Amanhã e depois, no Circo


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O miolo da estória é uma obra de ficção baseada em leitura, observação e depoimentos de brincantes, que traz em síntese os conflitos de um homem pobre diante da exploração sofrida no ambiente de trabalho e no espaço do divertimento. Apresenta a vida e os sonhos de João Miolo, operário da construção civil e brincante de bumba meu boi que tem uma vida comum a tantos outros operários: casa humilde, vida sofrida e uma enorme solidão. Em meio a tudo isso, João sustenta o desejo de ainda vir ser cantador no boi em que brinca e ocupar uma posição de destaque na vida. O espetáculo apresenta o homem em conflito com a fé e suas relações sociais.

Após estreia em setembro de 2010, o espetáculo participou da Mostra Guajajara de Artes, I Festival de Teatro de Açailândia e agora prepara-se para nova temporada antes de participar da Aldeia Sesc Amapá e Festival de Monólogos de Teresina (texto do release).

Ficha técnica

Dramaturgia, direção, atuação, músicas e cenografia: Lauande Aires
Iluminação: Eliomar Cardoso e Jarrão
Operação de sonoplastia: Lesly Thaís Correia e César Boaes
Fotos: Ayrton Valle e Paulo Socha
Arte Gráfica: Manoel Freitas
Treinamento de brincante: Leonel Alves
Consultoria artística: Antônio Freire, Leonel Alves, Manoel Freitas e César Boaes.
Produção e realização: Santa Ignorância Cia. de Artes.

A mátria de Nóbrega

Antonio Nóbrega (foto) ministra a aula-espetáculo Mátria: uma outra linha de tempo cultural logo mais às 19h no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, 283, Praia Grande). A entrada é gratuita (ingressos devem ser retirados com meia hora de antecedência na bilheteria do teatro, que tem capacidade de 400 lugares). O evento integra a caravana Rumos do Itaú Cultural, que está lançando seus editais 2011-13 por todo o Brasil.

Amanhã (27) é a vez de Janaína Melo ministrar a oficina teórica Portfólio de artista, no SESC Deodoro, das 18h às 21h, também de graça.

A programação completa das caravanas Rumos pode ser conferida no site do Itaú Cultural.

Pós-páscoa

SOMOS JESUS TAMBÉM

Pense hoje num Jesus
Não aquele lá da cruz
Não de cabelos longos e castanhos e olhos azuis

Pense num Cristo mendigando
Nas ruas
Nos bares
Pedindo comida
Bebendo a bebida que é tão proibida
Fazendo o que é proibido
Desafiando a lei
Pense num Jesus gay
Um pobre
Um coitado
Um menino abandonado e drogado
Um padre
Uma freira
Uma puta
Um filho de puta
Um Jesus normal
Ou um Jesus marginal
Mas um cara legal
Não um Jesus dono da lei
Pense num Jesus a chorar
A mentir p’ra escapar
A se masturbar

Pense num Jesus menor de idade
Que não tem verdade
Ou pense num Messias comum
Num Jesus lavrador
Um Jesus quebradeira de coco
Que muitas vezes não come
Não por ser jejum… (?)
Pense num Jesus amando sem limites
E odiando também sem limites
Pois somos assim bem mais naturais
Feitos de bem e de mal
De prazer carnal
De moral banal

Pense num Cristo penitenciário
Culpado ou inocente
Ou acusado injustamente
De crime de morte
De um roubo qualquer

Pense em Jesus Cristo como um jovem sofrido
Esquecido
Pense num rei traído
Um ser atrevido sem medo da vida
Que briga e peleja
Que bebe cerveja
E cachaça também

Hoje vamos parar e pensar num Jesus diferente
Não no daquela cruz
Mas no Jesus dessa gente
Não no nazareno
Mas no Jesus eu e no Jesus você
Nos Cristos de hoje em dia que ainda lutam p’ra sobreviver

Pense num rei sem regras
E regras pra quê, se é melhor viver sem nada temer?

