ficha técnica do disco), mas a impressão é a de já conhecer aquelas músicas há tempos. Como se já nascessem clássicas.
Ou no dizer de Flávio Reis: “Saldanha é um artesão. Demora, leva um tempo de um disco pra outro”, a média de intervalo é de 10 anos, “mas não faz besteira”. Eu fico realmente feliz de ouvi-lo tocar no rádio, além do Santo de Casa.
Única música do repertório de ontem que não figura em Plano B, Itamirim, daqueles clássicos que a maioria das pessoas canta sem conhecer a autoria, fechou a noite como se espera quando se toca um hino: todo mundo cantando junto.
Criolo já conta mais de 10 anos de carreira, contados desde a época em que ainda assinava Criolo Doido e era eminentemente rapper. De lá para cá lançou verdadeiros petardos da música popular brasileira contemporânea, extrapolando os limites do rap, sempre flertando com o samba, mas não só.
Neste meio tempo agradou medalhões como Chico Buarque (que devolveu homenagem em show), Milton Nascimento (com quem já dividiu o palco), Tom Zé (com quem gravou Banca de jornal em Vira-lata na via láctea, disco do baiano), Ney Matogrosso (que gravou sua Freguês da meia noite em Atento aos sinais) e Ivete Sangalo (com quem dividiu disco e show tributando Tim Maia).
Criolo já garantiu, pois, sua vaga entre os grandes. Artista oriundo da periferia e consciente de seu lugar e papel, não é de se acomodar em zona de conforto em geral ilusória. Depois de Nó na orelha (2011) e Convoque seu Buda (2013), discos em que seu rap dialogava com o samba e outros gêneros musicais, brasileiros ou não, ele lançou ano passado Ainda há tempo, que marcava um retorno ao rap puro, mas nunca simples.
Espiral de ilusão. Capa. Reprodução
Espiral de ilusão [Oloko, 2017; todos os seus discos podem ser ouvidos e baixados em seu site] talvez seja sua mais ousada guinada: um disco inteiramente dedicado ao samba. Tem de tudo, ingredientes consagrados desde sempre em rodas, discos e na obra de grandes bambas do gênero: amor, malandragem e denúncia social. Já nasce clássico, a começar pela capa, de Elifas Andreato, cujo talento já embalou Clara Nunes, João Nogueira, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Paulo Moura e Rolando Boldrin, para ficarmos em lista curta.
Se não, vejamos se a letra de Menino mimado não é metáfora perfeita para o triste momento político por que passa o Brasil, desde o golpe que tomou de assalto nossa democracia: “Então pare de correr na esteira e vá correr na rua/ veja a beleza da vida no ventre da mulher/ pois quem não vive em verdade, meu bem, flutua/ nas ilusões da mente de um louco qualquer/ e eu não aceito, não”, para arrematar, brilhantemente: “Eu não quero viver assim, mastigar desilusão/ este abismo social requer atenção/ foco, força e fé, já falou meu irmão/ meninos mimados não podem reger a nação”.
Filha do Maneco é crônica no melhor estilo Noel Rosa: um pai ciumento na favela, samba bem-humorado como o fino do poeta da Vila. Dolente, a faixa-título aborda uma desilusão amorosa, qual na ginga de Calçada: “Um belo dia, pensava que tava escrito/ era eu pra ela, ela pra mim, isso tá bonito/ esqueci de fechar uma porta e uma janela de uma outra casa/ toda verdade veio na minha calçada”.
Boca fofa emula a malandragem de Bezerra da Silva e o cagueta, personagem constante de sua obra – em tempos de delação premiada, faz todo sentido. Os temas – caguetagem e delação premiada, (quase) sinônimos –, voltam a aparecer em Cria de favela, que fecha o álbum: “Quem vai lucrar com essa patifaria/ é gente da alta na papelaria/ delação premiada jogo de poder/ e se for pra rua tentam me deter”.
Espiral de ilusão, o disco, é a prova de que é possível aliar a seriedade e a urgência de determinados temas caros e cruéis a alegria tipicamente brasileira, sambista. Artista com A maiúsculo, é também atestado de que Criolo pode enveredar por qualquer caminho mantendo-se coerente, instigante e interessante.
Compositor lança Plano B, quarto disco de sua carreira
Plano B. Capa. Reprodução
Chico Saldanha tem importância fundamental para a moderna música popular produzida no Maranhão. Para ficarmos em apenas dois bons exemplos: foi ele quem tocou, ao violão, para Papete, as músicas que viriam a emocionar o publicitário Marcus Pereira, que imediatamente tratou de garantir seu registro no antológico Bandeira de aço (1978); como integrante da primeira formação do Regional Tira-Teima, ao violão, acompanhou Chico Maranhão no igualmente antológico Lances de agora (1978), também lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira. Os dois álbuns são considerados divisores de águas. O resto é história.
Consciente de seu papel e lugar, e sem afobação, o rosariense só estrearia em disco solo 10 anos mais tarde, no LP homônimo Chico Saldanha (1988), que traria ao menos um clássico de nossa música popular: a toada Itamirim, interpretada por Tião Carvalho. Antes, Saldanha já havia prestado reverência e registrado em disco, ao lado dos então também produtores Giordano Mochel e Ubiratan Sousa, as vozes e talentos singulares de Agostinho Reis, Antonio Vieira, Cristóvão Alô Brasil e Lopes Bogéa, no compacto Velhos moleques (1986).
