Chorografia do Maranhão: Luiz Jr.

[O Imparcial, 4 de agosto de 2013]

12º. entrevistado da série, Luiz Jr. recebeu os chororrepórteres nas instalações do estúdio Sonora, de sua propriedade, que está registrando momentos importantes do atual momento da música do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

A vida de José Luiz Carvalho dos Santos Júnior começa na música: além de ter nascido em berço musical, a pérola de João do Vale pode lhe servir de trilha sonora para a infância: aos quatro anos de idade ele veio De Teresina à São Luís, onde faria história.

Filho do músico e escritor José Luiz Carvalho dos Santos e de Auzair Leite Carvalho dos Santos, ele ainda formou trio com os irmãos Carlinhos Carvalho e Virna Lisi, ele tecladista, ela cantora. Nascido em 1º. de janeiro de 1974, o músico é casado com a jornalista Valquiria Santana, pai de Dandara Liz, 16, e Jean Lucas, 13. Recentemente instalou em sua casa o estúdio Sonora, em que recebeu a equipe da Chorografia do Maranhão para a 12ª. entrevista da série publicada em O Imparcial.

Em seu estúdio também estão acontecendo momentos importantes da música do Maranhão: o Sonora abrigou os ensaios para Milhões de Uns, show em que se registrou ao vivo no Teatro Arthur Azevedo, a estreia do compositor Joãozinho Ribeiro em disco; lá também, atualmente, estão em processo de produção os discos de Célia Maria, Cláudio Leite e Patativa, todos a serem lançados em breve.

Luiz Jr. tem um disco gravado, Instrumental (2009), e já participou de inúmeros trabalhos, entre os quais se destacam Shopping Brazil (2004), de Cesar Teixeira, Canção de Vida (2006) e Samba de Minha Aldeia (2010), ambos de Lena Machado, Emaranhado (2007), de Chico Saldanha, Balançou no Congá (2008, póstumo), de Lopes Bogéa, e Made in Brazil (2009), de Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013]. É o violonista que detém o maior número de troféus no anual Prêmio Universidade FM em sua categoria.

O ambiente em tua casa sempre foi muito musical? Muito, muito. Tenho boas recordações. Inclusive da [cantora] Alcione lá na casa do meu avô. Meu avô era muito amigo do João Carlos [Nazaré, pai de Alcione]. Por que João Carlos fazia parte da banda de música, que ele [seu avô] era o maestro da banda da polícia militar. Então, eles trocavam informações, fizeram até músicas juntos. Meu avô vinha pra cá, ficava na casa dele. Ele também ia lá pra Teresina ficava na casa do meu avô. E quando Alcione foi embora daqui, o primeiro lugar que ela foi, foi prá lá, Teresina e ficou hospedada na casa do meu avô. Lá em casa qualquer motivo era motivo de festa, da gente tocar. Meu avô batia muito nessa tecla: “toca pra mim aí uma música, um choro, não sei o quê”. Ele gostava muito de choro, tem choro inclusive no seu repertório de composição. Então, ouvia muito isso.

Tua infância então foi vivida entre Teresina e São Luis. Você ia e vinha? Como é que era isso? Quando eu vim pra cá, não tocava nada, mas sempre tinha essa influência de ouvir meu pai. E aqui eu comecei, meu pai me levando nos bares da vida com ele, passeando em São Luis, vendo a cultura popular também, eu comecei a pegar violão. Em duas semanas eu tava tocando um monte de música, papai levou um espanto. Nem sabia que eu tava tocando violão. Aí pronto, me colocou debaixo do braço e começou a me levar sempre nas rodas de choro lá do Bateau-Mouche, lá no Monte Castelo, vendo lá o [músico] Zé Hemetério, a turma, o Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], o Gordo Elinaldo, Neres no Trombone.

Bateau-Mouche era o nome do bar? Era. Na feira do Monte Castelo. É por que alagava tudo lá, quando tava rolando choro, caía aquela chuva, alagava tudo que ninguém conseguia sair [risos].

Teu pai dava aulas de música em casa. Como era tua vivência com os alunos? Fale desses dois aspectos: da tua casa enquanto escola de música e da vivência em família. Aconteciam saraus com a família tocando? Eu sempre via meu pai tocando algum instrumento. Quando não era violão, era teclado, numa época em que ele estudou muito piano. Tinha uma época em que ele estudava clarinete direto, depois passou pro sax. Então, sempre a gente teve essa interação, de ouvir algum instrumento em casa tocando. Depois meu irmão começou a tocar, a minha irmã cantava. Eu era o único que cantava lá em casa, aí minha irmã começou a cantar e eu dancei [risos]. Aí eu passei pro violão, depois a gente começou a fazer uma dupla e o Carlinhos começou também a tocar, aí pronto, formou o trio.

Com tantas possibilidades que te eram oferecidas por conta dessa família musical e de teu pai transitar entre tantos instrumentos, por que a tua escolha pelo violão? Como é que se deu essa escolha? Acredito que foi por que era o instrumento mais próximo que tava ali. E também por que eu tinha alguns eventos lá na escola em que estudava. Tinha uns eventos lá e sempre, “ah, o cantor daqui da escola”, me botavam pra cantar no evento lá do Dia dos Pais. Aí eu sempre pedia, “papai, me acompanha lá”, “tá bom, eu vou meu filho”. No outro ano: “papai…”, “meu filho, vai aprender a tocar violão”. Aí, eu peguei essa música que é a música, na verdade foi Dia das Mães [cantarola]: “Ela é a dona de tudo, ela é a rainha do lar…”, aí depois, pronto. Só que o choro foi muito tempo depois já.

Você já teve outra profissão que não a música? Já pensou em fazer outra coisa? Se você não fosse músico, o que você seria? Ninguém. Eu não existiria, com certeza. A música, pra mim, ela tá fincada.

Você está cursando música na UFMA? Sim, terceiro período, licenciatura.

Como é que está? O que você está achando? É um curso novo, tem seus problemas, mas eu tou adorando, por que pra mim tá sendo a realização de um sonho, na verdade. Quando eu morei em São Paulo eu tentei fazer pela Unicamp. Não consegui, porque também não tive muita base em escola, porque quando comecei a tocar, pronto, aí a escola começou a ficar difícil. Então, eu terminei o estudo na marra mesmo, minha mãe empurrando: “vai terminar o segundo grau”, aí eu fui terminar.

Na família todos te apoiaram na escolha de fazer de músico a tua profissão? Ou houve alguém que disse “não, Júnior, vá fazer outra coisa porque ser músico não é o grande barato”? Todos apoiaram assim com relação a essa minha decisão. Eu sempre tive isso na cabeça, mesmo estando ainda na escola, eu já pensava “eu nunca quero ser outra coisa, a não ser um instrumentista, tocar”. E sempre enveredando por uma música de qualidade. Eu curto essa minha vida de músico como a melhor coisa que aconteceu na minha vida.

Você é mais conhecido como violonista, mas tu toca outros instrumentos: o violão sete cordas, guitarra, cavaquinho, viola. O violão é teu instrumento preferido ou hoje você já prefere o sete cordas ao de seis? Por conta de ter montado este estúdio, isso me forçou a tocar outros instrumentos, por conta de produções. Eu tenho pego muitas coisas, muitos discos para produzir, fazer arranjos, então eu tive que realmente cair na guitarra, tocar um pouco de teclado, cavaco também. Mas, o meu violão mesmo, o instrumento que eu gosto mesmo de tocar é o violão sete cordas, o que me dá mais prazer. Principalmente tocando choro, música instrumental.

Você está produzindo vários discos. Pode anunciar alguns? O primeiro disco que eu produzi foi o da OAB [a seccional maranhense da Ordem dos Advogados do Brasil], do aniversário da OAB, com vários intérpretes advogados. Foi o primeiro projeto do estúdio. Aí depois veio o DVD do Roberto Brandão, que ainda vai ser lançado. Aí Patativa, Célia Maria, Joãozinho Ribeiro agora, Cláudio Leite, que a gente tá finalizando aqui, o cd da minha irmã, Virna Lisi.

Estes discos têm um prazo para serem finalizados? Quando é que vão chegar ao mercado? O primeiro da Patativa e o da Célia são dois discos do edital promovido pelo Governo do Estado. No caso da Célia foi pago a parte de gravação, arranjos e músicos; não está previsto prensagem, projeto gráfico e lançamento. Já o de Patativa estão previstas gravação e prensagem. Como eu pensei assim: “vou finalizar o disco da Patativa, entregar pra ela e aí, e o disco da Célia?” São dois projetos que saíram juntos lá da Secma, né? Então eu pensei em juntar esses dois projetos e vou captar pra esses dois projetos e isso vai ajudar, inclusive,  pra prensar o da dona Célia e pro lançamento das duas. Me veio à cabeça essa ideia e eu finalizei o projeto agora pra captação através da Lei de Incentivo, e fazer um grande lançamento. A minha ideia é fazer um lançamento em São Paulo e depois trazer pra cá; e tudo isso requer um pouco de tempo. Fugiu do cronograma de prensagem. O disco, no caso da Patativa, tá pronto. Inclusive, ela colocou a voz aqui, foi numa manhã e de tarde; foi impressionante a forma, eu até perguntava pra ela: “Dona Patativa, a senhora não tá cansada não, a senhora não quer parar? De repente amanhã a gente volta?”. “Não, eu quero é gravar”. Foi ótimo assim, a forma que ela cantou foi espetacular. E pra mim, foi até surpreendente, porque palco é uma coisa e estúdio é outra. A forma que você aplica a voz. Eu não falei praticamente nada, ela cantou da forma que realmente ela canta, foi ótimo. O que eu quero é terminar logo esse trabalho, mas que eu faça uma coisa bem feita, faça um grande lançamento compatível ao nível artístico das duas, que eu acho que são as duas maiores cantoras aqui do Maranhão.

