Chorinhos, chorões e bandeiras de aço

Era a primeira vez que o mestre ia ao programa, que já conta mais de duas décadas no ar. Eu, modéstia à parte, já sou figurinha carimbada por ali, “aparecendo” vez por outra.

Ricarte Almeida Santos e este que vos perturba entrevistamos Cesar Teixeira em Chorinhos e Chorões gravado sexta-feira passada (15). Calma! Você não perdeu nada: o programa vai ao ar domingo (24), no horário de sempre: às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Além de ditadura militar, censura, Laborarte e a definição de uma estética musical do Maranhão, Bandeira de aço (o disco lançado por Papete em 1978, com três composições suas, entre as quais a faixa-título), o compositor conversou ainda sobre Bandeira de aço, show que apresenta dia 30 (sábado), uma espécie de “saideira das férias”, às 21h, no Circo da Cidade, com produção de Ópera Night e todo o entusiasmo da turma boa do Vias de Fato, que caiu em campo (e ainda está) atrás dos recursos para viabilizar esta empreitada cultural. Pra quem não tá ligado, Cesar Teixeira é também jornalista e coordenador editorial do jornal mensal, de que muito me orgulho estar ocupando as páginas de cultura.

Músicas interpretadas pelo próprio Cesar além de alguns de seus importantes intérpretes estão no roteiro do programa: Flanelinha de avião, Dolores (Flávia Bittencourt), Ray ban (em duas versões: a do compositor e, antes, a de Cláudio Lima), Vestindo a zebra, Lápis de cor (Célia Maria), Botequim (Lena Machado) e Das cinzas à paixão, entre outros clássicos que todo mundo assovia e cantarola aqui e acolá.

Abaixo, dois flagrantes da tarde risonha. Agora é esperar por domingo. E mais, pelo sábado do show. Que venham!

Cesar Teixeira e Ricarte Almeida Santos durante gravação do Chorinhos e Chorões
Os risonhos Ricarte Almeida Santos, Cesar Teixeira e o blogueiro

O “Vento nordeste” de Terezinha de Jesus

[Texto emocionado e emocionante publicado na edição de junho/2011 do jornal Vias de Fato]

Pelas manchetes você percebe que o texto do professor não é o único bom motivo para ler o Vias de Fato do mês passado, o deste mês quase nas ruas

LUIS INÁCIO OLIVEIRA*

Sem a música a vida seria um erro, disse uma vez, com toda razão, o pensador Friedrich Nietzsche.

Hoje posso ver que a formação do meu ouvido vem de longe, das terras da infância – meu pai gostava dos baiões de Luiz Gonzaga, uma tia-avó escutava coisas mais eruditas e um tio boêmio, fã do violão de Dilermando Reis, fazia longas serestas no quintal da sua casa. Foi como um ouvinte ainda adolescente que ouvi certa vez a canção Vento nordeste, de Sueli Costa com letra do poeta Abel Silva, na voz agreste da Terezinha de Jesus e aquela voz nova pra mim, com seu belo timbre e seu tom meio doído, com um leve sotaque e um frescor de menina, lembrando a voz da Gal Costa nos seus inícios, me chamou imediatamente a atenção. Nos idos anos 1980, ainda tínhamos em São Luís alguns bons programas de rádio! Algum tempo depois descobri numa loja de São Luís, na época das lojas de vinis, o álbum da Terezinha de Jesus intitulado, justamente, de Vento nordeste e este se tornou então um dos discos que me acompanharam durante certo tempo da adolescência, formando também o meu ouvido na canção popular brasileira, com suas riquezas melódicas e sua bela tradição poética. Acho que uma coisa que precisa ainda ser melhor estudada é essa tradição poética que se refugiou na música popular brasileira, desde Noel Rosa, passando por Vinícius de Moraes, até chegar a Chico Buarque, Caetano Veloso, Torquato Neto, José Carlos Capinam, Waly Salomão, Cacaso e muitos outros poetas da nossa canção popular.

Quando retornei do meu mestrado há alguns anos, vi que não conseguiria mais manter meus vinis no clima quente e úmido da ilha de São Luís e me desfiz de praticamente todos, que se dispersaram por aí pelos sebos; acho que o da Terezinha já havia sumido bem antes dessa última diáspora… Foi assim que, depois da diáspora final, comecei a garimpar na internet algumas gravações que haviam se tornado parte da minha “memória musical afetiva”, vamos denominar assim, algumas das quais sequer chegaram a ser lançadas em cd. Os discos lançados pela Terezinha fazem parte, por assim dizer, dessa memória obscura e esquecida da canção popular brasileira que não se encontra registrada em cd. Pelo que sei, só uma coletânea da Terezinha foi lançada em formato digital, já há muito fora de catálogo. Isso nos faz pensar naquilo que a compositora e letrista Ana Terra, num artigo justamente sobre a cantora, chamou de sequestro da memória da música popular brasileira. Parece que a internet tem ajudado a implodir esse controle pelo esquecimento que as gravadoras ainda exercem sobre a memória fonográfica.

Nessas minhas buscas pela internet, me dei conta de que, por algum motivo, a cantora Terezinha de Jesus havia sido praticamente varrida do mapa da recente história da música popular brasileira. Havia poucas informações internáuticas disponíveis sobre ela, as mais completas no verbete dedicado à cantora no Dicionário Cravo Albin e algumas noticiando uma melancólica interrupção da carreira e uma volta à terra natal que poderia até lembrar um baião triste de João do Vale. Fiquei então curioso em saber por onde andava a Terezinha de Jesus, o que havia acontecido com essa cantora que fez um relativo sucesso no finzinho dos anos 70 e início dos 80 e depois desapareceu completamente do cenário musical, aliás, como muitos de sua geração. Não custa lembrar aqui a efervescência política, cultural e musical da época, quando já se forçava a abertura política, depois de anos de ditadura militar, e quando muitas energias reprimidas, inclusive as artísticas, vinham à tona.

