Ex-esposa do vocalista do Joy Division traça retrato cru de seu relacionamento em biografia
Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division. Capa. Reprodução
Aos quase 35 anos do suicídio de Ian Curtis – recém-completados, no último 18 de maio; ele tinha 23 anos quando se enforcou – ganha tradução no Brasil a biografia Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division [Touching from a distance – Ian Curtis and Joy Division, tradução de José Júlio do Espírito Santo, prefácios de Kid Vinil e Jon Savage, Edições Ideal, 2014, 317 p.], escrita por Deborah Curtis, sua viúva.
O livro apresenta um relato sobretudo da relação de Ian e Deborah, sem poupar um e outro nem revelar detalhes desnecessários de sua intimidade. O texto equilibrado dela descortina tão somente o que é necessário para compreendermos a figura do vocalista do Joy Division e a aura mítica criada e alimentada em torno dele, sobretudo após o suicídio. Em resumo, a autora não faz do ex-marido santo nem demônio: ele é tratado como um ser humano – acima da média, como são os gênios.
O livro é dedicado à filha dos dois, Natalie, e traz depoimentos dos outros membros da banda: Bernard Summer (guitarra e teclado), Peter Hook (contrabaixo) e Stephen Morris (bateria), que após o precoce suicídio do líder vieram a formar o New Order. A obra remonta à adolescência dos Curtis, quando se conheceram – época em que ele já falava em suicídio –, até quando a fama do Joy Division começou a extrapolar a Inglaterra natal: Ian se enforca pouco antes da banda sair para sua primeira turnê pelos Estados Unidos.
O legado da banda é inquestionável e a carreira, apesar de curta, deixou obras-primas como Love will tear us apart, Transmission e She’s lost control. Influenciados por nomes como Sex Pistols, Velvet Underground e Iggy Pop – seu The idiot continuava girando na vitrola quando o corpo de Ian foi encontrado sem vida –, o Joy Division segue influenciando jovens mundo afora. Antes de se suicidar, Ian assistiu “Stroszek, de Werner Herzog, sobre um europeu vivendo na América que se mata em vez de escolher entre duas mulheres” [p. 160]
Originalmente publicado em 1995, e tendo inspirado o filme Control, de Anton Corbijn, em Tocando a distância estão registrados a inabilidade de Ian Curtis para com coisas práticas da vida de um adulto normal – por exemplo, dirigir, morar sozinho etc.; há um capítulo intitulado Decida por mim –, a oscilação de seu comportamento (ora carinhoso, ora agressivo), a certeza do sucesso (chega a abandonar empregos na certeza de que o Joy Division daria em algo), as crises epiléticas (muitos fãs julgavam serem apenas trejeitos de palco) e a bigamia – Deborah admite a fraqueza à época, mas documenta o caso do músico com a jornalista Annik Honoré (falecida ano passado).
Deborah cita, mas não publica, a longa carta deixada a ela por Ian por ocasião de seu suicídio, o que bastaria para provar que, longe de caça-níqueis, seu relato é um desabafo necessário, profundo, emocionante e corajoso.
A edição brasileira traz ainda letras gravadas e inéditas de Ian Curtis, escritos inacabados do artista, lista de shows do Joy Division, um pequeno álbum fotográfico e uma minuciosa e surpreendente discografia (listando, às vezes, coletâneas em que a banda comparece em apenas uma faixa). Continue Lendo “Um relato honesto e emocionante”
Já fazia tempo que tentávamos essa entrevista com o bandolinista César Jansen. Em torno de sua figura paira certo mistério. Apesar de ainda jovem e estudioso dedicado do bandolim, ele já não se apresenta mais para grandes plateias. Apenas rodas de amigos e familiares têm o privilégio de vê-lo e ouvi-lo tocar seu bandolim, de sonoridade potente, de modelo idêntico ao do mestre Jacob do Bandolim, confeccionado pelo luthier carioca Tércio Ribeiro, o mesmo que havia sido escolhido pelo autor de Vibrações para recuperar seus instrumentos. Jansen possui sete bandolins e de um dos modelos existem apenas dois iguais no Brasil. Além do dele, um é de Joel Nascimento, outra fera do bandolim e do choro.
Talvez nesse mistério residisse a nossa grande expectativa em entrevistar César Alberto Olívio Jansen, nascido no bairro do Bom Milagre, em São Luís, em 12 de setembro de 1956, filho de Nicomedes da Luz Jansen, fabricante de mosaicos perto da Rua de Santana, “cansei de ir lá visitá-lo, levar comida”, e Isabel Olívio Jansen, doméstica, “depois se empregou na secretaria de agricultura do Estado do Maranhão, onde se aposentou”.
Encontro marcado, os chororrepórteres tocaram a campainha do apartamento do músico 15 minutos antes da hora, quando foram recebidos carinhosamente por ele e sua esposa Soraia. Ainda deu tempo para que ele fosse buscar as filhas – Júlia e Laura – em um curso de inglês ali perto.
Depois a conversa transcorreu solta, entremeada por certa timidez do instrumentista, mas nada que limitasse a realização de uma rica entrevista. Colecionador voraz de tudo que se relacione ao choro e ao bandolim, César Jansen possui um acervo dos mais preciosos, em vídeos, discos, livros, cadernos de partituras e outros registros multimídia.
Fundador do Instrumental Pixinguinha – ao lado de Paulinho [Santos, flauta], Marcelo Moreira [violão], Domingos Santos [violão], Francisco Solano [violão sete cordas], Biné do Cavaco e Carbrasa [percussão] –, em 1990 participou, como bandolinista, do antológico show do grupo, Homenagem à Velha Guarda, no teatro Arthur Azevedo, quando, dentre outras peças, executaram a rebuscada Suíte Retratos, do genial maestro Radamés Gnattali.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Como era o ambiente musical em tua casa? O que te fez enveredar pelo campo da música? Nada de extraordinário na minha casa na minha infância. Minha mãe escutava muito Roberto Carlos, era uma coisa que ela fazia sempre, comprava todo ano o disco do Roberto Carlos. Papai, não, papai nunca [interrompe-se]. Depois que eu me entendi, eu questionei, queria saber por que eu tinha gosto pela música. Ele me disse que meu avô, Maximiano, tinha tocado violino. Eles eram de Viana.
Então você não tem uma memória musical mais profunda da infância? Não, a minha lembrança mais longínqua de música é que todo ano, em frente à minha casa, brincava o Boi [de Orquestra] de Rosário. Aquilo realmente me deixava [interrompe-se novamente]… era semelhante ao que é hoje, o Boi, a Catirina, as índias todas enfeitadas. Depois disso eu fiz o primário ali no Monte Castelo, no Grupo Escolar Estado do Piauí, até aí também não tinha nada a ver com música. O lance surgiu quando eu fiz uma espécie de vestibular para entrar para a Escola Técnica, um exame de admissão. Eu fui pra Escola Técnica, lá tinha ginásio na época, eu fiz o ginásio industrial e o curso técnico em eletromecânica. O ginásio eram quatro anos e o curso técnico três anos. No meio do ginásio eu entrei para a banda marcial, fui tocar tarol. Estudei com o mestre da banda, Manoel Ferreira, o nome dele. Conheci muita gente lá, hoje são músicos, tipo Camilo Mariano [baterista], foi contemporâneo meu, conheci Pipiu [Arlindo Pipiu, multi-instrumentista], também tocava tarol na banda, Nato Araújo [violonista], todos tocavam na banda. Quando eu estava na banda marcial – a Escola Técnica tinha duas bandas, uma marcial e uma musical –, eu recebi um convite para participar da banda musical tocando tarol. A musical era mais orquestrada, mas tinha uma parte percussiva, era um tarol, um bumbo e um surdo. Aí o tarolista estava saindo da Escola e eu recebi o convite para ir para lá. Só que para tocar tarol na banda musical tinha que aprender música, não era como na marcial que era só meter a vareta. Lá eu tinha que ter a partitura e ir pela partitura. Aí eu fui obrigado pelas circunstâncias a aprender música, eu estudei com João Carlos Nazaré [maestro], o pai da Alcione [cantora], ele era o mestre da banda. Ele era secundado por Nonato, o Mestre Nonato do Conjunto, então eu estudei com os dois. Lá eu aprendi a ler partitura, que é o grande lance.
O maestro João Carlos era muito exigente? Super-exigente! Durão! Primeiro que ele era militar. Meu amigo, se na marcial era dureza, na musical era muito mais.
E Nonato, era mais suave? Nonato era. Os alunos iniciantes recebiam a primeira dura com João Carlos, só para saber como era. Depois ele não perdia tempo com iniciantes, ele jogava pra Nonato. Na musical eu conheci Zé Américo Bastos [multi-instrumentista], Pinheirinho, Chico Pinheiro [clarinetista, ele chama-o inicialmente pelo apelido], Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], tudo tocava na banda na minha época de Escola Técnica. Aí foi, o lance da música começou aí nessa história.
Além de músico você tem outra profissão? Eu fiz a Escola Técnica, fiz o curso de eletromecânica. Ao final do curso técnico eu fiz vestibular para Engenharia Mecânica, na época era a FESMA, Federação das Escolas Superiores do Maranhão. Era lá na UFMA, a UFMA cedia um prédio e a FESMA funcionava lá, engenharia mecânica, civil, agronomia, se não me engano tinha outros cursos. O curso de engenharia mecânica são cinco anos, eu não cheguei a completar. Eu estava no 10º. período eu passei no concurso do Correio, fui fazer um curso em Brasília, passei dois anos em Brasília, [fazendo o] curso superior de Administração Postal, que existia, hoje mudou, mas na época era a Escola Superior de Administração Postal, voltada para a área específica dos Correios. Hoje é o que eu sou, Administrador Postal dos Correios.
Você já tem quanto tempo de Correio? Eu entrei nesse curso em 1979, praticamente 35 anos. Já me aposentei pelo INSS, mas continuo trabalhando.
Como continuou sua trajetória na música até chegar ao bandolim? Aprendi a ler partitura, mas pela circunstância do vestibular eu larguei essa coisa de banda musical. Mas a partitura é fundamental na história. Saí da Escola [Técnica] e entrei na Escola de Engenharia. Lá eu conheci outras figuras importantes na minha vida musical. A primeira, Joãozinho Ribeiro [poeta e compositor], foi meu colega de turma. Teve outras pessoas importantes, Natan Souza, o irmão dele, Naassom Souza, é delegado de polícia hoje, Oder Lima. De outros cursos eu conheci Adelino [Valente, pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014], fazia engenharia civil, era mais adiantado do que eu, já estava quase se formando. Eu entrei na Engenharia em 1975. Em 76 uma tia minha, Lili, viajou de férias para o Rio de Janeiro e de lá ela trouxe um violão de presente por eu ter passado no vestibular [risos]. Até hoje eu lembro a marca desse violão: Rei dos Violões, mas era um violão “peba” [risos]. Foi com esse que eu aprendi tudo, um violão de cordas de aço. Joãozinho já era músico, já tinha suas composições. Ele foi a primeira pessoa a afinar meu violão. Eu sabia ler música, mas não me toquei que eu sabia ler partitura. Joãozinho foi lá em casa, afinou o violão e me deu o conselho: “troca essas cordas, cordas de aço, tem que ser corda de nylon”. Eu ia comprando revistas, chamadas “vigu”, violão e guitarra, de cifra. Eu ia muito para a casa de João, trocar ideia, fazíamos o curso juntos, ele morava no Desterro, um casarão lá. Um dia ele me disse: “rapaz, Jansen, eu vou te dar um negócio que eu tenho guardado há muitos anos, eu estou vendo que tu estás gostando, tu te vira”. Ele foi lá e buscou um método de violão clássico, de um autor chamado Mateo Carcassi. Era uma cópia, até hoje eu tenho, não sei onde está, eu tenho muita coisa guardada. Quando eu folheei me veio a história das partituras. Preciosidade, eu me passei para esse método. Se você sabe ler partitura você não precisa de professor. Os métodos vêm praticamente como uma receita de bolo. Vem até a posição dos dedos da mão esquerda, 1, 2, 3, 4, a posição dos dedos da mão direita, P, I, M, A. Eu devorei o método todinho, nessa época eu já morava no Santa Cruz. Eu me lembro que minha mãe dizia: “menino, tu é só com esse lengo, lengo, lengo, não sai nada, eu não entendo nada do que tu estás fazendo” [risos], até o dia em que eu consegui tocar uma música pra ela, “ah, agora tu sabe tocar”.
E o bandolim? Aprendi a tocar violão erudito, partitura e tal, depois eu fui comprando outros métodos, outras coisas. Aqui em São Luís, na época, era muito difícil. Hoje eu acho até que não, diante da internet, tem tudo, tudo de graça, é muito mais fácil. Eu aprendi violão, fazia engenharia, era professor de matemática e física, ensino médio, ensinava particular, ganhava meu troquinho, comprava meus discos, música clássica, Segovia [Andrés Segovia, violonista espanhol], coisas difíceis de encontrar aqui em São Luís. Comecei a gostar de me envolver com o samba, escutar Martinho da Vila, Paulinho da Viola, o contato com Joãozinho [Ribeiro], Chico Buarque. Na época existiam os acordes naturais, o cara que estava mais desenvolvido só tocava em dissonância, coisas mais elaboradas. Joãozinho já estava nesse nível, ouvia muito Chico Buarque, Bossa Nova. O irmão de Natan [Souza] convivia com a gente, me deu um cavaquinho. Aí, violão clássico, partitura, cavaquinho, Brasileirinho [choro de Waldir Azevedo]. Brasileirinho me abriu as portas. Tinha um programa na TV Educativa, era um noticiário, mas a música de abertura, o pano de fundo, era Brasileirinho. Só que não tocava toda, aquilo me deixava doido. Tinha um ceguinho que tocava isso, na porta da Livraria ABC [hoje extinta], eu dava uma moedinha e o ceguinho tocava. Eu fiquei com esse cavaquinho, tinha que tirar de ouvido a música. Encontrar um disco de Waldir Azevedo, nem se fala, e partitura ainda menos [o bandolinista posa para fotos tocando o instrumento; a sonoridade é elogiada pelo chororrepórter]. Esse bandolim, eu vou te contar a história dele, eu não sei se tu vais conseguir ler aqui [aponta para o interior do instrumento], Tércio Ribeiro. Esse cara é quem faz o bandolim de Hamilton de Holanda. Eu fiz o concurso pro Correio e fui morar em Brasília, dois anos, de 1979 a 81. Coincidentemente Natan e Naassom já tinham ido na frente fazer esse mesmo curso. Natan tocava violão, eu tocava cavaquinho e violão, tinha o movimento do choro, a gente fazia grupo de choro lá em Brasília. Comprei centenas de partituras, centenas de discos, praticamente tudo de Jacob. No último semestre do curso, o cavaquinho não estava mais me satisfazendo, comprei um bandolim. Aí o bandolim entrou na minha vida.
Capa da primeira edição de “O choro”, de Alexandre Gonçalves Pinto. A obra foi relançada pela Funarte em 2009. ReproduçãoReproduzido de pensario.uff.br
Eu gostaria de falar um pouco dessa relação antiga que os Correios têm com o choro. Você meio que recupera isso em sua vida. O Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal, era carteiro, autor de um livro chamado O Choro. Esse livro, se você for pesquisar, praticamente 60% dos músicos eram oriundos dos Correios. Praticamente toda folha que tu abres, fulano de tal, Correios.
Teus pais nunca implicaram com suas escolhas musicais quando você era jovem? Não, por que praticamente a minha carreira fora da música é exemplar. Eu era aluno primeiro lugar no primário, ginásio, no científico [os atuais níveis fundamental e médio]. Não implicaram, passei em vestibular, concurso. A minha parte eu estava fazendo. A música nunca foi profissional, eu nunca levei para o lado profissional.
Se você fosse eleger os seus principais mestres no bandolim, na música, quem figuraria nesta lista? Você tem um pouco de autodidata, mas tem sempre alguém que é uma referência importante, fundante, de nosso aprendizado. Eu reputo Joãozinho Ribeiro como uma pessoa muito importante. Se ele não tivesse afinado meu violão talvez eu tivesse desistido. É também uma questão de ouvir: Jacob [do Bandolim] é fundamental não só para os bandolinistas, mas para qualquer músico. Os músicos que conhecem Jacob se apaixonam. Um rapaz também muito importante foi o Marcelo [Moreira, violonista, fundador do Instrumental Pixinguinha e ex-diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo]. Quando eu voltei de Brasília, eu já tocava, mas queria fazer Escola de Música. Eu ficava um pouco acanhado, a Escola era ali no Monte Castelo, perto do Aldenora Belo [hospital especializado em tratamento de câncer], uma mansão, na frente tinha uma estátua de uma águia. Era Sinhô [João Pedro Borges, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], era Joaquim [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], e eu “aí eu não entro” [risos]. Depois foi lá para a Rua da Saavedra [Centro]. Aí quando eu voltei de Brasília, já era 1983, mais ou menos, eu consegui me matricular e fui estudar com Marcelo. Aí quando eu toquei, Marcelo disse “não, rapaz, eu não tenho nada para te ensinar” [risos]. Eu frequentei diversos semestres e fiz uma amizade muito grande com ele. Marcelo era amigo de Joãozinho, ele soube que eu era amigo de Joãozinho, a amizade cresceu. Inclusive me ajudou a fundar o Instrumental Pixinguinha.
Você nunca viveu de música? Não. Já ganhei algum cachê, até com choro. Tinha um regionalzinho, eu, Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013].
De que grupos musicais você fez parte? Quando eu voltei de Brasília, em 1981, “rapaz, eu tenho que formar um grupo aqui”. Convidei Joãozinho, Natan, Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], tinha um primo meu que tocava pandeiro, já faleceu. “Vamos fundar um grupo de choro”. Não teve nome esse grupo. Nós ensaiávamos no escritório de Natan, ele é engenheiro civil, tinha um escritório no Canto da Fabril, nós ensaiávamos lá. Joãozinho Ribeiro, [violão] seis cordas, Natan, seis cordas, Juca, cavaco, eu, bandolim, e pandeiro. Não deu certo, cada um foi para seu lado, depois eu fundei outro grupo, chamado Alma Brasileira. Era eu, Natan, Fernando Vieira [o falecido violonista Fernando Cafeteira, ex-integrante do Regional Tira-Teima], Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], cavaquinho, e Carbrasa, pandeiro. Com o Alma Brasileira nós chegamos a tocar bastante tempo. Depois se você quiser eu posso mostrar vídeo desse grupo. Depois se desfez. Depois eu fui para a Escola de Música, aí teve o Pixinguinha: eu, Solano, Marcelo, Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Paulinho da Flauta e Carbrasa. Esses eram grupos de choro. Agora eu fiz parte também de grupos de samba. Lá no Correio mesmo eu fundei o Arco Samba, com funcionários do Correio. Eram funcionários do Correio e pessoas que eu convidei. Éramos eu, cavaquinho, Quirino, banjo, Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], diretor da Escola de Música, era regente do coral do Correio, violão, aí tinha Bento, Carbrasa, Josebel, faziam parte desse grupo de samba. Participei também com esse pessoal aí do Remandiola, Força Maior.
Depois você acabou virando uma lenda ao desaparecer do cenário do choro, do samba, musical enfim. O que aconteceu? Na verdade depois do show [o mítico show Homenagem à Velha Guarda, do Instrumental Pixinguinha, no Teatro Arthur Azevedo] eu não toquei mais em público, mas continuo tocando. Em 1990 foi o auge do Instrumental Pixinguinha. Eu achava naquela época que ali era o ponto de partida, dali nós iríamos ganhar o mundo. Depois do show parece que cresceu, ninguém mais queria ensaiar. Marcava ensaio, eu chegava lá, aparecia eu, Solano, Marcelo, dois, três não apareciam. Marcava outro ensaio, a mesma coisa. Aí eu digo, “rapaz, quer saber de uma coisa? Eu tou perdendo meu tempo aqui”. O trabalho todo montado, tudo feito, “eu não preciso disso aqui pra sobreviver”. O meu deleite é só pegar uma partitura, um bandolim e tirar qualquer música. Isso me satisfaz. Tanto que larguei, aí fui entrar nesse negócio de samba. Vamos tocar Fundo de Quintal, Grupo Raça, Roque do Cavaco, de 20 sambas que a gente tocava, tocava um chorinho. Mas eu continuo com a amizade com todas essas pessoas.
E em rodas domésticas? Ah, todo final de semana eu tou na casa desse aqui [aponta para um irmão que acompanhou a entrevista], fazendo um choro, tomando uma cervejinha. Volta e meia Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], que era cavaquinista do Pixinguinha, aparece, Solano tem uns anos que não aparece, mas de vez em quando aparecia. Eu continuo, eu estudo permanentemente.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Desses grupos qual o que você participou por mais tempo? E o mais marcante? O mais marcante foi o Pixinguinha, nós fizemos um trabalho à altura da Camerata Carioca, foi um trabalho naquele nível, música camerística, de arranjo, tudo, um negócio elaborado. Eu sei o que é vivenciar um grupo, sei as dificuldades, os pontos positivos e os pontos negativos. Eu tive a maior alegria no samba.
