Um quarteto fantástico dobrando na praça da basílica

Dobrando a Carioca - Ao vivo. Capa. Reprodução
Dobrando a Carioca – Ao vivo. Capa. Reprodução

Em meio a suas carreiras solo e outros projetos, o espetáculo Dobrando a Carioca já é apresentado há 17 anos. Zé Renato, Jards Macalé, Guinga e Moacyr Luz se apresentam hoje (6), às 22h30, na programação especial que celebra os 70 anos do Sesc, encerrando o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, na praça da Basílica do município. Produção de Tutuca Viana, o evento tem patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

A ideia de Moacyr Luz, que convidou os demais, vingou e acabou enveredando pelo samba, faceta comum presente às obras dos quatro. A apresentação de hoje ganha um sabor especial: acabam de sair o cd e dvd Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], gravado em dezembro passado no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro. São José de Ribamar será o primeiro município em que os fãs poderão adquiri-lo e pegar autógrafos.

O repertório equilibra-se entre temas autorais e músicas de artistas reverenciados pelo quarteto. Não faltam clássicos como Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé) e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), sucesso do grupo vocal Boca Livre.

Também comparecem Pixinguinha (Um a zero, que abre o show, parceria com Benedito Lacerda, que ganhou letra de Nelson Angelo), Padeirinho da Mangueira (Favela, parceria com Jorge Pessanha), Manezinho Araújo (Como tem Zé na Paraíba, parceria com Catulo de Paula, sucesso de Jackson do Pandeiro) e Geraldo Pereira (Acertei no milhar, parceria com Wilson Baptista), entre outros.

Com o tempo espremido entre um último ensaio, num salão do hotel em que estão hospedados, e a saída para o almoço e a passagem de som, Homem de vícios antigos conversou com o quarteto. Em tempo curto, os quatro desataram a falar, esbanjando bom humor, tirando sarro uns com os outros, tornando quase desnecessárias as perguntas do repórter. A entrevista começou com uma declaração de Macalé.

Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)
Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)

Jards Macalé – Eu declaro a independência do Brasil.

Como é conciliar a agenda do Dobrando a Carioca com suas carreiras solo e outros projetos?
Zé Renato – A gente vem tentando incluir o Dobrando a Carioca na nossa história profissional, na nossa trajetória. A gente tem um carinho muito grande pelo trabalho, o que dá uma motivação maior ainda.
Moacyr Luz – Uma coisa que eu nunca pensei: o Dobrando a Carioca é um exercício de despojamento que cada um de nós tem. Cada um tem sua carreira solo, faz seus shows individuais, o Zé com as coisas dele, eu com meus sambas, o Guinga, o Macalé. Quando chega aqui a gente troca mais.

É um show devotado ao samba? Foi um desembocar natural?
Zé Renato – A gente exercita a percussão. O foco maior é no samba. Não foi feito com essa intenção. É samba assim, vamos considerar o Um a zero um samba do Pixinguinha. Tem samba-canção, Como tem Zé na Paraíba, tem música que foge.
Moacyr – Guinga é o cara que gravou com Cartola, As rosas não falam, gravou com João [Nogueira], Beth Carvalho, Clara Nunes.
Guinga – Compositor brasileiro que não gosta de samba não é compositor.
Moacyr – [para Macalé] Você fez o 4 batutas e 1 coringa [disco de intérprete de Macalé de 1987, dedicado ao repertório de Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola].
Macalé – Sim.
Guinga – [para Macalé] Tem um elemento forte, virou disco [Jards Macalé canta Moreira da Silva, de 2001], o Moreira da Silva na tua vida.
Zé Renato – O Um a zero surge dessa ideia, a gente abre o show com Um a zero por causa dessa ideia de bater uma bola [a produtora Memeca Memeca Moschkovich adentra o salão com cds e dvds na mão].
Macalé [gritando] – Deixa eu ver! A gente sente saudade uns dos outros. Eu sinto saudades deles, eles dizem que sentem saudades de mim.
Zé Renato [para Moacyr Luz] – Você sente saudade do Macalé?
Moacyr [em tom de galhofa] – Não.
Guinga – [gargalhadas]
Zé Renato – [gargalhadas]
Macalé – Ele é um sincericida.
Guinga [rindo] – Eu odeio o Macalé. Nós estamos aqui para ver se a gente se mata. Quando Moacyr convidou a gente, isso é uma coisa engraçada, ele falou assim pra gente, “vê lá, vocês têm que ter paciência um com o outro”. Pô, criador de problemas zero [referindo-se a Macalé]. Nunca tivemos um problema. Nenhum problema.
Macalé – Como não? E quando a gente se desfez lá em Fortaleza?
Guinga – Você disse que ia seguir carreira solo [gargalhadas]. Esse filho da puta, saiu uma porrada de matéria em tudo quanto é jornal, com a foto dele na capa, ele ficou nervoso. Eu me lembro que foi muito engraçado, a gente estava no café da manhã e ele não se uniu com a gente.
Macalé – Mentira!
Moacyr – A gente tava no lobby do hotel e ele chega [imita Macalé puxando uma mala com rodinhas e gargalha]
Guinga – [gargalhadas] Dois dias depois a gente chega no Rio de Janeiro, tinha saído uma foto dele nos jornais, com a perna cruzada, com uma meia preta, quadriculada. Dois dias depois, quem está sentado no calçadão, pernas cruzadas, com a mesma meia da fotografia? Esse maluco! Eu digo, não é possível! Mas você pode perguntar uma coisa a ele: essa galera aqui, tudo amigo, não cria problema, tudo humilde. Não é, Macalé?
Macalé – [enfático] Não! [gargalhadas gerais]

Você também é um sincericida?
Macalé – Eu amo esses caras.
Moacyr – Outra coisa engraçada, a gente foi fazer o primeiro ensaio, fizemos o primeiro show, começamos a viajar e a primeira coisa que eu via era hotel e horário, pra não chegar atrasado. E eu falei: “Macalé, olha você!” E o Macalé todo dia chegava 20 segundos antes do horário [risos], “eu sou o primeiro, hein? Cheguei primeiro”.
Macalé – Hoje eu cheguei primeiro.
Guinga – Você só é indisciplinado artisticamente. Mas como homem, como cidadão, é super sério. Por que artisticamente você não tem vontade de ensaiar, você esquece o tom da música. Hoje quando você perguntou [imitando Macalé]: “lá menor ou si menor?” Eu ri muito por dentro. Eu digo: há 17 anos esse filho da puta toca essa música sozinho. Você tem defeitos e tem qualidades. A gente pode falar bem da gente?
Macalé – Agora vamos à entrevista.

Claro! Além de todos já terem vindo aqui com outros projetos, qual a relação de vocês com o Maranhão?
Guinga – Eu conheci João do Vale muito jovem. Eu era aluno de Jodacil Damasceno e ele tinha um assistente, João Pedro Borges. Depois eu passei a ter aulas com João e esses caras mudaram a minha cabeça em 180 graus, impressionante. Me mostraram a música brasileira que eu não conhecia, me mostraram o violão que eu não conhecia. Eu não sabia quem era Leo Brouwer [violonista e compositor cubano], eu me formando em odontologia. Esses caras foram muito importantes. Isso influencia minha música até hoje. Eu passei a tocar violão por causa deles.
Zé Renato – Meu primeiro contato com a música do maranhão foi o Popó [o compositor Cláudio Valente] e o Sérgio Habibe [compositor, de quem o Boca Livre gravou Boi danado], quando eles se apresentavam com o Papa Légua [músico], no show Mostração.
Macalé – Eu trabalhei uma vida com João do Vale no Opinião [show que o maranhense dividiu com Zé Keti e Nara Leão]. Eu fui casado com uma irmã de Turíbio [Santos, violonista], você quer mais relação do que isso? Eu toco num violão que foi de Turíbio, com que ele ganhou prêmio internacional na França. Até hoje ele pergunta: quanto você quer no violão? João Gilberto tentou roubar, mas eu recuperei. Ele foi fazer um concerto no Rio de Janeiro e estavam procurando um bom violão. Eu emprestei, com a condição de que no dia seguinte à apresentação o violão estivesse de volta no meu apartamento. Depois eu fiquei lendo as manchetes sobre o espetáculo, passaram dois dias e nada, eu fui bater no hotel. Comprei umas goiabinhas e fiquei comendo ali embaixo, até que apareceu o Otávio Terceiro [empresário de João]. Ele disse: “João adora goiabinha”. Ele subiu, entrou no quarto e trouxe o violão. Eu troquei meu próprio violão nas [aumenta o tom de voz] minhas goiabinhas [Zé Renato gargalha]. Nesse violão só tocaram Turíbio, Paulinho da Viola, João Gilberto e eu.

Uma jangada carregada de poesia

Escrito nas jangadas. Capa. Reprodução
Escrito nas jangadas. Capa. Reprodução

Escrito nas jangadas [2016] marca os cerca de 40 anos de parceria dos cearenses Eugênio Leandro e Márcio Catunda. O primeiro, cantor, compositor e instrumentista; o segundo, poeta, hoje morando na Argélia, na burocracia da diplomacia.

