Lançado em 2004, Shopping Brazil, disco de estreia de Cesar Teixeira, era o primeiro registro do artista interpretando sua própria obra, a despeito de ser um dos compositores mais gravados do Maranhão.
À época, o LP Bandeira de aço já contava mais de um quarto de século: lançado pela Discos Marcus Pereira em 1978, era o primeiro registro fonográfico com músicas de autoria de Cesar: Boi da lua, Flor do mal e a faixa-título, interpretadas por Papete, as duas últimas regravadas pelo autor em Shopping Brazil.
Mas a trajetória musical de Cesar Teixeira, versado em outras expressões artísticas, como a poesia, as artes plásticas e, por que não?, o jornalismo, havia começado ainda antes, quando participou de festivais ainda em fins da década de 1960.
Tudo isso fazia de Shopping Brazil um disco bastante aguardado. Ao longo de 14 faixas – incluindo dois excertos de Dona Elza (do Caroço de Tutóia) e Mestre Felipe (do Tambor de Crioula homônimo), além de uma ladainha de Antonio Rayol, cantada em latim por Dona Teté (do Cacuriá homônimo) – Cesar atestava a quem ainda ousasse duvidar sua versatilidade como compositor e sua qualidade como intérprete. Não à toa venceu, no ano do lançamento, diversas categorias do Prêmio Universidade FM, o mais importante da música produzida no Maranhão.
Como não poderia deixar de ser, Shopping Brazil veio embalado em protesto. Um texto no encarte (reproduzido neste relançamento) e a faixa-título, composta ainda na década de 1970 e atualizada por Cesar para o hip hop à base de latas recicladas e transformadas em instrumentos musicais pela trupe do Som na Lata, denunciavam os lixões brasileiros como verdadeiros shopping centers de onde populações vulneráveis e marginalizadas retiram seu sustento, alimentação e moda.
Mas havia ainda espaço para o choro (Ray-ban), o samba (Vestindo a zebra), o coco (Parangolé), o bumba meu boi (Mutuca), o xote (Xaveco) e o “bolero de Waldick Soriano” (verso de Namorada do cangaço).
12 anos depois, Shopping Brazil [R$ 25,00 na Livraria Poeme-se] é relançado, de forma independente, dando fim a uma longa espera e respondendo à pergunta recorrente, sobre uma nova tiragem, sempre feita por quem nunca teve o disco, por quem teve e perdeu ou simplesmente por quem gostaria de presentear alguém querido ou algum amigo de passagem pelo Maranhão.
Uma pergunta tão ouvida por Cesar quanto “e o segundo disco, sai quando?”.
Bastam algumas gotas, ou segundos, de seu Perfume do invisível, faixa de abertura de Tropix, novo disco da cantora Céu, para inebriar os ouvintes: “no dia em que eu me tornei invisível/ passei um café preto ao teu lado/ fumei desajustada um cigarro/ vesti a sua camiseta ao contrário”, revela-se, “para me despir/ e ser quem eu sou”, prossegue, provocativa, inaugurando seu quarto disco de estúdio, o quinto da carreira, com este incontestável hit.
Os tons de cinza do projeto gráfico revelam um disco orgânico, calcado em timbres eletrônicos, em boa parte graças ao tecladista Hervé Salters (General Elektriks), um dos produtores do disco – o outro é o baterista Pupillo (Nação Zumbi). A banda se completa com Pedro Sá (guitarra) e Lucas Martins (contrabaixo). Tropix tem ainda participações especiais de Tulipa Ruiz (vocais em Etílica/Interlúdio) e Rosa Morena (vocais em Varanda suspensa), filha da cantora, a quem Céu dedica A menina e o monstro e o disco.
Arrastarte-ei (sic) é uma espécie de Dorival Caymmi feminino em pleno século XXI, o mar como metáfora para um flerte, um caso de amor. Céu é autora solitária de quase todo o repertório, lírico, noturno, “anunciando a noite néon”, como diz um verso de Varanda suspensa (parceria com Salters). Em Amor pixelado promete: “saiba, meu amor/ cuidarei de nós/ mesmo quando eu for/ em busca de mim”.
Outros parceiros são Lira, na abolerada Sangria, e Fernando Almeida, em Camadas. De Jorge Du Peixe Céu registra A nave vai e recria, do repertório pouco revisitado da oitentista Fellini, Chico Buarque song (Ricardo Salvagni/ Cadão Volpato/ Jair Marcos Vieira/ Thomas Pappon), a única do disco cantada em inglês.
Com bonito videoclipe, disponibilizado na rede antes mesmo do lançamento do disco, a faixa de abertura parece ligar este aos discos anteriores de Céu. Mas a maior parte das 12 faixas de Tropix pode soar um pouco mais difícil a fãs menos acostumados a guinadas. Pois é justamente o que este novo disco representa: uma guinada na carreira da artista, cujo talento incontestável é reafirmado com este tipo de ousadia.
Sempre escrevo duo ou casal ao me referir ao Criolina, par musical formado por Alê Muniz e Luciana Simões. As denominações não lhes bastam: os parceiros, após temporadas em São Paulo, resolveram fincar pé no Maranhão, produzindo a partir daqui, sem, no entanto, perder a interlocução com outros eixos, configurando-se em uma espécie de catalisador da cena autoral local.
O BR 135, que em pouco tempo configurou-se como um dos mais importantes festivais (não competitivos) do Maranhão é apenas um exemplo disso. Mas as atitudes engajadas do Criolina e a criação musical sempre afiada e interessante, antenada com o mundo ao redor, nunca meramente mirando o próprio umbigo, tampouco sem perder as raízes, demonstram o papel crucial que seu pas de deux para além da música tem cumprido – embora, talvez, eles nem reivindiquem tal lugar e responsabilidade.
Com tantos arraiais oficiais e gratuitos espalhados pela cidade é essa agregação – sonora, inclusive – justamente o que explica valer a pena trocar, por uma noite, justo a de São João (leia-se: hoje), ou ao menos parte dela, por prestigiar o show Criolina e o Xote Elétrico, que Alê Muniz (voz e guitarra) e Luciana Simões (voz) apresentam acompanhados de um time de feras que me pedem antecipar perdões pelo clichê: a atriz Áurea Maranhão (voz), Rui Mário (sanfona), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra), Sandoval (sintetizador) e Erivaldo Gomes (percussão).
A noite contará ainda com a discotecagem de Pedro Sobrinho. O repertório orbita em torno de músicas autorais do Criolina e reverências a velhos mestres do cancioneiro nordestino: João do Vale, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Messias Holanda, Jackson do Pandeiro e João Madson (tio de Alê, recém-falecido), todos passados entre a raiz pé de serra e as antenas rockeiras, regueiras e eletrônicas. Um hit que certamente comparecerá ao repertório é Maguinha do Sá Viana, parceria de Alê Muniz e César Nascimento.
O show acontece na sede do Tambor de Crioula de Mestre Amaral (esquina da Praça D. Pedro II com a rua Montanha Russa, Centro), com produção de Lety’s Go Produções Artísticas. Os ingressos custam R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia).
Oito anos depois de sua montagem original, o espetáculo Sapecado, da Banda Mirim, chega à São Luís nesta quarta-feira (15), graças ao apoio da Petrobras – a montagem original foi possível graças ao apoio do Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.