Além de instrumentista que outras habilidades você desenvolve na música? Eu componho choros, tenho cerca de 12, valsas e choros.
Você já participou de algum disco? Eu gravei, mas não chegou a ser lançado. A minha gravação, o disco saiu. Logo depois desse show do Pixinguinha, Marcelo fez a direção musical de um disco de Rosa Reis. Nesse show a gente tocava uma música de Joãozinho Ribeiro chamada Estrela. Rosa gravou no disco dela e tinha uma participação do bandolim. Eu fui ao estúdio, gravei, o conjunto todo foi gravar. Só que nessa gravação houve um problema técnico. Depois de gravado disseram que o bandolim estava desafinado. Me chamaram para refazer, eu disse “rapaz, eu não vou refazer” [risos]. E recentemente Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] me chamou para participar de um cd que ele está produzindo com músicas autorais. Eu fui lá há uns meses e botei uma parte de bandolim.
O que significa o choro? O que é essa música para você? O choro é a verdadeira música brasileira. A essência da música brasileira é o choro. Você às vezes escuta, ontem mesmo eu estava escutando, me lembrando desse compromisso da entrevista, eu estava escutando Joãozinho tocar uma música dele chamada Saiba, rapaz. Aparentemente se pensa que é um samba, mas na verdade é um choro. Essa gravação que eu estava escutando, é uma gravação feita na TV Educativa, ele, Raul do Cavaco, Mascote [o multi-instrumentista Antonio Sales Sodré] no violão de sete cordas e Jeca no pandeiro. É um choro! Ele fez sem saber que estava fazendo choro. Está na essência do brasileiro.
Você tem acompanhado o desenvolvimento do choro no Brasil? Como você vê as novidades, os novos nomes, os novos estilos? Acompanho, sim. Eu vejo como uma evolução natural. Em 2014 já não se pode mais dizer que Hamilton de Holanda é novidade. Ele já tem quase 30 anos de carreira. Você olha agora, aqui mesmo, Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013] fazendo coisas diferentes, e não são coisas que você não possa considerar como choro. Isso tem que ser compreendido, respeitado e admirado. Eu vejo com bastante satisfação.
Quem são os grandes nomes de destaque, hoje, além de Hamilton? Bandolinista tem o Danilo Brito, velocidade, mas não só, uma velocidade cristalina. Rogério Caetano, violão sete cordas fenomenal. Jorge Cardoso, morou inclusive aqui, trabalhou no Correio, convivi um ano com ele aqui, é um baita bandolinista, fez curso na Itália.
E o choro no Maranhão? Como você avalia, apesar da falta de ensaio [risos]? Eu acho que está um pouco parado, eu não vejo muita coisa, fora o teu programa [o dominical Chorinhos e Chorões, apresentado por Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Assim como o samba, o choro tem essas idas e voltas. O Maranhão tem quatro pessoas que eu reputo como fundamentais: Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], é um cara que praticamente todo mundo passou pelas mãos dele, Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013], Joaquim [Santos] e João Pedro [Borges]. Por coincidência são todos violonistas. Esses caras são fundamentais. Com Ubiratan eu cheguei a fazer um trabalho, Velhos Moleques, Antonio Vieira, Lopes Bogéa, Cristóvão Alô Brasil e Agostinho Reis [compositores]. Ubiratan dirigiu esse show e nós íamos ensaiar na casa de Vieira. Eu participei como bandolinista, Ubiratan escreveu os arranjos. Depois ele me deu os choros que ele tinha na época, eu cheguei a gravar na TVE um choro dele chamado Cabeça de choro.
Você se considera um chorão? Na contracapa do LP Vibrações, assim Jacob fala sobre Dino Sete Cordas: “Não é chorão autêntico porque não chega atrasado, raro beber e adora ensaiar”, então, sob a ótica de Jacob, também não sou um chorão autêntico [risos]. Mas é óbvio que Jacob estava de gozação com Dino, da mesma forma que eu comigo. É claro que me considero um chorão porque vivo, pesquiso, estudo, escuto e pratico essa música há quase 40 anos.
Com roteiro musical baseado nos diversos momentos da festa do Divino Espírito Santo, que tradicionalmente acontece em diversas cidades maranhenses, o show Divinas Folioas será apresentado na próxima sexta-feira (22), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.
As folioas – o dicionário registra o termo “folionas” – que comandarão o espetáculo são Jacy Gomes, Luzia Assunção, Maria Rosa, Rosa Barbosa e Roxa. As direções geral e artística são assinadas por Rosa Reis, que ao lado de Tayse, fará participação especial.
O quinteto de caixeiras será acompanhado por Hugo (violão), Zezé Alves (flauta e direção musical) e Danilo Santos (clarinete). A produção é do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte, de acordo com o material de divulgação recebido por este blogue.
O repertório contempla a abertura da tribuna, buscamento, batizado e levantamento do mastro, dança das caixeiras, alvorada, alvoradinha, Santana, salvas do Divino e outros cânticos tradicionais e o carimbo das caixeiras. Da ficha técnica constam ainda os nomes de Márcio Vasconcelos (fotos e arte), Maurício Vasconcelos (fotos e arte), Tamara Marques (figurino e maquiagem), Cláudio Vasconcelos (cenário) e Oscar Castro (iluminação).
Os ingressos podem ser adquiridos antecipadamente na sede do Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro) ou na bilheteria do teatro, no dia do espetáculo. Custam R$ 30,00 (preço único).
Diretora de Divinas Folioas, a cantora Rosa Reis, respondeu as seguintes perguntas ao blogue.
Desde sua fundação o Laborarte tem tido um papel importante na pesquisa e difusão de manifestações da cultura popular do Maranhão, fazendo jus a seu nome. Divinas Folioas se insere nesta trajetória. Qual o espaço destas manifestações, hoje, em tempos de apelo a uma música de mais fácil consumo pelo mercado, em geral desvinculada de quaisquer tradições? Sim, o Laborarte tem oferecido à população oficinas de toques e cânticos de caixas, contribuindo com a formação de novas caixeiras, e com o conhecimento dos vários momentos da festa do Divino, desde a abertura da tribuna, quando o Espirito Santo desce, até o momento de fechamento e logo a seguir o carimbó das caixeiras. O espaço ainda é a população dos terreiros, dos barracões, dos pesquisadores e estudiosos, do povo que tem fé na terceira pessoa da santíssima trindade. A música ainda está no contexto da religiosidade, mas pode ser trabalhada em vários aspectos. Eu mesmo, no meu trabalho, já gravei músicas do divino com arranjos de guitarra e outros instrumentos.
Qual a importância de um espetáculo como este, no sentido de colaborar para a divulgação e perpetuação das tradições em torno da festa do Divino Espírito Santo? Queremos dar visibilidade ao trabalho das caixeiras com um espetáculo onde o público possa apreciar a individualidade de cada uma, o canto com seus timbres e melodias, os sons percussivos dos tambores, no caso as caixas, com suas variações nos toques e andamentos, e ao mesmo tempo passar informação e conhecimentos sobre o ritual da festa, em que momentos se faz essa cantiga ou aquele toque; e dessa forma contribuir para a divulgação deste rico espetáculo.
Em agosto passado, as caixeiras dialogaram respeitosamente com o jazz da cubana Yillian Canizares, durante seu show em São Luís, na programação do Lençóis Jazz & Blues Festival. O que significou para você ter presenciado e participado daquele momento sublime? Foi uma forma de mostrar a população que a música do Divino é universal, que pode ser tocada com outros instrumentos sem perder a sua essência, a sua sonoridade. Foi um momento mágico e de muita sabedoria da cubana em ter convidado o grupo. Sem preconceitos.
Parceria de Alê Muniz e Luciana Simões com o poeta Celso Borges, São Luís Havana, faixa de Cine Tropical (2009), segundo disco do duo Criolina, resume bem o espírito musical do casal: a ponte cultural entre as ilhas de São Luís e Cuba, citando mestres da música popular daqui e de lá.
Os ventos caribenhos que sopram nesta direção e ajudam a explicar as origens do reggae por estas plagas foram, desde o início, uma marca do som do Criolina, sempre impregnado desta latinidade.
Luciana Simões foi vocalista de banda de reggae, com sucesso nacional; Alê Muniz gravou alguns discos, participou de festivais, compôs em parceria com diversos nomes da cena local; ambos fixaram residência por longa temporada em São Paulo e decidiram voltar ao Maranhão, num ato de resistência, para produzir a partir daqui. Com o BR-135, projeto idealizado e tocado por eles, movimentaram a cena autoral da música produzida hoje no Maranhão, ajudando a revelar novos nomes e revalorizar outros.
“Muita gente pergunta, ainda com aquela ideia de sul maravilha, como uma necessidade indispensável. Por que São Luís? Vocês voltaram por quê? Hoje em dia é bem mais fácil tocar o barco daqui do que em outros tempos. Para quem quer fazer sucesso, não há a necessidade de morar no eixo Rio-São Paulo. Conhecemos vários artistas que conseguiram visibilidade e agenda morando nas suas cidades fora do eixo, como Siba [ex-Mestre Ambrósio], Lirinha [ex-Cordel do Fogo Encantado], artistas de Belém, Recife etc. Existem circuitos de festivais e mostras se consolidando no norte/nordeste e centro-oeste. As distâncias se encurtaram e também tudo depende da sua visão de carreira: artista não é só aquele que estoura, é também aquele que faz parte da trincheira, da resistência”, explica Alê Muniz.
Ele continua: “O fato é que, apesar dos pesares, nesse momento eu prefiro viver em São Luís, mesmo com todos os problemas da cidade. Aqui criamos e desenvolvemos projetos que acreditamos interferir positivamente na construção de uma São Luís que desejamos. A cidade nos inspira. A cultura local, as melodias, os sotaques, os personagens, os ritmos que visitam a nossa cabeça enquanto convivemos com a cidade. Aqui também temos a nossa família, amigos, o que nos alimenta também. É claro que dúvidas pairam sobre a cachola, porque não é tão simples assim; e seria muito sem graça se fosse. Afinal somos uma dupla dinâmica [risos]. Gostamos de aventura. Não é a toa que o Bye Bye Brasil serviu de inspiração para nosso segundo disco, onde percorremos o Brasil profundo de forma alternativa, semelhante à Caravana Rolidei de Cacá Diegues. E explorar o Brasil a partir daqui é muito legal. Às vezes acho que a receita é não ter receita. Sal, pimenta e farinha a gosto!”
Sempre cobrados pelo terceiro disco, o sucessor de Cine Tropical – estrearam com o homônimo Criolina, em 2007 –, eles se preparam para um aperitivo: o EP Latino-americano, que lançam no próximo dia 21 (quinta-feira), às 20h, no Barulhinho Bom (Rua do Giz, 217, Praia Grande). O ingresso (R$ 20,00) dá direito a um EP. Além de pocket show da dupla, haverá discotecagem de Jorge Choairy e os presentes assistirão em primeira mão o videoclipe da faixa-título, produção da Gataria Filmes, dirigido por Tatiana Natsu, que também assina o roteiro, e Diego Carvalho Sá. O clipe foi realizado com recursos obtidos com financiamento coletivo, através de uma campanha virtual.
O crowdfunding vem se consolidando como uma ferramenta interessante de financiamento de obras artísticas, sobretudo musicais, em tempos de mudanças rápidas e radicais na indústria fonográfica e, em sentido diametralmente oposto, do engessamento e estagnação das leis de incentivo. “Achamos incrível testar novos modelos de produção. Acredito que seja uma forma nova de passar o chapéu e uma forma de mobilizar e envolver o público, que sai da posição passiva para a prática concreta de apoio à produção cultural. Nós podemos sentir o sabor de realizar algo financiado diretamente pelo nosso público. E acho que o público também deve sentir o prazer que é contribuir com o que gosta”, opina Luciana.
Indagada sobre as dores e as delícias desses modelos alternativos, a partir da diminuição do espaço das grandes gravadoras, ela também se manifesta, sem esconder suas dúvidas e preocupações. “A música foi a linguagem artística que sofreu mais impacto dos avanços da tecnologia. Passamos de vinil para cd, de cd para download, de download para streaming num piscar de olhos, e acho que muita água ainda vai rolar até os artistas conseguirem monetizar a música através de venda digital ou outro caminho que ainda não conhecemos. As mudanças foram muito bem vindas para a cena independente, mas já evoluímos para um segundo ponto; o processo de gravação não é barato, é mais acessível do que já foi, mas você tem muitas pessoas envolvidas: músicos, estúdio, designer gráfico, fábrica, fotógrafo, técnico de gravação, técnico de mixagem e masterização. E aí o que acontece? Você disponibiliza para download. A conta não fecha. Como o compositor paga as contas? Vivemos um período ainda onde o direito à propriedade intelectual está em xeque”, diz.
Latino-americano inaugura também a parceria da dupla com o cantor e compositor Bruno Batista. “Nos identificamos muito com Bruno, ele compõe muito bem. No segundo semestre do ano passado passamos cinco meses em São Paulo e morávamos no mesmo bairro. Cada dia que a gente se encontrava saía uma ideia, muito bacana. Adoramos nos encontrar e ainda vamos fazer mais coisas juntos”, elogia e promete Luciana.
O EP antecipa um CD cuja previsão de lançamento é agosto que vem. Além da faixa-título e Pra ver se ela gosta, parcerias com Bruno Batista, Latino-americano reinventa covers de Osvaldo Farrés [Quizás] e Reginaldo Rossi [Garçom]. Na bolachinha, a Alê Muniz (guitarra e voz) e Luciana Simões (voz), juntam-se Gerson da Conceição (contrabaixo), João Simas (guitarra), Isaías Alves (bateria) e Marco Stoppa (trompete).
Pergunto o que mais cabe no balaio do duo. “Cabe de tudo!”, vibra Luciana. E continua: “pra gente Maranhão é como o Caribe brasileiro, as conexões que temos com ritmos como merengue, reggae, salsa, causa uma curiosidade. Há uma série de teorias para justificar essa ligação: navios cargueiros que aportavam trazendo a música caribenha, ou as ondas de rádio do Caribe que invadiram a ilha, mas acho que o fato desses ritmos terem caído no gosto popular e até se incorporado como manifestações culturais se deve a nossa herança negra. Mas sim, aproveitamos os ritmos regionais, misturamos a ritmos cubanos, ao ska, ao rock, e ao tropicalismo: isso é bem antropofágico [risos]”.
O flautista e saxofonista Lee Fan foi apresentado ao choro através de um cavaquinho que ganhou de presente de uma tia, professora de música. Na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo ele concluiu os cursos de cavaquinho e flauta transversal. O saxofone foi consequência.
Lee Jun Fan Santos de Sousa herdou o nome de Bruce Lee, astro de filmes de artes marciais de quem seu pai é fã e resolveu batizar o filho, homenageando-o. O menino Lee chegou a enveredar pelas artes (marciais), mas temendo algum acidente com as mãos, optou pelas artes (musicais). Impossível não lembrar os versos de Caetano Veloso, em sua Um índio: “tranquilo e infalível como Bruce Lee”. “Minha vó era índia”, revelou-nos o 39º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão, cujo depoimento foi colhido no pátio comum entre La Pizzeria e a Pousada Portas da Amazônia, na Praia Grande, espaço onde ele mesmo, então um garoto com entre 14 e 15 anos, chegou a tocar, durante a breve temporada em que o espaço abrigou o saudoso projeto Clube do Choro Recebe, de que ele lembra com carinho e saudade.
Lee Fan nasceu em 19 de março de 1993, em São Luís. Desde então mora na Cidade Operária. “Moro com meus pais”, conta o filho de José de Ribamar Ferreira de Sousa, técnico em informática, e Conceição de Maria Matias Santos, ex-cobradora de ônibus, que deixou a função após ser vítima de nove assaltos. “Ela contraiu fibromialgia, não pode mais trabalhar na profissão. Mas sempre foi muito guerreira, não gosta de ficar parada, sempre teve um pulso administrativo muito grande, então montou lá em casa uma lan house, uma xerox, que ela mantém e com que paga nossas contas. Lá em casa todos somos autônomos”, admite o garoto prodígio.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Você está cursando faculdade? Faço Música, sétimo período da Licenciatura na UFMA [Universidade Federal do Maranhão].
Você chegou a procurar outra coisa? Os pais chegaram a recomendar fazer outra coisa por que música não dá futuro ou sempre teve apoio? Graças a Deus, lá em casa eu sempre tive muito apoio. Minha mãe sempre me instigou a estudar o que eu queria. O que ela sempre me diz é que para o bom profissional não falta trabalho. Esse é o lema que a gente carrega. Minha família é de músicos, essa nova geração. Tudo começou com minha tia, Maria Zélia, que é professora da Escola de Música, é minha tia legítima, irmã de minha mãe. Eu sempre tive esse total apoio.
Mas teu pai não quis que você fosse lutador de artes marciais? [Risos]. Na verdade eu cheguei a praticar, eu lutei alguns anos tae-kwon-do, cheguei até a competir, estava tendo um bom desempenho, ganhando medalhas. Só que nessa época, mesmo novo, eu já fui obrigado a tomar uma decisão: ou música ou arte marcial. Eu lutando era um risco grande de machucar minha mão. Como eu já tinha esse foco, de trabalhar com música, eu não quis correr esse risco. Então abri mão da luta.
Além de músico você desenvolve alguma outra atividade para ganhar dinheiro? Ou vive de música? Não. Eu sobrevivo, não é “nossa, como eu ganho dinheiro!”, mas eu ganho dinheiro, procuro rendas em vários ramos da música. Eu não sou um cara que “ah, eu só quero tocar, meu cachê vai ser tudo pra mim”. Não, eu não penso assim, tanto que estou fazendo uma faculdade. Eu dou aulas, trabalho com gravações, além dos shows. A gente tem no Bossa Nossa um pouquinho da parte empresarial, a gente consegue ganhar um pouquinho mais. A gente tenta de todas as formas aumentar a nossa renda trabalhando com o que a gente gosta, sem precisar ir para outros ramos, outras profissões. Eu tento com música pagar as minhas contas, estou conseguindo. Pela faculdade já consegui algumas coisas, já estou dando aula no Sesc [Serviço Social do Comércio] de carteira assinada. A profissão de professor, mais o artista da noite, mais o cara que trabalha com gravação, quer dizer, estou juntando tudo para montar o profissional, o músico.
Para sobreviver de música, figurativamente, tem que rebolar, não é? [Risos]. É, não é fácil. Quem achar que é fácil está enganado. Muita gente, até amigos nossos, colocam a música muito pra baixo, como se fosse uma coisa. Dizem “Deus me livre que meu filho estude música”. Eu já não penso assim. Se quiser estudar música, vou apoiar, vai ser a escolha dele. Lógico que cada escolha é uma renúncia, você vai ter que saber que você vai ter que passar por uma fase que não vai ser fácil, abrir mão de vários finais de semana com sua família, até ter uma situação favorável onde você possa selecionar os trabalhos, mas até aí é uma trajetória que não é fácil, nem pequena. Dependendo do mercado em que você vai trabalhar, se é no Rio de Janeiro, se é no Maranhão, você vai ter que manter uma rotina de estudos de alto nível.
Antes de ingressar na UFMA você estudou na Escola de Música, não é? Sim. Estudei na Escola de Música flauta transversal e cavaquinho. Flauta transversal eu estudei com o professor Paulo Santos, o grande Paulinho, e o cavaquinho eu estudei com o Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], o Emilson Pires [nome de batismo de Juca do Cavaco], e com o João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], sendo que eu entrei na Escola de Música no cavaquinho. Aprendi flauta doce em casa, através de minha tia. Quando eu entrei na Escola de Música eu já tinha um cavaquinho, que ela me presenteou, e eu comecei a estudar cavaquinho. Logo após eu fui para a flauta transversal. Lá na Escola de Música eu vi uma apresentação do grupo Instrumental Pixinguinha, foi quando eu vi pela primeira vez alguém tocando flauta transversal ao vivo, aquilo me encantou muito. No semestre seguinte eu me inscrevi para flauta transversa. A partir de então não parei mais de estudar o instrumento. Até deixei, na verdade, um pouco o cavaquinho de lado para poder me dedicar à flauta transversa.
Você chegou a concluir o curso na Escola de Música? Sim, todos dois. Fiz os 10 períodos.
Além de tua tia Zélia, que com certeza te influenciou bastante, como era o ambiente familiar em relação à música? O que se ouvia? Meus pais gostavam muito de samba. Meu pai sempre ouvia aquelas músicas bem retrô, Alphaville, bem antigas, brega também rolava muito. Eram pessoas que ouviam coisas normais, não era bossa nova, não era jazz, não era blues, não tinha seleção. Minha mãe não tem o perfil de ligar o som para ouvir música. Meu pai, sim, ligava, ficava ouvindo. Eu fui aprendendo ouvindo, hoje eu sei tocar muita música antiga de ouvir quando meu pai ligava e botava para tocar.
