Sobras

RoNca RoNca apresenta Os Paralamas do Sucesso ao vivo. Capa. Reprodução

Recentemente escrevi para o Farofafá sobre “RoNca RoNca apresenta Os Paralamas do Sucesso ao vivo”, novo disco da banda, que celebra os 40 anos do programa apresentado por Maurício Valladares, após algumas mudanças de nome, emissoras e plataformas.

O jornalista e fotógrafo foi o primeiro a tocar a banda no rádio, exatamente no dia 17 de dezembro de 1982, antes mesmo de o grupo estrear no mercado fonográfico, o que aconteceria no ano seguinte, quando Herbert Vianna (guitarra e voz), Bi Ribeiro (contrabaixo) e João Barone (bateria) lançaram “Cinema mudo”, disco que trazia “Química” (Renato Russo) no repertório, gravada por eles antes mesmo da Legião Urbana – em um disco ao vivo da banda, lançado após o falecimento de seu líder, Renato Russo afirma que Os Paralamas do Sucesso são padrinhos da Legião Urbana.

Para escrever sobre o novo disco conversei por telefone com Maurício Valladares e através de um aplicativo de mensagens com João Barone. Compartilho agora, com minha meia dúzia de leitores e leitoras, as sobras do Farofafá.

Os Paralamas do Sucesso com Maurício Valladares. Foto: José Fortes

DEPOIMENTO: MAURÍCIO VALLADARES

40 anos: o começo de tudo

A primeira página [de seu livro “Os Paralamas do Sucesso”, com texto de Arthur Dapieve, Senac, 2006] é a reprodução que teria sido o diálogo meu com o Hermano [Vianna, antropólogo], irmão do Herbert, que era ouvinte do programa na Fluminense e ganhou a promoção do Clash, com “Combate rock”, aí a gente conversando pelo telefone, “pô, então vamos nos encontrar, passa lá em casa e pega o disco”, ele morava em Copacabana, o papo, vários assuntos comuns, a  gente se encontrou, eu dei o disco pra ele, a gente ficou conversando, e no final ele falou assim: “bom, a próxima vez que a gente se encontrar eu vou te dar a fita que o meu irmão tá gravando com a banda dele”. Eu falei: “ah, beleza, qual é a banda?”. Ele falou: “Os Paralamas do Sucesso”. Eu falei: “pô, mas que nomezinho mequetrefe” [risos do repórter]. Bom, o mundo girou, os dias passaram, ele me deu a fita, e aí quando eu recebi a fita e gostei, eu de cara, isso era dezembro de 1982, eles tinham gravado três músicas, “Vital e sua moto”, “Encruzilhada noturna” [“Encruzilhada agrícola industrial”], e uma outra música [“Patrulha noturna”], isso é fácil de descobrir, porque existe uma lauda do programa que circulou pela web, eu contando, falando que “hoje vamos receber uma nova banda, chamada Os Paralamas do Sucesso”, e a Liliane [Yusim] que fazia o programa comigo, ela lembra perfeitamente deles três no estúdio. E lembra que o Herbert ficou muito eufórico, porque ele achou que a gente ia tocar uma música e tocamos as três que existiam. E essa demo sumiu. O João Barone, principalmente, procura essa demo há anos, há décadas, e não acha esse áudio. E aí a gente ficou amigo. Em sequência pintou a coisa deles gravarem pela Odeon, negócio de capa, de fotografia e aí o bagulho foi crescendo. Mas eles estiveram no estúdio da Fluminense no dia 17 de dezembro de 1982. E a gente esteve juntos agora, sábado, dia 17 de dezembro de 2022, exatos 40 anos depois, que foi esse show deles lá na Barra [o show de lançamento do disco, no Qualistage] e eu fiz um som antes.

O programa de 1982. Acervo Maurício Valladares. Reprodução

Som original

[Pergunto se ele tinha noção de que havia lançado uma banda que iria longe] Não, não tinha. Aliás, ninguém tinha projeção de porra nenhuma. Ali, no caso, a Fluminense eram umas figuras que se juntaram pra fazer uma aventura. Eu já vinha da música, já escrevia em jornal de música, já tinha dado uma circulada, estava circulando pelo jornalismo e sempre fui muito fissurado em rádio. Então, pra mim, foi um caminho natural, pra outras pessoas não, vinham de comércio, mas gostava de música, rock progressivo, música brasileira e se juntou ali pra fazer a rádio, mas sem nenhuma perspectiva do que ia acontecer. O que me interessou, no caso específico dOs Paralamas e Legião Urbana, e eu poderia citar outras, é que [interrompe-se], pô, morreu o Terry Hall, ontem, do The Specials. Não sei se você lembra do Obina Shok [banda brasiliense da época], que era uma banda que misturava, eles todos eram ligados a diplomatas em Brasília, africanos, do Caribe, eles fizeram uma banda muito maneira, gravaram dois discos [“Obina Shok”, em 1986, e “Salleé”, em 1988], o primeiro é muito bom, o [Gilberto] Gil gravou com eles, a Gal [Costa] gravou com eles [ambos participaram do elepê de estreia]. Então, eles ali, o Obina Shok, em meados dos anos 1980, não tão no início, eles representavam aquele som que me interessava muito, que era essa mistura de música africana, com Caribe, então, aquilo me chamou atenção na demo deles, eu toquei pra caramba, o mesmo caso da Legião e dOs Paralamas. Era um som muito diferente do que se produzia pela garotada no Brasil, que ainda vinha com aquele ranço de rock clássico, da MPB tradicional, e eu tinha acabado de chegar de Londres, eu tava com essa sonoridade, 2Tone, The Specials, Police, e do rock, Joy Division, The Cure, Echo & The Bunnymen, eu tinha ouvido todas essas bandas no início. Então, quando você ouve uma demo de uma rapaziada que você sente o estilo dessas referências, aquilo te liga o alerta. Agora, perspectiva de que isso seria, que a Legião iria se transformar no que foi, Os Paralamas e outros tantos, não, zero, nenhuma.

“Um acumulador do caralho”

Isso é praticamente uma doença minha, eu sou um acumulador do caralho. Eu guardo tudo. Eu tenho ingressos, um exemplo que casa com isso que a gente está falando, eu volta e meia conto essa história: quem, que em 1984, guardaria um bilhete deixado na portaria do prédio, de um tal de Renato Manfredini, dizendo que estaria mandando uma fita pra eu ouvir? Eu guardei, esse bilhete do Renato [Russo, vocalista da Legião Urbana], ele tinha uma letra linda, desenhava muito bem, está no livro “Cartas brasileiras” [“Correspondências históricas, políticas, célebres, hilárias e inesquecíveis que marcaram o país”, Companhia das Letras, 2017, org.: Sérgio Rodrigues], é um livro maneiríssimo, tem carta de Lampião [o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva] a Getúlio [Vargas, ex-presidente da República], passando por Dolores Duran [cantora e compositora] e o caralho a quatro, e está lá, numa página inteira, o bilhete do Renato pra mim. Qualquer pessoa pegaria aquele bilhete ali, de um anônimo, Renato Manfredini, ali, pô, legal, amassa e joga na lata do lixo. Hoje esse bilhete está eternizado num livro com cartas de D. Pedro II, Princesa Isabel, tá entendendo? Eu guardo tudo, cara. É um negócio preocupante, porque, bilhete de show, de jogo, agora a Rainha Elizabeth morreu, eu tenho bilhete de 1968, que eu fui num jogo com meu pai, seleção carioca contra seleção paulista, o jogo foi armado pra Rainha Elizabeth no Maracanã, um bilhete lindo, o ingresso do jogo. Eu tenho essa merda!

Outro livro com material do acervo

Esse livro eu não digo que está no forno porque o forno não foi ligado, mas ele está pensado, idealizado e prestes a ser ejetado. Esse livro, que a gente dá o nome fictício de almanaque, porque ele trata de outros assuntos, ele teria sido o livro anterior a meu livro de fotografia “Preto e branco” [Automática, 2016], que eu lancei em novembro de 2016. A primeira foto que está no livro deve ser de 1972 e a última deve ser de 2005, 6, quando eu parei de fotografar analógico e passei pro digital, por obrigação do mercado, e de coisas do Rio e de viagem, de show, pouca coisa de música, muita coisa de carnaval, futebol, muita rua, e esse livro “Preto e branco” ele ocupou o espaço do almanaque. O almanaque já estava começando a ser pensado, aí o Fernando Furtado, empresário do Skank, meu amigo, ligado em fotografia, gosta das minhas fotografias, falou “cara, essa ideia do almanaque é muito boa, tem a ver, mas você tem que fazer um livro de fotografia de arte, uma foto por página, bem impresso pra caramba, essa é a área que você tem que entrar”. Eu fiquei sensibilizado pela ideia do Fernando, falei com a Luiza Melo, editora, Christiano [Calvet] e Raul Mourão, eles acharam também e a gente inverteu o caminho da história. A gente começou a trabalhar no “Preto e branco” e deixamos o almanaque pra depois. Aí veio a pandemia e ficou meio que congelado. A gente retomou agora recentemente, juntar essas peças todas. O que seria o almanaque? Seria um livro das minhas histórias, do material que eu acumulei ao longo desses mais de 40 anos, com muita coisa do jornalismo, muita reprodução de matérias, dessa papelaria que eu tenho, cartaz, de disco autografado, um almanaque mesmo, das coisas que eu juntei.

Outro/s disco/s

Essa é uma ideia que tem surgido. Tem muita coisa. Essa semana eu falei poderia fazer o disco dO Rappa, por exemplo. Quando eles foram, acho que em 2000, no RoNca RoNca, o som tá bom pra caramba, com o [baterista e letrista Marcelo] Yuka, um repertório maravilhoso, poderia fazer. Como poderia fazer um disco que misturasse vários artistas, desde Cássia Eller na Globo, Renato [Russo] e Dado [Villa-Lobos] na Globo também, com áudio bom pra caramba, Rodrigo Amarante, [Marcelo] Camelo sozinho tocando umas maluquices do caralho, quando ele tava naquela porra de música desorientante. Enfim, poderia fazer tranquilamente. Mas cara, é uma burocracia. Eu só consegui fazer esse disco dOs Paralamas porque são Os Paralamas. Eu sou de quebrar a burocracia, de conseguir as autorizações, de resolver as coisas financeiras. [A relação de amizade com Os Paralamas] é determinante, se não fosse, não rolaria. Um outro compacto que eu lancei em 2005, 2006, com algumas das gravações na Oi FM, um compacto com Do Amor, Cidadão Instigado, Otto e Tulipa, é um compacto que a gente deu, promocional. Pra conseguir liberar isso ia ser um parto e pra vender, negociar esse bolo, como é que vai ser dividido, pô, burocracia é um negócio que eu corro dela. Então eu prefiro nem fazer, pra não me aporrinhar. Esse dOs Paralamas só foi adiante porque era uma oportunidade única: é agora ou nunca. São 40 anos da banda, são 40 anos do programa e aí alguém lá em cima mexeu com os botões pra coincidir esse 17 de dezembro com o show deles e o vinil estar pronto junto. É um bagulho, é mandinga, é muito louco.