Em 2008, ano da primeira montagem, Sapecado levou diversos prêmios: Associação Paulista de Críticos de Arte de melhor texto e melhor espetáculo, Femsa de Teatro Infantil e Jovem de melhor trilha sonora original e melhor espetáculo infantil, Cooperativa Paulista de Teatro de melhor espetáculo juvenil e melhor trilha original, Júri Guia da Folha de melhor espetáculo infantil e Revista Veja de melhor espetáculo infantil.
A trilha sonora e direção musical, um espetáculo à parte, são assinadas por Kléber Albuquerque e Tata Fernandes. A trupe é formada por elenco estelar, que mescla atores e músicos, entre os quais nomes que figuram em fichas técnicas de discos e shows de artistas como Ceumar, Chico César, Itamar Assumpção e Zeca Baleiro, todos figuras de destaque na música brasileira, parceiros dos autores da trilha.
Marcelo Romagnoli assina texto e direção do espetáculo. Baseada em São Paulo, a selva de aço e concreto, a Banda Mirim, 12 anos de estrada, cai na estrada com um espetáculo que tem uma estrada por cenário: Assunta Felizarda de Jesus (Claudia Missura) vive sozinha na roça, acompanhada apenas por seu cachorro Rex (Edu Mantovani). Um dia recebe um convite, trazido pelo carteiro Adauto (o excelente cantor Rubi), para ser madrinha do casamento da comadre Dete Mandioca. Juntos, os três cruzam a estrada do Bromongó até a Vila do Sapecado para participar do baile.
Parte dos 70 minutos do musical infantil se passa na viagem até a festa. As lembranças de uma infância vivida no interior forneceram elementos para Romagnoli construir o texto. “Lá a música rodeava tudo. Era dupla que cantava, era baile na igreja, sanfoneiro pelo caminho, rádio AM. Tinha história de mata cerrada, rio, bicho, noite escura, estrada de terra, que nem a estrada do Bromongó, onde a alma é grande e a gente é pouca”, conta o diretor em release distribuído aos meios de comunicação.
Cena de Sapecado. Foto: Andrea Pedro
Amizade, fraternidade e respeito são valores que permeiam o espetáculo, no fundo pensado para crianças de qualquer idade. “São temas que para nós, da Banda Mirim, são legados importantes, para dizer às crianças o que nós acreditamos como adultos: que o amor, a amizade e o sublime ainda são possíveis”, continua.
A ida de Assunta, Adauto e Rex ao baile é ilustrada musicalmente por parcerias de Kléber e Tata, entre um fox de trilha sonora para o namoro de vacas e sapos no brejo ou o desafio-repente entre a Benzedeira e o Coisa-Ruim na mata fechada. “Uma das coisas mais prazerosas deste trabalho foi podermos mergulhar musicalmente nesse universo da música caipira, na poesia, no humor, nas danças, nos ritmos deste Brasil profundo, desse lugar que é um outro tempo”, revela Albuquerque.
Com elenco formado por 11 artistas, a apresentação da Banda Mirim acontece nesta quarta-feira (15), às 15h e às 19h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), ambas com entrada franca – ingressos devem ser retirados com uma hora de antecedência na bilheteria do teatro.
A primeira sessão é voltada a alunos de escolas públicas e instituições de defesa dos direitos da criança e do adolescente; a segunda, aberta ao público em geral. A trupe realizará ainda em São Luís dois encontros artísticos: um com grupos de teatro, músicos, estudantes de artes cênicas e agentes locais dedicados às artes para crianças e jovens, no espaço Re(o)cupa (Rua Afonso Pena, 20, Centro); outro com crianças, mestres e brincantes do tradicional Bumba Meu Boi de Maracanã, na sede da agremiação, na comunidade homônima.
Na passagem pela Ilha a Banda Mirim fará ainda doações de CDs, livros e revistas a escolas públicas, instituições, associações comunitárias, grupos de teatro e cultura popular participantes dos encontros, artistas, músicos e entidades envolvidas nas atividades realizadas nas cidades da turnê, que passa também por Belo Horizonte, Brasília e Goiania.
Assista clipe do musical:
Ficha Técnica
Texto e direção: Marcelo Romagnoli Trilha sonora e direção musical: Kléber Albuquerque e Tata Fernandes Elenco: Claudia Missura, Rubi, Tata Fernandes, Simone Julian, Nina Blauth, Nô Stopa, Foquinha, Olívio Filho, Lelena Anhaia, Edu Mantovani e Alexandre Faria Figurinos: Verônica Julian Assistente de figurinos: Maria Cristina Marconi Cenário e desenho de luz: Marisa Bentivegna Cenotécnicos e contrarregras: Luiz Cláudio Fumaça, Jean Marcel e Rodrigo Oliveira Engenheiro de som: Ernani Napolitano Danças brasileiras: Silvia Lopes Consciência corporal: Gisele Calazans Direção de movimento: Cláudia Missura Produção executiva: Andrea Pedro Assistente de produção: Bianca Muniz Apoio: Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura, Programa de Ação Cultural (PAC) de 2008 Patrocínio Circulação 2016: Petrobras
Serviço
O quê: Musical Infantil Sapecado Quando: quarta-feira (15), 15h (sessão especial para alunos de escolas públicas e crianças e adolescentes atendidos por instituições de defesa dos direitos da criança e do adolescente) e 19h (sessão aberta ao público). Apresentações com intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) Onde: Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro) Quanto: entrada franca. Retirada de ingressos na bilheteria uma hora antes do início da apresentação.
Classificação indicativa: livre. Recomendado a partir de cinco anos. Duração: 70 minutos
Sobre Bagaça Bruno Batista já declarou ser seu melhor disco. Ontem (10), no Mandamentos Hall (Lagoa), em show concorrido, com ingressos distribuídos gratuitamente, por conta do patrocínio da TVN via Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o artista lançou seu quarto álbum.
Os DJs Franklin e Pedro Sobrinho prepararam o terreno – voltariam ao fim da apresentação de Bruno Batista; “quando o show termina a festa não acaba”, dizia uma das peças publicitárias do espetáculo – e a Pedeginja fez por merecer os elogios que o anfitrião lhes faria em seguida. “Essa rapaziada representa uma geração que chega e faz sem pedir licença. Há uma cena maravilhosa aqui em São Luís”, afirmou, após o show de abertura em que passearam entre o repertório de Contos cotidianos, seu disco inaugural (e até aqui único) e temas icônicos da MPB, entre os quais A menina dança (Luiz Galvão e Moraes Moreira) e Canto de Ossanha (Vinicius de Moraes e Baden Powell), com direito a citação do rapper (rótulo que há tempos já não lhe comporta) Criolo. “Fora Temer! Ocupa tudo!”, mandou o vocalista Paulão, seguido por boa parte do público.
Demorou nada para Bruno Batista estabelecer plena comunhão com a plateia e mostrar que sua evolução artística não está restrita ao disco, ao estúdio. Qualquer um que o tenha visto ontem e a seus shows anteriores – por exemplo, os de lançamento de Lá e Eu não sei sofrer em inglês – pode perceber claramente que ele está cantando melhor ao vivo (apesar de alguns problemas técnicos na sonorização ao longo da noite), maior desenvoltura, melhor domínio de palco – “cheguei em casa”, como diz na letra de Batalhão de rosas, o palco agora é também sua morada.