Além de flauta e cavaquinho você toca algum outro instrumento? Toco sim. Atualmente os instrumentos a que me dedico são a flauta transversal e saxofone. Por que o saxofone? Eu trabalhei em um grupo chamado Pagode do Ivan. Em vários grupos, mas o Pagode do Ivan foi o principal. Hoje em dia, não só na música, as pessoas têm que ser polivalentes, têm que ser versáteis, na música principalmente. Eu não poderia ficar tocando só a flauta transversal por que o mercado pede que o músico de sopro toque também saxofone. Houve uma tendência para que eu começasse a aprender esse instrumento. Não foi uma obrigação. Eu experimentei, gostei muito e hoje eu me dedico a esses dois instrumentos com o maior prazer.
O cavaquinho está meio largado. Isso! Eu ainda toco cavaquinho. Como eu trabalho com as mãos, a música está direto, todo dia em mim. Quando eu pego o cavaquinho, eu ainda sei tocar as mesmas coisas, eu só não vou pra frente. Mas pra trás, graças a Deus, eu ainda não fui [risos].
A busca pelo saxofone foi autodidata ou você teve professor? Foi autodidata. Eu não fui para um lugar pegar aula, mas eu sempre pesquiso muito, converso muito com quem toca. Quer dizer, eu acabo pegando aulas com várias pessoas, que é uma aula de conversa, não é uma aula de didática, com roteiro. Como eu já tocava flauta, eu tive muita facilidade de migrar para o sax, a digitação é bem parecida, a diferença maior é na embocadura. Quando eu comprei o sax, não sabia nada, fui tocando e metendo a cara.
A escolha dos sopros deve-se à influência de tua tia? Como é que a flauta aconteceu? Não. Ela me deu um cavaquinho. Eu aprendi a tocar flauta doce e tocava até relativamente bem, zerei os métodos todos. Fui pra Escola de Música, estudei cavaquinho e simultaneamente estudava flauta doce. Um dia fui ao [Teatro] Arthur Azevedo e o Pixinguinha era um dos grupos da programação. Se não me engano, era até o João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] que estava tocando, não era o Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] que estava nesse dia. E a música que me marcou muito foi André de sapato novo [de André Victor Correia]. Eu ouvi aquela música, fiquei, “nossa, é isso que eu quero para mim”. No semestre seguinte eu me matriculei, ganhei minha flauta estudante, comecei a estudar. Como minha família é de músicos, desde cedo começou a aparecer trabalho para mim. “Nossa, ele é criança!”, eu comecei a ir juntando uns trocados para comprar essa flauta aqui [aponta para seu instrumento, sobre a mesa], que eu já consegui comprar com os meus trabalhos.
Além do Bossa Nossa e do Pagode do Ivan, de que outros grupos musicais você fez parte? Participei do grupo Vamu di Samba, antes do Pagode do Ivan. Antes do Vamu di Samba eu participei do grupo Som Brasil, só que foi uma passagem rápida. Simultaneamente, nessa época, era até com Rafael Guterres [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], o grupo Som Brasil, lá na Escola a gente tinha uma brincadeira, a gente tocava samba e pagode, que era o grupo Pagodez. Era uma brincadeira, mas foi lá que eu comecei a entender a linguagem do samba, como colocar a flauta no samba. Apesar de ser música brasileira, ser ligado ao choro, a forma como você vai colocar, para não atrapalhar quem está cantando, é uma forma delicada, o chamado contracanto. Lá foi onde eu comecei assim, de fato. Simultaneamente também estava na Segunda sem lei [evento semanal, às segundas-feiras, na Associação Atlética do Banco do Estado do Maranhão, AABEM]. A primeira vez que eu toquei samba foi lá. Lá eu conheci João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], a proposta era de samba, mas como a gente gosta muito de choro, o quanto a gente podia a gente tocava. Lá iam também Wendell Cosme [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], era uma festa muito legal.
E os grupos de choro? Toquei durante algum tempo no Chorando Callado, logo depois da saída do Tiago Silva [clarinetista e saxofonista], ele foi para Manaus. Toquei também algum tempo no Um a Zero, mas já não foi como membro do grupo. Eu substituía João Neto em algumas vezes que ele não podia ir. Em participação eu toquei em quase todos os grupos, o Instrumental Pixinguinha, Urubu Malandro, Os Cinco Companheiros. Eu cheguei a tocar com eles, em várias festas. O que durou mais tempo foi o Chorando Callado.
Atualmente você só integra o Bossa Nossa? Sim, só o Bossa Nossa.
O que significou para você, para os outros membros do Bossa Nossa, participar do Festival de Jazz e Blues de Barreirinhas [o VI Lençóis Jazz e Blues Festival]? Foi um presente! Eu considero. Foi um convite feito pelo [produtor] Tutuca Viana. Como a gente tem uma agenda fixa, ele nos viu tocando em um restaurante, gostou muito e convidou. Nós mesmos nem acreditamos, um festival onde só toca a galera fera, de fora. A gente encarou com muita seriedade e tentamos fazer nosso melhor. Graças a Deus o público gostou muito. Foi realmente um presente e uma honra muito grande, pra gente, poder fazer parte desse evento de grande relevância para o cenário musical do Maranhão e do Brasil.
Tuas primeiras aparições públicas tocando choro foram no Clube do Choro Recebe, no Chico Canhoto. Isso! Lá, inclusive, eu estava substituindo o João Neto. Foi um show com a [cantora] Tássia Campos, outro com Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013] e também com o Um a Zero.
O que significaram aquelas apresentações? Quais as tuas lembranças do período? Aquele palco faz falta para a cena choro de São Luís? Eu tinha acabado de comprar essa flauta, é de prata, é um instrumento para a vida, a gente só faz manutenção. Eu pensava, “agora eu tenho uma flauta bacana, tenho que tocar em lugares melhores, para um público melhor me ver tocando”. O Clube do Choro era um desses locais, eu tinha um sonho, uma vontade grande de tocar. O Clube do Choro do Maranhão está fazendo muita falta. Eu fico triste quando alguns artistas vêm de fora, instrumentistas, principalmente, me perguntam onde está rolando choro aqui na cidade e eu fico sem saber o que responder [os chororrepórteres passam ao músico a agenda do Regional Tira-Teima, que toca às sextas-feiras, a partir das 20h, no Brisamar Hotel]. Atualmente não tem um local onde a galera vá para valorizar essa música. A gente faz uns trabalhos paralelos, toca um pouquinho de choro, mas não é a principal atração. Está fazendo uma falta tremenda!
Além de instrumentista, você desenvolve outras habilidades na música? Estou iniciando esse aprendizado. Para a gente que estuda instrumento de sopro é um desafio estudar harmonia. Para eu compensar essa dificuldade eu procuro entender um pouquinho de teclado, só que eu não digo que eu toco teclado. Eu estudo um pouquinho, como eu posso, quando eu posso. Como eu estudei cavaquinho, tenho uma boa base dos acordes, eu tenho essa vantagem em relação a quem não toca instrumentos harmônicos, quem estudou cedo, na verdade. Quando eu toco, eu já identifico as cores dos acordes, se é um acorde maior, se é um acorde menor, isso fortaleceu muito meu ouvido. Atualmente, estudo de arranjo, eu estudo devagar. Estou iniciando, na verdade, inclusive estou até pegando aula com Robertinho Chinês, que está me ajudando muito. Também já peguei aulas com Israel Dantas [violonista], Moisés Ferreira [guitarrista]. Eu estudo como eu posso.
Você já gravou em discos? Eu tenho muito na área do samba. Gravei o disco do Argumento, do Feijoada Completa. Gravações de músicas com Lena Machado [cantora], que ela faz para participar de projetos, por exemplo o Exposamba. Com Wendell gravei vários, o do Andrezinho Valois, o do grupo Madrilenus, alguns grupos de pagode, grupo Pura Simpatia, grupo Tô Di Mais. Geralmente quando pinta um trabalho para Wendell e tem sopro, a gente tá junto!
Você falou há pouco do impacto que te causou ouvir João Neto tocando André de Sapato Novo no Arthur Azevedo. Que flautistas te chamam a atenção, hoje? Atualmente o Eduardo Neves. É um músico excepcional. Ele mora no Rio de Janeiro. Eu ainda não tive contato com ele. Apesar de ele ser novo, ele não mexe em facebook, então eu ainda não pude trocar uma ideia. Eu ouço muito os discos dele. Como multi-instrumentista, flautista inclusive, tem o Dirceu Leite, me inspira muito. Me vêm logo à mente esses dois caras, até por que estão em atividade. Que já passaram, vamos dizer assim, tem o Altamiro Carrilho, incomparável. Eu ouvia muito os discos dele, tocava junto, foi assim que eu assimilei melhor a linguagem do choro. Ainda ouço, na verdade, os discos do Altamiro Carrilho. Em São Luís, a referência de som é o Paulinho [Santos]. É um cara que, embora não esteja em atividade, tocando por aí, pra mim o som do Paulinho é um som lindo.
Você afirmou que muito provavelmente teus pais vieram a conhecer choro depois que te ouviram tocar. E como é que você conheceu o choro? Já foi na Escola de Música? Como é que foi essa aproximação com esse gênero? O choro eu conheci nas aulas de cavaquinho. Como eu estudava com Juca, o Juca toca muito choro, é um chorão. A primeira música que eu lembro que a gente tocava muito era Feitiço da Vila [de Noel Rosa e Vadico], inclusive essa música me acompanhou durante vários recitais. Não era uma coisa muito programada, era “ah, amanhã tem um recital, vamos lá tocar”, e a gente tocava Feitiço da Vila, Carioquinha [Waldir Azevedo]. Eu comecei com Feitiço da Vila, mas também as músicas do Waldir Azevedo, eu ouvia muito, tocava muito, Flor do cerrado [Waldir Azevedo], Luz e sombra [Waldir Azevedo], todas eu tocava muito e gostava muito, eu pedia pro Juca me ensinar, dava muito certo. Foi assim que eu conheci o choro.
O que significa o choro para você? Qual a importância dessa música? Eu dou graças a Deus por ter conhecido o choro. A música brasileira, as síncopes, todo suingue, toda malícia, tudo aquilo está no choro. O músico que toca choro está apto para tocar toda música brasileira, tirando as regionais, bumba meu boi, maracatu. A bossa, a improvisação, o choro está em tudo. Até para tocar outras músicas de outros países, o jazz, o blues, também me ajudou, na concepção rítmica, principalmente. Como eu participei de grupos de samba, quando eu fiz essa passagem do choro para o samba, eu já estava um passo à frente de muita gente, já tive muita facilidade. Muita gente gosta de mim tocando samba, acho que por isso, por que eu passei pelo choro.
Você escuta muito choro, hoje? Como é tua relação com o consumo de música? Compra discos, baixa na internet? Ainda escuto. Geralmente, não vou mentir, compro discos quando o artista vem e eu tenho oportunidade de comprar dele. Até por que os artistas que eu compro, não vende o disco deles aqui. Como o Dirceu Leite, por exemplo, Toninho Carrasqueira [flautista], nas vezes que ele veio, sempre trouxe um cd diferente, sempre compro. Zé da Velha [trombonista] também, fiz questão de comprar o cd dele. Fora isso eu baixo, ouço muita coisa pelo youtube, até por que hoje, tudo é muito rápido. A galera que toca lança um trabalho no youtube, depois outro, o ciclo vai rodando. Às vezes eu chego a nem conhecer, quando eu chego já passou, aí eu baixo.
Você prefere o choro tradicional ou o moderno, mais inventivo? Eu estou mais ligado nessa vertente mais inventiva, a galera de Brasília que está inovando muito. O choro tradicional eu ouço, eu curto. A gente começa a estudar improvisação, quer improvisar, quer aplicar o que está estudando. O espaço que a gente tem para fazer isso é quando estamos tocando. Temos que ouvir quem está fazendo isso, Eduardo Neves, Hamilton de Holanda [bandolinista] também.
O que significou para você tocar com Zé da Velha e Silvério Pontes [trompetista]? Foi outro presente. Eu achei que não estava preparado. Eu estava tocando muito com o Pagode do Ivan, muita festa. Wendell comentou que tinha um show, falou que era Zé da Velha. Depois ele comentou já faltando uma semana. Ele me mandou o repertório, algumas músicas eu já conhecia, outras não. Eu fui procurar pegar para aprender. Nós fizemos um ensaio sem ele na sexta, o show foi no sábado. Terminou o ensaio, Wendell me ligou dizendo que o show era o lançamento do cd deles [Zé da Velha e Silvério Pontes], ele conseguiu as partituras, João Eudes foi deixar para mim no samba, ele chegou lá duas da manhã, eu estava tocando. Acordei cedaço no dia, fui ler, o show foi mais do que eu esperava. Eu imaginava que eu ia ficar de canto e eles sendo a atração, mas eu acabei ficando lado a lado com os caras. Zé da Velha tocou com Pixinguinha. Rolou espaço para improvisação, foi muito bom. Conversamos depois do show, fiquei feliz por eles terem ficado satisfeitos.
Na sua entrevista à Chorografia do Maranhão, Henrique [Cardoso, violonista, membro do Bossa Nossa, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de agosto de 2014] afirmou que um dos hits do Bossa Nossa é Boi de lágrimas [de Raimundo Makarra]. Em outros estados, por exemplo, Pernambuco, o frevo dialoga diretamente com o choro, no Rio de Janeiro, o choro dialoga com o samba. Aqui, fora algumas iniciativas como o Choro Pungado, ainda percebemos uma timidez de misturar o choro aos ritmos da cultura popular do Maranhão, e parece que vocês estão retomando essa proposta. Você acha que é possível? Esse casamento é legal? A gente tem a prova que é possível. Em nossos shows o Boi de lágrimas é nosso trunfo. A gente toca o Boi de lágrimas quando a gente percebe que não está chamando muito a atenção. “Vamos quebrar o clima!”, aí a gente toca. Todo mundo vira logo pra gente. Isso é em qualquer lugar: no shopping [da Ilha, o Bossa Nossa se apresenta aos sábados, ao meio dia], no Manu [restaurante na avenida dos Holandeses, o grupo se apresenta semanalmente, às quintas e sábados, alternadamente], em um aniversário. Isso é a prova que a música maranhense é muito admirada e tem espaço. Nós aproveitamos o Boi de lágrimas e acabamos tocando outras músicas: Dente de Ouro, do Josias [Sobrinho, compositor], Bela Mocidade [de Donato Alves], o Coxinho [o cantador e compositor Bartolomeu dos Santos] também, “Urrou, urrou” [cantarola trecho do Urro do Boi, de Coxinho, considerada o Hino do Folclore Maranhense] e outras músicas maranhenses, a gente viu que dá certo. Partindo da grande aceitação do público a gente desenvolveu o show Trupiada, todo de repertório de autores maranhenses, que apresentamos recentemente no Sesc Amazônia das Artes, e também no São João, no Arraial Balaio de Sotaques, também do Sesc.
Vocês consideram o Bossa Nossa um grupo de choro? Também. Quando nós estávamos na UFMA já tínhamos muitas reuniões. Dessas reuniões saiu o nome do grupo. Mas ainda não sabíamos o que éramos. Vamos tocar o quê? Vamos tocar onde? Infelizmente não dá para tocar só o que a gente gosta, só choro, se quisermos um trabalho rentável. A gente não toca só choro, não toca só bossa. O que nosso cliente pedir… a gente tenta selecionar as balas de cada gênero, as mais conhecidas do choro, as mais conhecidas da bossa, música internacional. É difícil, mas está dando certo até agora.
Você se considera um chorão? Eu me considero. Se for para vestir a camisa eu visto. É claro que eu toco várias outras coisas, mas eu me considero um chorão, sim. Até por que é minha infância, o choro é minha infância, eu ouvia Waldir Azevedo e Altamiro Carrilho. O choro está na minha infância, eu ficava mudando o cd, um atrás do outro, eu ficava sempre tocando cavaquinho e a flauta também. Meus vizinhos todos me conhecem por isso, eles gostavam também da música, passaram a gostar. Eu me considero um chorão, sim.
“Preto velho, pense merda não, que o mundo já tá cheio, isso não é solução”. Há tempos um refrão não grudava tão fortemente em minha cabeça. É de Queira não, faixa de abertura de Morte e vida (2015), novo da banda Eddie, sexto da carreira, sucessor de Veraneio (2011) – todos os álbuns estão disponíveis para download gratuito no site da banda.
Pergunto a Fábio Trummer, vocalista, guitarrista e letrista da Eddie, qual o lugar e o sentido do álbum físico hoje, quando, sinal dos tempos, os discos podem ser baixados antes de lançados. “O álbum são as musicas, o conjunto, o conceito, a embalagem. É uma forma de termos isso fisicamente, uma sensação de posse deste conceito cantado e tocado pelo Eddie, no caso, mas que ganha sentido na interpretação e apego do público”, comenta.
A banda se completa com Alexandre Urêa (percussão e voz), Andret Oliveira (teclado e trompete), Kiko Meira (bateria) e Rob Meira (contrabaixo). O disco reafirma seu “original Olinda style” – título do segundo álbum, de 2002 – como uma das vozes mais originais surgidas em meio ao manguebeat, o mais recente movimento musical relevante do Brasil – e lá se vão mais de 20 anos –, centrado em Pernambuco, nordeste do país.
Em Morte e vida reaparecem os elementos que caracterizam a banda, presentes desde a estreia, Sonic mambo (1998), o que confere à Eddie já quase 20 anos de carreira, se tomarmos apenas o disco inaugural como marco. Estão lá a denúncia social e a festa, mais o amor – tema constante no novo disco – e o diálogo com a literatura – neste caso, mais explicitamente desde o título, que evoca o clássico Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.
O álbum não é, no entanto, inspirado na obra do poeta pernambucano. “Na verdade isso foi uma coincidência. Apesar de saber do peso do nome, o Morte e vida do álbum veio de um trabalho de mesmo nome dos artistas plásticos Mozart Fernandes e do colombiano Alberto Lizarazo, embora o conceito do Morte e vida Severina se repita aqui no álbum, estes ciclos de morte e vida na existência. O Cabral é uma escola minha”, explica Fábio Trummer.
A propósito, indaguei-lhe sobre a falta de interesse do poeta por música. “O Cabral tinha tanta música nos seus versos que deve ter gasto os ouvidos do homem. Faria coleções de álbuns com os poemas dele”, elogia Trummer.
A faixa-título dialoga diretamente com Buraco de bala, do disco de estreia. “A prova do crime é o corpo/ a prova de Deus/ ao provar a bala, morto/ a prova morreu”, diz a letra de Morte e vida.
Ano passado, o vocalista havia revelado a influência do escritor uruguaio Eduardo Galeano, recém-falecido, e seu As veias abertas da América Latina, em seu projeto solo Super Sub América, em que se aliou com Dieguito Reis (bateria) e Luca Bori (contrabaixo), ambos conterrâneos do Vivendo do Ócio.
Presenças constantes em discos da Eddie, Karina Buhr e Erasto Vasconcelos – irmão de Naná – comparecem: ela canta em Longe de chegar, Pedrada certeira e na faixa-título; ele canta e toca percussão em Alimenta o compositor e toca percussão e assina (em parceria com Trummer, Kiko e Rob Meira) Olho você – inspirado rock que fecha o disco, a poesia da recusa da mulher amada: “lá nos sonhos os sóis são azuis, como um mar, como um céu, como um blues”.
“Ah, eu nunca mais vou esquecer/ aquele beijo foi sensacional/ quando é bom o tempo passa/ mais depressa que a percepção”. Carnaval de bolso, marcha frevada e surfada, exprime a síntese “eddieana”: “um ano inteiro de ressaca/ é hora do juízo final”. É música/álbum para dançar (também), mas pode ser ouvida(o) o ano inteiro.
Francisco Lopes da Costa nasceu em 14 de fevereiro de 1964, num lugarejo, a Fazenda Catanha, entre Santa Inês e Bom Jardim. Filho do agricultor Antonio Costa de Sousa e da doméstica Maria Lopes da Costa, tem 10 irmãos – dois já falecidos –, entre os quais o cantor e compositor Luis Carlos Dias, que lhe ensinou os primeiros acordes.
O França de seu nome artístico é corruptela do nome de batismo: sua mãe o chamava “Franca” e os amigos “França”, sempre diminuindo o Francisco, que acabou virando Chiquinho, um de nossos mais requisitados instrumentistas. “Um guitarrista que toca bandolim”, define-se.
Seus discos estão impregnados de rock, choro e ritmos da cultura popular do Maranhão. O primeiro, descobriu assim que ouviu o clássico The Wall, do Pink Floyd. O choro e o Maranhão estão fundidos em Santa Morena, clássico de Jacob do Bandolim que incluiu um bumba meu boi no arranjo de sua gravação. Seu registro instrumental para Filhos da precisão, de Erasmo Dibell, virou prefixo de programa de rádio – Chiquinho França havia se tornado, ele próprio, uma paixão da infância, quando subia em um muro para captar o sinal de uma rádio brasiliense e ouvir as gravações dOs Incríveis para Czardas – que acabou regravando – e O milionário.