Levou 10 anos entre a estreia de Saldanha e o segundo disco, Celebração (1988). A média se manteve entre estes e os títulos seguintes: Emaranhado (2007) e o recém-lançado Plano B (2017). Dois motivos parecem justificar tanta espera entre um e outro: o primeiro é que o advogado de formação realiza seus trabalhos às próprias custas; o segundo é o capricho com que ele mesmo cuida de cada detalhe. Modesto, ele cita a poeta polonesa Wisława Szymborska: “a imperfeição é mais fácil tolerar em doses pequenas”.
Plano B reúne algumas características comuns à carreira de Saldanha, sem que isso signifique mais do mesmo. Está lá sua versatilidade como compositor (sozinho ou em parceria assina as 11 faixas da bolachinha), passeando por balada, blues, reggae, xote, bumba meu boi, tango, choro e bolero, com pitadas de brega – “Chico sempre o aborda com uma ironia muito particular” – e “a lírica amorosa quase sempre presente”, como destaca o poeta Celso Borges em texto no encarte.
Entre os temas abordados comparecem o jazz (Ela só queria ser Ella), a guerra conjugal (na bem-humorada Afeganistão), a dor de cotovelo (a faixa-título, Fio desencapado, Mano a mano e Remoto botequim, que cita o Tango pra Teresa, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, além dos cantores de tango Carlos Gardel e Armando Manzanero), a São Luís de outrora (Choro de memórias), a dança (Ela se move) e o amor (De buriti), além de diálogos com o cinema (Pano rápido) e a música eletrônica (Clichês).
Participação especial mais constante dos discos de Saldanha, Zeca Baleiro comparece em Clichês, que abre o disco, muito além do que promete o título. Na faixa eles ligam os londrinos da Groove Armada com o madredivino Cristóvão Alô Brasil. Milla Camões faz o vocalize em Ela só queria ser Ella, invocando a homenageada. Nosly divide o vocal com Saldanha em Ela se move, parceria deles com Jamil Damous (cunhado de Saldanha que faleceu após as gravações), que cita os bailarinos Mikhail Baryshnikov e Rudolf Nureyev. Lena Machado fecha o time de participações especiais imortalizando um dito popular da região do Turi, no interior do Maranhão, em De buriti (Saldanha/ Jamil Damous).
O disco tem arranjos e direção musical de Luiz Jr. (guitarra, violão, violão sete cordas, viola caipira) e conta ainda com músicos como Daniel Cavalcanti (trompete), Kleuton (contrabaixo), Rui Mário (teclado e acordeom) e Wanderson Silva (percussão), entre outros. O projeto gráfico é de Amanda Simões, sobre peças artesanais (em fibra de buriti) de Vilma Rosane, fotografadas por Beatriz Maia.
Plano B é um disco delicado, comovente e vigoroso. A cada disco, Saldanha sempre nos leva a pensar que “valeu a pena esperar”. O título soa também como uma metáfora para alguém que passou a vida se dividindo entre o expediente das repartições e a música. Quem sabe agora, aposentado do plano a, não careçamos esperar tanto entre um Plano B e outro do artista – agora em tempo integral.
SERVIÇO
Chico Saldanha lança Plano B em show no próximo dia 20 de julho (quinta-feira), às 19h, no Anfiteatro Betto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada gratuita.
Terça à tarde, ou para ser mais charmoso, terça boca da noite. Há tempos eu devia a visita, o projeto já tem algum tempo. O Núcleo de Choro da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem) toca às terças-feiras, a partir das 17h, no Buriteco (Rua Portugal, Praia Grande).
A formação, regida e acompanhada pelos olhos brilhantes do professor Nonatinho, de percussão, responde a algumas indagações preocupadas deste boêmio: onde tocam os músicos formados pelas escolas de música locais? Por que não há eventos não noturnos de música? (esta pergunta chegou a ser feita no programa de rádio que apresento com Gisa Franco, o Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, ao vivo, por telefone).
São vários/as alunos/as, revezando-se no palco. Isto é, em uma, são várias formações musicais distintas, todas primando pela qualidade de repertório e execução. Modestamente afirmo: vale a pena!
Adentrei o Buriteco, digamos, por acaso. Já conhecia a casa, de outras ligeiras passagens. Restou-me de um desencontro com um amigo e um (re)encontro com outros, esta (pretensão de) crônica inspirada, sempre, obviamente, por Paulo Mendes Campos e adjacências.
Ricarte Almeida Santos ia dar aula e não se furtou a tirar onda: como é que podia, em plena terça à tarde, encontrar uma mesa formada pelo arremedo de cronista, o cineasta Francisco Colombo, o sociólogo Igor de Sousa e a engenheira Clariane Natali? Só restava fazer uma foto para comprovar – afora o casal Bruna e Max, que após cumprimentarmo-nos sentou-se numa mesa mais ao fundo.
