Miles Davis: improviso e eternidade

Para Flávio Reis (que me fez ir mais fundo em jazz e bossa nova), Micaela Vermelho (que me apresentou a “wonderful soundtrack”) e Reuben da Cunha Rocha (que me emprestou o livro).

Miles estava agendado para viajar a Paris no final de novembro, onde tocaria como solista convidado de um quarteto parisiense que incluía Kenny Clarke. Um projeto de estúdio de improviso por lá teve efeito duradouro em seu estilo de gravação.

Por meio de sua ex-namorada parisiense, a atriz Juliette Greco, Davis conheceu o jovem cineasta Louis Malle, que estava completando seu primeiro longa-metragem, Ascensor para o Cadafalso. Malle precisava de uma trilha sonora para seu filme noir e existencial, uma releitura francesa do argumento de Pacto de Sangue. Trabalhando com um orçamento limitado, mas com a vantagem de ter Davis longe de seu séquito de advogados e demais procuradores, o cineasta propôs que o trompetista compusesse e executasse a trilha sonora. Miles aceitou.

Uma das capas do filme no Brasil

Acompanhado pelos mesmos quatro músicos locais [Barney Wilen no sax tenor, René Urtreger no piano, Pierre Michelot no contrabaixo e Kenny Clarke na bateria, nota do blogue] com quem vinha se apresentando (e ele havia tocado anteriormente com apenas um deles), Davis gravou a trilha inteira em uma só sessão noite adentro. Enquanto o grupo assistia a várias cenas do filme, Miles, num tour de force ad hoc, compôs, arranjou e tocou o trompete em quase uma hora de música orientada para o blues e riffs básicos. [Kenny] Clarke relembra o método de direção musical confiante e ativo de Miles:

Ele falava: “Espere um pouco, é aí! Pare! Bem aqui”. Aí dizia: “Aqui a gente toca isso, e isso a gente faz aqui”. Porque parecia casar com a cena e realmente era bem pensado. E gravamos toda a música do filme de uma vez só… Miles realmente montou tudo maravilhosamente. E tudo aconteceu no calor do momento, sabe? Acabamos em mais ou menos três horas…

A direção de Miles pode ser claramente ouvida nas gravações completas da sessão de Ascensor. Davis assobia para marcar o fim de cada take, já que cada breve sequência musical é sucedida por outra (“Assassinat”, “Séquence”, “Voiture”). As composições mal parecem “compostas”; pouca estrutura melódica reconhecível e bem poucos padrões familiares de blues foram utilizados.

Esse jeito de compor e gravar em queda livre era um território novo e estimulante para Miles. Fazer música funcional – criar um fundo musical para imagens em movimento na tela – deu a Miles a oportunidade de romper com estruturas convencionais e experimentar como nunca fizera antes. Se quisesse solar interminavelmente sobre uma sequência de acordes – ou apenas um acorde, no caso -, poderia, desde que a música fizesse sentido para a narrativa do filme. De uma maneira que antecipa o efeito suspenso de uma composição como “Flamenco Sketches”, de Kind of Blue, a faixa “Le Petit Bal”, da trilha de Ascensor, evitou qualquer encadeamento de acordes, permitindo a Miles projetar um clima simplesmente tocando sobre uma única escala e sutilmente sugerindo uma frase lírica.

No final dos anos 50, Hollywood estava começando a explorar todas as possibilidades emocionais dos músicos e compositores de jazz em trilhas sonoras de longas-metragens. Uma lista de exemplos ainda causa admiração: Elmer Bernstein e Shorty Rogers em O Homem do Braço de Ouro, em 1955; Chico Hamilton em A Embriaguez do Sucesso, em 1957; Duke Ellilngton em Anatomia de Um Crime, em 1959, e Charles Mingus, em Shadows, em 1960. Mesmo quando comparada a essas partituras para filmes – frutos de planejamento cuidadoso e orçamentos generosos (ou tão baixo quanto Ascensor, no caso de Shadows) -, a proeza de uma noite de improviso de Miles se sustenta e, na verdade, se sobressai ainda mais.

Trecho de Kind of blue: a história da obra-prima de Miles Davis, p. 65-66, de Ashley Kahn. Tradução: Patricia de Cia e Marcelo Orozco. Editora Barracuda, 2007

Quem disse que carnaval não tem nada a ver com direitos humanos?

IV Baile do Parangolé festeja 34 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH). A festa, gratuita, acontece sábado (9), no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga)

Fundada em 12 de fevereiro de 1979, em meio às lutas contra a ditadura militar então vigente no país e pela anistia, a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) completa 34 anos na próxima terça-feira de carnaval.

Uma coincidência que não se encerra no calendário. O carnaval é, por excelência, a festa da fantasia. Temporada de puro êxtase em que as pessoas se desligam do mundo real, se esquecem dos problemas cotidianos e caem na folia, “pra tudo se acabar na quarta-feira”, como determinaria o poeta.

Esta fantasia já foi cantada em verso e prosa e poupo os poucos mas fieis leitores de outros exemplos. A luta por direitos humanos é constante e não conhece folga ou férias. Carnaval é cultura e cultura é direito humano fundamental, devendo assim ser entendido e garantido, sem restringir-se apenas à festa e sem dissociar-se de outros direitos.

Batizado pelo coco de Cesar Teixeira, sócio da SMDH e seu ex-assessor de comunicação, o Baile do Parangolé, hoje já cravado nos calendários cultural e carnavalesco de nossa ilha capital, tem sido um espaço/momento de celebração e reencontros entre militantes de direitos humanos, amigos e familiares. Embora nunca tenha se fechado, este ano abre-se ainda mais, já que não haverá venda de camisas e/ou cobrança de ingressos, graças ao apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e do Porto da Gabi.

O autor do Parangolé é homenageado no traço de Djalma Lúcio, que, especialmente para a ocasião, desenhou o jornalista e compositor, autor de vasto repertório carnavalesco – sambas, frevos, marchas e outros gêneros do período, algumas de suas músicas certamente comparecendo ao vesperal.

O baile terá como atrações Chico Nô e a Turma do Vandico e certamente contará com canjas de artistas militantes que se revezarão entre plateia e palco. A escolha do band leader não se dá ao acaso: é também uma forma de reconhecer seu compromisso com as lutas dos movimentos sociais maranhenses.

Isso tudo é só pra convidar vocês pra festa!