Reprovado na banda de Raimundo Soldado, ele não desistiu da música – sorte a nossa! Sobre estes e outros episódios, Chiquinho França deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 38º. da série, no Bar do Jósimo, na esquina das ruas do Alecrim e Pespontão, no Centro de São Luís – cidade pela qual se apaixonou, de onde nunca mais saiu.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Seu primeiro trabalho foi vendendo bolo? Sim. Mamãe fazia bolos para a gente vender para conseguir a alimentação de casa. Eu comecei a trabalhar com 10 anos de idade. Inclusive nesses trabalhos que eu fazia na rodoviária foi aonde eu me encontrei com o choro. Foi na rodoviária de Santa Inês, ouvindo um ceguinho, chamado Francisco das Chagas, Chaguinhas, que chamavam. Um anão. Ele usava um megafone, esses megafones é que eram a rádio das pequenas cidades. Não tínhamos sinal de televisão nessa época, até os anos 1970. Só pegávamos o sinal da rádio Nacional de Brasília. Era o contato que a gente tinha assim com a música. Na época o choro era um sucesso. É até hoje, mas na época a gente ouvia na programação de rádio.
Como era o ambiente musical em tua casa? O que se ouvia de música lá? Quase nada. Nem rádio a gente tinha. Era tudo no do vizinho. Muita pobreza, pobreza mesmo! Eu me lembro de rádio na minha casa, já fui eu que comprei, um radinho de pilha sem antena, eu tinha que subir no muro do quintal para sintonizar a rádio Nacional para ouvir Czardas [música do violinista e compositor italiano Vittorio Monti] tocada pelos Incríveis [grupo musical da Jovem Guarda] e O milionário [título aportuguesado de The millionaire, música do guitarrista e compositor inglês Mike Maxfield] também pelos Incríveis, eu achava aquele instrumental a coisa mais linda do mundo. Ambas eram prefixo e sufixo de um programa que eu, infelizmente, não recordo mais o nome. Mas eu sabia exatamente o horário em que o programa começava e terminava e eu ia lá para o muro para ouvir. Eu já sabia que eu queria ser músico mesmo, que eu era músico. Eu já tinha certeza disso.
A partir de que momento você teve essa certeza? Desde que eu, criança, ouvia as músicas. Isso me chamava a atenção e me remetia a um êxtase, digamos assim, eu saía dessa vida aqui, me pegava imaginando eu tocando aquele instrumento. Me impressionava muito como eles imprimiam o áudio nos vinis, eu ficava olhando para aquele vinil, tudo isso me causava curiosidade com relação ao áudio, eu tinha muita curiosidade com relação a esse tipo de gravação. Ficava me imaginando ali, sabia comigo que eu tinha que aprender a tocar um instrumento. Até que com 12 anos de idade eu dedilhei um violão que meu irmão Luis Carlos Dias [cantor e compositor] conseguiu emprestado com um amigo e estava lá em cima da cama dele. Foi a primeira vez que eu tive contato com um instrumento. Mas eu já curtia o ceguinho lá na rodoviária.
Ele tocava algum instrumento ou só usava o megafone? Ele tocava cavaquinho numa afinação inventada por ele. Eu não consegui pegar um acorde dele. Ele usava um amplificador delta que era alimentado por umas baterias de carro e um arame amarrado no pescoço [segurando o megafone], que ele cantava, e a esposa dele tocava pandeiro. Não tinha acompanhamento, ele tocava só as melodias, era só ele esse pandeiro. E harmonizava, ele fazia a melodia e dava um acorde, era um som distorcido, a amplificação do som muito ruim. Na rodoviária antiga de Santa Inês, ali na Laranjeira. Quando eu não estava na escola ou vendendo eu estava ali ouvindo-o tocar. Eu jogava a moeda, ele ouvia, eu cansei de ouvi-lo tocar [os choros] Tico-tico no fubá [Zequinha de Abreu], Brasileirinho [Waldir Azevedo], Vê se gostas [Waldir Azevedo e Otaviano Pitanga], Delicado [Waldir Azevedo], enfim, essas músicas, Dilermando Reis [violonista], ele tocava algumas coisas, Waldir Azevedo [cavaquinista] e o próprio Jacob do Bandolim [Jacob Pick Bittencourt, bandolinista]. Esses choros todos ele tocava lá, eu já curtia.
Desse teu encontro com o violão emprestado de Luis Carlos Dias, dali já deslanchou? Não, não. Luis Carlos não deixava eu pegar, eu era muito criança, o violão era dum amigo dele. Ele apareceu tocando [cantarola] “hoje é o dia do Santo Reis” [trecho de A festa do Santo Reis, de Márcio Leonardo, sucesso na voz de Tim Maia], eu decorei esses acordes. Quando ele largou o violão eu percebi que tinha facilidade, ritmo, aptidão para a música. Eu comecei a economizar uns trocados, o violão foi o do Luis Carlos, meses depois ele comprou um violão e fui na sombra dele, aprendendo os primeiros acordes com ele.
Então o violão foi teu primeiro instrumento. Hoje você toca vários. A partir de que momento você passou para outros? O Luis Carlos já entrou numa banda, começou a tocar guitarra. Ele foi sempre me influenciando, eu fui seguindo os passos dele. Eu entrei numa banda de baile, a gente chamava de conjunto, era Chica Cão, ela tocava acordeom, tinha uma banda de forró. A gente passava a noite inteira tocando, eu aprendi os primeiros acordes, ela me ensinou aquela harmona [harmonia], e eu viajava com ela para tocar forró naqueles interiores ali, Alto Alegre, a gente andava de lancha, Rio Pindaré, tocando esses bailes a noite toda, começando de nove até cinco da manhã.
Tocando violão? Tocando já guitarra.
Além de você e Luis Carlos há algum outro músico na família? Meu avô tocava acordeom, mas era só para tomar as pinguinhas dele. Trabalhava na roça, chegava, fazia aquelas melodias de Luiz Gonzaga mais fáceis, só pra curtição mesmo, não foi profissional.
Como foi a reação de teus pais quando você e Luis Carlos começaram a enveredar pelo caminho da música? Foi surpreendente e até inusitada. A coisa que eu tinha mais medo era de falar isso para minha mãe. Eu trabalhava de manhã, vendia leite, bolo, doces na rodoviária, e à tarde eu estudava. E aí surgiu uma oportunidade de viajar para Imperatriz. Eu escutei num parque de diversões na cidade um cara requisitando músicos para formar uma banda em Imperatriz. Aí ele me encontrou: “rapaz, ouvi falar que você toca”, eu já tocava nessa bandazinha pequena de forró.
Você tinha que idade? 14 anos. Aí eu digo: “eu não vou, minha mãe não deixa, eu estudo, e aqui eu ajudo a trabalhar”. E ele: “não, eu falo com tua mãe”. E minha mãe deixou. “Meu filho, olha, se isso for bom pra ti, é isso que você quer, eu já percebi, pode ir. Mas lá arranje um jeito de estudar também”. Aí eu fui dessa forma, parti para Imperatriz, pra começar uma carreira musical mesmo, profissional nessa época.
E como foram as coisas em Imperatriz? Como foi sua inserção? Eu fiquei apenas três meses e voltei. O cara que me levou, me levou para tocar numa cidade do Pará, próximo à Marabá, eu não vou recordar o nome agora, para tocar num cabaré. E não falou pra mim. Eu não me adequei, fiquei com medo, e voltei pra Santa Inês. Fui trabalhar com Raimundo Soldado [cantor e compositor maranhense] em Caxias. Eu fui pro Raimundo Soldado substituir um guitarrista chamado Elias, um monstro de harmonia. E eu, fraco, estava começando. Eu só toquei um baile, fui reprovado. Um cara me chamou, “pô, Chiquinho, os músicos acharam que você tem que estudar mais” e não sei o quê. De lá eu fui tocar nos Jovens, uma banda mais pop. O Raimundo Soldado tocava muito forró, apesar de as músicas dele serem brega, as harmonias que o guitarrista fazia eram uma coisa absurda. Ele agradava muito, foi sucesso nacional. Raimundo Soldado ainda hoje toca em rádio em São Paulo. Ele estourou um disco todinho na [gravadora] Copacabana.
E o que te tirou do forró e do pop? Ainda ali pela rodoviária de Santa Inês tinha uma loja de instrumentos. Naquela época quem fazia sucesso era essa rapaziada aí, [os cantores] José Augusto, Fernando Mendes, Wanderley Cardoso, o próprio Roberto Carlos. A gente ouvia essa música, basicamente. E tinha dois álbuns duplos, empoeirados, mais de dois anos lá encalhados, e eu curioso, fui ouvir, tinha uma vitrola para você ouvir o vinil antes de comprar. Era o The Wall, do Pink Floyd, aquele branco, duplo, e o outro era Minha História, um álbum verde, uma coletânea, de Chico Buarque de Holanda. Eu achei aquilo muito diferente. Aí fui trabalhar para comprar, o cara me vendeu num valor barato, um custo assim, já queria se ver livre, me vendeu duas peças maravilhosas, e achando que estava me enrolando, que estava me vendendo um material de péssima qualidade [risos].
E estava mudando tua vida? Estava me dando caminhos, abrindo portas para eu tocar música de qualidade. Me apresentou o melhor do rock progressivo, que é Pink Floyd, e Chico Buarque de Holanda, que é referência de nossa música popular brasileira.
Se você tivesse que nominar quem você considera teus principais mestres, quem você citaria? São muitos. O ceguinho é o primeiro. Depois eu conheci Armandinho [Macedo, bandolinista] tocando bandolim. Antes de conhecer o trabalho de Jacob do Bandolim eu conheci o Armandinho tocando Jacob do Bandolim, aí foi impactante. A Cor do Som, eu comprava tudo dA Cor do Som, e o outro, Pepeu Gomes [guitarrista], que também toca bandolim. Eu lembro de um pot-pourri que ele começa, já fazia com banda, era tudo muito diferente. É o que eu faço hoje nos meus shows, eu gosto de tocar com banda, e não é inventando, é o que os baianos já faziam, Pepeu e Armandinho. Então, Pepeu Gomes, Armandinho, Robertinho de Recife [guitarrista]. Aí vêm os grandes mestres, Jacob do Bandolim, Pixinguinha, gosto de George Benson [guitarrista], David Gilmour [guitarrista e cantor, vocalista do Pink Floyd]. São meus mestres que me inspiram, minha fonte para a música. Luis Carlos Dias me ensinou os primeiros acordes, mas ele já mudou para Imperatriz e eu fiquei em Santa Inês. Depois eu aprendi, mas ninguém me ensinou: eu aprendi olhando todo mundo tocar.
Depois que você assumiu a música, você trabalhou com outra coisa? É possível viver de música? Só música! Eu sou um operário da música, eu vivo de música. Não é fácil, não. Você tem que ser artista duas vezes. Eu sou produtor, ultimamente meu faturamento é muito mais como produtor que com meus próprios shows, eu faço muito pouco show, toco muito pouco, me apresento pouco por aí.
Mas não por falta de vontade. É por que você vai ficando mais exigente, cada vez mais. Eu dispenso show se não for para fazer com qualidade. Só pelo cachê eu não vou, mesmo às vezes precisando. Por esse respeito, eu tenho muito cuidado com a qualidade, de como eu vou me apresentar. E isso tem imprimido um respeito, eu sinto que eu tenho esse respeito no mercado por conta disso.
São quantos discos gravados até aqui? Cinco cds e um dvd. O primeiro foi um vinil, Novos tempos, o segundo foi o primeiro cd, Em cartaz, o terceiro foi Chiquinho França Instrumental, aquele da capa vermelha que tem os instrumentos na capa, o quarto foi Chiquinho França Instrumental, que eu estou vestido de azul, com uma guitarra branca. Na verdade são quatro cds, os outros dois foram coletâneas, o que tem o dedo assim [faz o gesto de legal, com o polegar erguido] foi o quinto, e o sexto foi o Solos, gravado ao vivo no Teatro [Arthur Azevedo], que é cd e dvd.
E agora saiu esse conjunto bonito. É, agora a gente fez uma nova coletânea [Som do Mará, em cd e dvd]. Eu estava sem disco e fiz aquela coletânea, ficou bem apresentado, gostei do material gráfico.
A partir de quando o bandolim entra na tua vida? Quando eu fui reprovado e dispensado e mandado embora da banda do Raimundo Soldado, quando eu estava saindo com minhas malas, o baterista, que era um cara que ficamos amigos, dormíamos no mesmo quarto, em duas redes, ele conversava comigo e dizia: “rapaz, não desiste, você tem talento, por mim você ficava”. Ele pegou e ligou para seu Cícero, da banda Os Jovens, de Codó, e o cara veio me buscar, eu nem voltei pra Santa Inês, fui direto pra Codó. Lá a recepção foi outra, era uma galera mais jovem, já tocava mais pop, eu já tocava algumas coisas dA Cor do Som. Lá eu me encaixei, fiquei tocando seis meses. E falei pra seu Cícero, que eu gostaria de comprar um bandolim. E ele foi em Teresina e trouxe um bandolim de presente pra mim, um bandolim Trovador. Aí eu não dormi mais, fui estudar bandolim.
Você nasceu em Santa Inês, foi para Imperatriz, depois Codó. Como é que foi até chegar em São Luís? Fui para Imperatriz e formamos a banda Bumbum de Bebê. Era eu, Luis Carlos, eu tocava na Bumbum de Bebê, na parte acústica, bandolim, Luis Carlos, violão, Alfredo Varela, bateria, e Zé Raimundo era o crooner, vocalista. Quando entrava a banda eu tocava contrabaixo e Luis Carlos era guitarrista, ele tinha mais nome, foi o melhor músico, guitarrista e vocalista daquela região na época. Quando nós trocamos o nome para Banda Quatro, aí eu assumi a guitarra e Luis Carlos o contrabaixo. Eu fiz meu primeiro show em Imperatriz, instrumental, e aí percebi a coisa de começar a tocar música instrumental. O primeiro disco, vinil, gravado em Imperatriz, que eu fiz de favor, no estúdio do Carlito Santos, na [rua] Coronel Manoel Bandeira, em Imperatriz, o disco chegou, eu coloquei nas lojas, e eu passava de 30 em 30 dias para pegar a grana, e estavam lá todos os discos [risos]. Rapaz, eu não consegui vender um exemplar nas lojas. Eu já tinha até vergonha, um cara ficava com pena de mim, um dono de loja, “pô, Chiquinho, não vendeu nenhum”. Eu gravei Filhos da precisão, do [cantor e compositor Erasmo] Dibell. Esse vinil veio pra cá pra São Luís e virou tema de abertura do programa MPM, que César Roberto apresenta, ele abria e fechava [o programa Mirante Popular Maranhense] e nas entrevistas tocava Filhos da precisão instrumental.
Foi a primeira gravação de Filhos da precisão? Antes do próprio Dibell? Foi. Foi antes do Dibell gravar. Destacou essa música instrumental, eu fiz um show instrumental, tentei fazer o lançamento desse disco em Imperatriz várias vezes, público nenhum. Eu tentei fazer um show instrumental no Teatro [Ferreira Gullar]. Chico Brasil era gerente do Armazém Paraíba, em Imperatriz. Eu falei “Chico, eu quero fazer um show instrumental no teatro. Tu patrocina?” Ele disse “na hora!”. Ninguém colocava gente naquele teatro, nem Neném Bragança [cantor]. Luís Brasília me deu a mídia na Mirante e aí nós fizemos uma mídia de um concerto instrumental no teatro. Na época a gente cobrava, tipo 10 reais hoje, como se fosse na moeda corrente de hoje, e os shows nacionais lá eram 60. Aí eu puto de raiva cobrei 60 reais, pra ninguém ir mesmo. Meu amigo, venderam todos os ingressos quatro horas da tarde, a 60 reais, e a gente teve que fazer duas sessões. Ganhei dinheiro e fiquei surpreso, uns 30 dias sem entender.
Que ano foi isso? 1983.
Uma coisa que se percebe em teu trabalho é o diálogo permanente entre rock, choro e ritmos da cultura popular do Maranhão. É intencional? Você se sente mais à vontade nesses gêneros? Há quem até me critique, “pô, teu disco não dá para ouvir, vem num estilo, de repente muda, não tem um estilo”. Mas são os estilos que eu gosto. Como é que eu vou fazer? Só se eu fizer discos diferentes. Eu fico com ciúme de fazer um disco só de guitarra e não colocar meu bandolim. É intencional mesmo, é meu estilo, é minha forma de fazer. Já tem pessoas que curtem isso, é interessante, é complicado você querer agradar todo mundo. É o que eu costumo dizer: eu nunca gravo o que eu não gosto. Agora, dentro do repertório que eu gosto, eu tento conciliar com o que meu público curte. Eu sempre escolho meu repertório no palco. Primeiro eu toco, se eu sentir que não houve empatia, eu fico “essa entra, essa não”, é dessa forma que eu monto meu repertório. Tem dado certo.
Além de bandolim, guitarra, baixo e violão, você toca algum outro instrumento? Na verdade eu toco guitarra e bandolim, são meus instrumentos. Nem violão, eu não acho que sou um violonista. Agora no estúdio eu toco até teclado, emendando, né? Mas eu não diria que eu toco. É guitarra e bandolim mesmo.
Algum projeto de disco pensado para breve? Eu sempre estou. Estou com um projeto agora, um trabalho novo, autoral, com ritmos maranhenses. Eu vou pegar, fazer uns dois sotaques de boi, cacuriá, tambor de crioula, pegar isso e transformar numa pegada universal. Pegar células desses ritmos, estou devendo há muito tempo. Era para esse ano, mas eu vou me ocupar, acabei aprovando um projeto na lei [estadual de incentivo à cultura] e consegui captar junto à Cemar [Companhia Energética do Maranhão] e estou trabalhando esse projeto, que é viajar com esse show Som do Mará, só que está indo com outro nome, não vai ser Som do Mará. Esse projeto foi criado para a Vale. O nome ficou Sons e Trilhos, a gente ia fazer o percurso até Parauapebas. Eu vou ficar ocupado com esse projeto até meados de outubro. Então eu não vou ter tempo de fazer esse meu trabalho esse ano, que seria Francisco 5.1, eu estou completando 51 anos de idade e é a sonoridade de dvd.
Fora os teus, que discos têm teus instrumentos na ficha técnica? São muitos, eu não vou lembrar [longa pausa, pensativo]. O Canta Imperatriz [disco com as finalistas de um festival de música da cidade] é um disco que ficou bom, que eu gosto, o projeto Viva 400 Anos [festival realizado em São Luís por ocasião dos 400 anos de sua fundação] tem o dedo da gente, eu assinei a produção daquele trabalho, aquele disco que Augusto [Bastos] produziu, Louvação a São Luís [disco comemorativo dos 390 anos da capital maranhense]. Aí tem os discos de Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], participei, toquei bandolim, [os cantores e compositores] Zeca Tocantins, Neném Bragança, Wilson Zara. São pequenas produções em disco.
Você tem quantas composições? Muito pouco. Acho que umas 40. Mas nenhum choro. É incrível, eu gosto de choro, mas não consigo fazer. Eu tento, mas nem guardo, não gosto. Eu componho na pressão, eu sou um “jingleiro”. Se tu deixar aqui, pode passar à tarde para pegar, mas sou meio preguiçoso para compor. Mas choro eu não consigo.
Com essa tua dificuldade em compor choro, você se considera um chorão? Não, não me considero. Eu sou meio desconfiado. Por que eu não toco choro, aquele choro tradicional, eu não consigo ficar ali, tocar do jeito que é. Eu pego, boto uma correia no bandolim, faço com batera [bateria], contrabaixo, uma coisa mais pop, e já fiquei sabendo que tem chorão que não gosta. Eu acho que eu sou um guitarrista que toca bandolim.
Pra você, o que é o choro? É a nossa música brasileira, é o nosso jazz. Se duvidar, é o jazz mais bonito, mais complicado, mais rico do mundo, se formos colocá-lo no patamar de jazz. O choro normalmente tem três partes. Tem choros que têm três tons diferentes. Se você realmente não for um músico que conheça o choro você não sai tocando choro. Só se já conhecer as melodias e tiver uma noção do que é choro. Pode ser o músico que for, ele se perde, não acompanha. É complicado! O choro é abrangente, é baião, é frevo, é xote.
Ele pode ser bumba meu boi? Pode ser cacuriá? Pode, desde que se tenha a pegada do choro.
Você fez isso bem em Santa Morena [Jacob do Bandolim]. É, coube ali, ficou legal, né?
Lançando seu primeiro disco solo, Passaporte, músico conversou com o Vias de Fato, por ocasião de sua mais recente passagem pela Ilha
Foto: ZR (2/2/2015)
Henrique Menezes veio à São Luís no começo do ano, para participar das festividades de Oxóssi e Iemanjá na Casa Fanti-Ashanti, da qual é primeiro Ogã Alabê Huntó – “maestro da percussão, chefe de batucada, diretor musical da casa”, como ele mesmo explicou. Trazia na bagagem seu primeiro disco solo, assinado com a Banda Bom Q Dói, intitulado Passaporte [independente, 2015, R$ 20,00 na Livraria Poeme-se, Banca do Dácio e Quitanda Rede Mandioca].