Desde a presença implícita no título, o mar é o personagem/paisagem mais constante, citado em quase todas as faixas, todas assinadas em parceria pela dupla – Grandes esperanças é assinada ainda pelo também cearense Nonato Luiz (que toca violão na faixa). Mas engana-se quem pensar que é um disco monótono – como não o é o vai e vem das ondas do mar.

Minha rua abre o disco com os tons da melancolia da saudade da infância, pontuada pelos violinos de Paulo Leniuson e Humberto Castro, arranjados por Tarcísio Lima. A faixa seguinte, que intitula o disco, lembra as noites de boemia e o vagar a pé pelas madrugadas de uma Fortaleza de outrora. A rica fortuna crítica do encarte ajuda a compreender melhor a parceria e alguns contextos.

Leandro e Catunda são de outra geração, mas é impossível negar a influência da música do chamado Pessoal do Ceará sobre o conjunto de canções de Escrito nas jangadas – como de resto sobre toda a produção cearense a partir de então. Novamente convém observar que isso não significa estarmos diante de uma cópia pura e simples de nomes como Ednardo, Fagner ou o desaparecido Belchior.

O disco é também uma celebração a uma geração ainda mais nova. Nomes como os cantores Fernando Neri (voz em El Malecon Cisneros), Clarice Trummer (voz em Arrebol), Gero Camilo (sim, o ator também é cantor e compositor – voz em Sortilégio marítmo) e Izaíra Silvino (voz em Grandes esperanças) formam um pequeno panorama da boa música produzida hoje no Ceará.

A poesia de Márcio Catunda se assenta no canto de Eugênio Leandro (voz e violão), com o acompanhamento de Lu de Sousa (violão, viola, contrabaixo, teclado), Igor Ribeiro (percussão), Rossano Cavalcante (percussão), Ricardo Pinheiro (bateria) e Nonato Lima (sanfona).

A onírica Ermo, que fecha o disco, leva o ouvinte a uma viagem por Cuba, guiado pelos sopros de Carlos Montanha (trompete) e Rômulo Santiago (trombone e arranjo de metais). Canto provinciano, que a antecede, remete ao início da parceria – a música deu título a um show de Eugênio Leandro em 1981, no auditório da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Daquele show participaram outros artistas, entre os quais o poeta Márcio Catunda.

“A infância do destino e da beleza/ são os versos da esperança/ são as faces da lembrança/ dos mares de Fortaleza”, diz a letra, cujo sabor nostálgico nos dá uma certeza: continuam belos os mares da capital alencarina e a obra consistente de Eugênio Leandro – que neste disco divide os créditos com Márcio Catunda.

Passeando por jazz e blues sem perder o próprio estilo

Retrato: Ben Mendes

 

A primeira vez que ouvi Ceumar foi completamente por acaso: flanava pela Rua de Santana (Centro), quando entrei numa loja de discos hoje extinta e me deparei com Dindinha [1999], cuja capa, desenhada pelo artista pernambucano Romero de Andrade Lima, dava vida à protagonista da canção de Zeca Baleiro, que produziu seu disco de estreia, inspirada na morna Sodade (Armando Zeferino Soares), sucesso do repertório de Césaria Évora, a musa de pés descalços cabo-verdiana.

Até então eu nunca tinha ouvido falar em Ceumar ou em seu disco. Quando virei o cd, deparei-me, na contracapa, com os nomes de Zeca Baleiro, Josias Sobrinho, Itamar Assumpção, Sinhô, Luiz Gonzaga, Chico César, Jacinto Silva e outros. Era a senha: levei sem pestanejar.

Foi paixão à primeira audição, o que aconteceu com muita gente e continua acontecendo até hoje: há quem descubra Ceumar e quem se apaixone ainda mais a cada disco novo. Ela não precisou de mais que Dindinha para mostrar a que veio: cantora, compositora (faceta que só revelaria em outros discos, depois), instrumentista, firmou seu nome entre os grandes da MPB em qualquer tempo.

A Dindinha seguiram-se Sempre viva! [2003], Achou [2006], dividido com o violonista Dante Ozzetti , Meu nome [2009], Live in Amsterdam [2010] e Silencia [2014].

Lançada por pequenos selos, a artista sempre fez o que quis, da seleção de repertório à arregimentação e arranjos. Uma artista livre. Mineira de Itanhandu, ganhou o mundo. Após uma temporada em Amsterdam, na Holanda, está de volta ao Brasil. Lá, chegou a gravar um álbum ao vivo, acompanhada do Mike Del Ferro Trio.

Após um hiato, ela reencontra-se com o público maranhense: na Praça da Basílica de São José de Ribamar, dia 4 de novembro (sexta-feira), ela se apresenta na noite de abertura do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, evento inteiramente gratuito, produzido por Tutuca Viana, com patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. No repertório, músicas de diferentes fases de sua carreira, inclusive Silencia, o mais recente de sua discografia. Por e-mail ela conversou com Homem de vícios antigos.

Retrato: Ben Mendes
Retrato: Ben Mendes

Há alguns anos você mudou de endereço, trocando o Brasil pela Holanda. Quais as principais vantagens e desvantagens da mudança?
Passei quase seis anos em Amsterdam, fiz muitos projetos bacanas e criei um pequeno público por lá. A vantagem de morar na cidade das bicicletas e canais foi mesmo a liberdade e facilidade de ir e vir. Mas sentia saudade de coisas simples, andar de chinelo (a maior parte do ano é frio) e comer uns quitutes mineiros. Em termos profissionais também há uma diferença grande, pois no Brasil já tenho um público cativo e que me acompanha há muito tempo. Voltei este ano para Minas e acredito que toda experiência lá fora me enriqueceu muito como pessoa e artista.

Você está na programação do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival. Quem são os músicos que te acompanham e o que o público da Ilha pode esperar em termos de repertório?
O duo é formado por baixo acústico, meu sobrinho Daniel Coelho, que gravou o último álbum e tem feito muitos shows comigo, e Adriana Holtz no violoncelo, uma grande cellista que toca na Osesp [a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo] e nos acompanha em vários shows. Vamos tocar músicas do mais recente álbum, Silencia, e outras da carreira.

Através de nomes como Zeca Baleiro, que produziu teu primeiro disco, batizado por música dele, e Josias Sobrinho, de quem no primeiro disco você gravou duas músicas [Rosa Maria e As “perigosa”], o Maranhão sempre esteve presente em teu trabalho. Quais as expectativas e sensações a cada retorno por aqui?
Tenho muito afeto pelo público maranhense, desde as primeiras vezes em que estive aí. Trabalhei também com o grande percussionista Luiz Claudio Farias, que trouxe vários ritmos lindos para o som. Até hoje Dindinha é a canção que me arrebata. E as músicas de Josias são pérolas que pude conhecer através do Zeca. Tenho certeza de que será emocionante nossa participação no festival!

Já há planos de disco novo? O que você pode adiantar em relação ao assunto?
Estou compondo devagar, logo devo colocar mais foco nisto.

Desde o pioneiro Free Jazz no Brasil até festivais de jazz internacionalmente reconhecidos sempre aceitaram um pouco de tudo, em misturas bastante frutíferas. Na Holanda você chegou a gravar disco com o Mike del Ferro Trio, o que em tese credenciaria você ainda mais a este tipo de evento. Mas sua trajetória já uma prova de que vai mais longe quem não tem preconceitos nem se importa com rótulos. Qual o lugar de Ceumar?
Eu adoro o jazz e o blues. Fico muito feliz em poder transitar por estes estilos sem perder o meu próprio.

Ouça Engasga gato (Kiko Dinucci), com Ceumar:

Programação da noite de abertura do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival:

Sexta-feira (4):

20h15: Marcos Lussaray e Quarteto
21h15: Ceumar
22h30: Jefferson Gonçalves e Kléber Dias

Amor sempre! E música!

Caixa de música. Capa. Reprodução
Caixa de música. Capa. Reprodução

 

Xê Casanova assina simplesmente Xê em seu primeiro disco solo, Caixa de música [2016]. No álbum ele escancara a devoção a Marcelo Yuka (ex-O Rappa), que produziu o trabalho, a começar pela capa, em que credita o produtor.

É um disco sobre o amor, otimista, de vibrações positivas, com mensagens como “amor sempre” e “que todos os seres, em toda a parte, encontrem a felicidade”, no encarte, esta última tradução do mantra “loka samastha sukhino bhavantu”, misto de incidental e epígrafe em Todas as cores, cuja letra diz: “surgem no céu as cores/ de um novo tempo/ levam meu sonho adiante/ um mundo diferente, sim/ mas sem preconceitos”.

Alessandro Fontanari Casanova, seu nome de batismo, paulista de Mogi das Cruzes, onde mora, distante cerca de 80 km da capital São Paulo, vai com frequência ao Rio de Janeiro, onde gravou Caixa de música – no home studio de Yuka, na Tijuca, Zona Norte do Rio –, de que assina sozinho seis das oito faixas – as exceções são Ano bom, de Rui Ponciano, e Deixa rolar, que Xê assina em parceria com Sandra Vianna e Tatiana Fernandes.