Pense em todos nós
E em seus avós que não existem mais
E lembre-se de mim que não fui capaz de amar
Como aquele menino que ganhou uma cruz
Como o rei da coroa de espinhos

Vamos pensar nesses Cristos
Que crucificamos todos os dias sem saber por quê
Vamos ser só hoje um pouquinho Jesus

[Raimundo Costa Lira Filho, in Poesias pra ninguém ler: a poesia dos Liras. Ed. do autor. São Luís: 2010. p. 13-14]

Judas João Buracão marca protesto contra prefeito em sábado de aleluia

Moradores do Conjunto Radional farão protesto pacífico e bem humorado contra a inércia de João Castelo ante os problemas da capital maranhense

Manifestação tradicional a cada sábado de aleluia, as malhações de Judas há muito deixaram de ser mera brincadeira. Se antes estavam restritas a pura diversão entre vizinhos, que se aporrinhavam uns aos outros em singelas homenagens, a figura do apóstolo traidor, geralmente feito de molambos e restos de materiais outros, tem, hoje, outro sentido.

Vizinhos ainda se aporrinham no romper das aleluias, mas há tempos, os Judas pendurados em postes têm a cara – e a pança – de figuras públicas, em geral políticos.

Moradores da Rua C, no Conjunto Radional, prestarão anti-homenagem a João Castelo (PSDB), prefeito municipal. O Judas confeccionado por eles trará a imagem de “João Buracão”, apelido dado ao alcaide, com sua foto, já clássica, em que aparece dormindo em evento de que participava.

“É nossa forma de protestar contra esse desgoverno. A cidade está um caos. Para todo lado é lama e buracos, às vésperas de ano eleitoral e dos 400 anos da cidade. É uma reivindicação contra as mazelas de São Luís”, desabafou uma revoltada moradora.

A malhação do Judas Castelo acontece hoje (23), a partir das 16h. Um testamento bem humorado, escrito coletivamente, será apresentado na ocasião. Nele, em rimas, a revolta dos moradores.

Para maiores informações: (98) 8853-7916.

[Sugestão de pauta que encaminhei há pouco aos meios de comunicação de São Luís. A organização do protesto demorou a me passar as informações. Será Castelo também o Judas do Laborarte, a mais famosa malhação do Maranhão?]

Adão


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Iturrusgarai. Gênio!

O bom-mocismo global tirou sua Aline do ar. Agora os militares querem parar com a exibição de Amor e revolução, no SBT. Onde vamos parar?

As ferramentas do poeta da paz que não chama atenção

SONETO DA PAZ

Nos ombros secos levamos
a rede amarga de sangue,
há um hino em cada boca
e nada nos amedronta.

Em nossas mãos a bandeira
é a camisa do morto
tremulando feito alma
expatriada do corpo.

Mas as fronteiras de arame
entre um e outro homem
serão cortadas agora

que todas as ferramentas
estão plantando na terra
a semente das auroras.

&

A BALA

Ninguém pode descrever
a trajetória da bala
penetrando na pele.

A bala antropofágica,
subtraindo o homem
de sua própria história.

A bala e o arame farpado,
subtraindo o homem
de sua própria geografia.

A bala em vez da semente,
plantando o ódio,
entre as costelas.

No entanto, a mesma bala,
nesta noite inatingível,
nem sequer desconfia
que o próximo tiro
sairá pela culatra.

&

PRIMEIRO DE MAIO

Estamos aqui reunidos
para ouvir a própria fala
dizer em nossos ouvidos
aquele que luta e não cala.

E mesmo que a força da bala
proíba que alguém se rebele
faremos ouvir nossa fala
por sobre as bandeiras da pele.

E arrancaremos estrelas
para plantar em memória
de quem já não pode mais vê-las
surgir sobre a nossa história.

E quando chegar o momento
então sairemos ao vento
colhendo a nossa vitória.

&

OFICINA

Se não existissem estrelas de ferro
não existiria fome, nem medo,
existiria apenas o cego e o mudo
construindo as esquinas
de outro mundo.

Não haveria a liquidez dos assassinatos
se não existissem armas sob a capa de chuva,
nem haveria alma se diluindo em sangue
sob a lama dos sapatos,
haveria o pensamento sólido no prato.

Na transparência do fogo
surgem novas ferramentas
para que o homem resolva
de uma vez por todas
recriar sua própria oficina.

