Lançado originalmente em 1974, o único disco do Moto Perpétuo, que leva apenas o nome da banda, acaba de ganhar nova reedição em cd. O grupo, que tinha entre os membros Guilherme Arantes (teclado e vocal) antes da carreira solo, se completava com Gerson Tatini (contrabaixo e vocais), Cláudio Lucci (violões, violoncelo, guitarra e vocal) e os já falecidos Egydio Conde (guitarra solo e vocais) eDiógenes Burani (percussão e vocais).
Do quinteto, somente Guilherme Arantes alcançou sucesso de público, em carreira solo. Cláudio Lucci tocou em Façanhas (1991), de Arrigo Barnabé, e no disco de José Miguel Wisnik que leva seu nome (1992), e pôs a voz (coro) no discos A light at the end of the tunel (1992), de Celso Pixinga, e Ópera do malandro – ao vivo (2003), coletivo sobre a obra de Chico Buarque; Conde tocou em Ligação (1983), de Guilherme Arantes; e Burani tocou em Build up (1970), de Rita Lee, e nos antológicos Ou não (1973) e Revolver (1975), de Walter Franco.
O som progressivo do Moto Perpétuo dialoga com bandas como O Som Nosso de Cada Dia – que também chegou a ter Egydio Conde como integrante –, Som Imaginário e A Barca do Sol. A sonoridade do álbum também dá pistas do que viriam a ser os primeiros discos solos de Guilherme Arantes – que assina sozinho nove das 11 faixas de Moto Perpétuo.
Ao contrário do que possa indicar o título, no entanto, o álbum é curto: tem pouco mais de 37 minutos. A ideia da peça sem fim faz sentido, no diálogo da última faixa, Turba, com a primeira, Mal o sol. Aquela encerra: “bom dia, café com leite/ bom dia planalto/ que diabo o cinza desse asfalto”; enquanto esta começa: “A partir da cama num hotel de fronteira/ olhos de água céu e missa/ ao calor do dia ou à sua certeza/ mal o sol amarelecera no céu”.
Em seu terceiro disco, cantor revela-se também compositor. Rosa dos ventos será lançado em show no próximo dia 27 de maio
Rosa dos ventos. Capa. Reprodução
POR ZEMA RIBEIRO
Cada disco de Claudio Lima é único. O artista não repete fórmulas, se arrisca, ousa, nunca se acomoda em uma zona de conforto. É um dos mais talentosos cantores brasileiros em atividade. A cada disco, cuida de cada detalhe: da seleção de repertório – só canta o que lhe emociona – ao projeto gráfico: artista talentoso também nessa seara, já emprestou seus dotes a discos de Bruno Batista e Cecília Leite.
Isto talvez explique o grande intervalo entre um trabalho e outro: cinco anos de Claudio Lima (2001), a estreia, a Cada mesa é um palco (2006), dividido com Rubens Salles, pianista baiano radicado nos Estados Unidos, e mais de 10 entre o segundo e este Rosa dos ventos (2017), que lançará em show no próximo dia 27 de maio (sábado), às 20h30, no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro) – os ingressos antecipados custam R$ 20,00, à venda na Livraria Leitura (São Luís Shopping); no dia do espetáculo, R$ 30,00, na bilheteria do teatro.
A história de Rosa dos ventos, o disco, começa em 2012, quando Claudio Lima levou para casa o troféu de melhor intérprete no Festival Viva 400 Anos de Música Popular, que celebrou os 400 anos de fundação da capital maranhense. A composição de Bruno Batista, que gravou-a em seu Lá (2013), levou a estatueta de melhor música e com o dinheiro do prêmio, Claudio Lima começou a arquitetar o novo álbum, cuja realização se completou com o patrocínio do Centro Elétrico através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.
Em Rosa dos ventos o artista debuta como compositor: sozinho ou em parceria, assina metade das 14 faixas, alicerçadas pelas bases eletrônicas de Eduardo Patrício, com quem divide a produção musical. A ele, com seus loops, efeitos sonoros, sintetizadores, baixo, marimba e programação de xilofone, somam-se João Simas (guitarra, baixo, teclado e loops de bateria), Pablo Habibe (guitarra e violão), Rui Mário (sanfona, piano e violoncelo), Roberto Chinês (cavaquinho e bandolim) e João Neto (flauta).
Há poema de Walquiria Almeida musicado (Não seja burra baby), versão de Franz Schubert (Der wegweiser virou Caminhos ocultos), o funk Não sou refém da maioria, cuja mensagem pode ser uma espécie de cartão de visitas do cantor, além de parcerias com Mário Tommazo (Parapapá e Melodia sentimental) e Marcos Tadeu (Só me resta regar tuas petúnias e Falta flauta).
O cantor em retrato de Alison Veras
Antenado, Claudio Lima reúne ao menos três gerações de compositores maranhenses na ativa, atestando a si mesmo como um “pescador de pérolas”, expressão que não à toa já intitulou disco de outro grande cantor brasileiro.
Rosa dos ventos abre e fecha com o olhar poético sui generis de Celso Borges sobre a cultura popular e a capital maranhense: a toada Boi tarja preta (parceria com Alê Muniz), em que dessacraliza o bumba meu boi, e a pedra de responsa São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae), versão para o clássico Shaperville, de Michael Riley.
Marcos Magah também comparece com duas músicas ao repertório: Salomé minha dor (parceria com o poeta Fernando Abreu) e Nem os cadáveres sobreviverão (com Acsa Serafim), ambas já testadas (e aprovadas pelo público) em shows de Claudio Lima. Quem também lhe fornece um par de pepitas é Bruno Batista: Esmolas e a faixa-título. O repertório se completa com o samba Pingão, de Tiago Máci, recheado de ludovicensidade, crítica social e fina ironia.
Claudio Lima faz música e é impossível rotulá-lo além disso. Sobre a demora deste Rosa dos ventos o que se pode dizer é que valeu a pena esperar. Ele afirma já ter repertório e já estar trabalhando no próximo disco, mas a letra de Não sou refém da maioria pode responder a eventuais cobranças mais apressadas: “não me queiram enquadrar/ em nenhum padrão vulgar/ onde eu tenha que concordar/ o meu molde se quebrou”.
Não é apenas cada disco de Claudio Lima que é único: ele próprio o é.
Juraildes da Cruz começou a despontar em festivais de música em 1976, mesmo ano em que Xangai lançava seu primeiro disco. Sua estreia fonográfica só aconteceria em 1990, com O cheiro da terra.
O baiano é um dos maiores intérpretes do tocantinense, responsável pela popularização de seu talvez maior hit, Nóis é jeca mais é joia – título de um disco que dividiram, lançado pela Kuarup em 2005 –, uma crítica a nosso complexo de vira-latas, com seu refrão direto: “se farinha fosse americana, mandioca importada/ banquete de bacana era farinhada”. A música venceu o Prêmio Sharp (hoje Prêmio da Música Brasileira) em 1998, na categoria melhor música regional.
Outras composições de destaque de Juraildes da Cruz são Dodói (gravada por Titane em Sá Rainha, de 2000), Quem ama perdoa (lançada por Genésio Tocantins e regravada por Xangai em seu disco mais recente), e Meninos (gravada por Dércio e Doroty Marques no antológico Monjolear, disco infantil de 1996), que parece traduzir sua sina: “quero acordar com os passarinhos/ cantar uma canção com o sabiá”, diz um trecho da letra.
Versátil, sua música pode tanto trazer crítica social quanto cantar o cotidiano de camponeses ou o amor, o mais universal dos temas. Tudo isto certamente comparecerá ao repertório de sua apresentação no próximo domingo (7), às 16h, no Sarau Sereno Cultura e Arte (Rua das Perçoeiras, 100, Quintas do São João), em São José de Ribamar, com ingressos popularíssimos a apenas R$ 10,00. A primeira visita do artista ao Maranhão aconteceu há mais de 10 anos. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
Juraildes da Cruz se apresenta neste domingo em São José de Ribamar. Foto: divulgação
É a primeira vez que você vem ao Maranhão? Não, a primeira vez foi em 2005, pela Funarte [a Fundação Nacional de Artes, órgão vinculado ao Ministério da Cultura].
Naquela ocasião você chegou a passear, conhecer algo? Dessa vez que eu estive aí pela Funarte não tive a oportunidade de passear, conhecer o Maranhão, por que foi bem rápido.
Nessa vinda agora, com mais tempo, pretende conhecer? E da música do Maranhão, você já foi apresentado a algum nome? Há alguém de quem se lembre? Não sei se dará tempo, mas será uma boa oportunidade. Conheço Zeca Tocantins, Carlinhos Veloz, Zeca Baleiro…
Você começou a carreira na mesma época em que Xangai, no entanto tem uma discografia menor. A que você credita isso? Eu não comecei a carreira na mesma época; eu comecei muitos anos atrás, em 1976, 78, em festivais, participei do festival da Tupi, onde participaram vários ícones da música popular brasileira, na época começando, Oswaldo Montenegro, Elba Ramalho, Zé Ramalho, até o Caetano Veloso participou desse festival, Jackson do Pandeiro estava lá. Nós tivemos a oportunidade de participar desse festival, então aí que a gente começou. Eu comecei mesmo a partir de meu primeiro disco, que foi em 1990. O primeiro disco do Xangai foi em 1976 e o meu primeiro foi em 1990, então há uma caminhada já bem longa do Xangai, bem anterior à minha.
Suas músicas mais conhecidas foram gravadas por Xangai, Genésio Tocantins e Titane. O que estes parceiros e intérpretes significam para você? O Genésio Tocantins foi meu primeiro parceiro, a gente trabalhou juntos, passamos por vários festivais. Xangai foi meu maior incentivador, admira meu trabalho, grava músicas minhas até hoje, e a Titane também gravou uma música, Dodói, são pessoas assim, que ajudaram a semear a semente de Juraildes da Cruz.
Qual a base do repertório desta sua apresentação em São José de Ribamar? A base do repertório são algumas músicas mais conhecidas. Como é um público mais específico, tem músicas novas, músicas de reflexão, músicas com uma leitura de nosso tempo, nossa sociedade, e também ligadas ao lado espiritual.
Sua Nóis é jeca mais é jóia venceu o Prêmio Sharp, atual Prêmio da Música Brasileira. Passado algum tempo e após o sucesso da música, o brasileiro parece ainda não ter se livrado de seu complexo de vira-latas. Por que você acha que o brasileiro aprecia tanto e tenta imitar o que vem dali, às vezes pouco se importando com artistas e obras mais interessantes? Na verdade, os maiores meios de comunicação do Brasil são, nada mais, nada menos, do que uma central dos Estados Unidos em nosso país. Como já dizia Elomar, a maior ogiva nuclear que os Estados Unidos lançou no mundo não foi a bomba atômica, e sim o cinema, onde eles colocam, através do cinema, sua cultura, seu jeito de ser, a sua aparentemente melhor maneira, a melhor moda, entende? Então o Brasil não é diferente de outros países que são minados em sua cultura, em seus costumes, pela força da mídia internacional. O que parece que vem de fora sempre será mais bonito para quem não tem uma informação, quem ainda é provinciano, no sentido de valorizar sua cultura. Então, vamos sempre ter essa, melhor não dizer sempre, um dia poderemos ser mais originais e valorizar mais o nosso quintal, o que é nosso, o que é Brasil.