O ritual de ouvir música

Outro detalhe interessante, que é bacana de as pessoas perceberem: ah, só vai sair em vinil? Só vai sair em vinil. Ele vai pra plataforma, o Zé [José Fortes, empresário dOs Paralamas do Sucesso] vai botar, mas não vai sair em cd. Porque ele não é só um artefato para ouvir música, ele representa uma forma de ouvir música, ele representa uma relação com a música, com a atenção que a música precisa ter, com o tempo que a música precisa ter. Você está ouvindo o lado a, você quer ouvir o lado b? Eu lamento te informar, mas você vai ter que levantar e vai ter que virar o lado do disco, ele não vai tocar automaticamente [risos]. Ele representa isso, eu não acho que seja só saudosismo, pode ser que o saudosismo seja uma das características disso, mas é essa informação que está sendo dada, de que a música, para ser entendida como música e como um duto de informação e de tudo o que está envolvido ali, ela precisa de tempo, ela precisa da sua atenção. Isso é assim. Esse é o conteúdo, a mensagem que vai nesse disco, independente do que esteja nele, mas fora, se você olhar de fora, pô, eu preciso ter atenção aqui.

Os Paralamas do Sucesso com Maurício Valladares e o empresário José Fortes. Acervo Maurício Valladares

ENTREVISTA: JOÃO BARONE

ZEMA RIBEIRO – Maurício Valadares foi o primeiro a tocar Os Paralamas do Sucesso no rádio, antes mesmo de o grupo ter lançado o primeiro disco. É simbólico que os 40 anos da banda sejam celebrados com o lançamento de um disco que registra uma participação de vocês em um programa dele, ainda no século XX? Gostaria de ouvi-lo sobre essa relação de trabalho e amizade e a importância dele para a banda.
JOÃO BARONE – O Maurício é um cara que construiu uma reputação como homem do rádio. Ele, naquele momento, onde estava todo mundo surgindo, tava todo mundo emergindo daquela grande efervescência, que todo mundo sentia, com o final da ditadura, com a necessidade de reescrever um pouco a cena musical jovem, a nova cena musical que apontava ali naquele início dos anos 1980, e a Rádio Fluminense, que teve uma atitude muito pioneira e instigante, ela tocava as inúmeras fitas que chegavam para a programação da rádio, porque eles deram essa abertura, essa receita, de ir atrás do novo, do que estava surgindo, por conta de algumas entradas no mainstream, como foi o caso da Blitz, que marcou muito, como primeiro momento, na hora que abriu a porteira para uma nova expressão, dentro da música jovem, com o rock ganhando mais espaço, saindo um pouco daquele gueto que ele vinha, da classe média, do rock como a gente conheceu nos anos 1970, que era uma coisa muito restrita à classe média, aos universitários, na época em que universitário gostava de rock [risos]. Então, é claro que existe uma importância gigantesca nos grandes referenciais do rock brasileiro, que veio antes, nos anos 1970, Mutantes, Rita Lee, Raul Seixas, mas a geração dos anos 1980 foi responsável por ancorar definitivamente o rock na música brasileira. Então, o que a gente viu ali na Rádio Fluminense foi um momento inicial dessa grande abertura para o rock brasileiro e esse momento refletiu-se em todas as capitais do Brasil, em todas as regiões, foram aflorando as bandas novas de rock, especialmente daquela cena lá de Brasília, de onde Os Paralamas sempre faziam referência a Brasília. A gente é uma banda do Rio, mas Brasília sempre esteve no norte dOs Paralamas, tanto que até hoje muita gente acha que Os Paralamas são de Brasília [risos]. Mas o Bi e o Herbert, que moraram lá, conheceram aquela turma toda, do Renato Russo, do Dinho [Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial], Plebe Rude, o caramba a quatro. Enfim, quando chegou esse momento dOs Paralamas levarem a fita até a rádio Fluminense, a gente teve a surpresa do Maurício Valladares tocar no programa dele a nossa fita e dali, já, as músicas da nossa fita começaram a tocar na programação da rádio, “Vital e sua moto” foi um hit, dentro daquela lista das bandas novas que eram pedidas pelos ouvintes, e o resto foi história. A gente no começo de 1983 assinou o contrato com a gravadora e o Maurício sempre teve essa visão, assim, mais ampla da cena do rock principalmente, onde ele sempre ia atrás da novidade, ia atrás da vanguarda, apesar de ele não gostar muito disso [risos], a gente sempre via o Maurício como o cara que apontava boa música, além de qualquer rótulo, de influência ou de vanguardista, o Maurício sempre gostou de boa música, de qualquer que fosse a era, do rock clássico, dos grandes vultos do rock, dos anos 1960, 70, e aí quando chegou nos 80 ele estava indo lá, atrás das novas tendências, tanto que o programa dele, o Rock Alive, era sempre assim, sempre colocava coisas diferentes, e aí a gente teve a sorte de começar uma amizade a partir dali. O Maurício já era fotógrafo antes de ser um cara da rádio e ele era um fotógrafo fora do comum, era um cara com um perfil muito artístico em termos de fotografia, ele nunca foi um fotógrafo profissional, sabe?, de trabalhar em estúdios e não sei o quê. O Maurício é um cara que a personalidade dele também está na fotografia que ele faz. Ele acabou trabalhando com [interrompe-se], a gente chamou ele pra fazer as capas do nosso disco [“Cinema mudo”, de 1983], ele foi o cara que fez a primeira foto oficial dOs Paralamas, para a revista Pipoca Moderna, ali no final de 1982, onde já anunciava-se o nosso show no Circo Voador em 1983, quando a gente abriu [pro] Lulu Santos. Maurício sempre foi um cara muito de personalidade, ele não é um fotógrafo como todo mundo acha que o fotógrafo é, aquele cara que sai tirando um milhão de fotos. O Maurício tirava meia dúzia de fotos e olhe lá [risos], ele busca o momento ideal para fazer o clique, ele não é o cara que sai numa roleta russa, tirando foto a três por quatro. A personalidade dele sempre se expressou muito nas fotografias, na música que ele apresenta. E esse disco que ele agora lançou é apenas um registro dos inúmeros registros preciosos que ele tem de muita gente bacana que participou das várias encarnações do programa dele de rádio. Quando ele saiu da Rádio Fluminense, depois veio com outro programa, que era o Ronca Tripa, depois virou Radiola e aí nos últimos anos, já vai fazer um tempão, uns 20 anos, virou o RoNca RoNca, e ele continua espalhando boa música pelo universo afora. A nossa relação de amizade foi crescendo com o tempo, o Maurício é um cara que virou parte dOs Paralamas, ele é um cara da nossa entourage, sempre referencial. Quando a gente vai fazer alguma coisa a gente mostra pra ele, a gente fala com ele, ele tem uma ingerência muito grande sobre a nossa organização. Os Paralamas somos nós três, mais o Zé Fortes, como teve o documentário [“Os quatro Paralamas”, de 2020, de Roberto Berliner e Paschoal Samora, disponível na Netflix], é o quarto Paralama, e o Maurício é um cara que a gente sempre conta com a opinião dele em qualquer situação, ele é uma espécie de oráculo prOs Paralamas e essa relação foi crescendo ao longo dos anos, ela foi se amalgamando com o tempo e a gente é compadre velho, depois desse tempo todo, 40 anos desde o dia em que ele tocou a gente pela primeira vez no rádio e essa amizade só fez aumentar com o tempo.

ZR – Os Paralamas do Sucesso foi a banda mais ousada do chamado pop rock brasileiro dos anos 1980, justamente por sua disposição em não se contentar com o pop rock, indo além, nas misturas, por exemplo, com o reggae e o ska. Pra você, além do contato com Gilberto Gil, o que foi definidor nesse aspecto?
JB – Eu acho que o que caracteriza Os Paralamas é uma espontaneidade muito grande e um compromisso muito grande com o que a gente gosta mais de fazer, que é tocar. O Herbert foi desenvolvendo uma capacidade muito grande nesse dom que ele tem, de composição, mas ele faz tudo visando esse grande momento que é a gente tocar junto e ele poder tocar também, porque o Herbert, acima de tudo, é um guitarrista. É um cara que pensa, sempre pensou muito na guitarra, na composição. Ele foi evoluindo musicalmente ao longo desse tempo todo, ele foi colocando a mente dele a favor da música e pensando coisas musicalmente até mais ousadas do que a guitarra. Ele começou a pensar no piano, começou a pensar nos riffs de sopros, que hoje são parte integrante dOs Paralamas. Isso tudo sai muito da cabeça do Herbert, ele foi desenvolvendo essa musicalidade e a gente foi arriscando tudo no que ele pensava, o Herbert sempre foi esse músico excepcional, o cara que, musicalmente é o mais requintado dOs Paralamas, o Herbert estudou violão clássico, o Herbert sabia tocar bossa nova, e ele foi refinando a capacidade dele de letrista e hoje a gente tem esse legado das músicas dOs Paralamas que ele fez há tantos anos e todo mundo canta até hoje e não tem um ranço nostálgico, é uma coisa que funciona hoje em dia. O repertório dOs Paralamas está longe de ser uma coisa nostálgica, as músicas funcionam atualmente, as pessoas que descobrem a obra dOs Paralamas hoje em dia, a gente tem um público que cresceu com a gente, mas quis o destino que a gente renovasse muito o nosso público, por conta da nossa música, do que a gente fez antes, do que a gente faz eventualmente atualmente, mas esse aspecto dOs Paralamas continua funcionando até hoje, o nosso grande prazer em fazer o que a gente faz, em tocar junto e ir pra estrada, que é uma outra coisa que a gente gosta muito, de fazer show, quando a gente tem assunto a gente grava um disco e é assim que a gente funciona, com esse descompromisso, até certo ponto, de ficar indo atrás de fórmulas ou de receitas. A gente vai aonde o nosso arrepiômetro funciona. Talvez seja a melhor explicação dOs Paralamas, mais do que qualquer autorreferência de ousadia ou de não sei o quê. Naquela época a gente até tentou se diferenciar do bloco todo que tinha ali do rock brasileiro, o nosso terceiro disco [“Selvagem?”, de 1986] foi mais ou menos isso, a gente fez uma escolha realmente, estética, uma escolha conceitual, e de lá pra cá a gente foi explorando a musicalidade intrínseca que a gente tem. Umas horas a gente está mais reggae, umas horas a gente foi mais afro, uma hora a gente está mais balada, uma hora a gente está mais roqueiro, enfim, é isso que a gente faz, a gente explora as nossas personalidades musicais ao nosso bel-prazer.

ZR – O disco recém-lançado, com o material do RoNca RoNca de 1999, revela algumas influências de vocês, no sentido em que além de clássicos e lados b da banda, apresenta também Os Paralamas do Sucesso fazendo alguns covers. O que mais você destacaria neste registro?
JB – O repertório que foi registrado nesse vinil que agora é lançado pelo Maurício Valladares, o RoNca RoNca, podia se dizer o RoNca RoNca sessions [risos], como eu falei, o Maurício tem um baú com registros incríveis de um monte de gente que foi ao programa dele fazer uma apresentação ao vivo, ali, em tempo real, foi gravado, mas era tudo ao vivo, a nossa participação foi ao vivo, a menina lá, a ouvinte, pediu para a gente tocar “Navegar impreciso” [Herbert Vianna] e a gente tocou ali, na hora. Esse repertório foi bem inusitado, que a gente apresentou ali no programa do Maurício, o Herbert puxou lá uns blues, puxou lá uma música do The Beat, do The English Beat [“The tears of a clown” (Henry Cosby/ Smokey Robinson/ Stevie Wonder)], e algumas músicas não tão conhecidas, não tão hits assim dOs Paralamas, e o que tem de interessante nesse registro é que ali a gente estava começando a rascunhar o que viria a ser o nosso Acústico MTV [1999], que a gente gravou dali a alguns meses, a gente começou a experimentar algumas coisas nesse formato acústico, apesar de o Herbert ter gravado com uma guitarra elétrica, mas a gente já estava ali esboçando um projeto pra gente fazer um acústico que seria meio na contramão da receita do formato, que era sempre pegar as músicas mais conhecidas e tocar com um violão, um bongozinho, então a gente estava pensando assim, ousadamente, num acústico onde a gente não traria apenas obviedades, então esse registro do programa do Maurício, que agora está saindo nesse vinil, é uma espécie de caviar, é uma tiragem limitada, de produção limitada, com um registro assim raríssimo dOs Paralamas despojados, e que tem um valor, assim, por conta dessa pré-produção, desse pré-registro do nosso acústico.

