Rezende (de chapéu) exibe seus instrumentos artesanais no jardim da EMEM. Foto: divulgação
Há alguns anos entrevistei o poeta Antonio Rezende, por ocasião do lançamento de Acerto de contas, seu livro de estreia, coletânea de poemas escritos desde a década de 1980, quando o tocantinense morou em São Luís, onde chegou a integrar a Akademia dos Párias, movimento que fez barulho na cena da poesia local.
Poeta, jornalista e artesão, eis que Reza, como os amigos carinhosamente o chamam, está de volta à Ilha. Desta vez a bordo da Kombi Miliquinha, estacionada no pátio da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM, Rua do Giz, Praia Grande), onde o artista realiza, em parceria com a instituição, uma exposição de flautas artesanais, produzidas por ele. Amanhã (26), às 14h, a EMEM sediará uma tarde de oficinas de iniciação musical em sopro xamânico e produção artesanal de flautas. As atividades são gratuitas e abertas ao público em geral. Os instrumentos produzidos pelo artista poderão ser adquiridos pelos interessados.
O veículo é uma unidade móvel do Lar do Bardo, escola/oficina de produção artesanal de instrumentos e iniciação musical em sopro e percussão, que Rezende mantém em Taquaruçu, distrito de Palmas/TO, onde vive há alguns anos e desenvolve atividades de arte-educação nos campos da música, literatura, fotografia, artesanato e produção artesanal de instrumentos experimentais.
A passagem pela Ilha é fruto também de uma parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e incluirá, até domingo (29), oficinas livres. “Elas podem acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora, dependendo da oportunidade e do interesse das pessoas. É uma iniciação rápida que demonstra a simplicidade das flautas nativas e a facilidade que qualquer pessoa encontra para tocá-las. São flautas para improvisos melódicos espontâneos e dispensam conhecimento teórico de música. É como assoviar dando asas à musicalidade interior. Pura viagem introspectiva, uma meditação/elevação pelo sopro. Simples e vital como o ar que se respira”, afirma.
A circulação do projeto é, como diria mestre Itamar, às próprias custas s.a.
Quinta edição do projeto terá ainda Quarteto Instrumental e Paulo do Vale
O talento e o carisma de Flávia Bittencourt. Foto: João Rocha
A penúltima edição do projeto RicoChoro ComVida em 2015 acontece amanhã (21), às 18h, no Bar e Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). A noite terá como atrações o pesquisador Paulo do Vale – que prefere não ser chamado de dj –, o Quarteto Instrumental e a cantora Flávia Bittencourt.
“Para nós é uma honra poder contar com a presença de Flávia Bittencourt no palco do RicoChoro ComVida, ela que é hoje uma cantora nacionalmente reconhecida, mas que nunca esqueceu de suas raízes, sempre reverenciando os mestres da música popular produzida no Maranhão”, declarou Ricarte Almeida Santos, produtor do projeto.
A cantora tem três discos lançados: Sentido (2005), Todo Domingos (2009) e No Movimento (2014). O primeiro reuniu, entre os compositores gravados por ela, Josias Sobrinho [Terra de Noel, incluída na trilha sonora da novela global América], Cesar Teixeira [Dolores e Flor do Mal, com participação especial de Renato Braz], Chico Maranhão [Ponto de Fuga e Vassourinha Meaçaba], Zeca Baleiro [Berê] e Martinho da Vila [Ex-amor, com trecho em castelhano vertido por Natalia Mallo], entre outros; o segundo é dedicado ao repertório de Dominguinhos, que havia feito uma participação especial com sua sanfona no disco de estreia da artista; no mais recente, ela deixou aflorar sua veia de compositora, além de registrar gravações para projetos especiais, caso da versão voz e violão para Mar de rosas [versão de Rossini Pinto para Rose Garden, de Joe South], hit dos Fevers, e a gravação de Parangolé (Cesar Teixeira) com participação especial de Zeca Baleiro.
O Quarteto Instrumental reuniu-se especialmente para recebê-la no palco do Barulhinho Bom. João Neto (flauta), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violão sete cordas) e Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) prometem um repertório de choro com uma pegada vibrante, mesclando clássicos do gênero a células da cultura popular do Maranhão, além de números autorais. No primeiro time, nomes como Severino Araújo, Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Jacob do Bandolim, entre outros.
“São quatro dos mais requisitados músicos da cena musical maranhense, não apenas a chorística. Luiz Jr., por exemplo, esteve recentemente acompanhando a compositora Patativa, no lançamento de seu disco no Sesc Pompeia, em São Paulo”, atesta Ricarte.
Com atuação profissional em fotografia e cinema, campos em que seu talento é largamente reconhecido, não é comum ver Paulo do Vale atuar como dj, título que ele rejeita, em respeito aos profissionais da área. Ao projeto RicoChoro ComVida ele abre uma exceção e, antes e depois das apresentações do Quarteto Instrumental e Flávia Bittencourt, mostrará ao público o fruto de suas pesquisas e coleção.
Produção de RicoMar Produções Artísticas, RicoChoro ComVida tem patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func), Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, TVN e Galeteria Ilha Super, e apoio do Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas.
Serviço
O quê: RicoChoro ComVida – 5ª. Edição. Quem: Quarteto Instrumental, Flávia Bittencourt e Paulo do Vale. Quando: dia 21 de novembro (sábado), às 18h. Onde: Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). Quanto: R$ 30,00 (reserva de mesas pelo telefone (98) 988265617).
França, Marçal e Dinucci, o Metá Metá. Foto: divulgação
A programação completa ainda não está fechada, mas o Sesc/MA já anunciou os shows de abertura e encerramento da programação da 10ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, que acontece entre os próximos dias 25 de novembro e 3 de dezembro, em diversos espaços em São Luís e Raposa (este blogue voltará ao assunto em momento oportuno).
O show de abertura será do Metá Metá, formado por Thiago França (saxofone), Kiko Dinucci (guitarra, violão e voz) e Juçara Marçal (voz). É um dos mais interessantes grupos brasileiros em atividade, com um caldeirão sonoro em constante ebulição, onde cabe de tudo. Atualmente o trio prepara o terceiro disco e em maio passado liberou um EP de aperitivo para download.
O encerramento fica por conta do show Selvática, em que Karina Buhr lança seu terceiro disco – a pernambucana nascida na Bahia esteve em São Luís em outubro, quando participou da Feira do Livro. O álbum foi financiado por crowdfunding e pode ser baixado no site da artista. A ex-Comadre Florzinha é uma das mais autênticas artistas brasileiras: plural, é compositora, atriz, cantora, escritora, desenhista, feminista, enfim, uma mulher de atitude.
Encarnado. Capa. Reprodução
Uma curiosidade é que tanto Karina Buhr quanto Juçara Marçal sofreram censura por terem estampado peitos nas capas de seus mais recentes discos – no caso da integrante do Metá Metá o álbum solo Encarnado (2014, disponível para download no site de Juçara).
Selvática. Capa. Reprodução
Enquanto a capa de Selvática (2015) estampa foto da cantora com os seios à mostra e foi censurada pelo facebook, a de Encarnado traz uma mulher com o rosto coberto por um véu vermelho e os mamilos expostos. O iTunes recusou-se a disponibilizar o álbum, sugerindo à cantora modificar a capa – desenhada por Dinucci – para veiculá-lo na plataforma. Obviamente Juçara Marçal se recusou.
Os episódios envolvendo as artistas, a rede social e a plataforma refletem os tempos sombrios em que vivemos, em que avança uma onda neoconservadora, infelizmente não apenas no Brasil. Ainda bem que ainda podemos contar – e ver e ouvir – com artistas “de peito”. Literalmente!
Confiram Karina Buhr em Eu sou um monstro (Karina Buhr):
Três gerações da música do Maranhão se encontram hoje (14), às 20h, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga), no Baile da Tarja Preta, festa que comemora o aniversário de seis anos do Vias de Fato.
Cesar Teixeira, Marcos Magah e Tássia Campos, além do DJ Jorge Choairy estarão juntos para celebrar a longevidade do “jornal que não foge da raia”. Além de música, a noite terá a encenação do esquete Xópim Tarja Preta, de autoria do jornalista Emílio Azevedo, um dos fundadores do Vias de Fato, encenada pelos atores Lauande Aires e Rejane Galeno.
“Os personagens travam um diálogo sobre quem é louco e quem é normal. Conversam sobre o que seria loucura e normalidade, dentro da sociedade em que vivemos; nesse capitalismo à brasileira, com sua herança escravocrata, racista, violenta, patrimonialista; com sua urbanidade profundamente desigual, consumista; com seus profissionais liberais e seus mendigos; e com a presença cada vez mais ameaçadora de um conservadorismo raivoso, de fundo religioso, pseudocristão”, adianta Emílio.
O jornal nasceu a partir do movimento Vale Protestar, contraponto ao Vale Festejar, um festejo junino fora de época que privatizou por muitos anos o Convento das Mercês. Entre 2006 – ano da eleição de Jackson Lago, depois cassado por um golpe judiciário – e outubro de 2009, quando circulou a primeira edição do jornal, muitas discussões e amadurecimento das ideias.
Também fundador do jornal mensal, Cesar Teixeira atesta a importância do jornal para a realidade maranhense: “O Vias de Fato é uma prova de que ainda se pode acreditar em um jornalismo sem amarras no Maranhão, fazendo da sua sobrevivência um compromisso com a sociedade e com a história”, afirmou.
Indago-lhe sobre sua participação no Baile da Tarja Preta e seu aval aos talentos de Tássia Campos e Marcos Magah. “A minha participação será modesta. O palco é deles. Vai ser um prazer estar junto de dois legítimos representantes da nova geração e, embora não seja um avalista do seu talento, assino embaixo”, declarou.
Tássia corresponde o entusiasmo: “[Este encontro] ressignifica as coisas nas quais acredito e é também um lisonjeio, porque eu não componho. O que tenho escrito é apenas a minha história e eles escrevem a história. Me sinto feliz pela possibilidade deste encontro”, afirmou.