Nesse pouco material disponível na internet sobre a cantora, obtive, como já disse, a informação de que ela havia retornado à Natal/RN no início dos anos 90, fez ainda alguns shows e não chegou mais a gravar. Na mesma época, em rápido mas poético contato com a compositora mineiro-carioca Sueli Costa, de quem Terezinha gravou algumas canções, em belos registros, tive a confirmação de que a cantora potiguar havia realmente retornado à capital potiguar e vivia hoje lá, numa espécie de discreto silêncio, já retirada da vida de shows e discos. Lembrei então de outra canção da Sueli Costa, com letra do mesmo Abel Silva: “O que é uma vida de artista/ no mercado comum da vida humana?/ um projeto de sonho inocente…/ não se esqueça de mim essa semana!”

Em agosto passado, em viagem a Natal, resolvi procurar a cantora e o compositor potiguar Mirabô Dantas, a quem Terezinha é muito ligada e de quem gravou várias canções. As minhas buscas em jornais e órgãos oficiais de cultura poderiam, por si só, render uma história, talvez com lances detetivescos. Lembro que um jovem historiador da Casa de Câmara Cascudo, um rapaz estudioso da história e da cultura do Rio Grande do Norte, não conhecia a cantora. O taxista que me levou à casa dela ficou curioso com o meu insistente interesse por aquela cantora hoje esquecida e de quem, ele próprio, tinha apenas uma vaga lembrança. Mas deixemos de lado as histórias paralelas de minhas perambulações por Natal.

Findas as buscas, tive a oportunidade de conversar com Mirabô, um compositor importante, da mesma geração de Terezinha, e, como ela, também pouco conhecido fora de seu estado e do círculo de alguns ouvintes mais entusiasmados com a música popular brasileira e nordestina. O Mirabô, que tem várias composições com o poeta baiano Capinam, lançou um livro, há alguns anos, em que procurou contar a história musical e cultural da geração dele e da Terezinha. Mirabô chegou a ser presidente do Sindicato dos Músicos, no Rio de Janeiro dos anos 70, em plena ditadura militar e quando havia uma movimentação política com importância entre os músicos, pelo que ele me contou. Acho que a geração do Mirabô e da Terezinha é uma geração de órfãos da utopia musical dos anos 70. Ele me contou também a história de vida da Terezinha, que daria um romance musical, com alguma coisa da história de algumas cantoras do jazz norte-americano. Mas essa também já é outra história.

Fui eu mesmo conversar com a Terezinha de Jesus, na sua pequena casa de porta, janela e varanda, no bairro de Areia Preta, em Natal. É claro que a Terezinha que encontrei não era mais a jovem e bela mulher da capa dos seus discos, mas uma senhora de seus sessenta anos, já com as marcas de uma vida que nem sempre foi fácil. Conversamos uma tarde, com a presença da sua irmã Odaires, que foi casada com Mirabô, e com o barulho do mar por perto. Hoje a Terezinha é companheira do poeta Falves Silva, também potiguar. Eu disse a ela, na oportunidade, que tinha a intenção de escrever um artigo, uma resenha, alguma coisa sobre o Vento nordeste e ela apenas sorriu e se dispôs a falar de sua história, desde a infância no interior do RN, na cidade de Florânia e depois estudante em Natal, onde o pai trabalhava com a seleção de fios de algodão, trabalho delicado como o de um artista.

O Rio Grande do Norte teve o seu ciclo algodoeiro, como ela mesma me informou. Tinha a lembrança de cantar com as irmãs, mas era tímida e jamais supunha que se tornaria cantora profissional um dia. Confessou-me que subiu ao palco para cantar pela primeira vez um pouco forçada e quando se deu conta já era cantora. Como universitária em Natal, teve uma rápida militância política, mas logo percebeu que tudo havia se tornado perigoso naqueles tempos de acirramento da ditadura já instalada. Terezinha, no entanto, já se enfronhara com músicos e artistas que queriam experimentar caminhos novos no início dos anos 70, apesar do clima pesado da ditadura – uma agitação cultural que, me parece, pipocou no Rio e em São Paulo, com as guitarras dos tropicalistas, os parangolés de Hélio Oiticica, as experiências do Teatro Oficina, mas também em Belo Horizonte, Salvador, Recife, São Luís e por outros cantos. Era também o momento do desbunde, do hippismo, da psicodelia, da difusão do rock e, paradoxalmente, na América do Sul, ditaduras militares recrudesciam. No Brasil, essa tensão entre mudanças culturais e sufoco político.

Já no começo dos anos 70, Terezinha, que ainda não era Terezinha de Jesus, se despede de Natal e se manda para o Rio de Janeiro. Na verdade, uma nova leva de nordestinos repetia esse antigo êxodo. Os chamados centros culturais do Rio e de São Paulo foram então tomados não só pelos baianos, antigos e novos, mas também pelos cearenses, pernambucanos, paraibanos, alagoanos, potiguares. Traziam um sotaque diferente, um baião que já convivia com o rock. Reviravam a tradição poética e musical nordestina, cantorias, cordeis, aboios, galopes, feira de Caruaru, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro. Violas de 12 cordas, zabumbas, triângulos e sanfonas se misturavam a guitarras elétricas. Terezinha guarda muito da memória musical desses anos 70 no Rio de Janeiro, me contou muitas histórias. Chegou a conhecer Lupicínio Rodrigues já no final da vida dele, assim como Nelson Cavaquinho, que era um boêmio contumaz. Lembrou de um show antológico de Elizeth Cardoso acompanhada por Jacob do Bandolim e o Época de Ouro – depois registrado em disco, mas hoje também fora de catálogo. Foi também amiga muito próxima do maranhense João do Vale, de quem achavam, inclusive, que era namorada. Ou uma delas. Contou ainda que descobriu numa churrascaria o músico maranhense Zé Américo, que tocou na banda que a acompanhava e depois foi músico de Elba Ramalho. “Pra mim não havia essa história de eu ser a solista e, por isso, ser mais importante que os outros músicos. Trabalhávamos todos juntos, todos tinham ali a mesma importância”, disse. Seria esse o clima de muitas das experiências criativas dos anos 70. Lembro imediatamente do poeta-músico Cacaso: todos fazendo coletivamente um mesmo poemão!