Artista cosmopolita, Bruno Batista é dos raros que se apresentam por estas plagas conseguindo o feito de, mesmo concentrando-se no repertório de um disco lançado recentemente, ter o público como seu backing vocal. Abrindo o espetáculo com a faixa-título do novo trabalho, ele passeou por quase todo o repertório de Bagaça, sem deixar de lembrar canções de seus outros três trabalhos.
Casos de Nossa paz (gravada em dueto com Tulipa Ruiz em Eu não sei sofrer em inglês), Tarantino, meu amor (no mesmo disco), Hilda Regina (idem), Ela vai chegar e Lá (do disco batizado por esta) e Acontecesse (do homônimo Bruno Batista de estreia, regravada por ele com adesão de Zeca Baleiro no segundo).
Flávia Bittencourt cantou Sobre anjos e arraias em andamento mais acelerado e Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) dividiram com Bruno Batista Latino-americano, música do trio lançada em ep do duo; em Bagaça os três assinam Pra ver se ela gosta, que o dono da festa cantou sozinho.
Quando cobrei-lhe A ilha ao cumprimentá-lo após o espetáculo, ele me respondeu, humilde e simpaticamente que ela não funcionaria naquele clima. Senhor da situação, o artista tinha razão: ele cumpriu a promessa de um show para ninguém ficar parado.
Ao fim, chamou os convidados ao palco e, com eles, prestou homenagem ao cantor e percussionista Papete, recém-falecido: o quarteto cantou Dente de ouro (Josias Sobrinho), aproveitando a ocasião para anunciar que um tributo ao Bandeira de aço será apresentado por eles durante a temporada junina na capital maranhense. Homem de vícios antigos certamente voltará ao assunto.
A ilha, faixa que encerra Bagaça [2016, disponível para download no site do artista], quarto disco de Bruno Batista, é uma das mais bonitas declarações de amor a São Luís jamais escritas. O artista foge de clichês ao citar lendas e o cotidiano da cidade. “As barbas de Nauro saem pra passear” e “Montserrat Caballé não entendeu quase nada” estão entre os versos que trazem nativos e turistas que um dia pisaram suas ruas de paralelepípedos.
Nenhum homem é uma ilha e somente em seu quarto disco Bruno Batista abre seu leque de parceiros: Dandara, Demetrius Lulo e Paulo Monarco em Caixa preta, Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) em Pra ver se ela gosta, e Zeca Baleiro em Nigrinha.
Bagaça é seu trabalho mais desbragadamente pop. Nas 11 faixas do álbum é possível perceber a bagagem de influências que moldou o cantor e compositor ao longo destes 12 anos de carreira, se contarmos a partir de sua estreia no mercado fonográfico, com o homônimo Bruno Batista [2004].
Maranhense nascido em Pernambuco, com férias da infância passadas no Piauí, hoje radicado em São Paulo após temporada no Rio de Janeiro, esta geografia afetiva se traduz musicalmente em Batalhão de rosas, toada de bumba meu boi rockificada que lembra a “areia branca” tema do caroço de Tutoia de Dona Elza, de saudosa memória. A faixa batizará o terceiro disco da cantora Lena Machado, a ser lançado este ano. A romântica Caixa preta evoca o Caetano político de Podres poderes.
O tambor de crioula ganha acento pop em Pra ver se ela gosta e Nigrinha tem ares caribenhos, de “amor sincero” em “novela das nove”, em diálogo com o “cinemúsica” de Blockbuster, a sétima arte uma das paixões confessas de Bruno Batista, que em álbuns anteriores já prestou homenagens a Quentin Tarantino [Tarantino, meu amor, de Eu não sei sofrer em inglês] e Michel Gondry [em Rosa dos ventos, de Lá].
Cerca-se dos mais requisitados instrumentistas da chamada “nova MPB” – rótulo que, como quase todo rótulo, não dá conta da turma – alguns dos quais com quem já tinha trabalhado em discos anteriores: Rovilson Pascoal (guitarra), produtor de Bagaça, Gustavo Ruiz (guitarra), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussão), Ricardo Prado (contrabaixo e rhodes) e Guilherme Kastrup (bateria e percussão) compõem o núcleo, em disco que conta ainda com participações especiais de Swami Jr. (violão sete cordas no bolero Você não vai me esquecer assim), André Bedurê (vocais em Você não vai me esquecer assim e Guardiã), Marcelo Jeneci (piano em Turmalina) e Felipe Cordeiro (guitarra em Nigrinha).
“O teu lugar, o teu lugar/ é o meu”, derrama-se em Turmalina, feita para sua esposa. Na faixa divide os vocais com Dandara, que compareceu em boa parte de Lá, seu disco anterior. O lugar de Bruno Batista é nos ouvidos de fãs cativos desde a estreia – ali já havia se firmado como um dos mais talentosos artistas de sua geração – e cada vez mais outros, conquistados álbum após álbum.
Confira o videoclipe de Nigrinha (Bruno Batista e Zeca Baleiro):
Serviço
Bruno Batista lança Bagaça em show gratuito hoje (10), às 20h, no Mandamentos Hall. O espetáculo conta com abertura da Pédeginja, discotecagens de Franklin e Pedro Sobrinho e participações especiais de Criolina e Flávia Bittencourt.
Em Tom Zé ou Quem irá colocar dinamite na cabeça do século [documentário,Brasil, 2000, de Carla Regina Gallo Santos], o compositor baiano, que venceu o Festival da Record de 1968 com São Paulo, meu amor (São São Paulo), revela a frustração com o comentário de Edu Lobo: “a música de Milton Nascimento é música em qualquer lugar”, teria dito o filho de Fernando sobre o preterido.
Tom Zé revela ainda que trabalhou a partir de então para se autossabotar. O mais tropicalista entre os tropicalistas, após a estreia no mesmo ano do disco-manifesto do movimento, lançou, dois anos depois, um álbum intitulado simplesmente Tom Zé [RGE, 1970], onde afirma que “as melhores ideias deste disco devem ser divididas com os meus alunos de composição da SOFISTÍ-BALACOBADO (muito som e pouco papo) e com Augusto de Campos”, grifo dele, em texto reproduzido na contracapa do álbum, que a Som Livre, braço fonográfico das organizações Globo, recoloca no mercado 46 anos após seu lançamento.
Ia na contramão da declaração no documentário, pois o segundo disco ganha em sofisticação e traz algumas de suas músicas mais marcantes. Uma pena o relançamento não trazer, no encarte, informações sobre os instrumentistas que participaram das gravações.
O autor de Dulcinéia Popular Brasileira, Qualquer bobagem (com Os Mutantes), O riso e a faca, Jimmy, renda-se (Jimi renda-se) e Jeitinho dela, para citar apenas faixas deste disco de 1970, deve muito a relançamentos. É por demais conhecida sua redescoberta, a partir do interesse do talking head David Byrne por seus discos, encontrados por ele por acaso em sebos cariocas, na década de 1990, especialmente Estudando o samba [1975], que desencadeou relançamentos nos Estados Unidos pelo selo Luaka Bop – a reboque, no Brasil, pela Trama. Tom Zé deixava o ostracismo por que passou boa parte das décadas de 1980 e 90 para reocupar definitivamente seu devido lugar na MPB, embora a sigla não seja suficiente para comportar-lhe.