Com formação em Ciências Sociais, a cantora é tida por seus pares como uma das mais autênticas artistas de sua geração. Ela não se preocupa em ganhar ou perder patrocínios e espaço para agradar ou desagradar: é uma artista de opinião. Sobre esta questão, ela declarou ao blogue: “Não consigo ficar em cima do muro. Tenho posicionamentos, não acredito em blindagem à crítica – isto já me coloca à margem de algumas coisas – e procuro ser coerente. Acredito que mais artistas com pensamento crítico faria diferença demais. Aqui ainda rola o provincianismo, da colegagem, do disse-me-disse, o que compromete, inclusive profissionalmente, muita coisa. Mas não posso delegar essas responsabilidades aos outros. Mas me incomoda demais isso de, por conta de falta de postura crítica, pouca gente se dá muito bem, pra muita gente se dar muito mal”.
Ela ainda deu pistas do repertório que apresentará logo mais: “Decidi que vou contemplar meus compas de palco: vou cantar Cesar, Magah, Bruno Batista… Mas também tem coisa dA mulher do fim do mundo, [disco novo] da Elza [Soares], Novos Baianos e uns reggaes que eu amo cantar. Vai ter também encontro com os meus rapazes, Chico Maranhão e outras cositas”, antecipou.
Um dos responsáveis pela consolidação de uma cena punk rock em São Luís do Maranhão, Marcos Magah integrou a Amnésia, ainda na década de 1980 – a banda chegou a tocar no comício do então candidato à presidência da república Lula, para uma multidão, na Praça Deodoro, em 1989. Sumido por algumas temporadas, fez de tudo um pouco até reaparecer com Z de vingança [2012], lançado pelo selo Pitomba!, do escritor e editor Bruno Azevêdo, que, de cara, incluiu o disco entre seus prediletos em enquete do Vias de Fato.
A entrevista que Marcos Magah deu a Los Perros Borrachos – Igor de Sousa e este que vos escreve –, publicada pelo jornal meses depois, teve grande repercussão. É a este espírito coletivo que Emílio credita a longevidade do jornal. “A longevidade é, sem sombra de dúvida, fruto do grupo que faz parte do jornal, é consequência do trabalho de quem distribui, divulga, escreve, milita. Sem este trabalho coletivo, que começou no impresso e logo se expandiu para a internet, o Vias não teria durado nem um ano. Some isso a nossa relação direta com as ações de organizações e movimentos populares, de alguns professores e estudantes. Todo esse pessoal, toda esta ação conjunta, é, sem dúvida, a força deste projeto”, finalizou.
Os ingressos para o Baile da Tarja Preta custam R$ 30,00 e podem ser adquiridos no local.
O flautista durante sua entrevista à Chorografia do Maranhão, que inaugurou a série. Foto: Rivanio Almeida Santos
O flautista Serra de Almeida completa, nesta sexta-feira 13, 80 anos de idade, metade deles dedicados à flauta, que aprendeu a tocar já quarentão, como revelou à Chorografia do Maranhão, no depoimento que abriu a série, publicada entre março de 2013 e maio deste ano no jornal O Imparcial.
Há 26 anos o são-bernardense integra o Regional Tira-Teima, mais longevo grupamento de choro em atividade no Maranhão, prestes a lançar (finalmente) seu (aguardado) disco de estreia – incluindo, no repertório, alguns choros de autoria de Serrinha, como é carinhosamente chamado pelos colegas de grupo e por uns mais chegados.
Não poderia haver melhor forma de comemorar a data que com uma roda de choro à altura do talento do mestre. É o que acontecerá hoje (13), às 20h, no terraço do Hotel Brisamar, onde o Tira-Teima costumeiramente se apresenta às sextas-feiras. Mas esta tem sabor especial, por razões óbvias.
Fisicamente, Serrinha lembra o lendário Copinha, mas sua predileção é por Altamiro Carrilho. Merece destaque sua memória prodigiosa: é capaz de tocar incontáveis choros sem qualquer estante à sua frente. Quem quiser comprovar, eis aí uma ótima oportunidade.
A produção não informou o valor do couvert artístico.
Show acontece sábado (14) no Imperial Shopping. Além do município maranhense, músicos percorrerão cinco capitais brasileiras: Teresina, São Luís, Belém, Brasília e Fortaleza
Foto: Fafá Lago
A expressão Andarilho Parador carrega em si aparente contradição. Trata-se da junção dos títulos dos mais recentes discos de Djalma Chaves e Nosly, Andarilho e Parador, respectivamente. Com o show, os músicos percorrerão seis cidades brasileiras em novembro e dezembro, lançando os trabalhos.
A turnê começa por Imperatriz/MA, no próximo sábado (14). Lá a apresentação acontece às 19h30, no Imperial Shopping (BR 010, s/n°., Jardim São Luís), com participações especiais de Karleyby Allanda e Lena Garcia, cantoras da cena local.
“Sou um andarilho por natureza, sempre o fui. Meu trabalho foi forjado nas andanças pelos palcos do mundo. Porém, todo andarilho tem sua parada para o descanso e nada melhor do que as harmonias e canções e a companhia de meu parceiro Nosly para tirar uma “siesta””, comentou Djalma Chaves sobre a apenas aparente contradição.
Como também atesta Nosly: “A contradição, se existe, é mesmo aparente [risos]. Andarilho, um ser que anda; parador, ser que viaja no trem Parador, que liga a estação Central do Brasil à Zona Norte do Rio [de Janeiro]. Ambos estão em movimento, moto contínuo [risos]. A gente achou muito legal essa coisa do antagonismo das palavras, daí deu a liga, os opostos se atraem, não é mesmo?”, revelou.
Recentemente os dois realizaram diversas apresentações em São Luís no projeto Djalma e Nosly Convidam, sempre com convidados especiais. A dupla já conta seis shows realizados no formato. “Esse convívio musical tem nos ajudado a alinhavar o repertório que apresentaremos em cinco capitais brasileiras, além da cidade de Imperatriz. Em São Luís investimos na formação de plateia para música de qualidade, sempre convidando algum nome de destaque da cena cultural local, o que continua fazendo parte desse encontro musical”, explicou Nosly. “Estes shows serviram como aprendizado e entrosamento com a banda que nos acompanhará na turnê”, concordou Djalma.
E que banda! Nosly (voz, violão e guitarra) e Djalma Chaves (voz e violão) serão acompanhados por Murilo Rego (teclados), Sued (guitarra), Mauro Travincas (contrabaixo) e Fleming (bateria).
O repertório de Andarilho Parador é baseado no dos dois discos que dão nome ao espetáculo. Além de composições de Nosly e Djalma Chaves, há espaço para reverências a artistas admirados por eles. No primeiro bloco estão músicas como Aldeia (Nosly e Celso Borges) e Santo milagreiro (Djalma Chaves e César Roberto); no segundo, I’ll be over you, sucesso da banda Toto, e Gata e leoa (Jorge Macau), já gravadas por Nosly e Djalma Chaves, respectivamente, entre outras.
A turnê tem patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Além de Imperatriz, o show Andarilho Parador será apresentado ainda em Teresina/PI, São Luís/MA, Belém/PA, Brasília/DF e Fortaleza/CE. Em todas as apresentações os ingressos serão trocados por um quilo de alimento não perecível, que serão doados a instituições de caridade locais.
Observado por Ricarte (de chapéu) e Josias Sobrinho (D), Bira do Pindaré (de costas) confere comendas ao Regional Tira-Teima. Foto: Lucas LucenaTomado pela emoção, Josias Sobrinho esbanjou sua versatilidade acompanhado do Regional Tira-Teima. Foto: Lucas LucenaA pequena Maria Vitória atacou de Adoniran Barbosa e defendeu parceria inédita de Josias Sobrinho e Ricarte Almeida Santos. Foto: Lucas Lucena
Deputado estadual licenciado, o Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia Bira do Pindaré (PSB) compareceu, no último sábado (31 de outubro), à quarta edição do projeto RicoChoro ComVida, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). Ele, cujo gabinete é um dos patrocinadores do evento mensal, foi prestigiar as apresentações do Regional Tira-Teima e do compositor Josias Sobrinho, além de entregar comendas aos artistas, louvando-lhes alguns méritos.
“Fala-se que o Tira-Teima é o grupo de choro mais antigo em atividade no Maranhão. Mas não é só de choro: é o grupo mais antigo em qualquer gênero. É difícil alguém chegar a mais de 40 anos de atividade esbanjando talento e vitalidade”, comentou o parlamentar licenciado, durante a entrega da Medalha do Mérito Legislativo João do Vale (Resolução Legislativa n°. 747/2014), da Assembleia Legislativa. O Tira-Teima foi a primeira manifestação artística a ter o reconhecimento por parte do Poder Legislativo maranhense.
O compositor Josias Sobrinho recebeu a certificação da Lei Estadual 9.914, de 5 de setembro de 2013, que reconhece o conjunto de músicas registradas no elepê Bandeira de Aço [Discos Marcus Pereira, 1978] como Bem Imaterial do Maranhão. Ele é um dos compositores reunidos por Papete no disco. As músicas do álbum, um divisor de águas na música popular produzida no Maranhão, foram alçadas à condição através de Lei de iniciativa do então deputado. “A lei foi aprovada, mas infelizmente a Assembleia não liga muito para este tipo de iniciativa e nós estamos aqui corrigindo isso”, comentou o Secretário, afirmando que fará a certificação chegar às mãos de Cesar Teixeira, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe, os outros compositores registrados no elepê Bandeira de Aço.
A noite não poderia ter sido mais apropriada. Era a primeira vez que Josias e o Tira-Teima se encontravam em um show. “Volta e meia estamos nos encontrando, desde que eu era plateia, em rodas informais, mas um show, com ensaios e essa estrutura, é a primeira vez”, declarou Josias Sobrinho sobre o encontro, na noite de honrarias.
O Tira-Teima passeou entre clássicos do choro e apresentou parte do repertório de seu aguardado disco de estreia, cujo lançamento Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Zeca do Cavaco (cavaquinho centro e voz), Serra de Almeida (flauta), Luiz Jr. (violão sete cordas), Zé Carlos (percussão e voz) e Henrique (percussão) prometem para breve. No segundo bloco, temas como Imbolada (Serra de Almeida) e Meiguice (Paulo Trabulsi).
Josias trouxe ao público presente músicas de sua autoria que nunca ganharam o registro do compositor, casos de Pif paf e Anda, Maria. Do repertório de Bandeira de Aço cantou De Cajari pra capital. De Noel Rosa pinçou Rapaz folgado, emendando sua homenagem ao compositor de Vila Isabel em Terra de Noel, além de reverenciar a madredivina dama Patativa, de quem cantou Santo Guerreiro.