Você é um dos instrumentistas mais requisitados aqui no Nordeste, dirige vários trabalhos, hoje tem um estúdio. Dá pra viver de música com dignidade? Essa é uma pergunta complicada, mas assim, eu acima de tudo amo muito o que eu faço. Nada veio de graça também pra mim. Ralei muito pra ter as coisas, já fiz milhões de estilos de trabalhos; não fiquei só no choro, fiquei também em outros estilos, inclusive até tocando música que não é do meu gosto musical, mais popular, vamos dizer assim, axé, sertanejo… a gente ia tocar. Isso também me deu muita bagagem. Aparece muita coisa [trabalho] pra mim, graças a Deus. E hoje eu tou me dando ao luxo de fazer só show, de produzir discos e tocar. Fazer shows. Saí de bar, toquei 10 anos em bar. Ou seja, dá pra se viver de música.

Dos muitos discos que você produziu, que você participou, qual aquele ou quais aqueles que você teve mais satisfação em fazê-los? Rapaz, é difícil porque todos eles eu encaro como uma aprendizagem, que eu possa crescer como músico instrumentista, até pra entender o que o produtor quer. Se eu estiver dirigindo, buscar entender o que o artista quer, entrar nesse universo de cada artista. E eu me envolvo 100%. Por isso é que acredito que eu tenha conseguido dar um direcionamento mais fiel a cada trabalho. Os trabalhos que me marcaram bastante, foram dois na verdade; um foi o da Cáritas, com a Lena Machado [Canção de Vida, 2006, disco de estreia da cantora, celebrava os 50 anos de atuação da Cáritas no Brasil], que foi depois; o primeiro foi o do Cesar Teixeira [Shopping Brazil, 2004], foi o trabalho que pra mim, eu me lembro assim, eu fico super emocionado, tenho uma admiração muito grande pela obra do Cesar; acho que partiu dali pra que eu tivesse uma visão muito mais ampla.

Acontece de ouvir o trabalho depois de pronto e não gostar? De pensar que não ficou como você queria? Não, porque eu me envolvo tanto com a coisa. Não sei nem como eu posso explicar isso, eu me apego duma forma como se fosse meu. Não me recordo de nenhum trabalho em que isso tenha acontecido. Claro que a gente sempre busca fazer melhor a coisa, mas eu não penso nisso.

Mas você faz autocrítica? Sempre faço. Em primeiro lugar eu procuro escutar as críticas. Inclusive eu busco mais as críticas mais pesadas, eu encaro tudo como uma crítica construtiva, eu busco isso.

Você produz, arranja, dirige e executa. Qual dessas porções musicais que te deixa mais realizado, mais satisfeito? O que te deixa mais feliz dentre essas habilidades todas? É a pergunta mais difícil [risos]. Antigamente que eu só tocava, eu achava que faltava alguma coisa por que eu via meus amigos todos produzindo; eu sou da época do [guitarrista] Edinho Bastos produzindo, [os pianistas] Henrique Duailibe, Marcelo Carvalho. São figuras que pra mim são referências, fizeram uma história muito bonita com relação à nossa música. Mas eu pensava “poxa, porque é que eu não produzo assim?”. Mas, claro que eu era muito novo. Inclusive, Marcelo Carvalho produziu o primeiro disco da minha irmã Virna Lisi e eu fui lá no estúdio, assim, olhar  os caras gravando; os caras eram os tops, a turma que mais gravava, mais tocava aqui em São Luis: o Leônidas no violão, e eu vendo Marcelo Carvalho ali no piano, chamava Eliézio do Acordeom, Jeca na percussão, Fleming na bateria, eu ficava “puxa, será que um dia eu vou tocar com esses caras?” Aí, eu doido pra gravar e os caras “não”, mas deixaram eu gravar uma faixa, graças a Deus! Depois que eu comecei a produzir eu sinto o mesmo amor: de estar no palco tocando, no estúdio gravando, numa mesa de bar tocando, é o mesmo prazer, é impressionante, basta eu ter o instrumento na mão.

Você anda bastante ocupado, estudando, produzindo, tocando em shows. Certamente está recusando trabalhos. Que critério você utiliza para isso? O critério que eu uso hoje é dar um novo direcionamento à música produzida no Maranhão. Dar uma nova cara da música brasileira. É essa a minha busca, de buscar novos elementos, de usar a nossa cultura popular como base, como influência. Dar uma nova cara pra nossa música. Eu não encaro a coisa com relação a ganhar dinheiro, senão eu tava tocando sertanejo, tava com os artistas mais populares, com mais público.

Quando você fala de transformar o Maranhão num novo polo da música brasileira é no sentido de São Luis ser a próxima Recife, por exemplo, de ter um manguebit aqui? No sentido de ter um movimento organizado, que os artistas tenham essa repercussão nacional? Com certeza. De preparar esses artistas, esses talentos que nós temos pra que se crie um mercado em nível nacional, que eu acho que a nossa música já é uma música de muita qualidade, o que a gente produz aqui. Então, é transformar isso como um produto que chegue como uma nova referência, como um novo momento da nossa música.

Quem você pode citar entre esses artistas que precisam ser trabalhados para cumprir essa vocação, essa transformação? Ah, tem muita gente. Tem muita gente. Tem compositores, que são também intérpretes de suas músicas, grandes artistas como o Cesar Teixeira, uma referência; deixa eu ver, aí da nova geração tem a Milla Camões, a Lena Machado, que pra mim tem uma voz maravilhosa.

Dá pra lembrar os grupos musicais de que você já fez parte? O primeiro grupo que eu fiz parte foi um grupo chamado Choque. Era formado, eu, minha irmã cantando e o Carlinhos, meu irmão, no teclado. A gente tocava em tudo que é lugar a gente possa imaginar, Vila Embratel, tocava nos inferninhos ali do João Paulo, toquei muito no Juvêncio. A gente sempre trilhava alguma coisa assim de mais qualidade, Luiz Gonzaga, seresta, Perfídia, Orlando Silva, essa galera, por conta da influência do meu pai. Depois veio a primeira banda de baile, Os Incas, juntamente com Marcos Lussaray. Depois, grupos de samba: Futuro do Samba, Sindicato do Samba, Sambaceuma, Sem Dimensão, que foi o primeiro grupo de samba raiz. Depois entrei no Sindicato do Samba, lá com Gordo Elinaldo. Aí parti pras bandas, Sambauê, Bicho Terra, aí entrei no Barrica. Grupo instrumental fiz parte do Choro Pungado, tinha o grupo chamado Made In Brazil também, que era eu, [o percussionista] Carlos Pial, meu irmão, o Bumba Jazz, o Toque Brasileiro.

O que significou o Choro Pungado para você? Foi uma experiência interessante, a gente poder trabalhar usando os elementos da cultura popular. Isso refletiu muito no meu pensamento de produtor de uma nova música, de uma nova marca, isso me influenciou.

Para você o que é o choro? Qual a importância dessa música, desse gênero para a musica brasileira? O choro é nossa base! Praticamente tudo saiu do choro, tudo teve um pouco de influência do choro.

Você se considera um chorão? Que pergunta! [risos] Eu, no fundo, no fundo, me considero. Por que quando me lembro do ser músico, desse universo todo, eu me lembro das influências que tive, participei muito dessas rodas de choro quando era criança lá no Monte Castelo, meu avó lá também em Teresina, tocando Espinha de Bacalhau [de Severino Araújo] no trompete e eu tentando acompanhar tudo.

Quem é a maior referência no violão no país? Penezzi!  Alessandro Penezzi. Tive uma experiência agora com ele, de tocar com ele, dele improvisar aqui. Também tive uma experiência com Yamandu Costa, uma pessoa genial, um ser humano fantástico. Mas o Penezzi me tocou mais por tudo o que já ouvi dele. Tem o Zé Barbeiro, que tive a honra de tocar com ele lá em São Paulo, é uma pessoa interessante, que além de ser tradicional, é contemporâneo pra caramba, a forma que ele toca, a forma harmônica, e eu me identifiquei com ele assim.

Como foi a experiência de trabalhar com Zeca Baleiro? Foi uma das surpresas mais incríveis que tive na vida. O Zeca é uma pessoa tão maravilhosa, deixa a gente tão à vontade, que a gente conseguiu alinhar os pensamentos e construir muita informação no projeto do Lopes Bogéa e depois do Chico Saldanha. É fantástico, uma experiência única.

Homenagem a João do Vale encerra temporada 2013 do BR-135

O projeto BR-135 encerrou em grande estilo sua temporada 2013. Ontem (17), o Teatro Arthur Azevedo completamente lotado foi palco de uma justa e merecida homenagem ao compositor João do Vale, o maranhense do século XX, que teria completado 80 anos no último 11 de outubro.

A casa certamente registrou um dos melhores públicos desta temporada, esta uma das marcas do projeto pilotado por Alê Muniz e Luciana Simões: por onde passa, o BR-135 leva um bom público.