Cesar Teixeira transborda poesia no vazio do Ceprama

[Sobre apresentação de Cesar Teixeira, ontem (3), no Ceprama]

“E o carnaval?” é pergunta que costumo ouvir e que tenho respondido com um “ainda não estou no clima do bumbumpaticumbumprugurundum”.

Depois de convidado para ir verouvir o Monobloco na Praça Deodoro, declinei. O grupo me interessa, tenho discos em casa, mas fujo de multidões.

Preferi ir verouvir Cesar Teixeira no Ceprama (ontem, 22h). Minha primeira saída “carnavalesca” em 2013. Ele o artista de quem seguramente mais vi shows na vida.

Ele que ontem fez uma apresentação quase perfeita. Mas o que não tirou nota dez foi o som, algo que lhe foge ao controle, impossível culparmos o artista naquele entra e sai do palco, as apresentações em sequência (grade), entram músicos (bandas) saem músicos, tudo tem que ser trocado muito rapidamente.

Este, aliás, outro aspecto do carnaval que precisa ser repensado, explico. Cesar Teixeira é exceção: fez uma apresentação de cerca de 50 minutos, com repertório completamente autoral, inédito e carnavalesco. Resgatou a nau catarineta (auto nordestino, catalogado por Mário de Andrade), do toré (ritmo indígena) e do baralho, além de frevos, marchas, marchas-rancho, sambas e até salsa, entre o bom humor, as homenagens (a Faustina e Rosa Papagaio) e a política (o congresso nacional sempre merecedor de críticas, piadas e avacalhação).

Os poucos que estavam no Ceprama puderam deliciar-se com um repertório original e diferente. Ou seja: em geral, o modelo sequencial das apresentações patrocinadas pelo governo em praças e quaisquer outros espaços públicos, acaba dando ao folião que se demorar por mais que um show por ali mais do mesmo: vários artistas cantarão e tocarão os mesmos clássicos carnavalescos que incluem aí de Moraes Moreira ao Bicho Terra, passando por Carmen Miranda e Chico Buarque, entre outros.

O Monobloco de graça na praça Deodoro, fazia o “carnaval da mistura” em horário próximo ao em que Cesar Teixeira fazia seu ótimo show para um Ceprama esvaziado, certamente não pela qualidade de seu espetáculo, em que ele se mostrava em plena forma artística, com repertório inédito, adequado ao período. Lá, no panteão sem bustos, o grupo carioca era escoltado pelos apadrinhados de sempre, cujos nomes mais se repetem nas programações oficiais. Perto da continência espúria o que significam qualidade e relevância artística?

A menina que conquistou o coração dos mestres do choro

[Release para Festejos, estreia em disco de Alexandra Nicolas]

Festejar é o destino de Alexandra Nicolas e de seus ouvintes

Maranhense estreia em disco com repertório de Paulo César Pinheiro

Festejos sai pela Acari, maior gravadora especializada em choro do Brasil

Márcio Vasconcelos

TEXTO: ZEMA RIBEIRO

“Eu cheguei sem ninguém saber que eu vinha”. Desde antes de nascer Alexandra Nicolas já era uma surpresa. Filha de mãe solteira, foi cúmplice da genitora, que escondeu a gravidez enquanto pode. O pai, músico e boêmio, ela só viria a conhecer aos cinco anos de idade. Foi criada por três mulheres – a mãe, a tia e a avó.

Sua mãe gostava de cantar e foi em uma tertúlia que seus pais se conheceram. Desde cedo a menina pegou gosto pela coisa. “Eu cantava desde criancinha. E eu não podia sair das rodas, que eles me chamavam: “agora é a vez da menina!”. E eu me lembro, muito nova, de cantar músicas de Nelson Gonçalves, Silvio Cesar, Elizete Cardoso, Clara Nunes, Rita Lee, Novos Baianos, Genival Lacerda, Elba Ramalho”, cita entre gostos passageiros e referências que permanecem até hoje.

Acreditando nos sonhos, a adolescente Alexandra chegou a largar o curso de Pedagogia e foi ao Rio de Janeiro estudar canto, dança e teatro. Sua mãe hospedou-a num pensionato, à época inviabilizando a carreira: “Todos os lugares em que eu podia cantar eram à noite e eu tinha que voltar para casa antes da meia noite”, lembra a cinderela de então.

Do pensionato para a música? Nem pensar! Alexandra só pode mudar-se para um apartamento quando passou no vestibular para Fonoaudiologia, profissão em que se formou e exerceu por pouco mais de 10 anos – a música sempre em paralelo, nunca de menor importância, a vida entre o consultório e os palcos. Após coordenar o curso de fonoaudiologia em uma faculdade particular em São Luís, ela deixou a profissão. Da música, afastou-se apenas para dedicar-se às primeiras infâncias de seu casal de filhos, hoje com sete e seis anos. Uma parada apenas temporária, embora ela não viva, ainda hoje, exclusivamente de música.

“Tudo o que fiz até hoje foi por necessidade, por amor, por que eu não consigo fazer nada que eu não pense em fazer bem feito”, diz, talvez explicando a demora em gravar o primeiro disco, Festejos. Mas nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Eu já gostava muito do Paulo César Pinheiro, principalmente suas parcerias com Mauro Duarte, Sivuca, João Nogueira. Vinha de alguns shows por aqui e estava com a ideia de fazer um em homenagem a Clara Nunes. Numa viagem ao Rio, meu amigo Celson Mendes mandou um e-mail para Luciana Rabello. Segundo ele, ela poderia me dar algumas dicas. De início não acreditei muito que ela fosse responder. Ela respondeu e me convidou para ver e ouvir o bandão da Escola Portátil. Algo incrível! Todos os alunos da Escola Portátil, 40 pandeiros, 15 cavaquinhos, 10 flautas etc., juntas, sob uma árvore, tocando ao mesmo tempo com [o baterista] Bolão de maestro”. Terminada a apresentação, Luciana levou-a para tomar um chopp na Visconde de Caravelas, em Botafogo. Era a rua em que ela tinha morado, e Amélia Rabello, irmã de Luciana, morava no mesmo apartamento que Alexandra ocupou em seus dias e noites cariocas. Sem saber, a anfitriã acabou escolhendo ainda a mesma mesa em que a maranhense costumava sentar vindo da faculdade.

Nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Então você quer homenagear a Clara Nunes? Mas você gosta da cantora ou do compositor?”, indagou Luciana Rabello ao notar que nove das 16 músicas do roteiro eram de Paulo César Pinheiro. “Eu tenho certeza que Clara Nunes ia adorar este show se você pudesse transcender isso. Você precisa se mostrar como artista, sair de detrás dela. Eu recebo 80 e-mails por dia de gente querendo homenagear Clara”, aconselhou-a. “Paulinho [forma carinhosa como se referem ao compositor maiúsculo] tem mais de 2.000 canções. Se quiser eu te dou tudo inédito”, ofereceu.

Luciana Rabello acabou por descobrir a voz autoral de Alexandra Nicolas, mesmo esta não sendo compositora, e assumiu a função de diretora musical de Festejos. Mais que isso, se tornou amiga íntima, uma irmã querida e escolhida. “Ela foi uma bênção de Deus na minha vida”, diz a maranhense.

Tudo começou em Senhora das Candeias, show que ela apresentou duas vezes no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, e que batiza o projeto patrocinado pela Eletrobrás, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, que permitiu a feitura de Festejos, que sai pela Acari Records, a maior gravadora de choro no Brasil. Inicialmente ela recebeu uma fita com 20 composições de Paulo César Pinheiro: era o repertório do espetáculo. Para o disco, a amostra aumentou para quase 60 músicas, das quais 13 foram escolhidas, entre inéditas – a maioria – e regravações.

“Eu quero essas mulheres da festa!”, escolheu. “Todas as que Paulinho canta, elas são fascinantes, lindas e sensuais. É um amor puro! Elas possuem uma beleza que ninguém consegue ver. Quase ninguém consegue ver a beleza de uma lavadeira. Aí eu vi a verdade. Não era fantasia. Era palpável”. Alexandra começava a eleger o repertório de seu disco. Entre idas e vindas foram quase dois anos só na seleção do repertório, mergulhada de cabeça, corpo e alma.

“Paulo César Pinheiro é a pessoa mais leve que eu já vi na vida. Não sei de onde tira tanta simplicidade. Nem parece que existe, me deu o maior presente. Ele me deu a bênção e disse: “se você tiver que gravar um disco, quero que você grave aqui [no Rio de Janeiro]. Foi a partir daí que eu descobri verdadeiramente meu caminho”.

A partir de então, muitas idas e vindas na ponte aérea São Luís – Rio de Janeiro. Com ela festejam Adelson Viana (sanfona), Celsinho Silva (percussão), Dirceu Leite (flauta, picolo), Durval Pereira (percussão), João Lyra (arranjos, violão, viola), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Luciana Rabello (cavaquinho e produção musical), Magno Júlio (percussão), Marcus Tadeu (percussão), Maurício Carrilho (arranjos, violão sete cordas), Paulino Dias (percussão), Pedro Amorim (bandolim) e Zé Leal (percussão).

Ao final de um processo de aprendizado, amadurecimento, risos, lágrimas e muita emoção, o próprio Paulo César Pinheiro definiu a ordem das músicas no disco e, acima de qualquer suspeita, escreveu sua apresentação: “acho que a maranhense conseguiu um belo disco. Abram alas pra ela que a festa começou”, para ficarmos com apenas um trecho.

Embalada pelo capricho do design de Raquel Noronha, a bolachinha é ilustrada por fotos de Márcio Vasconcelos, que captam Alexandra Nicolas, risonha e faceira, no sobrado em que nasceu o dramaturgo maranhense Arthur Azevedo, em 1855, uma segunda coincidência literária – a primeira é que Paulo César Pinheiro, apesar de nunca ter estado em São Luís do Maranhão, conhece-a bem a partir da obra de Josué Montello, e escreveu uma música que leva o nome da capital maranhense, faixa que fecha o disco.

Alexandra Nicolas sonha: “Eu quero fazer o Brasil cantar”. Nada na vida dela acontece por acaso.

FAIXA A FAIXAMárcio Vasconcelos. Festejos. Capa. Reprodução

1. Mironga (Paulo César Pinheiro): “É uma música que abrange todas elas [as mulheres], uma espécie de resumo
do disco. São os homens tocando tambor para as mulheres dançarem e festejarem. É uma música completamente
masculina, mas eu consigo ver a mulher nela, as mulheres que dançam ao som do tambor. Ele descreve, na verdade, a maneira de tocar, como se aprende a tocar um tambor. No final ele diz que tem mironga aí, ou seja, tem algo muito especial na maneira de tocar. “Tem quem bate e faz zoeira/ tem quem toca como quê/ quem comprou tambor na feira/ esse não sabe bater./ Foi no couro e na madeira/ que me disse um alabê/ tocador de capoeira/ não é de maculelê”. Então ele começa a fazer uma série de pontuações no ato de tocar tambor e as mulheres, como ele diz no texto que me apresenta, estão mirongando ao som do tambor. Mironga é uma festa!”

2. Balacoxê de Iaiá (Paulo César Pinheiro): “Na hora em que eu li o título eu fiquei imaginando um bumbum enorme de Iaiá. Na verdade, Balacoxê veio por essa sensualidade, de cortar cana, da mulher, e eu fiquei fascinada, por que a maneira como Paulo cantou essa canção, o que eu ouvi, é como se estivesse na fala dele, essa mulher, Iaiá, que corta cana, que “bota a roda pra rodar/ eu só vejo esse desenho na cintura de Iaiá”. Foi uma canção em que eu me vi. Me perguntei, meu Deus, será que eu vou cantá-la eu vendo Iaiá ou eu sendo Iaiá? Eu acho que de todas que eu cantei, eu era a Iaiá. Tava em mim, passava por mim, essa história de “como eu vejo, com o punho nas cadeiras/ Iaiá fazer”. Essa descrição pra mim, essa mulher, essa Iaiá, ela é incrível”.

3. Passista (Paulo César Pinheiro): “Foi o primeiro refrão que me chamou muito a atenção: “seu povo já foi do cativeiro/ mas hoje que o samba é uma nobreza/ é ela que reina no terreiro/ do samba outra vez virou princesa”. Achei muito forte ele ter trazido como o povo dela sofreu e como hoje ela é uma rainha, comanda o samba na escola. Isso me fascinou, saber que tem muita gente que vai pra vê-la. O samba trouxe essa majestade pra ela”.