É uma das três visitas anuais que faz à terra natal. “Quando eu venho ao Maranhão, eu venho mais para meus compromissos religiosos que profissionais”, diz ele, que aproveita para visitar a família e os amigos. As outras visitas acontecem num canjerê em setembro e no período das festividades de São Pedro (29 de junho), quando costuma ver o encontro dos bois na Igreja do padroeiro dos pescadores, na Madre Deus, e “não perder esse vínculo, recarregar minha bateria, minha essência, tocar um tambor na Madre Deus, aqui no [Tambor de Crioula de Mestre] Amaral, no boi de Maracanã, Santa Fé. Eu venho recarregar minha bateria para poder trabalhar em São Paulo”.
Em meio à alegria de rever parentes e amigos, foi surpreendido pela tristeza da notícia do falecimento de mestre Humberto de Maracanã (2 de novembro de 1939-19 de janeiro de 2015), líder do bumba meu boi e da comunidade que lhe emprestaram o sobrenome artístico, seu colega de Ponto BR, coletivo musical que reúne diversos mestres de cultura popular de Pernambuco e Maranhão.
No dia de Iemanjá, 2 de fevereiro, uma das festas de que ele participaria no terreiro liderado por Pai Euclides – de quem é sobrinho –, ele conversou com a reportagem na Quitanda Rede Mandioca.
Na conversa, ele relembra capítulos importantes de sua vida entre o Maranhão e São Paulo, passando pelos carimbos do Passaporte que dá título a seu disco, sua trajetória musical, o emprego inicial em uma fábrica de brinquedos, sua atuação como arte-educador e sua primeira escola musical, a Casa Fanti-Ashanti, cujas citações são recorrentes ao longo da entrevista.
Passaporte é teu primeiro disco solo? Primeiro disco solo. Outros que eu gravei foram registros do Cacuriá Pé no Terreiro, que eu sou o diretor, nós gravamos há 11 anos, uma perspectiva de grupo, que trabalha a dança, a música e a arte-educação, tudo junto, nesse contexto. Este é um trabalho mais musical, inspirado nos lugares onde fomos passando, os carimbos, cada um conta um pouco de cada lugar, a Casa Fanti-Ashanti, minha primeira escola de música, ouvindo os tambores todos os dias, desde a barriga de mamãe, no ferro [instrumento do tambor de mina], tocando sempre, e dos lugares em que eu fui passando, Rio de Janeiro, Recife, Maracatu Estrela Brilhante, em 2005 eles ganharam o carnaval com uma música que eu fiz para eles, deram uma medalha de honra ao mérito para mim, fizeram homenagem, sempre falam. Essa inspiração de fazer uma música para o Estrela Brilhante, eu fiz uma referência uma ciranda. Tinha um maracatu [no disco]. Esse projeto tinha muitas músicas, nasceu de um projeto, Noites do Maranhão, que eu tenho em São Paulo, todo mês tem uma noite do Maranhão num bairro diferente, já fizemos em praças, Sescs, várias casas de shows. Tinha esse projeto, a gente cantava diversas músicas minhas, de outros amigos maranhenses, de outros lugares também, mas 90% do repertório as músicas eram minhas e aí também tinha um maracatu. Como eles falaram que vão gravar nesse disco agora, eu falei “não vou queimar o cartucho deles”. Eu gravo em outro disco, a ideia é que esse seja só o primeiro [risos].
Já são quantos anos de carreira? Quanto você confere? Qual o marco inicial? Quando é que você percebe que vai trilhar os caminhos da música? Aqui no Maranhão eu já era envolvido com a música, participava de vários grupos, GDAM [Grupo de Dança Afro Malungos, sediado no Parque do Bom Menino], Abibimã, foram grupos afros aí, não fui fundador do CCN [Centro de Cultura Negra do Maranhão, sediado no Barés, João Paulo], mas fui um dos integrantes da época antiga do CCN, Akomabu, Silvia Black, Escrete [compositor], há muitos anos, antes de ir para São Paulo. Agora eu estou com 23 anos de São Paulo. Lá eu comecei a buscar uma coisa mais minha, desenvolver mais meu trabalho como compositor. Antes eu não cantava tanto, eu mais compunha. Cantava no Cupuaçu [grupo de bumba meu boi liderado pelo compositor Tião Carvalho, no Morro do Querosene, em São Paulo; ele participa de Passaporte na faixa Brasa em candeeiro/ Touro da beira do mar], aí eu resolvi botar a carreira como cantor também. Eu era mais compositor que intérprete. Aí resolvi fazer o primeiro show, inventei, um show diferenciado lá em São Paulo, misturava o reggae, o samba, ritmos do Maranhão. Surgiu a primeira banda, Os Caxienses, em homenagem a meu avô, que era chamado seu Caxias, ele veio de lá. Ele colocava quadrilha, a Quadrilha do Oeste, o Rei do Oriente. Em homenagem a ele eu dei esse nome. A gente trabalhava com os ritmos, principalmente o forró.
Isso já era São Paulo. Mais ou menos em que ano? Já era São Paulo. Os Caxienses, entre 1992 e 96.
Você participou de discos de outros artistas, como músico? Sim. Toquei com Rosa Reis [cantora], Tião [Carvalho], Josias [Sobrinho, compositor], nunca gravei, mas toquei com ele, sempre que ele vai à São Paulo, é difícil levar banda inteira, às vezes tocamos eu, Manoel Pacífico [percussionista maranhense radicado em São Paulo]. César Nascimento [cantor e compositor piauiense, radicado no Rio de Janeiro após longa temporada no Maranhão], que não é maranhense, mas é quase, sempre que vai à São Paulo eu faço parte da banda dele. Aí veio a ideia de começar a cantar, cantar minhas músicas mesmo. Eu montei um time, chamei os amigos, Cacau [Amaral, percussionista maranhense radicado no Rio de Janeiro], na época morava em São Paulo.
Você está naquele disco da banda Mafuá, de Tião? Eu gravei, gravei como percussão lá, Estrela miúda, de João do Vale [parceria com Luiz Vieira. Cantarola:] “Estrela miúda, que alumeia o mar”. Fiz os pandeirões junto com Cacau, Nazaré [José de Nazaré, percussionista maranhense].
Participou também do disco da Maria Preá [banda que tem a catarinense Laetícia Madsen como vocalista – ela participa de Passaporte na faixa Coreira de tambor]? É, gravei. [Cantarola:] “lá na mata sabiá cantou”, acho que Papete gravou essa música [no disco Berimbau e percussão], o Ponto do caboclo sete flechas e em outra faixa [Tambor de mina, de domínio público].
Quando você nasceu sua mãe já tinha envolvimento com a Casa Fanti-Ashanti? Desde criança. Tio Euclides fundou a casa acho que em 1950. Desde antes disso, ainda no Gapara, minha vó era uma curandeira, uma dona de terreiro também, dançava também. Tio Euclides foi criado pela minha vó, é neto de dona Romana, é filho de meu avô biológico, seu Caxias. Todos os filhos que eram do meu avô, mesmo não sendo da minha vó biológica, ela os considerava como filhos e eram aceitos na família como parentes. Esse envolvimento dele e mamãe, se criaram juntos, desde pequenos, sempre teve essa cantoria, meu avô tocava violão, meu tio Reinaldo, toca até hoje, mora na Cidade Operária. Quando foram para o Cruzeiro do Anil, Dindinha, que é minha tia, Zezé [Menezes], minha mãe, Graça [Reis], minha tia, foram com ele. Quando surgiu a Casa Fanti-Ashanti no Cruzeiro do Anil elas já faziam parte com ele desde a época do Gapara, o Terreiro do Egito. Ela sempre esteve dentro do terreiro, sempre tiveram contato com essa religiosidade, desde pequenos. E eu já me entendi na Casa Fanti-Ashanti, eu nasci dia 25 de junho [de 1971], minha mãe estava dançando um tambor de crioula quando a bolsa estourou.
Então você já nasceu no meio da roda? [Risos] Já nasci no meio da roda do tambor. A casa já tinha uns 20 e poucos anos, em uma festa de tambor, ela segurou, segurou, a bolsa estourou, depois, “leva, leva pra maternidade”. Eu fui criado dentro da Casa Fanti-Ashanti e no Bairro de Fátima, vivia entre esses dois universos, essas festas que meu avô promovia, quadrilha, festa de Reis, ladainha de Nossa Senhora Santana, ladainha de Santo Antonio. A música sempre esteve muito presente aqui pro lado do Bairro de Fátima, e no Cruzeiro do Anil a percussão, a música, com as doutrinas, os toques. Foram minhas primeiras formações. Quando eu me entendi, com cinco anos de idade, eu fiz minha primeira toada. Minha primeira toada de boi, eu era cantador do boi da casa, mas eu nem imaginava.
Que é aquele Boi de Encantado? É. Tem até num livro de Ferreti [Mundicarmo Ferreti, membro da Comissão Maranhense de Folclore], num dos livros, uma foto minha, pequenininho, com um buchinho, um buchinho de menininho maranhense comedor de farinha, eu com um maracá na mão. [Cantarola a toada:] “o meu nome é Henrique/ eu gosto de cantar boiada/ São João me prometeu/ o meu touro eu almoçar/ ê boi, ê boi, ê boi/ esse ano tu em primeiro lugar”. Foi a primeira toada, ele ouviu e disse: “é, canta essa toada aí no boi”, seu Corre Beira, entidade de tio Euclides, sempre foi o compositor das toadas do Boi de Encantado. Tem uma música de mamãe, Santo Antonio, São João, até A Barca [grupo musical de vigoroso trabalho de pesquisa e mapeamento musical no Brasil, com diversos discos produzidos e gravados] gravou, o Ponto BR também. [Cantarola:] “Santo Antonio me avisou/ São João vai chegar”. Na verdade, essa música da minha mãe foi antes dessa minha, ela compôs quando ela tinha uns 16, quando eu nasci já cantavam. Depois eu me desinteressei do boi, fui ficando mais velho, comecei a participar de outras brincadeiras, não queria mais boi de criança, queria os bois com os adultos, comecei a brincar no Boi de Pindaré, a sede era no Bairro de Fátima, na casa de seu Neuton, ali perto do ponto de ônibus, tocava pandeirão, comecei a me encantar com essa história do boi, de tocar pandeiro, tocar percussão. Aí quando vi Nivô tocar tambor a primeira vez, falei “nossa, o que é isso?” Saí de casa cedo pra ver tambor na rua Dagmar [Desterro], na praça do Mercado. Nivô era um negão, estivador, vozeirão. Aí que eu fui entender, na Casa Fanti-Ashanti tinha, mas eu nunca liguei, não pensava em tambor de crioula como música, pensei “nossa, isso aqui é o caminho”. Me encontrei, já peguei o meião, o crivador, com o tempo fui para o tambor grande. Quando eu já sabia tocar, fui para uma festa, entrei para tocar, ele ficou olhando, não reclamou de nada, aí pensei “eu tou apto para continuar”, fiquei fazendo parte do grupo da casa, depois Tambor de Taboca, é exatamente a mesma marcação, as mesmas frases do tambor de couro, só que tocado na taboca.
Foto: ZR (2/2/2015)
O que te levou para São Paulo? A curiosidade de conhecer a cidade, na verdade. Eu ia para São Paulo dois meses garantidos, final de novembro, dezembro e janeiro, e voltava para o carnaval. Eu iria para trabalhar numa fábrica de brinquedos. Minha tia Graça já morava em São Paulo uns oito anos antes de mim. Tinha um amigo dela que tinha uma fábrica de brinquedos e eles entregavam a cidade toda. Aí me arrumaram um trabalho daqueles temporários, final de ano, eu ia trabalhar de caminhão, fazer as entregas, conhecer a cidade, que era o que eu mais queria, só conhecia por fotos, levantava um dinheirinho e voltava para o carnaval. Só que quando chegou lá mudou toda a história. Eu cheguei, nem fui mais trabalhar com o caminhão, encontrei aquelas máquinas todas, me encantei, aquele barulho de máquina, aquele universo cibernético de cidade grande, “nossa, que coisa linda!”. Um dia eu me cheguei, o dono da fábrica estava viajando, montei um painel de ferramentas, ficavam todas jogadas, eu organizei na parede, o encarregado veio, [simula um diálogo] “quem fez isso?” O pessoal, “ah, foi o menino do Maranhão”, “chama ele aqui”, “foi você que fez isso aqui? Quem mandou?”, “ninguém mandou, eu tava aqui de bobeira”, vi as coisas lá, furei um madeirite na parede, pendurei martelo, chave de boca, tinha chave que eu nem conhecia. Ele: “rapaz, quer trabalhar comigo?”, “quero!”, adorei, ele viu meu esforço, me indicou fazer um curso, faziam capacitação para quem queria trabalhar nessa área, técnico, plástico, trabalhei três anos nessa fábrica, aí aconteceu um acidente, quase perdi minha mão [exibe as cicatrizes nos dedos], mexia na parte mecânica, eu me desgostei, perdi o encanto. Eu gostava, fazia brinquedos, sempre tive essa coisa com criança, trabalhava como monitor em Centro Comunitário. Aquele brinquedo chegaria na mão de alguma criança, em algum lugar, uma criança que não tinha muita grana, não eram brinquedos caros, botão, boliche, bola. Pra mim era uma satisfação saber que uma criança ia pegar aquele brinquedo. Depois que aconteceu isso eu me desencantei, pedi as contas, não queriam dar, arrumei confusão, até que uma gerente me mandou embora. “O que eu vou fazer da vida agora?” Eu já conhecia Tião, o Morro do Querosene, e conheci a Conceição Acioli, uma teatróloga pernambucana, diretora de teatro. Xavier Negreiros [percussionista e compositor maranhense] tocava com ela num espetáculo, aí ele teve um problema, veio embora para São Luís. E ela, “poxa, estou precisando de um percussionista para tocar”.
Você lembra qual era o espetáculo? Um espetáculo chamado Tomara que não chova, dela mesmo. Aí eu fiz parte da companhia dela, que na verdade, eram ela e Xavier, e eu o substituí. Nós ficamos com o espetáculo em turnê, e ela, “não vai mais trabalhar com nada não”, por que eu fazia vários bicos, você sabe que maranhense que se preza não gosta de ficar parado mesmo. Aí ela, “você tem que ser músico, tem que ser artista”, me deu a maior força, me apresentou para várias pessoas. Entre as pessoas a quem ela me apresentou estão o Zé Celso [Martinez Correa, dramaturgo], do Teatro Oficina, Auri Porto, ele também tinha um espetáculo paralelo ao Oficina, ele saiu há pouco, está com a própria companhia dele. Aí ele me chamou para fazer parte de um espetáculo chamado Bacantes.
Como músico? Como músico. Na verdade, eu mostrei a história do universo do tambor de crioula e eles viram aquilo no espetáculo, tinha uma cena em que tinha o tambor de crioula, o povo dançando. Disso o Zé me chamou para fazer parte do elenco, fiz alguns personagens, um sertanejo, contracenei com alguns atores, fazendo embolador, mas eu nunca quis ser ator, nunca tive essa coisa, esse domínio, interpretar, meu negócio era tocar. Eu fiquei mais ou menos um ano e meio no Oficina.
Isso já era que ano? Isso por volta de 1998, 99, mais ou menos. O da Conceição foi antes, 97, um ano antes, mais ou menos. Depois disso eu fiquei sendo músico oficial do grupo dela e começamos a montar vários espetáculos. Chamei a Graça, minha tia, que mora lá, nós fundamos a Companhia das Mães. Era um projeto dos músicos e cinco mães de alunos de escola pública, que fizeram parte como atrizes. Ela fez toda a capacitação dessas mães, que eram pessoas de comunidades bem carentes, nunca tinham acesso a essa coisa da arte. Com esse espetáculo nós ficamos quase uns 10 anos, até que a Conceição teve um ataque cardíaco e partiu [a atriz faleceu em 2005]. Paralelo a isso, tínhamos a Companhia Lampião no Céu, que encenava o espetáculo Lampião no Céu, com o Auri Porto. Esse espetáculo, nós éramos parceiros do Teatro Oficina, ensaiávamos lá e fazíamos o espetáculo em comunidades, era o projeto Arte na Rua, um projeto da Prefeitura, a gente fazia o espetáculo nas escolas, creches, centros educacionais. Isso me levou um tanto para essa parte de arte-educador. Hoje em dia em São Paulo eu trabalho muito dando aula, música, percussão. Uma das ongs é a Associação Pela Família, tem 56 anos de existência, é uma das mais antigas do Brasil. E voltando ao assunto do Lampião no Céu, o Teatro Oficina, quando eles montaram O Sertão, o Zé me chamou novamente, precisava fazer a história dum boi, dentro da história do Euclides [da Cunha, escritor], de Os Sertões [livro que inspirou o espetáculo de José Celso Martinez Correa], a primeira montagem, que foi A Terra [uma das partes do livro], tinha uma história que falava do bumba meu boi, e a história de Canudos também. São cinco partes, A Terra, O Homem I e O Homem II, A Luta I e A Luta II, são cinco espetáculos que ele extraiu do livro. Na íntegra, quando foi a primeira montagem, acho que eram quatro horas e meia, A Terra, O Homem I, três horas e meia, o espetáculo precisava de cinco dias para ser montado. Eu não sei nem como aquilo cabia na cabeça do Zé, de tanta informação, de tanto texto, de cada pessoa, de cada personagem. Mas enfim, o Zé é um homem muito sábio, muito organizado.
Voltando à música, você também participou dos dois discos do Grupo Cupuaçu. Eu sempre fiz parte, um grupo dedicado aos ritmos maranhenses. Eu estou nos dois, nesse último agora [Todo canto dança, de 2008] não só como músico, mas como compositor e como intérprete. Tem sete músicas minhas gravadas naquele cd, algumas eu interpreto, outras a Ana [Maria Carvalho, irmã de Tião Carvalho, cantora], tia Graça canta uma também. No outro, o primeiro, Toadas de bumba meu boi [1999], eu participei como cantor e como ritmista, percussionista. Em seguida vieram outros projetos, foi quando A Barca apareceu e nós fizemos a história dA Barca com o Baião de Princesas, da Casa Fanti-Ashanti. Entre essas brechas eu montei o segundo trabalho meu, que chamava Comigo Ninguém Pode, o nome da banda. Foi um laboratório, um pouco do que surgiu hoje no disco. Muitas das músicas que eu cantava com a Comigo Ninguém Pode, algumas delas eu coloquei aqui, tem algumas novas que eu fiz especificamente para o Passaporte, mas algumas eu já cantava com essa outra banda.
A Comigo Ninguém Pode chegou a gravar disco? Só o demo. Não fizemos lançamento, nem gravamos oficialmente. Tinha cinco músicas, a gente distribuía para fechar shows, chegamos a tocar para Prefeitura, Sesc, lá em São Paulo. Quando a gente separou, Cacau foi embora para o Rio de Janeiro, Ataliba foi embora para Bragança, Renatinho voltou para morar com a mãe em Santos, ficamos só eu e Téo [Menezes], meu primo, baterista, percussionista, já me acompanha há algum tempo. Aí resolvemos montar a Bom Q Dói. Aí veio o Ricardo [Perito], que toca violão e cavaco, o Cesinha [César Azevedo], toca percussão, Téo, eu, Maurício, o Mau, que é um baixista, por último o Gerson da Conceição [multi-instrumentista], para engrossar mais o caldo, toca guitarra, violão, às vezes faz o contrabaixo, por que o Mau também toca violão e contrabaixo, então eles invertem, um faz baixo, o outro, violão. Já faz quatro anos que a gente faz as Noites do Maranhão, só que a gente não faz mais muito em casas noturnas, a gente tem tocado menos, mas feito shows com mais qualidade de palco, estrutura, som. Aí veio a ideia de registrar esse cd. Tem o Bruno Buarque [baterista], que é o dono do estúdio, toca com a Céu [cantora], eu mostrei o repertório para ele, tinha feito uma pré-produção em casa, no meu computadorzinho mesmo, e ele “bicho, vamos gravar isso”. Fizemos uma parceria. Eu não tinha dinheiro, tentei editais, não consegui, juntamos alguns cachês da banda, um tanto de dinheiro meu que eu investi, aí encaramos fazer.
O financiamento do disco é todo do bolso? É, todo do bolso. E a parceria de amigos. É uma produção dependente, como eu digo: depende de um, depende de outro. É dependente [risos].
Sua fonte de renda hoje é música? Graças a Deus. Dando aula e tocando, ministrando oficinas. Eu trabalho não só com a música show, espetáculo, mas a música como aprendizado. Eu dou aula em três locais, em comunidades, lá no Francisco Morato, no Centro de Convivência Gracinha, são crianças de vulnerabilidade, baixa renda, que vivem em área de risco, da Favela Jaqueline, Taboão da Serra, são atendidas essas crianças.
Você mora onde, em São Paulo? Eu moro no Butantã, do ladinho do morro. Eu morava dentro do morro, mas foi ficando muito caro, aí eu consegui comprar um apartamentinho há três quadras do morro, na Praça Elis Regina, eu vou até começar uma história lá, a Festa de Terreiro. O terreiro eu vejo como tudo, o terreiro do quintal, o terreiro de mina, o terreiro onde as pessoas se encontram para brincar o boi, o terreiro onde se toca o tambor de crioula. Então, na verdade, a ideia é que tenha várias coisas, vamos fazer parcerias, criar um movimento cultural lá nessa praça.
