Fontes, São Luís, 1948. Foto: Pierre Verger. Folha de rosto de Éguas! Reprodução
Novo livro do poeta Dyl Pires, Éguas! [Pitomba!, 2017, 60 p.; R$ 20,00] é completamente distinto do Poema Sujo de Ferreira Gullar, mas é impossível não associá-los, longe de querer cair na comparação preguiçosa de que aquele é o Poema Sujo do século XXI ou coisa que o valha. Neste sentido são absolutamente distintos.
O Poema Sujo foi escrito ao longo de cinco meses em Buenos Aires, Argentina. Éguas! levou pouco menos de um mês, durante um período de férias do autor em São Luís, evocando a Ilha de sua infância e adolescência. Num e noutro a ilha pulsa, viva.
Ambos têm São Luís como cenário-personagem e foram escritos durante o exílio: forçado, no caso de Gullar, perseguido pela ditadura militar; voluntário, no caso de Dyl, radicado há quase década em São Paulo. Publicados em livro, ambos parecem ter sido feitos para a declamação em voz alta e têm a leitura em seu nascedouro.
O Poema Sujo chegou ao Brasil em uma fita k7 com a voz de Gullar e foi apresentado a um seleto grupo pelo diplomata Vinicius de Moraes. Antes de ser publicado Éguas! teve leituras em rodas de amigos e gente interessada em poesia, ocasiões em que o autor colheu e incorporou sugestões – experiência seguida também pelo editor Bruno Azevêdo, cujo work in progress exposto nas redes sociais também acatou sugestões ao resultado final do bonito projeto gráfico, um padrão de sua editora, ouso dizer.
Ao longo da última semana, já com a obra em mãos, sua voz e visão originais materializadas em papel, Dyl Pires realizou diversas leituras, espécies de avant-premières da noite de autógrafos que faz hoje (8), às 19h, no Chico Discos (Rua dos Afogados, 289-A, altos, Centro) – com Samarone Marinho, que lança Ser quando.
Tipicamente maranhense a expressão que dá título ao livro é “uma interjeição, um anúncio de que o extraordinário irrompeu no cotidiano”, anota Matheus Gato em “A dor real é ser ilha”, espécie de posfácio (cujo título é um verso) do livro-poema. De espanto a interjeição se reconfigura em admiração, quando descobrimos estar diante do melhor livro de Dyl Pires, flanando com o autor por ruas, culturas, episódios, gente viva e saudosa que homenageia.
“dizer do si mesmo da cidade que está em/ Cláudio Costa/ Mondego/ Binho Dushinka/ Jesus Santos/ como um grito primitivo do sonho”, erige o poema-monumento aos vivos, tributando também quem já se foi: “escorrem pelas carrancas da Fonte do Ribeirão/ servindo-se daquelas máscaras/ para se reapresentarem à ilha/ são eles/ João Alexandrino/ Padre Mohana/ Cipriana/ João do Vale/ Reinaldo Faray/ Valdelino Cécio/ Pierre Barroso/ Beto Bittencourt/ Cristóvão Alô Brasil/ Lopes Bogea/ Ambrósio Amorim/ Serginho Fontenele/ Zuza/ Wagner Alhadef/ Roberto Lameiras/ Jorge Babalaô/ Lauro Leite/ Rosclim/ Rui/ Carioca/ Terezinha de Jesus Rodrigues/ Eliane Ribeiro/ Terezinha Jansen/ Josemar/ Antônio Vieira/ Mestre Felipe/ Dona Teté/ Nelson Brito/ Rafael Bavaresco/ Marco Cruz/ Faustina/ Michol/ César Maranhão/ Mestre Leonardo/ Mestre Apolônio/ Fidel/ Seu Adalberto/ Moema/ Jackson Pires/ Ubiratan Teixeira/ Magno Aires/ Omar Cutrim/ Humberto do Maracanã/ José Chagas/ Herbeth Fontenele/ Nauro Machado/ Guilherme Teles/ Norberto Fabian Castellano/ Ana Duarte/ Lara Sena/ Ângela Gullar/ Aldo Leite/ Ferreira Gullar”, perdas sentidas pelo poeta e pela cidade-musa.
Imediatamente à frente anota: “as ausências são o lugar/ de onde melhor ainda se vê o futuro”. Com seu olhar de turista-estrangeiro-exilado, Dyl Pires afasta o risco de qualquer pieguice que acomete grande parte das obras de arte que se arriscam a cantar a cidade.
Dyl Pires eterniza momentos fugazes em seu livro-poema, como quando narra: “Dylson Bessa Junior/ endiabrado em sua cadeira de rodas/ desceu a Rua do Egito chutado/ como se quisesse fazer do perigo/ um cardume de morte e ressurreição/ e esquentar a primeira estrela vista aquela noite/ as mãos que o empurravam negociavam/ o arame farpado da fé com o destino/ naquela noite todos foram dormir em paz/ embora tenham sonhado com o céu/ de escuras estrelas das axilas de deus/ hoje de pensar dá medo”.
Seu personagem tornado criança, sem noção do perigo na Rua do Egito, dialoga com as crianças na Rua de Nazaré em uma fotografia de Pierre Verger de 1948 que ilustra o volume – a outra imagem do francês mostra crianças brincando na Fonte do Ribeirão. Talvez ser poeta signifique justamente isso: voltar a ser criança e, portanto, à capacidade de espanto. Por essas e outras, Éguas! já nasce clássico.
O poeta e o gato a quem dedicou o livro Um gato chamado Gatinho. Foto: Ana Carolina Fernandes/ Folhapress
“Um vento velho e urgente/ sobrevoa a tarde que embala/ o rio Bacanga em São Luís do Maranhão/ um vento, um pedaço dele, um susto, um sopro, um barulho,/ passa sobre mim e desarruma os cabelos/ que penteei em casa hoje de manhã cedo/ em frente ao espelho, testemunha do meu zelo inútil/ Enquanto isso, na Academia Maranhense de Letras/ velam o que sobrou do poeta Ferreira Gullar”.
Com ecos de Uma fotografia aérea, o poeta Celso Borges escreveu o poema acima em 2001. Gullar post mortem foi publicado em seu livro-disco Belle Epoque, lançado em 2010 no Cine Praia Grande, com show do autor, acompanhado da banda Restos Inúteis. Ao fim do poema, uma vela acesa no palco, a voz de Gullar ecoava, recitando trechos de Notícia da morte de Alberto Silva, outro poema de Dentro da noite veloz: “Eis aqui o morto/ chegado a bom porto/ Eis aqui o morto/ como um rei deposto/ (…)/ De barba feita, cabelo penteado/ jamais esteve tão bem arrumado/ (…)/ Enfim este é o morto/ agora homem completo:/ só carne e esqueleto/ Enfim este é o morto/ totalmente presente:/ unha, cabelo, dente”. A gravação está no sublime Antologia poética, em que Gullar é acompanhado por Nivaldo Ornelas e Egberto Gismonti.
Naquela noite de autógrafos, o próprio Celso Borges contou a ocasião em que escreveu o poema: “Novembro de 2001. Este é o cenário: estou sentado diante da televisão, ligo a TV e olho de frente o poeta Ferreira Gullar, abrindo o programa político do Partido da Frente Liberal [o então PFL, hoje Democratas, tinha à época a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney – hoje no PMDB – como pré-candidata à presidência da República]. Ele dizia: “ela pertence a uma nova geração de políticos, não só por ser mulher, então ela está se colocando diante do país como uma mulher que tem a capacidade de administrar a coisa pública, mas ela é de uma outra geração, de uma outra experiência de vida, de uma outra experiência social, e é o que a gente percebe, que é uma geração que não vem à procura de usar o Estado em seu benefício, que é uma geração com o sentido social de interesse público”. Levanto, desligo a televisão e escrevo este poema”, contou.
O poema de Celso Borges revela, antes de tudo, sua admiração por Ferreira Gullar (10/9/1930-4/12/2016), cujo Poema sujo [1975] acabou por empurrá-lo para a poesia. Ex-militante do PCB, o hoje imortal da Academia Brasileira de Letras acabou dando, nos últimos anos de vida, uma guinada à direita. Prova disso foi a coluna dominical que manteve desde 2004 na Folha de S. Paulo, desde sempre uma trincheira anti-Dilma (de quem foi contra o impeachment), anti-Lula, anti-PT, anti-esquerda. Particularmente incluí-o no rol de artistas de que era preciso separar vida e obra para não cair no ódio burro e cego das “pessoas de bem” que boicotaram Aquarius [filme de Kléber Mendonça Filho] por recomendação de outro jornalista de direita.
Resumindo: independentemente de suas opções ideológicas, Gullar fez grande poesia até falecer, hoje (4), no Rio de Janeiro, onde vivia desde os anos 1950. Foi merecedor de todos os prêmios e honrarias com que foi laureado em vida – e com que certamente continuará sendo a partir de agora. Chamá-lo simplesmente poeta é insuficiente, tamanha foi sua importância no campo das artes no Brasil: além de poeta, foi crítico de arte, ensaísta, cronista, dramaturgo, tradutor, artista visual, letrista de música popular. É dele a voz que narra Cabra marcado pra morrer [1984], filme de Eduardo Coutinho batizado por poema seu. A película foi perseguida pela ditadura militar – como seu locutor – e só foi finalizada 21 anos após seu início.
Na música, fundamental para tornar sua obra mais popular, foi parceiro de Heitor Villa-Lobos [O trenzinho do caipira, trecho do Poema sujo cuja Bachianas brasileiras nº. 2 ditava o ritmo da leitura], Milton Nascimento [Meu veneno, Bela, bela], Fagner [Traduzir-se, Contigo, Me leve (Cantiga para não morrer)], Caetano Veloso [Onde andarás?], Paulinho da Viola [Solução de vida (Molejo dialético)] e Moacyr Luz [Poema obsceno], entre outros. Seu maior êxito é Borbulhas de amor (Tenho um coração), sua versão para Borbujas de amor, do dominicano Juan Luis Guerra.