Volto a pensar em Paulo Mendes Campos e naquela crônica de viagem em que ele, não encontrando bar aberto, teima, sempre há, sempre há, encontrando um, mais de meia noite. Não era o caso, pouco passava de boca da noite, 18h, cedo, programa familiar, vão e levem as crianças.
O repertório, impecável, passeava por Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Raul de Barros, Paulinho da Viola e Zezé Alves, entre outros grandes mestres. Uma armação de bumba meu boi ao lado do palco remetia ao período recém-encerrado, sob fortes chuvas fora de hora – Deus e São Pedro sabem o que fazem.
Não era acaso estarmos ali – Deus e São Pedro sabem o que fazem – e logo adentraram o recinto para somar-se às feras já presentes, e refiro-me ao palco, e não à plateia, o flautista João Neto, depois, e, antes, o violonista João Soeiro, aniversariante do dia, saudado com um merecido parabéns a você.
Pedi mais uma cerveja, sob protesto de meu companheiro de mesa. Aos garçons havia gracejado: eu fazia a reversão. Ele era um crente que eu havia convencido a beber após minha ladainha bebum.
Deixamos o recinto na contramão de onde eu havia estacionado: por solicitação da esposa, eu precisava arcar com as encomendas de uns Sousas. Incluí um para este que vos perturba, embora àquela altura, ainda não percebesse fome.
Sul e Branco são o par de discos recém-lançados por Luana Carvalho, que surgem juntos, em formato de cd duplo, mas funcionariam bem se lançados independentes entre si. Aliás, o conjunto ultrapassa os limites do formato álbum, em que se convencionou embalar um punhado de canções.
Branco. Capa. Reprodução
Sul e Branco são verdadeiros tratados artísticos, extrapolando o universo musical. Por seus encartes – com projetos gráficos e ilustrações de Diego Limberti – comparecem textos da própria Luana Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Lenine, desenho de André Dahmer, artes plásticas de Tomás Cunha Ferreira, Kammal João, e poemas de Alice Sant’Anna, Eucanaã Ferraz, Sophia de Mello Breyner Andresen e António de Souza.
A cantora e compositora é filha de Beth Carvalho, mas a não ser pelo sobrenome que carrega, poderia prescindir do cartão de visitas. Isto é: não deveria ser necessário dizer de quem é filha para que se preste atenção ao talento. Não que seja crime ou pecado filha de peixe, peixinho ser: Luana Carvalho desponta madura. Entre outros filhos ilustres que comparecem aos discos estão João Cavalcanti (filho de Lenine), Davi Moraes (filho de Moraes Moreira) e Moreno Veloso (filho de Caetano), herdeiros cujos talentos também vão além do DNA.
“Tudo é samba” e seus trabalhos têm os dois pés no gênero, que moderniza sem desconfigurar. Luana canta e toca violão, escoltada pela banda base formada por Pedro Sá (guitarra, contrabaixo), Domenico Lancellotti (bateria, percussão, teclado e mpc) e Moreno Veloso (percussão, violoncelo), que com ela assina a produção fonográfica de Sul – e sozinho de Branco, disco em que a eles se somam Alberto Continentino (contrabaixo), Alexandre Caldi (flauta), Altair Martins (trompete), Bebê Kramer (sanfona), Bruno di Lullo (contrabaixo, teclado), Davi Moraes (guitarra), Lucas Vasconcellos (guitarra, contrabaixo), Marcelo Caldi (sanfona), Marlon Sette (trombone), Pedro Luís (violão e percussão), Rafael Rocha (bateria e mpc) e Ricardo Dias Gomes (contrabaixo e wurlitzer).
Sul é completamente autoral – ela assina sozinha suas sete faixas. Em Branco, à sua lavra juntam-se Lucas Castello Branco (Garupa, parceria com Luana Carvalho), Pedro Luís (Luz do âmbar e Indivídua, parceria com João Cavalcanti), José Chagas (Palavra acesa, poema musicado por Fernando Filizolla), Domenico Lancellotti (Ar para jantar, parceria com André Dahmer), Caetano Veloso (Força da imaginação, parceria com D. Ivone Lara, que participa da faixa cantando e abençoando). Gravados em Nova York, ainda há espaço para a brasileiríssima Luana Carvalho esbanjar latinidade na regravação de Paloma negra (Janney Marin/ Joaquin Aguirre/ Tomas Mendez/ Julio Reyes).
Por e-mail, Luana Carvalho conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Atenção, produtores!: ela começa a conversa revelando sua vontade de voltar ao Maranhão, que muito visitou acompanhando sua mãe em turnês na infância. Suas respostas só reafirmam o que atestam seus discos: é artista que já nasceu pronta. Mesmo quando aparentemente se esquiva, não desconversa: ela desconcerta.