E os selos nesse Passaporte? Cada selo desses representa uma música. A do Morro do Querosene representa a praça onde acontece a festa. A alfaia, de Pernambuco, representa o Maracatu Estrela Brilhante; é o grupo que canta minhas músicas, sempre exalta meu nome, eu faço parceria com eles, vou para lá, sou sempre muito bem recebido. Na Pavuna, onde tem os gêmeos, Rômulo e Ramon, tem o grupo Mariocas, também cantam músicas minhas, a gente tem essa parceria, eles vêm para São Paulo, eu vou para o Rio de Janeiro. A Lapa, foi o primeiro lugar em que eu me encontrei no Rio de Janeiro, foi onde eu encontrei minha filha quando ela tinha 13 anos de idade, eu descobri que tinha essa filha. O Cruzeiro do Anil é exatamente o símbolo da Casa Fanti-Ashanti, onde foi minha escola de música. A Madre Deus, um dos bois, boi de matraca, antes de ir para o Maracanã, tocar no Boi de Maracanã, tem uma história muito presente. Foi um bairro em que eu fiz muitos amigos, músicos, nem dá para citar nomes, que moram na Madre Deus, ou que já moraram. São Gonçalo, na verdade, vem de uma homenagem ao santo, tem no Rio de Janeiro, onde descobri o violão como instrumento, e aproveitando o São Gonçalo, tinha um baile de São Gonçalo lá em casa, depois que meu avô morreu acabou essa manifestação lá em casa. O baile de São Gonçalo foi o primeiro lugar onde eu comecei a tocar meu violão assim, descobrindo-o como instrumento. O Ribamar vem de uma música que eu comecei a fazer em [São José de] Ribamar, uma homenagem a Maria Grande, uma coreira da Casa Fanti-Ashanti, muito antiga, já faleceu também. Cada carimbo… a Vila Madalena foi onde a banda teve a primeira vitrine, assim em quantidade de público, um bairro boêmio onde a gente circulou, e ainda toca. Os selos têm esses significados.
A gente ouvindo o disco, percebe, no repertório, que essa tua passagem por diversos locais do Brasil não deixa de estar sempre impregnada de uma coisa de Maranhão. Você faz ciranda com um pé na mina, um coco com o pé no tambor de crioula, sempre misturando. Batuque de umbigada junto com o candomblé que sai da Casa Fanti-Ashanti. Na verdade esse passeio é para mostrar que o meu passaporte é maranhense. Por que me veio a ideia do passaporte? O passaporte é um documento, de autenticidade, você mostra de onde você veio, por onde passou, e te dá a liberdade de entrar. O que a gente quer? O que eu quero, que essa minha música, nossa, com a banda, mesmo que eu faça com outra banda, um artista nunca está sozinho, há sempre pessoas em volta. Com nosso passaporte a gente quer entrar. Onde? A gente quer entrar nas praças, nas rádios, nas televisões, nas casas das pessoas, na memória das pessoas. A ideia é de ser nosso documento de identidade artística. De onde vem? A identidade minha vem do Maranhão. Como eu sou a liderança do grupo, eu sou o produtor praticamente de tudo, sou eu que agencio, ainda não tem uma produção que diga “olha, você faz só o show e a gente corre atrás do resto”. Eu acho importante, o artista tem que passear por todos estes universos, saber como se conversa, com quem, buscar os apoios, por que ele fala da verdade dele. A gente não tem dinheiro, está buscando esse apoio, não tem assessoria de imprensa, queremos o apoio de parceiros, de amigos, que façam parte desse Passaporte, que faça parte dessa história, daqui pra frente. A ideia é essa. Do povo que está na banda, os que não são maranhenses, têm uma loucura pelo Maranhão. Quando eu mostrei essa ideia, todos eles abraçaram a causa. O Mau veio pra cá fazer show comigo, no período junino, enlouqueceu. É paulistano, mas tem uma loucura pelo Maranhão.
Você nunca foi atingido por aquele desespero, “vou voltar, que aqui não dá mais”? Já teve esse momento. Quando a Conceição faleceu foi um momento, a Companhia, nós prestamos serviço 10 anos pela Natura. Trabalhávamos de 15 em 15 dias pela Natura. Dois espetáculos pela manhã, dois espetáculos à tarde. Dali a 15 dias íamos para outra cidade, aquilo era uma estabilidade financeira, já garantia, eu dava poucas aulas, duas pela manhã, uma à tarde, uma vez por semana. Depois surgiu um grupo de dança, entrou a história do boi. Em São Paulo, quando tem alguma coisa de boi, tambor de crioula, as manifestações artísticas, ou chamam Tião ou chamam eu. Quando eles começaram esse projeto do Maranhão me chamaram para uma capacitação com as crianças, mas não era um emprego fixo. Em 2003 ou 2004 me efetivaram como funcionário para dar aulas a todas as turmas da instituição, atendendo crianças de oito a 16 anos. Aos 17 eles são encaminhados para outra instituição. O Gracinha trabalha com o horário inverso ao da escola, quem estuda de manhã participa de tarde e vice-versa. A música demorou a ser inserida, mas hoje em dia é o que tem o maior percentual de atividades na casa. A percussão hoje em dia faz parte da grade curricular.
Esses alunos que fazem música, qual o perfil? São crianças da periferia, crianças de baixa renda. A instituição, a Associação Pela Família, só trabalha com crianças que vivem em área de vulnerabilidade. A maior parte com envolvimento com drogas, crianças que foram abandonadas em abrigos. São atendidas por volta de 190 crianças, todo um trabalho pedagógico, a diretora tem uma cabeça muito aberta e os resultados estão para além do artístico, de comportamento, uns vão para outras áreas, mas muitos viram educadores.
À distância em São Paulo, como você faz para manter o vínculo com a Casa Fanti-Ashanti? Eu acendo minhas velinhas, minhas coisas, e por isso eu venho para cá, recarregar minha bateria, não só na música, mas principalmente minha bateria espiritual, vir ao terreiro, tocar para os orixás, cantar, fazer parte dos rituais. Essa é a principal energia que eu venho buscar. É como se fosse meu carregador de energia vital. Essa é minha busca. Se ficar muito tempo fora, você fica carente, mais fraco, voltando você vai recarregando esse ciclo. Meu sonho de consumo é equilibrar, seis meses aqui e seis meses lá, não direto, um aqui, dois lá, dois aqui, um lá. Se isso for possível através da música, vai ser minha realização como artista. Nunca sonhei em ser o mega-famoso de não poder parar nos botecos e tomar uma cerveja. É legal, bom ser reconhecido, mas não quero não ter a liberdade. Quero ser reconhecido, mas não precisa ser tanto [risos]. Quero continuar tendo a liberdade de brincar, tambor de crioula, bloco tradicional, ir para a Madre Deus, essa é a vantagem de não ser tão famoso. Eu quero estar no meio do povo, nasci do povo, sou povo, gosto de estar nessa folia. Você olha no olho das pessoas, se emociona ao ouvir uma toada.
O que significou para você integrar o Ponto BR e em especial ter dividido disco e palcos com tua mãe e com o saudoso Mestre Humberto de Maracanã? O Ponto BR foi um presente. A Renata [Amaral, contrabaixista e produtora] é uma pessoa muito talentosa, muito especial, muito sensível. Uma mulher de um olhar muito para o futuro, batalhadora, guerreira. Quando ela me chamou para a primeira montagem, foi por que exatamente ela sentia essa ligação entre o Maranhão e Pernambuco. A minha maior felicidade de estar dividindo, dividindo não, somando, com a minha mãe, primeiro ter a minha mãe como uma das grandes artistas do Maranhão, compositora, uma intérprete maravilhosa, canta lindamente bem, não é por que é minha mãe, mas eu me emociono ao ouvi-la cantar. Então, estar no palco, um momento que eu amo na minha vida, poder estar partilhando com ela, é uma satisfação impagável. Não dá para explicar. Eu sou tão fã, só ela estar junto já é um prazer, ela ser minha mãe, é um orgulho. Mestre Humberto, a oportunidade de poder trabalhar e tocar com ele, foi um dos meus mestres, eu tenho alguns que digo e assumo, Pai Euclides, Humberto, Dindinha, meu avô, minha vó, Nivô, Mestre Felipe. Eu sempre sonhei em ser mestre de tradição, nunca sonhei em ser músico. Essas pessoas sempre agregam pessoas, são sábias, são queridas, são pessoas especiais, é um dom. Sempre fui apaixonado por Humberto, cantando, compondo as músicas dele, eu canto até hoje, faço releituras. Tê-lo no palco, não só no palco, mas conviver, geralmente a gente dividia o quarto, a gente tinha um convívio, era como um pai para mim. Eu nunca tive muito contato com meu pai biológico, nós nos afastamos quando eu tinha oito, 10 anos de idade. Ter o prazer de estar junto de Humberto, ouvir as coisas que ele contava, as brincadeiras, a sabedoria, o jeito de falar da comunidade, do boi, dessa devoção, esse compromisso, abdicar de várias coisas para vivenciar isso, para ser o Mestre Humberto, aquilo era [uma recompensa] maior que meu cachê, maior que a repercussão que o Ponto BR trouxe para mim, poder viver com ele junto, mais próximos, saíamos, almoçávamos, ele contando das dificuldades, das realizações, dos sonhos, de uma instituição como o Maracanã, não só o boi, mas a comunidade, era um homem querido por toda a comunidade do Maracanã. Mesmo os evangélicos tinham um respeito por ele, pela sabedoria. Pai de muitos filhos, criador de muitas histórias. No começo, eu ficava, “nossa, eu não estou acreditando”, eu não acreditava, até me arrepio [mostra o braço arrepiado]. Saudade, né? Hoje em dia é saudade. Felizmente ou infelizmente eu estava aqui nessa passagem dele. Não tive tempo de mostrar o disco, mostrei algumas músicas, antes, tem um agradecimento para ele, por tudo. Sempre me ensinou, sempre foi um exemplo. Essa pessoa que ele é, e vai ser para sempre, é algo que eu vou sempre entender como a maior paga da minha vida, sempre me ajudando a crescer, eu vou na carona, [esses mestres] são pessoas iluminadas. No enterro dele eu fiz uma toada, mas nem consegui cantar. Mostrei para Ribinha [filho de Humberto].
Passaporte. Capa. Reprodução
FAIXA A FAIXA
Músico comenta as faixas de Passaporte, todas de sua autoria
Minha vaqueirada – Toada de bumba meu boi da Baixada, com arranjo um pouco mais moderno, tem saxofone, guitarra, violão. Uma leitura mais sofisticada, onde eu quis fazer uma homenagem a todos os bois da baixada, Santa Fé, Pindaré, Penalva, seu Apolônio. Representa o guarnicê, juntar para começar o show. É a toada que abre a nossa história.
Sensações – É um bloco tradicional, eu fiz inspirado no ritmo do bloco tradicional. Fala um pouco dessa história do carnaval maranhense. Retrata as sensações que eu sinto quando entro no mar. A lua é minha madrinha, o mar é meu padrinho. Desde criança eu fui dado como afilhado deles. As sensações que eu sinto quando entro no mar, liberdade. É um ritmo maravilhoso, pouco conhecido no Brasil, pela beleza, o próprio suingue da música, balançado dos contratempos, ritinta, agogô, cabaça, passeia um pouco por lembrar o carnaval maranhense e exaltar esse ritmo pouco explorado pela música dos compositores maranhenses.
Coreira de tambor – Foi a música que eu fiz para dona Maria Grande, exalta a beleza que o tambor de crioula tem, é um dos ritmos mais complexos do mundo. Onde eu passo fazendo oficina, até para músicos supercultos, se perdem nesse universo, de música diferente, que precisa ser mostrado. Essa poesia é inspirada na coreira, essa relação entre a coreira e o tocador, o tocador e o povo, a música e essa junção de gente em volta e a beleza que é a roda de tambor de crioula.
Coco de Ainé – É um pouco Pernambuco e um pouco maranhense. É para mostrar que o coco não é só pernambucano, não é só alagoano, não é só maranhense: o coco é do Brasil. Eu faço uma mistura desses dois ritmos, juntando Pernambuco com o Maranhão, e a beleza da brincadeira do coco, dançar, quebrar o coco, muita gente nem sabe, e falo dos cocos que existem, coco pirinã, coco de anajá, coco de embolada, exaltar um pouco da história dos brincantes do Brasil, os trabalhadores que utilizavam o coco para se divertir enquanto trabalhavam, um pouco de alegria na lida do trabalho braçal.
Estrela de Davi – É uma coisa do coração, uma homenagem que fiz para minha esposa, Natália. A história da lua, quando ela está só aquele sorriso, e tem aquela estrela embaixo, a lua nova e a estrela de Davi. Ela é a lua e eu sou a estrela, é um reflexo de nós dois.
Rio 3×4 – Foi a música que eu fiz em homenagem a minha filha, quando a encontrei. Demorei muito para descobri-la, rodei muito, passei por muitos lugares, Pavuna, Recreio, Iguaçu.
Brisa de mulher – Foi inspirada no reggae. É algo que sempre foi muito presente para mim, aqui no Maranhão. Sentia uma brisa, o cheiro de uma moça, mas exaltando o reggae, o regueiro que ia curtir reggae, Retiro Natal, Pop Som, Espaço Aberto, Toque de Amor [clubes de reggae em São Luís], exaltar um pouco do que eu vivenciei em termos de reggae.
São Jorge na Lua – Veio um pouco de minha influência mais pop, mais paulistana, eu comecei a descobrir esse ritmo, rock, mais moderno. É algo para mostrar que eu não sou apenas manifestação tradicional, mas eu também passeio por outros universos musicais.
Na roseira – Vem exatamente da minha primeira matriz, a Casa Fanti-Ashanti. Essa música eu fiz em homenagem a um caboclo da Casa Fanti-Ashanti, o Caboclo da Mata Linheiro, eu fiz essa doutrina do tambor de mina e coloquei a citação de um trecho da doutrina dele. [Cantarola:] “fala caboclo, caboclo guerreiro/ fala caboclo da Mata Linheiro”.
Caminho de pescador – É uma homenagem a minha mãe e minha avó, minha mãe Zezé e minha vó Iemanjá. Esse carinho que minha mãe tem, essa vivência, esse amor por essa entidade. Inspirado nisso eu fiz essa música para exaltar minha vó Iemanjá.
Por trás da serra – É uma homenagem a mestre Humberto de Maracanã. É uma toada de boi da ilha, sou praticamente só eu, toco todas as percussões, violão, e chamei o meu amigo Fabio Leão, que faz o violoncelo. É lembrando o universo de melodias, eu me inspiro no jeito dele compor, as melodias, a poesia. [Cantarola:] “Passarinho cantando na estrada/ anuncia o alvorecer”, ele é o passarinho dessa música.
Brasa em candeeiro/ Touro da beira do mar – Brasa em candeeiro vem para matar minha saudade dos bois de zabumba, o boi de seu Constâncio era praticamente no fundo de nossa casa, no Bairro de Fátima. Era umas três ruas depois, mas era como se estivesse lá dentro de casa, todo tempo aquela [imita com a boca o som da percussão do boi de zabumba]. É uma homenagem ao boi de seu Constâncio, de zabumba, lá do Bairro de Fátima. É um pot-pourri com Touro da beira do mar, que até Tião Carvalho faz uma participação nela.
Dança de criança/ Lua flor de canela – Cirandas em homenagem a Pernambuco, homenagem às crianças. A ciranda é um momento de juntar as mãos, eu utilizo muito quando fecho minhas oficinas, é hora de dar as mãos, fazer a roda, eu lembro de a gente criança em volta de uma mangueira, meu avô cantando, a gente girando. Ela junta, dá as mãos, fecha o ciclo.
Para vocês, que emitem montes de dióxido,
Para vocês, que têm um gênio neurastênico,
Pobre tem mais é que comer com agrotóxico,
Povo tem mais é que comer, se tem transgênico.
É o que acha, é o que disse um certo dia
Miss Motosserrainha do Desmatamento.
Já o que acho é que vocês é que deviam
Diariamente só comer seu “alimento”.
Vocês se elegem e legislam, feito cínicos,
Em causa própria ou de empresa coligada:
O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos,
Que bancam cada deputado da bancada.
Té comunista cai no lobby antiecológico
Do ruralista cujo clã é um grande clube.
Inclui até quem é racista e homofóbico.
Vocês abafam mas tá tudo no YouTube.
Trecho de Reis do agronegócio, parceria de Chico César (música) e Carlos Rennó (letra). Uma porrada de arrepiar! Vejam e ouçam a obra-prima completa:
Quando Juliano Gauche lançou, com o Duo Zebedeu (os violonistas Fábio do Carmo e Julio Santos), Hoje não (2009), inteiramente dedicado à obra do também capixaba Sérgio Sampaio, impressionou-me certa dubiedade: o disco exalava o homenageado sem, no entanto, relegar Gauche à condição de mero cover (apesar da semelhança física). Havia ali respeito e devoção pela obra de Sampaio, mas uma voz personalíssima do intérprete.
Antes, ele já tinha sido vocalista da Solana. Depois Juliano Gauche, já morando em São Paulo, lançou um disco solo (2013) que levava apenas seu nome. Quase completamente autoral, o disco voltava a homenagear o ídolo em Sérgio Sampaio volta, de Tatá Aeroplano, cabeça do Cérebro Eletrônico, seu produtor.
Uma cópia de Juliano Gauche rodou muito entre lá em casa e o trânsito, sem que eu nunca tenha me arriscado a dizer nada sobre o ótimo disco. Este textinho tampouco é tentativa de fazer isso tardiamente. O original eu só consegui comprar recentemente, numa ida ao Recife. Festejei o achado, como convém a um homem de vícios antigos.
Hoje, a revista Tpm lançou o videoclipe de Cuspa, maltrate, ofenda, porrada de amor que abre Juliano Gauche, dedicada à sua esposa e produtora executiva Sil Ramalhete (que aparece no clipe). Embora a publicação tenha anunciado exclusividade, roubo-o de lá e penduro-o aqui.
Henrique Cardoso de Oliveira Junior começou a ser conhecido na cena choro de São Luís como violonista do grupo Um a Zero. À época seu nome artístico era Henrique Junior. O músico nasceu em São Luís, em 31 de maio de 1983 e passou a infância entre São Paulo e Rio de Janeiro.
É filho do educador físico Henrique Cardoso de Oliveira e da professora Rosete Franco Lopes, a quem reconhece a influência. “Ela nunca mediu esforços para pagar professores ou me deixar ir procurar alguém para me ensinar. Até hoje ela gosta de cantar”, revela o hobby da mãe, que já deu canjas no Clube do Choro Recebe, palco do filho no início da carreira.
Outro palco de importância na carreira do músico foi a Praia Grande: muitas foram as segundas-feiras regadas a choro no extinto Bar Antigamente. Não por acaso o bairro do Centro Histórico ludovicense foi escolhido para que Henrique Junior desse seu depoimento à Chorografia do Maranhão.
Os tempos mudaram: da Praça dos Catraieiros, chororrepórteres e músico – ele estava acompanhado de sua esposa, Rafaele Lopes – tiveram que se mudar, pois o barulho dos bares da região impediam a conversa. No Cafofo da Tia Dica (atrás da Livraria Poeme-se) o pagode invadia até mesmo o ambiente fechado e climatizado, em geral silencioso. Nesse clima mesmo, a agenda foi cumprida.
Foto: Rivanio Almeida Santos
O que te levou a morar no Rio e em São Paulo? Meu pai é de uma cultura meio que nômade. Ele é cearense, meu avô era sanfoneiro, e tinha o hábito de, de tempos em tempos, estar mudando de um lugar para o outro. Isso ele [o avô] passou para ele [o pai]. Quando eu já estava com um, dois anos, fomos morar em São Paulo, depois viemos para São Luís, depois São Paulo de novo, depois um tempo no Rio de Janeiro morando na Glória. Aí quando eu voltei para cá de novo eu já tinha uns 12 anos. Foi uma enrolada muito doida, meu pai tinha isso de ficar viajando. E isso foi bom por que eu também fui conhecendo já um pouco da música de vários lados, de vários locais.
Essas viagens influenciaram teu fazer musical? Nem tanto. Teria influenciado se eu tivesse ficado mais tempo morando lá. Eu fiquei morando em Pirapora, uma cidade de São Paulo, com oito anos eu passei para fazer piano. Eu cheguei a me matricular, fiz umas poucas aulas de teoria, só que a gente acabou viajando e eu não cheguei a pegar em instrumento. Ficou um pouco precoce minha ida para a música, ainda não era hora, na verdade. Meu contato com música só viria a se dar aqui em São Luís, eu já chegando na adolescência.
Teu pai é músico também? Da família é o único que não é músico. Ele é educador físico. Os irmãos dele, a maioria, ou é cantor, ou é dj, ou é músico.