Recentemente reli o Poema sujo, por ocasião do lançamento (na última quarta-feira, 30/11) de Visões de um Poema sujo [2016], a última grande homenagem a Gullar em vida: uma releitura fotográfica de Márcio Vasconcelos para o livro que muitos consideram a obra maior do poeta – em janeiro o fotógrafo inaugura exposição em São Paulo. Encontrei um trecho em que ele cita a Rádio Timbira, onde atualmente, com a queridamiga Gisa Franco, produzo e apresento o Balaio Cultural – Márcio e Celso Borges foram os entrevistados do programa na última terça-feira (29/11).
O trecho diz: “(Se tivesse me casado com Maria de Lourdes,/ meus filhos seriam dourados uns, outros/ morenos de olhos verdes/ e eu terminaria deputado e membro/ da Academia Maranhense de Letras;/ se tivesse me casado com Marília,/ teria me suicidado na discoteca da Rádio Timbira)”. Celso Borges imediatamente lembrou que Gullar havia sido locutor da rádio, antes de ir embora de São Luís, de onde foi demitido por ter se negado a ler um editorial contra determinada greve.
Era atualmente o nome mais importante da poesia de língua portuguesa no mundo. Sua morte deixa um vazio impreenchível. “Tu de nada suspeitas/ e te preparas para mais um dia no mundo./ Pode ser que de golpe/ ao abrires a janela para a esplêndida manhã/ te invada o temor:/ “um dia não mais estarei presente à festa da vida”./ Mas que pode a morte em face do céu azul?/ do escândalo do verão?”, escreveu em Morrer no Rio de Janeiro [2001].
“Mas sobretudo meu/ corpo/ nordestino/ mais que isso/ maranhense/ mais que isso/ sanluisense/ mais que isso/ ferreirense/ newtoniense/ alzirense/ meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres/ ao lado de uma padaria/ sob o signo de Virgo/ sob as balas do 24º. BC/ na revolução de 30/ e que desde então segue pulsando como um relógio/ num tic tac que não se ouve/ (senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)”, escreveu durante o exílio em Buenos Aires.
Antes, no mesmo Poema sujo: “Corpo meu corpo corpo/ que tem um nariz assim uma boca/ dois olhos/ e um certo jeito de sorrir/ de falar/ que minha mãe identifica como sendo de seu filho/ que meu filho identifica/ como sendo de seu pai/ corpo que se para de funcionar provoca/ um grave acontecimento na família:/ sem ele não há José Ribamar Ferreira/ não há Ferreira Gullar/ e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta/ estarão esquecidas para sempre”.
Vivo para sempre em sua obra monumental, Ferreira Gullar está morto – o Governo do Maranhão publicou nota de pesar e decretou luto oficial – e infelizmente não é apenas mais um poema.
Ouça Ferreira Gullar em Notícia da morte de Alberto da Silva:
Uma das fotografias de Visões de um Poema sujo. Márcio Vasconcelos
Quando Diógenes Moura desceu do táxi, na Praia Grande, de madrugada, deparou-se com o Poema sujo diante dos olhos, vivíssimo: “vi aquele homem agachado, despido, ali, sozinho, tornando públicas as suas entranhas antes de os dois bêbados me abordarem descendo ladeira abaixo e pedindo dinheiro porque precisavam de um pouco mais de loucura”, escreve em Carta número um para uma coisa de fato, seu texto em Visões de um Poema sujo [Vento Leste, 2016], uma carta a seu autor, Márcio Vasconcelos, no livro que ele lança hoje (30) – o terceiro em 2016 –, às 19h30, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, Centro).
“O homem está na cidade/ como uma coisa está em outra/ e a cidade está no homem/ que está em outra cidade”, anota o então exilado Ferreira Gullar no Poema sujo, escrito entre maio e outubro de 1975 em Buenos Aires, Argentina.
Cada homem ou mulher lê e percebe a cidade de modo diferente. Diógenes Moura, que assina a curadoria e concepção editorial de Visões de um Poema sujo, percebeu, após Márcio Vasconcelos vencer o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia em 2014, que ele já fotografava o Poema sujo há pelo menos 10 anos, expondo, como Gullar fez em versos, com o mesmo talento e olhar sensível, a beleza e a podridão – e nesta, a beleza – da cidade, do itinerário percorrido pelo poeta naquela que é considerada por muitos sua obra-prima.
A perspectiva de Márcio Vasconcelos é interessante: a algumas fotos realizadas antes de vingar a ideia de uma releitura fotográfica do Poema sujo, ele passou a imaginar-se exilado em Buenos Aires para fotografar a obra de Gullar. Este resenhista confessa: quando ouviu falar em Visões de um Poema sujo, antes de o livro existir, pensou tratar-se de uma espécie de Poema sujo ilustrado. Ainda bem que estava errado.
Não espere o leitor, portanto, uma tradução imagética da obra em versos. Quem leu o Poema sujo ora verá fotografias que remetem a determinados trechos do poema, ora se perguntará, talvez, por que determinada fotografia foi incluída no livro. A única constante no livro de Márcio Vasconcelos é a beleza, das imagens, cada uma por si e, obviamente, do conjunto – como o livro de Gullar, que teve trechos musicados e tem uns mais lembrados que outros, mas que é bonito por inteiro, mesmo quando chafurda no horrendo.
O poeta maranhense radicado no Rio de Janeiro prossegue: “mas variados são os modos/ como uma coisa/ está em outra coisa:/ o homem, por exemplo, não está na cidade/ como uma árvore está/ em qualquer outra/ nem como uma árvore/ está em qualquer uma de suas folhas/ (mesmo rolando longe dela)/ O homem não está na cidade/ como uma árvore está num livro/ quando um vento ali a folheia”.
Márcio Vasconcelos fotografa o livro-poema de Ferreira Gullar, mas uma chave de leitura errada, ou melhor, uma chave de olhar errado, é imaginar algum tipo de fidelidade entre as imagens e o poema, como minha crença inicial.
Visões de um Poema sujo. Capa. Reprodução
Visões de um Poema sujo é uma contribuição importante e, por que não dizer, poética, ao reconhecimento da força e atualidade do Poema sujo, recém-relançado pela Companhia das Letras [2016, 112 p.], “livro que é um dos mais importantes da língua portuguesa da segunda metade do século XX”, conforme atesta o poeta e jornalista Celso Borges em Outra cidade e a mesma, o outro texto do livro de Márcio Vasconcelos.
“Há um relâmpago nos versos gullarianos, mesmo quando ele fala do lado obscuro da cidade, sua lama e podridão, seus cheiros e mangues. O fotógrafo procura e desnuda essa sujeira luminosa”, prossegue Celso Borges, para arrematar: “Algo permanece eterno, independentemente do tempo. Este o milagre: reencontrá-la e reinventá-la”.
Márcio Vasconcelos confessa uma de suas intenções ao realizar Visões de um Poema sujo – título também da exposição com que ganhou o Marc Ferrez: chamar novamente as atenções para o poema de Gullar, deixando livres os sentidos dos leitores para suas próprias interpretações.
É Gullar quem arremata: “cada coisa está em outra/ de sua própria maneira/ e de maneira distinta/ de como está em si mesma// a cidade não está no homem/ do mesmo modo que em suas/ quitandas praças e ruas”.
Os poetas Heyk Pimenta e Josoaldo Lima Rêgo. Foto: Zema Ribeiro
Os poetas Josoaldo Lima Rêgo e Heyk Pimenta lançam amanhã (12), às 19h, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM), em São Luís, seus novos livros de poesia, Carcaça [2016, 127 p.] e A serpentina nunca se desenrola até o fim [2015, 71 p.], respectivamente, ambos pela carioca 7Letras, uma das mais conceituadas quando o assunto é poesia contemporânea brasileira.
A serpentina nunca se desenrola até o fim. Capa. Reprodução
Josoaldo e Heyk são dois estetas e o par de livros dialoga, desde as capas, a primeira de Diego Dourado, a segunda reproduzindo o Mare fecundatalis, de Augusto Meneghin, envolvendo bons poemas, feitos de paisagens e experiências, reflexos de suas andanças pelo mundo.
Graduado em Ciências Sociais com mestrado em Letras, Heyk é mineiro radicado no Rio de Janeiro, após passagens por São Paulo, Rio Grande do Sul e o casamento com uma maranhense – ele aproveita o lançamento em São Luís para apresentar Zoé, seu primeiro filho, à família da esposa. Geografia também é o forte de Josoaldo, professor do curso na Universidade Federal do Maranhão.
Em Penso agora em como vamos nos virar, Heyk relembra a descoberta da gravidez: “nossos olhos são de gato marianna/ e andamos mexemos/ por dentro das bocas de bicho/ que nos demos”, diz. E prossegue: “agora volto sem nada da rua nenhum golpe brotou/ gastei nosso dinheiro e espalhei/ nossos planos/ amanhã não vai ser melhor o despertador/ mostrará nossas cuecas penduradas na porta/ e dirá eu sei, mas não resta saída crianças”.
Carcaça. Capa. Reprodução
A paisagem de Josoaldo é mais árida, não menos poética, espaço onde brota, no plural, o resto animal que dá nome a seu conjunto de poemas. O maranhense mergulha fundo na violência do interior do Pará e do Maranhão, sobretudo no campo. Bons exemplos os poemas Eusébio e Nos baixões de Altamira, cuja íntegra transcrevo a seguir.
“eusébio cai morto, tomba da moto no alto turiaçu./ dois tiros trespassam o peito e arrebentam a/ pulseira de jaguar. susto – a perspectiva do salto,/ um sentido amplo e feroz de morte estoura na/ cara do índio. a camisa suja de terra suja de/ sangue e gasolina. o barulho dentro do clarão/ noturno. a moto segue por alguns metros,/ sozinha, depois arrola o metal na mata. um rio/ morre assim, eusébio, com pólvora e razão nas/ entranhas”, diz o que homenageia o kaapor assassinado a tiros em Santa Luzia do Paruá em abril de 2015.