Outra marca é justamente o diálogo permanente entre gerações, basta ver qualquer lista de convidados para cada edição do projeto, cujo saldo até aqui é positivo.

Nascido em Cururupu e radicado há mais de 30 anos em São Paulo, o cantor, compositor, instrumentista, ator e dançarino Tião Carvalho encarnou o homenageado: seguiu o emocionado roteiro de Andréa Oliveira – biógrafa de João do Vale – e cantou Minha história, Peba na pimenta, O canto da ema e A voz do povo.

O mestre de cerimônias tinha convidados. O roteiro musical fechou-se com Pé do lajeiro e De Teresina a São Luís, interpretadas por Djalma Chaves, Uricuri e Estrela miúda, por Milla Camões, Pisa na fulô e Na asa do vento, por Santacruz, e Carcará e Coroné Antonio Bento, pela banda Vinil do Avesso. Este texto talvez pareça burocrático. O show não o foi, fluindo espontaneamente, o entrosamento dos músicos, os convidados à vontade no palco, Tião Carvalho entre cantor e contador de causos, lembrando diversas passagens da vida e obra de João do Vale.

Se parece óbvia a seleção do repertório, privilegiando músicas por demais conhecidas do pedreirense, não o foram os arranjos, transformando xotes em reggaes – caso das interpretações de Santacruz – e rockificando o voo do Carcará.

Em geral não houve estranhamentos. Milla Camões, por exemplo, botou a plateia para cantar junto em Estrela miúda. A banda, um espetáculo à parte: Alisson Rodrigues (saxofone), Daniel Miranda (trombone), Hugo Carafunim (trompete), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra), Nataniel Assumpção (bateria) e Rui Mário (sanfona e teclado). Da plateia às galerias era possível ver, aqui e ali, entre sentados e em pé, muita gente arriscando uns passos, acompanhando a energia irradiada do palco.

O final apoteótico reuniu a todos – mais os anfitriões Alê Muniz (que havia subido ao palco para uma participação especial ao violão em Carcará) e Luciana Simões, além de membros da equipe de produção. Foram aproximadamente 1h30min de um show que deixa saudades – inclusive uma saudade temporária do projeto, que volta ano que vem, nos trazendo coisa boa, sabem Deus, Alê e Lu o quê.

Alexandra Nicolas encerra Jornada de Fonoaudiologia do Uniceuma

[release]

A cantora, ex-coordenadora do curso de Fonoaudiologia da instituição, falará a estudantes e interessados sobre a profissão no encerramento da jornada

Fonoaudióloga de formação, a cantora Alexandra Nicolas falará de seus ofícios a estudantes do Uniceuma

“A voz do dono e o dono da voz”. Até a próxima sexta-feira (18), o curso de Fonoaudiologia do Uniceuma toma emprestado o título da canção de Chico Buarque – gravada por ele em Almanaque, seu disco de 1981 – para dar nome à sua XII Jornada Acadêmica de Fonoaudiologia, evento realizado anualmente pela instituição.

Diversos profissionais participarão do evento, cuja programação inclui palestras, mesas redondas, debates e minicursos. O encerramento terá a participação da cantora Alexandra Nicolas, fonoaudióloga de formação, que coordenou o curso de Fonoaudiologia do Uniceuma por quatro anos.

“A ideia é conversar com os estudantes abordando minha carreira como fonoaudióloga e a nova carreira que abracei, de cantora”, explica Alexandra sobre sua participação na jornada. “É interessante voltar à universidade depois de cinco anos. Cinco anos após ter deixado uma carreira para investir em outra”, emociona-se.

História – Era Alexandra Nicolas quem estava à frente do curso de Fonoaudiologia do Uniceuma quando o mesmo obteve o reconhecimento do Ministério da Educação (MEC), necessário ao funcionamento, o que ela revela considerar uma das grandes vitórias que teve na vida.

Ela falará aos estudantes e demais interessados dia 18 (sexta-feira), às 11h, no Auditório Expedito Bacelar, no Uniceuma Renascença. Sobre a participação, a profissional da voz – antes como fonoaudióloga, agora como cantora – imagina que será um momento de grande responsabilidade e descontração: “Será como voltar no tempo, bem emocionante”, acredita. “Embora eu não descarte o lado polêmico da participação: terei que explicar diante de todos os estudantes o porquê de ter deixado a profissão, ao mesmo tempo em que devo motivá-los a permanecer, o que farei, com uma única ressalva: que eles não estejam em conflito com a arte”, afirma, de certo modo já antecipando explicações.

Ofícios – Alexandra Nicolas trocou de profissão, mas a voz continua sendo seu principal instrumento de trabalho. Ela comenta em que medida uma ajuda a outra: “A fonoaudióloga só a ajuda a cantora, em absolutamente tudo. É um domínio geral do aparelho vocal. Você canta e consegue visualizar e entender todo o processo, excelente pra ter medidas fáceis e suporte para facilitar o canto”. Já a se todo/a fonoaudiólogo/a daria um/a bom/boa cantor/a, ela é taxativa: “Não! É preciso dom, musicalidade e principalmente ser devoto da música de verdade”.

Perguntamos-lhe ainda se havia o risco de uma canja surpresa, presente ao público presente – redundância intencional: “Tudo é possível, quem sabe”, finalizou sorrindo. (Por Zema Ribeiro)

BR-135 canta João

Alê Muniz e Luciana Simões, o casal Criolina, foram bastante aplaudidos, sobretudo nas redes sociais – o que inclui este blogueiro –, pela aparição, competente e emocionante, sábado passado (12), no Som Brasil dedicado ao público infantil na Rede Globo.

Mas esta dupla merece aplausos por muito mais. Já há algum tempo eles capitaneiam, por exemplo, o projeto BR-135, iniciativa louvável, entre outras, por duas razões: primeiro, o fomento a uma cena autoral e de qualidade, a organização de artistas e o botar pra fazer, acabando com aquele chororô de “falta palco”, “ninguém me apoia”, “não tem plateia” etc., que por vezes acomete parte de nossa dita classe artística, sobretudo no campo musical – que contraditoriamente é o mais apoiado, se compararmos, por exemplo, com o povo do teatro ou das artes plásticas, para ficarmos em poucos exemplos, mas esta é outra discussão e este post não tem este objetivo; segundo, pela reverência ao que vem antes desta cena que o BR-135 – e o Criolina – ajuda(m) a consolidar.

Acertadíssimos os tributos já realizados aos 35 anos do disco Bandeira de Aço, o primeiro em maio passado no Teatro Arthur Azevedo, o segundo no último 6 de outubro, na Praça Nauro Machado, no encerramento da 7ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS). E agora me vêm com essa: uma merecidíssima – perdoem aí os superlativos – homenagem ao nada menos que genial João do Vale, que teria completado 80 anos – e eu achando que seriam 79, gracias Andréa Oliveira, Benedita Freire e Wilson Marques! – no último 11 de outubro.

João do Vale 80 anos será o último show do BR-135 em 2013. O espetáculo acontecerá nesta quinta-feira (17), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, com a seguinte seleção escalada para atacar com o repertório do autor de Carcará e tantas outras pérolas: Tião Carvalho, Djalma Chaves, Milla Camões, Santacruz e a banda Vinil do Avesso. O primeiro, que em 2006 dedicou o álbum Tião Canta João [Por do Som] ao repertório do pedreirense, será o mestre de cerimônias. Os ingressos poderão ser trocados na bilheteria do teatro, na data do show, a partir das 14h, por um quilo de alimento não perecível.

Painel na Vila Palmeira batiza de João do Vale Tião Carvalho

Louvo a iniciativa. Eleito o maranhense do século XX entre o fim daquele e o início deste, João merece a lembrança e certamente aprovaria a homenagem. Ajuda a reparar erros como o do muro do Parque Folclórico da Vila Palmeira, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), onde se vê uma foto de Tião Carvalho e lê-se João do Vale logo abaixo. Ambos são artistas negros, nascidos no interior do Maranhão – Tião é de Cururupu – e inegavelmente talentosos. As semelhanças são muitas, mas nada que justifique o vacilo da oficialidade.

Original desde o batismo, o BR-135 pega emprestado o nome de nossa única via de entrada e saída por terra da Ilha. Que o casal Criolina continue trilhando-a e ajudando a construir outras pontes musicais.

Como é que se diz eu te amo

[O Estado do Maranhão, Alternativo, ontem]

10 coisas que eu podia dizer no lugar de eu te amo, um disco sobre o amor que foge da pieguice

Kléber Albuquerque escreve e canta o amor sem soar cafona

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

As 10 coisas que eu podia dizer no lugar de eu te amo [Sete Sóis, 2012] são, na verdade, 14, este o número de faixas do novo disco de Kléber Albuquerque, um de nossos mais interessantes compositores da atualidade.

O repertório, inteiramente autoral, é quase todo inédito – Kléber recria Tevê, parceria com Zeca Baleiro, gravada por ele em O coração do homem bomba, e Devoluto, parceria com Sérgio Natureza, homenagem a Celso Borges, gravada em Música, livro-disco do poeta, de que ambos participam – aqui o reencontro de Kléber e Baleiro, que canta nas duas regravações. Outros parceiros que comparecem são Sérgio Lima (Brincadeira de amor), Lúcia Santos (All Star e Terra do Nunca) e Gabriel de Almeida Prado (Sujeito objeto). Elaine Guimarães divide com ele os vocais em Vazante – momento sublime, de versos como “lágrima/ água com navalha/ migalha de mar/ mágoa é água parada”. Entre os músicos André Bedurê (contrabaixo), Michelle Abu (percussão), Ricardo Prado (teclados) e Rovilson Pascoal (guitarras).