Você falou sobre a interferência americana na soberania nacional. Como avalia o atual momento político vivido pelo Brasil? O momento mostra um Brasil exposto, com todas as fraturas possíveis expostas, uma casa totalmente arrombada, sem dono e por isso mesmo sucateada de todos os lados. Realmente é o fundo do poço, só há uma alternativa: emergir, renascer. Acho complicado, pois não temos peças de reposição confiáveis. O ideal seria que novos no poder representassem mudanças, transformação pra melhor e que não fosse apenas um novo jeito de continuar sangrando o país.
Lembrando que este governo é machista, ano passado você venceu um concurso de músicas sobre a lei Maria da Penha. É uma preocupação tua, em teu trabalho, trazer sempre uma mensagem importante, de cunho social? Meu pensamento tem uma função crítica também, é com se [eu] fosse um sentinela, observador dos acontecimentos. O compositor tem essa oportunidade de retratar a sociedade e tornar acessível, trazer de forma mais clara o que está oculto aos olhos da multidão.
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Ouça Nóis é jeca mais é jóia (Juraildes da Cruz), com o autor:
O bigode mais importante da música brasileira nos deixou esta madrugada. Reprodução
“Se você vier me perguntar por onde andei/ (…)/ de olhos abertos lhe direi”: que falta faz um Belchior nestes tempos tenebrosos que vive o Brasil. Desaparecido há alguns anos, o bardo cearense faleceu esta madrugada em Santa Cruz do Sul/RS, destino final deste “jovem que desce do norte pra cidade grande”, “há tempo, muito tempo, que eu estou longe de casa”
O bigode mais importante da música brasileira já estava afastado de palcos e estúdios há alguns anos, mas é fato que sua obra nunca o deixou desaparecer por completo – o que não acontecerá nem agora, quando de sua subida – e nunca deixou de traduzir o Brasil à perfeição, “amar e mudar as coisas me interessa mais”.
“O passado é uma roupa que não nos serve mais”, mas parece que teimamos em usar, mesmo rota e apertada, que o diga o golpe em curso, que falta faz a mira do sobralense apontada para este estado de coisas, atendendo ao pedido de hashtags e blocos de carnaval: fora, Temer! Volta, Belchior! “Com fé em Deus, um dia/ ganha a loteria/ pra voltar pro norte”.
“O povo cearense enaltece sua história, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará e do Brasil. Que Deus conforte a família, amigos e fãs de Belchior. O Governo do Estado decretou luto oficial de três dias”, declarou o governador do Ceará Camilo Santana (PT) em uma rede social.
“Nossos ídolos ainda são os mesmos” e sexta-feira passada, quando Gildomar Marinho, radicado no Ceará, subiu ao palco para uma canja durante a apresentação de Wilson Zara no Buriteco Café, pedi-lhe que tocasse Conheço meu lugar, a minha preferida (escolha difícil) do repertório de Belchior: “o que é que pode fazer um homem comum neste presente instante?”.
Triste, me pego tentando sorrir de obituaristas que ainda caem na velha piada do quilométrico nome falso que Antonio Carlos Belchior (só isso!) inventou em entrevista à turma do Pasquim.
Mas “não há motivo para festa/ a hora é esta/ eu não sei rir à toa”. “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco” que gasta os poucos trocados com discos, livros e jornais. Agora sabemos por onde anda Belchior. Sua volta pode ser impossível. Sua permanência, não: “guarde uma frase pra mim dentro da sua canção”.
Que venham as homenagens, a mais aguardada, certamente, o lançamento da biografia Pequeno perfil de um cidadão comum, do jornalista Jotabê Medeiros, setembro que vem. “Mas o anjo do Senhor (de quem nos fala o Livro Santo)/ Desceu do céu pra uma cerveja, junto dele, no seu canto/ E a morte o carregou, feito um pacote, no seu manto/ Que a terra lhe seja leve”.
Os caminhos musicais de Kleber Albuquerque e Rubi começaram a se cruzar há 20 anos, quando o segundo ouviu o primeiro disco do primeiro e foi procurar o lendário Mário Manga (ex-Premeditando o Breque) para produzir também seu disco de estreia.
Suas estradas continuaram se cruzando ao longo da carreira, com um participando de discos do outro (Kleber é um dos principais compositores do repertório de Rubi), além da participação comum em trabalhos de artistas como Zé Modesto.
No fim do ano passado estrearam o show Contraveneno, batizado por parceria de Kleber com Flávvio Alves, poeta-produtor à frente da Sete Sóis, que lança os discos da dupla, e com que passaram por São Luís em outubro passado. O show virou disco. Era o horizonte comum que faltava em suas trilhas.
O clima intimista e delicado do show foi transposto para o registro, gravado ao vivo no estúdio Parede Meia. Rubi (voz e violão requinto) e Kleber Albuquerque (voz e violão), que assina o projeto gráfico do disco, são acompanhados por Mário Manga (violoncelo) e Rovilson Pascoal (guitarra e violão).
Kleber Albuquerque é um dos mais sensíveis e talentosos compositores de sua geração e Rubi está entre os melhores cantores do Brasil, quando se conjugam suas qualidades vocais e a seleção de repertório.
Poderiam ter optado por fazer um disco com o melhor destes 20 anos, mas talvez isso soasse óbvio demais. Entre as músicas de seus repertórios a mais conhecida é Ai (Kleber Albuquerque/ Tata Fernandes), já gravada por ambos: “Deu meu coração de ficar dolorido/ arrasado num profundo pranto/ deu meu coração de falar esperanto/ na esperança de ser compreendido”, diz a letra.
Procura no Google e Geração (ambas de Kleber Albuquerque) completam a parte mais conhecida do repertório, ao lado do choro Cerol e da faixa-título, gravadas no disco Outras canções de desvio, de Flávvio Alves, parceiro de Kleber Albuquerque em ambas.
O gosto pela chamada música caipira é outra praia comum da dupla, evidenciada pelos registros plangentes de Castelo de amor (Nenzico/ Creone/ Barrerito), do Trio Parada Dura, que abre o disco, e Eta nóis (Luli/ Lucina).
Kleber e Rubi mostram que suas antenas captam ainda sinais tão distantes quanto os do pernambucano Juliano Holanda (de quem gravam Sem tempo) e a argentina Maria Elena Walsh (Como la cigarra).
A quem não conhece o trabalho de Kleber Albuquerque e Rubi, Contraveneno é ótima porta de entrada. A quem já conhece, há provas de que a safra de inéditas mantém o nível que pavimentou suas estradas – comuns: a caymmiana Milonga da noite preta e o hilariante reggae Papai Noel tomou gardenal (ambas de Kleber Albuquerque), que conta as aventuras de um bom velhinho que se cansa dos sininhos de natal e se aventura por outros ritmos na Jamaica e no Brasil.
Do repertório do Premeditando o Breque, Lava rápido (Wandi Doratiotto) fecha Contraveneno. Uma homenagem aos vanguardistas-paulistas, competentemente representados no disco por Mário Manga. Muito justa: afinal de contas, foi com ele que tudo começou.
Cantor lança duas faixas em show nesta sexta-feira (21) no Odeon; disco novo sai em agosto
O cantor e compositor Marcos Magah lança nesta sexta-feira (21), às 21h, em show no Odeon Sabor e Arte (Praia Grande), o single Devolva meus discos do Odair José/ Tito (O que morreu esmagado por uma geladeira). Os ingressos, à venda no local, custam R$ 20,00.
As faixas não estarão no repertório de O homem que virou circo, terceiro disco de Magah, que será lançado em agosto. “Estas duas músicas indicam um caminho do que vai ser esse álbum. Eu não gosto de me repetir. Eu lanço uma coisa, eu não revisito. Esse single indica por que caminho nós vamos mais ou menos andar”, adianta.
Magah classifica Tito, parceria com o poeta Celso Borges, que participa da faixa, como “um xaxado psicodélico”. A música conta a história real de um homem que, como entrega o subtítulo, morreu esmagado por uma geladeira. Já Devolva meus discos do Odair José marca a estreia de Magah como intérprete – a música é uma parceria de Inácio Araújo e Leide Ana Caldas, de Os Carabinas, banda que abre a noite – que terá ainda discotecagem de Hugo Bodansky.
Para Magah, trata-se de “um típico clichê brega clássico”, dando mais pistas do que vem por aí. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
“Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo”. Foto: Marco Aurélio
Você vai lançar um single, com duas músicas, revivendo a tradição de antigamente, dos compactos, neste caso antecedendo um disco cheio. Como você avalia esta, digamos, volta às origens da indústria fonográfica? Eu acho que o vinil é uma espécie de “a volta dos que não foram”. O vinil nunca foi totalmente abandonado. Eu, particularmente, sou colecionador de vinil. Agora, falando concretamente sobre essa coisa de ele estar vindo e as pessoas se interessando, comprando, a indústria lançando, eu acho que a indústria está tentando no meio dessa confusão toda em que se transformaram as gravadoras e o mercado de música, tentando se reinventar, tentando encontrar um jeito de que isso possa continuar sendo consumido. Eu, quando vi aquele negócio de cd, nunca comprei essa ideia, tudo muito pequenininho, a parte gráfica perde muito. Eu sabia que o vinil, como um grande guerreiro, ia continuar vivendo. Eu acho maravilhosa essa volta do vinil, acho fantástico.
Tito é um personagem verídico e sua morte, esmagado por uma geladeira, de fato ocorreu. Gostaria que você comentasse um pouco este personagem, a ideia da homenagem e a parceria e participação especial do poeta Celso Borges. Eu só falo o que eu vi. Tito, de fato, morreu esmagado por uma geladeira, por mais absurdo que isso possa parecer. Era um cara que trabalhava lá em Bacabal, em caminhão de mudanças. É uma cena meio maluca, surreal. As pessoas acham que uma pessoa não pode ser esmagada por uma geladeira. Claro que pode. Uma geladeira velha, sem gás, ela pesa. A geladeira da minha vó, pelo amor de Deus, eram uns quatro homens para carregar. Brinca também com esse universo, das coisas antigas que eu via na casa da minha vó. É uma homenagem minha ao Tito, um cara por quem eu tinha muito carinho, e ele por mim. A geladeira também pode ser vista como a realidade, essa realidade dura que a gente vive, que te esmaga. Todo dia a gente morre esmagado pela geladeira da realidade, uma realidade cada vez mais monstruosa, onde a vida se mostra cada vez mais dura, as pessoas mais duras, tudo está mais duro. A sensação dessa coisa do politicamente correto parece querer botar uma fleuma, uma pluma por cima disso, mas a realidade é muito complicada. A realidade é a geladeira, caindo por cima da gente todo dia. Eu comecei a pensar nessa música em São Paulo, quando eu estava com Celso. Celso Borges tem se mostrado um parceiro, é o parceiro mais ativo que eu tenho hoje, é a pessoa com quem mais eu faço música, com quem mais eu bato papo, peço ajuda, encho o saco dele. A gente começou a pensar em São Paulo. Chegando aqui, perto de gravar, a gente finalizou. Hoje a gente se chama de Tito um quando olha o outro [risos], “e aí, Tito? E aí, Tito?”. Celso é um parceiro, um amigo querido que eu fiz. Eu era um fã, que virou amigo, que virou parceiro. Já dá pra bater a biela com um pouquinho de orgulho [risos].