ZR – Em suma: o disco no RoNca RoNca está longe do que poderíamos chamar de caça-níquel e Os Paralamas tem lançado material inédito com certa regularidade, embora o último disco de inéditas seja de 2017 [Sinais do sim]. Estamos às vésperas de 2023 e eu queria ouvi-lo sobre o que você pode adiantar em relação a novidades da banda e sua expectativa como cidadão.
JB – Pois é, a gente está adentrando aqui um ano novo com uma perspectiva muito boa de trabalho, que já começou nesse ano. Ao longo desse ano a gente teve praticamente um renascimento do show business, com o arrefecimento da pandemia, em alguns momentos houve uma preocupação e tal, mas a gente está longe daquele cenário terrível que foi 2020, 2021. Então a gente está um pouco nesse embalo, de momento mais promissor, nossa agenda está muito boa, a gente está trabalhando bastante, a gente vai retomar nossa frequência de encontros pra poder ver o material novo que o Herbert tem escrito, retomar mais, assim, a nossa rotina de criação mesmo, e isso não aconteceu porque durante a pandemia a gente se encontrou pouquíssimo nas horas em que a gente estava podendo se encontrar pra fazer shows e tal, e um ou outro ensaio, e aí ao longo de 2021, também, que foi um ano meio vagalume, acendeu, apagou, esse ano de 2022 foi muito promissor, que a gente caiu forte na estrada e nós ficamos sem tempo de fazer esses encontros pra tocar, pra levar som, pra compor e a gente com certeza vai retomar isso nesse ano que se inicia. Já que você perguntou, a gente está muito otimista com um certo alívio que a gente teve dentro da política nacional. A gente sabe que não é uma tarefa simples resolver os grandes problemas que o Brasil tem, mas o fato de a gente ter se livrado de um governo que tinha claramente um perfil fascista no seu discurso, na sua política nefasta, então já é uma melhoria. Eu acho que não vai ser nenhum passeio no parque o que a gente vai ter que fazer para reencontrar o rumo democrático no Brasil e todos os desafios que a gente sabe que existe, socialmente falando, principalmente, e é preciso muito bom senso pra gente não ficar sempre numa gangorra entre os dois extremos, da extrema-direita e da extrema-esquerda, a gente precisa achar um caminho do meio, onde a gente consiga tirar o grosso da população da miséria, do mapa da fome, fazer um investimento seríssimo na educação, fazer uma devassa fiscal, acabar com esse dinheiro todo que vai pelo ralo no nosso processo político e torcer pra que o Brasil volte a ser um país digno das riquezas e da gente que vive nesse país. Vamos torcer!

“Onde o Rio é mais baiano”

O mar de gente para ver Gilsons, ontem, na Maria Aragão. Fotosca: Zema Ribeiro

José, Francisco e João têm em comum um dos sobrenomes mais musicais do Brasil: Gil. Filho e netos de Gilberto Gil formam o trio Gilsons, rico trocadilho, tradução possível do inglês, literalmente os filhos de Gil.

Ontem (11) o grupo esteve pela primeira vez em São Luís, na Praça Maria Aragão, na programação gratuita do Festival de Natal Equatorial, que ocupou a arquitetura de Oscar Niemeyer – sem usar o palco do logradouro, montando outro, de frente para a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Este repórter viu o show inteiro da parte de cima da escada que liga a citada praça à Gonçalves Dias, onde ficam a citada igreja e a estátua do poeta.

O grupo tem causado um merecido frisson, com ótimas plateias dentro e fora do Brasil, independentemente do DNA – e digo isso porque há quem ache que, tendo sido formado em 2018, o trio só caiu nas graças do público tão rapidamente por conta do parentesco ilustre.

Até aqui, o trio lançou o ep “Várias queixas” (2019) e o álbum “Pra gente acordar” (2022); esta discografia certamente seria maior, não estivéssemos ainda vivendo sob uma pandemia. Do repertório autoral o grupo desfilou vários sucessos, com os indiscutíveis hits que emprestam títulos a seus lançamentos fonográficos, cantados a plenos pulmões pelo mar de gente que se fez presente, ontem, ao tempo em que videoclipes eram projetados em um telão, ao fundo do palco, fazendo as vezes de cenário.

Entre os covers que apresentaram, versões inspiradas de “Meu erro” (Herbert Vianna), hit dOs Paralamas do Sucesso, “Swing de Campo Grande” (Moraes Moreira/ Luiz Galvão), dos Novos Baianos, com os dois grupos apontados entre suas influências, e “Banho de folhas” (Luedji Lula), de cuja autora exaltaram o talento e o ser “nordestina, mulher e preta”.

Ao roadie Sérgio Batata, que se recupera de uma cirurgia e não pode viajar com o grupo, a que chamaram carinhosamente de Batatinha (fazendo este repórter lembrar imediatamente do sambista baiano Oscar da Penha, que assinava suas composições com o apelido artístico), dedicaram “Palco”, do pai/avô Gilberto Gil, com a adesão de Pedro Baby, guitarrista e produtor, filho dos Novos Baianos Baby Consuelo (do Brasil) e Pepeu Gomes, que subiu ao palco com o filho Dom Pedro, também empunhando uma guitarra. “Estamos literalmente em família”, disse Pedro Baby, afilhado de Gilberto Gil, que ali recebia o que merece: lembrança e reverência. O exato oposto do que o oitentão foi alvo a caminho de ir ver a estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo no Qatar. O altivo compositor não reagiu aos xingamentos proferidos por um pseudopatriota defensor de golpe de Estado.

Gilsons é a mais perfeita tradução do que cantou Caetano Veloso em “Onde o Rio é mais baiano”: entre afoxés, ijexás e sambas, eles soam como uma espécie de Tincoãs em roupagem pop, certamente colaborando para atrair as atenções das gerações mais jovens para a sonoridade do recôncavo baiano e dos terreiros brasileiros. Coisas de quem encara a música como uma profissão de fé.

Afetos e canções: Joãozinho Ribeiro reúne amigos em show plural

[release]

Apresentação acontece sexta-feira (16) no Convento das Mercês, com entrada franca – com sugestão de doação de um quilo de alimento não-perecível para as comunidades carentes do entorno

O compositor Joãozinho Ribeiro. Foto: Murilo Santos. Divulgação

O compositor Joãozinho Ribeiro volta a reunir os amigos no show “Com o afeto das canções II”. Beneficente, o evento – cuja primeira edição aconteceu ano passado – ocupa o pátio do Convento das Mercês (Rua da Palma, Desterro), na próxima sexta-feira, 16, às 20h. A entrada é gratuita, com a sugestão da doação de um quilo de alimento não-perecível; a arrecadação será destinada a comunidades carentes do entorno da Fundação da Memória Republicana Brasileira (FMRB), instituição sediada no prédio secular do Centro Histórico da capital maranhense, que completou recentemente 25 anos de inclusão na lista de cidades patrimônio mundial da Unesco.

Joãozinho Ribeiro terá como convidados especiais o Bloco Afro Akomabu, George Gomes, Rosa Reis, Célia Maria, Josias Sobrinho, Rita Benneditto – que gravou em dueto com Zeca Baleiro (que participa virtualmente do show, através de uma mensagem em vídeo), a música que dá título ao espetáculo, cuja produção é assinada por Lena Santos. O espetáculo é uma realização da Dupla Criação e Fundação da Memória Republicana, com patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) e Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Rui Mário (sanfona, piano e direção musical), Marquinhos Carcará (percussão), Danilo Santos (saxofone e flauta), Hugo Carafunim (trompete), Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim), Arlindo Pipiu (contrabaixo), Tiago Fernandes (violão sete cordas), Ronald Nascimento (bateria), Katia Espíndola (vocal) e Mariana Rosa (vocal) formam a superbanda que acompanhará Joãozinho Ribeiro e convidados em “Com o afeto das canções II”.

O repertório do show alinhava clássicos da lavra de Joãozinho Ribeiro a músicas inéditas. A pandemia de covid-19 e o isolamento social por ela imposto renderam ao artista dezenas de novas composições, sozinho ou em parceria. Entre os gêneros abordados no roteiro figuram baião, balada, bolero, bumba meu boi, carimbó, divino, ijexá, maxixe, merengue, reggae, salsa, samba e tambor de crioula.

“Esse show é uma espécie de exorcismo. Após quatro anos de massacres diariamente desferidos contra a cultura brasileira, para citar apenas uma área, voltamos a respirar ares democráticos e plurais, voltamos a ser um país, feito de nossa diversidade e riqueza culturais, é o que nos propomos a celebrar, com todo afeto das canções”, anuncia o compositor anfitrião.

Serviço

O quê: show “Com o afeto das canções II”
Quem: o compositor Joãozinho Ribeiro e convidados
Quando: dia 16 de dezembro (sexta-feira), às 20h
Onde: Convento das Mercês (Rua da Palma, Desterro, Centro Histórico)
Quanto: grátis. Sugere-se a doação de um quilo de alimento não-perecível, destinada às comunidades carentes do Centro Histórico
Realização: Dupla Criação e Fundação da Memória Republicana
Patrocínio: Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) e Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

As mensagens do eletrônico tambor de Beto Ehong e sua tribo

Beto Ehong e sua tribo. Divulgação

O cantor, compositor e ator Beto Ehong apresenta hoje (8), dia de Nossa Senhora da Conceição, feriado municipal, às 20h, no Teatro Cazumbá (Rua Portugal, esquina com Beco Catarina Mina, Praia Grande), o show “Eletrônico tambor”.

O artista terá como convidados Fauzy Beydoun, Regiane Araújo, Tarcísio Selektah, Luma Pietra, Martin Marassa, Lucélio Muirax, Dalva Palmar Brasil e Lyspectro. Beto Ehong e seus convidados serão acompanhados por Dark Brandão (percussão), Lucélio Muirax (guitarra), Fofo Black (bateria) e o dj Tarcísio Selektah.

“Um encontro pra ficar guardado na memória da cidade, com um repertório novo e o amor que precisamos para seguir forte rumo a novos e melhores tempos”, promete Beto Ehong, que desde os tempos de Som do Mangue, Nego Ka’apor e Canelas Preta (bandas que integrou), coleciona hits como “Maria de Jesus” e “O encontro de Chico Mendes e Lampião no dia de São Sebastião”.

Entre seus sucessos mais recentes estão “Procurando a mãe” (dueto com Emnuelle Paz), “Na fita” (com Flávia Bittencourt) e “Tribo futurista” (com Rita Benneditto), todas, composições de Beto Ehong.

A música de Beto Ehong descende diretamente de Chico Science – o maranhense é nossa mais profícua ponte com o movimento mangueBit pernambucano: reveste com os ritmos da cultura popular do Maranhão, dialogando com gêneros mundialmente consagrados, sua mensagem carregada de denúncia social, revolta e vontade de modificar o triste estado de coisas, bastante agravado pelo cenário dos últimos quatro anos de um governo neofascista de que, mais que o artista, sua arte é oposição: a voz e a criação de Ehong se insurgem contra o machismo, o racismo, a misoginia, a homofobia, o preconceito, a intolerância e a violência. Mas sem nunca perder de vista a festa.

O Teatro Cazumbá tem capacidade para 150 pessoas. Os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos antecipadamente mediante transferência via pix – reservas pelo telefone (98) 98252-1040.