De Com defeito de fabricação [1998] para cá, Tom Zé lança discos regularmente, com motes interessantes e sintonizado com a geração (Y) mais jovem, o que faz dele um dos compositores mais interessantes, geniais e joviais do Brasil. Em 2016 completa 80 anos de idade – e nem vou falar aqui de sua vitalidade no palco.
Antes tarde do que nunca, Tom Zé tem três músicas na trilha sonora da novela global Velho Chico – o que não deixa de ser sinônimo de sucesso: Dor e dor, Senhor cidadão e Um oh! e um ah!.
Sobre Tom Zé, o disco ora relançado, restam ainda três curiosidades: a burrice dos censores da ditadura militar brasileira alcançou a segunda faixa, Guindaste a rigor. Tom Zé foi obrigado a gravar “assopro de coca-cola” em vez de “arroto”, como dizia a letra original; a contracapa traz a seguinte cobrança: “aproveito a ocasião para informar que a Prefeitura de São Paulo não me pagou até agora o prêmio de primeiro lugar (São Paulo, meu amor) do Festival da Record de 1968 e até começou a dizer que não assumiu esta obrigação”.
A terceira é a seguinte: procurado por Homem de vícios antigos para uma entrevista sobre o relançamento e sua importância, o compositor afirmou, através de sua produção, não ter sido comunicado sobre o assunto pela Som Livre.
Tatá Aeroplano não para. Ou, para não perder o trocadilho com seu nome artístico, Tatá Aeroplano não pousa: no máximo faz escalas. Entre um disco e outro. Entre uma ideia e outra. Artista outrora à frente de bandas como Jumbo Elektro e Cérebro Eletrônico, hoje ele se divide entre a sua própria carreira solo e a de seu alter ego Frito Sampler – ele anuncia para breve o sucessor de Aladins Bakunins.
Ontem (27), Tatá Aeroplano disponibilizou em diversas redes seu terceiro álbum solo: Step psicodélico [Voador Discos, 2016]. É seu disco mais plural, ao menos do ponto de vista do leque de parceiros: Peri Pane (Todos os homens da terra), Dustan Gallas (na faixa-título), Flávio Lima (Outono à toa), Gustavo Galo (Luz no fim da tela), Luiz Gayoto (Aventureiros), Juli Manzi (Eu Inezito) e Julia Valiengo (Copo de pedra e a faixa-título), voz onipresente no disco, ela que assina ainda as fotografias do encarte e o projeto gráfico do trabalho.
Metade do disco estava pronta em um dia – um dia inspirado, em que ele compôs ainda outras quatro faixas, que acabaram ficando de fora, mas que serão lançadas um dia. Além dos citados parceiros, Tatá Aeroplano cercou-se de nomes requisitados da nova cena: Junior Boca (guitarra), Bruno Buarque (bateria e percussão) e Dustan Gallas (baixo e teclado) fazem a base, num disco que tem ainda participações especiais do poeta arrudA, Bárbara Eugênia e Ciça Góes.
Sobre o lançamento, Homem de vícios antigos conversou com Tatá Aeroplano.
O múltiplo Tatá Aeroplano em clique de Julia Valiengo
Seus trabalhos são marcados por canções que são, de algum modo, retratos do cotidiano. A música me parece uma coisa orgânica em você. A impressão que se tem é que Tatá Aeroplano está o tempo todo pensando em e fazendo música. É correto pensar assim? Isso veio comigo desde pequeno. Compus a primeira canção, letra e melodia, com seis anos de idade. Nos últimos tempos, acho que com a idade, abrindo a mente e o corpo para coisas novas, eu tenho vivido epifanias musicais, entro numa espécie de transe criativo incorporativo, as letras e melodias chegam e eu escrevo. Metade desse novo álbum surgiu assim. Lembro que o Peri Pane me mostrou a letra de Todos os homens da terra numa madrugada em que estávamos participando do disco Frou Frou da Bárbara [Eugênia]. Ele me mostrou a letra e a melodia me veio na hora, eu tinha recém chegado da minha turnê em Portugal e estava com a música dos artistas Sergio Godinho e Fausto na cabeça. O Peri gravou eu cantando e no dia seguinte logo cedinho me enviou a música com ele tocando e cantando. Entrei nesse estado de transe criativo, o Gustavo Galo tinha me enviado uma letra por e-mail, abri o computador e fui nela e assim nasceu Luz no fim da tela. Nesse mesmo dia peguei o violão e compus, na sequência, Dois lamentos, Step psicodélico e Passando o chapéu na noite purpurina. Em menos de 24 horas metade do disco nasceu. Eu tenho que agradecer a generosidade do cosmos comigo, viu?
Quais as principais influências de Tatá Aeroplano no geral e, particularmente neste Step psicodélico? Eu sou apaixonado por música de todos os tipos. Eu gosto de escutar e conhecer coisas novas. Então, no ano passado, quando fui pra Portugal, trouxe comigo os primeiros álbuns do compositor e cantor Sergio Godinho, intitulados Pré-histórias e Sobreviventes, e também dois discos clássicos do músico e compositor Fausto, Por esse rio acima e O despertar dos alquimistas. Me apaixonei por eles, é a mesma sensação que eu sempre tive desde criança e adolescente descobrindo músicas novas. Eu coloco esses discos pra rolar e meu corpo e minha mente são tomados por uma sensação indescritível de prazer. Então eles foram grandes influências no meu estado de espírito no ano passado, assim como The Kinks, nos últimos três anos. Eu vou escutando tudo que vem de novo e me faz um bem danado, pirei com o disco da Alice Caymmi, com o disco da Ava [Rocha], acompanhei as gravações do amigo Juliano Gauche e seu belíssimo disco Nas estâncias de Dzyan, Hélio Flanders [vocalista do Vanguart] com seu disco solo, Trupe Chá de Boldo veio com o álbum Presente, com canções alto astral, dançantes. Isso tudo vai virando dentro da minha cachola e acabou reverberando no Step psicodélico. Gravando esse disco, pensando nas referências gerais, de todos os tempos, eu acho que eu sou um ser humano em constante estado de psicodelia, eu realmente estou imerso dentro dessa sonoridade, me faz tão bem escutar discos assim. A canção Por esse rio acima, do Fausto, tem uma psicodelia fabulosa ali que não é a psicodelia sessentista, mas como os instrumentos estão lá, as vozes, o violão. Sei lá, eu amo isso mesmo.