Foto: Tati Domais
Sul e Branco são dois discos independentes e diferentes entre si, que funcionariam se lançados separadamente. Por que a decisão de lançá-los como um álbum duplo? Primeiro quero dizer que estou bastante feliz com esta entrevista. O Maranhão é um dos estados que mais gostava de ir quando acompanhava minha mãe em turnês na infância. Quero muito voltar aí. À pergunta: porque são dois organismos diferentes com o mesmo sangue. O Sul não existiria sem o Branco. Não no sentido cronológico natural de um trajeto, mas porque foi feito em estado de espera: enquanto o Branco corria pelas burocracias. Foi ouvir o Branco que me levou aos vazios onde construí o universo de composições do Sul. E por ser mais íntimo e o mais próximo de mim agora, era justo que chegasse primeiro. O Sul é o convite. O Branco é o endereço do baile.
Teus discos, aliás, ultrapassam o conceito de álbum, ao propor um diálogo entre diversas formas de expressão. Além da música estão lá a poesia, a prosa, as artes plásticas. Num tempo em que fala-se tanto na derrocada da indústria fonográfica e na morte do disco físico, é ousado valorizar tanto este suporte? Não ouso ousar. Porque não acredito em rupturas. Acho que tudo é fluxo e contínuo e já foi visto em algum lugar. É cíclico: o preto e branco levam ao excesso de cores e brilho que levam ao preto e ao branco, o objeto leva à nuvem que leva ao objeto. Hoje prefiro o preto e o branco, amanhã não sei. Quanto ao disco físico, preciso do equilíbrio dos sentidos; ouvir o disco, tocar no disco, o cheiro do disco, o manuseio das páginas de um encarte. Também adoro poder dar dois ou três cliques e ouvir um álbum inteiro ou fragmentado, não deixa de ter tato e há um desafio interessante aí. Tanto pro artista quanto pro ouvinte. Portanto não se trata de saudosismo. Mas o objeto ainda me toca, me dá a sensação de todo da obra, de estar mais próxima do que realmente queria o artista com aquele trabalho incluindo o peso, a textura. As coisas têm vontade. Gosto de me debruçar sobre as coisas, reverenciá-las. Toda vez que me refiro ao meu disco acabo dizendo livro. Talvez pelo desejo de um dia escrever um. Acho que a necessidade de aferir à coisa algum valor equivalente pode ser a causa deste ato falho. O disco Livro [1997] do Caetano tem um dos melhores títulos que já conheci, pena que não pensei nisso antes [risos].
Qual o peso e a responsabilidade de ser filha de Beth Carvalho? Tem cinco minutos ou a vida inteira?
E de ter a bênção de Dona Ivone Lara? Isso é o tipo do acontecimento que faz diferença todos os dias naquele instantinho em que abrimos os olhos e revemos a vida inteira. É uma honra que carrego no dorso aonde quer que eu vá.
Em algumas músicas você evoca a Mangueira, escola de sua mãe, mas o álbum é tingido do azul e branco da rival Portela. De que torcida você faz parte? Torço pelo carnaval.
Sua mãe é uma das maiores cantoras do Brasil em todos os tempos, mas quase nunca entra em qualquer lista do tipo, por ser rotulada de sambista. A seu ver, apesar dos avanços e da aceitação social que o gênero passou a ter ao longo dos anos, ainda há muito preconceito? Como diriam o João Gilberto e o Pedro Sá: tudo é samba. Mas infelizmente nem todo mundo tem a sensibilidade musical de um João Gilberto ou de um Pedro Sá. A subestimação do samba é uma implicação sociopolítica. Muito mais complexa do que sou capaz de analisar. O João costumava dizer que minha mãe é a maior cantora do Brasil. Era o que ele dizia. E como também disse Augusto de Campos: João é João, nenhuma perda. Por acaso hoje, quando escrevo, é aniversário dele [10 de junho]. Viva o samba! Viva João!
“Se minha mãe mandar eu obedeço”, você canta em Oxum, minha mãe. Era inevitável ser artista? Gostaria que você comentasse um pouco o ambiente familiar e esta escolha. Não era inevitável pelo ambiente familiar, podia ter desviado. É inevitável porque é o que mais gosto de fazer dos meus dias: música de toda poesia que percebo no mundo.
O que sua mãe achou dos discos? Acho que ela gostou muito dos discos. Sinto o respeito de uma veterana pelo meu trabalho, mais do que uma reação amorosa de mãe. Isso me dá muita alegria. Mas aí só você perguntando a ela.
Em Sul e Branco você se cerca de uma geração relativamente nova, talentosíssima e onipresente: os caras tocam com todo mundo. Como se deu essa escolha e como foi gravar com eles estes dois discos? Foi fácil e assustador. Porque os caras realmente entenderam tudo e isso facilita muito. E os caras realmente entenderam tudo e isso assusta mesmo. Muito por causa do Moreno, que soube me ouvir e conduzir tudo com profunda sensibilidade poética. Ele me emprestou a turma e eu nunca mais saí do pátio. Mas o caminho é mais complexo do que parece. Embora sejam realidades aparentemente próximas à minha, eu vim de longe para encontrá-los. E ainda bem que o fiz.