Devolva meus discos do Odair José também é, então, autobiográfica? Há algo de inspiração buarqueana aí, com o cantor sendo o teu Neruda? Na verdade Devolva os meus discos do Odair José é a primeira vez que eu gravo uma canção que não é minha, de todo, de eu pegar e fazer tudo. O Inácio e a Leide certo dia me mostraram essa música no apartamento deles. Eu produzo muito, pra gravar música dos outros é complicado. Mas quando eu ouvi, eu falei: “ei, eu vou gravar essa música”, e eles não acreditaram. Eu peguei e gravei. É uma composição da Leide e do Inácio. É uma brincadeira com o Chico Buarque, “devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu” [de Trocando em miúdos, parceria com Francis Hime]. É uma brincadeira que na verdade é uma sacanagem com o Chico Buarque, uma provocação.
Você se encontrou com Odair José recentemente, quando ele passou por São Luís para um show. Ele aprovou a homenagem e gravou imagens para um clipe teu. Conte um pouco mais desse encontro. A gente se encontrou aqui em São Luís, ficamos de papo, foi uma experiência maravilhosa. Odair é um ser humano que vive em outro nível. Tu aprende tanto convivendo com um cara com uma alma como aquela ali. Odair é um ídolo, eu fiquei impressionado com o ser humano, com a figura dele. Parecia que eu tinha encontrado uma entidade. Nossa conversa foi muito sincera e muito aberta, por que nenhum dos dois está disposto a pagar de artista chilique [risos]. Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo, quem me conhece sabe disso, e Odair com toda sua grandeza não tem isso. Foi ótimo! O que mais me impressionou, além da figura dele, foi o fato de ele dizer pra mim que já conhecia meu trabalho, que gostava, e que adorou a música do Odair José, ele disse que morria de rir da parte do Neruda. Como ele já conhecia meu trabalho, a conversa andou por outro nível. Ele falou que ia no youtube escutar, eu fiquei lisonjeado. Eu lembrei de mim aquele molequezinho que amava Odair José, e de repente eu estava do lado do cara. Ele ficou feliz com a homenagem. Em relação ao clipe nós estamos vendo isso. Isso e outras novidades que talvez venham por aí. Eu acredito que o Odair vá participar, sim. A gente vai fazer um clipe lindo em homenagem a esse gigante da música brasileira. Foi um encontro espiritual [risos], digamos assim.
É a primeira vez que Wellyson [Melo, produtor de Z de vingança] toca contigo em palco, não é? É a primeira vez. Os meninos ficaram maravilhados com a técnica dele. Os meninos da banda estão tipo assim: “pô, esse cara é desse planeta?”. Ele está tocando teclados e efeitos. Ele toca todos os instrumentos, pra tu ter uma ideia. É a primeira vez que a gente toca junto, assim. Ele vai estar também no show do dia 6 [de maio], do Marcelo Nova [Magah abrirá o show do roqueiro baiano no Fanzine Rock Bar]. Ele veio para o Maranhão e está louco para se incorporar ao negócio da banda. “Magah, eu não quero só gravar, eu quero tocar contigo!”. É um gigante, é como se ele passasse um verniz naquela loucura toda. É um arranjador, de fato, um cara com uma formação. Não sei o que esse cara viu no meu som, até hoje eu sou encabulado com isso.
Cláudio Lima lança em maio disco novo, Rosa dos ventos, com duas músicas tuas. É um dos grandes cantores brasileiros em atividade. O que significa para você tê-lo como intérprete? Claudio Lima é um dos grandes cantores brasileiros. Está lançando um álbum fantástico, eu tenho escutado direto. Pra mim é uma honra. Quando eu escuto ele cantando minhas músicas eu fico feliz pra caramba. É um grande amigo. É um cantor fantástico, eu tenho a maior admiração, como intérprete, como pessoa. Quero que ele cante mais músicas minhas. E vem aí um discaço. Claudio está com um trabalho fora de série na mão. Vamos aguardar!
Odair José foi censurado pela ditadura militar brasileira. Recentemente a banda Alafia, ao se apresentar no Cultura Livre, na TV Cultura, sem o consentimento da idealizadora, curadora e apresentadora do programa, Roberta Martinelli, teve trecho de uma música em que criticam Doria e Alckmin, censurado. Como você avalia o atual momento político e cultural brasileiro? Eu vejo o passado, com o seu lado mais nefasto, visitando o presente. A gente está vivendo uma época, coisas que talvez há quatro, cinco anos, nós não imaginássemos que fossem voltar. A História é assim, não é retilínea, é uma cobra que se esgueira e às vezes morde o próprio rabo. A gente está vivendo esse mar revolto, essa confusão toda dentro da política, às vezes vendo artista sendo censurado, em pleno 2017. Eu sempre fui muito [interrompe-se], quando eu escutava “nós temos uma democracia constituída, e tal, tal, tal, sedimentada, com bases sólidas”, eu nunca acreditei muito nesse discurso. Você não pega 30 anos de ditadura, que acabou engessando essas instituições políticas de maneira geral e vê amadurecerem assim. Esses 30 anos de ditadura ainda não foram vencidos. Então a gente fica vendo essas voltas, uns Bolsonaros, uns oportunistas, esses momentos de crise, a História tem provado isso pra nós, de discursos mais conservadores, acabam voltando e dando um viés para a História inimaginável. Essa da censura é terrível. Existe um lado que eu vejo como importante e salutar da questão: a polarização do discurso. Eu acho que dessa confusão toda vão sair coisas melhores, vamos amadurecer essa polarização. Eu acredito no atrito, tem que ter o atrito para que as coisas avancem, se não fica todo mundo escovando o dente de todo mundo. Eu acredito que desse atrito a gente pode colher frutos e avançar como sociedade, e aí sim, de fato, sedimentar valores humanitários, tentar levar a humanidade pra frente. A polarização do discurso às vezes é necessária. A gente fica preocupado, como artista, como cidadão, a gente está de olho e não pode esquecer que somos partes ativas da História, precisamos estar ligados. Mar revolto, mar revolto total. Vamos torcer para que daí consigamos avançar de fato. Em todas as áreas, não só na artística. A gente vê um judiciário completamente maluco e capenga, confusão política dos infernos, é um momento realmente complicado. Mas eu acho que o caos é o prenúncio de um novo tempo.
Outras canções de desvio [Sete Sóis, 2016] é trabalho de meticulosa ourivesaria. O disco, assinado pelo poeta Flávvio Alves, reúne poemas seus musicados por Kleber Albuquerque (Cerol, Orquídea cósmica, Teus olhos meus, Contraveneno e Desvio), Du Gomide (Quase lá), Carlos Careqa (Às traças), Richard Serraria (Mantra), Gabriel Schwartz (Novo amor antigo), Assis Medeiros (Em vão) e Fred Martins (Dois). Em uma faixa-bônus Kléber Albuquerque canta trecho de poema de Fernando Pessoa: “dorme, que a vida é nada!/ Dorme, que tudo é vão!/ Se alguém achou a estrada,/ achou-a em confusão,/ com a alma enganada”.
Nas 12 faixas a fina flor do que se convencionou chamar de nova MPB. Além dos compositores citados, cantores e instrumentistas surgidos no cenário nacional a partir de meados da década de 1990. Daniel Groove (Cerol), Kléber Albuquerque (Quase lá, Teus olhos meus, Mantra, Novo amor antigo e o trecho do poema de Pessoa), Carlos Careqa (Às traças), Fred Martins (Dois), Renato Braz (Orquídea cósmica, em dueto com Fred Martins), Aline Nascimento (Contraveneno, em dueto com Kléber Albuquerque), Ceumar (Desvio) e Elaine Guimarães (Em vão) emprestam sua voz aos poemas de Flávvio Alves, acompanhados por Rovilson Pascoal (contrabaixo, cavaquinho, guitarra, violão, ukulelê, teclado, violão 12 cordas, teremim e loops rítmicos), Gustavo Souza (percussão), Luque Barros (violão sete cordas), André Bedurê (contrabaixo em Contraveneno), Simone Sou (percussão em Desvio), Luiz Gayotto (percussão e percussão vocal em Novo amor antigo) e Estevan Sinkovitz (guitarra em Dois).
Desde aquela época, esta constelação tem sido responsável pelo lançamento de discos primorosos, parte deles pelo selo Sete Sóis, cujo principal nome por trás é justamente Flávvio Alves, que, ao agradecer a Kleber Albuquerque, em texto no encarte, afirma: “sem ele este trabalho não existiria, seria um dos tantos arquivados em minha gaveta”. A julgar pela beleza deste, não hesitamos em afirmar: é preciso desengavetar. Nome que mais aparece no encarte de Outras canções de desvio, o cantor e compositor assina também seu projeto gráfico, à altura da beleza do conteúdo – também pelo Sete Sóis, Kléber Albuquerque acaba de lançar um disco dividido com o cantor Rubi, intitulado justamente Contraveneno [2017], produzido por Flávvio Alves, cujo show passou pela Ilha ano passado.
Aos que julgam discos – e livros – pela capa, não se enganarão os que se arriscarem por ela, que aí começa a beleza deste disco: a ilustração de um violeiro numa encruzilhada – um dos possíveis desvios do caminho – é do escritor e desenhista Lourenço Mutarelli. A ele e sua esposa Lucimar, Flávvio Alves dedica Dois: “tudo tem sua vez/ mas toda vez/ vem depois de nós dois”, “posso ouvir teu olhar/ posso ver tua voz” e“tudo tem um talvez/ mas com você/ tudo é certo demais”, diz a letra.
Basicamente são canções de amor, mas nada há de piegas em Outras canções de desvio, disco que levanta o astral e o polegar positivamente e com rara categoria para responder à questão batida: letra de música é poesia? “De toda farsa imensa sempre em cada dia/ Nada ultrapassa a força bruta da poesia/ Em meio à massa a moça fica mais bonita/ é frágil a louça, ágil a fantasia”, diz a letra de Às traças.