O que se ouvia no ambiente musical de tua infância? Minha mãe me influenciou muito nisso. Era na casa de meus avós que se ouviam discos de Elizeth Cardoso e Altemar Dutra. Foi ali que eu comecei a prestar atenção nos sons graves e já a gostar do lado do violão, do violão sete cordas. Aquela música, “Jurei não amar ninguém” [cantarola trecho de Toalha de Mesa, de Noite Ilustrada e Carminha Mascarenhas], Noite Ilustrada. Meu pai era um pouco avesso a música, mas minha mãe até gosta de cantar.
O que te levou a escolher a música, já que teu pai não era adepto? Eu ganhei um violão desde pequeno, na verdade. É um instrumento que meu avô já tinha dado, desde criança ele estava lá no meu quarto, guardado em cima de um case, mas eu não tinha ninguém para me ensinar. Meu pai tinha essa questão de prioridade no estudo, o instrumento sempre estava perto de mim, mas eu nunca tive contato para aprender, de fato. Só na adolescência. Minha mãe sempre gostou de música, na casa de minha avó, fins de semana eram regados a música, a radiola tocando elepês, Altemar Dutra, Noite Ilustrada, músicas variadas, anos 80, Earth, Wind and Fire, Michael Jackson, Lionel Ritchie, entre outros. Sempre fui bem eclético, rock na minha adolescência, e o choro também. Meu avô tinha discos de Dilermando Reis, até hoje tem. Isso ajudou muito na minha vivência, aprendi a gostar de vários estilos, a não ter preconceito com nenhum estilo.
Por que você resolveu trocar o Henrique Junior pelo Henrique Cardoso? Embora o Junior sempre traga aquela coisa do novo, acho que Cardoso impõe certo respeito e também relembra um pouco o lado da família de músicos, Cardoso, que vem de meu avô [incomodados com o aumento do volume do som de diversos bares, chororrepórteres e entrevistado pagam a conta e seguem a pé até outro bar para continuar a entrevista; infelizmente, o barulho continua].
Você tinha quantos anos quando começou a estudar música? Uns 16 anos, já comecei um pouco tarde. Meu contato com a música foi maior por que eu tive, como amigo de colégio, o Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013]. Eu só fui pegar em instrumento depois que meus pais se separaram e quem me ajudou muito foi Rui Mário. Eu vivia na casa do pai dele, seu Raimundinho [sanfoneiro], a gente morava relativamente perto, eu pegava a bicicleta e ia para a casa deles e Rui ficava me enchendo o saco, me enchendo o saco para o bom lado, né? “Rapaz, aprende a tocar um instrumento, tu tem um bom ouvido” e tal. Me incentivou. Na música ele foi o primeiro a me orientar, a ensinar alguma coisa de música, acorde.
Quando você volta à São Luís, a que você credita o despertar imediato para a música? Na verdade, quando eu voltei, ainda não foi a época que eu peguei no instrumento. Eu comecei a ter maior contato com a música quando meu pai ganhou um toca discos usado e veio, junto com o toca discos, alguns elepês: Waldir Azevedo, Pixinguinha, e eu comecei a ouvir tudo. Foi uma noite que até hoje eu me lembro. Quando chegou, que ele armou na sala, eu não dormi. E passei vários dias sem assistir televisão, eu passava dia e noite ouvindo música, o tempo todo. Eles ficaram espantados, impressionados, “por que ele não para para assistir televisão? Não faz nada?”. Um cavaquinho acontece [disco de Waldir Azevedo, de 1960] eu escutava todo dia, Os oito batutas [disco de Pixinguinha com o grupo homônimo, s/d] eu escutava direto.
Que idade você tinha? A cronologia não é o meu forte, mas acho que de 11 para 12 anos.
Você disse que em discos de samba as baixarias te chamavam a atenção. Sim, principalmente no choro. Quando eu escutei, eu não sabia qual era aquele instrumento. Eu me seduzi pelo contracanto, eu ficava admirado com aquilo. Eu só fui descobrir muito tempo depois, ouvindo o Chorinhos e Chorões [programa dominical de choro, na rádio Universidade FM, 106,9MHz, produzido e apresentado por Ricarte Almeida Santos], na verdade; foi ali que eu fui descobrir que existia, no choro, o violão sete cordas. Aqui em São Luís a gente ouvia pouco falar. Eu fui atrás de quem tocava violão sete cordas. Na época foi um pouco difícil, não tinha redes sociais, como hoje em dia. Eu fui para o lado mais fácil para chegar mais perto do choro, eu já havia sido seduzido pelo choro, achava bonito, queria tocar, mas por onde começo? Comecei tocando samba por que via proximidade entre os dois gêneros. Depois de um tempo foi que veio a ideia de montar o grupo de choro.
O Um a Zero? Isso! O Um a Zero. Depois de um tempo, já tocando em alguns grupos de samba aqui em São Luís, eu tocava [violão] seis cordas, mas já no estilo sete cordas. Quando eu entrei no [grupo] Amigos do Samba, eu ouvi falar em Roquinho [cavaquinista e bandolinista]. Eu sabia que o cara do bandolim e do cavaquinho, aqui, era ele. Eu comecei a organizar as ideias e a montar o grupo na minha cabeça. Eu teria que convencê-los que valeria a pena. Daí começou minha história no choro. A primeira coisa que eu sabia é que a música que ele gostava de tocar era Czardas, que não é um choro, é uma música de Victorio Monti [compositor italiano], e ele disse que era muito difícil tocar acompanhando ao violão. Graças a Deus, eu tenho um bom ouvido. Cheguei em casa, fui atrás, encontrei, e peguei a música. Quando eu fui pra casa dele, só pra mostrar do que eu era capaz, eu já fui com Czardas na mão, aí ele abriu o olho: “não, esse rapaz leva jeito!”. Pode ver que todo show do Um a Zero tinha que tocar Czardas. Isso foi interessante pra caramba! Ele me ajudou muito, conhece muito choro, me passava as coisas. A música pra mim era uma maré mansa, de repente veio um tsunami, eu tive que estudar demais.
Que figura você considera sua principal influência, que foi decisivo em tua ida para a música e, especificamente, para o choro? Das pessoas que estão na minha vida, em ordem cronológica, o Rui, muita coisa eu aprendi só na convivência com ele. Ele era um rapaz de 17 anos que tocava em tudo o que é lugar, e muito bem. No choro, especificamente, Roquinho foi o maior. Me apresentou o repertório de choro, eu almoçava na casa dele, jantava lá, e a gente ficava tocando o dia todo.
E foi você quem insistiu para que se criasse um grupo de choro? Isso! Não demorou muito tempo. Na primeira apresentação do Um a Zero o grupo não tinha nem nome. Foi o seguinte: a gente estava tocando a música Um a Zero, de Pixinguinha [parceria com Benedito Lacerda], veio alguém e perguntou o nome do grupo. Eu olhei pra ele, ele olhou pra mim, a gente não sabia o que falar, e eu falei: “Um a Zero” [risos], e ficou. Nesse show estava até seu Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], ele tocou com a gente. Era um restaurante no Tropical Shopping. Lá começou certo movimento, a gente fazia um dia e o grupo de Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], o Chorando Callado, fazia outro. Foi interessante. O primeiro show foi com seu Agnaldo por que eu não sabia se ia dar conta de tocar três horas de choro, o grupo ia fazer um mês ainda. Eu fui tocar na cara e na coragem. No domingo seguinte eu fui sozinho.
O que você acha de seu Agnaldo? Uma referência. Foi um desbravador do instrumento aqui em São Luís. Não existia internet, que é um facilitador, e ele sabe muita música. Você tinha que pegar os discos. Tem que tirar o chapéu para ele, para esse pessoal de antigamente. É um ótimo músico, eu admiro, embora não tenha tanto contato.
Houve algum momento em que algum familiar aconselhou a procurar outra coisa, por não ver futuro na profissão de músico? Ser músico é uma profissão que às vezes se torna um pouco desestimulante. Um advogado passa cinco anos na faculdade, se forma, vai fazer concurso, pode ser juiz, promotor. O músico tem que estar todo dia tocando o instrumento, o tempo todo. É uma profissão que a pessoa tem que estar todo o tempo trabalhando. Isso às vezes gera um desestímulo, até a questão financeira. Hoje em dia, com os projetos em que estou envolvido, a gente consegue pagar as contas, viver. Já somos bem vistos pelo público. Mas ninguém sabe como vai ser amanhã, daqui a dois meses. Às vezes bate a pergunta: será que eu não devo ser músico, mas fazer um vestibular, sei lá, pra direito? Pra mim foi um diferencial, ser músico, me ver como profissional da música, como empreendedor. Essa foi a diferença que a gente tinha com o Um a Zero e tem hoje com o Bossa Nossa, é a forma de ser empreendedor. Eu já tinha trabalhado em Ribamar [a cidade de São José de Ribamar, na Ilha de São Luís], já tinha trabalhado no Paraíba [rede de armazéns], então, a forma de me portar nestes trabalhos, eu levei para a música, eu virei um músico profissional.
Você chegou a estudar outra coisa? Eu tenho o [curso de] técnico em Eletromecânica. Foi a época pós-Um a Zero. Eu tinha meio que desistido da música, “ah, vou fazer outra coisa”.
O Um a Zero foi tua grande escola, mas foi, ao mesmo tempo, o grupo que te levou a uma crise existencial enquanto músico. É, por que foi o trabalho que eu posso dizer que foi a minha maior escola. A gente tocava toda quarta no Boteco da Lagoa, sexta a gente estava tocando no Taberna Grill, que hoje em dia é Távola Grill. E segunda-feira no Antigamente. Isso já entrava na renda, esses contratos era eu quem ia atrás. Aí teve certos problemas e eu pensei: será que vale a pena tanto esforço? Será que não é melhor eu procurar um emprego de verdade? Já estava faltando um mês para terminar Eletromecânica e a música me chamou de volta. Eu trabalhava em Ribamar, era concursado, trabalhava na área administrativa. Aí eu entrei no [grupo] Argumento, pedi exoneração, valeu a pena. Passei quatro anos no Argumento, foram bons anos.
A tua saída do Argumento se deu por opção? Sim. Eu tinha vontade de me dedicar a um projeto de música instrumental, que é o que a gente tem hoje. O Argumento é um grupo voltado ao público da noite, então tem que tocar tudo.
Como se deu a arregimentação do Bossa Nossa? Quem é o grupo? Eu e Lee Sousa [flautista e saxofonista] começamos a estudar juntos, entramos juntos na faculdade de música. Lá a gente começou alguns projetos, inclusive de choro. A gente entrou com a intenção de tocar também. Embora estejamos fazendo a licenciatura, tocar é o que nos move. Foi nessa época que a gente conheceu o Bruno Agrella, que é percussionista, no grupo toca bateria, o Cleuton [Wanderson], toca violão seis cordas, mas no grupo toca baixo acústico. Foi lá que começou. A gente pensou em levar nosso profissionalismo pra fora. A ideia inicial era tocar só choro, mas ampliamos, então tem choro, bossa, samba, música internacional.
Mas tudo instrumental? Este é o projeto, hoje, com que você está envolvido? Tudo instrumental. Isso! Tocamos no Lençóis Jazz e Blues Festival [em Barreirinhas], já tocamos em eventos do Sesc. Fizemos um show no Sesc só com música maranhense, todo mundo se levantou da cadeira para aplaudir. Há espaço para o instrumental, mas é preciso certo empreendedorismo do músico, saber como se portar, se vestir, isso tudo influencia.
Qual a agenda fixa do Bossa Nossa? Deixa eu falar a respeito do nome: é um nome que a gente pretende trocar, até por que a gente pretende fazer coisas maiores, pra fora. Levar o nome bossa, para um projeto que é maranhense, a gente não acha muito legal. Ainda vamos achar um nome. O Bossa Nossa toca no Shopping São Luís, meio dia [aos sábados], no Restaurante Manu, que varia entre quinta e sábado [à noite].
Em tua trajetória percebemos esse perfil empreendedor. Hoje, dá para viver de música? Hoje dá. Não dá para ficar rico com música, mas dá para viver. Tem que ter uma postura profissional, logicamente. Saber ser um pouco produto, um pouco se vender como produto. Logicamente no cenário instrumental já é tachado, já é visto um pouco como piegas, mas estamos mudando isso no palco. A nossa forma de tocar, de levar uma música internacional, uma música mais atual. Dá moral. Me olha, eu tou aqui! Tou tocando Boi de Lágrimas [toada de Raimundo Makarra] instrumental! Aliás, essa é uma música que tem feito a diferença, as pessoas levantam, aplaudem. Bela mocidade [toada do bumba meu boi de Axixá, de autoria de Donato Alves] também, Carinhoso [Pixinguinha e João de Barro], lógico!
O Um a Zero acabou? O Um a Zero, o término dele, eu não sei como explicar bem. Foi o seguinte: na época em que eu fiquei um pouco desmotivado, que eu comecei a fazer o curso, eu não pude mais vir tocar com o Um a Zero no Antigamente, nem em outros locais, por que meu curso era à noite. Então ficou o João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], só que ele já tinha outros serviços, outras ocupações. Ele é um amigo, ficou por lá, é uma pessoa muito educada, podíamos contar com ele. Mas não teve alguém que fosse atrás de outros locais, ver o que poderia acontecer, conseguir a mais. O grupo acabou ficando muito restrito ao Antigamente. O bar mudou muito o perfil, principalmente depois que a Ana Lula [ex-proprietária] saiu, os donos novos queriam para tocar tudo.
Além do Um a Zero e do Bossa Nossa, houve outros grupos de que você fez parte? Teve muito grupo de samba, muitos artistas maranhenses. Da área do choro eu fiz participações com o [Instrumental] Pixinguinha, o que foi muito importante para mim, o convívio com Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], o pessoal que traz o choro tradicional na veia, ver como tocam. O Roquinho, o jeito de tocar dele, é bem moderno. Ele é autodidata. No Instrumental Pixinguinha, eles são tradicionais, foi muito importante eu perceber coisas que eu não percebia no Um a Zero. Fui vendo Juca, Raimundo Luiz, Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Nonatinho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 6 de julho de 2014], Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. Eu cresci como músico, logicamente, isso foi muito bom.
O que significou para você o projeto Clube do Choro Recebe? Desses movimentos culturais que já aconteceram no Maranhão um dos que teve maior relevância foi o Clube do Choro Recebe. Foi num momento oportuno, colocou em evidência os grupos de choro. As redes sociais não eram tão populares, a gente usava a mídia para dizer que estava ali. Foi muito bom. Precisava de alguém para tomar essa atitude, para dizer que o movimento precisava tomar força. Até hoje é um dos movimentos de maior relevância, ao lado do Festival [Internacional] de Música [promovido pela Prefeitura de São Luís, em 2002], eu posso comparar pela importância histórica. Saber que era uma coisa organizada dava muito respaldo para a gente.
Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? Como compositor eu nunca expus tanto, isso vai acontecer agora, pois estamos pensando num trabalho autoral. Com arranjo a coisa se dá em função do grupo, o grupo me deu mais liberdade de poder colocar tudo na mesa. Nós estamos nivelados, somos jovens que queremos tocar bem, é um laboratório de ideias. A gente se encontra e começa a testar e ver o que acontece. Esse está sendo um dos melhores momentos da minha vida. No Um a Zero, até por uma questão de respeito, eu deixava que Roquinho direcionasse.
Como funciona a dinâmica do Bossa Nossa? Os meios de comunicação modernos têm ajudado muito, whatsapp, facebook, então a gente faz uma conversa prévia, por esses meios, falando a respeito do repertório. Por exemplo, a gente vai tocar em um lugar, alguém pediu um jazz, a gente já guarda essa informação, em casa já pensa no pedido, compartilha as ideias. Quando a gente se encontra, coloca as ideias em prática, “olha, eu pensei no arranjo”, e nunca é feito só por um, tem um pouco do tempero de cada um.
Então o Bossa Nossa está pensando em disco? Já! É importante o momento que estamos vivendo, todo mundo olhando a gente, sendo bem recebido pelo público. Nosso cd já vai servir de portfolio e porta de entrada para outros grandes eventos. Para a gente vai ser muito bom, para o Maranhão, mostrar para o público de fora que São Luís tem músicos bons, pessoas que são comprometidas em tocar bem, em dar o melhor de si.
Para você, o que é o choro? Qual a importância dessa música no cenário brasileiro? Deixa ver se eu sintetizo bem essa importância. É nossa herança. É o que esperam de nós quando a gente vai pra fora. Quando a gente tocava no Antigamente e um turista sentava, ele queria ouvir choro, por saber que aquilo é genuinamente brasileiro. Eu lembro que uma vez um italiano falou que o choro era a música que mais descrevia o comportamento do brasileiro. Depois eu fui perceber isso, a gente se completa tocando aquilo.
Como qualquer processo cultural o choro é uma música em transformação. Como você tem observado o desenvolvimento do choro no Brasil? A minha ida para Brasília, para um festival de música há dois anos, eu percebi muito melhor o comportamento do chorão. Brasília é um foco, lá a cultura do choro é muito forte, tem choro todo dia em Brasília. Nessa viagem, fomos eu e Wendell, a gente foi todas as noites em rodas de choro diferentes. Lá a gente pode perceber um pouco mais a respeito do choro, perceber a diferença que faz a galera mais jovem tocando essa música. A tendência cultural, pop, eletrônica, acaba sendo levada para essa música. Tem a coisa tradicional, mas acaba indo a coisa do trânsito, buzina, a correria, acordar cedo para pegar ônibus, metrô e chegar cedo, eles estão levando. A gente nota isso.
Você se considera chorão? A gente nunca deixa de se considerar chorão: uma vez chorão a gente sempre vai se considerar aquilo. Eu estou menos chorão agora, mas o choro está comigo sempre, não tem como desprender. Toda vez que a gente toca Naquele tempo [Pixinguinha] eu imagino o Pixinguinha tocando, aquela coisa que está sempre aqui comigo. [O choro] é uma música que faz pulsar. A gente toca e nos toca.
Após 10 meses de gestação, a cantora e compositora Nathália Ferro, 30, disponibilizou ontem (sábado, 25), para audição e download em seu canal no soundcloud, seu segundo disco, Alice ainda, sucessor do ep Instante (2013), que ela considera seu disco de estreia. A artista já conta 10 anos de carreira.
Produzido por Adnon Soares, da CasaLoca, o álbum traz 12 faixas, de 12 compositores, incluindo ela própria, e reflete seu amadurecimento artístico. A maioria das faixas é inédita. Pelo meio do disco, um bloco de regravações: O que não é de mim (Hermes de Castro/ Marcos Lamy), Maria de Jesus (Beto Ehongue), com incidental do poema O bicho, de Manuel Bandeira, e Ana e a Lua (Betto Pereira).
Também merecem destaque Porcelana (parceria de Nathália com Laila Razzo, autora do projeto gráfico de Alice ainda), Música do sereno (de Paulo César Linhares, seu namorado), Como qualquer chiclete (Phil Veras), Neguinha (Nathália Ferro) e Te deixando aos poucos (Adnon Soares e Léo Del Nery).
A banda base de Alice ainda é formada por Adnon Soares (guitarra, violão, teclado e sintetizador), Marlon (contrabaixo) e Sandoval Filho (bateria). O disco tem ainda participações especiais de João Simas (guitarra) e André Grolli (bateria). Memel Nogueira, que mixou o álbum, também gravou uma guitarra. Adnon divide com ela os vocais de Estranho seu, versão em português de Strange of mine, da Soulvenir, banda dele. Lucas Maciel canta com ela em Música do sereno. A eles, todos, ela derrete-se em elogios: “músicos excepcionais e amigos muito queridos”.
Alice ainda. Capa. Reprodução
Através de uma rede social ela concedeu a entrevista a seguir ao blogue.
A Alice do título é uma personagem. Quem é Alice? E o que ela tem de Nathália Ferro? Há algo em tua Alice da Alice de Lewis Carroll; o que não pode faltar em teu país das maravilhas? A Alice do título é a parte sonhadora da Nathália. É preciso reservar em si uma parcela bem grande de devaneio pra trabalhar com arte sem deixar o sistema te sufocar. Eu vendi o meu carro pra pagar esse disco, dormi seis meses na CasaLoca, troquei o dia pela noite, fiquei longe da minha família e da vida “normal” pra fazer esse trabalho. Foi muita loucura. E foi incrível.
Ao longo desse período, algum arrependimento? Eu me arrependo de muita coisa, mas no entanto, não me adianta de nada, já que a gente só faz aquilo que tá apto e pronto pra fazer. Mesmo o errado tava certo. Eu tinha que aprender, tinha que caminhar pro que sou hoje. Eu gosto de aprender sempre, e me despojar daquilo que não serve. Então não sou muito de dar atenção pra nostalgias ou arrependimentos. Prefiro gastar minha energia com o presente.
São 12 faixas, 12 compositores, você se reafirmando como tal, o que já havia ocorrido em Instante. Como foi juntar tudo isso e dar unidade ao disco? Sinceramente, organizar esse repertório foi uma das partes mais gostosas do processo. Todas as músicas foram se insinuando pra mim de maneira muito natural, inclusive as que não compus. Tudo ali diz muito mais do que eu poderia dizer, e não diz nada do que eu não gostaria. Foi muito bom descobrir a efervescência de compositores muito jovens, e dar versões a músicas de outros consagrados. Difícil mesmo, e penoso, foi organizar a ordem do disco.