Caixa de música foi gravado por uma banda enxuta, com os músicos se revezando entre instrumentos: Xê Casanova (voz, violão), Marcelo Yuka (bateria eletrônica, programação eletrônica, vocalize, colagem, egg shaker), Jomar Schrank (contrabaixo, guitarra, teclados, escaleta, backing vocal) e Fred Inglez (guitarra, guitarra cítara, revers), além de Katunga (violoncelo em O batuque, Todas as cores e Ano bom), Felipe Sobral Loureiro (guitarra em Deixa rolar, Ano bom e Não precisa falar) e Wagner Bagão Dubalize (sintetizadores e contrabaixo em Não abala).

Xê Casanova conversou com Homem de vícios antigos sobre o disco, o encontro com Marcelo Yuka, otimismo, amor e política.

O artista em foto de divulgação

Caixa de música é teu disco de estreia? Como foi sua gestação?
É meu primeiro disco solo. Já tive outras bandas [Tribo Brasil e Colomi], mas este é um disco em que me aventurei, eu que sou de Sampa, de Mogi das Cruzes, em ir pro Rio de Janeiro, a procura de algo “novo”, algo que me renovasse. E acabei tento um encontro com o Marcelo Yuka, que quis fazer esse trabalho. Demorou cinco anos essa gestação. Porque era só pra gravar no estúdio do Yuka, porém ele gostou das músicas e acabou sendo o produtor e tocando em todas as faixas, então só dava pra gravar quando ele tinha tempo, ele me chamava e eu ia pra casa dele gravar.

Parece-me até um som diferente de tudo o que eu conhecia do Yuka, sobretudo nO Rappa. Essa adoção dele por teu som acaba demonstrando a força de tuas composições, não acha?
Exatamente. Yuka curtiu a minha verdade, o simples. Você sabe o quanto ele é um grande poeta e tantas outras coisas. Isso que ele fez comigo, de gravar, se você pensar bem, é uma parceria. Poderia eu colocar que o disco é do Xê e do Yuka, mas eu não quero isso. Só a força, como você bem disse, da assinatura dele, é pra mim um divisor na minha carreira.

Caixa de música é um disco carregado de otimismo. Desde as composições até mensagens no encarte, como “amor sempre”, que lemos logo ao abrir, e o “loka samastha sukhino bhavantu”. Nestes tristes tempos que o Brasil vive, o quanto é necessário de otimismo e realismo para sobrevivermos?
Ufa, irmão! Eu acredito que o AMOR [maiúsculas dele], explicar essa palavra “amor” fica muito vaga, piegas, não sei como dizer. Quando comecei a praticar ioga, há sete anos, eu fui entendendo que o amor muda, transforma, e que se você pensar no amor de servir, deixar ser servido, olhar pro próximo, cachorro, inseto, água, sei lá, as coisas mudam. Pois bem, tô eu tentando, sempre, pinta a oportunidade de ir pro Rio encontrar o Yuka, eu sem banda, sem saber o que fazer. Pensei: é o amor me mandando a porra da parada. Fui. Se fosse antes não sei se acreditaria em mim, entende?

Perfeitamente. A ioga te permitiu ouvir uma voz interior?
Sim. A de confiar. Tem dias que é difícil, mas é uma ferramenta, e quando eu encontrei o Yuka, a primeira coisa que ele falou, juro: “agora que sou um praticante de ioga, blá blá blá”. Cara! Eu não acreditei

Lembrei da história do encontro de Baby Consuelo [hoje Baby do Brasil] com o [contrabaixista] Dadi. Ela nunca o tinha visto e mandou: “você toca contrabaixo, não toca?”. O resto é história. Caixa de música é um disco enxuto, poucos músicos tocando, coeso, você assina quase todas as faixas. E o amor permeia o conjunto. Quais as doses de acaso, inspiração e trabalho?
Eu gravei todas as canções só voz e violão. O Fred Inglez, técnico de som, fez os beats no metrônomo, em cima do meu jeito de tocar e ponto. Em dois dias já tava pronta a base do cd, sem nome sem nada de ideias. Yuka gosta da madrugada, do barulho que o silêncio faz. Então começamos o processo, desses anos todos, amizade, cumplicidade, amor, cozinhar com ele, ser uma extensão de seu corpo na hora de fazer um rango do jeito dele. Tudo isso foi refletindo no disco, nas longas madrugadas, o respeito com minha música. Quando entrávamos no estúdio, era pra ficar no mínimo 10 horas, sem choro.

A faixa Não abala é o momento do disco em que você mais se aproxima da temática social que norteia o trabalho do Rappa, do Furto [grupos que Yuka integrou] e do Yuka. Ela não destoa do resto do disco, já que é impossível amar sem medo, concorda?
Pois é! Medo de ser livre, de escolher. Daí a ignorância e a inteligência. Batem cabeças. Me lembrei da musica do Beto Guedes [cita trecho de O medo de amar é o medo de ser livre, parceria de Beto Guedes com Fernando Brant]: “O medo de amar é o medo de ter/ de a todo momento escolher/ com acerto e precisão/ a melhor direção”.

E o que você tem a dizer a quem ousar criticar Caixa de música por ser um disco sobre o amor e, portanto, talvez dirão, piegas?
Pô, tá no direito. Eu sei que pra mim foi uma honra ser produzido por uma pessoa que  influenciou toda uma geração, um cara visionário, olhos atentos no futuro. Então, se o conceito que ele deu ao Caixa de música for classificado por alguns como piegas, eu aceito. AMOR SEMPRE! [maiúsculas dele].

Você visita com frequência o Rio de Janeiro, onde gravou seu disco. O que achou do resultado da eleição para prefeito lá? E em São Paulo?
[Risos]. Gravei na casa/estúdio do Yuka, na Tijuca, Zona Norte do Rio, bairro de tantos artistas, terra de Tim Maia. Na eleição passada o Yuka foi [candidato a] vice[-prefeito] do [Marcelo] Freixo, então já tava torcendo pra ele. Fiquei chateado sim com o resultado, mas acho que é um trabalho de formiguinha. O bispo papão é foda. Em Sampa? [gargalhadas]. Jura mesmo?. Dória Jr.? Não rola.

Ouça Caixa de música, o disco:

Vanessa Bumagny e o poder (do) feminino

O segundo sexo. Capa. Reprodução
O segundo sexo. Capa. Reprodução

 

Vanessa Bumagny toma emprestado do clássico de Simone de Beauvoir, o título de seu terceiro disco, O segundo sexo [2015], mas engana-se quem esperar encontrar ali um manifesto feminista ou coisa do tipo.

No entanto, esta discreta parceira de nomes como Chico César e Zeca Baleiro – que comparece ao disco em participação especial na faixa-título – demonstra seu empoderamento feminino, por exemplo, ao assinar, sozinha ou com parceiros, todas as faixas do disco.

Acompanhada de músicos como Adriano Magoo (sanfona, teclado), Érico Theobaldo (programação de bateria, bateria, baixo, guitarra), Fernando Nunes (contrabaixo), Roger Menn (guitarra, violão), Rovilson Pascoal (violões) e Zeca Loureiro (guitarra), entre outros, Vanessa Bumagny desfila toda sua versatilidade e talento.

O segundo sexo (Luiz Pinheiro/ Vanessa Bumagny) tem clima de new wave e lembra o pop do Metrô. “É duro ser o segundo sexo, o primeiro, o terceiro e todos os demais”, provoca a letra, para reafirmar, mais adiante: “é duro ser o primeiro filho, o caçula, o do meio e todos os demais”. Música alegre para tristes tempos: no fundo, é duro ser humano, hoje em dia.

Nada igual por aí evoca Cor de rosa choque (Rita Lee/ Roberto de Carvalho): “isso vermelho é sangue cuidado está vivo e pulsa/ quente como nunca se viu nada igual por aí”, diz a letra de Vanessa Bumagny, cujo arranjo é outro ponto do disco que nos leva a pensar em bons momentos do pop rock nacional oitentista. “Este disco é dedicado a quem escuta inocentemente como se fosse sempre a primeira vez”, a artista arremata no encarte provocantemente.

No repertório do sucessor de De papel [2003] – título que é o significado de seu sobrenome – e Pétala por pétala [2009] – batizado por parceria com Chico César, também gravada pelo parceiro – destacam-se ainda O que for melhor (Vanessa Bumagny), faixa que abre o disco com sua luminosidade musical, a valsa Você era meu sonho (Heloiza Ribeiro/ Vanessa Bumagny), A Carlos Drummond de Andrade, em que ela musica um poema do “anti-musical” João Cabral de Melo Neto, Tristeza só (Vanessa Bumagny), samba à base de baixo, guitarra e bateria, e Do meu jeito (Luiz Tatit/ Vanessa Bumagny), em que a protagonista parece fraquejar, mas no fundo é senhora de sua decisão.

Ouça Tristeza só (Vanessa Bumagny):

A sinceridade de Kleber Albuquerque e Rubi

Cantores apresentam o show Contraveneno logo mais às 20h30 no Cine Praia Grande

Foto: ZR (28/10/2016)
Foto: ZR (28/10/2016)

É praticamente a estreia de Contraveneno, o show que Kleber Albuquerque e Rubi apresentam logo mais, às 20h30, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com produção da Sete Sóis (selo que lança seus discos) e produção local de Gilberto Mineiro. Ou pelo menos é, com essa formação: eles serão acompanhados por Rovilson Pascoal (guitarra) e Mário Manga (violoncelo).