Bumba meu boi: memória, ciência e tradição

A mestra de cultura popular Bel Carvalho lança “Do auto do nosso boi” sábado (3). Foto: Aline Fernandes. Divulgação

A começar pelo título, ao mesmo tempo direto e singelo, “Do auto do nosso boi” (Trança Edições, 2022, 56 p.) soma-se a farta bibliografia (afetiva) existente sobre o bumba meu boi, de longe a mais popular manifestação cultural do Maranhão, patrimônio cultural imaterial da humanidade reconhecido pela Unesco.

No pequeno livro, um mergulho no boi, a partir de sua ciência em meio a memórias afetivas muito particulares. Bel Carvalho, a autora, é a irmã mais nova de Tião e Ana Maria Carvalho. Também mestra de cultura popular, a cururupuense radicada em São Paulo parte das lembranças do boi na infância para ensinar a tradição para quem quiser aprender.

Com ilustrações de Carolina Itzá e projeto gráfico de Andrea Pedro (cujo talento acostumamo-nos a ver em discos de Zeca Baleiro), Bel traz para as páginas do livro o que ajudou a fazer com o Grupo Cupuaçu, fundado por seus citados irmãos, que chegaram antes dela ao Morro do Querosene, no Butantã, em São Paulo: colabora para manter viva a tradição e, consequentemente, levá-la adiante.

Não à toa ela dedica o livro aos pais, Florzinha e Pepê Carvalho, “os esteios da minha caminhada”, como anota na dedicatória, caminhada essa que começa numa época em que às mulheres eram reservados apenas papeis de bastidores na construção de um grupo de bumba meu boi, como cozinhar e costurar – nas origens da manifestação, a cantoria e o cordão (o palco só aparece bem depois) eram permitidos apenas para os homens.

Bel e outras mulheres têm papel fundamental na mudança de concepção que permitiu a elas a ocupação de espaços antes exclusivamente masculinos. Propositalmente, para tornar o livro possível, a autora cercou-se de um time formado apenas por mulheres: além das já citadas Andrea Pedro e Carolina Itzá, Carolina Von Zuben (coordenação editorial e edição), Nathalia Meyer (edição, pesquisa e colaboração), Aline Fernandes (produção executiva, pesquisa e colaboração) e Renata Santos Rente (revisão).

O texto é leve e entre suas classificações estão o teatro (do auto do bumba meu boi, com um texto que propõe uma encenação na última parte do livro) e a literatura infantojuvenil (“faça com um adulto” é recomendação que lemos quando, ao longo das páginas, ela ensina a confeccionar o maracá de lata e o chapéu de vaqueiro, instrumento e indumentária usados pelos brincantes nos grupos de bumba meu boi). Convém lembrar que o auto do bumba meu boi, em tempos mais recentes, tem sido sacrificado em detrimento das apresentações para turistas e a população local em arraiais oficiais e outros eventos, cujo formato e duração comportam apenas a apresentação musical, deixando de lado o teatro popular, de rua, característico da manifestação.

O livro de Bel é um registro do que em geral é transmitido pela oralidade, meio pelo qual a tradição é passada através das gerações. Muito embora grande parte dos grupos de bumba meu boi hoje atue numa lógica de mercado, sua origem é religiosa, com bois dançando geralmente como pagamentos de promessa.

Entre a própria memória e a ciência aprendida e ensinada ao longo de uma vida inteira dedicada à cultura popular, “O auto do nosso boi” coleciona ainda verbetes informando os leitores sobre personagens, instrumentos musicais e sotaques (as variações que os diversos grupos têm de uma região para outra no Maranhão), ilustrando todo o conhecimento que compartilha com toadas, entre gravadas pelo Grupo Cupuaçu e seus irmãos em suas carreiras solo, além de inéditas, incluindo mesmo uma de seu pai.

Neste último quesito, os sotaques, a autora alerta: sua classificação “foi feita com base em alguns estudos sobre o bumba meu boi e no que dizem os próprios fazedores dessa tradição cultural. É importante lembrar que essa classificação não é estática, nem uma verdade absoluta. Assim como tudo na cultura, ela varia com o tempo e de acordo com a visão de quem está pensando sobre isso”, o que é mais um atestado de sua grandeza e conhecimento do assunto.

Bel Carvalho tem consciência de que seu livro não esgota a temática e, portanto, não tem a pretensão de se colocar como dona da verdade, o que é mais um acerto, entre tantos outros, deste seu belo, didático e necessário livro de estreia.

Do auto do nosso boi. Capa. Reprodução
Do auto do nosso boi. Capa. Reprodução

Serviço: lançamento de “Do auto do nosso boi”, de Bel Carvalho. Dia 3 de dezembro (sábado), às 19h30, na Biblioteca do Centro Cultural São Paulo – CCSP, Rua Vergueiro, 1000, Paraíso (ao lado da estação Vergueiro do metrô). Entrada gratuita. Classificação livre.

Lançamento do single “Purificação” marcou Dia da Consciência Negra para as artistas Cyda Olímpio e Mariene de Castro

“Purificação”. Single. Capa. Arte: Alaído. Reprodução

Já se vão mais de 15 anos da estreia da cearense Cyda Olímpio em disco: “Nem jazz nem jeans” saiu em 2005 e é uma delicada coletânea reunindo suas facetas de compositora e intérprete.

Ontem (20), Dia Nacional da Consciência Negra, a compositora teve lançada sua “Purificação”, single de Mariene de Castro – baiana que esteve recentemente em São Luís, em memorável show nas comemorações do aniversário da cidade.

“Essa canção chegou pra mim numa noite de São João. E pra Cyda Olimpio veio através de um sonho. É uma fotografia daquele lugar. Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo da Bahia”, conta Mariene de Castro, referindo-se à cidade-musa inspiradora, terra de Caetano Veloso e Maria Bethânia.

“Ao ouvir pela primeira vez na voz de Cyda me emocionei. Revi nessa canção Dona Canô, Dona Clara, Nicinha, Sydia, Dona Edith, Portugal, Dona Nicinha, as festas de fevereiro, a novena de nossa senhora, vi Roberto, Ulisses, Nando, João do Boi, o nego fugido, o terno de reis. São tantas imagens, lembranças, tantos amigos que já se foram. Muita gente pensa que sou santoamarense. E eu gosto”, revela a soteropolitana.

Ela continua: “Lembro da primeira vez que cheguei à cidade, à noite e a igreja estava aberta, toda iluminada, uma imagem inesquecível. Foi lá que batizei João Francisco, meu filho. Sob as bênçãos de Nossa Senhora da Purificação. Um templo de Oxum. Um lugar que me acolheu como filha. Um lugar que faz parte da minha vida. Essa canção chegou lavando meu coração com as águas sagradas e purificadas de Oxum, pelas mãos de Cyda Olimpio. Serei pra sempre agradecida. Viva Oxum! Viva Nossa Senhora da Purificação. Que essa canção lave nossas dores”. Amém, Mariene de Castro!

A capa do single foi desenhada por Alaído, artista que os ludovicenses conheceram por ocasião da apresentação mais recente de Mariene de Castro em São Luís – ele e sua mãe, Alaíde Almeida, assinavam o painel-cenário do show. No single, gravado no Estúdio Casa da Árvore, a voz da cantora é emoldurada por Nino Bezerra (contrabaixo acústico), Gabriel Rosário (bandolim, violão e arranjo), Marcos Bezerra (viola caipira), Gel Barbosa (acordeom) e Fábio Cunha (percussão e arranjo).

Com 35 anos de carreira entre a noite, o disco e a composição, Cyda Olímpio não esconde a satisfação de ter Mariene de Castro em seu rol de intérpretes. ““Purificação” chegou até mim em um sonho, linda, doce, leve e como um recado de cura, tão necessária pra mim e espero que também para quem a escutar. Fui só humildemente um instrumento na jornada. Outras pessoas, generosa e afetivamente, fizeram chegar à voz nobre e sublime de Mariene de Castro, para que “Purificação” continue cumprindo seu papel de ser uma música não somente minha, mas de todos nós”, diz.

*

Ouça “Purificação”:

A voz do Brasil

A cantora Gal Costa. Foto: Fernando Frazão. Agência Brasil. Reprodução

Gal Costa (26/9/1945-9/11/2022) é um dos meus primeiros ídolos musicais – os outros são Nelson Gonçalves, Roberto Carlos e Waldick Soriano, graças à modesta coleção de discos de meus avós (com quem morei até os sete anos), que comecei a fuçar ainda na infância. Do último, por exemplo, aos seis anos de idade eu sabia de cor e salteado as 12 faixas do repertório de um elepê intitulado “O melhor de”, de capa azul, com uma foto dele sobre um fundo cor de laranja. O disco abria com “Tortura de amor”.

Como quase todo brasileiro nascido da década de 1960 para cá, tenho Gal Costa desde sempre presente na trilha sonora da própria vida. É como se ela sempre estivesse estado ali. Em meu aniversário de um ano, por exemplo, o disco “Fantasia” (1981), lançado no ano em que eu nasci, quase furou, de tanto tocar – por causa do sucesso “Festa do interior” (Abel Silva/ Moraes Moreira).

Pode soar cabotino escrever sobre o falecimento de alguém falando de si mesmo, mas se o faço é tão somente para demonstrar a importância de Gal Costa em minha formação e perceber algo cuja ficha cai somente agora: talvez a baiana tenha sido uma das responsáveis pelo menino que adorava descobrir as novidades nos museus musicais dos parentes ter decidido virar jornalista. Entre tantos outros vinis da coleção de meus avós, por exemplo, havia dois exemplares de “A arte de”: um de Caetano Veloso e um de Gal Costa. Quando se abriam os álbuns duplos podiam se ler as letras e foi neles que aprendi a cantar, por exemplo, “London, London” (Caetano Veloso) inteira, sem nunca ter tido uma aula de inglês antes.

Corta para 1995: Gal Costa lançou “Mina d’água do meu canto”, com repertório inteiramente dedicado a músicas de Chico Buarque e Caetano Veloso – deste, foi a maior intérprete, superando inclusive Maria Bethânia, irmã do também baiano. Meu avô comprou o vinil, que tinha menos músicas que o cd (que só recentemente consegui comprar, numa de minhas andanças por sebos) e eu ficava horas ouvindo “Odara” e “Língua”, ambas de Caetano, e Gal é tão marcante que às vezes me pego pensando se não foi com ela que ouvi essas músicas pela primeira vez.

Invariável e merecidamente apontada como uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos, Gal Costa faleceu hoje, de causa ainda desconhecida. Ela havia se submetido a uma cirurgia para a retirada de um nódulo em uma fossa nasal, suspendendo a agenda de apresentações. Diz-se costumeiramente que o Brasil é um país de cantoras e muitas das que se dedicaram ao ofício depois dela, confessam sua influência.

“Tropicália ou panis et circensis”. Capa. Reprodução

Com os também baianos Caetano Veloso (com quem dividiu “Domingo”, seu disco de estreia, em 1967), Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé e o piauiense Torquato Neto – que se suicidou há exatos 50 anos, na mesma data em que Gal nos deixa –, a cantora foi uma das artífices do movimento tropicalista, que revolucionou a música popular brasileira e ajudou a cunhar a própria sigla MPB para se referir ao amplo arco de interesses que movimentou suas carreiras. Ela e o piauiense aparecem lado a lado na icônica fotografia da capa do disco-manifesto “Tropicália ou panis et circensis” (1968), arranjado por Rogério Duprat.

Com Caetano, Gil e Bethânia, em 1976, Gal Costa lançou um elepê intitulado “Doces Bárbaros”, mesmo nome do quarteto. Quando Gil completou 80 anos em junho passado, durante uma coletiva de imprensa por ocasião do lançamento de um museu virtual com sua obra e memorabilia, com mais de 40 mil itens, o compositor chegou a afirmar: “Que a gente se reúna de novo, os quatro Doces Bárbaros. Tomara que aconteça”. Infelizmente não deu tempo.