Step psicodélico é coalhado de referências: Gal Costa, Lanny Gordin, Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias, Roberto Villar, Arnaldo Baptista. Como foi o processo de feitura do disco, desde a composição até a escolha do repertório? Pois é, como eu disse, cinco canções nasceram em menos de 24 horas. Aliás, nesse dia eu ainda compus mais quatro que ficaram de fora, mas que, com certeza, lançarei num futuro breve. As referências de Outono à toa, minha parceria com o incrível amigo, compositor e pássaro da Boemia, Flavio Lima, ser afestanista e retrofuturista. Em 2007 ele colou em casa e me mostrou uma canção instrumental, eu cantei uma letra e melodia inteira nessa base instrumental… e ele foi embora. Alguns meses depois ele me liga e diz que a nossa música tinha ficado muito legal. Quando ele me enviou a gravação, estava tudo ali… a letra de Outono à toa foi composta automaticamente e conta uma história do menino que grava os discos da Gal Costa pra menina que ele gosta e eles vão ver um show do Lanny Gordin e depois vão ver um filme do François Truffaut… O último metrô e Atirem no pianista são filmes dele. Então, essa letra é um apanhado de coisas que eu tinha vivido de fato. E nesse exato momento escuto Velvet Underground, e Sunday morning e o primeiro álbum deles como um todo, me tocam profundamente até hoje. Em Luz no fim da tela, minha parceria com outro canário psicodélico, o mister Gustavo Galo, aí aparece o Ozualdo Candeias, a quem eu dediquei o Na loucura & na lucidez [2014, seu segundo disco solo] e o mestre Sganzerla, referência total eterna. Essa música que eu fiz com o Galo, a gente terminou mesmo, a letra e tudo, em dezembro do ano passado, nos encontramos em casa, tomando birita e proseando… e a letra fala que no fim nós somos curvas, não tem jeito, somos inquietos e quem anda torto não tem conserto… Aí eu chego finalmente em Roberto Villar, que aparece em Eu Inezito, parceria com meu amigo príncipe, o mister Juli Manzi. Eu amo os dois discos que o Roberto Villar gravou e tem dias que eu coloco esses discos e fico cantando e dançando sozinho aqui no apartamento e daí me lembro do meu pai, quando ele tomava umas a mais ele me ligava e ficava me mostrando pelo telefone as músicas que ele estava escutando em estado de epifania. Isso é muito bom!
Este terceiro disco de carreira traz um leque mais amplo de parceiros, um disco solo menos, digamos, solitário. Como se deu essa mudança? É um disco de parcerias e de amizade, de confidentes da música. Conviver e gravar com Dustan Gallas, Junior Boca e Bruno Buarque me levou ao novo momento na minha vida e pude finalmente voar do jeito que eu sempre quis, porque eles são amigos que viajam juntos, a gente cria juntos os arranjos, é tudo coletivo e tudo parceria. E nesse disco a Julia Valiengo esteve presente total, cantamos juntos boa parte das canções e meus amigos de copo e de estrada estiveram juntos com a gente nessa festa: Peri Pane, Flávio Lima, Gustavo Galo, Juli Manzi, Bárbara Eugênia, Lenis Rino, arrudA e Ciça Goes.
Tatá Aeroplano solo, Frito Sampler, Jumbo Elektro, Cérebro Eletrônico, um requisitado dj na noite e um instrumentista bastante frequente em discos de amigos. Como é encarar e se dividir entre todas estas personas? Confesso que isso tudo me deixa às vezes totalmente fora da casinha. Fico meio louco, mas com o passar do tempo fui acostumando a lidar com todas essas personas. Me inspiro no Fernando Pessoa e seus heterônimos. O ciclo do Jumbo Elektro foi muito intenso e bacana e acabou no Frito Sampler, assim como o ciclo com o Cérebro Eletrônico acabou também, não vamos mais lançar discos nem fazer shows. Com a chegada do Frito e meus trabalhos autorais, ficou humanamente inviável levar tantas bandas ao mesmo tempo, porque, apesar de ser maluco das ideias, eu vivo profissionalmente da música que eu faço, então foquei total no Frito Sampler, que é uma viagem incrível e me dá um prazer maravilhoso, e também nos meus discos autorais… Ah, o [segundo] disco do Frito está quase pronto e lanço ele em alguns meses… É muita coisa, e eu amo mesmo essa diversidade.
A banda que te acompanha neste Step psicodélico também é bastante concorrida, todo mundo toca com vários outros artistas, entre discos e shows. Como foi conciliar as agendas e o processo de gravação? A gente sempre combina um período do ano onde nossas agendas estão mais tranquilas, que é no fim do ano… ou como foi o Step psicodélico, gravado em janeiro e início de fevereiro. A gente pega uma semana e vive o disco dia e noite. Isso é uma coisa muito boa, cada vez mais os discos demoram menos pra ficar prontos!
A faixa-título ecos de marcha e clima carnavalescos, com direito a “batom vermelho na boca dos meninos”, uma celebração à psicodelia, como entrega o título. A realidade brasileira, com seu momento político, ao contrário, parece não haver o que comemorar. Como você tem acompanhado os diversos retrocessos perpetrados neste campo? Acompanho esse retrocesso com muito pesar e receio, mas tenho muita esperança na arte libertária. A música que eu crio, sinto que uma parte dela é libertária e exalta o estado de espírito conectado a isso. Agora vivemos um momento crucial em entender melhor isso tudo. Eu estive algumas vezes na Ocupação da Funarte em São Paulo, fiz uma apresentação com o Galo, o Gauche e o Peri, e tem muita gente mobilizada para combater esse tipo de político e política arcaica, opressora. As ocupações são incríveis nesse sentido. Sim, eu passo batom vermelho às vezes e às vezes saio na rua de peruca rosa pela cidade. É minha maneira de fazer política, não tenho o dom de escrever sobre política. Em Step psicodélico eu falo das casas noturnas de São Paulo, algumas foram lacradas como o Puxadinho, a própria “Nossa Casa” sofreu com isso, por conta de uma especulação imobiliária sem escrúpulo nenhum. Os caras não querem saber, eles querem fazer mais dinheiro, custe o que custar. E por isso eu canto: batom vermelho na boca dos meninos… Serralheria, Francisca, ciclovias… Eu quero mais! Ciclovias é o futuro total! Eu sou um andarilho do meu tempo, não tenho carro e nunca terei um, me conectei com a natureza, com existências que estão por aqui antes da gente, tudo isso me faz refletir e apontar para coisas novas. Estou terminando de ler A queda do céu do Davi Kopenawa [e Bruce Albert, Companhia das Letras, 2015; leia um trecho], eu recomendo que todos leiam esse livro o mais rápido possível: é um evangelho atual sobre como a gente não tem noção nenhuma do que anda fazendo por aqui. Eu sei que o momento é terrível, o que eu sei fazer desde pequeno é música, nunca pensei em fazer música para um mercado, e acho que a música nesse sentido, quando é feita dessa maneira livre, ela é um lance que entra dentro da gente e nos dá muita força pra lutar contra esses caras que chegaram no poder da maneira que chegaram.
Julia Valengo aparece em nove das 10 faixas, dividindo os vocais com você, repetindo experiências de Bruno Batista, em Lá, com Dandara, e Marcelo Jeneci, em De graça, com Laura Lavieri, para citar nomes de sua geração. É uma tendência? Pois é, eu a Julia nos amarramos na Banda do Mar, o disco do [Marcelo] Camelo com a Malu [Magalhães], escutamos bastante. Eu sempre pirei com o disco do John [Lennon] com a Yoko [Ono], o Double fantasy e eu a Julia já tínhamos feito um disco nesses moldes, o Aladins Bakunins do Frito Sampler. A gente já dividia uns vocais bem loucos e cantamos junto praticamente no disco inteiro. Foi natural, a gente tem um show que são dois erês, voz e violão. Lá cantamos Aventureiros, Cadente e tal… então levamos isso pro disco, buscamos umas vozes bem diferentes e nossas vozes combinam, timbram, às vezes não dá pra saber que é quem, vozes psicodélicas, que eu gosto tanto! A Julia foi uma presença incrível em Step, gravou comigo pacas, criou e assinou todo o projeto gráfico do disco. Fez as fotos, pensou locação e tudo mais.