Outro exemplo?: “era tanta magia/ no olhar da poesia/ raspas de luar/ mel de melodia”, em Teus olhos meus. Mais um?: “que haja sempre uma rede no alpendre da ilusão/ um novo verso no ventre universo/ e um maço de canção/ um novo verso no ventre universo/ pra tanto tropeço e decepção”, em Mantra. Deleitem-se e tirem suas próprias conclusões.
Regida pelo maestro Thiago Santos, a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Paraíba (OSUFPB) encerrou ontem (10), em São Luís, sua bem sucedida Temporada 2017 – Tournée Nordeste (como grafado no programa), que passou por Mossoró/RN, Fortaleza/CE e Teresina/PI.
A inclusão da capital maranhense no circuito marca o início das comemorações dos 10 anos do curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que abrigou o concerto, apresentado para um público de mais de 500 pessoas, num auditório que não por acaso leva o nome de Paulo Freire – que não por acaso também, abrigou, na manhã de ontem, um Concerto Didático, com a presença de cerca de 300 alunos de escolas públicas de São Luís.
A OSUFPB caminha na contramão, numa época em que orquestras sinfônicas são fechadas pelas batutas de gestores públicos, aqueles cujo slogan “não pense em crise, trabalhe” vale apenas para os outros, aqueles que pouco se importam com políticas públicas de cultura, preocupando-se tão somente com o sucateamento e a consequente privatização de instituições e espaços públicos.
“A orquestra não é só da Paraíba. É de todos nós. De todos que pagam impostos e às vezes nem sabem que o dinheiro está financiando uma orquestra”, declarou o professor Ulisses Carvalho da Silva, vice-diretor do Centro de Comunicação, Turismo e Artes da UFPB.
O percurso da orquestra paraibana, com seus mais de 20 músicos contratados, neste contexto, poderia representar um luxo, mas é bem mais que isso: é uma necessidade. Um dos resultados práticos do “correr trecho” é o anúncio, por parte da Universidade Federal do Piauí (UFPI), da profissionalização de uma orquestra de alunos que já existe por lá, conforme nos revelou o compositor Adeíldo Vieira, assessor de comunicação da OSUFPB. Quantos dos presentes ao concerto de ontem, qual este repórter e o fotógrafo que o acompanhava, não nos perguntamos por que ainda não temos uma Orquestra Sinfônica no Maranhão?
No palco, o concerto foi de uma beleza ímpar, homenageando, além dos 10 anos do curso de Licenciatura em Música da UFMA, os 90 anos de Ariano Suassuna e os 130 anos de Heitor Villa-Lobos, dois ferrenhos nacionalistas, apaixonados pela cultura popular, cujos elementos foram incorporados às suas obras na literatura, teatro e música.
Estes elementos populares eram o fio que costurava o repertório do programa da apresentação de ontem. O concerto foi aberto com o Mourão, de Guerra-Peixe. O compositor carioca morou em Pernambuco e, mesmo sendo um “erudito”, realizou arranjos para cantores e compositores “populares” como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Inezita Barroso, Marília Batista, Baden Powell e Vinicius de Moraes, entre outros, demonstrando que estas linhas são bastante tênues.
Seguiu-se Toada e desafio (Arthur Barbosa), com os corpos dos instrumentos tornando-se set percussivo. À Fantasia para saxofone (Heitor Villa-Lobos) voltou a percussão nos corpos dos instrumentos, contando com as palmas marcando o ritmo, pela orquestra e plateia, além da participação especial de Arimatéia Veríssimo (saxofone soprano), coordenador da OSUFPB, que, não se fazendo de rogado e, seguindo o exemplo de Guerra-Peixe, apresentou a popular Duda no frevo (Senô), para delírio dos maranhenses.
À Serenata para cordas (Tchaikovsky), que, pelo programa encerraria o concerto, seguiu-se um bis com Serenata (Alberto Nepomuceno), peça e nome extras a dialogar com os homenageados pela OSUFPB nesta temporada.
Os músicos já haviam aplaudido, do camarim, quando o professor Ulisses os saudou, na abertura. Após serem aplaudidos de pé por mais de dois minutos pelo auditório Paulo Freire lotado, sentaram-se novamente ao fim da Serenata do cearense, como a anunciar um novo bis. Levantaram-se imediatamente, demonstrando que erudição e bom humor não precisam ser antagônicos.
No palco e fora dele, a OSUFPB e sua circulação pelo Nordeste se mostram necessárias, a arte dando sua contribuição no enfrentamento aos preconceitos de sempre a que estão submetidos os naturais da região, que assume um papel de vanguarda no enfrentamento da crise.
Rita Lee: uma autobiografia [Globo, 2016, 294 p., R$ 44,90] não era a primeira incursão da ex-Mutantes e ex-Tutti-Fruti no mundo literário – a mais recente, Storynhas [Companhia das Letras, 2013, 96 p., R$ 39,90], ilustrada por Laerte, trazia pequenas histórias expandidas do sucesso que fazia no twitter. É bem escrita, apesar do miguxês típico das redes sociais, aqui a autora inventando novas palavras, acolá chamando todo mundo de fofo ou fofa, quase uma Hebe Camargo – outra que recebe o adjetivo ao longo da narrativa de capítulos curtos.
É inegável a importância e o pioneirismo de Rita Lee, 70 anos em 2017, para a afirmação feminina, extrapolando inclusive os limites do ambiente machista do rock – e de resto, da música brasileira de modo geral, ainda que vivamos em um país de cantoras. “O clube do Bolinha afirmava que para fazer rock “precisava ter culhão”, eu queria provar a mim mesma que rock também se fazia com útero, ovários e sem sotaque feminista clichê”, diz.
O livro segue uma ordem cronológica, da infância à aposentadoria – Rita Lee não grava ou lança disco novo desde Reza [2012] – e tem sacadas bem humoradas, sobretudo na parte inicial, dedicada ao casarão em que vivia com os pais e as irmãs.
A cantora e compositora não poupa sequer a si mesma e narra, nunca perdendo o bom humor, desde o estupro com uma chave de fenda que lhe tirou a virgindade a problemas com drogas, lícitas ou não, um aborto, passando por cirurgias das cordas vocais e hemorroidas, censura durante a ditadura militar, entre tantas aventuras glamourosas ou não, mais ou menos típicas do universo dos famosos, incluindo o casamento com Roberto de Carvalho, cujo namoro teve por cupido Ney Matogrosso, de cuja banda ele então fazia parte, e os dias que passou grávida na prisão – com direito a estardalhaço midiático, à época.
Os bichos de estimação (incluindo cobras e jaguatiricas) que teve ao longo da vida ganham destaque nas páginas da autobiografia de Rita Lee, que confessa ser a defesa dos animais a única bandeira que empunhou na vida.
“Numa autobiografia que se preze, contar o côtè podrêra de próprio punho é coisa de quem, como eu, não se importa de perder o que resta de sua pouca reputação. Se eu quisesse babação de ovo, bastava contratar um ghost-writer para escrever uma “autorizada””, afirma. Só se autocensura ao citar um episódio ocorrido em Aracaju, quando o texto do livro vem tarjado (portanto ilegível) ao longo de duas páginas.
Senhora de si, por vezes soa arrogante ou pretensiosa, mesmo quando quer posar de modesta, quando critica este/a ou aquele/a disco ou música de sua autoria. Noutras, deselegante e ressentida, sobretudo ao lembrar os tempos vividos com os irmãos Arnaldo Baptista – seu ex-marido – e Sérgio Dias, companheiros de Mutantes.
“Eu aqui apenas conto o lado da minha moeda com o distanciamento inverso ao dos críticos-viúvos que teimam interpretar a história como se soubessem mais do que quem, como eu, fez parte dela”, justifica-se, apontando os dedos para críticos e jornalistas como Carlos Calado, autor de A divina comédia dos Mutantes [Editora 34, 1995, 358 p., R$ 64,00].
A autobiografia de Rita Lee perpassa toda sua discografia, desde O’Seis pré-Mutantes, até o derradeiro solo, com opiniões da cantora sobre tudo – é bastante dura ao falar de Tecnicolor, gravado pelos Mutantes em Paris em 1970, e só lançado no Brasil em 2000, outra oportunidade em que alfineta Sérgio Dias, segundo ela o responsável pelo lançamento tardio do álbum renegado. Para ela, ele é um dos que não aceitam que aqueles bons tempos não voltam mais graças aos deuses da música, para quem lançamentos do tipo, e revivals como os shows no Barbican Theatre, em Londres, em 2006 (que viraram cd e dvd), em que Os Mutantes tiveram Zélia Duncan nos vocais, servem apenas para os velhinhos pagarem os geriatras.
Rita Lee: uma autobiografia é um livro gostoso de ler, que traz detalhes de bastidores de importantes períodos para a música brasileira, de pouco antes da Tropicália, passando pelo boom do rock nacional. Bem podia ser um pouco menos azedo, ou talvez a intenção seja mesmo essa, já que a polêmica em geral vende mais, podendo, portanto, significar mais grana para o geriatra. Uma coisa certamente não se pode dizer: que Santa Rita de Sampa – excomungada pela Igreja Católica – não tenha envelhecido com dignidade.
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Veja o clipe de Reza (Rita Lee/ Roberto de Carvalho), que dá nome a seu último disco:
[íntegra da entrevista publicada hoje nO Imparcial]
Em Gatos e ratos, seu novo disco, o cantor e compositor goiano ajusta a mira contra a classe e o sistema políticos. Ele se apresenta em São Luís no próximo dia 7
Gatos e Ratos. Capa. Reprodução
Odair José não é um artista de meias palavras. Sempre foi explícito e cantou o que quis. Tanto que incomodou ditaduras na América Latina e setores conservadores da Igreja Católica, como revelou o historiador Paulo César de Araújo em Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar [Record, 2002, 458 p.].
Gatos e ratos, seu mais novo disco, 36º. de inéditas da carreira, segue essa trilha. É um disco explícito, com a mira ajustada ao sistema político brasileiro e seus representantes. O álbum reivindica direitos abertamente.
Foi gravado por um power trio, com uma pegada roqueira que sempre interessou ao artista, em geral injustamente rotulado meramente de brega. Odair José (voz e guitarra), Junior Freitas (guitarra, contrabaixo, teclado e piano) e Caio Mancini (bateria e percussão) põem os dedos nas feridas. Sem firulas.
Foto: Rama de Oliveira
FAIXA A FAIXA
A faixa-título é uma metáfora. Embalada pela sonoridade rock’n roll que permeia todo o disco, aparentemente é música romântica, mas desde ela, que abre o disco, Odair José começa a dar seu recado. Com as guitarras se sobressaindo, Carne crua joga luzes sobre as populações de rua.
Tema recorrente em sua obra, o preconceito é o tema de Moral imoral. Trânsito é um protesto contra a violência no trânsito, espécie de competição insana em que se transformou o fluxo de veículos e pedestres nas grandes cidades. A liberdade sexual é o mote de Segredos, em que Odair José volta a falar abertamente de homossexualidade: “o caminho do céu passa perto do inferno/ antes que anoiteça abra a porta do armário/ quem guarda segredos tira onda de otário”, diz a letra.