4. Coqueiro novo (Paulo César Pinheiro): “Foi a praia daqui. Uma homenagem à minha praia, à praia em que eu cresci, em que eu brinquei na areia e, lógico, às morenas do Cabedelo, na Paraíba, às quais ele se refere, que fazem acessórios com a palha do coqueiro, vivem disso. São mulheres sofridas, mas quando escuto, eu me vejo na praia, sombra, vento nos cabelos e água fresca. Uma valorização do trabalho dessas mulheres, transformando a palha em objetos, bolsas, cintos, acessórios femininos”.

5. Presente de Iemanjá (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Quando Luciana me mostrou ela falou de uma pessoa que tinha que dirigir os arranjos do disco, chamada João Lyra [que assina parte dos arranjos, violões e viola do disco]. A primeira vez que o ouvi cantando, fiquei fascinada por ele, com a alegria que ele põe na canção. E eu ouvi Presente de Iemanjá com ele cantando e me remete à fartura. Quando fala de “jogar a rede pro céu/ e a rede cai no mar/ o que cai na rede é peixe/ é presente de Iemanjá”, isso me vem como abundância, as mulheres tendo o que comer, os homens saem para pescar e trazem o pão de cada dia, o peixe para fazer o almoço. Eu me vejo numa vila de pescadores. Ele trouxe um arranjo fantástico com Toré de índio pra canção, ficou muito forte. Tem o canto pra sereia, por trás de tudo isso, que é muito marcante. Eu não cantei orixás no disco, mas cantei pra Iemanjá, que pra mim sempre foi uma mulher encantadora, embora eu de início não soubesse bem o que era um orixá. Eu sabia que ela vivia no mar e eu sempre lembro da Iemanjá da Ponta D’Areia toda vez que eu canto”.

6. Lavadeira (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Paulinho me mostrou essa canção, eu já fascinada pelas mulheres, e ele não me contou que ia me mostrar. Eu tava na cozinha da casa dele, comendo, e ele colocando músicas, que ele adora. Quando eu ouvi isso na cozinha eu saí correndo pra sala, “Paulinho, o que é isso?”, e ele já com o sorrisão aberto, por que sabia que eu ia me interessar pela música. Pedi pra ele botar de novo, ele botou. Eu ouvi na voz da Andréia, que é uma cantora que gravou a música. A Luciana perguntou, “mas Alexandra vai gravar? Já gravaram!” E ele disse “não importa. A Andréia sumiu. É ela [Alexandra] quem vai fazer essa música aparecer”. É a canção mais cinematográfica do disco, descreve tudo o que uma lavadeira faz. É de uma sensualidade, de uma sensibilidade tão profunda. A lavadeira passa a ser uma deusa em vez de uma simples lavadeira. Luciana faz um cavaquinho que dói na alma, Mauricio Carrilho fez o arranjo perfeito e ainda criou um canto para a lavadeira: “Lá lá lá ia lá ia/ Madalena foi lavar” e vai embora”.

7. Roda das sete saias (Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro): “Eu ouvi cantada por Roque Ferreira, em uma das minhas viagens ao Rio, me apaixonei pela festa. Ela tem oito minutos, é um samba de roda fantástico. Fala das festas populares, tudo o que é cantado nas rodas das festas. Imagina um festejo acontecendo num terreiro, numa casa de festa… os grupos se formam a partir das afinidades: uma roda de samba aqui, uma caixeira tocando ali. Versos que surgem dessas afinidades da festa compondo um samba de roda com a música de Roque Ferreira, a letra de Paulo César Pinheiro e o arranjo de Maurício Carrilho. Eu costumo dizer que não sinto os oito minutos. Termino de cantar e pergunto: “vixe, já foi?” Ela foi uma música muito eleita aqui na minha terra. Fiz uma sessão com os compositores para ouvirmos o disco e muita gente gostou dela, por que ela é forte, ela lembra a gente, ela é muito Maranhão, é nossa…”

8. Coco da canoa (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Eu sou apaixonada por coco. Eu fui atrás de outro coco. Eu já tinha um coco no disco, acho um ritmo que mexe muito comigo. Quando eu era pequena, eu ia para a Rua Grande, e tinha uma cega que cantava um coco com um chocalhinho. Eu cresci com o coco muito presente na minha vida, mamãe sempre cantava em casa. Eu busquei mais um coco e como eu já tava encantada com o trabalho do João Lyra, com a alegria que ele emprega nas coisas, foi uma das canções que eu trouxe. Ela fala de um flerte na praia, de uma mulher faceira que não sabemos bem se é uma mulher ou uma sereia encantada. Gostei muito desse coco meio embolado, gostoso demais”.

9. Coco (Paulo César Pinheiro): “O coco é uma paixão. Ele é um trava-língua e a Luciana me mandou como um desafio para uma fonoaudióloga [risos]. Quando eu ouvi, pensei: “não vou conseguir cantar nunca!” É muita coisa e tudo muito rápido. Quando cantei e vi que o teatro todo cantou de novo… eu ensinei apenas uma vez e quando cantei a segunda parte todo mundo riu de tão embolado que tudo fica… e lindo… Fala de quebrar o coco, das quebradeiras de coco, a maneira como quebram o coco, que fazem a roda. Eu ia muito pra Pinheiro passar férias e comia muito coco babaçu. E pra mim não valia comer coco babaçu guardado, que mofa. Eu queria ver era ver o coco babaçu tirado por dona Mariazinha, que trabalhava na casa de meu pai, e a gente ia lá para um cantinho do quintal, debaixo duma árvore, quebrar coco”.

10. Bisavó Madalena (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Foi outra pescaria. Paulinho já atrás dos seus tesouros guardados e ele tentava falar para mim como era a canção. Mas como não vou me apaixonar por uma música que fala da bisavó de Wilson das Neves? Que rodou o Brasil inteiro, que era dançarina de primeira e rodou o país dançando todos os ritmos e era boa de gogó, de samba, de bumba meu boi… quando ouvi fiquei encantada pela música. Wilson já gravou e eu não resisti, por que ela dá um resumo dessa matriarca que recebe esse festejo. E eu pretendo abrir o show com ela”.

11. Soberana (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Wilson das Neves novamente. Essa música eu me lembro de Paulinho, ele não só me mostrou, mas ele dançou, me mostrando como eu devia fazer no palco com minha saia. Foi a maneira mais poética, mais romântica, mais soberana que eu vi um homem falar de uma mulher. Eu acho que qualquer mulher no mundo dava qualquer coisa para ser essa mucama à qual ele se referiu. Ela “nunca foi mucama de qualquer laia”. É a música que mais mexe comigo no disco. É a minha música! Eu sou apaixonada… As pessoas perguntam “qual é a música de trabalho?” Eu só digo Soberana. Eu sei que existe essa mulher, até por que eu sei de muitas mulheres que são soberanas. Mas você chega a duvidar, de tão incrível que ela é, você se pergunta, “é tudo isso?”, por que sempre escapa algo, ela é incrível”.