O também baiano Waly Salomão produziu o antológico “Fa-tal – Gal a todo vapor” (1971), um de seus mais festejados álbuns, em que lançou nomes como Jards Macalé, parceiro de Waly em “Vapor barato”, e Luiz Melodia, com “Pérola negra”, para citar apenas dois clássicos. Sua versão voz e violão (com arranjo de Lanny Gordin) para “Sua estupidez” (Roberto Carlos/ Erasmo Carlos) é simplesmente insuperável – pouca gente sabe, mas é da dupla o sucesso composto sob medida para a musa inspiradora, “Meu nome é Gal” (1969).

A menina que, reza a lenda, exercitava o canto em casa com uma panela na cabeça, para testar timbres, texturas e conhecer e ousar ultrapassar os próprios limites, Maria da Graça Costa Pena Burgos, seu nome de batismo, sempre teve na curiosidade uma de suas marcas. Entre as 10 músicas gravadas por Gal Costa mais tocadas nos últimos 10 anos em rádios, sonorização ambiental e casas de festas e diversão, aparecem os nomes de Caetano Veloso (“Meu bem, meu mal”, “Baby” e “Dom de iludir”), Djavan (“Azul” e “Açaí”), Ronaldo Bastos (“Chuva de prata”, parceria com Ed Wilson, e “Sorte”, com Celso Fonseca), Mallu Magalhães (“Quando você olha pra ela”), Chico Buarque (“Folhetim”), Michael Sullivan, Miguel e Paulo Massadas, parceiros em “Um dia de domingo”, cujo dueto com Tim Maia é a campeã de execuções.

O ecletismo do top 10 (a nota de pesar do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) lista as 20 mais) confirma: a baiana tinha seus compositores prediletos, mas sempre se manteve aberta ao novo, o que explica, em alguma medida, ter sido madrinha dos citados Macalé e Melodia, mas que também permitiu à artista revelar e/ou ajudar a reconhecer o talento de nomes como Mallu Magalhães, Vitor Ramil (de quem gravou “Estrela, estrela” em 1981, mesmo ano em que o autor, então com 18 anos), Marília Mendonça (com quem gravou em dueto “Cuidando de longe”, parceria dela com Juliano Tchula, Júnior Gomes e Vinícius Poeta em “A pele do futuro”, de 2018), Junio Barreto (de quem gravou em “Estratosférica”, de 2015, “Jabitacá”, parceria dele com Lirinha e Bactéria, e a faixa-título, dele, Pupillo e Céu; além de “Santana”, em “Hoje”, seu disco de 2005) e Zeca Baleiro, que merece uma história à parte.

Em 1997, ano em que o maranhense lançava seu disco de estreia, “Por onde andará Stephen Fry?”, pela MZA Music, do Midas musical Marco Mazzola, a cantora gravaria seu “Acústico MTV” para o canal de televisão MTV Brasil, com a participação de nomes como Frejat, Herbert Vianna e Luiz Melodia. Uma das músicas do disco de estreia de Baleiro era “Flor da pele”, composta em homenagem a “Vapor barato”, a citada parceria de Jards Macalé e Waly Salomão. O maranhense e a baiana cantaram juntos um medley com as duas músicas e o resto é história.

Não tive a oportunidade de ver Gal Costa ao vivo. Alguns tiveram e não souberam aproveitar: em 2012 a artista se apresentou em São Luís, em evento para convidados na inauguração das obras de ampliação de um shopping center da capital maranhense, ocasião em que ela teve que interromper seu show de cerca de uma hora por três vezes, pedindo ao público para se calar, já que o barulho das conversas estava impedindo-a de fazer seu trabalho. Ela cumpriu seu compromisso profissional, mas ao fim da apresentação, irritada, saiu do palco sem se despedir do público.

Na recém-encerrada eleição presidencial, em nome de superar o projeto neofascista no poder, a cantora declarou apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de quem era histórica opositora. Em uma rede social, ela celebrou a vitória: “Orgulho do nosso Brasil!!! Vamos reconstruir nossa democracia com Lula meu presidente!!!! A felicidade não cabe em mim!!!”, exclamou.

Se em “Brasil” (Cazuza/ George Israel/ Nilo Romero), em vez de “mostra tua cara” Gal Costa tivesse cantado “mostra tua voz”, certamente ouviria a si própria.

“Canções e paixões” joga luz sobre a trajetória de Célia Maria

[release]

Com seis faixas, a maioria inéditas, novo trabalho da intérprete valoriza o lirismo das letras e a beleza de sua voz

A cantora Célia Maria. Foto: divulgação

A longa espera tem data para acabar: na próxima segunda-feira (14 de novembro) a cantora Célia Maria disponibiliza, no Spotify (e no dia seguinte nas demais plataformas de streaming), seu novo EP, “Canções e paixões” – faça a pré-save aqui.

Em “Canções e paixões” Célia Maria passeia com os habituais talento e elegância por balada, canção e salsa, com pitadas de bolero e samba-canção, tendo sua voz, sempre apontada como uma das mais bonitas da música popular brasileira produzida no Maranhão, emoldurada por Daniel Miranda (trombone), Danilo Santos Costa (saxofone tenor), Diogo Nazareth (guitarra, piano, programações eletrônicas, synths, cavaquinho, violão e arranjos), Emílio Furtado (contrabaixo acústico), Hugo Carafunim (trompete), João Paulo (contrabaixo), Jorlielson (violoncelo), Luiz Cláudio (percussão, bateria, direção e produção musical), Ricardo Sandoval (percussão), Thales do Vale (trompete) e Victtor Sant’Anna (bandolim).

O repertório é quase inteiramente inédito. Abre o EP o “Bolero de Célia”, que Zeca Baleiro compôs especialmente para a diva. “Rua do avesso” (Joãozinho Ribeiro/ Zé Américo Bastos), “Viajante” (Theresa Tinoco) e “Sem despedida” (Adriana Bosaipo) ganham a primorosa interpretação da cantora em suas primeiras gravações. As exceções são o clássico “Manhã de carnaval” (Luiz Bonfá/ Antônio Maria) e “Apelo”, tema de domínio público (eventualmente atribuído a Nhozinho Santos), gravada por Zeca do Cavaco no disco de estreia do Regional Tira-Teima (“Gente do choro”, de 2017).

“Canções e paixões” sucede o homônimo “Célia Maria” (2001), disco de estreia da cantora, lançado pela então Fundação Cultural do Maranhão, com repertório que incluía compositores como Antonio Vieira, Bibi Silva, Cesar Teixeira, Chico Buarque, Chico Maranhão, Edu Lobo, João do Vale, Joãozinho Ribeiro e Luiz Bulcão, entre outros. À época, o disco recebeu diversos troféus no extinto Prêmio Universidade FM.

Célia Maria começou a carreira em programas de auditório na chamada era de ouro do rádio – um de seus epítetos é justamente “a voz de ouro do Maranhão”. Cecília Bruce dos Reis na certidão de nascimento, a cantora adotou o nome artístico que a acompanha até hoje para fugir da vigilância dos pais quando soltou a voz pela primeira vez diante de uma plateia. Chegou a se apresentar nas rádios Nacional e Mayrink Veiga, nos programas então comandados pelos lendários César de Alencar e Abelardo Barbosa, o Chacrinha.

Manteve trajetória discreta, de entrega e amor à música, com um repertório coerente – o novo EP é ótimo exemplo –, valorizando pérolas de compositores brasileiros que marcaram época, mas sem abrir mão de conhecer e interpretar também autores das novas gerações.

“Canções e paixões”, além de satisfazer o exigente fã-clube da cantora, deve conquistar-lhe novos admiradores. Ouçam com os ouvidos, alma e coração!

Cristóvão Colombo da Silva

POR CESAR TEIXEIRA*

Um compositor que não precisou descobrir a América para ganhar fama, já trazia dentro de si a nau inspirada com que recriava o mundo todos os dias, e de improviso. Neste 12 de outubro, Dia das Crianças, completaria 100 anos, se estivesse vivo. O nome dele é Cristóvão / Sobrenome: Alô Brasil.

Alô Brasil no bar. Fotos: Acervo Cesar Teixeira. Reproduções

– Alô Brasil! Era a saudação de mouros e cristãos agrupados nas calçadas, nos botecos ou nas portas das casas quando ele passava, e logo respondia: “Aquele abraço!”.

Se fosse tempo de carnaval, transitava amanhecido com a fantasia da Turma do Quinto ou dos Fuzileiros da Fuzarca. De outra feita, era o chapéu de palha ou feltro, geralmente enfeitado com uma flor ou uma pena sobrevivente, quase um enxerto da batucada em sua cabeça. Era magro, de olhos graúdos e semiabertos que pareciam sonhar o tempo todo.

Caso estivesse fardado de funcionário da Secretaria de Transportes e Obras Públicas (Setop, hoje Sinfra) e sem o chapéu, podia-se ver sua cabeleira cheia, penteada rigorosamente à moda Orlando Silva, espécie de ídolo do compositor, daí o inseparável pente Flamengo no bolso de trás da calça.

O autor do perfil, ladeado por Cristóvão e Antonio Vieira

Invariavelmente, subia e descia as ruas da Madre de Deus todos os dias, obedecendo a um relógio interior, as longas pernas arqueadas como se cavalgasse uma nuvem, até finalmente encostar na quitanda do Seu Alfredo Louzeiro para a hora extra. Foi lá que eu conheci de perto, no início da década de 1970, a obra do compositor e amigo navegante Cristovam Colombo da Silva – conforme reza sua carteira de identidade –, que na gramática do samba foi rebatizado Cristóvão “Alô Brasil”.

O nome de pia era homenagem ao descobridor da América, e o apelido ganhou depois de ter na época participado do programa Alô Brasil, Aquele Abraço, apresentado por Lúcio Mauro na Rádio Globo, do Rio de Janeiro, depois de chegar com um dia de atraso para uma participação no Chacrinha.

Em 1982, foi ao programa de Flávio Cavalcante – Boa Noite Brasil –, da Rede Bandeirantes, em São Paulo, como convidado especial do produtor Renato Barbosa, que estivera em São Luís para ser apresentador do 1º Festival de Verão da Música Popular Maranhense, por ocasião dos festejos de 370 anos da cidade, em setembro daquele ano.

“Santo Cristo”, como era reverenciado por alguns familiares, então mostrou para todo o Brasil a sua arte de improvisar, o que fez aumentar mais ainda a sua popularidade, tendo no copo a sua cruz e o solovox da fraternidade. “Palavras que me comovem”, repetiria.

O compacto “Velhos moleques”, produzido por Chico Saldanha, Giordano Mochel e Ubiratan Souza. Capa. Reprodução
“Alô Brasil”. Capa. Reprodução

Ao lado de Caboclinho (José Assunção Gomes), integrou em abril de 1986 o Projeto Pixinguinha, do qual já havia participado três anos antes. João Nogueira e Marília Medalha estavam lá. No mesmo ano, gravou com Antonio Vieira, Lopes Bogéa e Agostinho Reis o compacto “Velhos Moleques”, e, em 1999, o cd “Alô Brasil”, com a participação de vários intérpretes maranhenses.

UNIVERSIDADE DE BAMBA

A quitanda do Alfredo, na Madre de Deus, era uma espécie de pontifícia universidade do samba, a cachaça tinha prioridade sobre os livros e não havia censura prévia, depois era entender-se com a medicina e tentar um fiado nas farmácias do bairro, restando as alternativas do boldo, espinheira santa e folha de mamão.