Em A culpa é do Henrique uma crítica incisiva à corrupção. Ainda com as baterias apontadas para a classe política, Cobrador de impostos se volta contra a carga tributária no Brasil. A cor do pecado é talvez a mais direta das faixas de Gatos e ratos. Aborda o preconceito racial, critica governantes, diversas políticas sociais e a ausência do Estado, tocando num dos assuntos mais polêmicos quando se trata de direitos humanos: os direitos de pessoas privadas de liberdade. “A superlotação nos presídios chega a ser desumana/ quem pensa que isso corrige comete um engano”, canta.
Em Açúcar mascavo, Odair soa como uma espécie de professor de amor, calejado pelas próprias experiências. Como entrega o título, em Livre, que encerra o disco, o artista volta ao tema das liberdades, sempre presente em sua obra. Este disco não poderia ser diferente.
Odair José apresenta o show A noite mais linda do mundo, no próximo dia 7 (sexta), na Casa das Dunas (Av. Litorânea), às 21h. Os ingressos custam entre R$ 40,00 e 60,00.
O artista conversou por telefone, com exclusividade, com Homem de vícios antigos.
Foto: Rama de Oliveira
Homem de vícios antigos – Você sempre foi um artista que cantou o que quis, de modo explícito. Esse seu novo disco, Gatos e ratos, ajusta a mira na classe política do país. Como você observa esse momento conturbado que o país atravessa? Odair José – Você falou bem: eu sempre fui um cronista das coisas que vejo. Eu sempre falei de uma forma muito explícita, o meu recado sempre foi na reta, eu nunca dei volta. Por isso mesmo, até, no passado, eu tive dificuldades, às vezes, com a censura do governo, e tenho até hoje dificuldade ao dizer as coisas com essa censura hipócrita da sociedade. Eu escrevo justamente sobre o que eu vejo, mais do que o que eu sinto. O que eu vejo é que nós estamos vivendo uma época muito difícil, no mundo todo, mas no Brasil especificamente, de uns anos pra cá, eu vou cada vez ficando mais assustado com a falta de ética na política brasileira. Como isso interfere na vida do cidadão? Totalmente. A política brasileira é um reflexo da sociedade? Pode ser. E é isso que é mais assustador ainda.
Você sofreu censura da ditadura militar brasileira e da igreja católica, embora esse assunto só tenha vindo à tona por iniciativa do historiador Paulo César de Araújo, no livro Eu não sou cachorro, não. Ídolo popular, o Chacrinha também apontou o dedo pra você e outros cantores famosos da época. Como é que você relembra esses fatos, hoje? Eu tive muita dificuldade com determinados segmentos. Segundo pesquisas, eu fui o segundo mais censurado deste país. Isso não é uma glória, isso é uma coisa muito chata, isso não é para se comemorar, é para se lamentar. Com respeito ao Chacrinha, eu tive dificuldades com Chacrinha no sentido de que, quando ele se desligou da TV Globo eu fui contratado pela TV Globo. Eu não podia, naquele momento, me apresentar no programa que ele tinha no canal de televisão dos Diários Associados. Então o Chacrinha começou a fazer uma campanha muito grande contra o Odair José, especificamente. Mas mais por conta desse negócio do contrato. O Chacrinha eu acho que não tinha nada exatamente contra o Odair José. Mas ele chegou a ir até o João Calmon, que era o superintendente geral dos Diários Associados, para pedir a não execução de meus discos nos Diários Associados, que naquele momento tinha uma rede de rádio muito grande no Brasil. Mas isso terminou não acontecendo e depois, mais tarde, depois do contrato vencido com a Globo, acabei me apresentando no Chacrinha e ficou o dito pelo não dito. Mas eu sempre tive essa dificuldade. A Igreja Católica especificamente nunca me olhou com bons olhos, por conta dos meus questionamentos. Eu sou assim meio pé atrás quando as pessoas manipulam. Eu vejo o povo sendo manipulado por segmentos religiosos e isso incomoda as pessoas.
Você também foi pioneiro ao trazer em sua obra temas como as empregadas domésticas e as prostitutas. Há alguns anos a PEC das domésticas causou furor em setores da elite nacional. Você se considera um visionário? Eu vou falar primeiro da prostituta. Eu tenho um sonho, eu estou com 68 anos e possivelmente eu não vá ver isso, nem se eu vivesse 150, mas eu tenho um sonho desde 1972, quando eu fiz a música Eu vou tirar você desse lugar, que é contando a história do cara que se apaixona por uma prostituta e casa com ela. A minha intenção era chamar a atenção para um problema existente. Isso é um fato, isso acontece e não acontece de agora: acontece há mais de 2000 anos. O meu sonho, que eu disse que não vou ver, é ver a prostituição sexual ser reconhecida como trabalho. Ter uma carteira, ter o reconhecimento da sociedade e não ser visto como uma podridão, como uma coisa marginalizada. Isso é um absurdo, é uma hipocrisia maior que o mundo. Esse sonho talvez eu não vá realizar, eu tenho dito isso no microfone, tenho dito isso no palco quando vou cantar a música. Tem duas coisas que eu sonho: gostaria de ver o comércio do sexo, que é uma coisa tão antiga, o que seria do mundo se não fossem as prostitutas? Os homens fazem uso disso há quantos anos? Seja de que segmento social for, ele já fez ou vai fazer isso. E por que ignorar isso? E também o negócio da maconha: acabar com a discriminação da maconha, [esse discurso de] que tem que criminalizar, que quem usa maconha é bandido, e não é. Tem que liberar! Eu falei em uma música em 1974, a música A viagem, já falando sobre isso. Enquanto não resolver também essa hipocrisia, por que tem setores importantíssimos que lucram com isso. Essas coisas todas têm que ser revistas na nossa sociedade. Com respeito à empregada, na nossa sociedade a empregada servia pra tudo: pra trabalhar tipo escrava, pra ser escrava sexual do patrão ou do filho do patrão e assim ia, e não era reconhecida profissionalmente. Eu falei para chamar a atenção, na época as pessoas até ironizaram a canção, e só no governo da Dilma, em 2014, é que houve alguma coisa em benefício das empregadas domésticas. Eu não me considero um visionário, eu apenas vejo as coisas e falo e às vezes incomoda. Como você falou do Gatos e ratos, eu estou falando um monte de coisas e às vezes as pessoas podem não gostar. Mas alguém tem que falar. Eu não me sinto bem não falando, acho que é minha função como cidadão.
Ainda nos anos 1970 você deu uma guinada na carreira ao gravar a ópera-rock O filho de José e Maria [de 1977]. Que está fazendo 40 anos este ano.
Isso! Este novo disco foi gravado apenas com você e mais dois músicos, no formato roqueiro de power trio. O rock sempre te interessou? Sempre me interessou. É engraçado isso, as pessoas se assustarem um pouco com isso, mas quem me conhece de perto, [sabe que] eu sempre fui ligado a esse tipo de coisa, essa coisa de rua e o rock é uma coisa de rua. Eu sempre gostei, eu ando com a guitarra no pescoço desde meus 15 anos de idade. Odair José sempre se apresentou pelo Brasil como um trio, quando muito um quarteto. Às vezes as pessoas se assustavam. Em determinado momento, quando eu tinha condições de levar produções maiores, eu não levava, por que eu achava que eu tinha que me apresentar daquele jeito. E era uma coisa meio incoerente, por que às vezes o disco tinha sido gravado de uma outra maneira, por uma questão de mercado, de gravadora, de filosofia de gravação, você às vezes usava outros instrumentos que não fossem a guitarra, o baixo. Mas agora que estou tendo a liberdade para fazer isso. Eu já quis fazer em 1977, O filho de José e Maria ia ser gravado como foi gravado agora o Gatos e ratos. É que na época a gravadora mais uma vez não permitiu. Mas eu tive a felicidade de ter o Azimuth junto e fizemos um grande disco. Há 40 anos foi gravado um disco que hoje você escuta, você há de concordar, tem muita qualidade, tanto na gravação quanto na execução dos músicos. Ele foi muito bem pensado. Agora eu estou conseguindo fazer isso: eu sempre me apresentei pelo Brasil afora, eu e mais dois ou três músicos. Era esquisito, por que de repente, o cara ouve um disco, aquele monte de instrumento, violino, sopro e não sei o quê, e quando vai ver o show via um cara com a bandinha pequenininha de garagem, e agora eu estou procurando ser honesto, eu sou isso aqui. Eu vou fazer o show e o cara vai ouvir o Gatos e ratos. Eu consigo levar aquele som pro palco.
Uma forma até de tornar tua obra ainda mais popular, já que isso permite circular com menor custo. Isso é um ponto. Outro ponto é o seguinte: eu acho que não tem como não ser popular uma coisa, você falando de coisas que estão no dia a dia das pessoas, com guitarra, baixo e bateria, quando muito, às vezes, um piano ou um teclado, com três acordes, quatro acordes, que é a música que eu faço. Onde isso não é popular? Eu acho que é popular. E como você falou: fica mais fácil até de eu andar por aí.
O maranhense Zeca Baleiro tem alguma responsabilidade nessa nova fase desse culto a Odair José, contribuiu de alguma maneira para conquistar novos fãs. Como vocês se conheceram e como pintou essa amizade? Sim, é engraçado isso. Na verdade, minha proximidade com Zeca começou com 2005 ou 2006, já se vão 11 anos. Quando o Zeca apareceu eu fui a um show dele no Rio, no antigo Teatro da Lagoa, nem falei com ele, ele apareceu para tocar e eu fui assistir com um amigo meu. Eu gostei do Zeca. Mais tarde tive a oportunidade de tocar com o Zeca numa noite num Sesc aqui de São Paulo, o Sesc Ipiranga. Depois o Zeca participou daquele tributo que fizeram em homenagem a Odair José [Eu vou tirar você desse lugar, de 2009], ele cantou Eu, você e a praça, e eu e o Zeca começamos a nos encontrar, a nos apresentar, ficamos amigos. Zeca é uma pessoa muito generosa, acho que isso é do maranhense, eu me dou bem com um monte de maranhenses. O Zeca é um cara boa praça pra caramba, inteligente, focado, sabe fazer a leitura das coisas. Eu tinha pensado em 2009, por aí, 2010, “ah, eu não vou gravar mais discos, não, eu já tem música demais, acho que não precisa, eu tenho tanta música”. Eu vou pro palco e não consigo cantar todas, o povo ainda fica pedindo, dizendo que eu não cantei a que ele queria. Meu show é um show que não satisfaz, por que eu saio do palco e “ah, você não cantou minha música”. Você não consegue cantar tudo, né? Foi quando o Zeca me convidou para fazer um disco lá na Saravá [Discos, selo de Zeca Baleiro]. Eu falei: “ah, Zeca, eu não tou a fim de fazer disco, não”. E fiz aquele disco até dizendo que seria o último disco da minha carreira. Depois eu me interessei de novo pela coisa, acordei de novo.