Ele voltaria ao palco, desta vez na voz da pequena Maria Vitória, que cantou Teus sapatos, parceria inédita de Josias Sobrinho e Ricarte Almeida Santos – autor da letra, homenagem a sua esposa Marla Silveira, com que assina a produção de RicoChoro ComVida. Antes, a menina cantou Iracema e Tiro ao Álvaro, ambas de Adoniran Barbosa.
Sempre que ouço falar em algo relativo à cultura mexicana algumas coisas me vêm à cabeça.
Uma cena de uma comédia romântica em que o personagem de Adam Sandler, em plena lua de mel, é (per)seguido por um grupo de mariachis e, perdendo a paciência, distribui um couvert artístico às avessas: paga para não ser perturbado, quer apenas conversar com sua esposa.
Lembro também da piada recorrente, que afirma terem os restaurantes mexicanos a melhor comida, ao contrário da música ao vivo. E do finado Miguelitos, cuja cozinha era especializada nas iguarias do país de Frida Kahlo – saudades, micheladas!
Incrivelmente lembro também de uma camisa que usei, com dois ratos trajando sombreiros, qual Ligeirinho – arriba!, arriba!, arriba! – com a inscrição, embaixo: México 86, quando o país sediou pela segunda vez uma Copa do Mundo de futebol.
Segunda-feira (2) é feriado no Brasil: dia de finados. Nunca tive o costume de visitar cemitérios ou acender velas, embora lembre meus mortos (e não apenas esse dia). Em Olinda, há alguns anos, toquei o mármore do túmulo de Dom Helder Câmara, que fica em uma igreja na cidade pernambucana, e estranhamente considerei o ato algo importante da viagem – como se fosse parte do “turismo” que teimo em fazer mesmo quando viajo “a trabalho”, se é que me entendem. Também confesso a vontade de, um dia, visitar a sepultura de Sérgio Sampaio. Mas são exceções.
De resto, o Dia de Finados é como uma data marcada no calendário em que todos seríamos obrigados a ser tristes – o que nunca aceitei direito. Quando criança, lembro ainda, nem música se podia ouvir.
Na contramão de minhas lembranças, a festa Viva la Muerte acontece hoje (30), às 19h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), festejando, por mais contraditório que possa parecer, o Dia dos Mortos, feriado celebrado a 1º. de novembro na América Latina – quando no Brasil o calendário marca o Dia de Todos os Santos.
Música ao vivo com Los Mariachis de Virgulino (o grupo General Virgulino convertido especialmente para a ocasião) e o DJ Jorge Choairy. Os convidados que desejarem serão caracterizados com maquiagem neon inspirada nas caveiras mexicanas.
O make up temático será feito por Luciano Teixeira e Camila Abreu. A festa tem produção da Carruagem Produções, que tem primado por festas temáticas na capital maranhense, prestando agora sua reverência à data, reconhecida em 2003 Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco.
“A morte tem tanta certeza que vai te pegar que te dá uma vida inteira de vantagem”, diz o dito popular mexicano. Enquanto seu dia não chega, que tal aproveitar?
Celson Afonso de Oliveira Mendes Filho nasceu em Barreirinhas/MA em 25 de janeiro de 1952, pelas mãos de freiras da paróquia local. É o mais velho de oito irmãos. Com menos de dois anos foi levado pelo pai para o Rio de Janeiro, morando depois no Recife e em diversas outras cidades brasileiras – incluindo Cururupu/MA, onde chegou a administrar uma destilaria de álcool.
A vida do violonista é feita de aventuras e acasos. Aviador, ele se tornou músico profissional por acidente – não aéreo; é que mesmo tendo descoberto o talento desde muito cedo, ele não tinha essa pretensão, até participar por acaso de um show de Joãozinho Ribeiro [compositor].
Filho de Celson Afonso de Oliveira Mendes, economista e estatístico, e de Maria Leônia Dias Mendes, Celson Mendes concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na nova praça de alimentação do São Luís Shopping, onde se apresentaria àquele sábado no projeto Arte Musical do Maranhão, que teve quatro noites dedicadas a ritmos, instrumentistas, vozes e compositores maranhenses, valorizando e apresentando a diversidade da produção musical do estado.
Ao longo da bem humorada entrevista, ele lembra a participação em grupos como o Bom Tom e o Regional Caixa de Música – quando venceu o Prêmio Universidade FM de melhor músico violonista –, as aventuras da vida de aviador, como guardou uma carteira de cigarros de Baden Powell como souvenir e sua relação com João Donato e Antonio Vieira.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Como era o universo musical na tua casa? Onde você identifica as primeiras influências? Foi meu pai. A gente morava no Filipinho, e ele era o camarada que agregava. Sempre gostou muito de cultura, artes, esportes. Era estatístico, depois se formou em Economia. Logo depois da Estatística ele resolveu fazer Odontologia. No último ano, os estudantes, formandos, iam para um hospital e operavam pessoas carentes gratuitamente. Uma das pessoas que ele estava tratando, ele arrancou um dente, a pessoa teve uma hemorragia, quase morre. Ele gastou uma grana preta para tratar da pessoa e resolveu que nunca mais [risos]. Quando ele foi para o Rio, tinha uns tios, ele se hospedava no apartamento desses tios, e eles tinham acabado de perder um filho. Aí se apaixonaram por mim, pediram para me criar. Ele falou com minha mãe, “pode ser muito bom para ele”, eu me mudei para Copacabana aos um ano e oito meses de vida, isso em 1953, final de 53. Peguei aquela época boa do Rio de Janeiro, em termos, quando dei por mim, lá por 61, 62, com 10 anos de idade, lembro de muita coisa de quando eu tinha cinco, seis anos. Lembro do célebre assassinato da Aída Cury [atentado violento ao pudor, tentativa de estupro e homicídio, o crime aconteceu na noite de 14 de julho de 1958, em Copacabana], lembro da repercussão sobre o atentado da [rua] Tonelero, de Carlos Lacerda [uma tentativa de homicídio contra o jornalista e político ocorrida na madrugada de 5 de agosto de 1954], era pertinho de onde eu morava. Eu morava a um quarteirão de um prédio onde moravam quatro vascaínos [jogadores do Vasco]. Eram eles: Barbosa [Moacir Barbosa, goleiro da seleção brasileira quando da derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã], o goleiro, Bellini [Hilderaldo Luís Bellini, zagueiro, capitão da seleção brasileira campeã mundial em 1958, na Suécia], parecia um artista de cinema, Sabará [Onofre Anacleto de Souza, atuou 12 anos – a maior parte de sua vida profissional – no clube carioca que lhe deu o apelido], eles moravam no mesmo prédio, na esquina de Nossa Senhora de Copacabana com Barão de Ipanema [não chega a dizer o nome do quarto jogador]. Eu vinha passar férias aqui. Meu pai centralizava. Todo domingo de manhã, ele acordava, tinha uma vitrola enorme, até hoje eu tenho discos dele, e ele colocava discos de música erudita durante uma hora, uma hora e meia, tomava café, depois disso começava a tocar Românticos de Cuba, e lá pelas 10, 11 horas, os amigos começavam a chegar com sacolinhas de cerveja, ficavam ouvindo aquele som e isso ficava até umas duas horas da tarde, sentados numa varandinha. Tio Maniquito tocava bem violão, minha vó dizia que o pai dela também tocava. Isso [as reuniões musicais do pai com amigos] desenvolveu, eu tinha duas irmãs de criação que adoravam música. Quando eu fui para Recife, meu sonho era ser aviador. Eu passei para o Colégio Militar do Rio de Janeiro e não me deixaram entrar, por que eu não era filho de militar. Fui pra Recife, passei de novo, nessa época meu pai era superintendente adjunto da Sudene, trabalhava com Celso Furtado [economista paraibano, autor de Formação Econômica do Brasil]. Ele disse: “venha pra cá e faça o exame de novo”. Passei e Celso Furtado foi lá e disse “agora ele entra”. Ao entrar no Colégio Militar, conheci um rapaz, loirinho, tivemos afinidade, ele gostava de basquete, eu também, de música ninguém sabia nada, ele gostava de tocar bateria, e ele disse “eu tenho um tio que é músico, muito famoso”. Eu não sabia de quem se tratava, ele dizia o nome, eu não sabia quem era. Até que um fim de semana ele me convidou para passar na casa dele. O pai dele era médico, coronel da aeronáutica, fui passar o final de semana na frente da praia de Piedade, onde tinha uma vila militar. Quando chega o irmão da mãe dele. Sabe quem era o cara? João Donato [pianista, um dos mentores da bossa nova]! Um dia eu estou passando por uma rua no Centro de Recife e ouço um som de violão que eu nunca tinha escutado. Uma tia compra o disco [Sambas e marchas da nova geração, de 1967] pra mim, Paulinho Nogueira, tocando Roda [faixa de abertura do disco], de Gilberto Gil. Foi meu primeiro elepê. Peguei esse disco, quase furo de tanto ouvir. Uma tia minha, que cantava muito bem, resolve aprender a tocar violão. Eu assistia as aulas, quando acabava, eu pegava o violão, ia lá para o quarto, e comecei a aprender violão assim. Um belo dia fui procurar um professor, ele me botou para tocar, “você leva jeito para a coisa, eu vou te dar umas aulas. Depois conforme seja, a gente vê o valor”. Eu era doido para aprender música, adorava aquele negócio de alguém botar as bolinhas [as partituras] na frente e sair tocando. Eu disse “eu quero aprender isso”. E ele: “primeiro vamos ver se realmente você tem queda”. E um belo dia eu roubei uma partitura dele. Uma semana depois eu voltei tocando aquele negócio. “Quem foi que te ensinou isso?” “Eu aprendi lendo”. Ele nunca me cobrou. Aí veio a perseguição política, meu pai teve que ir embora pro Chile, por conta da ligação dele com Celso Furtado, ele era padrinho de um irmão meu, inclusive. Meu pai foi embora, minha mãe foi para o Rio de Janeiro, com todo mundo, menos eu, por conta do Colégio Militar. Aí fui adotado pela irmã do João Donato, por isso eu a chamo Tia Eneida. Seguimos juntos, passamos para a Escola de Aeronáutica, eu e o Amim [sobrinho de João Donato], passamos para a preparatória, para a academia, depois me botaram para fora. Incompatibilidade de gênios.