Suas releituras têm bastante personalidade, você imprime algo de autoral nas regravações que faz. É o caso, por exemplo, de Palavra acesa, do paraibano José Chagas, que acabou se tornando maranhense, já que foi aqui que viveu a maior parte de sua vida. Por que a escolha? Você conhece a obra de Chagas além desta música? Obrigada! Conheço e amo a obra de Chagas, sim. “Violeiro sem viola”. Homem da palavra de repente. Compartilhamos a paixão por telhados e ripas: o interesse no que acontece sob eles. Palavra acesa é um poema lindíssimo! Na versão musicada seus autores parecem ter sentido o poema – como dizia Chagas sobre as pessoas diante do mundo – antes de compreendê-lo. Por isso a beleza da canção. Sinto muito os movimentos das horas antes de compreender. E a música que faço é só por causa da poesia, no sentido amplo do poético; aquele avião que passa e meu dia nunca mais será o mesmo, o cheiro impregnante da tangerina e do café, a plataforma que se ergue no mar sem que eu tenha me dado conta, os instantinhos. Este grande versificador paraíba-maranhense foi fundo na humanidade, sabia a poesia do mundo apesar do poema, a poesia que está além do poema, e chegou a dizer que haverá um dia em que não haverá mais o poema, porque só a música é verdadeiramente necessária. Não sei se há razão nisso, mas certamente há poesia. E onde houver poesia, minha música será possível.
Talvez seja cedo para falar em próximo disco, mas quando formos falar dele devemos nos referir ao segundo ou terceiro disco de Luana Carvalho? Como vocês preferirem!
Não faz muito tempo, amigos, namorados e crushes – antes de a expressão existir – trocavam fitas cassetes com o que mais gostavam em termos de música. Hoje trocam links do youtube em profusão, através do whatsapp. Saudosistas podem afirmar que não há charme nessa instantaneidade toda, que bom mesmo era esperar sabe-se lá quanto tempo pelo grito do carteiro no portão. Neste caso, pouco importa o meio, vale mais a mensagem: o mais importante é o verdadeiro amor, como diria o compositor em título que, escrito pelos muros, acabou virando hit de redes sociais.
Tema mais cantado em todos os tempos, em prosa, verso e música, o amor é a espinha dorsal de Beijo estranho [Deck, 2017], novo álbum do Vanguart, banda mato-grossense formada por Helio Flanders, Reginaldo Lincoln, David Dafré, Fernanda Kostchak e Julio Nganga. No disco a banda conta com o reforço de Loco Sosa (bateria), além de diversas participações especiais, entre as quais destacam-se Jorge Helder (contrabaixo) e Thiago França (Metá Metá, sax e flauta em Quando eu cheguei na cidade).
O amor é pop e esparrama-se por cada faixa de Beijo estranho, longe da pieguice. São baladas facilmente assobiáveis, radiofônicas. Todas as faixas são assinadas por Flanders e Lincoln, sozinhos ou em parceria.
“Meu coração queimou devagar/ senti uma vontade subindo do chão”, a faixa-título (Flanders) abre o disco. Em Todas as cores (Lincoln), aconselham: “não vá se converter acreditando em mágoa/ não vá ter medo de se apaixonar primeiro”. O clássico Folhas de relva é citado em Felicidades (Flanders/ Lincoln): “o inferno é bom/ e o teu céu um sangue roxo/ quente eu sinto a tua relva/ Whitmânicas visagens!/ Não tenho medo”. O medo de amar é o medo de ser livre, diria outro compositor.
E o meu peito mais aberto que o mar da Bahia (Flanders/ Lincoln) é um título que diz tudo. Como o amor, não carece de explicação. “Quando eu chego em casa e você não está/ penso em te procurar mesmo sabendo que vais voltar/ se um dia foi diferente/ é porque tudo era diferente/ o teu amor me pôs de pé”, diz a letra, em melodia solar, quente. Como o amor.
De Beijo estranho poderíamos seguir transcrevendo trechos de letras. Mas as que trouxemos até aqui bastam para dar uma ideia de sua abordagem romântica, apaixonante – quem não conhecia a banda logo se toca do tempo perdido.
Os tempos são líquidos, o amor não. O Vanguart durará mais que as mensagens trocadas no whatsapp – o efeito de sua música nos corações apaixonados também. A dica é: para quem quer reconquistar um antigo amor, conquistar um novo amor ou se declarar para o crush, use Vanguart sem moderação.
Para quem não está convencido, um último exemplo: “Ardo/ sou um trem desgovernado/ que parte/ faiscando as tuas estradas/ sem pausa/ te conheço mais a fundo/ com calma/ tua risada, minha paixão/ me bate, queima, aperta, cheira, marca/ eu preciso de você/ (algo me faz lembrar, algo me faz querer)”, diz a letra de Eu preciso de você (Flanders).
Se o antigo compositor baiano já dizia que “quem não gosta de samba/ bom sujeito não é” e Beijo estranho não te ajudar na conquista, é melhor desistir: não vale a pena quem não gosta de Vanguart.
Desde seu disco de estreia, Achados & perdidos [2005], Curumin revelou-se um mago da música brasileira contemporânea: é o cara que sabe o que fazer em um estúdio, passeando pela diversidade rítmica pilotando diversos instrumentos. Seu quarto disco, Boca [Natura Musical, 2017, disponível para audição nos sites do cantor e do edital], aguardado sucessor de Arrocha [2012], é mais uma prova inconteste de seu talento.