“em altamira/pa/ raimundo nonato decide/ matar o tempo:/ dança no escuro/ e arranca 4 dentes à foice/ sem paz/ ao som duma turbina/ de hidroelétrica”, diz o poema cru/el e político sobre a violência que permeia megaprojetos como a usina de Belo Monte, encravada no Rio Xingu, próximo a Altamira.
O lançamento no MHAM terá apresentação do grupo Ninfas Equatoriais, que acompanhará os poetas Josoaldo Lima Rêgo e Heyk Pimenta na leitura de poemas dos livros, com microfone aberto a quem quiser participar.
Canções de roda nos pés da noite. Capa. Reprodução
Canções de roda nos pés da noite [Contracapa, 2016, 160 p.] é uma das provas possíveis – e não são poucos os exemplos – de que poetas sobrevivem à morte física. Trata-se do primeiro livro póstumo de Nauro Machado, falecido aos 80 anos em 28 de novembro do ano passado.
Nauro deixou organizados cinco livros inéditos e manifestou a ordem em que os que ficaram deveriam fazê-lo: o primeiro é este Canções de roda nos pés da noite.
Dedicado às netas Júlia e Luiza, filhas do filho único Frederico Machado – ao lado da mãe, Arlete Nogueira da Cruz, responsável pelas últimas publicações do pai em vida, tornado, com seu falecimento, curador do que Nauro deixou na gaveta –, o subtítulo “Poemas infantis” pode enganar leitores incautos.
Não que Nauro seja hermético – pecha que sempre afastou leitores de sua obra –, mas não é exatamente um livro para crianças. A família, a morte e Deus são temas constantes ao longo dos poemas, ilustrados por fotografias de Márcio Vasconcelos, retratando lugares por onde o poeta costumava flanar, grande prazer que tinha em sua cidade natal.
Em Berçário, o maior poema, que ocupa seis páginas do volume, um bom exemplo: “Minha mãe cega,/ enfim vê tudo/ que Deus revela,/ falando mudo”, finaliza.
É um conjunto bonito e coerente, do feitio de Nauro. O herdeiro prometeu, além de retirar os inéditos da gaveta, como era vontade de seu pai, reeditar os cerca de 40 volumes de sua obra poética. Leitores e admiradores de sua poesia aguardam ansiosos.
Canções de roda nos pés da noite será lançado hoje (2), data em que Nauro Machado completaria 81 anos. Na ocasião, a Academia Maranhense de Letras (AML, Rua da Paz, 84, Centro), que sediará o evento, relançará Erasmo Dias e noites, obra em prosa, misto de ensaio e memória, do autor, sobre o amigo e também escritor e boêmio Erasmo Dias.
Na ocasião, às 19h, a Coteatro apresentará o recital O operário da palavra, baseado em poemas de Nauro Machado, sob direção de Tácito Borralho, apoio técnico de Abel Lopes, com Luciano Ferrgar, Magno Abreu, Rogério Vaz, Cristian Ericeira, Raimundo Reis, Murilo Santos e James Louzeiro. A entrada é gratuita.
Os párias Raimundo Garrone, Ademar Danilo e Marcello Chalvinski conversaram com o Homem de vícios antigos no Cafofo da Tia Dica. Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)
“Não confio em ninguém com mais de 30”, diz o hit dos Titãs. 2016 marca os 30 anos da publicação da primeira edição da revista Uns & Outros, que ao longo de oito exemplares veiculou os poetas da Akademia dos Párias.
O nome do grupo trazia em si uma provocação: colocava os párias, isto é, a ralé, num local sagrado, a academia – referiam-se provocativamente à Academia Maranhense de Letras (AML). Na outra academia, a Universidade Federal do Maranhão, exercitavam a liberdade, a maioria deles no curso de Comunicação Social.
A Akademia dos Párias congregou, ao redor de poesia, álcool e drogas um estilo de vida que acabou por devolver à cidade de São Luís o status de cidade de poetas – para além do modorrento título, sempre contestável, de Athenas brasileira.
Jovens estudantes, alguns já formados, tomavam de assalto bares com seus recitais caóticos –porém sinceros. Os 30 anos da revista e, portanto, do grupo que a publicava, serão celebrados amanhã (19), a partir das 19h, na Livraria Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande), com o lançamento de A poesia atravessa a rua, antologia que reúne 25 poetas publicados nos oito números da Uns & Outros.
No Cafofo da Tia Dica (por detrás da Poeme-se), Homem de vícios antigos conversou com os jornalistas Ademar Danilo e Raimundo Garrone e o publicitário Marcello Chalvinski, representantes de duas gerações (ou dentições) da Akademia dos Párias, todos poetas – ao menos em algum momento da vida –, todos publicados na Uns & Outros.
Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)
Vocês abandonaram a poesia? Raimundo Garrone – Eu continuo escrevendo, mas não publico. Ademar Danilo – Eu me embruteci. O jornalismo me tirou da poesia. Marcello Chalvinski – Eu publiquei três livros de poesia [Anjo na fauna, Temporal e Dom Juan] e o romance O plano [Prêmio Literário Gonçalves Dias da então Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, 2008], e já estou com outro [de poesia] para publicar.
Garrone, um dia alguém vai achar inéditos em tua gaveta. Garrone – Como aquela poeta americana, Emily Dickinson. Não é que eu queira ser póstumo, não. Poeta é quem se considera. Ademar –“Inverno, primavera/ poeta é quem se considera”. Garrone – Zeca [Baleiro] musicou [o poema de Paulo Leminski de cujo trecho Ademar lembrou]. Uma das coisas que me chamou muita atenção foi uma entrevista atribuída a Ferreira Gullar na qual ele diz que quando alguém o chama de poeta, ele diz ter vontade de responder “poeta é a mãe!”. Acaba sendo um xingamento, enxergam o poeta como aquela pessoa complacente, aquela pessoa no mundo da lua, ainda é uma ideia que se tem.
Poeta acaba sendo uma espécie de mestre ou compadre, aqui em São Luís é uma saudação. Muita gente aqui se aventurou de algum modo na poesia. Marcello – Uma coisa interessante no Fernando Abreu é que, uma vez ele me disse, ele sabia que ia ser poeta desde que nasceu. Ele já tinha essa noção. Tem uma coisa que eu gosto de registrar: mais ou menos quando eu conheci essa turma, no final da década de 1980, acho até que foi Fabreu quem me falou, sobre a questão da verdade que a poesia precisa ter. Poesia só é poesia se ela tiver verdade, se ela tiver vivência, essa coisa intrínseca. Já na década de 90 eu tive outra constatação de que a poesia, na verdade, é uma forma de viver. O que se registra no livro são poemas, a poesia é a forma de viver dos poetas. Eu continuo publicando, alguém já disse que sucesso e fracasso são iguais, os dois são ilusões. Pra mim importa fazer, produzir, viver dessa forma: a poesia como jeito de ser, existir e perceber as coisas. O que sobra desse filtro é que vai ser o poema, aquilo que sobra, o que a cachaça não apaga e a noite não elimina da memória. Garrone – Um detalhe importante em relação aos párias é que os párias não eram um movimento literário, mas uma forma comportamental, seja pelo ambiente político da abertura [o processo de redemocratização brasileiro, após 21 anos de ditadura militar], muitos de nós começamos a conviver na universidade, que vivia com a cabeça muito fechada em função do regime. Ademar – Foi importantíssimo para aquela época. Nós, de certa forma, resgatamos a poesia para o dia a dia da cidade. Nós declamávamos, nós vendíamos revistas, nós tínhamos uma presença poética na cidade. Marcello – Não era só escrever e publicar. Tinha os recitais, os párias, performances.
Esta mesa tem duas gerações da Akademia dos Párias. Deste lado a primeira geração, fundadora, e deste a segunda dentição, com Marcello, mais novo. Como é que vocês se conheceram e chegaram à Akademia? Garrone – A UFMA foi um catalisador. Marcello – Quando eu conheci a turma estava saindo o “quinto dos infernos” [a quinta edição da revista Uns & outros], Fabreu já tinha me convidado, mas eu não entreguei os poemas. Garrone – Existiam uns bares que eram referência. Por exemplo, no beco do teatro tinha um bar que a gente sabia que só dava artista. Então a gente ia pros bares sabendo que íamos encontrar. Marcello – E rolava recital. Não era uma poesia só textual, só escrita, só impressa. Era uma poesia que era feita nos bares, subíamos nas mesas e começávamos a recitar. Ademar – A gente vivia isso.
Marcello, o que te trouxe à São Luís? Marcello – Eu sou de Curitiba, tenho uma vida errática. Eu viajei, por 10 anos eu fiquei viajando o Brasil, com o trabalho que eu fazia, com cartografia, e escolhi um lugar para ficar. Eu gosto muito das pessoas daqui.
Vocês se conheceram na UFMA no curso de comunicação? Ademar – Eu fazia Direito. Nós [ele e Garrone] éramos vizinhos. Os maus hábitos nos aproximaram. Garrone – Aos 50 não se fala em vícios, se fala em hábitos [risos]. Marcello – Acho que no princípio toda a turma, a primeira dentição, era quase totalmente formada por estudantes da UFMA. A segunda dentição, ZéMaria Medeiros, Joe Rosa, eu mesmo, ninguém era aluno da UFMA. Garrone – O Comunicarte [tradicional encontro promovido pelos cursos de Comunicação Social e Artes] tinha feito um impresso, com vários poetas, e nós resolvemos fazer a Uns & outros. Ela foi um embrião, a partir dali a gente se aproximou mais, fosse para mostrar que todo mundo podia fazer poesia, por que aqui em São Luís tem aquela coisa da tradição. Ademar – Nós tivemos um incentivo muito grande do pessoal do Guarnicê [suplemento então encartado no jornal O Estado do Maranhão, depois uma revista independente], que eram Celso Borges, Joaquim Haickel, [Roberto] Kenard, Paulinho. Eram jovens, mas já casados, já tinham terminado os cursos, e nos acolheram. A palavra é essa: o pessoal do Guarnicê acolheu os párias. Ajudavam a gente a imprimir, eles já trabalhavam, Celso já era casado, Joaquim já era deputado, eles ajudavam. Era uma geração acima da gente. Garrone – Naquela época não havia internet, os jornais circulavam bastante e você via ali, no domingo, aquele encarte, num jornal oficial, da família [Sarney, proprietária do Sistema Mirante de Comunicação], mas tinha algo diferente. Ousado, digamos assim. Isso acabou.