Ainda bem. Ainda bem, né? Ele é gente muito boa, gosto muito do Zeca.
Por falar nele, qual a expectativa por este show aqui na terra natal do amigo? A minha expectativa é grande. Faz tempo que eu não vou aí. A última vez eu estive com o Zeca, cantei três músicas a convite dele. Antes, fazia tempo que eu não ia a São Luís. Eu estou rodando, já fiz três shows em São Paulo, sábado fiz Belo Horizonte. Eu procurei o Zeca para saber de que forma eu poderia me programar em São Luís. Ele estava nos Estados Unidos, nem cheguei a falar com ele, achei o Ricardo Pororoca e falei: “bicho, eu tenho que passar por aí”. Quero até mandar um abraço pro Ricardo, aí da Casa das Dunas. E depois falei com Zeca, e ele me disse: “vai cantar numa boa casa”. Eu estou levando um show, deveria se chamar Gatos e ratos, mas o Ricardo botou A noite mais linda do mundo, que também tá bom. Meu show, minha intenção é divertir as pessoas, matar as saudades minha e das pessoas das canções, mas também mostrar as coisas novas, cantar um pouco do passado, mas também não esquecer o presente.
Então o repertório vai ser um pouco de Gatos e ratos e um pouco dos clássicos da carreira? Claro! Vou cantar tudo. Vou cantar músicas do Gatos e ratos, de O filho de José e Maria, do Dia 16. O show dura mais ou menos uma hora e 40 minutos, dá para cantar umas 22 músicas. Vou cantar uns 15 clássicos, aqueles que eu acho que têm a ver. Qual é a intenção? Fazer as pessoas pararem para pensar: o que é que esse cara tá falando aí? Eu vou tirar você desse lugar, A pílula [Uma vida só (Pare de tomar a pílula)], essas estarão no show.
Hoje o que te desperta interesse? O que você tem ouvido e te chamado a atenção? Eu tenho ouvido pouco. É um erro meu, mas eu tenho ouvido pouco. Os meus ídolos continuam sendo os mesmos lá de trás. No Brasil, se você vai ouvir alguma coisa, eu vou no trabalho alternativo. Os grandes talentos estão no nosso trabalho alternativo. Infelizmente os trabalhos que estão na grande mídia estão uma mesmice danada. Eu, inclusive, estou querendo ser uma alternativa a essa mesmice, eu não quero ser essa mesmice. Quem repete fórmulas não faz arte, faz negócio. Eu acho que você vai encontrar arte no trabalho alternativo.
Nesse meio alternativo você citaria nomes? Tem um monte, mas como eu te disse eu tenho escutado pouco, sou meio desatento. Se eu for citar um ou outro eu vou esquecer tantos. Tanta gente boa. Vou citar um, por exemplo: O Terno. É um power trio ótimo. Todas as linhas do alternativo são boas, por que o cara quando faz um trabalho alternativo está pensando na arte. Aposto que aí em São Luís tem, como deve ter em todos os estados brasileiros. Mas aí fica essa coisa dessa grande mídia, mostrando essa mesmice toda que não é música, não é arte, isso é um negócio. Esse tipo de coisa eu não gosto, que me desculpe o povo brasileiro, mas eu não gosto.
Além de Gatos e ratos ser um disco muito explícito é um disco em que inevitavelmente você volta a temas sobre a liberdade, a liberdade de fazer o que quiser, as liberdades individuais. Estamos vivendo quase uma nova ditadura sem os tanques nas ruas. Houve uma jornalista, uma colega sua, que me disse que se esse meu disco tivesse sido feito na década de 1970 ele não teria sido liberado, música nenhuma. Eu concordo com ela. Eu falo desse metro quadrado em que as pessoas estão enquadrando a gente. Eu concordo com você. Nós estamos vivendo uma ditadura hipócrita de tal forma, essa coisa da sociedade, está assustadora. Eu pensava que não fosse ver duas coisas: o avanço da tecnologia, que eu tinha certeza que ia acontecer, mas achava que eu em vida não veria, e estou vendo. A tecnologia todo dia surpreendendo a gente, e a medicina em paralelo a isso também, só não temos esse progresso da medicina nos hospitais públicos. Eu pensava que com o passar dos anos eu fosse ver a melhora do ser humano como um todo. E eu vejo, parece que o ser humano tá piorando. Eu não sei se é por essa opressão. No meu disco, tem uma música chamada Livre, que eu questiono isso: quem é verdadeiramente livre? Ninguém é. Nesse disco eu estou clamando as pessoas para pararem com esse preconceito sexual das pessoas. As pessoas têm preconceito sobre a opção sexual, como em Moral imoral eu falo isso. Deixa cada um ter sua opção sexual, para de meter o dedo. Eu falo no trânsito. O trânsito em qualquer capital brasileira, São Luís, Rio, São Paulo, Goiânia, Recife, as pessoas estão em uma disputa insana, é uma coisa louca. As pessoas têm que se acalmar. Eu vejo muita esperança nessa juventude mesmo para ter uma melhora. Nós, os adultos, gente próxima à minha idade que está no poder, isso aí só tá levando pro brejo. E vivemos sim um momento muito difícil: só faltam os tanques na rua.
Você falou em tecnologia. Como você se relaciona com ela? Baixa música, vê youtube, usa redes sociais? Eu não sei mexer com isso. Eu sou um cara das cavernas. Eu demoro para trocar de celular, por que toda vez que eu troco eu demoro dois anos para aprender a mexer. O mundo digital permitiu a gente tanta coisa boa, é uma liberdade. Eu sei que tem muita coisa errada, mas é uma liberdade. Eu posso fazer o meu disco, ele pode chegar até você, o público pode ter a liberdade de ouvir o meu disco sem ele estar passando por um filtro de programação de grandes mídias. Não que eu tenha nada contra a grande mídia, mas você sai daquele quadrado, você está livre. Eu vejo isso de uma forma muito boa.
Inclusive muita gente conheceu, para ficar em um exemplo que a gente já falou, O filho de José e Maria através de sites de download, youtube. Não é, cara? Hoje O filho de José e Maria é um sucesso. Ele está na minha carreira como uma coisa importantíssima. E o disco foi crucificado, foi desclassificado há 40 anos. Por que um círculo pequeno de mídia, um círculo pequeno de quem mandava determinou que ele não seria um sucesso. Hoje ele está aí, e quem gosta de O filho de José e Maria? Gosta o pessoal mais jovem, que está aí nos youtubes da vida, nas redes.
Às vezes é preciso tempo para reconhecer a grandeza de uma obra, de um artista. Outro dia eu fui fazer um show aqui em São Paulo, no Sesc Itaquera, que é um lugar aberto, gigantesco. Depois do show eu fui falar com as pessoas e tinha uma garota do Rio de Janeiro, de Nova Iguaçu, aquela região da baixada. E ela falou que eu só tinha tocado duas músicas de O filho de José e Maria. “Ah, eu achei que você ia tocar mais, você tem que ir ao Rio apresentar esse projeto”. Ela virou pra mim e disse assim: “que aliás é um projeto que só vai ser compreendido daqui a 40 anos”. Eu virei pra ela e falei: “então lascou, por que ele já tem 40” [risos]. Eu tou fazendo disco pra não lucrar com ele nunca.
Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus acompanha a trajetória da cantora, ex-empregada doméstica, descoberta por Hermínio Bello de Carvalho, produtor de quase todos os seus discos, aos mais de 60 anos
Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus. Capa. Reprodução
Nada acontece por acaso e o encontro de Clementina de Jesus com o poeta, compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho transformou a então empregada doméstica em cantora popular. Transformar é modo de dizer: Quelé nasceu artista, porém ouvir seu canto único era privilégio de gente próxima, inclusive quem não valorizava seu trabalho, exceto o de cozinhar, lavar e passar.
Caso de sua patroa, que sempre debochava quando ouvia Clementina cantando entre os afazeres, e tampouco aceitou o pedido de demissão quando, estimulada pelo sucesso da estreia e confiante no produtor que passaria a chamar de filho, resolveu dedicar-se integralmente à carreira artística. Nem com Clementina deixando sua filha no posto que outrora ocupava.
Nada acontece por acaso e o encontro de Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz na faculdade de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo deu neste quarteto, que em vez de tocar rock, escreve biografia. De partideira: Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus [Civilização Brasileira, 2017, 364 p., R$ 49,90] esmiúça competentemente vida e obra desta cantora única.
A biografia tem início justamente no encontro entre Clementina e Hermínio. Ele a havia visto pela primeira vez em 1963, durante os festejos de Nossa Senhora da Glória, santa de sua devoção. A timidez do poeta adiou o encontro, que se daria no ano seguinte, na Taberna da Glória, que dá nome a Taberna da Glória: mil vidas entre os heróis da música brasileira [Saraiva, 2015, 208 p.; R$ 49,90], em que Hermínio conta, ao longo de mais de 20 deliciosos textos selecionados por Ruy Castro, seu convívio com diversas personalidades da MPB, muitos produzidos por ele em shows e discos.
Clementina de Jesus estrearia em um palco em 1964, no espetáculo O menestrel, produzido por Hermínio, acompanhada de músicos como o lendário César Faria – futuro integrante do Conjunto Época de Ouro, de Jacob do Bandolim, e pai de Paulinho da Viola –, além do maranhense Turíbio Santos, que se tornaria um dos violonistas mais importantes do mundo.
A consagração definitiva não tardaria. Veio com o espetáculo Rosa de ouro, no ano seguinte, com produção e roteiro de Hermínio Bello de Carvalho – que assinaria a produção da quase totalidade de seus discos –, passando pelo repertório de diversos bambas, em que Clementina de Jesus era acompanhada pelo grupo Os Cinco Crioulos: Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro, Nelson Sargento, Elton Medeiros e Paulinho da Viola. Não à toa o filho, como ela tratava Hermínio, declarou: “fico com a chamada suprema glória de havê-la descoberto. Ela é minha melhor obra, melhor que meus sambas e poemas”.
Clementina com Cartola e Dona Zica, em desfile da Banda de Ipanema. Foto: Alberto Ferreira
Quelé, a voz da cor tem unidade, sendo impossível distinguir qual dos quatro autores escreveu o quê, passando por glórias e perrengues da filha mais ilustre de Valença/RJ. Lembra suas incursões no universo do samba ainda nas décadas de 1920 e 30, quando conheceu figuras como Noel Rosa, Araci de Almeida, Cartola e Carlos Cachaça – com este último gravaria um de seus discos mais importantes: Clementina de Jesus – Convidado especial: Carlos Cachaça, de 1976.