Praticamente morar na CasaLoca deve ter dado ainda mais organicidade ao disco. Conte um pouco mais da experiência de ter Adnon como compositor, produtor e participação especial. E instrumentista também [risos]. Ele é um irmão pra mim. Até quando a gente briga parece briga de irmão. Eu nunca vou poder expressar a gratidão que tenho por esse cara ter usado tanto do talento e do tempo dele pra me ajudar a realizar esse sonho. O Adnon tem um método bem heterodoxo de trabalho, o que às vezes torra a paciência da gente. Mas por outro lado ele é tão gênio, e tem um coração tão genuíno, que a gente releva. Pra mim foi um aprendizado pra vida inteira viver esses meses de imersão mesmo. Me ajudou a valorizar ainda mais esse trabalho e o trabalho criativo de quem se dedica à música.
Ele é, hoje, um produtor bastante requisitado, além de ter seus projetos próprios, CasaLoca, Soulvenir. Foi difícil conciliar a agenda? Foi [risos]. Muito. Eu sinceramente não sei como ele consegue. É um mistério pra todo ser vivente, e mais louco ainda é que ele vem fazendo trabalhos cada vez melhores. Eu gosto de ouvi-lo dizer: “o melhor trabalho da minha vida é sempre o que estou fazendo”.
Apesar do lançamento exclusivo em meio digital agora, há intenção de lançar o disco em formato físico? Ah, sim. Eu tô juntando a grana pra prensagem. Vai ter pré-lançamento dias 8 [na Calourada Geral da UFMA] e 31 de maio [no Teatro Arthur Azevedo, na abertura do show do 14 Bis, pelo projeto MPB Petrobras]. O show de lançamento oficial tá pra julho, tô com projeto aprovado pra patrocínio e devo fazer um catarse [site especializado em crowdfunding] nos próximos dias.
Show marca ingresso de Áurea Maranhão no Coletivo Gororoba. Foto: divulgação
Um acontecimento artístico plural e com componentes políticos. É o que promete ser a ManiFesta, cujo título já traduz suas pretensões. Realização do Coletivo Gororoba e Conexão Espaço Habitação, o evento acontece neste sábado (25), a partir das 20h, na Guest House (Rua da Palma, 142, Centro). Os ingressos custam R$ 20,00 (R$ 10,00 antecipado, meia entrada e na lista amiga, pelo e-mail coletivo.0.gororoba@gmail.com
A programação junta cinema, instalação, teatro, fotografia e música. Membro do Coletivo Gororoba, Ramusyo Brasil exibirá, na abertura da ManiFesta, o filme Maranhão 669 – Jogos de Phoder. “Nessa exibição será realizada uma tríplice projeção, com inclusão de imagens que ficaram fora da montagem final, além de jogos de percepção e atenção a partir das imagens projetadas nas diferentes telas”, anuncia o material de divulgação distribuído aos meios de comunicação.
Com Nayra Albuquerque e Luciano Linhares, Ramusyo Brasil também é autor da vídeo-performance Massa estanque, baseada na intervenção urbana Cegos, do grupo paulista Desvio Coletivo, apresentada pelas ruas de São Luís na 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes do ano passado. Às 21h a vídeo-performance será trilhada ao vivo pelo trio de autores.
A partir das 21h30, de meia em meia hora, Áurea Maranhão, Luciano Teixeira, Tieta Macau e Ruan Paz apresentam, respectivamente, Tá tudo à venda, Não é vício, A loira no banheiro, O’Culto. A primeira performance de corpo, um work in progress, terá escolha de três cenas pelo público, a serem interpretadas pela atriz.
Fotografia de Adson Carvalho foi amplamente repercutida em redes sociais denunciando o exagero do aparato policial para conter manifestações de estudantes contra o aumento das passagens de ônibus em São Luís
Desde as 20h, a fotografia também ocupará a Guest House. Diones Caldas exibirá a fotomontagem Fotos preto e branco de um banho de chuva, com fotografias realizadas e editadas com um telefone celular. No ensaio fotográfico R$ 2,80 é um roubo, Adson Carvalho explora as tensões das manifestações contra o aumento das passagens de ônibus na capital maranhense e os conflitos entre a Polícia Militar e estudantes nas ruas de São Luís. A foto-instalação Atlas #ProtestoBR, projeto de Bruno Barata, Carolina Libério e Jane Maciel, do Laboratório Experimental de Pesquisa em Redes, Visualidades, Tecnopolíticas e Subjetividades (MediaLab), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coleciona, através de uma plataforma online imagens dos protestos ocorridos no Brasil a partir de 2013.
Haverá ainda discotecagem de Dani P e Fernanda Preta. Às 23h30 acontece o show Coração Cordel Canção, do Coletivo Gororoba, com participações especiais de Madian, Criolina e Walberth Guimarães. O espetáculo tem “inspiração visual e sonora na música e no estar-no-mundo nordestinos”.
Os parceiros no misto de ensaio e entrevista. Foto: Zema Ribeiro
Uma das parcerias mais recentes de Celso Borges e Nosly é A ceia do mundo, em que ambos musicaram poema de José Chagas, cantada pelo segundo, em disco produzido pelo primeiro com Zeca Baleiro em tributo ao poeta [A palavra acesa de José Chagas, de 2013], falecido meses depois do lançamento: “A esta mesa sozinho, eu me sento em vão./ Não bebo deste vinho nem como deste pão./ Falta-me convite para a paz da ceia,/ e humano apetite ante a comida alheia/ Eu busco outra mesa onde muitos estão,/ sob uma gula acesa de outro vinho e outro pão/ Mesa onde se permite uma fome tão forte,/ que nos dá apetite até para a morte”.
Uma das primeiras parcerias é Proposta de quase eternidade [1984], deles com Zeca Baleiro, gravada pela cantora Rosa Reis em seu disco de estreia. “Era a época do show Um mais um, que Nosly faria com Zeca, a primeira vez que Zeca subia num palco”, recorda-se Celso Borges. “Eu vi esse poema publicado no jornal [O Estado do Maranhão, Celso à época era funcionário do Sistema Mirante], a gente acompanhava sempre, fim de semana rolava um poema, um poeta”, lembra Nosly.
Parceiros há 31 anos, eles apresentam neste sábado (25), às 19h, na Livraria Graúna [Rua Riachuelo, 337, telefone: (99) 35211873], em Caxias/MA, Palavra tem som, espetáculo com cerca de hora e meia de duração, misto de show musical e recital poético, com entrada franca. Na ocasião, autografarão livros e cds a interessados.
O blogue foi à casa de Celso Borges em uma tarde chuvosa da semana passada. Presenciou um ensaio – ou quase isso – bastante despojado, em que os parceiros brincavam entre si, tentavam lembrar letras e melodias de suas parcerias e respondiam a algumas perguntas, por exemplo, sobre como surgiu a ideia do show. “Pintou de um puxão de orelha que eu dei em Nosly, “poxa, a gente nunca fez nada em Caxias, tu é de lá”. O lançamento é um misto de show, recital e bate papo sobre nossa parceria”, antecipou Celso. A ideia é realizar apresentações em outros locais.
Palavra tem som é dividido em quatro partes: na primeira, Celso Borges diz alguns poemas, com intervenções de Nosly ao violão; na segunda, comentam suas parcerias, interpretadas por Nosly; na terceira, contam com a participação de um artista local [o nome não havia sido confirmado até o fechamento desta matéria]; na última, Nosly canta parcerias suas com outros poetas e músicos, entre as quais Noves fora, com Zeca Baleiro, Nome, com Olga Savary, Para uma grande dama, com Fernando Abreu, Voo noturno, com Sérgio Natureza, Sancho Dom Quixote, com Ferreira Gullar e Parador, com Gerude e Luis Lobo.
A tarde corre e a chuva para; as lembranças continuam: “Blues para um anjo torto foi nossa primeira parceria pelo Correio”, recorda Celso, que em seguida conta a história de uma letra que fez para a primeira filha de Nosly: “Gabriela é depois de June [outra parceria de ambos]. A história dela é linda. As histórias de minhas parcerias com Nosly são as mais lindas possíveis: eu fui para Belo Horizonte lançar um livro e estava em uma mesa na Universidade [Federal de Minas Gerais]. Conversando com a menina que produz, soube que ela era ex-namorada de Nosly, mãe de Gabriela, a primeira filha dele. Aí ela disse: “olha a foto dela” e eu vi a foto de uma menina de óculos, com sete anos. Quando eu vi aquele retrato eu fiz uma letra e mandei pra Nosly: “fiz pra tua filha”. [Cantarola/recita a letra:] “Menina que foi e veio/ carinha que vejo pelo meio/ pela frente, pelo dente, pela foto/ pelo fio do vestido de fivela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ menina eu vi, viu?/ frente a frente/ distante tua fonte/ Belo Horizonte/ tua pele de princesa bela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ a alma dela está ali/ sonhando além daqui/ daqui perto de mim/ como tinta numa tela de aquarela/ como boca num beijo de novela/ é ela que vai e vem/ colorindo seu estilo/ na berlinda linda das estrelas”. Em seguida Nosly se junta a ele, acompanhando a melodia ao violão.
Indago sobre a quantidade de parcerias e Nosly arrisca “que sejam umas 40”. “Muitas [estão] perdidas”, confessa Celso Borges. A já citada June é outra feita por correspondência. Ele relembra: “Nosly estava em Belo Horizonte, eu em São Paulo. Depois ele me liga: “CB, fiz a música”. Quando eu mandei a letra, eu já sugeri a incidental de Alegria, alegria [de Caetano Veloso; cantarola:] “por que não?/ por que não?”. Nosly complementa: “eu estava em casa estudando Sons de carrilhões, de João Pernambuco. Essa música, eu acho que foi um transe tão grande que hoje eu não me sinto capaz. Eu não conseguiria fazer essa melodia hoje. Na carta, é capaz de eu ter essa carta em casa, ele já sugeriu um aboio”.
Nosly afirma ter “um calhamaço, com parcerias, algumas inacabadas, com Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva, morto pela Polícia Militar em 2007], Zeca, Joãozinho [Ribeiro], Lobo [de Siribeira], Celso Borges. Tem mais de 10 anos que não abro, um dia eu mostro pra vocês”.
Celso Borges revela ter um punhado de fitas com parcerias deles gravadas e puxa da gaveta um hd externo, onde repassa, na tela de um laptop, nada menos que 83 parcerias, todas prontas, com Nosly, Zeca Baleiro, Gerson da Conceição, Chico César, Fagner, Otávio Rodrigues, Alê Muniz, Lourival Tavares, Mano Borges, Papete, César Nascimento, Tutuca, Djalma Lúcio e Madian. Empolgado, cantarola trechos de algumas letras e recita outras – em algumas tem mais dificuldade; talvez estivessem no rol das que ele já considerava perdidas.
“Essa aqui [In, gravada por Nosly no livro/cd XXI, de Celso, lançado em 2000] eu tinha feito a letra, um poema de amor [declama:] “te ponho dentro do poema/ entre vírgulas, parênteses/ tua pele passa/ e brilhas folha a folha/ te vejo entre aliterações e rimas/ teu corpo vivo/ nu no verso/ teu corpo verso, viva o verso/ no universo de teu corpo vivo”. Eu estava em Niterói, a segunda parte eu sabia [arrisca-se ao violão, cantarolando:] “o futuro não é delicado com a gente/ mas delicado multiplica-se nas páginas/ tu és o livro do mundo e ponto final”, eu fiz isso, mas eu não sabia fazer o começo”, remonta a feitura, esta com os parceiros lado a lado.
Os dois rememoram ainda Motor [gravada por Vange Milliet em Música, livro/cd de Celso, lançado em 2006] e Aldeia [parceria registrada em Parador, de 2011]. A primeira, realizada por e-mail; a segunda, uma morna com boi de zabumba: “eu fiquei vários dias ruminando isso [cantarola:] “as flores do norte perfumam/ juro que sei de onde vem”. Quando ele foi fazer o disco, eu cheguei, “tá quase pronta!”, Zeca gravou com ele. Ficou linda!”, derrete-se Celso.
Pergunto sobre a importância da parceria e ambos não escondem a admiração um pelo outro. “Eu tenho a sorte de ter parceiros muito musicais e Nosly não foge à regra. Hoje ainda conseguimos sentar e compor, conversar”, vibrou Celso. “Celso é um dos caras que mais incentivou a gente, lá no começo. Eu e Zeca, ele foi o primeiro cara que realmente nos impulsionou para a composição. A gente ficava acompanhando no jornal os poemas que ele publicava, a gente se identificava, gostava de ler. Ele despertou na gente essa coisa da composição. Nosso contato com o instrumento não era só o afã de tocar um pouquinho mais, passou a ser também o de compor, o de criar melodias. Depois ele fez um programa, Contatos imediatos, a gente ia, gravava, e ele botava no ar. Sempre estivemos muito próximos, embora depois eu tenha ido para Belo Horizonte, ele ficou aqui, depois eu fui para o Rio, ele para São Paulo, mas a gente nunca perdeu esse contato”, devolveu Nosly.
Entre amigos, clientes e amigos clientes, o movimento na Passa Disco
Recife – De passagem por Recife, a trabalho, leio no Jornal do Commercio, um texto de José Teles sobre o lançamento do dvd Vizinho de grito, de Jessier Quirino. O texto me leva à Passa Disco, lendária loja especializada em música pernambucana – mas que vende boa música brasileira em geral – que completará 12 anos de bons serviços prestados no próximo novembro.
O lançamento estava marcado para às 19h. Terminada a atividade de que eu participava na capital pernambucana, dirigi-me para lá, a fim de conhecer a loja e seu proprietário, Fábio Cabral de Mello, 52 – primo do poeta João Cabral de Mello Neto: o pai deste era irmão do avô daquele –, e, com sorte, pegar o autógrafo de Jessier Quirino, o que consegui, embora não tenha sido possível ficar para o recital, já que não podia me arriscar a perder o voo de volta à Ilha.
Além de loja, localizada no Shopping Sítio Trindade (Estrada do Encanamento, 480, loja 7, Parnamirim), a Passa Disco é também um selo, já contando oito títulos no catálogo – sempre pernambucanos para o mundo. Seu proprietário atende os clientes pelo site, facebook e pelo telefone (81) 3268 0888, cujos endereços e número ele diz pausadamente ao fim da entrevista, com o celular ainda funcionando como gravador.
Até a hora de a loja e seus arredores ficarem tomados pelo público de Jessier Quirino, eu ainda daria uma carga no aparelho, compraria discos (óbvio, como bom homem de vícios antigos) e experimentaria uma dose da cachaça Sanhaçu, oferecimento dos novos amigos Paulo Carvalho (que me fotografou com o poeta-cantador) e Luiz Berto, vulgo Papa Berto, editor do Jornal da Besta Fubana – como bons habitantes do Recife, eles chegaram de “greia” o Fábio, perguntando-lhe se a loja tinha algum disco do Calcinha Preta ou coisa que o valha.
O proprietário emoldurado por autógrafos de artistas que já passaram por sua loja
Você tinha um bar e restaurante com os irmãos, se desentendeu e abriu a loja? Me desentendi com os funcionários, não com meus irmãos. Os irmãos continuamos juntos. Eu sou agrônomo, trabalhava com jardinagem. Quando saí do bar fiquei só com a jardinagem, aí depois que eu montei a loja ainda passei um ano e meio, dois anos fazendo as duas coisas, depois só com a loja. Há praticamente 10 anos eu trabalho só com a loja.
O que te fez ter esse estalo?: vou viver de vender música! Já era um grande ouvinte, colecionador? Sempre, sempre! Desde garoto, com 10 anos de idade eu comecei a comprar lp, fita k7, essa coisa toda. O estalo pra isso foi quando Silvério Pessoa lançou um cd sobre Jackson do Pandeiro, o Micróbio do Frevo [2002], fez um encontro com a imprensa, José Teles, Michele Assunção, diversos jornalistas, e me convidou para participar, de gaiato na história. As declarações dele sobre a música, aí os jornalistas comentaram que Recife estava vivendo uma efervescência imensa de música, todo mundo lançando discos, e não tinha uma loja especializada em música. Eu saí dali meio… eu digo que o Micróbio do Frevo me contaminou também. Eu sai de lá com essa ideia, fui para casa dirigindo e pensando. Uns seis meses depois eu concretizei. Foi o tempo de ver abertura de firma, loja, depois eu montei a loja a partir dessa ideia. Esse foi o pontapé inicial.
Micróbio do Frevo foi lançado quase 10 anos depois do boom do manguebeat, ali com Da lama ao caos [1994], de Chico Science [& Nação Zumbi]. Você acompanhou de perto a explosão do manguebeat? É, mais ou menos isso, nessa faixa. Acompanhei. Cheguei a ir a diversos shows de Chico Science. Nessa época do bar, a turma frequentava, Chico não chegou a frequentar por que ele logo viajou.
Como era o nome de teu bar? Era O Rei do Cangaço. Otto, Lirinha [ex-Cordel do Fogo Encantado], Silvério [Pessoa], Lula Queiroga, Lenine, esse pessoal todo, minha permanência no bar nesse período foi importante para a música, para criar laços com essas pessoas. Comecei a vender discos no bar, discos independentes, Lula Queiroga, Josildo Sá, músicos locais, faziam algum evento no bar, levavam discos para vender, não vendiam todos, eu falava “deixa aqui” e comecei.
Às vezes nós temos uma dificuldade de nos distanciarmos quando estamos dentro do olho do furacão. Você já tinha noção da importância que teria o manguebeat? Eu percebi. A coisa foi tão assim, tão forte. Eu sempre acompanhei muito a música de Pernambuco e ficava sentindo a necessidade de um movimento que o Brasil todo tomasse conhecimento, que eu espero que tenha tomado, né? Achava, quando começou, no final dos anos 1970, início dos 80, o grande sucesso de Alceu [Valença], Geraldo Azevedo, Robertinho de Recife, eu achava, “opa, vai ter um movimento!”, por que nunca tinha tido um movimento como teve na Bahia a Tropicália, o Pessoal do Ceará, nunca teve um movimento forte aqui, muito embora, antes deles, Luiz Gonzaga foi o maior de todos, talvez do Brasil, o mais revolucionário, a estética de roupa, de criar estilo, sem internet, sem televisão, sem nada, e ele de ponta a ponta do Brasil conheceram o trabalho dele.
O nome Passa Disco vem de onde? Você também lida com sebo ou só discos novos? Eu tenho um sebo de vinil, mas surgiu depois, uns cinco, ou seis anos depois. O nome Passa Disco foi uma criação de Lula Queiroga. Lula é publicitário, aí eu conversando com ele, eu fazia inclusive jardinagem no escritório dele, e comentei que ia fazer uma loja. Aí ele: “vai fazer uma loja? Legal! Bota Passa Disco!”
Como você avalia esse cenário de derrocada da indústria fonográfica e do próprio formato cd? Eu já comecei com ele quebrado. Quando eu comecei a loja, as grandes lojas do Recife já estavam fechando. Tinha algumas pequenas, algumas ainda permanecem, outras fecharam. Eu já sabia que era difícil. Tanto é que quando eu comecei aqui eu continuei com a jardinagem por que tinha que ter a sobrevivência. Com o passar do tempo foi solidificando e eu fui levando. Ruim deve ter sido para quem, na época, vendia milhares, aí veio a internet, download, deve ter tido uma quebra. Como eu já comecei por baixo…
Que discos da música pernambucana entrariam em um top five particular? Olho de Peixe [1993], de Lenine e [Marcos] Suzano, com certeza. Da lama ao caos. Vivo [1976], de Alceu Valença, qualquer disco de Luiz Gonzaga, qualquer disco de Capiba, são top. Desses que eu acompanhei, vi nascer, estes dois [Olho de peixe e Da lama ao caos]
Você é amigo dessa turma, isso facilita um pouco, não é? É, já no bar comecei, e depois é natural, as pessoas vão se chegando.
Jessier Quirino autografa Vizinho de grito em lançamento na Passa Disco
Hoje haverá o lançamento de Jessier Quirino, e a Passa Disco acabou virando também este ponto de encontro. É possível listar alguns outros lançamentos, mais ou menos recentes, realizados aqui? Acredito que a gente já fez nesse período, a uma média de dois por mês, mais de 100. Fizemos lançamentos de Elba Ramalho, Dominguinhos, Silvério, Geraldo Maia, Maciel Melo. São constantes os lançamentos.
A Passa Disco também é um selo, não é? Sim. A gente lança coletâneas. Desde 2006 a gente vem lançando coletâneas. Já lançamos volume 1, volume 2 e volume 3 de [Pernambuco] Cantando para o Mundo, aí tem dois volumes de Pernambuco Frevando para o Mundo, dois volumes de Pernambuco Forrozando para o Mundo e mais um outro projeto que a gente iniciou, artistas que já lançaram discos, estão esgotados, e a gente faz o relançamento. Começamos ano passado com Josildo Sá. Aí tira o nome, aí fica Josildo Sá Cantando para o Mundo. Vai ser sempre nessas frentes.