É um disco sobre o amor, o que entrega o título e o colorido florido da chita (maranhense?) da capa – o próprio Kléber assina produção musical e projeto gráfico, este com Vivi Correa –, mas fugindo do piegas. “Essa tal de poesia/ é coisa que vicia/ e maltrata o coração/ faz rimar fel e folia/ faz amar quem não devia/ dá rasante na razão/ mas em comparação/ com outras profissões/ vê mais sol/ vê mais lá/ vê mais dó”, canta em Maquinário, sobre o próprio ofício.

Nem só de amor vive o artista, que brinca com gramáticos e dicionaristas em Sujeito objeto: “Ei, Pasquale/ por que o andar dessa menina/ sempre rouba palavras da minha boca?/ Ei, Aurélio/ por que o olhar dessa garota/ planta versos na minha cabeça oca?/ Michaelis/ então me diga o motivo/ de tantos adjetivos”. Quer dizer, é sobre o amor, sim. Tevê é sarro com a sociedade consumista: “comercial de xampu/ cerveja e celular/ mentiras para crer/ e credicard”. No fundo, é também sobre o amor, aquele amor-preguiçoso esparramado no sofá da sala.

São 15 anos de carreira, inaugurada em 1997 com 17.777.700. 10 coisas é o sexto disco de um dos compositores preferidos de nomes como Ceumar e Rubi, para ficarmos em duas das melhores vozes que já o interpretaram. São mais de 15 anos dedicados à música, que o amor ao ofício não começa no disco. A continuar nestas trilhas, o número de apaixonados por Kléber Albuquerque e sua obra só tende a aumentar.

Com Tributo ao Bandeira de Aço, termina hoje a #7felis

A 7ª. Feira do Livro de São Luís termina hoje, após 10 dias (incluindo este domingo) de intensas atividades nos mais diversos espaços da Praia Grande.

Às 21h, na Praça Nauro Machado, diversos artistas relembrarão as nove faixas do antológico disco gravado por Papete para a Discos Marcus Pereira, em 1978, ocasião em que pela primeira vez foram gravadas em disco músicas de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe.

É um bis do show apresentado em maio passado no Teatro Arthur Azevedo.

Chorografia do Maranhão: Zeca do Cavaco

[O Imparcial, 21 de julho de 2013]

“A vida é a arte do encontro”, já ensinava o centenário Vinicius de Moraes. 11ª. entrevista de Chorografia do Maranhão marcou o encontro casual de Cesar Teixeira com um dos seus maiores intérpretes, Zeca do Cavaco, entrevistado pelos chororrepórteres no quiosque-bar de Dona Lulu, em pleno burburinho da Feira da Praia Grande

 

TEXTO: CESAR TEIXEIRA, RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

“A resistência Tira-Teima se apresenta toda sexta-feira no Brisamar Hotel, na Ponta d’Areia. Começa às 19h30min e vai até 22h30min”, anuncia Zeca do Cavaco, indagado, a quem interessar possa, quando e onde vê-lo e ouvi-lo.

A 11ª. entrevista da Chorografia do Maranhão foi marcada por uma feliz coincidência: na Barraca do Corinthiano, na Feira da Praia Grande, combinaram os chororrepórteres de se encontrar. Ali encontraram, bebendo uma “temperada”, o jornalista e compositor Cesar Teixeira, que acabou somado ao time.

“Se fosse combinado não daria certo”, afirmou Zeca do Cavaco, cumprimentando o ídolo confesso, de quem é, depois do próprio, o maior intérprete, na opinião modesta da chororreportagem.

A ideia era procurar, naquela quinta-feira abafadiça, um ponto silencioso na Casa das Tulhas, ou ir entrevistar o cavaquinho centro do Regional Tira-Teima noutro ponto da Praia Grande.

Nem tão silenciosa assim, acabaram conversando no quiosque-bar de dona Lulu, feirante simpática que regou a ocasião com cervejas geladas, como era merecido.

José Cândido dos Santos Silva, o Zeca do Cavaco, nasceu em São Luís em 11 de março de 1960. Mais precisamente no Monte Castelo, bairro em que começou a formar-se o chorão que não se considera. É filho dos já falecidos Jaime de Oliveira e Silva, militar, e Carmina Maria dos Santos Silva, doméstica.

Ao longo da entrevista, Zeca do Cavaco ainda tocou Sapo já foi na Lua (Cesar Teixeira), Adeus, batucada (Sinval Silva) e Das cinzas à paixão (Cesar Teixeira). Ao final, Zeca e Cesar, com este ao cavaquinho, cantaram juntos Folhas secas (Nelson Cavaquinho).

Além de músico, você tem outra profissão? Sou engenheiro eletricista de formação, é com o que sustento a família, é minha profissão. A música é minha paixão.

Quando começou essa paixão? Eu fui aluno da antiga Escola Técnica, depois Cefet, hoje Ifma. Lá, em 1976, eu tinha um irmão, já falecido, ele ouvia muito choro, Nelson Gonçalves, Paulinho da Viola. Aquilo ali já acendeu em mim o gosto por aquele tipo de música, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim… Foi ali que eu tive contato com o disco Vibrações, do Jacob, aquela maravilha de disco, e por aí vai. Ele tinha alguns amigos que já mexiam com música e a gente sempre estava perto. Mas, na verdade, comecei ouvindo. Depois é que comecei a conhecer as pessoas. Na [rua] Raimundo Correia, eu tinha um amigo, Zé Carlos, hoje pandeirista do Tira-Teima, ele fazia parte de um grupo em que ele tocava com [o violonista] Mascote. Eles tinham uma roda de samba na Vila Passos e o Mascote descia da Vila pro Monte Castelo, ali pra Raimundo Correia e iam tocar. E ali eu ia vê-los tocando e me admirava daquilo. Só ouvia e me arriscava uma coisa ou outra ao violão.

E quando foi que você começou a pegar em instrumento e a cantar? Ali já com 17 anos, em 77, eu comecei a pegar o violão e fazer ali os primeiros acordes, aquela coisa de principiante… A casa do sol nascente [The house of the rising sun, cuja versão em português teve intérpretes como os Agnaldos Rayol e Timóteo].

Você teve algum professor? Nenhum.

Sempre autodidata? Sempre autodidata. Mais tarde, com o conhecimento do choro, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, ouvindo muito, é que eu me apaixonei pelo cavaquinho. Aí eu comecei a dar as primeiras palhetadas, e não parei mais. Daí pra frente fui só conhecendo as pessoas e olhando. A primeira oportunidade que me deram de participar de um grupo, não de choro, de samba, em que se tocava Geraldo Pereira, Ataulfo Alves, Noel Rosa, foi Mascote. Finado Mascote. Quem conhece a Vila Passos conhece Mascote, tocava violão de seis cordas, vocalizava, era uma figura! E ali tinha um cavaquinhista conhecido nosso, o Raul, que por um motivo ou outro se afastou do grupo. Aí Mascote me chamou. Eu ali ainda com três acordes, quatro acordes, fui pra casa dele, e ele começou a me passar coisas, acompanhamentos. Ali foi o começo.

Em teu universo familiar, além do teu irmão, teus pais te incentivaram à música? Nenhum incentivo. Só comigo mesmo.

Mas também nenhum desincentivo… Não, não. Nenhum. Eu aprendi olhando, arriscando, ouvindo. Às vezes a gente começa a pegar as informações e, de repente, cria uma própria personalidade instrumental, vamos dizer assim. Ninguém toca igual a ninguém.

A que se deveu a escolha pelo cavaquinho? A escolha pelo cavaquinho se deveu, e se deve, não é?, ao meu contato com o chorinho, o conhecimento que eu tive. Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, esses discos, e outros discos de cantores que se acompanhavam de regionais, como Nelson Gonçalves, Paulinho da Viola e outros.

Você já tinha conhecimento do Regional Tira-Teima? Não. Eu tive conhecimento do Tira-Teima através de um disco do Chico Maranhão chamado Lances de Agora. Aquele disco pra mim também foi um grande professor. Eu escutava muito e olhava naquele encarte Adelino Valente, Ubiratan Sousa [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Paulo Trabulsi, Chico Maranhão, Vanilson, um flautista que foi embora daqui. Então ali eu lia Tira-Teima, mas só muito tempo depois é que eu fui ter contato com Paulo Trabulsi, a primeira pessoa do Tira-Teima com que eu travei amizade, conhecimento, por conta da música.

O Tira-Teima parece uma referência para o choro no Maranhão. Você concorda? O Tira-Teima é uma referência e mais importante: é uma bandeira. É uma baita de uma bandeira. Os grupos se formam, se reformam, várias formações, e o Tira-Teima está lá. Nós, enquanto Tira-Teima, eu vou falar por mim e pelos outros, a gente tem essa responsabilidade e sabe que tem. Daí o grupo não se desfaz, se renova, e está aí.