Multi-instrumentista com presença constante em fichas técnicas de discos e shows de nomes como sua esposa Anelis Assumpção, Arnaldo Antunes e Céu, entre muitos outros, seu novo disco é alicerçado em programações eletrônicas pilotadas pelo próprio artista, que além de cantar, ainda toca bateria e teclados.
Seus fiéis escudeiros são os contrabaixistas e produtores Zé Nigro e Lucas Martins, que também se revezam entre guitarras, teclados, programações e vocais. Boca conta ainda com participações especiais de Beto Bellinati (voz em “O burguês que deu errado”, trecho do poema No slam resistência, de sua autoria), Russo Passapusso (BaianaSystem, voz em Boca pequena parte 1 e 2, de sua autoria – a primeira é de Curumin; Terrível também é parceria de ambos), Marcelo Jeneci (teclados em O atrito, de Curumin), Rico Dalasam (voz em Tramela, parceria sua com Curumin), as crianças Bento (sobrinho), Benedito e Rubi Assumpção (filhos do artista, vozes em Descendo, de Curumin), a rapper espanhola Indee Styla (voz em Boca cheia, parceria sua com Curumin) e Andrea Dias, Anelis Assumpção, Iara Rennó e Max B.O. (vozes em Paçoca, parceria de Curumin com os convidados, que tem ainda o cavaquinho e percussão de Rodrigo Campos).
O projeto gráfico é de Ava Rocha (arte, foto, capa), cantora filha do cineasta Glauber Rocha, e Ciça Lucchesi. Na capa, Curumin tem um olho na boca, como se regurgitasse ao mundo o que vê, “porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio”, como Veronica Ferriani adaptou a sentença bíblica para batizar um disco seu.
A boca, um dos “sete buracos da minha cabeça”, como enumerou Caetano Veloso em A tua presença morena, aparece constantemente neste novo trabalho de Curumin: “Dançando no beiço da boca da noite/ cai bem, cai bem” (em Bora passear, de Curumin, música-convite que abre o disco), nos títulos de Boca pequena parte 1 (“Corre a boca pequena/ a boca pequena/ a boca pequena”) e 2, Prata ferro, barro (de Curumin: “caio na boca do dia/ um bafo quente me engole”), Boca de groselha (de Curumin: “Boca de groselha/ me fala besteira”) e Boca cheia (“O recheio da sobremesa/ escorre pelos cantos de sua boca cheia”).
O cantor, compositor e multi-instrumentista em foto de Ava Rocha
Se Caixa preta, faixa de JapanPopShow [2008], sobre escândalos envolvendo malas e o rabo preso da indústria da notícia (é possível falar em empresas jornalísticas em tempos de “pós-verdade”?), segue atualíssima, Curumin, que em Boca assina as músicas de sua autoria com seu nome de pia, Luciano Nakata Albuquerque, volta ao tema, em Boca pequena parte 1: “Paletó, cordão de ouro/ amuleto e maleta recheada/ tá firmado o acordo/ […]/ entre o trono de rei/ e o banco dos réus/ passeia o neo coronel/ cheio de falsas bandeiras/ apertando maços de garoupa na carteira/ diabinho batucando no ombro/ ele samba na cara da sociedade”.
Artista antenado, Curumin traz mensagens políticas em seu disco, sem soar panfletário. Em Trecho de “O burguês que deu errado” o texto enfrenta machismo/misoginia, racismo e homofobia: “eu sou homem, branco e heterossexual. Teoricamente isso faz de mim um bosta”.
Em Paçoca lembra dos que têm fome: “Bota água na panela/ abre a tampa da cabeça/ que o guisado das ideias/ mata a fome do planeta// a barriga tá roncando/ mais que uma cuíca velha/ osso duro, samba torto/ e as cadeira quase quebra”, diz a letra.
Num país em crise, onde arte às vezes é tida como artigo de luxo, já que comer, necessidade básica, é prioridade, a música de Curumin é alimento necessário. Sustança para o corpo dançar, a alma transbordar e a boca cantar junto.
O voto popular deu a João do Vale o merecido título de maranhense do século XX. O cantor e compositor, um dos mais importantes do Brasil em todos os tempos, é tido como um dos pilares da música nordestina, ao lado de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Marinês – que gravaram suas músicas.
Cantador de coisas simples, imortalizou em suas composições sua terra e sua gente. Minha história, comovente autobiografia musical, é um ótimo exemplo.
João do Vale – Mais coragem do que homem [Edufma, 1998], biografia escrita pela jornalista Andréa Oliveira, há muito está esgotada. Não é disputada a tapas e a peso de ouro em sebos simplesmente por que não se encontra.
Ela conviveu com o ídolo durante seus últimos anos. Após o sucesso no sul maravilha, João do Vale retornou para sua Pedreiras natal, no interior do Maranhão, para reencontrar a vida simples que tanto o inspirou, o pé no barro do chão, o dominó com os amigos na esquina, o Lago da Onça e a Rua da Golada, Mané, Pedro e Romão, imortalizados em clássicos como Pé do lajeiro, Pisa na fulô e a já citada Minha história.