O lançamento virtual de Step psicodélico aconteceu sexta-feira (27), em diversas plataformas virtuais, e o disco físico estará disponível a partir de semana que vem. Já há shows de lançamento agendados? E qual a perspectiva de apresentações no Nordeste, particularmente em São Luís do Maranhão? Tenho muita vontade de tocar por aí, vamos tentar articular algo para São Luís em breve! O show de lançamento em breve vai pintar, estamos fechando os primeiros shows! O disco já está disponível para download no meu site e também está à venda no meu site.
A despeito das controvérsias, da aura mítica e das diversas lendas em torno do LP Bandeira de aço [1978], desde sua feitura, iniciativa do desbravador Marcus Pereira, até os dias atuais, e já lá se vão quase 40 anos, Papete (8/11/1947-26/5/2016), falecido ontem, após meses de batalha contra um câncer de próstata, acabou por tornar-se uma das vozes mais importantes da cultura popular do Maranhão.
Papete contribuiu para tornar nacionalmente conhecidos ritmos como o bumba meu boi, o tambor de crioula e o tambor de mina, entre outros. Será para sempre lembrado como um grande intérprete de clássicos do cancioneiro do Maranhão, particularmente o do período junino.
Como percussionista acompanhou artistas de outras searas, entre os quais Almir Sater, Chico Buarque, Diana Pequeno, Dominguinhos, Erasmo Dibell, Jane Duboc, João Bá, Josias Sobrinho, Marília Gabriela (sim, a apresentadora!), Osvaldinho da Cuíca, Passoca, Paulinho da Viola, Paulinho Nogueira, Renato Teixeira, Rita Lee, Toquinho e Veronica Ferriani.
Não à toa muita gente costuma se referir a clássicos de nomes como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota, Sérgio Habibe – os quatro gravados por ele em Bandeira de aço –, Chico Maranhão, Donato, Humberto de Maracanã, Manequinho e Ronald Pinheiro, entre muitos outros, como “aquela música de Papete”. O que pouca gente sabe é que Papete compunha muito raramente, embora tenha sido parceiro de nomes como Celso Borges e Chico Saldanha.
Há um ano lançou o livro Os senhores cantadores, amos e poetas do Bumba meu boi do Maranhão, com CDs e dvd revelando o pesquisador que ele já era antes mesmo da obra, que conta com músicas, depoimentos e fotografias – realizadas por Marcio Vasconcelos.
Seu último disco de carreira foi o duplo Sr. José de Ribamar e outras praias [2013], cujo título aludia ao nome de batismo do bacabalense, José de Ribamar Viana, e à sua versatilidade, registrando um leque amplo de compositores – mas voltando às origens: o segundo disco era uma regravação de Bandeira de aço, com a ordem das faixas alteradas.
Assis Medeiros assina simplesmente Assis neste Lamina [independente, 2016, disponível para download no site do artista], sem acento mesmo, seu novo disco, sucessor de petardos como Burrodecarga [2007] e o duplo Baiãozinho nuar [2010].
Pernambucano criado na Paraíba, hoje radicado em Brasília após temporada no Maranhão, Assis faz música pop(ular) brasileira. Da boa! Embora não seja popular, é pop, como atesta a sonoridade destas 14 faixas, que não o prendem a rótulos – pena que a qualidade delas seja inversamente proporcional ao que as rádios brasileiras costumam tocar, com raras e honrosas exceções.
Sua obra é pessoal, seu timbre, particular: ele compõe para si mesmo, canta e toca violão, guitarra, teclado e ukelele. Assina todas as faixas do disco, quase sempre sozinho – as exceções são Aviso (parceria com o poeta Celso Borges) e Sombra seca (com Fernando Rodrigues e Marco Guedes).
Assis não é panfletário, mas é impossível não relacionar certas letras com o turbulento momento político de hoje no Brasil. Caso de Eu vou dizer: “só tem canalha nessa ala de pedestre/ só tem migalha para gente que merece/ eu vou dizer vou avisar/ não se engane/ com o clima do lugar/ esse Brasil é muito grande e apertado/ pra mim e pra você…”
Ou de Um pouco de sol, adornada pela bela voz de Flora Lago (que canta também em Agora e Sombra seca): “a gente vê o semblante/ da cidade ardida/ sob o teto imenso/ a gente quer paz/ e um pouco de sol/ de mais um dia nesse cenário/ de mais um dia áspero”.
Noutra seara destaca-se ainda Tudo é pop, em que questiona: “por que é que hoje/ tudo tem que ser pop?/ sacos de hits/ sucessos instantâneos de butique/ solos de vocal brejeiro/ o caralho de asa que canta no chuveiro/ o grito que encobre o punk sertanejo/ a misoginia do funk que engole a pista/ a alegria hype gay dos eletronistas/ levante o rabo daí e dance/ dance para ficar leve solto serelepe/ e não arrede o pé desse salão/ balance a bundinha na minha/ e assim vai ficando atoladinha”, pérola irônica cuja letra na íntegra fiz questão de transcrever.
A faixa-título, que encerra o disco, soa autobiográfica, retrato de um artista aos mais de 40: “parece que nada dá certo/ parece que não há remédio/ num dia tô branco/ no outro amarelo/ no fundo do fundo do poço/ no poço sem fundo do tédio/ num dia sem verbo e insano/ num rumo quase deserto”, diz a letra, que fala ainda em dores de amores e nas costas, calos de sangue, hérnias de mola, enjoo, inflamação e irritação, irmã de O pulso, hit dos Titãs.
Sem trocadilhos, é um disco pulsante, alto astral, solar – para voltarmos a versos de Um pouco de sol: “a gente quer paz/ e um pouco de sol/ pra cauterizar a dor”. Um disco dançante e quente, como no rock abolerado Fogo: “um lero um bolero de raiz/ (…)/ e o amor pegando fogo na sala”.
Quase 20 anos após sua estreia no mercado fonográfico, Bons ventos [Na Music, 2015] é nome apropriado para o segundo disco da cantora Anna Claudia, paraense radicada no Maranhão há mais que isso.
Também radicado há muito por aqui, o percussionista Luiz Claudio, irmão de Anna, além de tocar no disco, estreia como produtor, dividindo os arranjos com Israel Dantas (violões de seis e sete cordas), Márcio Glam (violão aço e guitarras em Vai), Norlam Lima (guitarra em Presente) e Nosly (violão em Guetos da Ilha, Vou dançar meu afoxé, parcerias com Gerude, Teu lugar e Noves fora).
Comparecem ainda a Bons ventos Carol Cunha (ukulele em Canção em alfa), Mauro Sérgio (contrabaixo), Rui Mário (teclados e sanfona), Mauro Travincas (contrabaixo em Teu lugar), Jamilson Denys (guitarra em Presente), Djalma Chaves (violão em Paixão e razão), Wendell Cosme (bandolim em Guetos da Ilha) e Sávio Araújo (sopros em Vou dançar meu afoxé).
Bons ventos é uma coleção de delicadezas e uma ponte entre o Pará natal e o Maranhão adotivo de Anna Claudia. O disco é “um belo tributo à rica tradição da canção brasileira”, atesta Zeca Baleiro em texto no encarte do disco, que abre com o reggae Canção em alfa (Ronald Pinheiro), hit local oitentista.