Afora a poesia o que vocês destacariam como elementos de interesse comum? Ademar – Nós tínhamos estilos de vida parecidos. A maior parte de nós tinha militância estudantil, pensava coisas semelhantes, frequentava lugares semelhantes. Eu levei todo mundo pro reggae, todo mundo virou regueiro. Marcello – Todo mundo progressista, libertário e doido. Garrone – Havia também uma identificação com a geração beat, a coisa do pé na estrada. Eu e esse aqui [Ademar], a gente tem várias histórias de estrada [risos].
Qual foi a repercussão da primeira Uns & outros? Foi uma coisa pensada ou foi uma coisa meio “vamos reunir quem está escrevendo e ver no que é que dá”? Como é que foi isso? Garrone – Já tinha essa base do jornal do Comunicarte. O que deu repercussão foi o lançamento, no Sapecas Bar [hoje extinto; na Rua das Flores, por detrás da Igreja de São João]. Pegávamos as revistas, todo mundo liso, e entrávamos nas salas de aula [na UFMA], pedíamos licença e entrávamos, recitávamos. Marcello – A gente foi pra UFPA em 1993. Ademar – Nós não achávamos que era uma coisa assim à toa. Nós já tínhamos inserção na sociedade. Naquele tempo eu já trabalhava em rádio, todos nós fazíamos movimento estudantil, nós tínhamos presença na universidade, presença na sociedade. A gente sabia que aquilo ia repercutir. O que a gente não tinha era uma estratégia de marketing pensada, mas a gente não fez à toa. A gente fez sabendo que era possível fazer. Era uma revista de-vez-em-quandal. Garrone – Saia mais ou menos de seis em seis meses. Marcello – Uma coisa que eu acho importante que se diga dos párias é que quando íamos fazer um recital eram poemas autorais, próprios, e muitas vezes de improviso. Diferente de outros que faziam leituras de poemas, vão ler Drummond, poemas já… [interrompe-se]. Com a gente, de vez em quando rolava um Baudelaire, um Launtréamont, mas a maioria eram poemas nossos. Garrone – Os nossos recitais eram junkies mesmo. Tinha gente que batia palma e tinha gente que vaiava, jogavam copos, nós acontecíamos. Marcello – Eu me lembro do Beco Cultural, a gente botou umas mesas no palco e ficou o microfone ali, a gente bebendo em cima do palco, de vez em quando um levantava, com seus papéis ou não, recitava um poema e as coisas iam fluindo. Assim eram as apresentações dos párias. Garrone – Todos bêbados!
Uma coisa menos comportada. Era um grogue ao vivo. Garrone – Era um grogue. Ademar – O pouco que lembramos era assim [gargalhadas gerais]. Garrone – O Diário Oficial [do Estado do Maranhão], quando era publicado no Sioge [o Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, hoje extinto], ele tinha um encarte cultural, era Alberico [Carneiro Filho, escritor e professor] que era o editor. Ele ia fazer, nós já tínhamos publicado a última revista, eu era editor de cultura de O Imparcial, e não sei por que cargas d’água, ele quis convidar os párias para fazer um recital lá no Sioge, nessa festa. Lá estavam Jomar [Moraes, escritor, membro da AML], a academia. Foi um escândalo! Ademar – Diga-se de passagem, o Jomar Moraes não gostava nada de nós. Escreveu artigos detonando a qualidade da Akademia dos Párias. A Academia Maranhense de Letras não gostava, por que o próprio nome Akademia dos Párias mostrava essa contradição, a academia como essa coisa pompa e pária que é a ralé da sociedade.
Quer dizer, havia uma intencionalidade quando vocês batizam o grupo. Ademar – Claro! Garrone – Tem um poema de Bráulio Tavares, chamado Amor e verdade, que é um poema assim: “me dá tua mão!/ toca aqui [toca a calça na altura do pênis]/ sentiu? Acredita agora?” Quando eu fiz isso lá no Sioge, aí pronto, a família maranhense… [risos] ao ponto que acabaram com a festa, não nos pagaram o cachê. Ademar – Nessa mesma época houve uma premiação, dessas premiações fajutas, do produtor que faz, os melhores do ano, e o melhor do ano na área cultural é o diretor financeiro não sei o quê que tem. Aí convidaram os párias para essa festa de melhores do ano no Casino [Maranhense, então um tradicional clube na avenida Beira Mar], onde estava a nata da inteligência formal de são Luís, os tidos inteligentes, acadêmicos e tudo mais, e era o troféu Apolônia Pinto de Cultura do Maranhão. E lá pelas tantas, eu já trabalhava na Mirante, o locutor do evento era [o radialista] César Roberto. Nós éramos temidos, as pessoas sabiam que a gente ia aprontar alguma. César Roberto na apresentação, eu trabalhava junto com ele, eu chego de surpresa nele, por detrás do microfone e digo: “César, a Akademia dos Párias vai fazer uma homenagem à cultura”, e César Roberto, confiando no seu amigo de trabalho [risos]. Tinha um camarote com Jomar Moraes, que era presidente da Academia Maranhense de Letras, e César Roberto anuncia: “e a partir de agora a Akademia dos Párias no troféu Apolônia Pinto vai fazer uma homenagem à cultura!”. Isso era de madrugada, e não se sabe de onde Paulo Melo Sousa [poeta e jornalista] aparece com um abacaxi, todos embriagados, e nós decidimos oferecer à Academia Maranhense de Letras. Era o troféu Apolônia Pinto, nós resolvemos oferecer o troféu Apolônia Pênis [risos]. Quando a gente se espanta Paulão jogou o abacaxi no camarote e esse abacaxi saiu caindo por cima deles lá, aquele alvoroço, a festa acabou por ali. Marcello – Uma vez nós fomos convidados para representar a Akademia dos Párias num simpósio do curso de Letras da UEMA. Fomos Fernando Abreu, Joe Rosa e este seu amigo. Teve apresentação de todo tipo de poesia. A gente entra depois do coral da Igreja Maranata. A gente se apresentou e foi falar um pouco da poesia erótica. Cada um disse um poema e eu falei um poema de Bráulio Tavares. Quem tinha me convidado era uma professora que estava bem na minha frente. Era o Poema da Buceta Cabeluda, que tem versos como: “a buceta da minha amada é cabeluda/ e cabe linda na palma da minha mão”, quando eu falei mão, olhei para a professora ela estava vermelha, “a buceta da minha amada é cabeluda/ é o alfa e o ômega dos meus segredos/ e na minha língua é lambda”, quando eu falei lambda, a professora não estava mais lá. No final a confusão foi tão grande, a gente estava autografando livros, a meninada pirou, um professor que ia se apresentar depois da gente, disse “olha, eu ia fazer uma coisa meio escandalosa, mas depois dos párias eu vou parecer um anjinho”… e eu estava feliz, vendendo livro, dava pra beber, era aquela coisa, poesia e álcool, álcool e poesia. Aí chega a professora, com outro professor, vieram me dar uma bronca, por que eu tinha feito aquela coisa pornográfica. Eu argumentei: “mas professora, o objetivo da universidade não é atritar as inteligências?”, e eles “não, mas não sei o quê”, eu tentei argumentar, mas eles insistiram, eu virei e disse: “olha, eu já fiz [recitei] o poema, vocês querem que eu faça o quê, agora, com essa buceta, que eu raspe?” [gargalhadas]. Sempre havia um tipo de confusão por causa da ousadia. É como Garrone falou: ou aplaude ou vaia, indiferente não fica. Garrone – Uma coisa engraçada é que uma vez fomos para Arari, ficamos hospedados na casa do prefeito, um evento só para professores e havia um poema de [Antonio Carlos] Alvim que dizia “grande e lúcida a buceta de Lúcia”, e nós pensávamos que íamos chocar, que fosse o inverso, mas eles receberam super bem. Havia uma preocupação em dizer ou não, e fomos surpreendidos. Para ver a contradição. Ademar – O fato é que a Akademia dos Párias devolveu a imagem de São Luís como terra de poetas. O pessoal via aquele monte de moleque fazendo poesia. Boa ou ruim, mas fazendo poesia e projetando a poesia na cidade. A Akademia dos Párias foi muito importante para os anos 1980, para a cena cultural de São Luís, foi fundamental.
Vocês falaram há pouco de vender revistas em salas de aula. Quer dizer, havia certo respeito dos professores. Ademar – Não era tanto respeito, era certa inevitabilidade. Garrone – A gente pedia licença e entrava. Se eles dissessem não, a gente entrava do mesmo jeito. Ademar – Isso nós herdamos do movimento estudantil. Garrone – A universidade como uma casa aberta, era uma compreensão nossa. Você tinha relação com o Sá Viana [bairro por detrás da UFMA], não tinha muros. A gente sempre discutiu que a universidade era o espaço para se exercer a liberdade que a sociedade não permitia. Esse era o discurso que a gente tinha, não o discurso que se tem hoje de que a universidade é um grande colégio.
Nesse aspecto vocês não pensam que o ambiente universitário hoje não está meio estéril? Ademar – Sem dúvida alguma! É outra realidade. Garrone – Hoje em dia é o cara entrar, fazer o dever de casa, se formar, fazer o trabalho certinho e acabou. Não tem experiência nenhuma, não viaja. Ademar – Não existe mais movimento estudantil. Hoje o movimento estudantil se sustenta com emissão de carteiras de estudante. O movimento estudantil não vai mais para os retornos pedir pedágio para a população ajudar na luta estudantil. Garrone – Papai e mamãe bancam. Hoje se vai para encontro de estudantes, vai de avião, fica em hotel. Ademar – Isso não existia na nossa época. A gente ia para a rua tentar arrumar dinheiro para viajar de ônibus e ficar em alojamento, em colégio. Hoje o movimento estudantil é uma máquina de fazer dinheiro, há empresas especializadas em organizar encontros. Isso não é saudosismo, pode parecer “ah, na minha época era melhor”, não era, era uma forma diferente de ver o mundo, as coisas eram mais conquistadas.