O que foi, especificamente? A tia Eneida resolveu, em comum acordo, ela e o coronel Amim, resolveram se separar. Nessa época era a ditadura pesada, 1970. Nós éramos obrigados a nos recolher às 10h da noite, depois disso não podíamos sair, a não ser em toque de emergência. Eu era de uma turma, A, Amim era da turma H, tinha que atravessar, ele foi lá, chorando, e me disse: “nossos pais se separaram”. Botamos uma roupa, pegamos a carteira de cigarros, fomos para o pátio fumar e conversar. Nessa hora me chega um capitão, a gente vivia pendurado, aprontava muito. Eu era atleta, jogava basquete, jogava vôlei e isso me aliviava. Ele não, o negócio era ser músico, vivia tocando a bateria dele. O capitão disse: “cadeia pra vocês!”. Eu chamei o capitão e disse: “vamos fazer um acordo”. Com o número de dias que ele ia dar para nós, ele estava fora. Eu disse: “me dê os 10 dias de cadeia”, eu não sairia ainda, eu tinha uma reserva [risos], mas não faça isso com ele. Ele disse: “vou dobrar a dele e manter teus 10 dias”. Ele tinha uma .45 bem aqui [aponta para a cintura]. O que eu fiz? Dei um murro no nariz dele. No dia seguinte o brigadeiro comandante chamou: “vou fazer um acordo contigo. Fica aí até o fim do ano, pede teu desligamento”, faltavam dois ou três meses, “se não isso vai prejudicar sua vida toda, vai dar expulsão, e vou segurar o Amim, que é filho do brigadeiro e quem deu o murro mesmo foi você”. Numa boa, eu já estava de saco cheio mesmo. Saí da vida militar, seis meses depois o Amim pediu o desligamento dele também, foi chamado para a Transbrasil. Eu já fiz meu curso para aviação civil, era piloto da Votec [companhia aérea brasileira adquirida pela TAM em 1986], voava para a Petrobras, plataforma. Uns seis meses depois dessa história, mais ou menos isso, ele teve um acidente [chora, sem conseguir completar a informação de que o amigo faleceu].
Quem foram teus outros mestres no violão? Um cego em campos, foi professor também de uma cantora muito bonita, a Marina De La Riva. Os De La Riva eram usineiros, amigos de meu pai, meu pai eventualmente trabalhava para eles. Foi o maior tempo de aula com um professor particular. Depois eu estudei também na Escola Villa-Lobos. Estudei um pouco com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], tive aqui o Pixixita [o músico José Carlos Martins, professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo] como professor de harmonia. Minha vida de aviador não me permitia ter cursos regulares. Eu andava com o violão no avião. Depois proibiram. Eu cheguei a ter nove violões em lugares diferentes, ficavam no hotel. Eu ficava danado da vida quando me mandavam para um lugar onde eu não tinha um [risos].
Quanto tempo você passou nessa vida de aviador? De 1973 a 1980.
E depois? Em 1980 meu pai me fez uma proposta indecente. Eu estava indo pros Estados Unidos com a noiva, ele me apresentou um amigo, que estava precisando de alguém de confiança para recuperar um avião dele. Era urgente. Ele cobria a passagem, hospedagem no melhor hotel de Salvador e mais uma grana que cobria qualquer coisa. Acabei não indo, terminei o noivado. Eu tinha recebido proposta da Vasp na época, estava esperando terminar um curso, se não eu ia primeiro para a Táxi Aéreo Marília, que hoje é a TAM. O cara disse que ia pagar todos os meus cursos, era presidente do Santa Cruz [Futebol Clube], o maior advogado e maior fazendeiro de Pernambuco, usineiro em Alagoas, e tinha um projeto enorme no interior da Bahia. Tinha duas filhas, não tinha filhos. Ele me pagava um salário de piloto de Boeing, eu ficava voando, todo final de semana. O escritório era uma coisa familiar, de noite uísque rolava. Ele ia comprar uns tratores, acabou me contratando também para cuidar da parte técnica, foi esperto, pagava um para fazer o serviço de dois [risos], mas foi bom para mim também, continuei voando. Eu resolvia toda a questão técnica, ganhei um bocado de dinheiro, não tinha onde gastar, não tinha tempo. Depois meu pai resolveu montar uma destilaria de álcool em Cururupu, onde ele tinha, tem, um terreno. Vim pra cá, cheguei aqui 10 de outubro de 1980. Por que eu lembro? Primeira notícia que eu tive aqui foi que tinha afundado um barco chamado Lima Cardoso, com metade do povo de Cururupu, inclusive parentes e amigos meus. Isso fez meu retorno ao Maranhão, lembro bem desse sentimento, tinha passado minha vida toda fora, Minas [Gerais], São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Norte e Pernambuco.
Nessa época você morava em Cururupu? Sim, eu morava na fazenda, a 10 quilômetros da [sede da] cidade.
Voltando um pouco, você viveu no Rio numa época de bastante efervescência, sobretudo na cena musical. Como isso reverberou em você? Quando eu me entendi por músico meus colegas de turma tinham banda. A música que eles tocavam eram Beatles. Eu achava bonito, interessante, a banda. Mas a música que me tocava era escutar Tom Jobim, Chico Buarque, João Donato, que eu passei a ter acesso aos discos. Eu ia para a casa da tia Eneida, ela tocava muito bem acordeom, cansei de vê-la, João Donato no piano, ela no acordeom, depois eles revezavam. O Amim ficava numa bateria atrapalhando todo mundo [risos]. Eu escutava aqueles temas, ficava encantado. Muitas músicas até se perderam, bolavam na hora, aquelas pegadas jazzísticas. A primeira vez que eu ouvi Samba da bênção [de Vinicius de Moraes e Baden Powell], eu fiquei alucinado. Depois eu me apaixonei por música francesa, era a época de Pierre Barouh [ator, compositor e cantor francês], que também tinha uma ligação com a bossa nova, cinema francês. Nós tivemos recentemente falecido, já com quase 90 anos, foi até um dos percussores da bossa nova, grande compositor, gravou com Rosa Passos [cantora], inclusive: Henri Salvador [cantor, compositor e guitarrista francês]. Ele gravou um disco com uma moça, não lembro se sueca ou norueguesa, chamada Lisa Ekdahl [cantora sueca]. É lindo, lindo, lindo [repete, enfático]! A bossa nova e o jazz, através da influência desse primeiro professor de violão. Minha ligação não era com o jazz, com exceção de Glenn Miller, que eu pai botava e eu ouvia. Meu pai comprou uma usina em Campos, e tinha uma roda de choro. Eu fui lá, eles em volta de uma mesa tocando. Eu me aproximei e fiquei observando. Uma hora eles pararam, conversaram, eu continuei parado. Uma hora sem me dar nem boa tarde. Aí entra no recinto, um galpão, Ivon Curi [cantor, compositor e ator]. Ele chega por trás de mim, botou a mão e disse: “esse camarada aqui toca violão também”. Ele, muito gente boa, simples, dava o show dele, depois sentava do teu lado. Aí os caras me olharam, “é mesmo?”, eu achei de uma indelicadeza, eu era um jovem, eles, todos senhores, eu achei de uma arrogância tão grande, saí e fui jogar sinuca. Mas aquilo me marcou. Foi o contrário do que aconteceu com Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]. Paulo quando foi sacaneado por Zé Hemetério [multi-instrumentista e compositor], botou na cabeça e disse “eu vou mostrar que eu posso”. Eu fiz exatamente o contrário, me desinteressei, me afastei. Eu comecei a observar que havia dois comportamentos distintos: o pessoal mais ligado ao jazz, à bossa, gostava de agregar, o pessoal do choro era “se sabe, sabe, se não sabe, cai fora e nem faz barulho”.
E como se deu a escolha pelo violão? Foi por causa desse disco [Sambas e marchas da nova geração, de Paulinho Nogueira]. Eu completei 15 anos, meu pai tinha um relógio Mido de ouro, eu botava os olhos, achava lindo, todo mundo elogiava aquele relógio. Quando eu fiz 15 anos, eu acordo, ele começou: “vou lhe dar um presente” [imita o pai, sacudindo o relógio]. Aí ele disse: “se eu fosse lhe dar um presente, do que você gostaria?”. Eu respondi: “um violão”. Ele murchou [risos]. Ele parou e pensou: “é um idiota. Em vez de ganhar um relógio, que vale não sei quanto, quer um violão”. Fomos a A Guitarra de Prata [loja de instrumentos musicais na Rua da Carioca, Centro do Rio de Janeiro]. E ele: “traga o melhor violão que você tiver”. Na cabeça dele, um violão não podia custar o preço de um relógio. Aí veio uma caixa, com o violão, eu olhei o violão, aquela boca de madrepérola, tinha um senhor no balcão, afinou o violão, começou a tocar, parecia uma escola de samba, meu pai ficou olhando: “O senhor é um artista!”. Era o Codó [violonista, cantor e compositor baiano]. Tocou uma música chamada Boladinho [de Codó], me deu um disco, eu tenho até hoje. Quando papai perguntou quanto era o violão, levou um susto: “é só um, eu não vou montar uma orquestra” [risos]. Mas fez o cheque, levou, foi meu primeiro violão. E ainda comprou um baita dum estojo, muito caro também. “Não adianta ter um violão desses e ficar jogado” e já queria me matricular no outro dia, aí eu falei: “calma!”. Eu não queria entrar em escola, queria voltar para meu professor no Recife, eu não queria ser músico profissional, nunca tive essa ideia.
Por que você não queria ser músico profissional? Nunca tive essa pretensão. Eu vim para cá, eu tocava com Anna Cláudia [cantora], com Léo [Capiba, cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], e Anna Cláudia precisou fazer um disco, pediu para que eu fizesse um projeto. Eu comecei a ser profissional numa circunstância interessante: num show de Joãozinho [Ribeiro], comemorativo de 40 anos dele. O diretor musical dele tinha ido embora e Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] tinha me visto tocar em algum lugar e disse a ele que eu quebrava o galho dele. Eu passei 48 horas acordado para fazer três dias de show no Teatro Alcione Nazaré. Outro dia eu postei uma foto, estávamos eu, Zé Américo [maestro, arranjador, multi-instrumentista], Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013] começando, um dos primeiros shows dele. Eu nunca tinha aceitado cachê na minha vida, mas dessa vez a grana era tão boa, e você se diverte. Hoje eu vivo em torno da música, eu não vivo só de tocar: trabalho com projeto, um estúdio de gravação.