O livro relembra a agenda insana de compromissos para uma senhora cantora (literalmente!) descoberta e projetada quando já contava mais de 60 anos de idade, entre apresentações, gravações de discos e participações em projetos de amigos, o casamento feliz com Albino Pé Grande, o sonho da casa própria, a vida simples e modesta de quem a fama nunca subiu à cabeça, viagens internacionais, sua importância para o resgate e a preservação de ritmos ancestrais do samba, de forte vínculo com a mãe África, o convívio com diversos artistas-devotos: Dona Ivone Lara, Martinho da Vila, Clara Nunes, Beth Carvalho, Carlinhos Vergueiro, Cristina Buarque, Alceu Valença e Milton Nascimento, entre outros.
Como muitos artistas no Brasil, Clementina de Jesus é menos conhecida e valorizada do que deveria. Darcy Ribeiro era secretário de Cultura do Rio de Janeiro em 1983, quando organizou uma homenagem a cantora no Teatro Municipal, então meca da música erudita, e percebeu o preconceito vigente, quando muitos tentaram impedir a apresentação de um espetáculo de samba protagonizado por negros. “Daqui a 100, 200 anos, os discos de Clementina continuarão vivos. Mas é agora que ela deve ser homenageada”, afirmou o antropólogo.
Clementina de Jesus é nome fundamental para a afirmação da cultura negra no Brasil, tendo sido quem melhor cantou os elos entre o país e a África ancestral. Publicado no ano em que se completam 30 anos de seu falecimento, Quelé, a voz da cor é uma contribuição indispensável para a preservação de sua memória e de toda a força e grandeza que representa para a cultura nacional.
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Veja Na linha do mar (Paulinho da Viola), com Clementina de Jesus:
Em torno da consolidação da cena reggae em São Luís há muito de lenda, hipérbole e imodéstia. Mineiro radicado no Maranhão desde a década de 1960, Edmilson Tomé da Costa, o Serralheiro – nome artístico herdado de sua antiga profissão, será? –, é um dos pioneiros na introdução do gênero jamaicano em festas em São Luís. “Serralheiro, Natty Nayfson e Ribamar Macedo”, declarou, falando de si mesmo em terceira pessoa, em entrevista ao jornalista Felipe Larozza, publicada há cinco dias.
Sem falar uma palavra de inglês, Serralheiro esteve em Londres 28 vezes e na Jamaica 17 vezes. “Sou o cara que tem mais coragem no mundo”, bravateou ao mesmo jornalista. “Não tem gente no mundo que goste do reggae como eu”.
O dono da mítica Voz de Ouro Canarinho – nome de uma de suas radiolas – era um colecionador inveterado, mas gostava de exclusividade – reza a lenda que ao comprar um disco, raspava os que ficassem nas lojas para que ninguém mais tivesse as músicas que tinha. Não repetia música em suas discotecagens. Uma que mereceu destaque foi sua aparição na Virada Cultural paulista, em 2011 (veja o vídeo que abre este obituário).
O DJ Tarcísio Selektah, que há alguns dias havia usado as redes sociais para solicitar doações de sangue a Serralheiro, manifestou-se sobre a perda. “O reggae nacional de luto. Faleceu em São Luís o DJ/radioleiro mais antigo do Brasil”, lamentou.
“Com profundo pesar comunico o falecimento do “Carrasco” Serralheiro. O reggae do Maranhão está de luto”, declarou o DJ Ademar Danilo usando outra alcunha pela qual era conhecido o discotecário, que chegou a ser seu parceiro na equipe África Brasil Caribe.
Especialista em reggae, o jornalista Otávio Rodrigues, o Doc Reggae, declarou: “Fico triste, porque era meu amigo, e lamento muito, porque parte da história se vai sem um bom registro” [leia depoimento completo e exclusivo no fim deste obituário].
Serralheiro faleceu hoje (29), aos 70 anos, em consequência de um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido há cerca de um mês. Estava internado no Hospital Carlos Macieira. Que esteja com Jah! Como, aliás, sempre esteve!
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Assista trailer de Sintonizah, documentário de Lecuk Ishida e Willy Biondani (com depoimento de Serralheiro):
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A GENTE VAI FICANDO MAIS SOZINHO
OTÁVIO RODRIGUES
Doc e Serralheiro em 2004. Foto: Carol Bittencourt
Conheci Serralheiro ainda em 1988, ano em que meu Cabral interior descobriu o Maranhão. Lembro que ele se recusou a posar pra uma foto, estava montando a radiola. “Ah, mas tô todo lambudo!” Meio que se apresentou dizendo que amava o reggae mais que tudo. “Gosto tanto de reggae que até dói no sangue”, disse, apontando as veias do braço. Eu não conseguia entender como aquele sujeito simples, quase rústico, de mãos grandes e com textura de lixa, conseguia ser tão refinado nas seleções musicais.
E com um apelido desses, que me levava a pensar nos artistas jamaicanos, que em sua maioria afirmam ter trabalhado como welders (soldadores) antes de iniciarem a carreira artística.
No dia em que deixei a Ilha, ele me apareceu com uma insuspeita fita cassete. “Gravei pra ti. Agora tu me manda umas pedras também.” A caminho do aeroporto, no fusca do Boaventura do Bairro de Fátima, coloquei a fita pra rodar e, ali de pronto, vi que a parada era séria (o Boaventura quase não me ouvia falar, só prestava atenção na fita). Com o tempo, estabelecemos um intercâmbio – mas com as regras dele. Eu enviava umas pedras do meu acervo, com total exclusividade, ou seja, eu não podia passar pra mais ninguém, nem tocar no rádio nem nada; e ele mandava umas dele também, que eu deveria manter no cofre e a sete chaves. Com o tempo, percebi que o acordo era imensamente bom pra ele, mas continuei com a brincadeira durante certo tempo – acho que, no fundo, eu adorava mesmo as cartinhas que vinham junto com o material.
Mais tarde, quando morei em São Luís, ele me virou a cara. Atônito, descobri por outros qual tinha sido a razão: eu reportara na revista Bizz a viagem que ele havia feito a Londres, levando uma fitinha com frases em inglês gravadas por Fauzi Beydoun: “Good morning! I want to buy reggae records”, “I need a hotel” e outras básicas assim, pra que ele se salvasse em terras estrangeiras. Ficara ofendido com isso, não percebendo a admiração contida no relato. Demorou pra que fizéssemos as pazes.
Serralheiro morava na Rua da Salina, no João Paulo, lugar pouco percebido pela maioria, incluindo o poder público. Para um paulista classe média, caminhar por uma rua na qual o esgoto corre a céu aberto, como nos tempos coloniais, era uma experiência incomum. Imaginar que ali vivia um dos maiores DJs do Maranhão, um superstar, era uma incongruência sem tamanho. Na casa simples, repleta de discos fabulosos, eu pensava nas histórias que haviam me contado. Que Serralheiro costumava ir ao Rio e São Paulo atrás de discos e, quando encontrava algo realmente bom, comprava todas as unidades do mesmo álbum pra que nenhum outro gaiato tivesse acesso. E que, assim como Lee “Scratch” Perry fez com o próprio estúdio, um dia acordou e tacou fogo num monte desses ótimos discos. A esposa, ouvi dizer também, reclamava que a geladeira vivia vazia, que ele gastava tudo em reggae. Quem sabe a verdade?
Fico triste com a partida dele. Era meu amigo. Lamento ainda que sua história não tenha sido resgatada completamente, penso eu, e faço aqui um mea culpa. De onde ele vinha? Trabalhou com ferro mesmo? Como e onde começou no reggae? Guardarei pra sempre, porém, a imagem dele trabalhando de costas n’A Voz de Ouro Canarinho, manipulando o pause nos tape-decks durante toda a noite, quase sem olhar para o público, arrancando uivos de êxtase a cada tijolo.
A verdade é que, junto com Pai Euclides e o professor Carlos Lima, Serralheiro compunha meu panteão de santos maranhenses. O tempo passa, não tem jeito, a gente vai ficando mais sozinho. Descansem em paz, meu velhos.
A oficina Trilhas e Tons, coordenada por Wilson Zara e ministrada por Nosly, com assistência de Mauro Izzy, os três, músicos bastante reconhecidos no estado, já percorreu, desde 2013, mais de 30 municípios em todas as regiões maranhenses, sempre com apoio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.
Alguns dos aprovados no vestibular participaram da oficina e elogiaram a formação como um fator decisivo para o resultado positivo que alcançaram na seleção.
Caso de Emílio de Jesus Moraes, de Viana. “A oficina itinerante trouxe aos participantes uma forma prática e diferenciada de associar a música, no seu contexto teórico, com as características da música popular. Particularmente serviu de grande apoio e estímulo, pois a forma como o conhecimento musical foi repassado nos possibilita também desenvolver nossos próprios métodos de ensino. Cabe a nós, agora, com o decorrer da formação universitária e possivelmente quando estivermos lecionando a disciplina Música, utilizar também as técnicas demonstradas durante este curso, visando assim o melhor aproveitamento por parte de nossos futuros educandos”, declarou em perspectiva.
“Com certeza foi de grande importância a oficina Trilhas e Tons no meu processo de aprovação no vestibular. Essa oficina veio agregar conhecimentos que eu não tinha. Eu estudo música há um bom tempo, toco sax alto e violão e a oficina me fez ter um conhecimento ainda maior e me ajudou bastante na aprovação no vestibular”, destacou Rodrigo Batista Freitas, também aprovado no polo de Viana.
Natural de São Luís, Syldenilson Santos mora em Arari, polo para o qual foi aprovado no vestibular. Ele também apontou a importância da formação. “Ano passado eu participei da oficina itinerante Trilhas e Tons em Arari. As teorias abordadas no contexto educacional pelo professor Nosly foram de extrema importância e enriquecimento cultural-musical para mim. Mesmo não direcionadas especificamente para a prova, as aulas ministradas pelo professor Nosly abriram em minha vida um entusiasmo esplendoroso, com o sonho de ser aprovado e estudar mais esmiuçadamente a mais bela das artes”, declarou.
“O projeto Trilhas e Tons, além de aprimorar mais meus conhecimentos, veio na hora certa. Faltando dois dias para terminar a oficina veio alguém para falar sobre o seletivo da UemaNet, com vagas para licenciatura em música. O Nosly disse: “façam, pessoal, que vocês passam!”. Ele estava certo. Estou muito grato pelo projeto”, reconheceu José Manoel Lindoso Mendes, o Zeca, vianense que mora em Penalva onde tem uma pequena escola de música, aprovado para o polo Viana.
“Estamos no caminho certo ao educar com música, tendo o despertar para a cidadania como objetivo. Se a semente for bem plantada, o fruto será colhido”, finalizou Nosly, que se declarou contente com o bom desempenho dos cursistas no vestibular.
O desaparecimento do compositor cearense Belchior tem causado verdadeira comoção aos brasileiros, de maneira geral. Sobram especulações sobre seus motivos, apesar de anunciados ao longo de sua obra, e homenagens. Discos como Belchior Blues [2012], que destaca a porção blueseira de quem disse que “um tango argentino me vai bem melhor que um blue” [em A palo seco, de 1973], e Ainda somos os mesmos [2014], organizado pelo site Scream & Yell, além de shows – o Encontrando Belchior, de Tássia Campos, e a releitura do disco Alucinação [1976] por Gero Camilo –, e até mesmo bloco de carnaval: o Volta Belchior, de Belo Horizonte/MG. Sem contar os gritos e a hashtag #voltabelchior, que se irmanam aos gritos e hashtag #foratemer, para protestar contra o atual estado de coisas no Brasil.