Que livros de cabeceira vocês elegeriam? Ademar – [Charles] Bukowski em primeiro lugar, sem dúvida nenhuma, tipo obras completas. Marcello – Os beatniks, Gregory Corso, [Lawrence] Ferlinghetti. Ademar – Todo mundo lia muito e várias coisas. Garrone – Na poesia tinha [Paulo] Leminski, antes de Leminski virar pop, digamos assim, a gente já lia. Chacal era uma referência, passou por aqui. Tinha Os Camaleões [grupo de poetas integrado por, entre outros, Pedro Bial] do Rio. Como a gente viajava muito para encontros, a gente conhecia grupos em salvador e trocávamos com o que fazíamos. Os irmãos [Augusto e Haroldo de] Campos. Ademar tinha Mulheres, de Bukowski, foi o primeiro que a gente viu. Nós tínhamos só uma livraria, que era a Espaço Aberto, aqui na Rua do Sol, era a livraria de Josias Sobrinho [compositor]. Marcello – Talvez uma das maiores divisas da Akademia dos Párias seja de Ferreira Gullar. Aquele trecho “loucos são todos em suma/ uns por pouca coisa, outros por coisa alguma”. Ademar – Saiu em todos os números [como uma espécie de epígrafe] e representava a nossa loucura mesmo. Garrone – Bráulio Tavares eu conheço duma edição da Abril que vendia em bancas. Com a Companhia das Letras é que começou a surgir uma literatura mais voltada para nosso caminho. A primeira tradução de [Vladimir] Maiakovski que eu li foi uma tradução portuguesa horrível. Aí tu vai ler a dos irmãos Campos com Boris Schnaiderman, é outra coisa!
O que do espírito pária está mantido intacto em vocês, hoje? Ademar – Eu digo com toda tranquilidade: eu era um jovem rebelde. Hoje eu sou um coroa rebelde. Eu nunca perdi o meu sentimento de contestação. Ao longo do tempo eu exerci esse sentimento de contestação de várias maneiras, na política partidária, cheguei até a ser vereador, larguei a política partidária, é uma página totalmente virada, mas continuo firmemente com minhas posições políticas, continuo firmemente atendendo e entendendo minha formação de esquerda. Só não tenho mais militância, mas continuo com a mesma visão crítica, claro que hoje com a perspectiva de alguém com 53 anos, que não é igual à de quem tem 18 anos. Mas eu continuo na rebeldia, acreditando e desacreditando na humanidade. Garrone – Além disso que Ademar falou, está dentro de mim, mas eu me preocupo, por que eu não quero mexer nisso. Não dá para conciliar essa coisa mais pária com essa coisa mais profissional, família. Se eu começar a beber eu sei como é que eu sou, eu me conheço. Até a relação com a poesia, ela não vai te dar sustento, mas te dá comportamento. Eu temo começar a dar mais espaço para o lado poético e menos para o lado jornalístico, por que a poesia me leva, de certa forma, para a anarquia, para a falta de regras, uma série de coisas que eu sei que estão em mim. Não quer dizer que todo mundo seja assim. Eu te garanto que no dia 19 eu vou estar morto de bêbado aqui [aponta para a livraria Poeme-se], por que eu tenho que beber para fazer isso, faz parte de meu espírito, faz parte de minha relação com ela [a poesia]. Dito isso, eu prefiro deixá-la ali, o diabinho está ali, é melhor não cutucar com vara curta. Marcello – O que aconteceu comigo é que, como eu falei, eu não nasci poeta. Eu descobri a poesia e fui entender que a poesia só é poesia se tiver verdade. A poesia é uma forma de viver. Eu vivo dessa forma e não aprendi outra de lá pra cá. Não mudou nada, só a idade, os joelhos que doem, mas o fígado ainda está bom. Ainda tem muito álcool para transformar em poesia, muita poesia para ser transformada em álcool. Esse é o lado pária que permanece.
JP Turismo conversou com os poetas Celso Borges e Fernando Abreu sobre o lançamento de Akademia dos Párias: a poesia atravessa a rua, antologia que celebra os 30 anos do movimento poético que agitou a Ilha
POR ZEMA RIBEIRO ESPECIAL PARA O JP TURISMO
Os poetas Celso Borges e Fernando Abreu durante entrevista no Cafofo da Tia Dica. Foto: ZR (29/4/2016)
Quando Fernando Abreu voltou à São Luís – “eu sou daqui, mas só nasci aqui; passei a infância em Grajaú”, localiza –, foi estudar piano. A Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo funcionava ao lado de sua casa, na Rua da Saavedra, no Centro da cidade, o que gerou uma pergunta de um desconfiado Gilles Lacroix, então professor do instrumento na instituição: “mas é só por isso que você quer estudar piano?”, referindo-se ao fato de ele morar perto da escola. “Não. Quero estudar piano por que quero ser músico”, respondeu.
Foi por pouco: Fabreu, como hoje o jornalista e poeta é conhecido pelos amigos mais íntimos e leitores em geral, não tinha, no entanto, piano em casa, para as lições. Olga Mohana, então diretora da EMEM, orientou-o a procurar dona Maria Eugênia Borges, que morava na Rua da Paz, também no Centro, e tinha um piano em casa. Era a mãe do poeta Celso Borges. Fabreu tinha por volta de 14 anos e CB estava às voltas com o lançamento de Cantanto [ed. do autor], sua estreia na poesia, de 1981.
“Uma amizade atávica”, exclama Fabreu, para lembrar-se, logo depois, de que o avô de Celso ajudara seu pai a se estabelecer em São Luís. “Ele ficou anos ocupando um imóvel, sem pagar aluguel. Com a barbearia custeou seu curso de odontologia, depois pagou os aluguéis, mas nada teria acontecido sem aquela força”, agradeceu.
As lembranças vão se emendando umas às outras como cigarros acesos nas baganas dos anteriores, embora ninguém fume durante a entrevista regada a água e coca-cola. No Cafofo da Tia Dica, detrás da Livraria Poeme-se, na Praia Grande, converso com os poetas sobre os 30 anos que a Akademia dos Párias, movimento integrado por eles nas décadas de 1980 e 90, completa em 2016, e que será comemorado com o lançamento da antologia Akademia dos Párias: a poesia atravessa a rua.
“Eu sou mais ou menos seis anos mais velho que toda a turma”, revela Celso, à época já formado em jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) – onde grande parte dos párias se encontrou, principalmente nos corredores do curso de Comunicação Social –, pai de família e com carteira assinada no Sistema Mirante de Comunicação. “Eu tinha completa liberdade na rádio [Mirante FM, inaugurada há pouco], levei Ademar Danilo [jornalista e dj] para fazer o Reggae Night, ele já tinha um conhecimento fabuloso do ritmo”, lembra.
“A gente ouvia Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff. Foi através de Ademar que começamos a ouvir outros nomes da Jamaica”, enumera Fabreu. “O estúdio era pequenininho, mas uma vez Celso levou a galera lá, botou a gente sentado no chão, crivou de perguntas e publicou uma entrevista”, conta. O papo saiu na Guarnicê, que era um encarte do jornal O Estado do Maranhão – depois a revista circularia de forma independente –, editada por Celso com Roberto Kenard e Joaquim Haickel.
Ronaldão lendo um poema no lançamento do número 3 da revista Uns & Outros, no bar de Betto Pereira, no São Francisco, em 1986 ou 87. Foto: acervo Párias.
“Outro cara importante foi Ronaldão. Era um cara versado em Bob Dylan, Kraftwerk, Pink Floyd. Encarnou um personagem, sumiu. Ninguém sabe por onde anda. A última vez que eu falei com ele, ao telefone, foi em 1997. Guaracy [Brito Jr.] também já sacava muito de música, Joy Division”, Celso lista outros autores de poemas que estarão na antologia.
Indago-lhe o critério de seleção. Ele não titubeia: “primeiro os poemas que sobreviveram ao momento; depois, poemas que tinham o espírito pária. São 25 poetas, muitos deles só publicaram ali, na Uns & outros [revista editada pela Akademia dos Párias], naquele momento”, revela. O único poema que não saiu na revista foi justamente Pária, de Celso Borges, que encerra seu Pelo avesso [1985]: “somos poucos/ cada vez menos/ somos loucos/ cada vez mais”, diz um trecho do poema, que não por acaso ilustrava a camisa que o poeta escolheu para conversar com o JP Turismo. Vestido de preto, Fabreu saudava o citado Bob Marley e sua One love. Paz, amor e poesia, bem traduzindo o clima pária.
Influências – O surgimento da Akademia dos Párias se dá no apagar das luzes da ditadura militar brasileira, que assombrou o país por 21 anos. “Coincidiu também com uma abertura gráfica, editoras como a Brasiliense começaram a publicar [Paulo] Leminski, Chacal, John Fante, [Charles] Bukowski”, lista Fabreu. “Caprichos e relaxos, Drops de abril, Pergunte ao pó, Cartas da rua e Mulheres eram bíblias, uma espécie de Pentateuco particular”, enumera CB.
Galera Pária no antigo Hotel Quatro Rodas, em 1986. Foto: acervo Párias
“Nós éramos amados e odiados em igual medida. Muita gente adorava, a gente vendia revistas, fazia saraus em bares e, claro, bebia muito. Outros chamavam a gente de “viado”, por que era tudo muito orgânico, a gente se abraçava, se beijava em público”, lembra Fabreu. E completa, pensando em Allen Ginsberg, Jack Kerouac e companhia: “mal comparando, éramos como os beats, ao redor de quem orbitavam também figuras que não escreviam ou escreviam ocasionalmente”.