Nós já entrevistamos Ubiratan, que é de uma das primeiras formações do grupo, e já entrevistamos Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], da formação atual. Ambos falaram do processo de gravação do primeiro disco do Tira-Teima, até que enfim. Vocês vão deixar essa bandeira hasteada ou vão deixar a bandeira arriar? Não, a bandeira está hasteada. Já se tentou hastear várias vezes, já se chegou a meio mastro, aí bate o vento. O mastro tá fincado e a bandeira tá amarrada, é só uma questão de deflagrar o processo. Não tem mais volta: o Tira-Teima tem que fazer um registro!

Quem é o instrumentista que mais te influencia? Eu, particularmente, sou assim apaixonado por um sambista, que é o Paulinho da Viola, eu escutei muito, tem em mim muito da influência dele.

Ele é sambista e chorão. Sambista e chorão, uma grande figura da música brasileira.

Zeca, você já falou de sua porção instrumentista, primeiro o violão, depois o cavaquinho, que te deu sobrenome artístico. E o canto, quando foi que você começou a cantar? A história do intérprete já vem depois. Eu só vou completar um pouco mais para não cometer o pecado de não esquecer alguém ou alguma informação. Naqueles encontros da Vila Passos foi que eu conheci Solano, ele também começando no violão de sete cordas. A gente se identificou, ele gostava muito do Cartola e eu já cantava um monte de coisas do Cartola, eu tinha dois discos e cantava os dois de cabo a rabo, e por isso a gente travou uma amizade. Vamos voltar para a Raimundo Correia. Lá, no bairro do Monte Castelo, eu conheci ainda uma figura ímpar: seu Zé Hemetério. Eu conheci o Gordo Elinaldo, sete cordas, e por conta de Gordo eu conheci Zé Hemetério, que era professor dele. Pra lá desciam Biné Gomes, filho de seu Nuna Gomes, Bastico, e se criou ali uma forte célula de choro. Começaram a aparecer o bandolinista Carequinha, que tocava com o violonista Luiz Sampaio, depois apareceu Paulo Trabulsi. Ali foi um negócio forte de choro, e de samba. Mas nós estamos nos atendo mais ao choro.

Era o quê? Era uma quitanda? Era um bar, chamado Ângelo. O quê que era o Ângelo? Era um carioca, que tinha um restaurante de luxo lá no Calhau. Ele talvez tenha sido pioneiro nessa história de você entrar no restaurante, tem aquele moço de terno, tinha um piano-bar. Mas, por um motivo ou outro, ele faliu. O nome do restaurante era D’Angels, salvo engano. Ele saiu da elite e veio para a Raimundo Correia, alugou um negócio ali e botou um boteco fino, a que não estávamos acostumados. Ali se reuniam as pessoas. Mais tarde o professor Zé Luiz [saxofonista] começou a frequentar também, já trazia [o violonista] Luiz Jr., garoto, acompanhava [a cantora] Virna Lisi, irmã dele. Aos sábados se reunia aquela roda: Gordo, Biné, Solano, Chiquinho, um violonista sete cordas que já se foi… às vezes Agnaldo [Sete Cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Então, virou aquela coisa.

A gente falou do primeiro disco do Tira-Teima e sabemos que algumas faixas serão cantadas. É por que no Tira-Teima a gente sempre trabalhou assim, a nossa cara é essa: a gente toca o choro, executa o choro e canta o choro, por que tem os choros cantados. A gente é isso. Eu vou cantar duas, Léo Capiba vai cantar duas, e o resto choros autorais, de Paulo, Solano, seu Serra [de Almeida, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] da flauta.

O disco do Tira-Teima é importante, mas não vai suprir tua porção cantor. E teu disco? Eu quero gravar só inéditas. As pessoas regravam, tudo bem, é importante. Mas quero fazer com 10 músicas, gravando só inéditas. Já pedi música pra Cesar, estávamos até conversando sobre isso. Vai haver. Vamos fazer o registro.

Você já viveu de música? Já. Uma época da minha vida os dividendos da música eram muito bem vindos. Mas já passou e tá tudo certo.

De que grupos você já participou? Do regional de Mascote, um grupo que foi formado por mim, Biné Gomes, Gordo Elinaldo e Zé Carlos, que o Biné colocou, naquela impetuosidade dele, “Conversa de Gente Grande”. Ele botou esse nome, a responsabilidade é dele [risos]. Depois a gente formou outro grupo, eu, Gordo Elinaldo, Zé Hemetério, que ora tocava o bandolim, ora tocava o violino, e pela percussão ora passava o Marciano, ora Zé Carlos. Não nomeamos esse grupo, mas tocamos muito.

Existem sambistas que te influenciaram a cultura musical daqui do Maranhão? Cristóvão Colombo da Silva, Antonio Vieira, eu estou do lado de outro, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Chico Saldanha. Essa turma já deu muito de si pra gente, e ainda tem muito que dar. Tá todo mundo trabalhando a música.

Este parece ser um momento interessante para o resgate de alguns nomes esquecidos de nossa música, além de Cristóvão, como Luís de França, Veríssimo, Sapinho, entre outros, por meio do seu trabalho. O que você acha? Eu lamento não conhecer, até por que eu não sei nem se existe esse material ou se está só na memória de algumas pessoas. Eu realmente não sei onde beber dessa fonte, eu não sei onde está essa fonte. Mas se soubesse seria uma coisa sensacional.

Vamos trabalhar em cima disso? Vamos! Conheço todos de nome, mas não sei onde buscar.

E para disco, shows e o repertório cotidiano, tocar em casa, nas casas dos amigos, qual é a fonte em que você bebe? Como eu ouço muito, já há muito tempo, eu geralmente bebo lá atrás. Ano passado, na época do mês de aniversário de Noel Rosa, eu fiz um projeto chamado Dezembro de Noel, e eu gosto muito de Noel, então, eu achava que sabia alguma coisa de Noel Rosa. Quando eu fui pesquisar, é muito… É uma coisa assim, entendeu? Conseguimos mostrar. Quem sabe nesse dezembro agora a gente não repita? O show está ensaiado, todo bonitinho, todo escrito. A fonte que eu bebo é essa, são os grandes sambistas, os artistas de música popular brasileira. Eu não ouço só samba, eu ouço tudo, choro, todos os ingredientes.

Há gente da nova geração que te chame a atenção? Tem. Não sei se a gente pode chamar de nova geração. Por exemplo, eu não falo mais em nível local, não se fala mais em MPM, a gente até aboliu isso, né? Cesar Teixeira, Josias Sobrinho… A gente tem certo, eu não diria nível de exigência, mas um gosto, que a gente acha que é bom gosto. Mas a gente é um pouco seletivo. Está se fazendo muita coisa por aí, adoidado, com aquela sede de chegar ao sucesso. Há quem me chame a atenção como intérprete, como compositor, não. Ou estou ouvindo pouco o novo.

E quem te chama a atenção como intérprete? De samba, de cantor de samba… de cantora, por que o Brasil é um país de cantoras. Se você vir, estão surgindo várias cantoras. Roberta Sá é um bom gosto, Mariene de Castro, Mariana Aydar.

De que discos você participou? Eu participei de um disco, lá atrás, do Serrinha & Cia. [Na palma da mão], eu gravei a música de Cesar, Das cinzas à paixão. Eu acho que a música se tornou conhecida ali, eu fui muito feliz, as pessoas gostaram, começaram a cantar. Eu participei de um disco, Antoniologia Vieira [vários intérpretes cantando músicas de Antonio Vieira], produzido pelo Adelino Valente, cantando uma música chamada Vou pro mar. Isaac [Barros] me chamou pra cantar um samba num disco dele, o Samba pra Rosana.

Existe uma aura positiva, um espaço para o samba do Maranhão? Existe um coração mais coletivo ou as pessoas continuam trabalhando o samba individualmente? Eu acho que hoje a gente está carente desse espaço, o Tira-Teima que o diga. Antigamente a gente saía, procurava um bar, sentava ali, e tocava o samba. Tá aqui, o exemplo está acontecendo aqui [aponta na direção de onde vem a música brega que, tocada em alto volume, ocupa as barracas próximas]. Então hoje, a gente se sente bem na casa da gente, na casa de um amigo, onde a gente sabe que as pessoas vão acolher a nossa música, o nosso jeito de tocar, o nosso repertório. Fora isso…

Pra você, o que é o choro e qual a importância desse gênero para a música brasileira? Eu costumo dizer que o choro nunca foi sucesso. A origem do choro, se a gente for buscar uma origem histórica que vocês conhecem, começa com a invasão portuguesa. Historicamente é isso, todo mundo conhece. Nunca foi sucesso, nem no tempo em que se vendiam partituras na feira, Antonio Calado, Chiquinha Gonzaga… Olha de onde viemos e onde chegamos! Nunca foi sucesso, por que naquela época era discriminado e rechaçado, nunca vai ser sucesso, mas sempre vai ser eterno. Pode até ser chamado de gênero marginalizado, no sentido de que está sempre ali à margem, passa ali aquele monte de coisas que vão, criam mais um ritmo, mais um sucesso, e vão embora. E o choro tá ali. Quero lembrar uma época, faço um filme, uma novela, uma série de época, aí vão buscar os chorinhos, tudinho.

Nunca vai ser sucesso e sempre foi à margem. Então qual a tua pretensão ao fazer choro? Nenhuma. Só perpetuar a música, só continuar trabalhando essa coisa, para ela continuar ali. É eterno, vai embora. E o que tá aqui pelo meio, o turbilhão de sucessos, vão e vêm, vão e vêm, e acabou.