Lançado na altura do aniversário de 70 anos do compositor, completados em 26 de outubro de 2016, soma-se a este lote de homenagens Para Belchior com amor [Miragem Editorial, 2016, 96 p.], livro organizado pelo cearense Ricardo Kelmer reunindo 14 escritores conterrâneos – inclusive ele próprio – em textos para 14 clássicos do bigodudo mais querido do Brasil. Há contos, cartas, ensaios, memórias.
O conto de Claudene Aragão para Coração selvagem [1977] imagina um encontro seu com Belchior. Escondido num lugar óbvio, o compositor acede vê-la e falar-lhe, ocasião em que revela ter mais de 300 músicas inéditas. Em determinada passagem, o personagem Belchior afirma, sobre seu desaparecimento: “Todas as respostas sempre estiveram nas minhas canções. Fui preparando isso por muito tempo, e nas minhas composições fui deixando pistas sutis do meu plano […]. Não me perdi. Não fugi. Não me escondi. Me permiti viver como eu queria. Afinal de contas, não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja”, citando trecho da composição revivida.
Também merece destaque o conto de Raymundo Netto, que recria, de forma bem humorada, o encontro de Belchior com policiais, como cantado em Fotografia 3×4 [1976]. Cai na brincadeira do nome inventado pelo compositor em entrevista aO Pasquim, quando entre várias lorotas, disse chamar-se Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes – esparrela em que cai também o organizador, ao citar o falso nome de batismo na orelha e numa pequena biografia do homenageado ao final do livro. O verdadeiro nome de Belchior é apenas Antonio Carlos Belchior, como afirma o jornalista Jotabê Medeiros, que lança este ano Pequeno perfil de um cidadão comum, biografia de Belchior em que trabalha já há alguns anos.
A jornalista Ana Karla Dubiela parte das lembranças de um show de Belchior no campus da UFSC em 1984, quando ela estava em lua de mel em Florianópolis, para recontar A palo seco. “Quando fomos testemunhas do desespero que virou moda em 76, éramos adolescentes – e, com algumas exceções, os nossos desesperos eram outros. Pouco mais tarde, universitários, andávamos meio descontentes, é verdade, sem entender muito bem por que o ar era mais denso, os silêncios mais gritantes, as conversas cifradas”, lembra ela, que foi para o show, que “durou bem mais que as duas horas previstas”, “com os LPs debaixo do braço para pedir autógrafo”.
Alucinação [1976], por Thiago Arrais, e Apenas um rapaz latino-americano [1976], por José Américo Bezerra Saraiva, extrapolam o universo das canções escolhidas e do próprio compositor, espraiando-se por outras obras suas, de conterrâneos que buscavam o sucesso no mesmo período, e de artistas (da música ou não) com quem a obra de Belchior sempre dialogou. Com seu estilo peculiar Xico Sá recria Todo sujo de batom [1974] e Gero Camilo amplifica o drama familiar de Na hora do almoço [1971], enquanto Ethel de Paula, em Conheço meu lugar [1979], atesta: “eis que o nome Belchior, segundo o dicionário, significa exatamente isso: “Rei da luz. Rei luminoso”. Ou ainda o seu correspondente terreno, plebeu: “mercador de objetos usados; alfarrabista”. Um simples cantador das coisas do porão. Uma pessoa. E a palavra pessoa, nele, ainda soa bem”.
O compositor mangueirense em fotografia de Walter Firmo de 1980, ano em que veio a falecer
Nome fundamental da música brasileira em qualquer tempo, Cartola foi um dos responsáveis pela popularização do samba, sendo um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, uma das primeiras e até hoje mais populares escolas de samba do Brasil. Deixou ao menos dois discos definitivos, ambos batizados simplesmente com o nome do compositor, lançados pela gravadora Discos Marcus Pereira, em 1974 e 1976, respectivamente.
Como assim, Cartola só chega ao disco na década de 1970, se décadas antes havia ajudado a transformar o carnaval carioca? Pois é, a coisa se deu tardiamente, e ele já contava mais de 60 anos ao estrear no mercado fonográfico, após o escritor Sérgio Porto – ou Stanislaw Ponte Preta – descobri-lo lavando carros – já havia sido pedreiro, onde ganhou o apelido: usava um chapéu coco para proteger os cabelos contra a poeira das obras.
Depois da re/descoberta – já era um compositor apreciado em Mangueira – o produtor João Carlos Botezeli, o Pelão, responsabilizou-se pelo resto e a estreia de Cartola vendeu mais de 20 mil exemplares em poucos meses e é até hoje um dos mais bem sucedidos discos do catálogo de Marcus Pereira – que lançou mais de 100 discos ao longo de pouco mais de década de atuação, muitos deles inéditos no formato digital.
“Ele não só fundou a Estação Primeira como lhe deu o nome e as cores verde-e-rosa. Foi o seu primeiro diretor de harmonia”, afirma o jornalista Sérgio Cabral (não confundir com seu filho) no texto da contracapa do LP original. “Villa-Lobos […] era um grande admirador de Cartola e o convidou várias vezes para participar de espetáculos que promovia. Foi parceiro de Noel Rosa e seus sambas foram gravados por intérpretes como Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Caldas, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso e Paulinho da Viola. São muitos, portanto, os títulos de Cartola, o mestre de tantos compositores importantes (o próprio Paulinho da Viola o aponta como a sua grande influência)”, continua, destacando a importância do mangueirense.
Todo tempo que eu viver. Capa. Reprodução
“O sucesso de vendas e de crítica do LP de estreia de Cartola abriu as portas de um novo mundo para o sambista, que passou a fazer muitos shows por todo o país. Pela primeira vez, Cartola estava vivendo apenas de sua arte. Os mais de 50 mil LPs vendidos em menos de um ano também animaram a gravadora Discos Marcus Pereira a levar Cartola novamente para o estúdio”, aponta o jornalista e pesquisador musical Eduardo Magossi em texto no encarte da reedição do disco de 1976, que, ao lado da estreia e de Tempos idos, integra a caixa Todo tempo que eu viver [Universal, 2016, R$ 79,90], caprichada reedição que inclui fichas técnicas e textos das contracapas dos LPs originais.
Pelão e o diretor artístico Aluízio Falcão haviam deixado a Marcus Pereira no ano anterior e a produção do novo disco ficou a cargo de Juarez Barroso, que trabalhava no caderno cultural do Jornal do Brasil. Dino 7 Cordas, arranjador do disco anterior, foi mantido no posto.
Se, do primeiro disco, além de Dino, haviam participado da gravação músicos como Elton Medeiros (ritmo), Jayme Florence, o Meira (violão), Canhoto (cavaquinho), Copinha (flauta) e Raul de Barros (trombone), entre outros, o segundo trazia também Abel Ferreira (sax tenor) e Altamiro Carrilho (flauta), além de marcar a estreia em disco do violonista Guinga.
Se a estreia era completamente autoral, com algumas faixas assinadas em parceria, no segundo disco Cartola cantou sambas de sua lavra e de outros bambas. Considerado o oitavo melhor disco da música brasileira em eleição da revista Rolling Stone Brasil, o álbum de 1976 tem clássicos como O mundo é um moinho (Cartola), Sala de recepção (Cartola) – que Pelão arrependia-se de não ter incluído no repertório da estreia –, Preciso me encontrar (Candeia), Peito vazio (Cartola), Acontece (Cartola), Meu drama (Senhora tentação) (Silas de Oliveira) e Cordas de aço (Cartola). A inclusão do portelense Candeia e do imperiano Silas de Oliveira no repertório demonstra que as preocupações primeiras eram a beleza e qualidade dos sambas.
Hoje um clássico, Sala de recepção, foi composta em 1941 quando “Paulo da Portela, desgostoso com a escola que fundara, mudou-se para a casa de Cartola, na Mangueira. Queria mudar de escola, mas os mangueirenses convenceram-no do contrário: seu lugar era na Portela, para onde o levaram de volta, em comitiva. Sobre a permanência de Paulo na Mangueira, Cartola fez na época este samba, inédito e aqui apresentado em diálogo com Creusa [filha de criação de Cartola, ela também canta em Ensaboa]. O inimigo que, na Mangueira, “se abraça como se fosse irmão”, evidentemente é Pauo da Portela”, afirma em um faixa-a-faixa na contracapa do LP original o jornalista/produtor Juarez Barroso. Preciso me encontrar tem o fagote de Airton Barbosa, do Quinteto Villa-Lobos.
Se é bastante conhecido o repertório dos dois títulos inaugurais de Cartola, bem como de outros, lançados posteriormente, já fora da gravadora Marcus Pereira, a “surpresa” da caixa Todo tempo que eu viver reside em Tempos idos, que “compila toda a discografia avulsa de Cartola registrada durante os anos de 1967 e 1976 em discos de outros artistas e projetos especiais para gravadoras como Copacabana, Tapecar, Odeon, Discos Marcus Pereira, e até para uma série de fascículos da Editora Abril”, anuncia Eduardo Magossi em texto no encarte.
O jornalista, que assina a curadoria do lançamento, explica a origem da faixa que dá título ao terceiro disco da caixa: “ela foi composta em 1961 – ano em que Cartola voltava para a Mangueira depois de um afastamento de 21 anos – como candidata a samba-enredo da escola no carnaval. A música, contudo, que fazia um relato saudosista e poético da história das escolas de samba e do carnaval carioca, não foi escolhida, segundo a escola, por não ter elementos capazes de empolgar o público”.
“Pelos salões da sociedade/ sem cerimônia ele entrou/ já não pertence mais à Praça/ já não é samba de terreiro/ vitorioso, ele partiu para o estrangeiro/ e muito bem representado/ por inspiração de geniais artistas/ o nosso samba, humilde samba/ foi de conquistas em conquistas”, diz a letra da parceria com Carlos Cachaça.
A compilação inclui pot-pourris em que o compositor aparece ao lado de Clementina de Jesus e Elizeth Cardoso e Odete Amaral, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça, além de gravações ao vivo de clássicos como Quem me vê sorrindo, O sol nascerá, Alvorada e Acontece. Traz ainda os sambas-enredo Vale do São Francisco, de 1948, e Chega de demanda, de 20 anos antes, “uma das primeiras composições de Cartola e o primeiro samba-enredo da recém-fundada Mangueira”, atesta Magossi.
Entre clássicos e músicas menos conhecidas, mas fundamentais para uma melhor compreensão do universo de Cartola, Todo tempo que eu viver é um mergulho indispensável na obra daquele que era considerado por Nelson Cavaquinho “o maior compositor da nossa música”, conforme declarou em entrevista a Sérgio Cabral.