Teu pai nunca ofereceu resistência a você seguir a carreira de músico? Não. Ele era muito do “não quero saber o que você vai fazer. Agora, faça bem”. Eu fui campeão brasileiro de pouso de precisão. Ele tinha uma certa restrição com a coisa da aviação. Ele achava que eu era muito afoito. Quando eu estava na força aérea, sempre tinha uma turma que ia para a esquadrilha da fumaça. Ele tinha pavor de que isso pudesse acontecer, ele sabia que se eu fosse eu ia morrer. Nas décadas de 1950 e 60 morreu muita gente da esquadrilha, hoje bem menos, a técnica é outra, os equipamentos são mais modernos. Mas eu gostava mesmo é de loucura, passar embaixo de ponte, quinze minutos invertido, o motor falha, você voltava, essa era a farra.
O músico que mais te influencia do ponto de vista do estilo é Paulinho Nogueira? Não, eu tenho uma admiração pela limpeza do violão do Paulinho Nogueira. Lógico que ele também tem uma técnica, é uma pessoa que nunca entrou numa escola, aprendeu com um irmão, quem escrevia suas partituras era um rapaz aqui do Ceará, o André Jereissati [violonista]. O que mais me influencia é Baden Powell. Eu cheguei a assistir o mesmo show de Baden Powell 11 vezes. Ainda roubei a carteira de cigarros dele [risos], levei para Cururupu, minha mulher jogou fora – depois de quase 20 anos –, foi uma confusão danada. Eu era apaixonado. Baden fazia de tudo, tem uma coisa que me lembra muito o Yamandu [Costa, violonista sete cordas gaúcho]: ele saía desse plano, saía de órbita quando tocava. Ele tinha a habilidade de violonista, a sensibilidade de compositor, normalmente o grande músico não é um bom compositor. Ele conseguiu fazer coisas simples e belíssimas. Baden tinha um ritmo, era um sujeito miudinho, franzino, fumava desbragadamente, no palco, fumava e bebia. Eram sempre dois bancos, num ficavam a carteira de cigarros e o copo de uísque.
Que grupos musicais você já integrou? Nós tivemos tribos. Por incrível que pareça, minha primeira tribo era exatamente a do choro. Era Paulo Trabulsi, era Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Serrinha [Serra de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], era o [Regional] Tira-Teima, basicamente. Na época tinha o Teles, já falecido, tocávamos no fundo do quintal da casa de Paulo. Foi onde eu conheci Carlinhos Veloz [cantor e compositor], Léo Capiba também fazia parte, Anna Cláudia, que na época era casada com Paulo. Como grupo de formação profissional, o primeiro grupo foi o Ensaio Três. Foi uma história muito engraçada: trabalhávamos eu, Léo e o Mariano Aguado, que era assessor chefe da presidência do Instituto de Planejamento. Nós éramos muito ligados, Mariano gostava de tocar timba, Léo de tocar pandeiro e cantar, e eu, violão. Uma sexta-feira, deu duas da tarde, o presidente nos dispensou, era véspera de um feriado, alguma coisa. A gente acostumado a trabalhar até seis, passei em casa, peguei o violão, passamos na casa de Léo, pegou o pandeiro, compramos uma timba para Mariano, no caminho, ainda não tinha essa estrutura da [avenida] Litorânea hoje, compramos uma garrafa de uísque, gelo, isopor. Chegamos lá, Léo começou a desfiar o repertório dele. Lá pela trigésima música, eu pensei: “já dá um show”. E disse: “se tu aguentar, a gente podia fazer uma história”. E ele disse: “eu tenho música é pra fazer 10 shows”. Resultado: saímos da praia quase 11 da noite, já com quase 100 músicas tonalizadas. Voltamos sábado de manhã, outro litro de uísque. No outro sábado, de novo. Foram três ensaios. Depois do terceiro já arrumamos um contrato, fomos tocar no Pelicano, já tínhamos umas 300 músicas. Durou um tempo, depois do Ensaio Três, agregamos Paulo Lima, grande baixista, violonista, grande músico, depois o filho dele, Athos, guitarrista, grande músico também. Durante um bom tempo o Pelicano era o ponto de encontro, todo mundo que vinha de fazer show, o ponto de encontro era lá. Já montei muitos quartetos, quintetos, veio o Bom Tom. O Bom Tom é o seguinte: nós montamos o Estúdio Bom Tom, e um dia o Marcelo Bianchini, eu nem sabia que ele cantava, ele deu uma canja no Dom Calamar, eu fiquei encantado com a voz dele, e disse que ia montar um grupo só para acompanhá-lo, acabamos montando o Bom Tom, era um quarteto, depois virou quinteto, já chegou até a hepteto. A ideia era um grupo para acompanhar intérpretes, eventualmente tocamos música instrumental, não somos solistas natos.
E tua participação no Regional Caixa de Música [grupo que acompanhou Joãozinho Ribeiro no Circuito Samba da Minha Terra, entre 2002 e 2003], quando você ganhou o prêmio Universidade FM de melhor violonista? Eu reconheço que aquele prêmio foi mais pelo conjunto da obra, o grande mérito é de Joãozinho Ribeiro, um projeto complicado, de meio de rua, feito com sacrifício, mas aquilo foi fantástico. Para mim, pessoalmente, me deu conhecimento de pessoas da cidade, mais uma vez comprovei que qualquer lugar que você chegue com boa música, do Olho d’Água ao Anjo da Guarda, a boa música será apreciada. Uma história que eu sempre me emociono quando lembro: eu estava tocando num lugar, chegou um senhor, pediu uma garrafa de vinho. Sentou na nossa frente, ele estava pra baixo, arriado. A gente tocando, eu bem de frente pra ele. Eu comecei a prestar atenção que a cada música que a gente tocava ele levantava um pouquinho. Secou a primeira garrafa de vinho, pediu outra, não tomava depressa. Perto de a gente acabar, ele não bebia mais, a feição era outra. Acabamos de tocar, comecei a arrumar meu violão, ele: “posso falar com o senhor? Me acompanha numa taça de vinho?”, chamou o garçom, pediu um prato de frios e outra taça. Ele passou uns 30 segundos olhando para minha cara, o garçom veio, me serviu, e ele disse: “em primeiro lugar eu quero agradecer. Não só o senhor, todo o grupo, mas eu estava prestando muita atenção no senhor. Eu cheguei aqui com um firme propósito, era minha última garrafa de vinho”. Eu disse: “que bom, parar de beber”. Ele frisou: “não, minha última garrafa de vinho. Mas não será mais minha última garrafa de vinho, tanto que eu já pedi outra”. Ele sério, eu gelei: tinha ido ali beber, sair dali e jogar o carro contra um poste, me disse que tinha tido uma decepção muito grande, não entrou em detalhes. Depois ele me disse: “olha, se existe alguma coisa nobre, é o que vocês fazem. Foi Deus que me trouxe aqui. Se eu tivesse ido pra outro lugar… mas vocês tocaram meu coração”.
E discos gravados, participação em discos? Não tenho muitos, não sou um músico de estúdio. Gosto mais de palco. A última agora foi com Vieira [O Natal Azul de Antonio Vieira, com vários intérpretes, lançado em dezembro de 2014], o Memória [Música do Maranhão, de 1997] eu pensei, coordenei o projeto, mas não toquei. Registramos vários compositores da velha guarda. Há ali uns registros muito interessantes. O Canta Cidade, um dia Dr. Jackson [Lago, ex-prefeito de São Luís, ex-governador do Maranhão] chegou muito irritado na Prefeitura, ele tinha ido a um evento, pediu para tocar o Hino da Cidade [Louvação a São Luís, de Bandeira Tribuzzi] e ninguém sabia, aí ele mandou fazer um disco.
Você também teve um papel importante na realização do Festival Internacional de Música de São Luís, infelizmente até aqui, de única edição. Para mim foi a coisa mais importante, musicalmente, que eu já fiz na vida.
Para você, o que é o choro e qual a importância dessa música para a música brasileira? Não concordo que seja a única música brasileira, mas a importância é inegável. Se você olhar hoje, no Brasil, os melhores músicos que nós temos passam pelo choro. Ou pelo menos pelo erudito. E mesmo no erudito, não tem jeito, passa ao menos por Ernesto Nazareth [pianista e compositor]. O choro tem um pé no erudito, um pé no popular, e hoje, com essa turma nova, já pisa em outros terrenos.
Você se considera um chorão? Não, eu não tenho essa pretensão. Se eu dissesse que sim seria muito pretensioso. Não posso de jeito nenhum dizer que sou um chorão. Na realidade, não posso dizer que eu sou um chorão, que eu sou um jazzista. Na verdade, se prestar bastante atenção no que eu faço, talvez seja possível dizer que eu sou um sambista. É, a coisa que eu mais gosto de tocar é samba. Na verdade, como dizia Maestro Nonato: “esse pessoal fica pedindo pra tocar choro. É samba!” [risos].
Para finalizar, gostaria que você falasse um pouco de sua relação com seu Antonio Vieira. Por duas vezes eu fiz essa observação: Vieira foi meu segundo pai. Ele foi um cara que me mostrou muita coisa do mundo. Era um sujeito aparentemente simples, mas era de uma sapiência. Nós viajamos muito, convivemos muito, 24 horas, ficávamos no mesmo apartamento, andávamos, ensaiávamos, tocávamos, três, quatro dias, eu não me cansava nunca dele [emocionado]. Fizemos muitos shows juntos, viajamos o Brasil inteiro. Hoje eu conheço muita gente fora por causa de Vieira, por ter ido acompanhando, ele me deu essa visibilidade, me botou em outro patamar. Eu tenho aproximadamente 50 MDs [minidiscs] de Vieira, isso vai dar mais de 80 horas de Vieira cantando, falando, conversando. Às vezes a gente sentava, ele falava: “tu já vai ligar tua besteira?”. Era uma figura!
Quarta edição de RicoChoro ComVida terá Vinil Social Club, Regional Tira-Teima, Josias Sobrinho e a participação especial de Maria Vitória
O Regional Chorando Callado e a cantora Anna Cláudia, mais o Regional Tira-Teima e a cantora Luciana Simões realizaram duas edições extras de RicoChoro ComVida, na programação cultural da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Maranhão. O projeto chega à sua quarta edição ordinária neste sábado (31), a partir das 18h, no Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande).
As atrações da vez são o DJ Marco Antonio Brito, que quando risca agulhas assume a identidade de Vinil Social Club, o Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão, e Josias Sobrinho, um dos mais respeitados compositores do Brasil, já gravado por nomes como Ceumar, Diana Pequeno, Leci Brandão e Papete, entre muitos outros. A noite terá ainda a participação especial de Maria Vitória, talento-mirim recém-revelado pelas mãos da mãe produtora Ópera Night.