Como é que você percebe o choro hoje no Brasil? Mudou um pouco. Evoluiu. O choro tinha aquela formação tradicional, cinco, seis músicos, às vezes dois violões. Começaram a se formar os músicos virtuoses e o choro foi evoluindo com isso. Antigamente a gente tocava Doce de coco [de Jacob do Bandolim] com um regional de seis pessoas. Hoje os músicos, graças a Deus, evoluíram tanto, que hoje se juntam dois e tocam tudo. Evoluiu nesse sentido.

Você se considera um chorão? Não, eu sou uma pessoa que gosto de choro.

Você é um cavaquinhista centro. Qual é o cavaquinhista que mais te influenciou? A gente toca, a gente é uma mistura, uma reunião de um monte de coisas. Tive a influência de Paulinho da Viola, Jonas [do Conjunto Época de Ouro]. Escutei muito aqueles discos de Jacob do Bandolim, Época de Ouro, muitos sambas de Paulinho da Viola. Hoje eu gosto muito do centro de Luciana Rabello, muito bonito, também. Essas pessoas todas me influenciaram.

Algum jovem da nova geração do choro que te chama a atenção? Vários. Hamilton de Holanda, Danilo Brito. Violonista a gente tem vários, o próprio Yamandu Costa, Alessandro Penezi, que a gente teve a oportunidade, enquanto Tira-Teima, de abrir o show que ele fez no Barulhinho Bom, Marcelo Gonçalves, e por aí vai. Mas a gente tem aqui também nossa resistência, nossos virtuoses, Solano Sete Cordas, Gordo Elinaldo, Paulo Trabulsi, [João] Neto da flauta, João Eudes, Luiz Jr., Robertinho [Chinês, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Wendell, Tiaguinho.

Existe choro maranhense? Um repertório de choro maranhense? Ou é tudo muito ocasional? Acho que a gente ainda não pode dizer isso, ainda não podemos dizer isso, mas vai ter. Tem choros de ocasião, alguém faz ali, outro faz aqui, mas acho que daqui pra frente a gente vai ter. Já se começou a trabalhar nesse sentido. O Zezé Alves [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] produziu um livro de partituras, com um disco. É uma iniciativa brilhante e considero aquilo um começo, outras virão. Começou o caminho. Daí a ideia do Tira-Teima de fazer um disco todo autoral.

Quando você chegou, cumprimentou Cesar Teixeira como um ídolo, que também é nosso. Em que ocasião você o conheceu? Na verdade eu comecei a conhecer Cesar através de suas músicas, conheci sua arte. Muito depois a gente começou a travar, a conviver etilicamente, se encontrar, conversar, tocar. Uma vez eu fiz no antigo projeto Clube do Choro Recebe um show cujo repertório era de Cesar e Noel, uma de cada. Cesar é importante, tudo o que ele faz é maravilhoso.

Ponto BR na Nauro Machado hoje

Sabem quando uma ruma de mestres se junta pra fazer coisa  boa? Quem já viu o show ou ouviu o disco do Ponto BR sabe exatamente do que tou falando. Uma ideia? Se você acessar o site do coletivo e seu computador tiver umas caixinhas de som, é por aí…

A trupe é formada por Éder “O” Rocha (ex-Mestre Ambrósio), Henrique Menezes (Casa Fanti-Ashanti), Humberto de Maracanã (bumba meu boi homônimo), Renata Amaral (A Barca), Thomas Rohrer (A Barca), Walter França (Maracatu Nação Estrela Brilhante) e Zezé Menezes (Casa Fanti-Ashanti).

O grupo já conta mais de 10 anos de estrada, formado a convite do Festival Wemilere, em Guanabacoa, Cuba. Lançaram o cd Na Eira e também fizeram shows em São Paulo e na Turquia.

Melhor Grupo Regional na edição 2012 do Prêmio da Música Brasileira, o Ponto BR se apresenta hoje (27), às 21h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), com participações especiais de Dindinha Menezes e Ribinha de Maracanã. Estão em turnê pelo país, selecionados pelo edital Natura Musical.

Tiago Máci no Som Poente de hoje

O cantor, compositor e desenhista Tiago Máci desfila seu talento hoje no Som Poente, projeto interessante recentemente inventado pelo Sesc/MA, cuja edição de estreia levou ao palco Marcos Magah.

Máci é compositor de obra original, embora não se esforce para esconder referências, o que muita gente de nariz empinado e talento inversamente proporcional às vezes procura fazer. Sua Mete o amor, forte, que conheci numa edição do Sebo no Chão, no Cohatrac, alude a Met(amor)fose, de Cesar Teixeira (que desenhado por ele está caricaturado num ímã na porta de minha geladeira), uma referência sua ao lado de nomes como Sérgio Sampaio. Outro dia cheguei à UFMA e lá estava Tiago Máci numa roda, ao violão, com Bigorna no trompete, atacando de Que loucura!, do capixaba.

Seu Samba do Fuleiro é hit na internet e merece sê-lo nas rádios também. Quem ainda não o ouviu nem ouviu falar tem na chance de hoje uma boa pedida.

Toca Raul!

(OU: PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE ROCK IN RIO)

Talvez para evitar o grito tradicional que dá título a este post, Bruce Springsteen entrou atacando de Raul Seixas.

O nascido nos Estados Unidos, nas ruas da Filadélfia, rendeu-se à Sociedade Alternativa.

E que puta banda essa E. Street, hein?

Então, foi assim? Programa de rádio apresenta histórias de criações de Josias Sobrinho

Radialista entrevistou o maranhense quando de sua passagem por Brasília com o circuito Dobrado Ressonante

Josias Sobrinho e Chico Saldanha durante apresentação de Dobrado Ressonante no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís

Pesquisador incansável do choro e da música brasileira, o radialista paraense Ruy Godinho capitaneia há tempos dois importantes programas que muito têm colaborado com a difusão de obras de qualidade: Na Roda de Choro vai ao ar aos sábados, meio dia, pela Rádio Câmara e tem retransmissão de 162 emissoras espalhadas pelo Brasil; Então, foi assim? é transmitido aos sábados às 18h pela Rádio Nacional e é repetido ao longo da semana por mais de 200 rádios do país.

O primeiro, como entrega o título, dedica-se ao mais brasileiro dos gêneros musicais; o segundo conta histórias de canções, de como foram feitas determinadas obras primas da música brasileira. Já há dois volumes do trabalho reunidos em livro.

Aproveitando a passagem do Circuito Dobrado Ressonante pela capital federal, o radialista aproveitou para entrevistar Josias Sobrinho e Chico Saldanha. O programa com o primeiro vai ao ar neste sábado (21, frisando: às 18h, na Rádio Nacional FM, para ouvir ao vivo basta clicar neste link da rádio). As histórias contadas por Chico Saldanha irão ao ar em breve (este blogue avisará).

Na conversa com Ruy Godinho, Josias Sobrinho conta as histórias de um punhado de clássicos de sua autoria: As ‘perigosa’, Engenho de flores, Rosa Maria e Nosso neném.

30 anos de Fulejo

[No Vias de Fato de setembro, já nas bancas]

Hoje raro, disco de Dércio Marques tem primeira gravação de Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira – Erivaldo Gomes era o percussionista

ZEMA RIBEIRO

Um violão sobre uma cadeira, em frente à porta da casa que dá para um jardim. A capa do disco entrega o conteúdo, e seu título a festividade ali contida: Fulejo [Copacabana Discos, 1983], de Dércio Marques, é obra importantíssima da música brasileira e completa 30 anos neste 2013. O trabalho tem a participação de Doroty Marques, irmã do menestrel, e merece ser mais e mais ouvido.

É um disco que merece ser festejado também – ou principalmente – em terras maranhenses: ele contém a primeira gravação de Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira, com direito a percussão de Erivaldo Gomes e arranjo de Ubiratan Sousa. No disco, a música é dedicada a Chico Maranhão.

O menestrel durante apresentação no Sr. Brasil de Rolando Boldrin

Mineiro de Uberaba, filho de pai uruguaio, Dércio Marques estreou em disco em 1977, com Terra, Vento, Caminho, lançado pela Discos Marcus Pereira, a mesma que no ano seguinte brindaria o público com Bandeira de Aço, de Papete, com repertório assinado por Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe.

Inspirado pelas raízes musicais brasileiras que pesquisava, Dércio mostrou em Fulejo a influência das congadas mineiras, embora o disco fosse, como sua obra em geral, bastante diverso. Além da citada Namorada do Cangaço, são de seu repertório Mineirinha (Raul Torres), O pinhão na amarração (Elomar) – que ele defendeu em um festival da Rede Globo em 1980 –, Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo), Você vai gostar (Casinha Branca) (Elpídio dos Santos) e Disco Voador (Palmeira). Uma descuidada reedição em cd alterou a ordem das faixas – não sei se esta sorte é pior que a não reedição dos discos que Chico Maranhão lançou pela Marcus Pereira.

Falecido em 26 de junho do ano passado, no pós-operatório da retirada de pâncreas, baço e vesícula, Dércio Marques deixou 10 discos gravados e apresentou-se ao lado e foi parceiro de muita gente: Diana Pequeno, Heraldo do Monte, João Bá, Milton Edilberto, Oswaldinho do Acordeom, Paulinho Pedra Azul, Pereira da Viola e Xangai, entre outros, além dos maranhenses Irene Portela e João do Vale. Em 1996 foi indicado ao Prêmio Sharp por Monjolear, disco fruto de oficinas de músicas ministradas por ele e a irmã para mais de 200 crianças – um dos melhores discos de música infantil já feitos no Brasil em todos os tempos.