João – O menino cantador. Capa. Reprodução
Apaixonada pela vida a obra de João do Vale, Andréa Oliveira volta a seu personagem no infantil João – O menino cantador [Pitomba!, 2017, 36 p.], em que busca contar para crianças a/s história/s do artista, valorizando sua infância.
“Era uma vez”, começa o livro, evocando a clássica abertura dos contos de fadas. O livro nasceu do desejo de Andréa Oliveira, autora ainda de Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba meu boi do Maranhão (2003), de contar a história de João do Vale aos filhos, à época ainda crianças – entre a ideia e a publicação foram sete anos.
A autora mescla a precisão jornalística e seu compromisso com a veracidade dos fatos ao universo fabular. Garante às crianças, como ela declarou em entrevistas, os direitos à verdade e à fantasia, no que o próprio João do Vale foi um craque.
Em meio à narrativa de Andréa Oliveira, trechos de músicas de João do Vale (não há quem não se pegue cantando ao ler) e ilustrações do artista plástico Fernando Mendonça, cuja simplicidade certamente despertará o interesse das crianças em produzir suas próprias ilustrações, “completando” as originais do livro – o projeto gráfico é do cantor e designer Claudio Lima. Literatura, música e artes plásticas redescobrindo, para as novas gerações, a importância do autor de Estrela miúda e Na asa do vento.
A narrativa é linear, acompanhando João do Vale desde sua infância até o falecimento, passando por sua ida ao Rio de Janeiro, de carona em caminhões, o trabalho na construção civil, as primeiras gravações, o sucesso, a resistência à ditadura militar – do que o clássico Carcará é metáfora exemplar.
Mas engana-se quem pensa que a história tem final triste: a autora atesta, com razão, que João do Vale permanece vivo, prova disso é sua obra, até hoje cantada e assobiada por muitos, e este livro, cuja beleza e delicadeza reavivam a memória do artista – este realmente merece ser chamado de “popular” – e, além de comover os que já lhe conhecem, certamente despertará o interesse dos que porventura ainda não.
Num tempo em que em geral crianças interessam-se mais por celulares e tablets que por livros, João – O menino cantador tem também uma difícil tarefa de conquistar novos leitores. Que, curiosos, poderão voltar aos eletrônicos para descobrir João do Vale através do youtube e de outros aplicativos.
Serviço
A noite de autógrafos de João – O menino cantador, de Andréa Oliveira, acontece nesta quinta-feira (1º. de junho), às 18h30, na Sala de Exposições do Condomínio Fecomércio – Sesc/Senac (Av. dos Holandeses, Calhau). Haverá pocket show com Ivandro Coelho interpretando repertório de João do Vale. Publicado pela editora Pitomba!, o livro tem apoio do Sesc/MA
Ao contrário de shows em que, em geral, o uso de celulares e câmeras é proibido (em vão) pela produção, a plateia que assistiu Claudio Lima sábado passado (27), no Cine Teatro da Cidade de São Luís, foi das mais educadas que vi em muito tempo. E a colheita de imagens e posterior postagem nas redes sociais foram incentivadas, logo no texto de abertura, que anunciou a subida do cantor ao palco.
“Coloquem seus celulares no silencioso, mas não os desliguem: fotografem e filmem e postem nas redes sociais”, dizia o texto. Em seguida, solicitou, para gargalhadas da plateia: “este show está sendo gravado. Guardem manifestações como “lindo! Gostoso! Arrasou, qualhira!”, para os intervalos das músicas”. Pedido pronta e educadamente atendido.
Gritos de “lindo!”, “gostoso!” e “viado!” foram ouvidos ao fim da primeira música, Boi tarja preta (Celso Borges/ Alê Muniz). “Tá bom, gente! Já chega!”, pediu Claudio Lima entre a timidez ensaiada e o domínio absoluto da cena – sua performance nunca é exagerada, a serviço tão somente de sua voz, de dar ênfase ao que canta.
O show de lançamento de Rosa dos ventos coroava de forma brilhante uma ideia acalentada há ao menos cinco anos. O show seguiu à risca o roteiro do disco, à exceção de Lástima (Giovanne Chaves), que cantou sentado, acompanhado apenas pelo teclado de Rui Mário.
A inclusão da inédita comprova o que Claudio Lima disse em entrevistas de divulgação do show: já está catando repertório para um próximo disco. Em Rosa dos ventos gravou apenas nomes maranhenses – incluindo ele, em seu début como compositor – e quase apenas inéditas, a exceção justamente a faixa-título, já registrada pelo compositor, Bruno Batista – “mas eu cantei antes”, também frisou em diversas entrevistas, lembrando os prêmios de melhor música e melhor intérprete que ele e Bruno levaram, respectivamente, no Festival Viva 400 Anos de Música Popular, que em 2012 celebrou os 400 anos de fundação da capital maranhense.
Claudio Lima, que a exemplo de seus discos anteriores, assina o projeto gráfico de Rosa dos ventos, também era autor do belo cenário em que desfilou o repertório do disco, acompanhado por Eduardo Patrício (programações eletrônicas, bateria e percussão), Pablo Habibe (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo), Memel (guitarra), João Neto (flauta) e Rui Mário (teclado e sanfona).