Uns & outros – A revista Uns & Outros teve oito números publicados em 10 anos – o último saiu em 1996. “Havia uma necessidade de publicar. As pessoas estavam escrevendo, de repente se reunia o material, se cotizava e pensava-se que com o dinheiro da venda da revista a gente pagaria o que ficou devendo na gráfica e investiria no próximo número: mas a farra era grande e nunca havia caixa”, ri Fabreu.
“Gosto de pensar na importância da revista. Havia um vazio. Se pensarmos no que foi feito em termos de agito literário nas décadas anteriores, é nada. É claro que havia os livros de [os poetas Bandeira] Tribuzzi, Nauro [Machado], [José] Chagas – mas outras leituras nos interessavam mais. A Uns & Outros serviu para mostrar que poesia podia ser feita por quem não é da Academia Maranhense de Letras e eu gosto de pensar que anos depois, embora soe estranho, já que eu fiz parte também, influenciou, por exemplo, a revista Pitomba!”, celebra Celso.
Serviço – Akademia dos Párias: a poesia atravessa a rua, a antologia, será lançada no próximo dia 19 de maio (quinta-feira), às 19h, na livraria Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande), com recital de poesia.
[Jornal Pequeno, JP Turismo, sexta-feira, 6 de maio de 2016]
Feito um poeta do século passado, o jornalista Fernando Abreu, 51 anos completados no último dia 12, funcionário concursado, bate ponto em um órgão público, mas sua poesia está longe do enfado e da burocracia.
Quem o conhece sabe da raridade de suas aparições públicas. Seu tempo ocioso, e bote bastantes aspas em ocioso, gasta lendo, sobretudo poesia, e ouvindo música.
Seus poemas não se contentam com a página do livro, embora não a menosprezem. Se, num país que não lê, poesia menos ainda, é preciso ganhar alguns ouvidos, “me deixa ser guru dessa galera”, como diz uma parceria do poeta com Zeca Baleiro.
Sua fama de eremita é conhecida entre os amigos, que festejam suas raras presenças em eventos literários – com o poeta Eduardo Júlio foi curador da Feira do Livro de São Luís ano passado.
Um dia após o Dia Nacional da Poesia, Fernando Abreu, ou simplesmente Fabreu, para os mais íntimos, sai de casa amanhã (15) para lançar seu Manual de pintura rupestre [7Letras, 2015, 75 p., R$ 20,00 no lançamento].
É o quarto livro de Fabreu, ex-integrante da Akademia dos Párias, movimento poético que fez barulho na Ilha na década de 1980 e início da de 90. Manual de pintura rupestre, seu primeiro título publicado por uma grande editora, aparece depois de Aliado involuntário [Exodus, 2011], O umbigo do mudo [Clara Editora, 2003] e Relatos do escambau [Exodus, 1998]. A Exodus é uma casa inventada pelo poeta para se publicar.
Se nos dois primeiros livros seus poemas estavam mais para Leminski e Oswald de Andrade, entre a piada, a rapidez, o chiste de mesa de bar, e no penúltimo terem ganhado volume, neste quarto título Fabreu atingiu um nível de maturidade poética fruto de exercício, leitura e autocrítica.
Apesar do salto, Fabreu é um poeta pé no chão. “Quem lida com esse negócio de escrever e publicar poesia não pode alimentar muitas ilusões pra não se frustrar. Começa que não somos um país de leitores, e muito menos de poesia”, declarou ao Homem de vícios antigos, sem que sua fala soe amarga.
“No caso da 7Letras me atraiu o cuidado que eles tem com seus produtos em termos de acabamento, programação visual etc. Geralmente os livros são bem bonitos, e o meu não fugiu à regra”, continua, sem falsa modéstia.
De suas leituras cotidianas, muitas referências estão em Manual de pintura rupestre. Se os poetas são “as antenas da raça”, como nos ensinou Pound, a sintonia de Fabreu aponta em várias direções.
A começar por Terence Mckenna, filósofo e etnobotânico norte-americano que emprestou uma das epígrafes da obra – a outra é de Jorge de Lima: “o xamã é o ancestral remoto do poeta e do artista”, diz um trecho dO alimento dos deuses.
Em tempos de instantâneos no instagram e descartáveis no snapchat, o grande trunfo de um poeta é lapidar poesia onde ninguém mais a enxerga, num mundo cada vez mais embrutecido. O cotidiano é matéria-prima de Fabreu: “uma xícara de café fumegante/ o rosto de alguém que caminha/ lembrando de uma música/ amantes fugindo a pé do fim do mundo/ o cachorro paciente esperando pra atravessar/ na faixa de pedestres”, observa em Aqui agora, poema que abre este Manual de pintura rupestre.
O estado das coisas abre o leque de referências de Fabreu que percorrerá as páginas desta sua nova obra, citando Lord Byron, Glauco Mattoso e Dylan Thomas. Uns citados textualmente, outros na sutileza da sacada, ao longo do livro aparecerão ainda Carl Gustav Jung, Carlos Drummond de Andrade, Friedrich Engels (não confundir com outro Friedrich, o Hegel), Gonçalves Dias, Herbert Marcuse, João Bosco e Aldir Blanc, João Carlos Martins, Karl Marx, Noel Rosa, Roberto Bolaño, Rosa Luxemburgo, Sigmund Freud, Wilhelm Reich, William Blake, William Burroughs e William Carlos Williams.
Fabreu está sintonizado em poesia, música, política, denúncia social, crítica aos mercadores da fé televisionada, psicanálise, futebol, filosofia, erotismo. “quando não escrevendo nada/ ser mais poeta do que nunca/ todo antenas poros sentidos/ ser que se trespassa de tambores/ a palavra antes da palavra”, o Mestre sala dos ares é ótima síntese ou cartão de visitas.
Serviço – O poeta Fernando Abreu lança Manual de pintura rupestre nesta terça-feira (15), às 18h30, na Galeria Trapiche Santo Ângelo (Praia Grande, em frente ao Terminal de Integração). A noite de autógrafos terá recital com os Mamutes Elétricos: Fernando Abreu (voz e poemas), Erivaldo Gomes (percussão) e Marcos Magah (voz e guitarra).
Leia em primeira mão três poemas de Manual de pintura rupestre:
DA BOCA PRA FORA
vai com deus, papai!
no sinal que acaba de abrir,
aceito a bênção do menino
mesmo não tendo
as moedas
para o pão ou pedra
que, por segundos, iluminariam
suas entranhas ou sua mente
no vão dessa noite brasileira
em que me vejo órfão de uma dor
que sequer mereço sentir
DE UM COMERCIAL DE TV
depois de atravessar a cidade
sob os olhares agradecidos da multidão
o boneco gigante anunciando
ofertas imperdíveis
foi se postar por trás da loja principal da rede
onde
do alto de seus
mais de dez metros de altura
abençoou os fiéis
PARALELAS
qual é a diferença
entre o revolucionário
que recusa a esmola ao mendigo
para não atrasar o fim da burguesia
e o burguês piedoso
que nega a mesma moeda
ao mesmo mendigo
porquevaitudopracachaça&crack?
Aos 26 anos Mayra Fontebasso cursa o último período de Letras na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior paulista. Natural de Itu, a mãe da Clarice ganha a vida mexendo ou produzindo textos alheios: “pesquisadores, professores universitários, advogados, jornalistas, escritores e políticos que querem textos e discursos mais bem elaborados” procuram a moça à frente da Leitura Profissional, onde escreve, edita, revisa e traduz.
Mayra é também contadora de histórias e diz gostar “de fingir que toco chorinho ao violão”. Ela segue sem se levar muito a sério: “descobri que estudo literatura e tento fazer isso a sério, mas falta dinheiro”, apresenta-se.
Raça nº. 13, 1929. Capa. Reprodução
Sua pesquisa de conclusão de curso é sobre “Os modernistas e a revista Raça (1927-1934)”, sob orientação do Prof. Dr. Wilton José Marques e, faz questão de frisar, apoio financeiro do CNPq. A publicação circulou na região no período assinalado.
Ela revela desde sempre se interessar “pela história do interior paulista e seus arranjos políticos pautados por interesses oligárquicos e perpetuadores de desigualdades que persistem até hoje”. Reside em São Carlos/SP desde 2008 e a partir de um estágio na Fundação Pró-Memória local passou a estudar a “falsa vanguarda” do movimento modernista Verde-Amarelo a partir de sua manifestação literária na revista são-carlense do final dos anos 1920.
Foi em meio a essa pesquisa que deu com os óculos em três poemas desconhecidos de Carlos Drummond de Andrade [1902-1987] publicados na Raça. É ela quem prefere, com razão, o termo “desconhecidos” em vez de “inéditos”, já que embora não constem de nenhum livro do autor, antologias ou estudos sobre sua obra, os poemas foram publicados na revista (leia-os ao final deste post). É um Drummond inocente, bem diferente do que reconheceríamos como um dos maiores poetas brasileiros do século passado, efígie das notas de cinquenta cruzados novos, homenagem póstuma da Casa da Moeda brasileira no final da década de 1980 – o verso da nota trazia o poema Canção amiga, musicada por Milton Nascimento em 1978.
Sobre os achados Mayra Fontebasso conversou com o Homem de vícios antigos.