O show deve circular e há a vontade de transformá-lo em disco. A ideia para o espetáculo em parceria surgiu há pouco mais de um mês, mas as carreiras de Kleber e Rubi se cruzam há bastante tempo. Rubi se lembra de, ao ouvir o disco de estreia de Kleber [17.777.700, de 1997], ter procurado o produtor Mário Manga, através de quem se conheceram. Contraveneno acaba sendo também uma espécie de reencontro, quase 20 anos depois.

Estamos diante de dois dos mais autênticos e sinceros artistas surgidos para o mercado fonográfico a partir da segunda metade da década de 1990. Compõem e cantam simplesmente o que lhes emociona. Ou isso ou nem tentam, como provam suas trajetórias regulares de discos tão belos quanto verdadeiros, com temas que vão do amor a questões sociais.

Homem de vícios antigos encontrou-os na manhã desta sexta-feira (28), em frente ao hotel em que se hospedaram, na Avenida Litorânea. Conversamos com os cantores entre idas e vindas dos músicos para uns mergulhos na praia do Calhau. A conversa foi acompanhada também pelos produtores Flávvio Alves (Sete Sóis) e Gilberto Mineiro. A seguir, os melhores trechos da conversa à beira-mar.

Foto: ZR (28/10/2016)
Foto: ZR (28/10/2016)

Contraveneno já tinha sido apresentado ou é um show novo?
Rubi – Estamos estreando esse show. A primeira mostra foi em Londrina. Mas sem o Rovilson e sem o Mário Manga. A gente pretende fazê-lo girar, circular. Com essa formação, preferencialmente.
Kleber Albuquerque – É uma alegria muito grande ter o Manga novamente, ele produziu nossos primeiros discos. Eu nem tinha pensado nessa coisa de 20 anos há até umas duas semanas. O Flávvio comentou de a gente gravar o disco novo.

Por falar nisso: e o disco novo? Ou: há a chance de Contraveneno virar disco?
Kleber – É um projeto muito recente, um mês e meio. A gente se encontrou em casa, o repertório já surgiu.
Rubi – A gente conviveu muito durante muito tempo, tínhamos afinidade com algumas canções e o universo musical de alguns artistas muito próximos da gente. A referência é família, rádio. A gente tem algumas coisas que confluíam muito. Quando a gente se encontrou agora, acordou um monte de coisas dessa memória.
Kleber – Foi muito natural. A gente ia lembrando, o show tá quase na ordem disso.

É um best of?
Kleber – Tem muitas músicas inéditas. Em alguns momentos, canções muito próprias do trabalho dele, a alegria de cantar em duas vozes, músicas que eu ouvia quando era moleque.
Rubi – Uma coisa que ficou muito clara a partir do encontro é a delícia que é cantar junto. Eu gosto muito de cantar com ele. Eu sempre gostei muito de cantar com ele.

Quando eu ouço o título Contraveneno eu penso em antídoto. A música de vocês se pretende antídoto pra quê?
Kleber – Eu tenho a impressão de que essa questão do antídoto, no sentido de um remédio, um medicamento que melhore um pouco a vida, ele é especialmente pra gente, um contraveneno pessoal, pra suportar a vida. Esse nome vem de uma das canções do repertório, no sentido de não se render, uma certa resistência, embora as canções inéditas não sejam propriamente panfletárias, as letras têm um foco social, um olhar político por trás das letras.
Rubi – De uns tempos pra cá eu comecei a entender por onde a minha arte passeia. Eu me questionava com relação às minhas escolhas, a meu repertório. Uma coisa que ficou muito forte de uns tempos pra cá é o compromisso de eu viver a minha arte. Eu canto pelo viés da emoção. Quando eu canto tanto eu quero me sentir tocado pela canção, quanto criar a possibilidade de despertar essa sensação, essa emoção, não só pela coisa política do discurso em si. A gente tem vivido tempos muito ásperos, de muita intolerância, tudo é muito veloz, e isso tira o tempo de reflexão. Eu gosto de cantar coisas que mexem com minha emoção. Eu não vejo quem me escuta de maneira passiva. Pra mim é uma troca, é um vai e vem. Quem para para ouvir, é tão importante quanto a gente que toca. Ter um bom ouvido é tão importante quanto ter o que dizer.

As formas de o público lidar com a música têm mudado, mas vocês ainda fazem discos.
Kleber – Talvez mais por fetiche. Pro artista é muito bom ter algo pra te dar uma unidade. Antigamente você fazia o compacto com uma canção só e hoje está voltando, por conta da internet. Hoje você pensa em 13 canções e tem a oportunidade de pensar em uma unidade para o trabalho. Essa forma de embrulhar ainda é usada mais por uma questão de resquício do formato que por uma exigência de mercado. Há um valor simbólico, mas essas coisas estão se transformando mesmo.
Rubi – Isso de você fazer sua própria trilha, você não ouve um álbum. As pessoas não estão mais habituadas. Você se conecta, ouve a música, acha interessante, vai saber se você vai lembrar do autor? Vão ficando as células, não fica o corpo.

Vocês sempre trazem, em suas obras, a questão social.
Kleber – Às vezes é o amor que afeta, mas do meu ponto de vista, como uma pessoa que tá vivendo a vida, é uma forma de elaborar pessoalmente. Pra mim acaba sendo uma extensão natural lidar com alguns temas. Eu não me acho apto a dizer nada pra vida do outro, a falar o que é certo ou o que é errado. Por outro lado, essas coisas acabam envolvendo a gente de uma forma mais forte do que em outras épocas. A força da palavra poética pode vir a ter uma importância grande como já teve, não pra música, mas pra vida das pessoas. Eu, tirando pra mim, tenho algumas canções, alguns versos, que influenciaram minha vida a ponto de eu descobrir que eu queria fazer isso. A música, a poesia, a arte de modo geral, têm um poder transformador.
Rubi – Eu tenho uma coisa muito forte pra mim. Com o passar do tempo a gente vai maturando. As pessoas me imaginam cantando x, y, z. Meu critério não é o que o outro imagina. É duro falar assim, mas é exatamente isso. Eu preciso estar envolvido. A música pode demorar uma vida inteira para me escolher, mas a música tem que fazer um sentido pra mim. Eu não me considero um cantor, minha formação acadêmica [Rubi é bacharel em artes cênicas] não tem nada a ver com música. Toda minha ligação com a música é muito intuitiva. Muito nesse lugar de me respeitar dentro de cada canção, respeitar a canção e me colocar dentro dela. Eu dependo muito das minhas escolhas, eu preciso da minha relação com aquela obra pra ela se expressar através de mim. Todo meu processo de canto passa pela palavra, eu tenho um amor pela palavra muito grande. Minhas escolhas caem muito aí. A canção é minha dramaturgia, por que eu sou ator. Eu não me considero um cantor, de fato. Quem canta em mim é o ator.

Ouçam Brasa (Kleber Albuquerque), com Kleber Albuquerque:

Ouçam Ai (Kleber Albuquerque/ Tata Fernandes; poema incidental: Gero Camilo), com Rubi:

Intimidade e entrega

Lancamento de Dois tempos de um lugar no Auditório Ibirapuera. Foto: Chema Llanos
Lancamento de Dois tempos de um lugar no Auditório Ibirapuera. Foto: Chema Llanos

 

Ex-namorados, Dandara e Paulo Monarco esbanjam intimidade ao figurarem nus na capa e encarte de Dois tempos de um lugar [2016], disco produzido por Swami Jr. e Tó Brandileone e mixado por Ricardo Mosca (Pau Brasil). O par não precisa de mais que uma faixa para provar que estamos diante de dois artistas talentosos.

Ela, cantora habilidosa, que ouvintes mais antenados lembrarão de [2013], terceiro disco de Bruno Batista, que poderia também ter sido assinado por ela; ele, compositor interessante, autor, com diversos parceiros, de quase todo o repertório do disco – as exceções são Toca aí, de Túlio Borges, Trovoa, de Maurício Pereira, e a faixa-título, de Celso Viáfora.

Ame (Paulo Monarco/ Kleuber Garcêz), quase toda rimada no título, entre a “delicadeza do origami” e a “força do índio Yanomami”, abre o disco, cumprindo bem o papel de apresentar a dupla e despertar o interesse do ouvinte pelas faixas restantes.

É basicamente um disco de vozes (Dandara e Monarco) e violão (Monarco, que toca guitarra em Escuta). As únicas exceções são o piano de armário em Toca aí e a gaita em Escuta, ambos tocados por Tó Brandileone. Zeca Baleiro canta em Tem dó, parceria dele com Paulo Monarco.

Dois tempos de um lugar. Capa. Reprodução
Dois tempos de um lugar. Capa. Reprodução

Dois tempos de um lugar é um disco profundo, de entrega. Como atesta a letra de Pra acordar (Paulo Monarco/ Suely Mesquita): “sorrir sem medo com a alma em carne viva/ alargo o peito pra poder acomodar/ um coração que cresce além da sua medida”.

É um disco para se apaixonar à primeira vista – ou melhor, à primeira escuta. Em tempos líquidos, a intimidade se dá ligeira, mas no que a dupla canta não é mera aventura. Em Escuta (Paulo Monarco/ Túlio Borges), pedem atenção com uma pitada de erotismo: “Escuta a história que vou te contar/ que vou te lamber/ o aparelho auditivo/ que vou te chupar/ a intimidade do ouvido”.