Assim, Terezinha foi desfiando pra mim, como se também selecionasse fios de algodão, histórias daquele momento musical, daquela geração de nordestinos pós-tropicalistas (ou trans-tropicalistas) que invadiram o cenário da música popular naqueles anos – Ednardo, Fagner, Zé Ramalho, Alceu Valença, Moraes Moreira, Geraldo Azevedo, Cátia de França e a lista poderia se alongar bastante.  Lembrou do show importante que ela fez no Parque Lage, no Rio de Janeiro, final dos anos 70, e que antecedeu o lançamento de seu primeiro disco, justamente o Vento nordeste. Me falou da sua convivência com João do Vale, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Sueli Costa, Fagner, Moraes Moreira, Mirabô… Falamos da forte poesia que impregnava a música popular da época, da convivência que teve com alguns desses poetas ligados à música popular, Capinam, Abel Silva, Cacaso… Comentei que quando escutei de novo o seu primeiro disco, já passados tantos anos depois daquela minha primeira audição adolescente, o que aconteceu foi uma bela redescoberta. Ela me respondeu que essas surpresas sempre podem acontecer e me deu um exemplo poético: a surpresa que teve quando releu A hora e a vez de Augusto Matraga. De repente, já tínhamos entrado por outra vereda e ficamos ali falando do sertão de Guimarães Rosa…

Terezinha de Jesus gravou seis discos na sua carreira. Acho o primeiro deles, Vento nordeste, um disco primoroso. O segundo, Caso de amor, é também um belo disco, com algumas belas gravações, apesar de um arranjo meio cafona para um samba do Elton Medeiros. Depois ela gravou dois discos com o Sivuca, com sotaque mais nordestino, com forrós, xotes, xaxados, baiões, frevos. Neles, sente-se o entrosamento musical dos dois, a ligação com as raízes poéticas e musicais da canção nordestina, embora aqui e ali haja também algum deslize, algum resvalo para um piegas desnecessário. O seu último disco não conheço, é o menos conhecido, mas sei que nele ela gravou Luiz Melodia. É um disco com uma linguagem mais pop, segundo suas palavras, e isso parece ter sido imposição da gravadora.

No nosso papo, ela falou dessas pressões da gravadora para que fizesse coisas mais facilmente vendáveis, para que se enquadrasse numa espécie de fôrma da ‘cantora nordestina’. Contou que foi chamada por um executivo da sua gravadora e este sugeriu que ela gravasse coisas mais alegres, pois o seu disco Caso de amor tinha saído um disco meio triste e com poucas chances de venda. Ela, então, lhe respondeu que o disco não era um amontoado de canções, que ela havia construído o disco como uma pequena obra que tinha uma feição, uma unidade, um desenho autoral e não conseguiria sair trocando por canções mais alegrinhas e frevos vendáveis; se quisessem que ela o gravasse daquele jeito, ela o gravaria; caso contrário, gravaria outro disco, com outro repertório igualmente pesquisado, ou então não gravaria disco algum.

Nesse depoimento, senti que havia ali uma liberdade artística rara, que opunha ao sistema no qual havia se metido uma espécie de resistência delicada, quase singela na sua impotente potência. Não é de se estranhar que a Terezinha não tenha conseguido se adequar direito a esse sistema de formatação e de produção do êxito que a indústria do disco, à época todo-poderosa, impunha aos artistas. Minha impressão é que a jovem Terezinha era uma menina cigana que gostava da boêmia e queria ficar ali cantando as canções que a tocavam naquele agitado Rio de Janeiro do fim dos anos 70. Contou-me, por exemplo, que ouviu o samba-choro Curare, de Bororó, e achou lindo aquilo, com a mudança de registro e de ritmo que o samba adquire na segunda parte. Comentou com Paulinho da Viola e ele lhe mostrou a gravação original do Orlando Silva. Ela estudou o samba e o incorporou ao seu repertório. Curare foi gravado em Vento nordeste.

Quanto a esse Vento Nordeste, considero um dos belos discos dos anos 70, um disco com simplicidade, delicadeza, poesia, com arranjos bonitos, bem cuidados, ainda com aquele som acústico dos anos 70, com cordas, violões, flauta, acordeom, piano acústico e com a voz agreste de Terezinha, que remete aos ventos marinhos de Natal, aos agrestes do Seridó, às frutas do sertão, mangaba, caju, siriguela, umbu. Ela gravou nesse disco tanto compositores novos à época, como Sueli Costa, Fagner, Moraes Moreira, os compositores do grupo Boca Livre, na época Cantares, e o próprio Mirabô, quanto compositores da tradição da canção popular brasileira, como Bororó, Lupicínio e Luiz Bandeira. A gravação da canção Vento nordeste, de Sueli e do poeta Abel Silva, é muito bela, cheia de delicadeza poética – “Viaja o vento nordeste, cavalo de meu segredo”. A Sueli Costa me confidenciou, no nosso breve contato, que acha a melhor gravação dessa sua composição! O mesmo se pode dizer da gravação de Cigano, de Raimundo Fagner, e de Não posso crer, de Mirabô, com letra do poeta Capinam, espécie de samba-canção com distorções da guitarra de Robertinho do Recife no final. A gravação de outro samba-canção, Aves daninhas, dessa vez de Lupicínio, é pra mim antológica, com o acordeom choroso de Dominguinhos. Sem falar no samba do Bororó…Aos clássicos de Bororó e de Lupicínio fazem contraponto o debochado samba de gafieira Fogo-fátuo, de Moraes Moreira com letra do poeta carioca Chacal, e a melancólica canção Foi-se o tempo, dos cearenses Petrúcio Maia e Fausto Nilo. E no disco há também uma gravação saborosa do choro amaxixado Coração Imprudente, de Paulinho da Viola e Capinam, a Terezinha cantando num dueto com o próprio Paulinho da Viola e o maranhense Zé Américo ao piano. Na direção do dia é uma toada ao modo mineiro, dos compositores Juca Filho, Zé Renato e Cláudio Nucci; na gravação, Terezinha é acompanhada pelos músicos do grupo Cantares, que depois viraria Boca Livre e gravaria a mesma toada num disco independente famoso.  O Vento nordeste se encerra com dois baiões-forrós ingênuos, um de Luiz Bandeira e o outro de João Silva, um compositor menos conhecido da época do Luiz Gonzaga – essas gravações trazem no vento sons longínquos do interior do Brasil e portam algo de desconcertantemente antiquado, sonoridades que remetem às feiras nordestinas, às cantorias, às ladainhas, aos forrós tocados nos rádios das casas do sertão. Pelo menos é assim que eu as ouço, com essas ressonâncias levemente arcaicas.