Outra regravação é Teu lugar (Nosly), mas embora revisite o passado, Bons ventos é um disco do Presente (Zeca Baleiro e José Reinaldo), como diz a letra de uma das faixas, talvez a explicar a demora entre um disco e outro: “você me trouxe mais/ do que eu esperava/ você trouxe a palavra/ que faltava em minha boca”, com sutil citação de Libertango (Astor Piazzolla). Outra presença sorrateira é a de Flores em você, sucesso dos roqueiros paulistas do Ira! que encerra Vai (Allan Carvalho). A releitura de Noves fora (Zeca Baleiro e Nosly) ganha ares de mina. O paraense Allan Carvalho comparece ao repertório com mais duas composições: Sete cordas (parceria com Paulinho Moura), tributo ao instrumento imortalizado por Dino, Raphael Rabello e Yamandu Costa, e o bucólico Choro fulô (parceria com Ronaldo Silva), ornado apenas por violão e percussão.
Os afoxés que encerram o disco, Guetos da Ilha e Vou dançar meu afoxé, representam a negritude ludovicense, maranhense, paraense, brasileira, homenageando deuses, casas e blocos afro.
“Quando o amor campeia/ não há redenção/ é a voz da sereia/ teia e arpão/ que pega na veia/ vai ao coração/ que é cego e tateia/ outra ilusão”, diz a letra de Paixão e razão (Djalma Chaves e Lupe Albano), que também ajuda a explicar a urdidura de Bons ventos. Evidentemente há alguma razão na seleção de repertório, assinada pelos irmãos Anna e Luiz com Suzana Fernandes (esposa deste); mas reside ali muito de paixão: primeiro da cantora (e dos que a cercam neste trabalho), depois de quem a ouve.
Romulo Fróes emula Nelson Cavaquinho em foto de Rodrigo Sommer. Reprodução do perfil do cantor no Facebook
Nelson Cavaquinho (29/10/1911-18/2/1986) é dono de uma das líricas mais particulares da música popular brasileira. Sua obra é mórbida, permeada de morte e amores desfeitos – o que não deixa de ser uma espécie de morte.
Rei vadio. Capa. Reprodução
Aos 30 anos de sua morte, o mangueirense recebe tributo à altura, de Romulo Fróes, admirador confesso: Rei vadio – As canções de Nelson Cavaquinho [Selo Sesc SP, 2016]. O cantor e compositor é um dos nomes mais festejados no cenário da música brasileira dos últimos 15 anos, como integrante do grupo Passo Torto ou em carreira solo, esta marcada, desde o início, pela reverência ao ídolo de cabelos prateados – em Cão [2006], seu segundo disco, já regravava Mulher sem alma [Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito], que volta a aparecer neste tributo.
Além da predileção por temas sombrios, outras características marcam a obra de Nelson Cavaquinho, quando interpretada por ele mesmo: seu jeito de tocar as cordas (de arame farpado) do violão, beliscando-as com dois dedos, como se usasse um alicate, sua voz fanha e rouca, forjada em álcool, tabaco e noites de sono perdidas, causam uma sensação incômoda em ouvintes desavisados ou neófitos. A “beleza difícil” que Romulo Fróes aborda em texto à guisa de introdução desta valorosa homenagem.
Certamente a mesma estranheza causada nele ao ouvir o ídolo pela primeira vez. Como acrescentar algo novo a obra tão singular? Um dos caminhos foi não se contentar com o óbvio: a homenagem de Romulo Fróes não é best of vulgar, mas um trabalho de pesquisa – marcado também pelo afeto – de quem conhece profundamente o terreno em que está pisando. Tanto que o disco traz o choro Caminhando, originalmente de Nelson Cavaquinho e Nourival Bahia, com letra de Nuno Ramos e voz de Ná Ozzetti – que já dividiu disco com o Passo Torto –: “Essa rua era minha/ eu cantava sozinho/ no meio da praça/ e vencia sozinho/ com a minha cachaça/ mais o meu cavaquinho”, diz trecho da letra.
Nuno Ramos, originário das artes plásticas, é compositor importante no universo de Fróes, de quem é parceiro, e assina um baita artigo sobre o homenageado no encarte do disco – originalmente publicado no número inaugural da revista serrote [março/2009], do Instituto Moreira Sales.
Outros convidados são Criolo (em Luz negra, de Nelson Cavaquinho e Amancio Cardoso) e Dona Inah (em Eu e as flores, de Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho), espécie de voz feminina de Nelson Cavaquinho, noutro sentido que não o atribuído se falássemos em Beth Carvalho e Clara Nunes, para citarmos duas de suas grandes intérpretes.
Outra opção estética de Fróes para evitar o óbvio foi adentrar o estúdio sem nenhuma ideia pré-concebida: os arranjos foram tomando forma no ato da gravação, o que garante às 14 faixas de Rei vadio o frescor do improviso, como se jazzificassem Nelson Cavaquinho, o que é fortemente percebido nas intervenções do saxofone de Thiago França.
Também comparecem ao excelente time de músicos nomes como Allan Abbadia (trombone), Curumin (bateria em Mulher sem alma), Guilherme Held (guitarra), Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (contrabaixo elétrico), Rodrigo Campos (violão, cavaquinho e guitarra), Wellington Moreira “Pimpa” (bateria e percussão) e a Velha Guarda Musical de Nenê de Vila Matilde (Clara, Irene e Laurinha, coro em Vou partir, de Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho), entre outros.
Como a obra do homenageado, Rei vadio é um disco de tons cinzas, como entrega o projeto gráfico, cujas imagens são frames do antológico curta-metragem Nelson Cavaquinho [1969] de Leon Hirszman. Não é um disco para ouvidos acostumados com música fácil e descartável, mas fundamental para quem deseja compreender dois momentos distintos e importantes da música popular brasileira: a obra de Nelson Cavaquinho, contemporâneo de Noel Rosa (citado na letra de História de um valente, de Nelson Cavaquinho e José Ribeiro) e Cartola, para citarmos dois gigantes do samba, e esta turma nova, que já vem movimentando a cena há algum tempo, tem também uma voz particular, mas não tem vergonha de dizer o nome de seus ídolos.
O subtítulo anuncia e é exatamente disso que se trata: “a história e as histórias do samba-canção”. Em seu novo livro, cujo título pega emprestado o de um clássico do brasileiríssimo gênero, de Dolores Duran, A noite do meu bem [Companhia das Letras, 2015, 510 p.; leia um trecho], Ruy Castro, ao biografar o samba-canção, oferece ao leitor uma radiografia musical, sociológica, geográfica, sentimental e “etilírica” do Brasil entre o final da década de 1930 e meados da de 60.
Experiente, autor de diversas biografias tornadas clássicas – Carmen Miranda, Garrincha, Nelson Rodrigues, a Bossa Nova –, Ruy Castro mesmo foi testemunha ocular do ocaso das boates cariocas, tendo estreado no jornalismo em 1967, no Correio da Manhã. Mas seu foco neste livro é o apogeu, os dias de glória e glamour de cenários lendários, como o Vogue, Sacha’s e Golden Room, entre outras.