12. Ava Canindé (Paulo César Pinheiro): “Foi um Divino Espírito Santo que foi trazido para mim. Luciana mandou propositalmente, pois sabia que eu fui imperatriz na infância [em festejos do Divino, em Pinheiro, pagando promessas de sua mãe]. Eu sempre falo que vejo as mulheres indo para as festas do divino, as caixeiras, as arrumadoras da bandeira, e ela fala da simplicidade e da organização dessa festa. O dia a dia, como as pessoas se vestem, como chegam, descreve a cidade, a igrejinha. E João Lyra trouxe o que há de mais surpresa no disco, o arranjo dessa música. Para quase todos os músicos ela é a mais forte. João não conhecia a batida do Divino Espírito Santo, e no entanto ele trouxe sopros, viola. Ficou muito linda, simples, nostálgica. Para eu conseguir cantá-la do jeito que eu cantei eu me imaginava com João e Paulinho, em um morro bem alto, olhando lá de cima para esta cidade e cantando”.

13. São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro): “A maneira como Paulo descreve o Maranhão, a impressão que a gente tem é a de que ele estava aqui, e de uma maneira também muito cinematográfica. Você consegue ver o boi de uma forma tão simples. Cantar minha terra foi uma honra, com a letra dele, então. E ele não conhece. Conhece através de Josué Montello e é capaz de conhecer até mais que eu, por que Paulinho quando vai em um assunto, ele vai fundo, vai além, muito além… Pra mim foi um presente, ele interferiu nesse arranjo, ele estava presente nessa gravação, acompanhou de perto [o saudoso parceiro João Nogueira era, até então, o último artista visitado por Paulo César Pinheiro em estúdio durante a gravação de um disco]. E nada como o nosso mestre Arlindo Carvalho para dirigir e dar esse toque de Boi de Pindaré. Ela fecha o disco, fecha com minha terra, fecha onde nasci, fecha com São Luís”.

Agenda carnavalesca: Cesar Teixeira

O compositor Cesar Teixeira se apresenta hoje (2), às 21h, no Viva Liberdade. Amanhã (3), às 22h, no Ceprama.

O artista é visto ao lado no traço de Djalma Lúcio, que cedeu esta caricatura para o material de divulgação do IV Baile do Parangolé, que acontece dia 9, às 14h, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga), com entrada franca. A festa, com apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e Porto da Gabi, comemora os 34 anos de fundação da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), entidade da qual Cesar Teixeira é sócio e ex-assessor de comunicação.

Autor da música que batiza o baile, ele completa 60 anos em 2013 e foi homenageado pela SMDH também em sua Agenda 2013.

Onde o reggae era a lei

Prefácio do livro Onde o reggae é a lei [Edufma/ Pitomba, 2013], de Karla Freire.

OTÁVIO RODRIGUES

Conheci São Luís e o Maranhão por causa do reggae, em 1988. Era uma reportagem pra revista Trip, mas acabei participando de um seminário sobre o tema e vivendo situações que bem dariam um filme. Eu era fã há algum tempo, visitara a Jamaica, escrevia sempre a respeito, mantinha uma coluna com novidades da músi­ca negra nas páginas da Somtrês. Acho que, assim como a maioria dos poucos que cultuavam o gênero no Brasil, eu sabia direitinho quem era Gregory Isaacs, I Jah Man, John Holt e Augustus Pablo, mas nunca tinha ouvido falar de Clancy Eccles, Jackie Brown, Keith Poppin e Jimmy London. E eram artistas excelentes, música de pri­meiríssima qualidade!

Durante alguns dias, zanzei nas festas das grandes radiolas e também nas das mais toscas. Estive com radialistas e djs, dança­rinos e colecionadores, entre outros personagens de um fenômeno cultural tão rico e inverossímil quanto o original. Lembrava o es­quema jamaicano do meio dos 1970, mas com um toque brasileiro, nordestino e nortista, caboclo. Não era uma cópia. Nos táxis, nas ruas, no som das lojas de eletrodomésticos, no rádio da cozinheira e até no vento, vindo de um não sei onde e ecoando apenas os super­graves, tudo era reggae. Os ônibus tinham rádio e os motoristas su­biam o volume quando os programas começavam. Nos salões havia casais naquela estica – oshomens de calça social, sapato e camisa de manga comprida, as mulheres de vestido no joelho.

Até então, eu não sabia que São Luís também era uma ilha – apenas uma de várias coincidências com sua prima caribenha. Como não observar, por exemplo, a cumplicidade rítmica do tam­bor de crioula com o nyahbinghi, batuque dos rastas? Ou que a Casa Fanti-Ashanti, terreiro histórico e influente, trazia essa peculiar re­ferência à nação Ashanti, uma das principais provedoras da alma caribenha? Enfim, na minha cabeça as esculturas do Palácio dos Leões deslizavam sobre as cores do Sampaio Correia, compondo um diorama da bandeira da Etiópia.

Estou prospectando a terra dura da memória atrás da essên­cia desse primeiro encontro, já que alguns episódios me colocaram em delírio, desconfiado de estar vivendo uma experiência supra­dimensional. Ungido pelas baixas frequências e exposto demais ao sol, cheguei mesmo a pensar que tinha aberto um portal ou mer­gulhado num túnel fantástico, absorvido num vórtice do tempo. Como um Jurassic Park ou uma aventura de Júlio Verne, me vi ali, no meio dos dinossauros e atravessando a lava dos vulcões, perdido nos horizontes de uma Jamaica já extinta.

Pois estávamos no final dos anos 1980, quando o reggae ain­da era meio cult em São Paulo e no Rio, restrito a alguns círculos do movimento negro e entre os surfistas, que voltavam de viagens internacionais com as mochilas derramando discos e fitas. Tirando a Bahia, o grande público achava que a coisa se resumia a Bob Mar­ley, Jimmy Cliff, Peter Tosh, Gilberto Gil e pronto – e quase sempre associada à ideia de verão e praia, esse lugar comum e equivocado. Ora, dava até tontura descobrir que o hit parade do Maranhão igno­rava a cobertura nacional de rádio e tv e, mais ainda, que também fora da Jamaica o reggae podia ser coisa dos mais pobres e dos mais pretos, e não apenas um lance legal dos entendidos e da juventude bronzeada.