Os músicos que tocam no disco são todos muito bons: Dominguinhos, Tutty Moreno, Robertinho de Recife, o flautista Copinha; os arranjos são muito bem cuidados. Mas tudo tem frescor e simplicidade. A própria Terezinha me confessou, na nossa conversa, que, como cantora, sempre prezou pela simplicidade. Mas a simplicidade desse seu Vento nordeste é uma simplicidade cheia de pequenas sofisticações e delicadezas, simplicidade difícil de ser alcançada, a simplicidade de uma Nara Leão, de um Agustín Barrios, de um poeta como Manuel Bandeira, de um pintor como Guignard. Talvez com o exagero daquela minha memória musical afetiva, considero o disco uma pequena pedra preciosa deixada ao esquecimento e, por isso, fico querendo resgatá-lo do silêncio.

Readquiri o vinil em Natal. Voltei com ele a uma coleção de vinis. O Vento nordeste foi o primeiro dessa nova coleção e vejo como as capas dos antigos discos podiam ser pequenas obras de arte. A capa do disco da Terezinha é singela, mas evoca o enigma do vento nordeste viajando nas dunas de Natal. Sobre a imagem das areias com os rastros do vento há uma foto da Terezinha com jeito e brincos de cigana. Um encarte acompanha o vinil com a mesma foto e indicação detalhada de todos os músicos. Na contracapa, ainda sobre a imagem das dunas, há a lista das canções com os compositores e os créditos do disco, mas, sobretudo, há dois textos de apresentação emocionados, textos escritos por dois poetas próximos de Terezinha, o baiano Capinam e o carioca Abel Silva. O texto de Capinam é, na verdade, quase um poema dedicado à cantora.

Por fim, não posso deixar de dizer que esse texto se originou de uma carta que enderecei ao Ricarte Almeida Santos, propondo a ele que dedicasse um Chorinhos e chorões à Terezinha de Jesus. O programa aconteceu no segundo semestre de 2010 e rolaram as gravações mais chorísticas da Terezinha, com a minha presença e a do jornalista Zema Ribeiro. Este texto é uma versão desdobrada daquela carta.

*LUIS INÁCIO OLIVEIRA é professor do Departamento de Filosofia da UFMA

Joãozinho Ribeiro é um mestre

Poeta e compositor da melhor estirpe, tem canções que já estão cravadas no imaginário do maranhense, tal como as pedras das ruas do Desterro ou como o som das matracas que ecoam no arraial da alma.

Mas não é só isso. Ele é um mestre também ao tentar, com suas atitudes de cidadão arretado, nos fazer ver o mundo com o olhar encantado dos puros.

Seus versos e melodias são assoviados como clássicos, mesmo sem João jamais ter gravado um disco sequer. Não por falta de torcida. Há tempos cobro do homem um registro de sua rica obra, um regalo certamente para fãs apaixonados como eu e outros tantos.

João parece ter ouvido o apelo de seus entusiastas, e agora começa a tramar para gravar seu primeiro disco. Mas, antes disso, fará um fuzuê no Novo Armazém com convidados durante algumas semanas, onde “testará” dezenas de músicas que comporão seu disco, na verdade uma antologia, considerando que João tem já 30 anos de carreira e correria.

Nesses anos, esteve envolvido em muitas lutas, algumas políticas, outras existenciais, algumas vencidas, outras inglórias. Sempre artista inquieto e cidadão íntegro, comprometido com a “felicidade geral da nação”.

Mas eu lhe digo: João, saiba, rapaz, felicidade maior que ouvir suas canções não pode haver.

Texto de Zeca Baleiro, à guisa de apresentação da série Outros 400, que estreia hoje (14), às 21h, no Novo Armazém (Rua da Estrela, Praia Grande), sobre o que você lê mais detalhes na Agenda do Samba & Choro e/ou no Ponte Aérea São Luís.

Hoje

Ambas talentosíssimas e inéditas em disco, mas já com relativo sucesso na noite e no rádio maranhense. Falo de Milla Camões e Tássia Campos, que se apresentam juntas, hoje, no Let it Beer Legendary Music Hall (o nome correto, enorme e gringoso da antiga Flamingo, ali por baixo do Rio Poty Hotel), a partir das 20h (se começar no horário, dá pra correr pro show que anuncio post que vem), detalhes abaixo:

Conforme prometi no reveillón da Beira Rio

A famosa Av. Beira Rio, em Imperatriz/MA, é palco do reveillón mais famoso da cidade. Como tal, deve ser palco de promessas infinitas, que virão a ser cumpridas ou não ao longo do ano. Algo comum em viradas. Nas proximidades da Beira Rio fica o Boteco do Frei, bar charmosíssimo com palco idem.

Mas por que o blogueiro estaria falando em reveillón em pleno meio de ano? Para avisar-lhes que hoje à noite quem toca no Boteco do Frei é o mui talentoso Djalma Lúcio, que apresenta o show Conforme prometi no reveillón, em que canta coisas de seu ótimo epônimo, dos tempos de Catarina Mina (banda que integrou com Bruno Azevêdo e Eduardo Patrício), inéditas e covers.

Hoje, Djalma Lúcio (voz, guitarra) será acompanhado por Thierry Castelli (bateria) e Sandoval Filho (contrabaixo). Aos que me leem da capital do Maranhão do Sul fica a dica, imperdível, detalhes abaixo:

Interrompemos nossa programação

Hoje à noite falei por cerca de duas horas com alunos da disciplina Jornalismo Cultural, ministrada pela professora Joanita Mota, da UFMA, sobre minha atuação, experiências, influências etc., etc., etc.