Entre os catedráticos que a frequentavam estavam Sapinho, Henrique Reis, Paletó, Luís de França, Caboclinho, Biné do Banjo, Vavá, Patativa, Dedinho e Veríssimo (Cuíte), todos compositores. Careca, Virador, Penicilina e Caraolho já eram falecidos.

Vez por outra, por lá passavam os violonistas Paquinha e Mascote, além de Nazinho, pescador e banjoísta que transformava segundas-feiras em domingos após longos dias no mar, entre charutos e doses de alcatrão para manter o voto de silêncio, enquanto Reinaldo mostrava a picardia na cabaça, Zé Leão no pandeiro, Dedinho na retinta…

Bem, na quitanda tudo virava instrumento: as portas, os mochos e até um inocente tonel de querosene encostado na parede, que servia de marcação. Sapinho fazia variações na bomba de lata que puxava o combustível, soprando-a como se fosse um saxofone.

Cristóvão ali era o coringa que iniciava o samba, com pulmão de Noel Rosa, outro artista que admirava. Dava o tom, descendo e subindo uma escala maior, para depois atacar com uma voz sibilada, devido aos dois únicos dentes na boca, segundo ele “para abrir as garrafas”:

Silêncio, vou ler um aviso:
É hora de começar a batucada…

O samba esquentava, convencendo Seu Alfredo a jogar uma pá de camarão seco sobre o balcão para absorver a aguardente do peritônio da rapaziada. “Se tivesse dinheiro, eu comprava um anel pra ser doutor de samba”, costumava dizer Cristóvão. Não sabia que já estava dando uma aula.

Cheguei a levar muitos desses compositores para um programa chamado “Pitacos” gravado e transmitido pela Rádio Timbira nos finais de semana, numa produção do Laborarte, entre 1972 e 1973. Não havia patrocinador, nem cachê. Às vezes partilhávamos uma garrafa e as passagens de ônibus, mas quase sempre a volta para a Madre de Deus era a pé. “Eu acho é bom!”, dizia Cristóvão.

Junto com o compositor participei de vários espetáculos nos palcos da cidade, e como já tinha o costume de acompanhá-lo no violão ou no cavaquinho pelas rodas de samba, quase não havia ensaio. Ele improvisava de lá e eu de cá. Lembro com saudade a apresentação que fizemos do Teatro Praia Grande [hoje Teatro Alcione Nazaré] ao lado de Henrique Reis e Patativa.

NOTÍCIAS DE JORNAL

Em 1984, Cristóvão foi fazer um show para ser gravado pelo Projeto Pró-Memória/SPHAN, que funcionava na rua das Barrocas, nº 125. Chegamos lá com uma garrafa de pinga embrulhada numa folha de jornal no horário marcado para as 19 horas. A secretária viu aquilo e não nos deixou entrar. “Pois bem, então vamos beber em outro lugar”, disse-lhe.

Já estávamos dobrando a esquina, quando um esbaforido Ivan Sarney, diretor do programa gritou da porta: “Voltem, voltem, o auditório está cheio! Podem entrar com a garrafa!” Foi uma noite memorável, com muito tema para improviso e estrondosas gargalhadas da plateia.

“Alô Brasil” costumava dizer, e cantar, que tinha samba na cabeça “como letra no jornal”. Isso denunciava o seu hábito pela leitura, que incluía os livrinhos de bolso. No final do expediente da Sinfra, onde foi contínuo e porteiro, ele reunia os jornais diários que por ali passavam, dobrando-os meticulosamente num pacote retangular amarrado com barbante.

Esse pacote ficava guardado debaixo dos balcões e prateleiras dos bares enquanto durasse a farra e a batucada, quando o carregava para casa. Lia até anúncio. No dia seguinte estava por dentro dos fatos, mesmo sem perceber as armadilhas criadas pelos feitores da informação, quase sempre ruins da cabeça e doentes do pé.

Cristóvão, porém, tinha um espírito puro, que através da música lhe permitia o dom da ubiquidade, assumindo as dores e alegrias dos outros. Fez samba para Dedinho (Eu moro no morro do Esqueleto / com a minha Nega Teresa…) e para Tabaco (Se você desceu de lá / por favor me dê notícias da mina Nega Joana…) como se fosse eles cantando. Mas fez também para si próprio:

Foi no dia 12 de outubro de 22
que nasceu na Madre Deus
mais um sambista,
o resto eu conto depois…

Nasceu no Dia das Crianças, que tanto adorava. Por isso, repetia que se pudesse nasceria de novo, pois estava ficando “velho e encolhidinho”. Aí conjeturava que alguém poderia pensar: “Será que ele está virando criança outra vez?” Quase chega lá, não fossem as complicações de uma hérnia, que o levou à morte em 20 de agosto de 1998.

Fui ver pela última vez meu grande amigo no Hospital Carlos Macieira, onde jazia sobre o mármore, embrulhado em lençóis. Lembrei-me do pacote de jornais, que ele não iria mais colecionar, nem leria ansioso a notícia da própria morte. Isso não seria mais necessário para quem tirou de letra a vida como um passeio distraído pela rua.

No cemitério, antes que o pedreiro vedasse com tijolos o mausoléu de família, consegui jogar-lhe uma flor, para que não esquecesse de por no chapéu quando encontrasse com os outros sambistas já embriagados de aurora.

O BATENTE DO SAMBA

Caricatura de Érico Junqueira

Cristovam Colombo da Silva nasceu em São Luís, na rua do Passeio, em 12 de outubro de 1922, numa casa ao lado do extinto Cine Rialto. De lá foi ainda criança para a rua de São Pantaleão, nº 1.275, próximo ao Hospital Geral, para onde também se mudou, em 1941, o bloco Fuzileiros da Fuzarca, fundado cinco anos antes na rua de São João, com o envolvimento de toda a sua família.

E não era pouca gente. Seus pais, José Bonifácio da Silva e Mercedes Ramos da Silva, tiveram oito filhos: Amélia, Sandoval, Astrogildo, Cristovam, Manoel, Lenir, Noca e Teresa, somando-se uma infinidade de descendentes. Dona Mercedes foi uma espécie de esteio dos Fuzileiros durante cerca de 20 anos, até o seu falecimento no início da década de 1960, quando o bloco se mudou para o coração da Madre de Deus.

Foi então que Cristóvão pode se dedicar à Turma do Quinto, escola de samba da qual foi um dos fundadores, mas tinha uma participação quase clandestina por causa da predileção da família pelos Fuzileiros da Fuzarca.

Quando a escola foi criada, em 1940, ele já era operário têxtil cardador da Fábrica São Luís, que processava fios de algodão, mudando-se dali para a Cânhamo, onde durante 28 anos ocupou como fiandeiro uma das máquinas que fabricavam sacos de estopa para a indústria e o comércio locais.

Depois do trabalho, Cristóvão ainda encontrava disposição e tempo para tocar pandeiro e cantar suas músicas em gafieiras, clubes e cabarés, sobretudo na Zona do Meretrício, onde se apresentava com a orquestra de Pedrão e no Jazz Irakitan. Assim, matava a sede da boemia e alimentava a magra renda.

Em 1968, conseguiu um emprego na Secretaria de Viação e Obras Públicas (SVOP), que depois se tornou SETOP, e, por último Sinfra. Lá exerceu os cargos de contínuo e agente de portaria, que para ele era o nome moderno de vigia. “Mas não vigio nada, nem ninguém”, dizia.

Na verdade, Cristóvão gostava de servir a todos e não se furtava de qualquer tipo de empreitada, desde as filas de banco até entregar no horário exato o almoço dos executivos, que o consideravam um funcionário exemplar. Era o primeiro a chegar e o último a sair da repartição, contrariando o estereótipo da malandragem que pesa sobre os sambistas.

Isso lhe valia uns bons trocados para as suas esticadas pelos botecos das redondezas, antes de chegar na Madre de Deus e de lá seguir para o Bairro de Fátima, para onde se mudara no início dos anos 1970. “Ele acordava às seis horas, tomava café e ia por um atalho até a Madre de Deus, e de lá para o São Francisco, atravessando a ponte, todos os dias”, conta Dona Vanda, a viúva, hoje com 72 anos [à época da publicação original do texto].

Vanderlisa da Silva relata que conheceu Cristóvão na porta da Cânhamo por volta de 1946, quando tinha apenas 14 anos e ele 24. Por ser muito branca, era chamada de “loura” ou “americana” pelos colegas operários. Logo chamou a atenção do compositor, que, a princípio, brincava muito com ela, mas era esnobado.

“A brincadeira virou coisa séria”, lembra Dona Vanda. Tiveram uma convivência de mais de 50 anos, no início cheia de altos e baixos, pois ambos gostavam de brincar – ela nos bailes e ele nas rodas de samba. Dessa paixão, em 1951 nasceu o único filho, Orlando Silva (poderia ser outro?), depois veio o neto, Rafael, herdeiros de uma grande fortuna: o samba inspirado e irretocável de Alô Brasil.

*Cesar Teixeira é jornalista e compositor. Perfil originalmente publicado no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, nº. 66, em 2006, então quinzenalmente encartado no Jornal Pequeno, aqui reproduzido com pequeníssimas modificações

As gratas surpresas de Roberta Campos

A cantora e compositora Roberta Campos. Fotosca: Zema Ribeiro

“Casinha branca” foi a segunda música cantada por Roberta Campos no show de ontem (8), no Teatro João do Vale (Praia Grande), em São Luís. Era a segunda apresentação da cantora mineira na capital maranhense, em sua primeira viagem até aqui.

O compositor Gilson (autor do hit, com Joram) é pouco falado, mas tem parcerias com Carlos Colla e Aldir Blanc, entre outros, e já foi gravado por nomes como Maria Bethânia, Roberto Carlos, Rosa Maria e Zeca Baleiro.

Era apenas a primeira grata surpresa de um show de voz e violão que cativou o bom público presente pela delicadeza do canto, repertório e simpatia da artista, ela mesma uma colecionadora de hits que vem enfileirando nas paradas das rádios brasileiras e trilhas sonoras de telenovelas.

Com a reação da plateia ela chegou a gracejar: “eu pensei em fazer uma competição entre as plateias de ontem e hoje”, estimulando o público a cantar junto e bater palmas, o que conseguiu sem maior esforço, muito à vontade no palco.

Entre os hits desfilados no show de cerca de hora e meia, “Todo dia”, trilha sonora da novela “Órfãos da terra” – gravada por ela no dvd com que celebrou seus 10 anos de carreira discográfica, em 2019 –, “Miragem”, faixa de “O amor liberta” (2021) – seu disco mais recente, que dá título ao show –, gravada com a adesão do Natiruts, e “Começa tudo outra vez”, do mesmo disco, parceria com Humberto Gessinger, gravada em dueto com o Engenheiro do Hawaii.

Outros covers se fizeram presentes ao set list da sexta-feira: “Não vá embora” (Arnaldo Antunes/ Marisa Monte) e “Quem sabe isso quer dizer amor” (Lô Borges/ Márcio Borges), lançada por Milton Nascimento em 2002 (no disco “Pietá”) e só gravada por Lô Borges no ano seguinte (em “Um dia e meio”). A cantora revelou sua relação com a música, que gravou em “Varrendo a lua”, seu disco de 2010: “é uma das músicas mais bonitas que eu ouvi nos últimos tempos e durante muito tempo cantei achando que era do Milton; só depois eu descobri que era dos irmãos Lô e Márcio Borges e depois eu mergulhei na leitura do livro do Márcio, “Os sonhos não envelhecem” [Histórias do Clube da Esquina, Geração Editorial, 2009], que eu recomendo também a todos vocês”.