Os ingressos para a quarta edição de RicoChoro ComVida podem ser adquiridos no local. Reserva de mesas pode ser feita pelo telefone (98) 988265617.
O DJ Marco Antonio Brito, vulgo Vinil Social Club. Acervo pessoal
Marco Antonio Brito explica por que o nome artístico de Vinil Social Club: “remete ao trabalho que desenvolvo nessa área, que é dar ênfase ao vinil, resgaste e preservação da música e acima de tudo na ritualização de se escutar música. O vinil é o único molde de propagação de música gravada que você pode ver claramente de maneira material a música sendo reproduzida. O ritual de pegar um disco, retirar da capa, por para tocar e ver a rotação hipnotizante do disco rolando na vitrola faz com que nos concentremos em escutar a música e possibilita um grau maior de sentir e entender a música”, explica.
“Nessa apresentação, selecionaremos do nosso acervo de LPs e compactos muito choro, que pelo nome do projeto [RicoChoro ComVida] e no que ele se predispõe fazer não poderia ser diferente, e também tudo que essa música belíssima influenciou na musica brasileira. Teremos muito samba, bossa, jazz samba, samba jazz, samba rock, música regional, todo esse universo eclético que forma a música e alma brasileiras”, antecipa o repertório, ele que se apresenta todas as terças-feiras no Bar Chico Discos.
O Regional Tira-Teima durante apresentação na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia do Maranhão. Foto: Rivanio Almeida Santos
Formado por Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Luiz Jr. (violão sete cordas), Zeca do Cavaco (cavaquinho centro), Zé Carlos (percussão), Serra de Almeida (flauta) e Henrique (percussão), o Regional Tira-Teima está na ativa desde o final da década de 1970. A formação original contou, entre outros, com nomes como o multi-instrumentista Ubiratan Sousa – de um choro de sua autoria o grupo herdou o nome – Adelino Valente (bandolim), Antonio Vieira (percussão), Sérgio Habibe (flauta), Cesar Teixeira (cavaquinho), Chico Saldanha (violão) e Arlindo Carvalho (percussão). O único remanescente da formação original é Paulo Trabulsi, que com 17 anos participou da gravação do antológico Lances de Agora [1978], de Chico Maranhão, realizada por Marcus Pereira para sua gravadora, na sacristia da secular Igreja do Desterro.
O grupo está às vésperas de lançar seu primeiro disco, cujo repertório mescla peças autorais a um trabalho de pesquisa de choros de autores maranhenses antigos, nos moldes do inaugural Choros maranhenses [2005], do Instrumental Pixinguinha, primeiro registro fonográfico inteiramente dedicado ao choro no Maranhão.
O produtor Ricarte Almeida Santos entusiasma-se com a notícia: “já é mais que hora de ouvirmos um registro gravado do Tira-Teima. Pela importância de seus membros, pela longevidade do grupo e por tentativas anteriores que infelizmente foram abandonadas”, afirma. Algumas peças do disco, já anunciadas em entrevistas de seus membros à série Chorografia do Maranhão, poderão ser ouvidas durante a apresentação. Entre elas Dom Chiquinho, Choro nobre e Choro embolado, de Serra de Almeida, Gente do choro e Meiguice, de Paulo Trabulsi.
O compositor Josias Sobrinho. Foto: Fafá Lago
O Regional Tira-Teima receberá o compositor Josias Sobrinho, que se tornou nacionalmente conhecido ao ter quatro composições incluídas por Papete em Bandeira de Aço [Discos Marcus Pereira, 1978], um divisor de águas para a música popular produzida no Maranhão. O cantor e percussionista gravou De Cajari pra capital, Engenho de Flores, Dente de ouro e Catirina, até hoje entre as mais conhecidas da lavra de Josias Sobrinho.
Era o começo. Depois ele gravaria seus próprios discos, sendo Dente de ouro [2005] o mais recente, e seria gravado e regravado por diversos intérpretes, no Maranhão e em outros estados. Casos de Engenho de flores (regravada por Diana Pequeno), Rosa Maria (Ceumar, Leci Brandão e Cláudio Pinheiro), Porco espinho (Fátima Passarinho), Terra de Noel (Flávia Bittencourt), Quadrilha (parceria com Sérgio Habibe, Godão, Ronald Pinheiro e Chico Maranhão, gravada por este último e por Papete), O biltre (Rita Ribeiro, hoje Benneditto), As perigosa (Ceumar) e Dente de ouro (Cláudio Lima), entre muitas outras.
O compositor Josias Sobrinho na época do Rabo de Vaca. Acervo pessoal
Parte desse repertório autoral será apresentado por Josias. “Vou tocar um choro que fiz na época do Rabo de Vaca [grupo dos anos 1970, então integrado por Josias]. Nosso grupo começou tocando chorinho, mas faço também um choro cantado, além de sambas meus e de outros compositores”, adianta.
Ele diz ver com bons “olhos e ouvidos” a iniciativa do RicoChoro ComVida e comenta também o significado de ser o convidado da vez. “Somente uma música com tão ricas tradições pode proporcionar a gerações continuadas possibilidades desta envergadura. Parabéns a todos que têm algo a ver com a realização do projeto. É a história se impondo à incongruência dos fatos. Afinal, o Choro tem vida! Pra mim é muito gratificante participar desse grande momento cultural. Ter minha música inserida no contexto do choro é elogioso e distinto. Sou muito grato pelo convite, afinal de contas esta é uma iniciativa que retoma histórias tantas, representadas nas figuras destacadas de Ricarte, Tira-Teima, Luiz Jr., o Clube do Choro, Chico Canhoto, Célia Maria, Léo Capiba, João Neto [seu sobrinho] e tantos outros”, destaca Josias.
A pequena Maria Vitória em seu show de estreia. Acervo pessoal
A pequena Maria Vitória cresceu entre boas influências musicais: é filha do cantor e compositor Santacruz e da produtora Ópera Night, em cujo currículo constam vários nomes importantes da música brasileira trazidos por ela à ilha. Recentemente a mãe resolveu produzir a própria filha, em um show com participações especiais de outras crianças sintonizadas com o que de melhor se produz em termos musicais no Brasil e no Maranhão.
Na participação especial que fará no show de “tio Josias”, como ela carinhosamente chama o artista, ele também uma de suas referências musicais, Maria Vitória fará uma homenagem ao saudoso e eterno João Rubinato, o ítalo-paulista cuja música tornou-se sinônimo da maior cidade do país: Adoniran Barbosa.
Produção de RicoMar Produções Artísticas, RicoChoro ComVida tem patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func), Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, TVN e Galeteria Ilha Super, e apoio do Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas.
Divulgação
Serviço
O quê: RicoChoro ComVida – 4ª. edição Quem: Vinil Social Club, Regional Tira-Teima, Josias Sobrinho e participação especial de Maria Vitória Onde: Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande) Quando: 31 de outubro (sábado), às 18h Quanto: R$ 30,00. Reserva de mesas pelo telefone (98) 988265617
Laura D. Macoriello é assessora de imprensa da Edições Ideal, por onde publicou os três volumes de Rock para pequenos – Um livro ilustrado para futuros roqueiros, além de Cinema para pequenos – Um livro ilustrado para futuros cinéfilos [Edições Ideal, 2013, 52 p.]. Os dois primeiros volumes de Rock para pequenos, dedicados aos gringos, microperfilou Angus Young, B-52, Beatles, Chuck Berry, David Bowie, Elvis Presley, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kiss, Ozzy Osbourne, Ramones, Rolling Stones e Steve Harris (no primeiro volume) e Axl Rose, Bjork, Bono Vox, Bruce Dickinson, Chrissie Hynde, Dave Grohl, Dick Dale, Freddie Mercury, Green Day, Jeff Hanneman, Jerry Lee Lewis, Jim Morrison, John Lennon, Lemmy Kilmister, Metallica, Morrissey, Nina Hagen, Robert Smith, Sex Pistols e Van Halen (no segundo).
O recém-lançado terceiro volume [Edições Ideal, 2015, 44 p.; leia um trecho] é dedicado a nomes do rock nacional: Capital Inicial, Cazuza, Erasmo Carlos, Inocentes, Ira!, Kid Vinil, Legião Urbana, Mamonas Assassinas, Os Paralamas do Sucesso, Pitty, Raul Seixas, Rita Lee, Ronnie Von, Secos & Molhados, Supla, Titãs e Ultraje a Rigor.
Os livros são ilustrados por Lucas Dutra e trazem microperfis dos artistas e, espécie de narrativa fabular, algo como uma moral da história, linkando as vidas e obras a valores cotidianos que devem ser ensinados aos “futuros roqueiros”, como indica o subtítulo da trilogia – até aqui; indagada sobre um possível quarto volume, a autora disse não saber responder ainda.
A assessora/escritora conta que “a ideia surgiu do meu cotidiano com minha filha Olívia, 5, que na época do primeiro livro estava com três anos. Peguei situações que eu vivia com ela para dar as “lições” e achei legal dar uma breve explicação sobre os astros”.
A “lição de moral” do microperfil que abre o terceiro volume, dedicado a Cazuza, é “ser filho único é muito legal, podemos escolher nossos irmãos-amigos”. Encaro o livro como uma boa porta de entrada para as crianças ao universo do rock, especificamente o brasileiro, no caso deste terceiro volume. Pergunto-lhe se este papel deveria, em alguma medida, ser também das rádios e tevês. “Talvez. Acho que de alguma forma os próprios pais que gostam do estilo podem tentar introduzir isso desde cedo nos pequenos”, aponta. “Acho que a opção deve ser dada. Não teremos controle sobre eles [os filhos] para sempre, caso eles gostem de outra coisa mesmo conhecendo o rock, acho que o certo é respeitar”, continua.
Laura D. Macoriello se define como alguém que “gosta mais de Smiths do que de lasanha”. Indagada sobre a maior loucura que já cometeu por um ídolo, responde sorrindo: “Nossa! Nenhuma! Até porque acho que em se tratando de um ídolo, nada é considerado loucura, concorda? [risos]”.
Ao fim do volume, uma discografia básica aponta os principais discos dos artistas, para pais e filhos ouvirem juntos. A autora poupa a petizada de eventuais detalhes trágicos da vida e carreira dos microbiografados. É um livro sobre rock, mas sem sexo, drogas e mortes trágicas.