Estava vendo Flamengo e São Paulo na tevê, secando a ambos, quando um sms me alcança: a queridamiga Micaela me avisava que o Criolina havia levado, no Prêmio da Música Brasileira, o troféu de melhor álbum, por Cine Tropical. É o segundo ano consecutivo que o título fica com maranhenses: em 2010 quem levou foi Zeca Baleiro, pelo duplo O coração do homem bomba.

Eu, que havia resmungado no post anterior, digo o seguinte: é aquela coisa: o prêmio não é o fim, mas se ele vem… bem vindo! Eu não podia deixar de interromper minha programação, vencer o cansaço e dar a notícia.

No Maranhão isso se chama “quebrar a castanha da língua”.

Longa vida ao Criolina, a música do Maranhão está em festa!

Dá-lhe, Criolina!

[Antes um aviso: isso não é jornalismo: é tietagem! Ah, o tempo: impediu-me de transcrever e publicar uma entrevista-lenda-inédita com o duo, para engrossar o caldo de sua torcida. Rolará em breve, fiquem ligados, poucos mas fieis leitores]

Confesso que não sou o cara mais crente em grandes prêmios tipo o Oscar, Grammy ou o de Música Brasileira. Não consigo não ver com desconfiança. Primeiro que o número excessivo de categorias sempre parece querer justificar alguma premiação sem merecimento. Quantos filmes, diretores, atores e compositores antológicos passaram em brancas nuvens nesta ou naquela edição do Oscar? Quantos escritores geniais morreram sem o Nobel de literatura? Por que Vargas Llosa demorou tanto a recebê-lo? O que justifica até hoje Saramago ser o único autor de língua portuguesa a ter recebido um? E nenhum brasileiro? A meu ver faltam critérios. Rabugice minha? Não creio.

Bom, mas hoje é dia de deixar ranzinzices de lado e torcer pelo “casal mais charmoso da música brasileira”, já saudado por Zeca Baleiro (olha aí um excelente nome que não figura entre os finalistas do Prêmio da Música Brasileira de 2011, do que era mesmo que estávamos falando?) como “o melhor acontecimento da música maranhense nos últimos vinte anos”, o Criolina (foto).

Não que o Criolina precise da chancela de algum prêmio, grande ou pequeno. A seleção de Telê Santana de 1982 não ficou para sempre nas memórias e corações dos brasileiros que assistiram ou não aquela fatídica copa?

O Criolina concorre em duas categorias e entre seus concorrentes/finalistas não há nada melhor que seu trabalho: original, sincero, autêntico, talvez até mesmo por ser gestado sem pressa e/ou preocupações com mercado, prêmios e quetais. O páreo é duro: mesmo a, er, “crítica”, er, “especializada”, é, às vezes, de um terrível mau gosto.

Torço pelo Criolina, mas não serei pego de surpresa se em vez de seu Cine Tropical, o melhor álbum escolhido for Cabaret do Rossi, de Reginaldo Rossi, ou 30 anos ao vivo, do Roupa Nova. Ou se a melhor dupla, em vez do Criolina, for Victor e Léo. Ou, pasmem, eles ainda estão vivos e ainda concorrem, Zezé Di Camargo e Luciano.

A premiação acontece hoje. Detalhes e lista completa de categorias e finalistas aqui.

Um ano de Biotônico, hoje

 

Os cérebros do Biotônico

O rádio vai à tv. Modo de dizer: tudo na internet. Hoje (5) os brothers Celso Borges, Otávio Rodrigues e Zeca Baleiro (em ordem alfabética e fotográfica) apresentarão ao vivo dos estúdios da TV Uol o Biotônico, “o seu programa de rádio na rede”, como apregoa um dos slogans/vinhetas do programa “de branco, de índio e de preto”.

A transmissão tem início às 17h. É o 32º. programa do trio webradialista. O Biotônico vai ao ar quinzenalmente e nesta edição serão apresentados duas listas pra lá de nickhornbianas: as 10 melhores cantoras de óculos de todos os tempos e as 10 letras mais bizarras. Mas só se vendouvindo pode crer: com certeza tem muita surpresa pra você!

Música, poesia, curiosidades, bate-papo, descontração e inteligência: é a fórmula do Biotônico. Ouça! E hoje, em especial, veja! A quem não puder assistir no horário da transmissão, a edição de aniversário será gravada e como todas as outras do programa ficará disponível para audições posteriores.

“Gerô e Nunes do Acordeom

tão lá em cima
tão com Deus fazendo um som”.

Gerô e Nunes do Acordeom ‘tão também na letra da música nova da Negoka’apor, cujo videoclipe você assiste abaixo.

Agendinha de Beto Ehongue, vocalista do grupo, em projetos paralelos: dia 12, às 20h, no Espaço Ímpar (Jornal O Imparcial, Rua Assis Chateaubriand, nº. 1, Renascença), com o poeta Celso Borges, no show A palavra voando, recentemente apresentado por eles nos três Centros Culturais Banco do Nordeste (mais detalhes por aqui em breve); e dia 14, com os Canelas Preta (sic, grupo do qual também é vocalista) às 22h no Odeon Sabor & Arte (Rua da Palma, Praia Grande).

Os ingressos custam R$ 20,00 para ambas as apresentações.

Vamos amar

Há uns dias caí num programa da TV Brasil que exibiu o clipe abaixo (que eu não conhecia, confesso). Sempre gostei dessa música, Façamos (Vamos amar), versão do genial Carlos Rennó para música de Cole Porter, magistralmente gravada por Elza Soares e Chico Buarque em Do cóccix até o pescoço, excelente disco da diva.

O apresentador do programa falava algo acerca da “safadeza” da letra e comentava como caíram bem as ilustrações de mestre Angeli para o videoclipe. Concordo. Tirem suas próprias conclusões:

Em dois vídeos,

três bons motivos pr’aqueles que ainda não decidiram ir ao show de Andreia Dias, logo mais no Novo Armazém (Rua da Estrela, 401, Praia Grande): Asas, Bode e O fio da comunicação, três músicas dela, as duas primeiras no primeiro vídeo, esta última também já gravada pela Donazica, ótima banda de que faz parte, ao lado das também talentosíssimas Anelis Assumpção (que acaba de lançar disco solo) e Iara Rennó.