O ofício musical e suas delícias também são temas em Dois tempos de um lugar. Na faixa-título voltam a pedir atenção e a demonstrar intimidade: “É tudo muito estranho, eu sei, você nunca me viu, mas por favor, escuta/ não me pergunte como nem por que, mas sei que temos vidas muito juntas”. Em Madrigal (Paulo Monarco/ Dandara/ Bruno Batista), que fecha o disco, idem: “talvez seja essa tristeza/ ou o costume da esperança/ que me faz, nunca querendo,/ querer sempre mais/ e o meu único desejo é morrer cantando/ o meu único desejo é sempre cantar”, este certamente também o desejo de quem ouvi-los.

Ouça Contenteza (Paulo Monarco/ Alisson Menezes):

A mensagem de Criolo merece atenção independentemente de rótulos

Ainda há tempo. Capa. Reprodução
Ainda há tempo. Capa. Reprodução

Criolo Doido passou a assinar apenas Criolo, lançou o petardo Nó na orelha [2012] e angariou elogios de Caetano Veloso, Chico Buarque (que o homenageou em meio à sua Cálice, parceria com Gilberto Gil), Milton Nascimento (com quem chegou a dividir show), Emicida (com quem dividiu show e o disco Ao vivo, de 2013) e Ivete Sangalo (com quem dividiu o disco Viva Tim Maia, de 2015).

No rastro, Convoque seu Buda [2014] mantinha a pegada e o diálogo entre rap, samba e soul, principalmente. Criolo definitivamente havia saído do gueto e falava para multidões. No recém-lançado Ainda há tempo [Oloko Records, 2016, disponível para download no site do artista], Criolo volta às origens (que, de fato, nunca abandonou): depois do inegável sucesso, é seu disco mais acentuadamente “rhythm and poetry”, formado por composições datadas de entre 1996 e 2005.

São nove faixas e 11 produtores diferentes, sob direção musical de Daniel Ganjaman, que com Marcelo Cabral assina a produção da faixa-título, que fecha o disco, além de cantar e tocar contrabaixo, piano, sintetizadores e programação.

A verve de Criolo continua afiada e é uma constante no disco a mensagem positiva que predomina no rap, sobretudo destinada às juventudes das periferias, em sua maioria negros que perdem a vida para a polícia ou para o tráfico de drogas. “Eles querem que você desista/ mas jamais se dê por vencido/ rap nacional envolvidão até o pescoço/ se não fosse assim/ ai de mim/ só tava o osso”, diz a letra de No sapatinho (produzida por Renan Samam e Filiph Neo).

As vozes dos indígenas Shirley e Euclides Krenak, da tribo Krenak, são ouvidas na fortíssima Chuva ácida (produzida por Sala 70), em que Criolo critica, a partir da tragédia de Mariana/MG – até o lançamento do disco e a publicação desta resenha, nem Samarco nem Vale nem ninguém punido –, a política praticada a partir de conchavos e propinas, incluindo o Congresso nacional, departamentos de “responsabilidade social” de grandes empresas e organizações do terceiro setor.

Criolo não receia tocar feridas profundas em temas que lhe são caros. É freireano no sentido de aproximar a teoria da prática, a fala da ação ou, resumindo: o que canta do que vive. A juventude é uma preocupação constante e sobram críticas à violência, ao consumismo, ao capitalismo, ao preconceito, ao sexismo, ao consumo de drogas lícitas e ilícitas.

“Eu tenho fé nessa nova geração/ nesse povo maravilhoso/ a nossa juventude toda” e “as pessoas não são más/ elas só estão perdidas/ ainda há tempo/ eu não quero ver/ você triste assim, não/ que a minha música possa/ te levar amor”, têm esperanças Tô pra ver (produzida por Grou com participação especial de Rael) e a faixa-título, respectivamente.

Sonoramente Ainda há tempo talvez seja o disco mais hermético de Criolo. Ouvi-lo é necessário, pelo que discute, sobretudo no Brasil atual – espero que seja compreendido pelos fãs conquistados ao longo dos últimos anos, quando as lojas colocaram o artista nas prateleiras de MPB.

Ouça Chuva ácida (Criolo):

Zeca, Baileiro

Há tempos digo e reafirmo: Zeca Baleiro é o maior trabalhador da música popular brasileira em atividade. Só este ano, já lançou o cd Era domingo, o dvd A viagem da família Zoró e o livro Quem tem medo de Curupira? [Companhia das Letrinhas, 2016, 80 p.; leia um trecho] – os dois últimos, respectivamente, videoclipes animados para 11 das 28 faixas do disco Zoró – Bichos esquisitos, que lançou há dois anos, e um livro com o texto da peça escrita para o grupo ludovicense de teatro amador Ganzola, no longínquo 1988, quando sequer tinha se mudado para São Paulo ou gravado seu disco de estreia [Por onde andará Stephen Fry?, 1997]. De temática infantil, dvd e livro foram lançados neste mês das crianças.

Justo no dia das crianças (12 de outubro) estreou, no Canal Brasil, sua mais nova empreitada: o programa Baile do Baleiro, que transita entre apresentações do maranhense com artistas convidados interpretando músicas autorais (dos convidados, no caso) ou alheias e os bastidores, em que aparecem o clima descontraído dos ensaios, os encontros de Zeca com as visitas e ligeiras entrevistas que ele faz com os mesmos, sobre suas referências e memórias musicais (e) afetivas.

O programa de tevê enquadra um formato de show que Baleiro apresenta há mais de uma década – quando passou pelo Maranhão teve como convidada a sambista Patativa, de quem ele viria a produzir Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia.

Sem preconceito de estilo ou faixa etária participaram do primeiro programa a cantora Blubell e o soulman Hyldon, que fizeram bonito em músicas como o tango Bandido, dela, e as clássicas As dores do mundo e Na rua, na chuva, na fazenda (Casinha de sapê), ambas dele. Com ela, Baleiro dividiu Mamãe passou açúcar em mim (Wilson Simonal) – sozinho, ele abriu o programa com Segura esse samba, ogunhé (Osvaldo Nunes).

Cantadas sozinhas ou em dueto com o anfitrião, as músicas acabam convertendo-se em, além de festa, uma espécie de almanaque da música dançante (com inteligência) brasileira, a partir da revisitação a baús particulares e à grande tradição da canção popular, para usarmos termo parecido à justificativa da academia sueca em premiar Bob Dylan com o Nobel de Literatura – prêmio festejado tanto por Zeca Baleiro quanto pelo modesto repórter que ora lhes comenta seu novo programa.

Baile do Baleiro vai ao ar às quartas-feiras às 21h (horário de Brasília; hora local: 20h), com reprises aos sábados às 16h30 (no horário de verão) e às terças às 12h30 (idem). O segundo episódio, no próximo dia 19, terá como convidado Odair José. Em outros episódios Baleiro receberá ainda Edy Star, Guilherme Arantes, Jurema, Luiz Ayrão, Maria Alcina, Wado e Zizi Possi.

Veja o teaser do programa:

Funk do amor explícito

Amor geral. Capa. Reprodução
Amor geral. Capa. Reprodução

 

Com os dois pés no funk e majoritariamente eletrônico, Amor geral [Sony, 2016], disco novo de Fernanda Abreu, é um disco libertário. De um jeito ou de outro, todas as músicas falam de amor e prazer. Certamente é o trabalho mais erótico e despudorado da cantora.

Outro sim [Fernanda Abreu/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano], que abre o disco – e seu primeiro hit –, vai direto ao ponto, sem falsos moralismos ou meias palavras: “outro marido traído/ outra esposa ansiosa/ outra amante excitante/ querendo dar”.

O tema volta em Double love amor em dose dupla, de Fausto Fawcett [em parceria com Laufer], autor de Kátia Flávia, a godiva do Irajá, um dos maiores sucessos da ex-Blitz. “Não fica se achando/ me cercando insinuando/ perdido em egotrip/ que eu sou sua refém apaixonada/ que nada, meu querido/ meu negócio é double love/ amor em dose dupla/ no meio da cidade nua”, escancara a letra, com citação de Je t’aime moi non plus [Serge Gainsbourg].

O samba é tema do funk Tambor [Fernanda Abreu/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano/ Afrika Bambaataa], com adesão do americano Afrika Bambaataa [Zulu Nation]. À música, que cita o samba-enredo de 1982 do Império Serrano, Bumbum praticumbum prugurundum [Aluísio Machado/ Beto Sem Braço], comparecem os violões de Davi Morais e os teclados de Donatinho, herdeiros de dois reinventores da música brasileira.

Deliciosamente [Fernanda Abreu/ Alexandre Vaz/ Jorge Ailton] e Saber chegar [Fernanda Abreu/ Donatinho/ Tibless/ Play Pires] falam direto ao coração, como começa a letra da primeira: “deliciosamente/ boca, pele e mão/ tudo que se quer dizer/ falar ao coração”. Candidata a hit, Antídoto [Fernanda Abreu] evoca baladas radiofônicas oitentistas.