Histórias de Fulejo – Dércio Marques aprendeu a letra de Namorada do Cangaço com o percussionista Erivaldo Gomes, que então morava em São Paulo, onde o disco foi gravado. O compositor Chico Saldanha, responsável também pela chegada das músicas de Bandeira de Aço às mãos e ouvidos de Papete, lembra que ele gravou sem pedir a autorização do autor: “Eu falei: “quer gravar, grava, mas vamos ao menos avisar o autor”. A princípio ele disse que não ia mais gravar, depois resolveu e o disco saiu com a música”, lembra.

“A música chegou a tocar razoavelmente no rádio, mas eu só fui saber depois que já estava gravada”, recorda-se o autor. “Até há uns erros de letra, ele não me procurou antes. Ele me ligou depois, pedindo autorização para inscrever a música em um festival da Rede Globo, o que neguei. Depois de muitos anos nos encontramos, eu trabalhava nO Imparcial, ele chegou com o violão, começou a tocar, tocou Boi da Lua [também de Cesar Teixeira], parou a redação inteira [risos]. Era uma figura irreverente e engraçada. Fulejo é um grande disco e o Brasil perdeu uma grande voz”, lamenta Cesar Teixeira.

REPERTÓRIO

1. Namorada do Cangaço (Cesar Teixeira)
2. Mineirinha (Raul Torres) Participação especial: Doroty Marques
3. Fulejo (Dércio Marques)
4. Malambo (Ricardo Zanon Morel/ Dércio Marques)
5. O Pinhão na Amarração (Canto de Amarração) (Elomar Figueira de Mello)
6. Cantiga da Serra (Hilton Acioli) Participação especial: Benjamim e Titina
7. Brasil Caboclo (Tonico/ Walter Amaral)
8. Riacho de Areia (Adaptação folclórica de Maria de Lira) Participação especial: Benjamim, Genésio e Doroty Marques
9. Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo)
10. Você vai gostar (Casinha Branca) (Elpídio dos Santos)
11. Ranchinho Brasileiro (Brasil Sinfonia) (Elpídio dos Santos)
12. Lua Sertaneja (Adauto Santos/ Gilberto Karan) Participação especial: Benjamim
13. Flores do Vale (Dércio Marques/ João Bá)
14. Disco Voador (Palmeira)

DISCOGRAFIA

Terra, vento, caminho (1977)
Canto forte – Coro da primavera (1979)
Fulejo (1983)
Segredos vegetais (1986)
Anjos da Terra (1990)
Espelho d’água (1993)
Monjolear (1996) – com Doroty Marques
Cantigas de abraçar (1998)
Cantos da Mata Atlântica (1999)
Folias do Brasil (2000)

Dose dupla de boa música

Duas excelentes pedidas na noite de hoje em São Luís.

A primeira, o Circuito Dobrado Ressonante, com Josias Sobrinho e Chico Saldanha. Uma ótima notícia é que a turnê, iniciada em Imperatriz e já tendo passado por Brasília, Belém e Teresina, não se encerra hoje: amanhã, o par e banda tocam em Santa Inês (donde não tenho maiores informações), e domingo em Rosário (às 20h, na Praça da Matriz, com participação especial do Lelê de São Simão).

A segunda, Gildomar Marinho em show de pré-lançamento de Tocantes, seu terceiro disco. Confira abaixo trechos do ensaio (as duas músicas são de Pedra de Cantaria, seu segundo disco; ele passeará pelo repertório de seus três discos, o que inclui ainda Olho de Boi).

Tocantes, terceiro disco de Gildomar Marinho, faz jus ao título

[O Imparcial, 9 de setembro de 2013]

Obra aborda temas como liberdade, trabalho, viagens, amores desfeitos, saudades, direitos humanos, meio ambiente e música

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O autorretrato de Gildomar Marinho na capa do encarte de Tocantes

Gildomar Marinho desenhou seu autorretrato e as aquarelas todas do encarte e capas de Tocantes (2013), seu terceiro disco, sucessor de Pedra de Cantaria (2010) e Olho de Boi (2009). Maranhense radicado em Fortaleza/CE, por conta do ofício de bancário, que divide com o da música, o cantor, compositor e instrumentista fala de liberdade, saudades, chegadas e partidas, encontros e despedidas.

Inteiramente gravado na capital cearense, tem um pé aqui, outro lá. As belas aquarelas revelam o som. Estão lá o próprio artista, empunhando sua viola, a alegria de um pulo para saudar um lugar de que se gosta (o equivalente “reles mortal” ao beijo no chão de um papa de outrora), o farol para guiar as aventuras, o bumba meu boi, o tambor de crioula, um pescador, o horizonte. E o violão que ele não toca (no disco), escoltado por competentíssimo time de músicos, para concentrar-se apenas na criação e no canto: Carlinhos Patriolino (bandolim), Diego Farias (gaita), Eduardo Holanda (violões, viola e arranjos), Herlon Robson (sintetizadores, teclados, escaleta e sanfona), Hoto Jr. (percussão, direção musical e arranjos), Marcus Vinnie (piano, sintetizador e teclados), Miquéias dos Santos (contrabaixo), Pantico Rocha (bateria e percussão) e Rafael Magoo (guitarras).

As músicas, como entrega o título do disco, tocam sem qualquer maior esforço do ouvinte, espécie de muzak da vida, nunca a trilha sonora tendo menos importância neste cinema em que desempenhamos nosso papel; tanto que Gildomar fala de si e de nós mesmos, com a sabedoria oriunda da experiência de viajante que leva consigo – e com sua música – pedaços dos lugares que visita.

Faixa a faixa – O artista brinca com uma porção de coisas com que se faz música – inclusive instrumentos musicais – em Canto Oco, faixa de abertura. Piolho de cobra é uma homenagem ao trabalhador brasileiro, dos versos: “Canteiro, peão se dobra/ feito piolho de cobra/ vida sem muita sobra/ e o mesmo trem que leva, traz/ sempre para o mesmo lugar”.

Mata Paralela (parceria com Jorge Cardoso, seu colega de banco) é uma canção de cunho ambiental que não soa eco-chata: é inspirada na derrubada da Mata Atlântica para a construção de condomínios de luxo na Avenida Paralela, em Salvador/BA, terra natal do parceiro. Ensejo de blues, cujo título também poderia ser “Livre”, já que esta é a palavra de ordem: “Mas acontece que você/ e esse amor não representa/ exatamente o que desejo/ além de um beijo, e este ensejo de blues/ é pra dizer que o amor é bom/ mas por ser bom me deixe livre/ e Deus me livre desse falso amor”.

O Mano é outra música que, dado o tema, poderia soar panfletária: “O mano quer ser ser humano/ e é do ser humano merecer ser humano/ e ser humano é poder ter nome, lar, sobrenome/ e com os seus conseguir/ matar a sede e a fome”. Sim, é sobre direitos humanos, e foi composta em 2005, após o show de aniversário de 26 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), ocasião em que Gildomar dividiu o palco com Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro, Lena Machado e o Bloco Afro Akomabu. A música integrou Regar a Terra, disco comemorativo dos 20 anos do MST no Maranhão.

A metade que manda é uma homenagem às mulheres. O mote do galope é “a mulher que, na verdade,/ é a metade que manda, meu irmão”. O autor vai de Eva às milhões de mulheres que fazem as Marchas das Margaridas, passando por Maria da Penha. A faixa título, parceria com este jornalista, é uma balada romântica, quase uma continuação do reggae Lembra?, parceria de ambos, gravada por Gildomar em sua estreia. Estão lá o amor desfeito, os velhos discos de vinil e uma vontade de recomeçar.

Navegante é a regravação de Gildomar para a música de Erasmo Dibell, de quem diz ser amigo desde antes da barriga: “Antes da gente, nossas mães já eram amigas, entre Carolina e Imperatriz”, conta. Por falar em mães, Pé na estrada é uma homenagem a elas. A música foi composta para um festival em que o autor não chegou a se inscrever e fala dessa vontade que os filhos têm de desafiar, de ganhar o mundo, talvez por ter a certeza de que se tudo der errado, as mães saberão recebê-los sempre bem. “Mamãe, me dê sua bênção/ e prepare o meu pão/ com o sal de tuas lágrimas/ e o calor de tuas mãos”, pede o filho-músico.

Pistas falsas é balada radiofônica pontuada por gaita que parece fazer ainda maior a solidão, palavra-chave da canção: “No fim de nossas noites tão ardentes/ sei que em sua vida sou mais um/ porque você é só, é só ilusão/ e o que me dá é só solidão”. Perdão de cônjuge é um sambossa de título autoexplicativo, parceria com a cantora Lena Machado e com este que vos escreve. É de Reis é um tambor de crioula dedicado a uma coreira que enfeitiçou o autor com o esvoaçar de sua saia e seu rebolado rítmico, a quem devolve a rítmica homenagem.

A exemplo dos trabalhos anteriores, Tocantes tem patrocínio do Programa Cultura da Gente, do Banco do Nordeste, e apoio da Elétrica Milênio.

Show – Gildomar Marinho faz show de pré-lançamento de Tocantes, no próximo dia 13 de agosto (sexta-feira), às 22h, na Barraca L’Apero (Av. Litorânea, Praia de São Marcos). A apresentação terá participações especiais de Tutuca e Betto Pereira. O couvert artístico individual custa R$ 10,00.