RicoChoro ComVida terá duas edições extras, na mesma noite, dentro da programação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Maranhão. Apresentações de Chorando Callado, Regional Tira-Teima, Anna Cláudia e Luciana Simões são gratuitas e acontecem na Praça Maria Aragão
Apreciadores de boa música nunca estão satisfeitos com o dito popular “tudo o que é bom dura pouco”. Frequentadores assíduos de RicoChoro ComVida sempre reclamam: ou a festa mensal é curta; ou deveria ser semanal. Por outro lado, reconhecem a importância do projeto, nos moldes do saudoso Clube do Choro Recebe, então semanal, no Bar e Restaurante Chico Canhoto, com breves passagens pela Pousada Portas da Amazônia/ La Pizzeria, na Praia Grande, e Associação do Pessoal da Caixa (APCEF), no Calhau.
A este coro de mais ou menos descontentes, um motivo de alegria está agendado para a semana que se inicia: amanhã (20), às 20h, de graça, na Praça Maria Aragão, nada menos que dois shows – ou melhor, quatro – poderão ser presenciados, sob produção de Ricarte Almeida Santos, na programação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Maranhão – que acontece entre os dias 19 a 25 de outubro –, evento promovido pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação, pasta cujo titular é Bira do Pindaré (PSB).
A noite desta terça (20) terá nada menos que o retorno do Chorando Callado – um dos grupos surgidos por ocasião do Clube do Choro Recebe, celebrando 10 anos de estrada – e o Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão, prestes a lançar seu disco de estreia. Os grupos receberão, respectivamente, as cantoras Anna Cláudia – com disco novo pronto, a ser lançado em breve – e Luciana Simões (do duo Criolina), com repertório baseado em Dalva de Oliveira (1917-1972), Carmen Miranda (1909-1955) e Noel Rosa (1910-1937).
O Regional Chorando Callado – cujo nome homenageia Joaquim Antonio Silva Callado, considerado um dos pais do choro – é formado por Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho), Wanderson Silva (percussão), João Eudes (violão sete cordas) e Lee Fan (flauta e saxofone). O Tira-Teima – batizado por um choro de Ubiratan Sousa, um de seus fundadores, ainda na década de 1970 – é atualmente integrado por Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Zeca do Cavaco (voz e cavaquinho centro), Luiz Jr. (violão sete cordas), Zé Carlos (voz e percussão), Serra de Almeida (flauta) e Henrique (percussão).
Wendell Cosme revela a alegria em participar do projeto: “Estamos felizes em participar do RicoChoro ComVida. A gente já estava conversando há algum tempo e, na verdade, nós estamos comemorando os 10 anos de Chorando Callado. Parece que o Ricarte adivinhou. Estamos com o projeto de um show e da gravação de um disco para festejar essa data. Será um grande prazer começar essa comemoração acompanhado a Anna Cláudia”, revelou.
Wanderson também revela empolgação em participar do projeto e admiração por Anna Cláudia: “Nós estamos todos felizes com o convite, [Anna Cláudia] é uma cantora que tem um perfil que se encaixa com o Chorando Callado, bem alegre, extrovertida e profissional, assim como nossa maneira de fazer música”, declarou.
O violonista João Eudes reforça a importância das amizades para a consolidação do grupo: “É uma sensação prazerosa, esta reunião é uma relação de amizades concretas e sinceras que só o tempo constrói. Acompanhar Anna Cláudia é uma emoção: além de uma grande amiga, sua voz e afinação são impecáveis”, elogiou.
A cantora Anna Cláudia durante canja em edição do projeto RicoChoro ComVida. Foto: Rivanio Almeida Santos
A paraense, há muito radicada no Maranhão, por seu lado, devolve o entusiasmo e antecipa um pouco do que será sua apresentação: “Participar desse projeto é uma honra. O repertório é todo formado por músicas de compositores maranhenses”, contou, antecipando nomes como Djalma Chaves, Gerude, Nosly, Ronald Pinheiro e Zeca Baleiro entre os autores que gravou em Bons ventos, segundo disco de sua carreira, cujo lançamento oficial arquiteta para breve.
O violonista Luiz Jr. já vinha há algum tempo substituindo Francisco Solano [violão sete cordas] em apresentações do Regional Tira-Teima no Hotel Brisamar [em cujo terraço o grupo toca às sextas-feiras] e em outros projetos do grupo. “Pra mim é uma honra, um prazer, integrar um grupo que conheço desde a época em que eu frequentava a roda de choro no Monte Castelo, Bateau Mouche [apelido do bar que abrigava o encontro]. Eu era criança, estava começando, mal tocava violão, na verdade eu não tocava nada, e já acompanhava esse grupo desde aquela época, com a presença de Zé Hemetério e grandes chorões de São Luís e do estado do Maranhão”, lembrou.
“Isso [sua presença efetiva no grupo] vai reforçar mais minha afirmação em relação ao [violão] sete cordas, meu estudo do sete cordas, diariamente ensaiando com Paulo [Trabulsi, cavaquinista do grupo]. Esse grupo é referência em relação ao choro, não só no estado, mas no Brasil, pelo trabalho de pesquisa em relação aos autores maranhenses, está com novos projetos, disco que está vindo, preparando uma turnê para tocar em outros estados, esse grupo vai chamar muita atenção país afora e espero que cresça muito mais”, adiantou.
Sobre a participação na edição extra de RicoChoro ComVida, garantiu: “esse show vai ser interessante, com a Luciana Simões, grande intérprete da música brasileira, já reconhecida em São Paulo e outros eixos. Pra gente vai ser muito interessante, contemplando o ambiente muito agradável da Praça Maria Aragão, aquela beleza de visual da ponte, da lua, de Gonçalves Dias, que é outra fonte de inspiração. Quem for vai gostar muito. A alegria e a felicidade são maiores ainda em saber que o projeto RicoChoro ComVida, tão necessário, está se expandindo”.
A cantora Luciana Simões. Foto: Renan Perobelli
Luciana Simões, que também cantará nomes como Lupicínio Rodrigues (1914-1974), Humberto Teixeira (1915-1979), Lopes Bogéa (1926-2004) e Cesária Évora (1941-2011), ressalta a importância do projeto e a honra em participar desta edição: “fiquei muito feliz com o convite. Sinto-me honrada em fazer parte deste projeto único, de extrema importância para a cidade, tanto para o público apreciar essa música preciosa que é o chorinho, quanto para o músico tocar esse repertório e incentivar outros projetos que já existem, como é o caso do próprio Tira-Teima”, afirmou.
E reafirmou: “para mim é uma honra ser acompanhada por estes músicos, por quem tenho o máximo respeito. Ao ser convidada fui logo reouvir umas músicas de que gosto muito, nas grandes vozes da era de ouro do rádio”. Luciana anunciou ainda a participação especial do marido, Alê Muniz, durante sua apresentação: “ele canta uma ou duas comigo”, antecipou.
Para o produtor Ricarte Almeida Santos “a importância da presença do projeto RicoChoro ComVida, com essas atrações e encontros de artistas de linguagens diversas, na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, se dá pela compreensão de que a prática da arte, da música, é uma importante dimensão da produção de saberes e técnicas distintas e, portanto, de trocas de informações, de influências e de culturas. Portanto espaço da produção de novos conhecimentos e de reinvenção das identidades”, declarou.
Serviço
O quê: edição especial de RicoChoro ComVida Quem: Regionais Chorando Callado e Tira-Teima, Anna Cláudia e Luciana Simões Quando: dia 20 de outubro (terça-feira), às 20h, na programação cultural da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Maranhão Onde: Praça Maria Aragão (Centro) Quanto: grátis
Em 1995 Malcolm McLaren (1946-2010) visitou os estúdios da MTV Brasil. Pego de surpresa, o escalado para entrevistá-lo foi Fábio Massari, o Reverendo, profundo conhecedor de cultura pop. Apenas cerca de 15 minutos da entrevista de quase uma hora foi ao ar e o material bruto (em VHS) continuava apenas no acervo pessoal do radialista – e no da emissora, ele descobriria depois, contrariando a expectativa de destruição na qual ele próprio acreditava.
Mesmo no susto, Massari cumpriu bem seu papel e certamente seria um dos poucos brasileiros a fazê-lo, como atesta André Barcinski no posfácio. Por anos, guardou também uma cópia da transcrição da conversa, recheada, e não poderia ser diferente, de citações – sobretudo de música, moda e política – do universo ao redor dos Sex Pistols, a maior invenção do entrevistado.
Quase duas décadas depois, após um desejo acalentado por anos, Massari e o quadrinista Luciano Thomé, cujo traço encarna a alma punk do protagonista, transpõem a entrevista televisiva – na íntegra – à HQ Malcolm [Edições Ideal, Coleção Mondo Massari, 2014, 64 p.; leia um trecho]. O resultado é tão bom que parece que a conversa foi originalmente pensada para o formato.
O papo orbita em grande parte em torno do grupo de John Lydon e companhia, mas é um passeio pela indústria cultural, em companhia de quem sempre tirou um sarro por dentro. McLaren afirma, por exemplo, que os Sex Pistols nasceram como manequins: mais importava vestirem o que era conveniente ao empresário que que soubessem tocar (bem) algum instrumento. “Em 1977 criamos um movimento em que tudo era possível e não era necessário saber tocar guitarra”, diz. Quer atitude mais punk que isso?
A intimidade de Massari com o universo também aponta para as influências de MC5, Iggy & The Stooges e New York Dolls, e o legado deixado pelo grupo, que influenciou grupos como The Damned, Buzzcocks “e muitas outras bandas”. Sobram críticas à cultura americana – minimizada a “rock’n’roll, Levi’s, Coca-Cola e Marylin Monroe” –, à própria MTV – “se você ouve música, você é menos controlado por ela. Se você assiste na TV, você está mais propenso a ser controlado por ela e ela se torna uma… uma droga que o transforma num zumbi” – e a artistas que McLaren não aprecia – “o importante é ter algo a dizer em vez de botar todo mundo para dormir com música insossa, do tipo Mariah Carey”.
Para o inglês Malcolm McLaren não havia lugar para gênios nos Estados Unidos: “os gênios transformam a vida e os EUA não querem mudanças. Vivem um momento conservador”.