Se O que ficou [Fernanda Abreu/ Thiago Silva/ Qinho] é a faixa “coração partido” do disco, Por quem [Fernanda Abreu/ Qinho] é “sinal dos tempos”, trazendo os recursos tecnológicos para dentro do jogo (do amor). Valsa do desejo [Fernanda Abreu/ Tuto Ferraz] é explícita, como de resto quase todo o disco: “me olha/ imagina/ pra eu me sentir despida/ me fala/ sussurra/ o que até Deus duvida/ me beija/ de língua/ pra eu me sentir perdida”, provoca, costurada por quarteto de cordas.

“A gente briga mas se ama/ tenta entender o quanto de ódio esconde o amor/ e o quanto de amor tá implícito no ódio/ a gente briga mas se ama/ porque somos condenados a amar”. As contradições do sentimento dão o tom de Amor geral [Fernanda Abreu/ Fausto Fawcett/ Wladimir Gasper], que encerra o disco em clima de reconciliação, ilustrada pelos graves do violão sete cordas de Rodrigo Campello: “mas o que importa é parar/ numa esquina e perceber/ o gigantesco coração do planeta batendo/ Ouçam!/ O coração do mundo batendo/ gigante coração, gigante coração/ do amor geral”.

*

Assista o clipe de Outro sim [Fernanda Abreu/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano]:

Filarmônica de Pasárgada: “se ela não tocar no rádio/ já tocou seu coração”

Algorritmos. Capa. Reprodução
Algorritmos. Capa. Reprodução

 

Herdeiros diretos da vanguarda musical do Grupo Rumo e da crônica presente à obra de Tom Zé – este e alguns integrantes daquele aparecem em participações especiais – a Filarmônica de Pasárgada chega ao terceiro disco, Algorritimos [2016], o ótimo sucessor de Rádio lixão [2014] e O hábito da força [2012].

O mote é a internet e seu vasto universo: redes sociais, emoticons, relacionamentos, pornografia, propaganda, vírus. Tudo embalado pela ótima música e bom humor a que os fãs já estão acostumados – e que mais gente precisa urgentemente conhecer. Nos títulos das 15 faixas já fica evidente do que eles estão falando: Você quis dizer: Filarmônica de Passárgada, 144 caracteres, WWW e Cavalo de Troia, todas assinadas por Marcelo Segreto, entre outras.

O grupo em foto de Edson Kumasaka
O grupo em foto de Edson Kumasaka

André Teles (contrabaixo e voz), Fernando Henna (sanfona, piano, órgão, teclado e voz), Gabriel Altério (bateria, percussão e voz), Ivan Ferreira (fagote), Marcelo Segreto (guitarra, violão, ukulele e voz), Migue Antar (contrabaixo), Paula Mirhan (kazoo e voz) e Renata Garcia (clarinete e clarone), compõem a banda-orquestra, cujo nome é inspirado na cidade da antiga Pérsia que por sua vez inspirou o poema de Manuel Bandeira.

Em Você quis dizer: Filarmônica de Passárgada uma tiração de onda – só o humor salva – com a impopularidade da banda: “sem fama, sem fã, mas sem fantasia/ no carnaval no perfil/ o bolso cheio de canções/ mas o chapéu vazio”, a letra dá a real. No funk Kiwi (Marcelo Segreto), dedicada a Jean Wyllys, o cenário é o almoço de domingo em família, e suas semelhanças com as caixas de comentários (e ódio, intolerância e preconceito) de sites de notícias e redes sociais: “No almoço de domingo/ tem piada pra contar/ tem burrice pra comer/ opinião pra vomitar”, provoca a letra. E continua: “Que é que tem que eu sou marica?/ que é que tem que eu sou kiwi?/ que é que tem que eu sou sapata?/ que é que tem? Sou travesti”.

WWW é uma colagem, com citações de Baby (Caetano Veloso), Love me do (Lennon/ McCartney), Ne me quitte pas (Jacques Brel) e Estoy aquí (Shakira/ Luis Fernando Ochoa). Por falar em colagem, Ctrl c ctrl v (Paula Mirhan/ Marcelo Segreto), a faixa seguinte, aborda a linha cada vez mais tênue entre “originais” e “piratas”, escancarada na “terra de ninguém” – e, portanto, de todos – chamada internet, onde frequentemente se atribuem a Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo e Nelson Rodrigues, a falsa autoria de textos quase sempre piegas. “Sabe o gabarito da Fuvest?/ sabe o modelito da Madonna?/ sabe o seu bocejo? Seu jogo de cintura?/ Copiei colei na cara dura// Sabe aquela lá do kama sutra?/ sabe o seu registro de patente?/ sabe o epitáfio da sua sepultura?/ copiei colei na cara dura”, perguntam, provocando.

Marcelo Segreto (idealização, composição, arranjos e direção musical), espécie de líder da Filarmônica de Pasárgada, há algum tempo colabora com Tom Zé, de quem participou de discos. Eles assinam, com Tim Bernardes (de O Terno) – que toca guitarra na faixa –, São SP, faixa que evoca São São Paulo, do primeiro disco do baiano, lançado em 1968, e Com defeito de fabricação, disco lançado por ele 30 anos depois. Não pensem que o grupo fugiu do tema central de Algorritmos nesta declaração de amor à capital paulista: “São pra lá de dez milhões/ mas aqui ninguém, cadê?/ cada um no seu perfil/ cada um no seu apê”, começa.

7 comentários tem sete compositores (Marcelo Segreto, Rafa Barreto, Julinho Addlady, Tatá Aeroplano, Caê, Gustavo Galo e Cacá Machado) e seis participações especiais: Guilherme Arantes, Ná Ozzetti (ex-Rumo), Tom Zé, Juçara Marçal (Metá Metá), Luiz Tatit (ex-Rumo) e Zé Miguel Wisnik cantam na faixa, que traduz no canto o universo dos emoticons – em versos como “hashtag amo amo amo muito/ menor que três menor que três menor que três”, simbolizando um coração –, a ironia típica da rede – “que cara de bundão/ me assustei/ cê tá tipo o Brad Pitt/ só que não/ mas até compartilhei” – e volta a evocar Tom Zé: “bota mais parente aí/ bota foto de cachorro/ bota a janta e o almoço/ bota graça nesse rosto/ que a felicidade é uma foto engarrafada/ vagando na rede”, ele próprio canta, atualizando seu Parque industrial (1968).

O tom carnavalesco da marcha Fernando Henna está online (Marcelo Segreto/ Fernando Henna) volta a cantar emoticons, em letra engraçadíssima em que dois amigos contam, um ao outro, em um chat, como foi o carnaval de cada um. “O meu foi ruim demais/ roletrando na cidade/ sem amor/ sem colombina/ eu fui cantando/ a minha pipa não sobe mais/ rsrsrsrs”, conta um, lembrando programa de tevê e vinheta de Silvio Santos de outrora.

Parte de Algorritmos foi realizado com recursos do Proac/SP, programa de incentivo à Cultura do Estado de São Paulo. Como se a música não bastasse para o mote, a outra parte foi possível com recursos obtidos por meio de financiamento coletivo, a chamada vaquinha virtual. Mais real, impossível.

Livre que só ele

Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos sobre Só vou chegar mais tarde, disco que acaba de lançar, política e arte

O cantor e compositor Edvaldo Santana. Foto: Juvenal Pereira
O cantor e compositor Edvaldo Santana. Foto: Juvenal Pereira

São Luís e o tambor de crioula eram citados na letra de Jataí (2014), faixa-título do penúltimo álbum de Edvaldo Santana. Naquele ano ele chegou à capital maranhense, quando se apresentou em novembro, na semana da Feira do Livro de São Luís, no Teatro da Cidade (antigo Cine Roxy). O mote do show eram as comemorações de seus 40 anos de carreira.

Como arte e vida não são ciências exatas, esta matemática também não: as comemorações do artista se prorrogaram. Como ele diz em 40, faixa que abre Só vou chegar mais tarde (2016), “quando resolvi sair de casa pra cantar de vez/ já faz mais de muitos anos”.

Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução
Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução

O cantor e compositor conversou por e-mail com Homem de vícios antigos. Só vou chegar mais tarde aprofunda algumas características do trabalho de Edvaldo Santana, por exemplo o trânsito entre ritmos nordestinos e o blues americano.

A faixa de abertura é coalhada de referências. Entre outros, estão lá a Matéria Prima, sua banda inaugural ainda na década de 1970, passando por Tom Zé, com quem chegou a tocar, o poeta Ademir Assunção (o Pinduca), Arnaldo Antunes, Paulo Lepetit e Haroldo de Campos, cujo Galáxias, musicado por Caetano Veloso em Circuladô de fulô, é evocado na letra: “e não me peça nunca que eu te guie/ eu não nasci pra fazer teste”.

Edvaldo Santana (voz e violão) é acompanhado por banda base formada por Luiz Waack (banjo, violão, guitarra e cavaquinho), Reinaldo Chulapa (contrabaixo) e Leandro Paccagnella (bateria). A estes somam-se instrumentos ocasionais, como a sanfona e teclado de Adriano Magoo (em Retorno do cangaço; ele toca ainda piano elétrico em Dom), a gaita de Bené Chireia (em Sou da quebrada, Dom e Arte depura), a tuba de Eliezer Tristão (na faixa-título e em Retorno do cangaço), a sanfona de Antonio Bombarda (em Ando livre e Gelo no joelho), o piano de Daniel Szafran (em Predicado e Fazendo pra aprender; ele toca órgão em Domínio), além de naipe de sopros em 40 e Gelo no joelho.