A música de Paulo Leminski

[O Estado do Maranhão, 1º. de setembro de 2013]

Digitalização de acervo e livro de partituras mostrarão outra porção de um múltiplo Leminski, cuja poesia foi recentemente reunida em livro

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

A coleção de poemas que Paulo Leminski publicou em livros, inclusive póstumos, reunida em Toda Poesia [Companhia das Letras, 2013, 421 p.], bateu recordes: alcançou os 50 mil exemplares vendidos, soma nada desprezível para o mercado livreiro, e particularmente de poesia, no Brasil.

Leminski foi vários: poeta, publicitário, jornalista, tradutor, professor, judoca, romancista, contista. E músico. Revoltava-lhe, aliás, ser reconhecido apenas como letrista. Tinha razão: embora compusesse em parceria, e muito de sua obra musical ter surgido pelas mãos de parceiros que musicaram versos publicados em livros, o samurai malandro compunha letra e música.

Casos de Verdura, gravada por Caetano Veloso em Outras palavras [1980], e Luzes, gravada por Suzana Salles e Arnaldo Antunes, ela uma das Orquídeas do Brasil, banda de mulheres que acompanhou Itamar Assumpção – parceiro de Leminski – no triplo Bicho de Sete Cabeças [1993].

Não à toa, antes dos apêndices – orelhas, prefácios e tais – de Toda Poesia, lemos Notas sobre Leminski cancionista [p. 385], breve artigo assinado por José Miguel Wisnik – que já musicou tradução de Leminski. Entre as histórias que conta, aliás, está a de como Luzes chegou, através de recados ao telefone, aos ouvidos e mãos de Suzana e Arnaldo, num episódio que envolve, além dele, Alice Ruiz e Zé Celso Martinez Correa.

Wisnik diz que se o projeto de um Leminski músico não se concretizou plenamente, encontra na obra do ex-Titã sua mais perfeita tradução: a combinação entre o poema grafado na página do livro e a canção gravada no disco. Canção pop.

Através de sua obra, Leminski permanece vivíssimo hoje. É inegável que a gravação de Verdura por Caetano tenha colaborado para sua popularidade na década de 1980, quando Caprichos e relaxos [1983] esgotou edições na saudosa Brasiliense, que teve como editor Luiz Schwarz, que devolve Leminski às estantes em Toda Poesia, e que lançou no Brasil autores fundamentais como Jack Kerouac e John Fante – este, aliás, traduzido por Leminski.

Leminski músico – No campo musical Leminski tem obra curta, mas nada desprezível. Só as duas aqui citadas já lhe garantiriam lugar no panteão de nossos grandes compositores, merecendo mais espaço no dial. Entre outras de sua lavra poderíamos citar rapidamente Custa nada sonhar, Dor elegante, Filho de Santa Maria, Vamos nessa (as quatro com Itamar Assumpção), Mudança de estação, sucesso dA Cor do Som, Promessas demais (com Moraes Moreira e Zeca Barreto), gravada por Ney Matogrosso, Polonaise (com José Miguel Wisnik, gravada pelo próprio), Além alma (com Arnaldo Antunes), O velho León e Natália em Coyoacán (com Vitor Ramil), Reza (com Zeca Baleiro) e O Deus (com Ademir Assunção e Edvaldo Santana).

Leminski com Caetano Veloso e Alice Ruiz, em Curitiba (1976)

Leminski colecionou histórias engraçadas envolvendo sua produção musical. Uma delas a citada revolta confessada quando queriam rotulá-lo simplesmente letrista. “Eu sou músico!”, bradava, revoltado. E sonhava com o dia em que todas as pessoas fossem músicos, tocassem algum instrumento.

Com a grana dos direitos autorais da gravação de Verdura, por Caetano Veloso, comprou um fusca verde, justamente batizado de… Verdura. Detalhe: Leminski não dirigia. Foi Leminski quem deu ao xará Paulo Diniz o título de uma de suas mais famosas músicas: Ponha um arco-íris na sua moringa. Era uma frase do Catatau, que estava escrevendo quando os dois moravam no Solar da Fossa. Diniz usou-a para intitular a música e o poeta, em homenagem ao amigo, retirou-a do livro.

Também é famosa a correção que o poliglota Leminski aplicou ao mesmo Paulo Diniz na construção da letra de Quero voltar pra Bahia, cujo refrão é em inglês: “I don’t want to stay here/ I wanna to go back to Bahia”. Mexer na letra e retirar o verbo duplicado, como queria Leminski, iria acabar com a métrica e a homenagem do baiano ao conterrâneo exilado acabou saindo com o erro com que a conhecemos.

A obra musical de Paulo Leminski será sua próxima porção a chegar ao público. Aprovado pelo Programa Petrobras Cultural, o projeto A obra musical de Paulo Leminski – um patrimônio cultural do Paraná e do Brasil prevê a digitalização das fitas cassetes deixadas por Leminski (contendo dezenas de canções inéditas) e a posterior organização de um livro de partituras com sua obra musical completa.

Sobre este e outros assuntos, em entrevista por e-mail, uma das responsáveis pela empreitada, a musicista Estrela Ruiz Leminski, filha de Alice Ruiz e Paulo Leminski, deu detalhes sobre a produção.

Poeta, musicista, professora: Estrela Leminski seguiu os passos do pai

“NÓS JÁ SABÍAMOS DA FORÇA DA POESIA DELE”
ENTREVISTA: ESTRELA RUIZ LEMINSKI

A compositora, escritora e professora Estrela Leminski, filha do poeta, é responsável pelo resgate da obra do pai. Na entrevista, ela comenta essa fase da redescoberta do público em relação a grandiosa obra do pai.

O Estado do Maranhão – A Companhia das Letras publicou recentemente Toda Poesia, que reúne a obra poética publicada em livro por Paulo Leminski. A editora anunciou para breve a reedição de Vida, livro que reúne as quatro biografias que o poeta escreveu, de Bashô, Cruz e Souza, Jesus Cristo e Trotsky. Agora, a digitalização de fitas com músicas de Leminski e a produção de um livro de partituras com sua vasta obra musical foi recentemente selecionada num edital da Petrobras. Qual a importância de fazer Leminski, sempre vivo entre nós, voltar a circular?
Estrela Ruiz Leminski – Acho que a resposta se justifica na tua pergunta. Tudo também se deve ao fato da gente ter se mobilizado para segurar as rédeas da obra dele. Resolvemos ir atrás de tudo que faltava fazer para a obra dele, tão múltipla, vir à tona! Nessa tua lista ainda falta pontuar a exposição Múltiplo Leminski, realizada em Curitiba, no MON [o Museu Oscar Niemeyer], que vai circular o país.

Quando o projeto foi apresentado já se tinha dimensão do tamanho da obra musical de Leminski? Ou as coisas foram sendo descobertas ao longo da jornada? O aspecto musical dele é uma empreitada minha. Eu cresci ouvindo essas músicas, ele cantava muito em casa, e depois sempre curti o que foi gravado. O público vai se surpreender com a variedade e com o lado cancionista da obra dele.

Lembro-me de uma entrevista [ao jornalista Aramis Millarch] em que Leminski mostrava-se indignado quando as pessoas o chamavam letrista, já que ele compunha letra e música. Na mesma entrevista, ele afirmava sonhar com o dia em que todas as pessoas fossem músicos, isto é, que tocassem algum instrumento ou cantassem. Você, que acabou seguindo os passos de seu pai, na música e na poesia, acredita que esse dia vai chegar? Sonha com isso? Além de ser compositora e escritora sou professora de música. É isso que eu busco. É uma inquietação minha. As pessoas têm que ter pelo menos o direito de compreender os contextos culturais musicais, ter ferramentas críticas ao que escutam. Isso não acontece e se agravou muito com a falta do ensino da música nas escolas.

O que achou da poesia de Leminski desbancar os tons cinzentos de uma literatura pobre em uma rede de livrarias? O boom do livro não foi surpresa, foi alívio. Nós já sabíamos da força da poesia dele, da atualidade. Para a gente é a sensação de que ele está começando a ocupar um espaço merecido há tempos.

O retorno de Leminski às livrarias dá um gás no culto ao poeta, mas ele sempre teve um grande número de leitores, admiradores, fãs, seguidores. Enfim, de gente que consome e faz circular sua obra. O poeta e jornalista Ademir Assunção, que já organizou uma exposição sobre a vida e a obra de Leminski, teve dificuldades, por exemplo, para publicar uma entrevista de Raul Seixas em Faróis no Caos [Edições Sesc-SP, 2012, 407 p.], coletânea de entrevistas que ele fez ao longo de quase 30 anos de atividade jornalística. A entrevista de Leminski está lá. Como você, enquanto herdeira, lida com a obra de seu pai? Tem um aspecto de ser herdeira que é o fato de ser artista. E ainda por cima artista auto-produtora. Por um lado batalho mesmo que cada vez mais gente tenha contato com a obra dele como um todo, mas por outro não faço isso na ingenuidade. Conheço o caminho da roça e como negociar as coisas. A burocracia que isso envolve é chata, mas é necessária. Não vou julgar as famílias que por algum motivo causem entraves. De qualquer forma, sei que essa dinâmica, sendo parceira na empreitada com minha mãe e irmã [Aurea Leminski], dividindo as tarefas, tem dado cada vez mais certo.