Malcolm, a HQ, é um belo tributo ao legado de seu protagonista, em geral amado e odiado ao mesmo tempo e na mesma intensidade, um dos personagens mais interessantes e controversos da música em todos os tempos.
Trupe do Laborarte em foto de data e autoria não identificadas. Da esquerda para a direita: Claudio Ribeiro, Zeca Baleiro, Joãozinho Ribeiro e Jorge “Cara de Borracha”; abaixo: Jorge do Rosário, Rosa Reis, Paulinho Oliveira e Saci Teleleu
Diversos movimentos convergiram para o nascente Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte, fundado em 11 de outubro de 1972. Música, teatro, artes plásticas, fotografia, cultura popular: para tudo havia espaço em seus departamentos, ocupados por nomes que fariam história neste estado, como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe, Murilo Santos, Wilson Martins, Regina Telles, Tácito Borralho, Rosa Reis, Nelson Brito, Mestre Patinho, Dona Teté e Joãozinho Ribeiro, entre outros, em diferentes épocas.
O Labô, como é comumente chamado pelos mais íntimos, completa 43 anos domingo (11) e preparou vasta programação, inteiramente gratuita, para comemorar. Ano que vem, o casarão 42 da Rua Jansen Müller (Centro) será enredo da Escola de Samba Flor do Samba no carnaval.
Ao longo da programação (veja completa ao final do post), uma videoinstalação apresentará documentários, espetáculos e outros acervos históricos do Laborarte, acumulados ao longo de mais de quatro décadas de atividades ininterruptas.
Entre as montagens iniciais merecem destaque Espectrofúria [1972], recentemente reencenada, sobre texto de Eduardo Lucena, que recebeu o prêmio de Melhor Plasticidade no Festival Nacional de Teatro Jovem em Niterói/RJ, Os Sete Encontros do Aventureiro Corre-Terra ou O Cavaleiro do Destino, de Josias Sobrinho e Tácito Borralho [prêmio Mambembe de 1978], Agonia do Homem [1972], poemas de Nauro Machado adaptados por Otto Prado, Mártir do Calvário [1973], em que Ubiratan Teixeira interpretou Pilatos, e Marémemória [1974], baseado no livro-poema homônimo de José Chagas, cuja foto de Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazendo um par de violeiros encabeça este blogue.
De 30 anos de Laborarte, reportagem do último, aliás, cato informações para este texto. O do compositor-fundador foi publicado em 19 de outubro de 2002 no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, do Jornal Pequeno, e está também na coletânea Maranhão Reportagem [Clara Editora, 2002], organizada por Félix Alberto Lima.
Entre os destaques da programação de aniversário, acontece hoje (9) a noite de autógrafos dos livros Cantigas Divinas, em que Camila Reis, com transcrições de Gustavo S. Correia e ilustrações de Layo Bulhão, transpõe para partituras, cantos entoados nos festejos do Divino e na dança do Cacuriá, e Vem cá curiar o cacuriá, de Inara Rodrigues, sobre a dança em que ambas as autoras dão – ou já deram – passos. O primeiro tem patrocínio da Fundação Cultural Palmares e Ministério da Cultura; o segundo foi premiado no Concurso Literário Cidade de São Luís.
Moda, dança e poesia dão o tom da noite de amanhã (10). A partir das 20h Tieta Macau, Deuzima Serra, Moisés Nobre e Raimunda Frazão – uma das homenageadas da 9ª. Feira do Livro de São Luís – apresentam performances nas áreas.
Na sequência, Joãozinho Ribeiro atrela à programação de aniversário do Laborarte o show que tem apresentado ao longo deste ano, lançando seu disco de estreia, Milhões de uns – vol. 1. Nesta ocasião, a apresentação terá as participações especiais de Josias Sobrinho e Rosa Reis.
“Para mim é uma honra e um prazer fazer valer o dito popular, “o bom filho à casa torna”. Minhas relações com o Labô têm tempo e história”, declarou o compositor, autor da maioria das músicas do espetáculo carnavalesco-teatral Te gruda no meu fofão. “Alegria maior ainda é poder dividir o palco com Josias Sobrinho e Rosa Reis, nomes de importância fundamental, em diferentes épocas, para o surgimento e a continuação do Laborarte nas trincheiras em prol de nossa cultura popular”, continuou. “Darei um presente ao Laborarte, o público pode esperar uma surpresa”, prometeu, deixando o mistério no ar.
A noite de sábado guarda espaço ainda para show das Afrôs e a programação se encerra no domingo de aniversário (11), com um cortejo do Cacuriá de Dona Teté na Feira do Livro (Praia Grande), às 17h30, cujo encerramento também acontece na data.
Como afirmou Cesar Teixeira em seu texto de há 13 anos, “nomes de pessoas e considerações sobre o trabalho do Laborarte não caberiam nesta página – dariam um livro”. Faça parte dessa história!
Programação
Hoje (9), a partir das 20h
Receba! – Dança, Negritude, Pertencimento, com Luana Reis
Noite de autógrafos dos livros Cantigas Divinas, de Camila Reis, e Vem Cá Curiar o Cacuriá, de Inara Rodrigues
Instalação fotográfica Chuseto, de Jesús Pérez
Videoinstalação – documentários, espetáculos e outros acervos históricos do Laborarte
Roda de Capoeira Angola com os mestres Nelsinho, Patinho e convidados
Shows de Rosa Reis e Camila Reis
Palco livre
Amanhã (10), a partir das 20h
Exibição de vídeo de Moda e intervenção Beltranesca, com Tieta Macau
Solo de dança popular com Deuzima Serra
Performance Poéticas, com Moisés Nobre, Raimunda Frazão e convidados
Show de Joãozinho Ribeiro – Lançamento do cd Milhões de uns, com participação especial de Josias Sobrinho e Rosa Reis
Cânticos aos 43 anos de Laborarte
Show das Afrôs
Domingo (11), às 17h30
Cortejo do Cacuriá de Dona Teté na 9ª. Feira do Livro de São Luís (Praia Grande)
Já descalça, Alexandra Nicolas reverencia aos grandes que lhe escoltam. Foto: Rivanio Almeida Santos
O sucesso das duas edições anteriores de RicoChoro ComVida já haviam consolidado em definitivo o espetáculo mensal no calendário cultural da capital maranhense. Sábado passado (3), o grupo Urubu Malandro, com os reforços de Rui Mário (sanfona) e Fleming (bateria), e, antes, o DJ Joaquim Zion, já haviam aquecido o público, quando a cantora Alexandra Nicolas subiu ao palco, em tons de rosa e azul dos pés à cabeça, para homenagear Carmen Miranda, que confessou ser sua maior influência musical.
As várias preocupações da artista – figurino, pesquisa e seleção de repertório etc. – fizeram merecer, à sua apresentação – e ao projeto como um todo –, o epíteto de espetáculo, literalmente. O público, sempre acostumado a vê-la cantar descalça, deve ter estranhado o salto alto decorado que calçava para ser estrela ao lado de astros nada distraídos, para contrariar uma canção que não cantou.
Subiu ao palco dançando, provocante, Diz que tem [Vicente Paiva e Aníbal Cruz], dando pistas do que seria a noite dali por diante. Seguiram-se Disseram que eu voltei americanizada [Luiz Peixoto e Vicente Paiva] e O samba e o tango [Amado Regis], quando ela confessou: “meu repertório é à base de alegria e amor, por isso eu estou aqui, são a base de tudo o que faço”. Então tá explicado!
Vieram Tico-tico no fubá [Zequinha de Abreu], Teleco-teco [Marino Pinto e Murillo Caldas], Bambo de bambu [Almirante e Valdo Abreu], em que botou a plateia para cantar e bater palmas, e E o mundo não se acabou [Assis Valente]. Até que ela tirou os sapatos, botou-os em cima do tamborete, e confessou: “é uma honra calçar esse sapato, mas eu já cantei muito calçada”, riu e fez a plateia sorrir. “Esse sapato é quase uma pessoa, então vai ficar aqui à disposição de quem quiser tirar foto”, continuou. Já estavam todos entregues aos encantos de Alexandra e de sua homenageada.
Quando cantou Quem é [Custódio Mesquita e Joracy Camargo] lamentou a ausência de um par para duetar – na gravação original da música, Carmen Miranda dialoga com Grande Otelo –, prometendo-o para uma próxima ocasião. Arlindo Carvalho (percussão), Osmar do Trombone, Juca do Cavaco e Domingos Santos (violão sete cordas) vez por outra interagiam fazendo-lhe um divertido coro.
Após Camisa listada [Assis Valente], Alexandra louvou a existência de outras Carmens na música brasileira, destacando os nomes das Ritas Lee e Benneditto, Ná Ozzetti e Ney Matogrosso, todos de sua admiração.
A Meu rádio e meu mulato [Herivelto Martins], seguiu-se Na cabecinha da Dora [Antonio Vieira], externa ao repertório da “pequena notável”. “Carmen Miranda me contou em sonho que só não gravou essa música por que não conheceu Seu Vieira. Eu acredito nisso. Eu não podia deixar também de prestar essa homenagem, pois ele [o compositor] está aqui”, disse, apontando para o afoxé – usado por Fleming durante o show – pousado num banco, o que seria do artista – um dos fundadores do Urubu Malandro –, não fosse seu falecimento em abril de 2009.
Com o choro que dá nome ao grupo [Urubu malandro, de Pixinguinha, João de Barro e Louro], aliás, Alexandra Nicolas encerrou, apoteoticamente, sua primeira incursão no palco do Barulhinho Bom, que abriga o projeto RicoChoro ComVida. Aos aplausos e gritos de “mais um” em uníssono, respondeu com mais uma dose de O samba e o tango, fazendo jus à letra: “eu canto e danço sempre que possa”.
A festa continuou, com canjas de Anna Cláudia – que anunciou lançamento de disco novo para breve –, Tássia Campos – que dividirá com Cesar Teixeira e Marcos Magah o palco do Baile da Tarja Preta, de aniversário de seis anos do jornal Vias de Fato, dia 14 de novembro, no Porto da Gabi – e Joãozinho Ribeiro – que lembrou o centenário de Orlando Silva e se apresenta dia 10 de outubro (sábado), na programação de aniversário do Laborarte (em sua sede, na Rua Jansen Müller, 42, Centro). Joaquim Zion garantiu a necessária prorrogação, quando os insistentes, qual este cronista e(m) boas companhias, já em pé, dividiam-se entre o som, os últimos goles e doses, o papo e arriscar um ou outro passo.