Como boa mineira, Roberta Campos revelou-se também uma engraçada contadora de causos – e contou um real: “durante a pandemia eu fiz muitas lives, dei muitas entrevistas. Um dia eu estava gravando uma e a entrevistadora falou “o pai dela” e eu fiquei assim [faz cara de assustada]… Quando ela repetiu, ligou o alerta. E de novo: “ah, ela não fala no pai dela, mas o pai dela sempre fala nela nas entrevistas”. Eu pensei: meu pai está lá na roça, no interior de Minas… não que ele não pudesse dar entrevista, mas eu acho que eu estaria sabendo. Eu resolvi perguntar: peraí, quem é meu pai?”. Após as gargalhadas da plateia, ela continuou, repetindo a pergunta da entrevistadora: “ué, você não é filha do Nando Reis?”, fazendo a plateia rir novamente. “Ela achando que eu era filha do Nando Reis… em menos de um mês essa música completa 23 anos, essa música tem quase a minha idade”, completou, antes de cantar “De janeiro a janeiro”, que ela gravou com a participação especial do ex-Titãs, e ontem cantou em dueto com o maranhense Sfanio, ela tocando violão.

A participação especial revelou afeto mútuo. Ela o descobriu por acaso numa plataforma de streaming. Em meio ao isolamento social imposto pela pandemia de covid-19 passaram a se corresponder virtualmente. “Aí hoje eu me toquei: ei, o Sfanio mora em São Luís!”, comentou Roberta. “Eu recebi o convite por volta de duas da tarde, ela perguntando se eu aceitaria fazer uma participação especial no show, e eu não sabia o que ia cantar, nem nada, mas é claro que eu aceito”, ele revelou não ter titubeado. Na sequência, ela lhe passou o violão (havia outro numa estante, mas somente um foi usado ao longo de toda apresentação) e cantaram juntos “Covardia” – “a minha música preferida dele”, ela revelou –, do refrão “sentir é foda, né?/ sentir é foda/ dá logo a covardia/ e covardia mata”, que o público também cantou junto.

Outra história contada por Roberta Campos foi quando, ainda em 1998, antes de estrear em disco, mandou uma carta para Fernanda Takai, perguntando se podia enviar uma fita demo para o Pato Fu, banda que ela ouviu bastante na adolescência e por quem sonhava ser gravada. “Ela respondeu a carta à mão, eu tenho até hoje essa carta lá em casa”. Ela, John Ulhoa (guitarrista da banda e marido de Fernanda) e Ricardo Koctus (baixista), tornaram-se parceiros e o Pato Fu gravou “Eu era feliz” em “Não pare pra pensar” (2014). Ela cantou ainda “Abrigo” (Fernanda Takai/ Roberta Campos).

Antes de cantar “Minha felicidade”, tema de abertura da novela “Sol nascente”, agradeceu novamente a presença do público: “toda vez que eu voltar aqui espero reencontrá-los”, disse. “No meio da música eu ensino o refrão pra vocês, pra gente cantar junto”, e cumpriu mais uma promessa: “lembra aquele tempo amor/ onde a gente se encontrou/ foi ali que começou/ minha felicidade”.

Aos pedidos de mais um, voltou ao palco e no bis mandou “Quase sem querer” (Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Renato Rocha), sucesso da Legião Urbana que ela regravou como single em 2018. Deu tempo ainda de “Varrendo a lua”, faixa-título de seu segundo disco, encerrando o show com um último exemplo de sua comunhão com o público ludovicense: “e eu que não queria mentir/ passei então a sorrir do seu lado/ e eu que sempre quis te seguir/ criei meu mundo, meu mundo ao teu lado”.

Quem sabe faz a hora

[release]

Marconi Rezende e convidados realizam show em prol da democracia

“Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, se tornou um hino contra a ditadura militar brasileira inaugurada pelo golpe de 1964. O clássico é lembrado até hoje em momentos de enfrentamento, por exemplo, greves de trabalhadores reivindicando direitos.

A canção dá título ao show que Marconi Rezende e convidados apresentam – “em prol da democracia”, frisa o artista anfitrião –, na próxima sexta-feira (30 de setembro), às 21h, no Soul Lounge (Av. Litorânea).

O show terá repertório autoral e clássicos da música popular brasileira, com especial atenção às chamadas canções de protesto, numa tomada de posição coletiva, pública e, sobretudo, musical.

Além de Marconi Rezende, sobem ao palco Emanuelle Paz, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Luciana Pinheiro, Milla Camões, Tássia Campos e Tutuca.

O cenário de autoritarismo e violência no Brasil de 2022 é bastante parecido com o da ditadura. E é contra essa barbárie que estes artistas irão cantar.

O couvert artístico custa apenas 20 reais e pode ser pago antecipadamente pelo pix (98) 99111-9493.

Divulgação

Cesar Teixeira apresenta Samba de Botequim, nesta sexta (23)

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O cantor e compositor Cesar Teixeira. Foto: divulgação

Show no Ceprama será uma grande festa devotada ao samba, na Madre Deus, um dos bairros mais identificados com o gênero

O cantor e compositor Cesar Teixeira tem encontro marcado com seu público: ele apresenta o show Samba de Botequim, na próxima sexta-feira (23), às 19h, no Ceprama (Madre Deus).

Como o título entrega, a apresentação será dedicada ao samba, um dos gêneros musicais de predileção do artista, nascido e criado na Madre Deus, bairro boêmio encravado no coração da ilha, onde passou também parte da idade adulta.

Pelos botequins da Madre Deus – Cesar Teixeira foi frequentador de rodas de samba espontâneas em botequins lendários, como a quitanda de Seu Alfredo, onde pescadores, magarefes, operários e outros personagens se reuniam entre sacas de arroz, farinha e camarão seco, munidos de seus instrumentos. Foi amigo de lendas do bairro, como o compositor Cristóvão Alô Brasil (12/10/1922-19/8/1998), que completaria 100 anos no próximo dia 12 de outubro e de quem se tornaria parceiro, entre outros, e integrou a ala de compositores da Escola de Samba Turma do Quinto, também sediada na Madre Deus. Em 2010 Cesar Teixeira foi homenageado pela rival Favela do Samba.

Para o artista, o show é também uma homenagem às mulheres, “especialmente às mulheres negras, tão sacrificadas pelo atual governo”, afirma. A abertura fica por conta da dj Vanessa Serra, e ele terá como convidadas Rosa Reis, Célia Maria, Flávia Bittencourt, Lena Machado, Fátima Passarinho, Gabriela Flor – todas elas intérpretes de sua obra de longa data, em discos e shows – e o bloco carnavalesco Fuzileiros da Fuzarca, com 86 carnavais no currículo.

Cesar Teixeira será acompanhado por um regional formado por Rui Mário (sanfona e direção musical), Marquinhos Carcará (percussão), Tiago Fernandes (violão sete cordas), Chico Neis (violão), Gabriela Flor (pandeiro), Ronald Nascimento (bateria), Gustavo Belan (cavaquinho), Hugo Braga Reis (trombone), Ricardo Mendes (saxofone, clarinete e flauta), Daniel Cavalcante (trompete), Regina Oliveira (vocais) e Duda Saraiva (vocais). Entre os instrumentistas haverá ainda a participação especial de Victor Oliveira (saxofone). No repertório, clássicos e sambas inéditos da lavra do compositor, além de homenagens à velha guarda madredivina, entre nomes como Cristóvão Alô Brasil, Caboclinho e Patativa.

Trajetória – Com uma carreira iniciada ainda na década de 1960, em festivais estudantis de música, Cesar Teixeira foi um dos fundadores do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte), em 1972, e um dos quatro compositores gravados por Papete no elepê “Bandeira de aço” (1978), lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira e considerado um divisor de águas na música popular brasileira produzida no Maranhão. É também jornalista e artista plástico. Lançou dois discos solo: “Shopping Brazil” (2004) e “Camapu” (2018). O show “Samba de Botequim” será gravado e o material audiovisual deve ser disponibilizado em breve.

“Samba de Botequim” é uma realização da Pitan Produções e Coletivo Apoena, com patrocínio do Governo do Estado do Maranhão e Grupo Mateus, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Entre os objetivos da iniciativa está a formação de plateia. Os ingressos serão trocados por um quilo de alimento não-perecível e a arrecadação será destinada ao Natal Solidário das Mercês e para a Associação das Profissionais do Sexo no Maranhão (Aprosma), com atuação na área do centro histórico da capital maranhense.

Serviço

O quê: show Samba de Botequim
Quem: Cesar Teixeira e convidados
Quando: dia 23 (sexta-feira), às 19h
Onde: Ceprama (Madre Deus)
Quanto: um quilo de alimento não-perecível
Realização: Pitan Produções e Coletivo Apoena
Patrocínio: Governo do Estado do Maranhão e Grupo Mateus, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura
Informações: no instagram @showsambadebotequim

Ponte Bahia-Maranhão: o axé de Mariene de Castro

Mariene de Castro levou a plateia ao delírio, ontem (6), na Praça Maria Aragão. Foto: Zema Ribeiro

Sem meias palavras: a apresentação de Mariene de Castro, ontem, na Praça Maria Aragão, foi um arrebatamento. “O sino da igrejinha faz Belém/ dêm/ dêm”, adentrou ao palco cantando, após ser chamada pelo prefeito Eduardo Braide (Podemos) em pessoa (quase sempre errado, acertou a mão na programação de aniversário da cidade, e na noite anterior já tinha usurpado o papel do cerimonialista ao chamar ao palco o jamaicano Eric Donaldson).

Era a noite dedicada às religiões de matriz africana e a escolha da baiana Mariene de Castro (Bahia e Maranhão têm as maiores populações afrodescendentes do país) revelou-se mais que acertada. Sua trajetória coerente já revelava sua devoção e reverência às nossas heranças ancestrais e o show parecia estreitar essas relações, com seu repertório de pontos, sambas, chulas e suingueira, que incluiu peças como “O vira” (Luhli/ João Ricardo), sucesso do grupo Secos e Molhados, e “Mamãe Oxum”, tema de domínio público popularizado por Zeca Baleiro e Chico César.

Se a ponte Bahia-Maranhão não foi construída por Mariene de Castro, ela certamente enfeitou-a, embelezou-a, tornando o caminhar mais aprazível. Ela mesmo disse, durante o show, que a noite de ontem era “um divisor de águas”. Um marco não só em sua carreira, mas na de grande parte do público presente, que não esquecerá tão cedo do que ou/viu e certamente terá neste um dos grandes shows da vida.

Atriz e cantora coabitam pacificamente uma artista que é pura ginga, e logo no início, após umas poucas rodopiadas dela pelo palco, entendi porque ela fez questão de citar o nome de seu figurinista (Wilson Ranieri) na entrevista que ela me concedeu: seu vestido (depois de rodopiar à vontade, ela tirou a capa) parece ter vida própria, um espetáculo à parte, com seu esvoaçante bailado alegre. Sem falar no painel, “de Alaíde e Alaído Almeida, mãe e filho, que desenharam a nossa gente nordestina”.

Se o povo de santo, os fiéis das religiões de matriz africana, parecem não ter motivos para festejar, vítimas cotidianas de discursos e práticas de ódio, as milhares de pessoas presentes à praça ontem, certamente têm em Mariene de Castro uma embaixatriz, alguém que não se cala diante de violências e injustiças e tampouco separa arte de política por conveniência. Pelo contrário: seu show demarca uma posição, num tempo em que esta é exigida, sobretudo a artistas, estes formadores de opinião sempre tão violentados em tempos fascistas e autoritários.