Anotem aí o serviço: Show de Andreia Dias, hoje (15), às 21h. Participação especial: Criolina. Discotecagem: Pedro Sobrinho e Natty Dread (não sei se antes, pra criar o clima, ou depois, enquanto pedimos as saideiras). Exposições fotográficas: PanorAMO São Luís, de Ghustavo Távora, e Vibrações, de Marcos Gatinho, além de uma de artes plásticas de Alex Soares. Os ingressos custam apenas R$ 15,00. A apresentação integra o projeto Fora do eixo, com que a cantora está percorrendo o país. A produção local é do Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões). Andreia Dias será acompanhada pelos músicos Edinho Bastos (guitarra), George Gomes (bateria) e João Paulo (contrabaixo).

“O micróbio do samba” e a pulga tirada de detrás da orelha do blogueiro

[Este texto (resenha? Crítica?) é dedicado a Alberto Jr., André Sales e Reuben da Cunha Rocha, que me instigaram a ouvir mais e melhor o disco novo de Adriana Calcanhotto, em provocações via tuiter, blogue e messenger. E a Silvério Pessoa, que em 2002 lançou O micróbio do frevo, por sua vez dedicado ao genial Jackson do Pandeiro, cuja obra foi ali regravada.]

O micróbio do samba [Minha Música/Sony Music, 2011, R$ 24,90 em média], novo trabalho de Adriana Calcanhotto, como o título entrega completamente dedicado ao gênero de Noel Rosa e Cartola, para citar apenas dois de uma constelação de craques, é um dos mais instigantes discos recentemente lançados nesse Brasilzão de meu Deus.

Não é um disco fácil, daqueles pelos quais você se apaixona à primeira audição. A primeira sensação, surgida antes mesmo de ouvi-lo, é de ansiedade: a gaúcha demora a lançar discos, quiçá maturando-os, e qualquer anúncio de disco da autora de Esquadros causa rebuliço, seja voltado ao público infantil, seja inteiramente dedicado ao samba.

Você ouve falar ou lê um texto sobre e fica naquela, enorme vontade de ouvir logo o tal disco, no rádio, baixando na internet, pegando emprestado ou comprando – este escriba baixou, teve sua relação de amor e ódio, não necessariamente nessa ordem, depois comprou o original. Como um remédio controlado – embora O micróbio do samba não careça de receita –, várias doses diárias.

Adriana Calcanhotto é artista completa: compõe bem, canta idem, toca violão ibidem. Admirador de seu trabalho desde Enguiço, a estreia de 1990 – quando o blogueiro era então apenas um menino –, disco que trazia uma regravação de Disseram que voltei americanizada (Luiz Peixoto e Vicente Paiva) e Naquela estação (parceria inusitada de Caetano Veloso, Ronaldo Bastos e João Donato), e lhe garantiu comparações à Elis Regina, e apreciador de samba desde sempre, a receita só podia ser infalível.

Se “se faz samba com pandeiro/ com cavaco e cuíca/ com retinta, tamborim e violão/ entra o surdo, reco-reco/ o afoxé e o apito/ os sambistas, as cabrochas e animação”, como receitava o sábio e saudoso Mestre Antonio Vieira (1920-2009) em Ingredientes do samba, Calcanhotto bota pra quebrar – literalmente – e causa-me a primeira estranheza: um disco de samba quase sem instrumentos/ingredientes de samba.

Aparecem aqui e acolá um cavaquinho (Davi Moraes em Tão chic, a faixa “mais samba” do disco – não por acaso uma de minhas prediletas), um violão (a própria Adriana ao longo do disco, novamente Davi Moraes em Deixa, gueixa), uma cuíca (a própria Adriana em Vai saber?), um prato e faca (Moreno Veloso em Você disse não lembrar); mas predominam o contrabaixo de Alberto Continentino e bateria e percussão de Domenico Lancellotti – Calcanhotto ainda empunha, além de voz, violão, e da já citada cuíca, piano, guitarra, caixa de fósforos e bandeja de chá. Outros convidados são Rodrigo Amarante (guitarra em Já reparô?) e Nando Duarte (violão em Deixa, gueixa).

Dedicada a Marisa Monte, Beijo sem, já havia sido gravada por Teresa Cristina em Melhor assim (2010); a que recebe a homenagem, em Universo ao meu redor (2006), havia gravado Vai saber?, em O micróbio do samba dedicada a Mart’nália. Ouvi-las com pressa nos induz a crer que as gravações das intérpretes de Calcanhotto são melhores; (re-)ouvi-las com atenção nos faz percebê-las apenas diferentes. Se as gravações da autora soam mais “secas”, aplaudamos o “charme da compositora” – talvez aquilo que nos faz adorar gravações de músicas de, por exemplo, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues em suas próprias vozes.

Adriana Calcanhotto assina todas as faixas do disco, Vem ver em parceria com o lendário Dadi (baixista d’A Cor do Som). Outro grande trunfo deste belo disco é tirar as mulheres dos papeis subservientes a que desde sempre estiveram relegadas no universo em geral machista do samba, Ai, que saudade da Amélia (Mário Lago e Ataulfo Alves) e Amor de malandro (Francisco Alves e Ismael Silva) talvez os exemplos mais emblemáticos. As letras de O micróbio do samba dão voz e vez às mulheres, talvez até demais. Alguns marmanjos certamente não gostariam de ouvir versos como “te deixo a geladeira cheia e sem promessa/ que findo o carnaval eu tô de volta/ não chora, neguinho, não chora/ o meu coração é verde e rosa/ (…)/ tá na minha hora” (Tá na minha hora) nas bocas das suas meninas.

Música brasileira: terra fértil

Pitanga em pé de amora, bela estreia de quinteto paulista em disco homônimo

Tão fértil é a música brasileira que até Pitanga em pé de amora (2011) é capaz de nascer. Com formação mais ou menos chorística, o quinteto não se prende, no entanto, a um único gênero. Passeia com desenvoltura por diversas brasilidades, a partir da urbaníssima São Paulo.