A pesquisadora metendo os óculos nos perdidos de Drummond. Foto: Wilson Aiello
Como foi o seu grito de “eureka!” ao se deparar com os três poemas desconhecidos de Drummond? Na verdade as reações foram mais como “Quem é o charlatão se passando por Drummond?” e um “Ahhh, duvido que seja Drummond! Não tem nem o Andrade na assinatura…”. Acho que qualquer leitor do consagrado itabirano teria essa reação ao se deparar com os poemas. Eu, particularmente, conhecia a obra do poeta apenas a partir do livro Alguma poesia [1930]; além do mais, no periódico são-carlense que estudo – a revista Raça, publicada entre 1927 e 1934 – é comum vários colaboradores assinarem com pseudônimos, uma estratégia para evitar desafetos com leitores e para os editores ‘encherem’ as páginas da revista, já que provavelmente vários textos sem autoria e mesmo com nomes suspeitos eram produzidos por eles. Ainda, os poemas eram assinados por um “Carlos Drummond”, sem o Andrade, o que de início me chamou a atenção. Bastou a leitura de alguns títulos especializados, porém, para eu ter a certeza de que essa era uma assinatura do poeta muito utilizada ao longo dos anos 1920. Tirei a teima por meio do livro organizado pelo professor Antônio Carlos Secchin, chamado 25 poemas da triste alegria [CosacNaify, 2012], escrito por Drummond em 1924 e até então desconhecido. Nesse livro há um texto sobre os pseudônimos utilizados por Drummond, o que me levou à Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade minuciosamente organizada por Fernando Py, que fez um levantamento de toda a obra drummondiana publicada de 1918 a 1934 [2ª. edição, aumentada; Fundação Casa de Rui Barbosa, 2002]. Em nenhum destes livros os poemas da revista são-carlense apareciam, nem mesmo no Inventário do Arquivo Carlos Drummond de Andrade, que possui mais de dois mil itens aos cuidados da Fundação Casa de Rui Barbosa, encontrei qualquer referência aos poemas da Raça. Com esses livros foi que passei a conhecer o jovem Drummond que publicava principalmente no jornal republicano Diário de Minas. Inclusive suspeito que haja uma coletânea de mais de 140 poemas-em-prosa semelhantes a estes que encontrei em uma monografia defendida na UFMG que, infelizmente, não está disponível para leitura online em lugar nenhum e já virou um mito para mim. Preciso passar por Minas Gerais e correr atrás desse trabalho.
Você é estudante do último período de Letras. Sua pesquisa é sobre a revista Raça. Qual a abordagem de seu trabalho monográfico? Olha, a abordagem é a paixão em enxergar na literatura toda uma organização de pensamento sobre o que se falava e se escrevia em uma dada época. Vou tentar simplificar: gosto de pensar sobre como se relacionavam num determinado período a obra literária, no caso a revista Raça, o seu público leitor e a sociedade que permitiu que essa obra surgisse e circulasse. Dizem que essa é uma abordagem historiográfica, mas desconfio que esse seja o nome que deram para essas pessoas loucas como eu que amam papeis antigos e “fontes primárias” que nos fazem espirrar e que são um amontoado de peças de um quebra-cabeça que dificilmente poderá ser completado. Estudando a Raça tenho a oportunidade de entender melhor como pensava a ala mais conservadora do movimento modernista, aquela vinculada aos Verde-Amarelos como Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Plínio Salgado, para citar alguns nomes que aparecem na revista. Consigo, então, olhar ao mesmo tempo para o movimento modernista a nível nacional conflitando-o com o dado local, com a recepção de suas ideias e com as articulações de intelectuais conhecidos com personalidades locais que possuíam um projeto de construção para um país, um projeto de nação calcado na definição do que seria justamente a “raça brasileira” em meio aos mitos do caldeamento e da mistura entre o que denominam – nessa ordem hierárquica –como bandeirantes paulistas, indígenas e negros. Na minha pesquisa pretendo delinear melhor quem são e como pensavam os escritores modernistas que contribuíram para a revista são-carlense, discutindo o projeto editorial que sustentava um projeto de nação para o Brasil. Já no TCC o tema Drummond será incontornável e vamos ver o quanto conseguirei me aprofundar na produção de juventude do poeta.
Os poemas de Drummond são ruins, o que é justificável: era então um autor bastante jovem e ainda desconhecido. Como você os localizaria dentro da obra do poeta? Acha que ele se envergonharia deles? Eu sou bem na minha, sabe? Sou mãe, lutei muito para chegar perto de concluir minha graduação, sempre tive que trabalhar para me manter na universidade, sei que não li nem um quinto do que deveria ter lido até agora para fazer o que faço… Aliás, suspeito muito do que faço e do que penso, e tenho certeza que esse badalo todo o Drummond é que criou só para se vingar de mim aumentando expectativas em torno da minha pesquisa [risos]. Certamente ele detestaria o que estou fazendo. Não gosto de dizer que os poemas são ruins, prefiro dizer que são imaturos, ingênuos, “manjados”; mas têm o seu encanto justamente por nos lembrar de que o Drummond não nasceu grande. Ele também seguiu modelos, idolatrou outros poetas, por vezes os imitou descaradamente até achar o seu próprio estilo e publicou essas “bobeiras de juventude” loucamente, passando a vida negando essas produções e tentando escondê-las. São poemas-em-prosa (ou prosa poética), um estilo de escrita usado por muitos poetas porque permite certa narração mais próxima à realidade ao mesmo tempo em que contém elementos poéticos como o ritmo e a métrica, as metáforas, as imagens resgatadas por meio da linguagem poética. Drummond escreveu muitos poemas-em-prosa, então não é uma novidade para os estudiosos, mas esses achados reforçam o que o pesquisador John Gledson apontou já nos anos 1980 [Poesia e Poética de Carlos Drummond de Andrade, Ed. Duas Cidades, 1981]: Drummond não nasceu moderno e passou por um processo de formação, embora ainda haja certa resistência a essa leitura. São poemas “penumbristas” porque se vinculam a uma tendência literária do período de transição entre os séculos XIX e XX no Brasil, pré-modernista, como chamam os especialistas. O Penumbrismo não chegou nem a ser uma “escola literária”, foi mais uma estética, um estilo calcado nos poetas franceses e italianos que tratavam de temas intimistas. No Rio de Janeiro, onde residiam escritores como Ronald de Carvalho, que inclusive cunhou o termo “penumbrismo”, essa estética era mais difundida. Nos anos 1920 o jovem Drummond lia muito Ronald de Carvalho e também Guilherme de Almeida, Ribeiro Couto e Eduardo Guimaraens, todos tributários dessa “atitude penumbrista”. Os traços simbolistas dos poemas que encontrei fazem referência a um Alphonsus de Guimaraens, por exemplo, muito lido e admirado por Drummond. São poemas com o “espírito” da época, “penumbristas” devido às várias reticências e ao tom melancólico e de solidariedade com um outro que não sabemos quem é; e “simbolistas” por evocar imagens como as “mãos soluçantes que dançam”, as “mãos viúvas que tateiam insones” etc. Em uma análise mais séria esses traços são vários e em um artigo futuro pretendo aprofundá-los.
A obra de Drummond vem sendo reeditada pela Companhia das Letras. Você é leitora de Drummond e de poesia em geral? Dele, qual o seu livro predileto? E quais são os teus outros poetas de cabeceira?
A pesquisadora tietando a estátua do poeta em Copacabana. Foto: acervo pessoal
Eu bebo prosa e transpiro poesia. Não sei se sou boa leitora, mas vou longe quando consigo tempo para ler e até brinco de escrever, nada sério. As reedições de Drummond sempre me deixam ansiosa. Quem dera o mercado editorial fosse mais robusto para os livros não serem tão caros, mas faltam leitores… Livros são caríssimos para mim! É raro eu conseguir comprar alguma edição nova, sorte que existem sebos e bibliotecas. De todos os livros do Drummond é A rosa do povo o que sempre me comove mais, me leva aos prantos e depois me faz rir, me dá um soco no estômago e depois me faz caminhar com fé. A ilustração da primeira edição desse livro logo estará na minha pele, só preciso arranjar tempo para terminar umas adaptações na arte de Santa Rosa [risos], vou colocar mais mulheres nela. Minha cabeceira da cama é um fuzuê. Um vai-e-vem de livros e desenhos e rabiscos… Tem coisa que nunca sai de lá e que nem sempre está em livro. É que tenho o hábito de transcrever o que gosto em pedaços de papeis que se espalham espontaneamente por toda a casa. Cotidianamente, para ficar só na poesia, me deparo com Carolina Maria de Jesus, Manoel de Barros, Patativa do Assaré e Hilda Hilst. Drummond fica sempre ali no cantinho, ele pesa em livro. Tem para todos os humores. Ana Cristina César, Adélia Prado, Cora Coralina, a Patrícia Galvão… Acho que parei no tempo. Olhando aqui ainda vejo um Cacaso de bolso e um Murilo Mendes praticamente impassível em suas letras prateadas.
E de nomes contemporâneos, em prosa ou poesia, você tem lido alguém? Alguém que tenha te chamado a atenção? Eu parei mesmo no tempo. Leio pouco ou quase nada contemporâneo, não por falta de influência, já que tenho uma porção de amigos que vive comentando várias obras. Gosto muito da escrita do [Milton] Hatoum, [Ariano] Suassuna, e de Paulo Lins, [Luiz] Ruffato, Marcelino [Freire]… Posso ir para fora do Brasil? Morro de amores pelo [José] Saramago… O restante eu realmente não tive meios ainda de sentar para conhecer além dos nomes e da fama.
E já é possível responder quais são os seus planos após a conclusão do curso de Letras? Depois do curso de Letras eu pretendo ganhar dinheiro [risos]. Falando sério, não sei ainda se a carreira acadêmica é pra mim, pois embora eu ame pesquisar, os recursos para essa área de estudo são escassos. Gosto de agito cultural, de antropofagia literária e a coisa sempre me parece acomodada demais nas universidades. Adoro a ideia de dar aulas para jovens! Quem sabe algum projeto surja desse desejo de transformar as pessoas por meio da literatura… Talvez eu tente uma Pós-Graduação para continuar estudando o pensamento conservador na literatura brasileira, ou talvez eu parta mesmo para projetos e ajude a divulgar o que encontrei para estimular outros pesquisadores. Nesse rolo todo o certo é que continuarei trabalhando com revisões, traduções e aprimoramento de textos. Há oito anos tenho uma empresa nessa área, a Leitura Profissional, e meus clientes são pesquisadores, professores universitários, advogados, jornalistas, escritores e políticos que querem textos e discursos mais bem elaborados. Primeiro me formo, depois vejo onde hei de fincar minhas raízes.