Mariene de Castro não citou o nome de nenhum dos primeiros colocados nas pesquisas eleitorais, mas não se incomodou com os cantos pró-Lula e contra Jair Bolsonaro que a plateia entoou ao longo de sua apresentação. Engrossou o coro, falando em mudanças e transformações. Citou o Nelson Cavaquinho que não cantou: “isso tudo vai passar e o sol vai brilhar mais uma vez”.

Depois de “Alguém me avisou” (Dona Ivone Lara), “Sonho meu” (Délcio Carvalho/ Dona Ivone Lara) foi interrompida: uma fã conseguiu driblar a segurança para anunciar, aos prantos, no palco, que havia se perdido da filha criança. Apesar do susto, Mariene pediu calma à mulher e à segurança, e repetindo o nome da criança ao microfone; logo várias mãos apontaram-na e, com mãe e filha se reencontrando, “Sonho meu” acabou ficando mesmo pela metade. “Eu sou mãe, fiquei nervosa. Que nenhuma mulher precise mais chorar a dor da perda de um filho”, rogou, referindo-se, talvez, a quem perdeu parentes para a pandemia de covid-19, mas não só. Entoou uma Salve Rainha, acompanhada por grande parte da plateia, lição prática de sincretismo. Seguiu com a sequencia com que homenageava a centenária Dona Ivone Lara, cantando “Um sorriso negro” (Adilson Barbado/ Jair Carvalho/ Jorge Portela).

“Eu sou contra qualquer interrupção dos direitos humanos”, ousou dizer, sempre sem meias palavras. “Contra a homofobia, o racismo, o feminicídio, a intolerância religiosa”, bradou.

A determinada altura, seus percussionistas encararam a parelha do tambor de crioula. “Cheguei, cheguei, cheguei com a minha turma, cheguei”, cantou o famoso refrão de Mestre Felipe. Noutra altura o percussionista maranhense Mariano tocou caixa e eles cantaram juntos um medley do Cacuriá de Dona Teté: “Choro da Lera”, “Jabuti/Jacaré” e “Assa cana”.

Voltou ao palco aos gritos de mais um e recebeu das mãos do prefeito um buquê de rosas brancas e vermelhas. “Nunca um prefeito tinha visto um show meu inteiro de cima do palco”, agradeceu. Sim, Eduardo Braide surfa na onda da popularidade dos artistas que fazem a festa da cidade – na véspera, beijava a primeira-dama enquanto aparecia no telão dançando agarradinho com ela “Cinderella”, primeira “pedra” que Eric Donaldson cantou ao subir ao palco na noite regueira do aniversário da Jamaica brasileira. 

Ela distribuiu ao público quase todas as flores, antes de receber no palco a representação de sete orixás, um a um saudados por ela. Por fim, saudou os erês fechando a conta com “O que é, o que é?”, clássico de Gonzaguinha, deixando o público com gosto de quero mais, apesar de ter cantado por aproximadamente duas horas. Puro axé, que volte logo e sempre!

Lances eternos

O ótimo público presente ao Largo da Igreja do Desterro, sábado passado (27). Foto: Rivânio Almeida Santos

Certas coisas, de tão mágicas, não têm explicação. “As retas mais curvas que o mundo tem” parecem convergir em uma só direção. O sarau de encerramento da temporada 2022 do projeto RicoChoro ComVida na Praça, idealizado e coordenado por Ricarte Almeida Santos, é um destes acontecimentos. A coincidência geográfica e temporal, para celebrar um disco atemporal: a comunidade do Desterro, no Centro Histórico da capital maranhense, celebrava Nossa Senhora do Desterro e a procissão chegou em meio aos paralelepípedos quando o dj Jorge Choairy já preparava o terreno – modo de dizer, que a agricultura de seu set list já colhia os frutos plantados desde algum tempo –, numa convergência saudável e respeitosa entre o sacro e o profano. Exatamente como aconteceu há 44 anos, quando Chico Maranhão e o Regional Tira-Teima, a convite da gravadora Discos Marcus Pereira, ocuparam a sacristia da Igreja do Desterro para registrar o antológico elepê “Lances de agora”, de cuja “Ponto de fuga” pinço as aspas com que quase abro este texto.

O lance de agora era a homenagem que o cantor Cláudio Lima prestaria a Chico Maranhão, compositor que chegou aos 80 anos neste agosto, cantando quase a íntegra do citado disco e duas pérolas de outros momentos da carreira de Francisco Fuzzetti de Viveiros Filho, nome de pia do homenageado: “Rapaziada, o tempo mudou” e “Diverdade”. “Eu sei que você fica preso no ar quando eu canto”, diz a letra desta última, metáfora possível para a apresentação do cantor.

Acompanhado do Quarteto Crivador, Cláudio Lima era pura entrega no palco. Brincava, mas trabalhando sério, como é de seu feitio, com a própria voz e com a obra de Chico Maranhão. Prendia a atenção do público presente, devotos da boa música tal qual os admiradores das obras de Chico Maranhão, de Cláudio Lima e de choro em geral.

Cantar como quem reza: o sublime encontro de Cláudio Lima e Dicy, reverenciando Chico Maranhão. Foto: Rivânio Almeida Santos

O nome do grupo anfitrião, tomado emprestado de um dos três tambores da parelha de tambor de crioula, parecia também remeter a outra fase da carreira de Chico Maranhão, quando ele comandou a Turma do Chiquinho, registrado em sua “Ópera Boi – O sonho de Catirina”, de meados da década de 1990. Rui Mário (sanfona e direção musical), Tiago Fernandes (violão sete cordas), Marquinhos Carcará (percussão) e Wendell de la Salles (bandolim) – que se lamentou quando em meio à apresentação inicial do grupo, arrebentou uma corda de seu instrumento, o que nem de longe tirou o brilho do espetáculo – trajaram de personalidade tanto o repertório instrumental do primeiro bloco de sua apresentação, quanto o acompanhamento luxuoso que prestaram a Cláudio Lima e sua convidada especial, a cantora Dicy – que cantou sozinha “Ponta d’areia” e dividiu com ele os vocais em “Vassourinha meaçaba”.

Em respeito às tradições e à religiosidade do local, a passagem de som atrasou. Mas até isso parecia contribuir para o brilho da noite: quem chegou no horário, acabou ouvindo Cláudio Lima cantar “Meu samba choro”, entrada de um delicioso cardápio musical. O público aplaudiu, antes mesmo de o show começar. Era o coroamento de uma ideia que começou há algum tempo: Cláudio Lima, o mesmo cantor e compositor que estava ali, no palco, é designer de formação e assina a capa e o tratamento de imagens do livro “Lembranças, lenços, lances de agora: memórias e sons da cidade na voz de Chico Maranhão” (Palavra Acesa, 2022), que o poeta e jornalista Celso Borges autografou na mesma ocasião. Foi a partir da pesquisa que o multi-artista mergulhou de cabeça no universo do filho de dona Camélia. O resto é história que ficará na memória dos presentes.

Em meio a tudo isso, ainda teve o poeta Fernando Abreu, brindando a plateia com um poema (“Ladainha”, que cita Allen Ginsberg e Chico Maranhão e suas lágrimas com novos poemas e canções) de seu novo livro, “Esses são os dias” (7Letras, 2022), que terá lançamento muito em breve.

Para não dizerem que não aponto defeitos: a temporada foi curta e só retorna às praças da ilha ano que vem.

RicoChoro ComVida na Praça homenageia Chico Maranhão

[release]

Repertório do disco “Lances de agora” (1978) será lembrado em frente à igreja onde foi gravado; compositor completou 80 anos neste agosto

Uma viagem no tempo. É o que promete o último sarau da temporada 2022 do projeto RicoChoro ComVida na Praça, que acontece este sábado (27), às 19h, no Largo da Igreja do Desterro, no Centro Histórico da capital maranhense, em meio aos festejos de São José do Desterro.

A sacristia da secular igreja foi palco, em junho de 1978, das gravações do antológico elepê “Lances de agora”, do compositor Chico Maranhão, com o acompanhamento do Regional Tira-Teima. O disco foi lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira, do incansável pesquisador do cancioneiro de um Brasil desconhecido pela maioria dos brasileiros.

Show de Cláudio Lima será uma homenagem a Chico Maranhão. Foto: divulgação
A cantora Dicy fará uma participação especial durante a homenagem. Foto: divulgação

Chico Maranhão completou 80 anos neste agosto, de modo discreto, como é de seu feitio, ao contrário de outros oitentões ilustres da música popular brasileira. Ele receberá homenagem do cantor Cláudio Lima, convidado desta edição do sarau, que apresentará show com o repertório de “Lances de agora”, com a participação especial da cantora Dicy.

O poeta Celso Borges lerá trechos de “Lembranças, lenços, lances de agora: memórias e sons da cidade na voz de Chico Maranhão” . Foto: Layla Razzo. Divulgação

Ainda na ocasião, o poeta e jornalista Celso Borges fará novo lançamento do livro “Lembranças, lenços, lances de agora: memórias e sons da cidade na voz de Chico Maranhão” (Palavra Acesa, 2022, 265 p.), misto de bastidores da gravação do disco e biografia de Chico Maranhão, com uma boa dose de imaginação poética – ao aproximar Maranhão e Bob Dylan, por exemplo.

Quarteto Crivador. Montagem. Divulgação

Cláudio Lima e Dicy serão acompanhados pelo Quarteto Crivador, formado por Marquinho Carcará (percussão), Rui Mário (acordeom e direção musical), Tiago Fernandes (violão sete cordas) e Wendell de la Salles (bandolim). O nome do grupo é tomado emprestado de um dos tambores da parelha do tambor de crioula, ritmo genuinamente maranhense que também é alvo do interesse do compositor homenageado, seja em músicas que compôs, seja na Turma do Chiquinho, grupo de tambor de crioula que comandou durante a década de 1990.

As atrações se completam com o dj Jorge Choairy, o mais tropicalista de nossos disc-jóqueis, antropofagicamente falando: seu set list é fruto de uma alimentação sonora que não conhece preconceitos, abarcando diversos gêneros, épocas e geografias, numa salada sonora sempre suculenta.

RicoChoro ComVida na Praça é uma realização da Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt, com produção de Girassol Produções e RicoChoro Produções Culturais, que agradecem ao deputado federal Bira do Pindaré, que tornou possível a realização desta edição do evento, ao destinar emenda parlamentar à Prefeitura Municipal de São Luís, através da Secretaria Municipal de Cultura (Secult).

Acessibilidade cultural – Os saraus RicoChoro ComVida na Praça garantem acessibilidade cultural, com banheiros químicos adaptados, assentos preferenciais, audiodescrição e tradução simultânea em Libras, a língua brasileira de sinais.

Arte na luta contra a fome – O projeto RicoChoro ComVida na Praça é parceiro do “Pacto pelos 15% com fome”, da ONG Ação da Cidadania. Atualmente mais de 33 milhões de brasileiros não têm o que comer. O objetivo da campanha é “promover uma grande aliança entre entidades da sociedade civil e empresas, grupos de mídia, agências de comunicação e publicidade, pessoas físicas, artistas e influenciadores, para atuarem na linha de frente no combate à fome e às desigualdades sociais”. O evento é gratuito e aberto ao público, mas recomenda-se a doação de um quilo de alimento não-perecível, como gesto concreto de engajamento na campanha. O volume arrecadado será destinado a comunidades em situação de vulnerabilidade social.

Divulgação

Serviço

O quê: sarau RicoChoro ComVida na Praça
Quem: dj Jorge Choairy, Quarteto Crivador, o cantor Cláudio Lima, com participação especial de Dicy Rocha, e o poeta e jornalista Celso Borges
Quando: dia 27 (sábado), às 19h
Onde: Largo da Igreja do Desterro, Centro Histórico de São Luís
Quanto: grátis
Informações: @ricochoro (instagram e facebook)