Edvaldo Santana é autor solitário das 13 faixas. As exceções são Gelo no joelho (parceria com Luiz Waack) e Canção (poema provençal de Guillaume de Poitiers versionado por Augusto de Campos e musicado por Edvaldo Santana).

O disco passeia por temas como futebol (Gelo no joelho e Dom, homenagem ao ídolo Sócrates), viagem e liberdade (Ando livre, com participação especial de Rita Benneditto, em que São Luís volta a aparecer, na citação ao Bar do Léo), tecnologia e o vazio de relações virtuais (Predicado), a competição capitalista e um dar de ombros do autor na faixa-título, tema que volta a aparecer em Retorno do cangaço, em que tece críticas também ao mercado da fé televisionado e o jogo sujo da política em geral, com suas propinas e traições como regra.

Em Sou da quebrada outro tema caro a Edvaldo: a homenagem a pessoas simples, como seu Valdemar, protagonista de A poda da rosa, do disco anterior. Fazendo pra aprender é uma canção romântica, com ecos de filme de faroeste e do desaparecido Belchior. Em Arte depura cita Judite, sua mãe, e Divino maravilhoso (Gilberto Gil/ Caetano Veloso), anteriormente citada pelo cearense na antológica Apenas um rapaz latino-americano (Belchior). Domínio é uma homenagem a São Miguel Paulista e Cabeça na mesa tem a participação especial de Alzira E.

Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos. Foto: Milton Michida
Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos. Foto: Milton Michida

Homem de vícios antigos – Você esteve em São Luís em 2014, quando realizou um show de voz e violão em que comemorava os 40 anos de carreira. 40, faixa que abre Só vou chegar mais tarde, traz inúmeras referências a teu próprio trabalho e artistas de tua influência e convívio. Em que medida este disco é a continuação destas comemorações?
Edvaldo Santana – Sim, 40 é uma música que procura falar dessa trajetória das influências e referências nessa estrada de 40 anos, mas Só vou chegar mais tarde e as outras canções desse álbum estão em sintonia com o presente, refletem o que vivo e penso no momento, sem esconder o aprendizado que o caminho da arte possibilita. Celebrar a arte tem que ser uma constante na nossa vida. Minha estada em São Luís foi muito proveitosa.

Por falar em São Luís, Ando livre, que conta com a participação especial de Rita Benneditto, fala no Bar do Léo, que você visitou quando esteve aqui. Fale um pouco de suas impressões do lugar e de como se deu este encontro com a cantora maranhense.
Pois é, fiquei muito impressionado quando conheci o Bar do Léo, através de você,  uma mistura de diversas formas de artes: plástica, música, literatura, dança, diversão e um cara, o dono do bar, muito interessante, de papo bom e cordial. Ando livre é uma música que escrevi refletindo as observações da viagem que fiz pelo nordeste em 2014, passando pelo sertão do Piauí, pelo Rio São Francisco, na divisa da Bahia com Pernambuco, pelo Ceará e pelo Maranhão. Já conhecia a Rita, de quando ela morou em São Paulo, sempre gostei muito de sua voz e de seu jeito de cantar. Como queria convidar uma cantora pra dividir os vocais, que tivesse uma ligação com a letra, não titubeei em convidá-la pra cantar comigo esse bolero. Conversei com sua irmã Elza Ribeiro, enviei uma gravação e Rita depois de ouvir, aceitou meu convite. Como ela mora no Rio tivemos o auxílio luxuoso do amigo e grande artista Lenine, que acionou seu filho Bruno Giorgi, que colocou seu estúdio à disposição, para que pudéssemos registrar a voz dessa cantora genial. Momento muito feliz, onde a amizade e a tecnologia contribuíram generosamente para que esse encontro artístico fosse concretizado.

Você é paulistano, descendente de piauiense: a geografia e a genealogia fazem de você o artista brasileiro que melhor reprocessa certa sonoridade americana, isto é, você faz o que podemos chamar de brazilian blues, contrariando a tristeza típica do gênero. Ao longo de Só vou chegar mais tarde, há autorreferências que citam, entre outros, teu álbum Reserva de alegria. Apesar de tudo, o Brasil ainda é a terra da alegria?
Sou paulistano da periferia, do bairro chamado São Miguel Paulista, filho do piauiense Félix e da pernambucana Judite, que já partiram para outra esfera. Desde pivete que as sonoridades da gaita e da sanfona vivem dialogando no coração e na mente, trazendo melancolia. Talvez um dos motivos sejam as dores e as alegrias do povo nordestino e do povo negro americano, que apesar de todas as dificuldades conseguem doar para o planeta uma música primorosa. Sim, gosto demais do jazz, do blues, da salsa, do reggae, como adoro samba, xote, moda de viola, e essas virtudes sonoras transitam pelas minhas ideias, aguçando a sensibilidade. Nesse disco tem um ingrediente do dixieland, uma das últimas misturas entre a música africana e a europeia no começo do século passado. Pra você viver num mundo contrariado, só com muita reserva de alegria e com o auxilio luxuoso do suingue sofisticado que a música negra brasileira, americana, cubana, caribenha, nascida do povo nos dá de graça.

Por falar em teus pais, uma característica marcante de tua poética é a revelação das pessoas comuns como heróis, de uma professora ou um jardineiro serem teus ídolos, e aí podemos citar Judite e seu Waldemar, entre outras personagens. Ao risco de fazer música a partir de uma poesia hermética, posto que, em tese, só a entenderia quem conhecesse as personagens, você fala de sentimentos que todo mundo entende. A seu ver, por que mais gente não faz isso?
Apesar dos seres serem diferentes, acredito que quando você fala de sua aldeia, das pessoas comuns, você acaba falando pra todo universo, os sentimentos de respeito, bondade, amor, dignidade, são virtudes essenciais na vida do planeta. Outros artistas já fizeram isso muito bem: Jackson do Pandeiro, Bezerra da Silva, cantando os heróis e os vilões de suas comunidades.

Você é autor de músicas definitivas sobre o universo do futebol, embora, infelizmente, menos falado que nomes como Chico Buarque e Jorge Benjor. Em Só vou chegar mais tardeGelo no joelho e Dom se somam a O jogador e O goleiro, para citarmos algumas. Nas duas deste disco você fala de sua própria experiência como praticante do esporte e homenageia o ídolo Sócrates. O futebol é uma boa lente para observarmos o Brasil?
Futebol tá no sangue, faz parte da minha vida e acredito que de boa parte da população brasileira. Além de jogar, eu e meus irmãos fundamos um time de futebol na adolescência. Jogo minha bolinha até hoje. Vira e mexe gosto de cantar músicas que falam do jogador de futebol. O Sócrates é uma figura especial que, além de jogar muito bem, sempre se colocou ao lado da população mais desfavorecida, comprou briga com a imprensa marrom, defendendo suas ideias. Fui convidado para fazer a trilha sonora do seu doc, que acabou não rolando, e fiz esse samba em sua homenagem, que registrei nesse novo trabalho. O futebol às vezes é muito passional, como está enraizado no coração das pessoas, pode sim servir de lente para observar o Brasil.

Por falar na politização de Sócrates, algo raro entre jogadores de futebol em qualquer tempo: em meio a esta entrevista acaba de consumar-se a cassação do mandato da presidente da república Dilma Rousseff. Como você recebeu a notícia e qual a sua percepção do processo?
Estou muito triste e injuriado com esse momento funesto, apesar de saber que não teria volta. O Brasil interessa pra muita gente e depois da votação na Câmara os picaretas não iam largar o poder. Novamente tomamos um chapéu do xaveco, temos que aprender que a comunicação é um instrumento a serviço do capital, que não se interessa por igualdade, amizade. O momento é de reflexão e ação imediata. Ficou claro, mais uma vez, que acordo onde o inimigo dá as cartas, nunca deu certo. Vamos à luta, não temos tempo de temer a morte

“Não temos tempo de temer a morte”, verso de Divino maravilhoso, parceria de Caetano e Gil, além de traduzir bem o atual momento por que passa o país, é citado em Arte depura. “A arte existe por que a vida não basta”, já disse Ferreira Gullar. Só a arte salva?
A minha vida foi salva pela arte. Seguir o caminho da música foi fundamental. Quando percebi o definhamento da escola pública e que ficar batendo cartão para ganhar uma mixaria, que não custeava as despesas, poderia ter escolhido o caminho do crime,  mas o coração falou mais alto e no começo dos anos 1970,  resolvi cair na estrada e estou vivo traçando minha trajetória com alegria e respeito.

Outra convidada neste disco é Alzira E., que de algum modo demarca, digamos assim, tua ligação com a vanguarda paulistana. Pra você, o que significou a participação e aquele momento, liderado por nomes como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção?
Alzira também é uma amiga de muitos anos. Quem me falou desse seu lado mais rock foi Luiz Waack, ele disse que seria legal convidá-la. Fiquei feliz com sua participação em Cabeça na mesa, ela tem um timbre diferente. Pois é, sou contemporâneo dessa safra do Arrigo, do Itamar. No começo dos anos 1980 em Pinheiros, Zona Oeste, havia o [Teatro] Lira Paulistana, que se tornou o espaço alternativo que abrigava diversas formas de manifestações artísticas. Nessa mesma época em São Miguel, Zona Leste, havíamos fundado o MPA, o Movimento Popular de Arte, que agregava também várias manifestações artísticas na periferia de São Paulo, ocupando praças, ruas, galpões, anfiteatros. Era um momento de ebulição, processo de abertura política em andamento. Essa estética paulistana é uma referência muito forte no meu trabalho.