Fac símile da página com os poemas perdidos do jovem Drummond. Reprodução
POEMAS PERDIDOS
Revista Raça, nº. 13, jun.1929, p. 32 – São Carlos/SP
Acervo de Octavio C. Damiano – Fundação Pró-Memória de São Carlos
[Ortografia atualizada pela pesquisadora. O poema compõe parte do corpus da pesquisa de iniciação científica Os modernistas e a revista Raça (1927-1934), empreendida por Mayra de Souza Fontebasso sob a orientação do Prof. Dr. Wilton José Marques (Departamento de Letras/UFSCar) e o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Contato: leituraprofissional@gmail.com]
O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica
Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina…
As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam…
As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada…
As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida…
Como é bela a volúpia inútil de teus dedos…
O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho
Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão…
Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre…
E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos…
E as mãos viúvas tateiam, insones, − as friorentas mãos viúvas…
O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra
Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias…
E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes…
E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas…
E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra…
Amanhã (5), a partir das 19h, no Chico Discos, Reuben da Cunha Rocha lança os primeiros três volumes (de um total de meia dúzia) de Siga os sinais na brasa longa do haxixe [Pitomba!], poética epopeia sci-fi.
A entrada é franca, cada volume custa a bagatela de 10 reais.
O poeta Joãozinho Ribeiro resgatou, entre objetos deixados por um cunhado recentemente falecido, um trecho do poema Guerra que te quero paz, que segue publicado ao fim deste post. O intento é encontrar o restante do poema, com alguém que o autor de Milhões de uns possa tê-lo compartilhado no passado. Notem: Joãozinho não procura um parceiro para fechar o poema. Quer saber se, entre os amigos de longa data, alguém sabe, lembra, viu, tem cópia com a outra parte etc., etc., etc. Se alguém puder ajudar, agradecemos antecipadamente.
GUERRA QUE TE QUERO PAZ
Entre as feridas da bomba
Uma criança sem rosto
Vagueia pelos subúrbios
Da cidade destruída
Catando os cacos de infância
Subtraídos da vida
Sem pátria, sem geografia
Perdida num continente,
Delinquente, guerrilheira,
Ensaia para o futuro
Uma canção de esperança
Bordada em letras de muro
Dos cacos que vai juntando
Edifica sobre as perdas
Uma palavra sofrida
Que vaza as dores do mundo
Queixando as rosas da vida
Esmagadas num segundo
A palavra peregrina,
Imitando o voo dos pássaros
Sobe alpes, cordilheiras,
Invade vitrines, praças,
Devassa quartéis, igrejas
Pelos países que passa
Jornalistas de profissão, o poeta Celso Borges e o DJ Otávio Rodrigues inventaram Poesia Dub em 2004, quando ambos viviam em São Paulo. O nome do espetáculo de poesia no palco, para muito além da leitura de poemas com trilha sonora, remete a uma das especialidades de Otávio, um dos maiores especialistas em Jamaica no Brasil, mas sem se prender a ele.
Embora com apresentações bissextas – Celso Borges voltou a morar em São Luís em 2009 – Poesia Dub já passou por várias formações. Ontem (12), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR135, foi apresentado por Celso Borges (voz e poemas), Otávio Rodrigues (trilhas, efeitos e percussão adicional), Luiz Cláudio (percussão) e Gerson da Conceição (contrabaixo).
Linguagem abriu a apresentação. É um poema em que o autor convida os espectadores a ouvir, falar, lamber, chupar, morder a sua língua, a linguagem enquanto vírus, não à toa Celso Borges ser chamado de “homem poesia” por alguns, dada sua dedicação à causa. Quase um “vai vir o dia quando tudo que eu diga seja poesia”, de Paulo Leminski, homenageado em Morto vivo: “aos quarenta e quatro” – idade com que o curitibano faleceu – “ainda dói o óbvio”, falacanta CB. “Estou vivo na idade do morto, Leminski”, diz noutro trecho, como a dizer que apesar do mundo estamos aí, “que nem assino embaixo/ que nem moscoviteio/ que nem capricho/ que nem relaxo”, citando alguns de seus poemas mais conhecidos e o clássico Caprichos e relaxos.
Paulicéia é uma ode a São Paulo e São Luís, os dois santos de sua vida, “um em cada um dos meus ombros, trocando sempre de lugar. Ora protetores, ora algozes”, como me declarou CB em uma entrevista em 2007. Rima Fiesp com Masp, símbolos paulistas, e Pompeia com Coreia e Divineia, bairros de lá e cá, com o “venta loló/ pra esse barco andar”, de Chico Maranhão, de refrão. No final, uma homenagem a Torquato Neto: “leve o homem e o boi ao matadouro; quem gritar primeiro é o homem mesmo que seja o boi”.
Otávio Rodrigues programa dub e reggae, mas também ladainhas, tambor de crioula, bumba meu boi e Cordel do Fogo Encantado. Em Ode a Rico Rodriguez, o trombone do mestre jamaicano nascido em Cuba, falecido em setembro passado. “Um dos mais importantes nomes do reggae, integrante dos Skatalites ainda nos anos 1960”, frisou Gerson da Conceição. “Me apaixonei por Rico Rodriguez ao ser apresentado à sua música, no começo dos anos 2000, por Otávio Rodrigues”, agradeceu Celso Borges. “O pobre Rodrigues”, brincou Otávio.
“Eu quero ver quem ainda vai ter medo da Praia Grande!”, bradou Celso, festejando o público do BR135, que ocupou duas praças do bairro nas três noites da programação do festival que ajudou a formatar.
Poesia Dub merece urgentemente registro em disco. Relevante serviço prestado à música e à poesia, é injusto que seus apreciadores fiquem à mercê dos encontros de Celso Borges e Otávio Rodrigues no palco, infelizmente mais raros que um 29 de fevereiro.
O poeta Nauro Machado (2/8/1935-28/11/2015). Foto Marcia Carvalho
CESAR TEIXEIRA*
Enfim, Nauro Machado venceu sua olimpíada. Aos 80 anos conseguiu romper a corda umbilical de um espaço que, segundo ele próprio, não era seu, “mas do universo” – para a surpresa da Morte, na outra ponta da corda, depois de ver seus planos estratégicos caírem por terra.
O poeta retornou à casa Paterna não como um filho pródigo arrependido, que recebe de prêmio um novilho cevado, mesmo porque não desperdiçou a sua herança, nem abandonou sua cidade como na parábola. Ao contrário, desde a publicação de Campo sem Base, em 1958, não parou de escrever. Foram 37 livros de poesia, além de antologias, ensaios e artigos.
Era esse o seu ofício, e São Luís a sua inspiradora oficina, não obstante o inferno burocrático das repartições públicas. Para tanto, adaptou-se ao cardápio da dor, do sofrimento e até mesmo do “escárnio da (…) província”, a fim de eliminar o homem ilusório e edificar o poeta.
Compartilhava líricas alfarrobas (menos as dos porcos) com prostitutas e artistas amaldiçoados nos becos da Praia Grande e do Desterro, e saudava deus e o mundo com a expressão “meu poeta, meu cabo de guerra”, fosse um deputado ou um chofer de táxi.
“Yesterday!” era sua palavra de ordem, ou melhor, seu canto de guerra inacabado, quando as fartas doses de Santo Antônio dos Lopes sem mel faziam transbordar no poeta uma mistura de alegria e dor – naufrágio íntimo no esôfago da alma, que nos tornaria cúmplices e irmãos de infortúnio.
Somente John Lennon ou o Marinheiro Popeye poderiam nos salvar. E tudo foi ontem.
Nauro Machado retornou ao útero de Deus, “feliz e sofrido, mas verdadeiro”, por ter preenchido o seu espaço com a sua poesia, feito a areia fina de uma milagrosa ampulheta, após consumir toda uma existência e completar-se. Estava morto e reviveu: o filho pródigo agora pode caminhar com seus próprios pés.
Todos os sábados o poeta visitava seus pais. Morador do Centro em alguns intervalos da vida, eu mesmo encontrei-o várias vezes no percurso. Às vezes, apenas cumprimentávamo-nos e ele seguia seu caminho; às vezes atrasava-se para o compromisso semanal, quando esticávamos a conversa, sobre temas os mais diversos. O curioso é que a morada de seus pais é o Cemitério do Gavião, no bairro da Madre Deus.
“Não há poesia experimental sem vida experimental”, ensinou-nos Roberto Piva, outro grande. E eu via naquele gesto do poeta, pura poesia. Cumprimentava-me, como de resto a quase todo mundo, “meu poeta!”. A expressão “meu poeta, meu cabo de guerra!”, cunhada por ele, é, até hoje, usada por este obituarista e alguns conhecidos, como saudação.
Nascido em São Luís do Maranhão em 2 de agosto de 1935, Nauro Diniz Machado faleceu na madrugada de hoje (28), aos 80 anos. Tinha hérnia no intestino e há poucos anos lutou contra um câncer no esôfago, período lembrado em Esôfago terminal, seu penúltimo livro, lançado em 2014 – o último, O baldio som de Deus, foi publicado em setembro passado.
Nauro era casado com a também poeta Arlete Nogueira da Cruz, com quem teve um filho, o cineasta Frederico Machado, cujo Infernos, que abre este post, é um retrato cinematográfico do pai, abordando sua dedicação à poesia, a boemia, o alcoolismo e sua relação com a cidade natal. Narrado pelo próprio poeta, o enredo do filme é construído sobre alguns de seus poemas.
No primeiro poema, O parto, de seu primeiro livro, Campo sem base [1958], Nauro Machado já prenunciava suas quase seis décadas restantes: “Meu corpo está completo, o homem – não o poeta./ Mas eu quero e é necessário/ que me sofra e me solidifique em poeta,/ que destrua desde já o supérfluo e o ilusório/ e me alucine na essência de mim e das coisas,/ para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,/ trazer-me à tona do poema/ com um grito de alarma e de alarde:/ ser poeta é duro e dura/ e consome toda/ uma existência”.
O velório de Nauro Machado está acontecendo na Casa de Antonio Lobo (Rua da Paz, 84, Centro), sede da Academia Maranhense de Letras (AML), da qual não era membro por opção. O sepultamento acontece amanhã (29), às 10h, no Cemitério do Gavião.