Angelo Ursini (clarinete, flauta, saxofone), Daniel Altman (voz, violão sete cordas), Diego Casas (voz, violão), Flora Poppovic (voz, percussão) e Gabriel Setúbal (trompete) – com todos se revezando, aqui e ali, nas percussões – vão de choro, xote, frevo e mais, às vezes com o devido gênero batizando a faixa a ele dedicada. Recém-adultos, os moços e a moça do quinteto esbanjam talento e versatilidade. Se é moderno pé de amora dar pitangas, amoreiras e pitangueiras têm raízes e dessas o quinteto não abre mão.

O disco homônimo de estreia do grupo está disponível na íntegra para download em seu site – lá é possível baixar também algumas faixas gravadas ao vivo. Amostra grátis, vale a pena ouvir antes e comprar depois, belo projeto gráfico embalando as composições do Pitanga em pé de amora, todas autorais – Diego Casas assina todas as faixas sempre em parceria com alguém do grupo, só Flora Poppovic não compõe, e nem precisa, cantando como canta.

Pitanga em pé de amora é grupo que já nasce maduro, pronto para a fruição. Ouvidos de bom gosto, brindai! Tenham pressa, embora não haja risco nenhum destes frutos apodrecerem.

Chorinhos e chorões – Edito agora (15h20min) o post para trazer para cá um aviso deixado por Ricarte Almeida Santos na caixa de comentários deste modesto blogue: em seu Chorinhos e Chorões de domingo (5), às 9h, o sociólogo-radialista apresentará aos ouvintes o disco sobre o que acabamos de escrever um pouco aos poucos mas fieis leitores deste humilde blogue.

O vinil vive

DJs ainda usam os bolachões para embalar os que se aventuram nas pistas de dança. Brasil tem a única fábrica da América Latina

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

Falecido no último dia 27 de março, o multiartista pernambucano Lula Côrtes deixou em seu legado o mais raro e mais caro vinil do Brasil: Paêbirú, disco duplo com duplo acento que dividiu com o paraibano Zé Ramalho em 1975. A gravadora Rozenblit, de Recife, responsável pelo lançamento da obra-prima que inauguraria a psicodelia brasileira, ficava às margens do Capibaribe e naquele ano uma enchente levou a maioria das cópias: sobraram apenas cerca de 300, hoje disputadas a tapas e a preço de ouro em sebos Brasil e mundo afora – chega a custar 5 mil reais.

Uma edição em cd chegou a ser lançada por um obscuro selo alemão, sem o mesmo charme. O disco duplo tem seus lados representados por elementos da natureza: terra, água, fogo, ar. É facilmente encontrado para download na internet. Mas o bom e velho vinil ainda exerce fascínio – e isso não é privilégio de Paêbirú.

Vinis de valor – Há vários discos bem valorizados, em lojas físicas ou virtuais, além de colecionadores que comercializam os velhos bolachões. “Entre os brasileiros eu citaria o Racional, de Tim Maia, e os discos de Dom Salvador. Os mais caros que comprei foram de Willie Lindo e de um baixista jamaicano chamado Loyd Parks. Custaram cerca de 300 reais, cada”, afrma o DJ Joaquim Ferreira, da Rádio Zion.

Joaquim, 47, coleciona vinis desde os 16 anos, um hobby que virou “profissão”: ele discoteca há 18 anos.

“A minha opção pelo vinil é a paixão pela música antiga produzida no Brasil e no mundo. De velhos nomes da música popular brasileira temos dificuldade em conseguir bons discos em CD. Em geral as gravadoras não têm mais interesse em lançar este material”, continua.

As agulhas são, para ele, um material de trabalho precioso: Joaquim não usa CDs em suas discotecagens – nem ninguém da Rádio Zion, coletivo de DJs integrado por ele, Marcus Vinicius e outros.

Franklin Santos usa CDs. Mas só quando não encontra vinis. “É uma dificuldade encontrar tudo que se quer em vinil, às vezes é preciso recorrer ao CD. Mas quando tenho o material em vinil, ele é a prioridade. Vinil sempre!”, entusiasma-se. Sua paixão é tanta que carrega tatuado em si um toca-discos.

Jornalista, professor universitário e DJ, Pedro Sobrinho usa CDs mais comumente: “Mas usar os vinis de vez em quando é trabalhar com um artigo de luxo”.

Ele e Franklin concordam em relação às vantagens do CD: a portabilidade, o peso reduzido e a possibilidade de gravação de compilações específicas, para serem usadas em determinadas ocasiões. “Por outro lado, o som do vinil, quando tocado em um equipamento decente é infinitamente melhor que o CD. Além das capas e encartes, maiores e mais bem trabalhados”, comenta Franklin.

Coleções – “A última vez que eu contei, tinha cerca de 4 mil vinis, entre LPs, EPs e compactos. Mas só tenho coisas que me interessam, nenhum disco está ali só para ocupar espaço”, Joaquim Ferreira contabiliza sua coleção. A de Franklin é menor, mas nada desprezível: cerca de 1.500 vinis. Da coleção de Pedro Sobrinho o mais raro é o disco do Bumba meu boi de Pindaré, com a toada Urrou do boi, de Coxinho, que depois seria alçada à condição de “Hino do Folclore do Maranhão” por lei estadual. “Existe obra prima mais rara na música popular brasileira?”, indaga-se, acerca da controversa faixa – Bartolomeu dos Santos, o Coxinho, falecido há 20 anos, nunca recebeu um centavo de direitos autorais.

Onde comprar – Eles dão o caminho das pedras para outros colecionadores: compram tanto em sebos em São Luís quanto fora, em viagens ou pela internet. “Hoje ligo para meus fornecedores, que se tornaram amigos”, conta Franklin. Joaquim recomenda sites como o nacional Mercado Livre e os estrangeiros ebreggae, vpreggae e reggae record. “Apesar do reggae dos nomes dos sites, é possível encontrar discos de funk, soul, jazz, rock e até mesmo música brasileira”, afirma.

Em São Luís os pontos de “pescaria de pérolas” são comuns: a banca do Adriano (João Paulo), a de Seu Domingos (Praça Deodoro) e os sebos Poeme-se (Praia Grande), Chico Discos (Afogados, Centro) e Papiros do Egito (Sete de Setembro, Centro).