“Não eram “sambas de sambista”, como se definiam os sambas rasgados e sincopados de Assis Valente, Wilson Baptista ou Geraldo Pereira. Eram sambas, sem dúvida – o ritmo, apesar de mais lento, era inconfundível –, só que românticos, intimistas e confessionais, com frases musicais longas e licorosas, perfeitos para ser dançados como sambas, mas devagarinho, com o rosto e o corpo colados. O samba fora para a cama com a canção, numa romântica noite de bruma, e resultara neles, os sambas-canção, com suas letras narrativas, que contavam uma história – e esta, com frequência, se referia a um caso de amor desfeito, como de praxe nas músicas românticas em qualquer língua” (p. 70), anota o autor sobre a gênese.
Além do samba-canção em si e de muitas histórias por trás de muitos deles, estão ali os bastidores, as alcovas e camarins, a estreita relação do ambiente das boates com o poder central do Brasil – o Rio era ainda a capital federal – e seus namoricos, a militância de diversos personagens em várias frentes. Nomes como Antonio Maria, Sérgio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta) e Fernando Lobo atuavam em rádio, jornal, produção, compunham e ainda tinham tempo para beber olimpicamente.
Ruy Castro advoga ter sido, talvez sem querer, Noel Rosa um dos inventores do samba-canção. Mas isso só se descobriu após a morte do compositor de Vila Isabel, quando Aracy de Almeida – sua maior intérprete – foi contratada para cantar no Vogue e, entre conhecidas e inéditas – “Feitio de oração, Feitiço da Vila e Pra quê mentir, de Noel e Vadico, e Não tem tradução, Pela décima vez, Silêncio de um minuto, O X do problema e Último desejo, só de Noel” – talvez por sua interpretação, “uma sambista que não precisava requebrar as cadeiras para cantar, só então se percebeu que todos aqueles grandes sambas de Noel eram… sambas-canção” (p. 65).
Não faltam clássicos e personagens monumentais ao texto elegante qual os frequentadores das boates em sua origem, quando ternos e gravatas não eram dispensados a seus frequentadores. A noite do meu bem entremeia histórias diversas, pelas quais passam a fundação da Última Hora de Samuel Wainer, o suicídio de Getúlio Vargas, a invenção da Bossa Nova, a construção e inauguração de Brasília, o golpe militar, entre outras, trágicas, anedóticas e/ou lendárias. Craque de nosso jornalismo, Ruy Castro oferece aos leitores mais um livro fundamental para a compreensão de parte importante da História (da Música, com M maiúsculo) do Brasil.
O cantor e compositor paraense Allan Carvalho. Foto: Camila Lima/ Portal Cultura
É uma lástima que o Maranhão não conheça seus vizinhos Pará e Piauí e uma tristeza que a recíproca seja verdadeira, embora algumas iniciativas contribuam, ainda bem, para mudar esta realidade.
O compositor paraense Allan Carvalho, por exemplo, se apresenta hoje em São Luís. Em show às 21h no Taberna da Bossa (Praia Grande), lança seu disco de estreia, Oura [2016] – isso mesmo, ouro no feminino –, com participações especiais de Djalma Chaves, Nosly, Luiz Cláudio e Anna Cláudia. A produção não informou o valor do ingresso. Os primeiros visitaram Belém com a turnê Andarilho Parador; os últimos são paraenses há muito radicados em São Luís; ela gravou três músicas de Allan em Bons ventos [2016], seu segundo disco, sobre o qual o blogue ainda se debruçará.
Espero que a Taberna da Bossa, charmoso bar nos arredores da Praça dos Catraieiros, lote para prestigiar o compositor e seus convidados. Oura, seu disco, revela um cantor e compositor refinado, que se apropria dos ritmos da rica cultura popular de seu estado natal esbanjando talento e versatilidade, mesclando-os a citações pop que permeiam o disco.
Oura. Capa. Reprodução
O título do disco surgiu ao acaso: Allan convidou seus filhos para cantarem com ele; o mais novo, de cinco anos, pronunciou no feminino o nome do metal precioso, toada de boi-bumbá que abre e batiza sua estreia, em diálogo com Bandeira de aço, o antológico LP de Papete lançado pela Discos Marcus Pereira há quase 40 anos – Allan não nega sua devoção por Cesar Teixeira e Josias Sobrinho. “Eu mandei fazer/ uma bandeira de ouro, amarela/ para hastear quando for mês de junho/ verão/ quero ver seus raios brilhantes/ na estrela do meu batalhão”, diz a faixa, dedicada ao Mestre Cardoso e Arraial do Pavulagem.
Outras referências aparecerão ao longo de Oura: o brega-rock Tá russo! cita Menudo e Arrigo Barnabé. O protagonista de Que brega é você? , escorada em Eleanor Rigby, dos Beatles, primeiro rock sinfônico da história, vai “ao show do Reginaldo” Rossi sem soar óbvio. John Lennon, Raul Seixas, Kurt Cobain e Pink Floyd aparecem em no rock melody tipicamente paraense Corticoide, de versos como “enquanto a vida nos vale/ beije e me trague/ deixe aceso os segredos em ti/ e revele tua aura pra mim”.
A balada cigana Sei lá, entende? é a mais desbragadamente romântica, sentenciando: “todo mundo, na boa/ tá sempre querendo/ viver de amor”. As referências voltam a aparecer em Tchê-tchê-tchê, reggae axé que cita Nelsinho Rodrigues (incidental com Jererê), os poetas Manuel Bandeira (incidental com Último poema) e Florbela Espanca, além de personagens como Joana d’Arc, Nero e o imperador chileno Augusto Pinochet, num rico jogo metafórico e onomatopaico: “ruína vai ser tu num ir/ um Nero aceso/ a Joana d’Arc/ não é só ficar dentro de tu/ pra te ruir, te Pinochet/ yo tengo cá, um pé de flor/ não vá sumir, meu Pererê/ e ai de ti se tu me jururu aqui/ esse cupim vai escangalhar com meu ipê”.
A balada Vai… é uma das gravadas por Anna Cláudia, outra música em que Allan Carvalho demonstra admiração pelas belezas de São Luís: “o teu beijo azulejando São Luís/ reinventando todas as luzes de Paris/ eu cantando em teu chuveiro temporal/ te deixando assim sem jeito agora”, diz a letra, carregada do romantismo nada fora de moda presente ao longo de todo Oura, arrematada por citação breve de Flores em você, hit do Ira!
Em Tudo, decreta: “tudo o que você quer é dengo… eu dou!”, para adiante tornar a passear por sua geografia sentimental, entre lugares, personagens e mimos: “tudo o que você quiser/ que eu seja, eu sou!/ santo, sonso, louco,/ um James Bond, o teu doutor/ tudo que te der prazer/ onde for eu vou apanhar/ lá na China, Ver-O-Peso/ Paraguai ou Marabá”.
Tá, meu bem?, que encerra o disco, é um manifesto bem humorado, que demonstra a possibilidade de abordar temas espinhosos sem “falar tão sério”, como os compositores a que Tom Zé se refere em sua Complexo de épico: “eu pago com meu vintém/ tudo que sou, como e sei/ se o mundo é hétero ou gay/ ninguém deve nádegas a ninguém”, protesta Allan Carvalho, num disco de tons cor-de-rosa, em que o compositor pinta (ou soa) andrógino. Mas sua música o deixa longe de qualquer rótulo ou estereótipo.