A seu ver o atual momento político brasileiro contribuirá para uma maior espontaneidade artística, isto é, artistas voltando a se reunir em coletivos, a tocar em atos públicos, de protesto, a uma maior participação política, que de algum modo acaba por ter reflexos na estética de um período ou de um grupo?
Acredito que é a democracia que contribui para a construção de novas estéticas. O que pode acontecer daqui pra frente já é fruto de você poder experimentar, de você saber que pode fazer o que quiser, que ninguém vai te cercear. A liberdade é o grande alicerce da arte. Já estavam acontecendo encontros substanciais nesses últimos anos. Esse momento político adverso mexe com a sensibilidade e vai contribuir para a potencialização da produção artística.

A cor do som

O Assanhado Quarteto em foto de Rafael Mota
O Assanhado Quarteto em foto de Rafael Mota

 

O clima de Feira [2015] vai muito além do nome do disco e do belo projeto gráfico da estreia do Assanhado Quarteto. André Milagres (violão sete cordas e guitarra), Bruno Vellozo (contrabaixo), Lucas Ladeia (cavaquinho) e Rodrigo Heringer, o Picolé (bateria, vibrafone e percussão) pegaram emprestado o choro de Jacob do Bandolim para batizar seu grupo, que foge do convencional – vide os instrumentos utilizados para tocar choro (mas não só) – para apresentar sua música, tão colorida quanto uma boa feira.

Os quatro cursavam mestrado na Unirio quando conheceram Mário Séve, ás dos sopros, integrante do Nó em Pingo d’Água, cuja sonoridade influenciou o quarteto. O bamba acabou aceitando o convite e produzindo o disco do Assanhado. No texto do encarte destaca o “repertório que, de uma forma instigante e inspirada, dialogava não só com o choro, mas com outros estilos musicais”, os “deliciosos arranjos “progressivos””.

Feira. Capa. Reproducao
Feira. Capa. Reproducao

Em vez de optarem por um caminho fácil (regravar choros conhecidos), um meio termo (mesclar choros conhecidos e inéditos), eles optaram pelo mais desafiador: Feira é completamente autoral e inédito.

Põe fiado! (André Milagres/ Lucas Ladeia/ Rodrigo Heringer) é a vinheta de abertura, uma balbúrdia sonora a lembrar o ambiente de trabalho dos feirantes. Tilho no choro (Lucas Ladeia) é um chorinho em que cavaquinho e contrabaixo dialogam inspiradamente. Dia bom (Rodrigo Heringer) começa a destacar o vibrafone, instrumento pouco usual no choro, mais comum no jazz. O instrumento volta a tomar as atenções para si em Maíra (André Milagres).

Mário Sève comparece a Atreva-se (Lucas Ladeia) e Do avarandado (Rodrigo Heringer), em que sola e dialoga com o quarteto, no que é uma das justificativas do título do disco: Feira é lugar de trocas e bastante popular.

A percussão que abre Cocada preta (André Milagres), reforçada pelo diálogo que se segue com o contrabaixo, remete ao bumba meu boi. O inventor inglês Richard Trevithick é o homenageado em Trevithick way (Lucas Telles). Ao mestre (André Milagres) é o momento em que mais o Assanhado Quarteto se aproxima da música erudita, o que poderia ser quase um imperativo para um grupo formado no âmbito da academia.

O cavaquinho vibrante de Bambolê evoca o bandolim de Jacob eu seus momentos mais próximos ao samba – com seus mais de sete minutos, a faixa mais longa do disco certamente é um dos arranjos progressivos de que falou Mário Sève, cujo saxofone assume ares progressivos em Do avarandado, faixa que encerra Feira.

Atualmente radicados no Rio de Janeiro, essa turma vinda da terra do Clube da Esquina faz bonito ao armar sua banca de boa música nesta imensa feira chamada Brasil.

Ouça o Assanhado Quarteto em Do avarandado (Rodrigo Heringer):

Galeria

Pedaco duma asa. Capa. Reprodução
Pedaco duma asa. Capa. Reprodução

 

Geralmente incorre em clichê o crítico que escreve sobre um disco dizendo tratar-se de uma pintura. Incorre em quê, então, o crítico que escreve que determinado disco é uma galeria? Depende. Mas se o disco for Pedaço duma asa [Brisa, 2015], de Mariana Aydar, é justamente isso, por reunir diversas pinturas.

Explico: o artista plástico Nuno Ramos assina quase a totalidade do disco. 11 das 12 faixas são dele: cinco em parceria com o também artista plástico Clima (que assina sozinho a única música que não é de Nuno, Samba triste), quatro sozinho, uma em parceria com a própria Mariana Aydar (Poeira) e uma em parceria com Rômulo Fróes, responsável por apresentá-los, o Barulho feio que batizou um disco do compositor.

No entanto, “o primeiro Nuno Ramos que eu conheci foi o da música, desconhecia sua vida ligada às artes plásticas”, adverte a cantora, logo no início do texto do encarte.

Mamãe papai, que abre o disco, é uma espécie de pedir a bênção aos pais, mesmo após uma carreira consolidada – Pedaço duma asa é seu quinto disco. “Mamãe/ papai/ dá licença de tentar/ eu cantar/ mal não faz”, começa a letra. Mariana Aydar é filha do músico Mário Manga (ex-Premeditando o breque) e de Bia Aydar, que já produziu um vasto leque de artistas brasileiros.

É o disco mais rock (a guitarra é quase onipresente) e mais axé (vide Dedo duro e Dentro das rosas, que dialoga com o carnaval das tribos de índio) de Mariana Aydar, mas o samba também segue firme e forte (vide Atrás dessa amizade, Samba triste e Caia na risada), destacando-se a guitarra de Guilherme Held, a percussão de Maurício Badé e a presença do esposo Duani em diversos instrumentos (contrabaixo, programação, violão, teclados, órgão).

Pedaço duma asa, a faixa-título, resume bem o disco: “eu vi o amor brilhar/ pedaço duma asa/ parecia carnaval/ zumbido em meu ouvido/ a voz que me dizia/ saber de mim o que eu já não sabia/ não sei tudo o que eu sonho/ talvez o que eu componho/ respondo ao que eu não sei mas sei, seria/ maior que a natureza/ que o som e que a beleza, que a arte, o canto, o sol/ e o bem maior, bem maior/ eu vi o amor cantar”.

Ouça Mariana Aydar em Dentro das rosas (Nuno Ramos/ Clima):

Modéstia e sinceridade

O cantor e compositor Marcos Magah é uma das atrações da terceira edição de RicoChoro ComVida na Praça, que acontece amanhã (24), às 18h, na Praça da Fé (ou Praça da Praia Grande), em frente à Casa do Maranhão.

A noite será aberta com discotecagem do DJ Samir Ewerton, e apresentações do cantor Claudio Lima e do grupo Urubu Malandro – formado por Arlindo Carvalho (percussão), Domingos Santos (violão sete cordas), Fleming (bateria), Juca do Cavaco e Osmar do Trombone.

O evento é gratuito, com patrocínio da TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Sobre sua participação nesta edição do projeto, Marcos Magah concedeu uma breve entrevista – modesta, sincera e hilariante – a Homem de vícios antigos.

Divulgação
Divulgação

Claudio Lima interpretou Salomé [no show Rosa dos Ventos, no Teatro da Cidade de São Luís, antigo Cine Roxy, em fevereiro de 2014], parceria tua com o poeta Fernando Abreu. O que você achou da interpretação?
Eu fiquei super feliz e honrado, e foi engraçado: eu tinha acabado de chegar em São Paulo para fazer uns shows e descolar uns trampos em restaurante de chinês e Wilka  [Sales, sua produtora à época] me mandou o link do youtube. Eu, na época desesperado, olhei aquilo, comprei uma cerveja, acendi um careta [gíria para cigarro] e saí gritando no meio daquela cidade linda, onde nada espanta.

O que você espera do show de sábado, no sarau de RicoChoro ComVida na Praça?
Velho, na boa, não é frase de efeito, não, mas eu sempre espero o pior.

Serão dois shows separados ou vocês se encontram em algum momento?
Eu e Claudio estamos sempre juntos, mas, sim, eu entro no show dele e ele no meu. Cantaremos Adoniran [Barbosa] juntos.

Você é um artista mais próximo do punk, rock e brega. Como foi se encaixar no choro do Urubu Malandro?
Eu pensei que seria enrolado, mas, cara, da minha parte foi tranquilo. Não sei da parte deles. Cheguei ao estúdio e toquei aquelas canções velhas e simples que tenho e eles me trataram com respeito. Só fiquei com pena do Juca e do Domingos se olhando e pensando: “como é que se chama um cara desses para um projeto tão bonito?” Meninos, coisas da vida.