Mil novecentos e tape-deck

Naquela ocasião, infelizmente, não haviam sido ainda conce­bidos este trabalho de Karla Freire nem o que dignamente lhe pre­cede e referencia, Da Terra das Primaveras à Ilha do Amor, do pro­fessor Carlos Benedito Rodrigues da Silva. Juntas, essas obras são o ponto de partida para qualquer estudo, reportagem ou tentativa de se compreender ou explicar o reggae no Maranhão – se é que isso é mesmo possível.

Com dedicação, talento e um gosto chamativo pelo objeto de sua pesquisa, Karla puxa a história do começo e faz sobrevoos inéditos nos acontecimentos dos últimos vinte anos, comprovando o contínuo processo de mudanças. Demonstra que, do esforço ou participação de todos os envolvidos – incluindo o público, natural­mente –, resulta algo original e único que não corresponde ao ideal de qualquer um em particular. Parece ser esse o bicho vivo do qual estamos falando, a tal Jamaica Brasileira, uma entidade que se reno­va a cada temporada, pra não dizer diariamente.

Como é comum nas epopeias, há controvérsias sobre a gê­nese. Foram as ondas de rádio trazendo músicas do Caribe? A si­milaridade com os ritmos dançantes da ilha? Alguém que tinha os discos e começou a tocar? Ou uma combinação de tudo isso? Se­gundo o cantor Jackie Brown, no meio dos anos de 1970 a produtora jamaicana Sonia Pottinger (1931-2010) – uma das raríssimas representantes femininas no ofício – colocava seus lançamentos nas mãos de marinheiros, convicta de que alcançariam outras praias. Teriam alguns desses pacotes de bolachinhas chegado à costa norte brasileira? O fato é que Riba Macedo, tido como um dos pioneiros do Maranhão – para muitos, o próprio Adão –, comprou seu pri­meiro disco de reggae no comércio informal das calçadas de Belém do Pará, um dos portos brasileiros de maior comunicação com o Caribe. É um ponto que ainda merece pesquisa e, de pronto, suscita uma pergunta: por que a moda pegou primeiro no Maranhão e, só mais tarde e por tabela, no Pará?

Mas, além de possuir discos exclusivos e insistir em tocá-los nas festas, o radioleiro Riba parece ter se envolvido ainda em outro acontecimento crucial: o primeiro tape-deck, em 1975. Com esse equipamento, podia copiar os discos para fitas cassete e partilhar as músicas com os amigos, vários deles radioleiros também. Ele con­ta ter surpreendido muita gente com a novidade: “Uma vez, numa vesperal lá no Filipinho, veio um moço forte, falou: ‘Tu é que é Riba Macedo? Ô, rapaz, o que você tem de novo aí, diz que tem um jogo de luz, um tal de trepideque…’ Não, rapaz, é tape-deck! ‘Como é que é isso?’ Peguei uma fita e botei pra funcionar. Comprei em Belém. Ninguém tinha.” Como se sabe – e a pesquisa de Karla não deixa es­capar –, o cassete reinou nas festas e programas de rádio ao longo da década de 1980, até a chegada do mini disc (MD). Guarnecida por uma cápsula plástica que lhe protegia do pó dos terreiros e quintais da periferia de São Luís, executada por um sistema imune a solavan­cos e quedas de energia, a fita foi o meio físico da consolidação do reggae no Maranhão.

A era do breggae

Outro advento técnico importante é o da radiola de mesa, que colocou os djs de frente para o público e lhes abriu caminho para performances mais entusiasmadas ao microfone, inclusive com alguma participação sobre as músicas. A cena reggae do Maranhão virou do avesso. O primeiro a abandonar o móvel vertical foi Natty Nayfson, em meados de 1995. Infelizmente, um dos talentos mais explosivos dessa nova configuração, Antônio José Pinheiro Silva, o “Lobo”, morreu em 1996, não tendo tempo de desenvolver técnicas mais elaboradas e, quem sabe, deixar um legado mais contundente. O fato é que, a despeito de seu papel revolucionário, a radiola de mesa não produziu djs como os do estilo jamaicano, que dominam o microfone e têm realmente o que dizer, a ponto de se tornarem grandes artistas e lançarem discos como intérpretes.

Antonio José, o "Lobo" em ação
Antonio José, o “Lobo” em ação

O privilégio estava reservado a cantores como Dub Brown, Toty, Rosy Valença, Ronnie Green e outros dessa geração, que ir­rompeu no século 21 em mais uma onda de mudanças patrocinada por um equipamento: o computador. Ora, em pequenos estúdios adaptados na garagem ou no quarto dos fundos, com o auxílio de um teclado, um microfone e um violão – afora algum talento –, dá pra fazer melôs parecidas às dos gringos. Parecidas mesmo, porque esse novo cancioneiro flutua em um mar de referências, fisgando linhas melódicas que remetem aos clássicos das radiolas e arranjos que o aproximam do brega. Apesar dos mimetismos, não há similar no mundo: esse “breggae” feito hoje no Maranhão é mesmo uma coisa de louco.

Mas é possível contar tudo isso de outro jeito, retomando o episódio de Riba Macedo nas calçadas de Belém e, daí, as aventuras de afamados djs e colecionadores como ele. Porque a lavra dessas pedras é uma ciência e possui, também, sua arqueologia – as levas de discos compradas no Rio e em São Paulo, as que eram trazidas ou enviadas da Europa, a garimpagem nos baús de velhas lojas e estú­dios de Kingston. Dá pra percorrer a linha do tempo observando a evolução na maneira de dançar ou no modo de vestir e, de novo aí, resgatar os acontecimentos e personagens que fizeram essa história. A obra de Karla Freire, nesse sentido, é um tesouro. Certamente, vai inspirar muitos outros estudos sobre o tema.

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Otávio Rodrigues foi o apresentador do primeiro programa de reggae no rádio brasileiro. É uma enciclopédia ambulante do assunto e um dos jornalistas que inspiram este blogue (pena o Bumba Beat nunca mais ter sido atualizado).

Onde o reggae é a lei é a adaptação da dissertação que Karla Freire apresentou ao Mestrado em Ciências Sociais da UFMA, onde já havia se formado jornalista e se especializado em Jornalismo Cultural. O nome da editora Pitomba, de seu marido Bruno Azevêdo, aparece lá em cima por que são dele a edição, pesquisa de imagens e projeto gráfico.