Em Eu não sou refém da maioria (Claudio Lima) trouxe ao palco o bailarino Luciano Teixeira que, a princípio enrolado numa bandeira do Brasil, foi literalmente até o chão coreografando o funk. “É uma honra, pra mim, pra vocês, pra toda a equipe, podermos fazer arte em tempos tão sombrios”, disse o cantor em determinada altura do espetáculo. Fervorosamente aplaudido após cada música, não foi diferente após o comentário.
Após São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae) (letra de Celso Borges sobre melodia de Michael Rilley), Claudio Lima tornou a brincar com a plateia: “não precisam pedir bis. Ele já está institucionalizado. A gente vai sair e volta pra fazer”. Voltaram aos gritos de “mais um, mais um!”, prontamente atendido. Cantou Bis (Cesar Teixeira), de onde tirou o verso que dá título a seu disco anterior, Cada mesa é um palco (2006). Foi o único momento em que o cantor e os seis músicos estiveram todos juntos no palco ao mesmo tempo, quando Claudio Lima os apresentou ao público.
O disco e a figura escolhida para título apontam em todas as direções, norte, sul, leste, oeste. Rosa dos ventos, disco e show, e Claudio Lima aglutinam e distribuem beleza. Seu público não é refém da maioria e justamente por isso estava ali.
*
Roteiro do show
1) Boi tarja preta (Celso Borges/ Alê Muniz)
2) Salomé minha dor (Fernando Abreu/ Marcos Magah)
3) Não seja burra, baby (Walquiria Almeida/ Claudio Lima)
4) Caminhos ocultos (Der wegweiser) (Franz Schubert/ Claudio Lima)
5) Pingão (Tiago Máci)
6) Parapapá (Claudio Lima/ Mário Tommazo)
7) Esmolas (Bruno Batista)
8) Não sou refém da maioria (Claudio Lima)
9) Melodia sentimental (Claudio Lima/ Mário Tommazo)
10) Lástima (Giovanne Chaves)
11) Só me resta regar tuas petúnias (Claudio Lima/ Marcos Tadeu)
12) Falta flauta (Claudio Lima/ Marcos Tadeu)
13) Nem os cadáveres sobreviverão (Marcos Magah/ Acsa Serafim)
14) Rosa dos ventos (Bruno Batista)
15) São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae) (Celso Borges/ Michael Rilley)
O lp Bandeira de aço, lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira em 1978, catalisava experiências sonoras iniciadas anos antes pela turma que fundou em 1972 o Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte), em torno do qual orbitavam os “compositores do Maranhão” (inscrição que vinha abaixo do nome do intérprete na capa do disco) gravados por Papete.
As tais experiências contribuíram para a aceitação, pelas elites, de uma estética da cultura popular do Maranhão, que transitavam entre o sacro (a religiosidade, sobretudo do período junino) e o profano (as festas regadas a álcool), como de resto as festividades juninas – várias toadas registradas por Papete são clássicos cantados até hoje a plenos pulmões, por multidões, que muitas vezes sequer sabem os nomes de seus compositores.
A partir de Bandeira de aço Papete tornou-se uma espécie de embaixador da cultura popular do Maranhão mundo afora. O (ex-)publicitário Marcus Pereira, responsável por um mapeamento musicultural do Brasil de suma importância, creditou-lhe a tarefa de interpretar o conjunto de composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe, que acabou configurando-se um divisor de águas na música produzida no Maranhão.
“Bandeira de aço firmou-se como um marco desta estética que estava sendo perseguida desde o início da década. A voz fraca de Papete ficou ótima, com um acento lamentoso. Ninguém cantou melhor Boi da lua e Catirina, por exemplo, para ficar nestas. Um disco histórico”, atestou Flávio Reis, professor do departamento de sociologia e antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no artigo Antes da MPM (Vias de Fato, setembro/2011).
Maranhense de Bacabal, cantor e multi-instrumentista, Papete foi reconhecido internacionalmente como um dos maiores percussionistas de todos os tempos. Deixou seu nome em fichas técnicas de discos de artistas como Almir Sater, Chico Buarque, Clementina de Jesus, Dominguinhos, Eduardo Gudin, Erasmo Dibell, João Bá, Josias Sobrinho, Marília Gabriela (sim, a entrevistadora!), Osvaldinho da Cuíca, Passoca, Paulinho da Viola, Paulinho Nogueira, Renato Teixeira, Rita Lee, Toquinho e Verônica Ferriani, entre muitos outros.
Às vésperas do período junino, Papete nos deixou há um ano. Hoje, em São Luís, receberá duas homenagens – entre o sacro e o profano, digamos: hoje (26), às 19h, na Igreja Bom Pastor (Praça da Igreja do Renascença), será celebrada a missa de um ano pelo falecimento de José de Ribamar Viana (seu nome de batismo). E a partir das 20h, na Casa de Iaiá (Rua São Conrado, 71, Olho d’Água), diversos artistas e amigos se reúnem para celebrar sua obra e memória, em Um show para Papete, que reúne Alberto Trabulsi, Marconi Rezende, Milla Camões, Tássia Campos e Tutuca Viana, além da DJ Vanessa Serra. Os ingressos custam R$ 20,00.