Francisco de Assis, o Chiquinho, proprietário do Chico Discos, não consegue contabilizar a quantidade de vinis vendidos: “Não há uma média. Há dias em que não se vende nada, mas tem dias que um colecionador chega aqui e sai com 20, 30 vinis debaixo do braço. Varia muito”.

“Não chega a 80 por semana”, Moema Alvim faz a mesma conta. A professora universitária aposentada abriu o Papiros do Egito como um hobby há mais de 20 anos. Por lá os vinis mais caros são os de reggae e merengue, com preços semelhantes aos de uma raridade como um vinil de Violeta Parra, autora de Gracias a la vida, que pode ser levado por 30 reais.

A fábrica – Sediada em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, a Polysom é a única fábrica de vinil da América Latina. A empresa iniciou suas atividades em maio de 1999. Depois fechou as portas, por conta de uma série de dificuldades – pouca demanda, cancelamentos de pedidos, dívidas – sendo reaberta em 2008, após ser adquirida e reformulada por sócios da Deckdisc, seus atuais proprietários.

“Quando topamos entrar nessa verdadeira cruzada que foi a reativação da Polysom, não tínhamos muita ideia do quanto o vinil ainda era cultuado. Agora, a sensação é que o formato acordou de repente. Todo mundo fala em vinil e, ao que tudo indica, todo mundo quer vinil”, arrisca João Augusto, um de seus fundadores.

A Polysom pode ser conhecida em seu site e interessados podem ficar por dentro de suas novidades nas atualizações do twitter. Os vinis fabricados por ela podem ser adquiridos na loja virtual Sete Polegadas, alusão a uma das medidas dos discos (LPs têm 12 polegadas). Lá são encontrados nomes como Secos & Molhados, Chico Science & Nação Zumbi, Tom Zé, Ultraje a Rigor, Titãs, Rita Lee, Jorge Ben, Fernanda Takai, Pitty e Cachorro Grande. Mesmo com o frete grátis, o preço é, ainda, salgado: os compactos custam, em média, 30 reais; LPs podem chegar a 85.

O leque deverá ser ampliado: algumas gravadoras têm demonstrado interesse em relançar em vinil títulos de seus catálogos. “Estamos falando de um catálogo infindável de discos inesquecíveis”, afirma João Augusto. E arremata: “Vou me emocionar muito no dia em que a Polysom produzir os discos do Rei, Roberto Carlos”.

Fora do Brasil nomes como White Stripes, Arctic Monkeys, Radiohead, Foo Fighters e Beach Boys recentemente lançaram trabalhos em vinil.

Pérolas e esmeraldas – Alguns vinis têm a sorte de ganhar reedição em cd. Tornam-se conhecidos da meninada mais nova, antenada. Mas logo voltam ao ostracismo, as tiragens, em geral, pequenas. No começo dos anos 2000 o então baterista dos Titãs Charles Gavin deu início a um árduo trabalho de pesquisa que recolocou diversos títulos brasileiros de primeira importância nas prateleiras das lojas de discos país afora. Raridades como Todos os olhos e Se o caso é chorar, de Tom Zé, Revólver e Ou não, de Walter Franco, Novos Baianos F. C., dos Novos Baianos, além de títulos de Carlos Daffé, Belchior, Guilherme Arantes e muitos outros. Dois vinis em um cd, com reproduções dos encartes e textos de críticos, contextualizando os trabalhos.

Outros discos não têm a mesma sorte, caso da passagem do compositor Chico Maranhão pela gravadora Marcus Pereira, que lançou, entre outros, nomes como Cartola, Papete, Diana Pequeno e Canhoto da Paraíba. De Maranhão, discos como Gabriela (1974), Lances de agora (1978) e Fonte nova (1980), além da estreia dividida com Renato Teixeira, em 1969, ainda anseiam chegar à era digital.

Jorge Benjor irá refazer, ao vivo, o disco Tábua de esmeraldas (1974). Tido por muitos como o melhor disco de sua carreira, é o último em que Benjor – à época apenas Ben – se acompanha tocando violão, instrumento que trocaria pela guitarra. A ideia de regravá-lo em show partiu de um fã, que criou um perfil no site de relacionamentos Facebook pedindo por isso. Ganhou em pouco tempo mais de cinco mil seguidores e convenceu o autor de Os alquimistas estão chegando os alquimistas à empreitada. Não se sabe ainda se o registro ao vivo será lançado em vinil, CD ou em ambos.

Mais

Em busca do vinil
Onde encontrar vinis em São Luís

Banca do Adriano (João Paulo).
Banca do Seu Domingos (Praça Deodoro, ao lado da Biblioteca Pública Benedito Leite).
Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande – (98) 3232-4068)
Papiros do Egito (Rua Sete de Setembro, Centro – (98) 3231-0910).
Chico Discos (Rua dos Afogados, 384-A, altos, Centro – (98) 8812-3433).
 
Raros
Um pouco mais sobre alguns discos raros citados ao longo da matéria

Paêbirú (1975) – Zé Ramalho e Lula Côrtes: Experiência psicodélica nordestina em disco duplo. Tornou-se raridade após uma enchente em Recife levar quase toda a tiragem embora. Sobraram apenas cerca de 300 exemplares – nascia o mito.

Racional (1975; um segundo volume foi laçado no ano seguinte) – Tim Maia: Disco renegado em vida por seu autor, Racional fez a cabeça de muito músico brasileiro. Tim descobriu-se alvo de picaretagem (pelo líder da seita Racional Superior) e até falecer, em 1998, não autorizou reedições do disco. Relançado pela Trama, trouxe CD extra que imitava os chiados do vinil. Atualmente 15 discos do “síndico” são vendidos em coleção que chegará semanalmente às bancas de revistas. O brinde é um inédito Racional Volume 3 para quem comprar a coleção completa.

Lances de agora (1978) – Chico Maranhão: Gravado em quatro dias na sacristia da Igreja do Desterro, no Centro Histórico de São Luís. Como os outros títulos do compositor maranhense na gravadora Marcus Pereira, Lances de agora amarga o ineditismo em formato digital.

[O Imparcial, 5/5/2011]