O livro terá mini-turnê de lançamento em São Luís entre amanhã (25) e segunda-feira (28). As noites de autógrafos em outras capitais já estão sendo armadas. Confira a programação na Ilha:

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Música maranhense: silêncio da/na Rádio Universidade FM

Quando li este texto no blogue do jornalista Henrique Bóis, fui tomado de imediato por um misto de raiva e nojo. Imediatamente resolvi reagir e vomitei alguns parágrafos em que me mostrava indignado com a transformação, de uns tempos pra cá, da Rádio Universidade FM em apenas mais uma rádio comercial entre as outras do dial. Que a Radiun, como é carinhosamente chamada pelos que a fazem, deveria ter um papel de laboratório, de vanguarda, sem preocupações primordiais com lucros etc. Que seria contraditório o confinamento da música maranhense aos horários do diário Santo de Casa (apresentado por Gisa Franco, de segunda a sexta, das 11h ao meio dia) e do semanal Chorinhos e Chorões (aos domingos, das 9h às 10h, por RicarteAlmeida Santos), cujo apresentador cheguei a ouvir para escrever um texto cujo rascunho, jogado direto no wordpress e não esboçado em word, como de costume, não foi salvo. Por que liguei para Paulo Pellegrini e este negou a veracidade das afirmações de Bóis e as aspas de suas falas no texto, embora o tenha feito de maneira muito tranquila, em minha opinião.

Cheguei ao texto de Bóis através do compartilhamento do mesmo pelo cineastamigo Murilo Santos, em seu perfil no Facebook. Em resposta, nos comentários, marquei Murilo, Paulo Pellegrini e Henrique Bóis, após o telefonema ao segundo. Só o primeiro respondeu, dizendo aguardar um pronunciamento oficial da Rádio Universidade FM.

Ontem (só li hoje) recebi por e-mail o texto abaixo, do compositor e jornalista Cesar Teixeira, sobre o mesmo fato.

Este blogue continua aguardando manifestação da Rádio Universidade FM sobre o assunto.

SANTO DE CASA NÃO FAZ MILAGRE

CESAR TEIXEIRA

Fiz parte de uma geração de estudantes e professores que lutou pela criação de uma gráfica e uma rádio dentro da UFMA, no início dos anos 80. Exatamente para implodir o modelo autoritário que impedia a universidade de cumprir o seu papel social, interagindo e contribuindo com a comunidade para garantir a cidadania e o direito constitucional à informação.

É triste hoje constatar que a Rádio Universidade FM, gerenciada pela Fundação Souzândrade, está querendo jogar fora o seu script ético, passando a discriminar os artistas maranhenses que mais têm contribuído para o sucesso da nossa música. Isso outros canais de comunicação já fazem no Maranhão. Será que o jabá ideológico também se apropriou da emissora?

Tive informação de que ingressos oferecidos pela produtora de um show do compositor Josias Sobrinho não poderiam ser divulgados nos programas jovens da emissora, conforme teria determinado o coordenador geral, Paulo Pellegrini, ficando limitados aos programas Santo de Casa e Chorinhos e Chorões.

Não deixa de ser esquisito excluir os jovens, excluindo o artista. Pior ainda. Segundo o blog do jornalista Henrique Bóis, o diretor afirma que se o público da rádio “acaso fosse a um show de músico maranhense teria uma péssima impressão, principalmente de alguns (…) compositores que se aventuram a cantar”.

Que público será esse que teria má impressão da nossa música, que a própria rádio tanto se empenhava em divulgar? Não faz sentido. Parece até uma tentativa de ressuscitar a antiga censura prévia em uma emissora pública, cujos projetos também dependem de empresas como a Vale e a Alumar, de interesses culturais duvidosos.

Como lembra o jornalista, eles utilizam “a mesma música que rejeitam para convencer os patrocinadores” do Prêmio Universidade FM, que distribui anualmente troféus para artistas e produções culturais que mais se destacaram.

A verdade é que Santo de Casa não faz milagre. Ou faz?

Para todos os efeitos, é lamentável que a direção da rádio tenha transformado a música maranhense em merda, e agora esteja pisando nela.

Charme e elegância

Quem já ou/viu Léo Spirro num palco, sabe bem que estas duas palavras são tradução possível de suas performances.

Há algum tempo o setentão gravou um disco dedicado ao repertório de Cartola.

Hoje, ele sobe ao palco para cantar músicas deste disco entre outros clássicos da música brasileira.

Isso tudo, por si só, já valeria o show. Mas ele terá a participação especial de Silvério Pontes, ao trompete, somando-se ao grupo que o acompanhará: Celson Mendes (violão), João Neto (flauta) e Fleming (bateria).

É logo mais, no Barulhinho Bom:

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Música e poesia em duas noites memoráveis

Joãozinho Ribeiro, "o gregário"
Joãozinho Ribeiro, “o gregário”

ZEMA RIBEIRO

Joãozinho Ribeiro adiou por muito tempo a gravação de seu disco de estreia, que reunirá pequena parte de sua significativa obra, fruto de mais de 30 anos de carreira, contados aqui a partir de sua participação em um festival de música universitária na capital maranhense em que nasceu em 1955.

Ocupou-se de outras missões, não menos nobres, tendo estudado engenharia e economia, sem concluir, formando-se bacharel em Direito. À época do citado festival era liderança ativa nos movimentos da greve da meia passagem e contra a ditadura militar então vigente. Hoje, ajuda a formar novos bacharéis, dividindo com o ofício de professor universitário a existência de também funcionário público e, não menos importante, poeta e compositor.

Não por acaso Do ofício de viver e outros vícios é título de um segundo livro, a ser lançado sabe-se lá quando, que as coisas com Joãozinho não funcionam de modo tão planejado, exceção feita às ocasiões em que foi gestor público. João Batista Ribeiro Filho, seu nome de pia, já foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e secretário de estado da Cultura do Maranhão, além de ter sido coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, função que ocupou no MinC, quando Juca Ferreira era o ministro. Aquele título se somará ao livro-poema Paisagem feita de tempo que ele publicou em 2006, 21 anos depois de concluído.

Milhões de uns, o disco de estreia, toma emprestado o título de sua música talvez mais conhecida, imortalizada na voz de Célia Maria, que venceu o Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos. O disco foi gravado ao vivo nos últimos 27 e 28 de novembro, ao vivo, no Teatro Arthur Azevedo, em duas noites memoráveis. Noites de música, poesia, teatro, arte, encanto, beleza, vida, enfim.

Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro
Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro

Milhões de uns não é apenas um título de música. Ou de disco. É a mais perfeita tradução de Joãozinho Ribeiro, o “gregário”, como cravou Chico César, um de seus ilustres convidados, que presenteou o compositor e o público musicando-lhe um poema: Anonimato, que escrevera em homenagem ao vimarense João Situba, seu pai.

Só entre convidados e participações especiais estavam Alê Muniz, Célia Maria, Cesar Teixeira, Coral São João, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro, fora o o ator Domingos Tourinho, que apresentou belas intervenções poéticas durante os shows. Fora a superbanda arregimentada por Joãozinho Ribeiro para o par de noites que deixou a plateia pisando em nuvens: Arlindo Carvalho (percussão e direção artística), Celson Mendes (participação especial ao violão), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Barbosa (trompete), Josemar Ribeiro (percussionista convidado), Kleyjane Diniz (vocal), Luiz Jr. (violão, guitarra, viola, direção musical), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo), Wanderson Santos (percussão), Xororó (percussionista convidado) e Zezé Alves (flauta).

"Cantador que canta só canta mal acompanhado"
“Cantador que canta só canta mal acompanhado”

O público merece esse registro. Joãozinho, apesar de não ter disco gravado até hoje, é um de nossos mais gravados compositores, em vozes alheias. O próprio Joãozinho merecia – e se/nos devia – esse registro, como fez por merecer cada aplauso nestas noites memoráveis.

João foi ao fundo do baú. Ou melhor, do cofo. Milhões de uns botou na roda diversos gêneros musicais – choro, samba, bumba meu boi, tambor de crioula, blues, afoxé – feitos na solidão (nunca, que “cantador que canta só, canta mal acompanhado”, como ele mesmo canta) ou em parceria. Na primeira categoria estão Matraca matreira (interpretada por Chico Saldanha), Pegando fogo (por Rosa Reis), Amália, Erva santa (interpretada pelo autor com Chico César e Zeca Baleiro), Saracuramirá (interpretada pelo autor com Chico César), Saiba, rapaz (interpretada por Célia Maria), Esquina da Solidão (por Cesar Teixeira), Derradeiro trem (por Zeca Baleiro), Palavra (idem), Passamento, Terreiro de ninguém (por Josias Sobrinho) e Milhões de uns (que o autor cantou com o Coral São João). Na segunda, Samba do capiroto (parceria com Cesar Teixeira, que os dois cantaram juntos), Cidade minha (parceria com Marco Cruz, interpretada pelo Coral São João), Gaiola (parceria com Escrete, interpretada por Lena Machado), Rua Grande (parceria com Zezé Alves, idem), Tá chegando a hora (idem, que marcou o encerramento das noites, em que todos os convidados retornavam ao palco para cantá-la juntos) e Coisa de Deus (parceria com Betto Pereira), cuja interpretação arrebatadora de Milla Camões, programada para participar apenas do primeiro dia, fizesse a cantora voltar ao palco na noite seguinte, que protocolos e scripts não podem barrar sentimentos e/ou Joãozinho Ribeiro.

Há material para um cd duplo, no mínimo, e um dvd. A quem não foi, resta esperar. E a quem foi, também, torcer para poder reouvir/rever o quanto antes. Como já disse ao próprio “little John”, apelido carinhoso com que o tratamos alguns íntimos: o resultado não pode demorar (mais ainda) a ganhar estantes, coleções, cd-players, ouvidos, cabeças e corações.

Vias de Fato, dezembro/2012. Leia o texto que escrevi para o programa de Milhões de uns (distribuído aos espectadores por ocasião do espetáculo). Continue Lendo “Música e poesia em duas noites memoráveis”

Bom dia!

Clipe de Passione, de Junio Barreto, com Mariana Ximenes e Xico Sá. A quem (re)interessar possa (eu já havia recomendado), Setembro pode ser baixado aqui.

Perigo!: pensamento lúcido sobre a música do Maranhão

Cansado (pra caralho) do trabalho (pelo qual havia chegado de viagem no dia anterior), gripado e bebendo de dia no aniversário de uma tia (rima involuntária mas verdadeira), acabei perdendo o show de lançamento de Z de vingança, disco de brega-rock (chamemos assim embora não seja exatamente isso) de estreia (idem) de Marcos Magah.

Não tenho informações do público presente ao Odeon para o espetáculo, que contou com outras intervenções, inclusive a de Bruno Azevêdo, nosso maior especialista em música brega (sua monografia em História e dissertação em Ciências Sociais, ambos os cursos na UFMA, abordam o tema), na ocasião na condição de DJ. Mas soube por um amigo ao telefone, me fazendo sentir alguma culpa (pelo que não deixo de agradecê-lo), que foi muito bom, um “acontecimento”, na falta de melhor adjetivo (por parte minha, não do amigo). E por não ter ido, também.

O fato é que o disco de Magah sai pelo selo Pitomba!, do mesmo Bruno Azevêdo que, ano que vem, lança às próprias custas s. a., sua dissertação. É um disco instigante, pelo que ouvi. E o texto que o autor de Breganejo blues escreveu sobre Z de vingança, mas não só, abarcando a música do Maranhão, em dado cenário, momento e recalque, é, qual o disco, instigante e deveria fomentar debates, se a cidade não usasse jornais apenas para o clipping de órgãos públicos e para embrulhar peixes no dia seguinte.

O texto saiu sábado no Alternativo (O Estado do Maranhão), data em que Magah subiu ao palco para o lançamento. A quem interessar, taí!: Homem lúcido e perigoso se dirigindo para o centro da cidade. Caso apareça um alerta, diga, óbvio, “estou ciente e quero continuar”: Azevêdo e Magah são perigosos, incomodam por fazerem pensar, até “Dona Internete” parece saber disso.

Sobre a lista encomendada por este blogueiro e citada por Bruno no início de seu artigo, sinto deixar-lhes curiosos por mais um tempinho. Espero que curto.

Jack Kerouac canta

Para Ademir Assunção, Celso Borges, Cláudio Willer, Dyl Pires, Eduardo Júlio, Fernando Abreu, Josoaldo Rego, Mário Bortolotto, Paulo Melo Sousa, Reuben da Cunha Rocha e Ronaldo Bressane.

Via @cynaramenezes