&

MUNDICA

Das mulheres que eu feri
aquela em que eu mais ardi
se rasgou pra me cuspir
na cama

Cantaria para mim
a música de um querubim
se a vida não fosse assim
profana

Flor selvagem do Interior
cujo fruto foi a própria dor
de colher aqui tantos espinhos
Espiava pelos botequins
na embriaguez dos arlequins
tentando reconhecer seus filhos
Contaria para mim –
a fábula do jaboti
se a vida não fosse assim
a fera

que corre pelos jardins
e assalta nossos camarins
e depois foge pela janela
Bebe as tempestades nos dedais
anuncia outros carnavais
que essa febre já nos incendeia
Mata a tua sede, vai por mim,
antes que o fogo queime o capim
sai de baixo dessa terra alheia

Toma a tua terra e berra
contra os teus demônios
que a mais antiga ferida
é o nosso sonho

II

Entre todas que eu curti
aquela que eu não mereci
continua para mim a mesma
com seus dedos de marfim
cerzindo meias para mim
no inverno de tanta tristeza

Flor selvagem do Interior
foi aquela que ninguém plantou
sobre as pedras de nossa Província
Abrigava todos os ladrões
em sua caixinha de botões
antes mesmo de virar notícia

Só pra me fazer dormir
recitaria para mim
aquela poesia do Algarves
e abriria para mim
as suas pernas de cetim
se fosse pra me parir
outra vez

As agulhas não espeta mais
no seu peito como os generais
fazem com suas estrelas loucas
Foi embora sem se despedir
mas deixou a sua arte aqui
como quem parte pensando em voltar

Afugenta os bichos do lixo
tira a tua roupa
veste esta poesia, que um dia
eu te faço outra

(janeiro de 1982)

&

Cinco poemas de Cesar Teixeira, que completa hoje 58 anos de vida e arte, nele, insuperável, inseparáveis. O último é letra de música (inédita) dedicada à sua mãe. Catei os poemas em Bazar São Luís (artigos para presente e futuro) (1988), volume de crônicas de Herbert de Jesus Santos. O título deste post é o da que o autor dedica ao aniversariante do dia.

GPS etilírico-gastronômico

Da ilha distante, cá na parte de cima do mapa, já achava-lhe o mascote simpático. Aquele freizinho com cara de sonso, caneca cheia de chopp na mão. Qual num filme, imaginava-lhe a caneca jogada por um garçom por sobre um balcão lisinho, até chegar-lhe às mãos, o frei soprar a espuma e dar um longo gole como a querer matar todas as sedes que já passou.

Mês passado desci o mapa e cheguei à Imperatriz. Fui conhecer o Boteco do Frei, que fica nas imediações da Beira Rio, o point mais famoso da capital do Maranhão do sul.

Falava da Avenida Beira Rio, mas quem entendeu que era do Boteco, o faz certo, que o point agora é ali.


Vista parcial e escura da fachada do Boteco do Frei. Foto: Lena Machado

Dei sorte: o prato musical do dia eram a voz e o violão de Lena Garcia e o violino de Jr. Schubert, amigos que há tempos não via. Música popular brasileira com tempero pop. De Cazuza a Erasmo Dibell, de Milton Nascimento a Renato Russo.

Cerveja gelada, a companhia dos amigos de trabalho, que essa rota gastronômica ainda não se paga e eu preciso aproveitar as horas do ócio para lhes recomendar roteiros (a ideia é que este GPS etilírico-gastronômico seja atualizado de vez em quando, com minhas passagens por botecos diversos, aqui e acolá; aqui uma espécie de texto-teste de estreia. O que os poucos-mas-fieis leitores acham da ideia?).


Cardápio musical da noite: Lena Garcia e Jr. Schubert e sua MPopB . Foto do blogueiro

A presença do amigo Marcos Franco, um dos sócios proprietários, dando suas bebericadinhas em serviço. Contou das ideias, dos sonhos, dos projetos, papo rápido – ele que eu também já não via há um tempinho. Das vontades, inclusive, de levar bons nomes da Ilha até aquela confraria de boa música recém-instalada.


Marcos Franco entusiasma-se com as boas possibilidades do Boteco do Frei. Foto do blogueiro

É bastante comum hoje em dia conhecermos pessoas antes pela via virtual e depois pessoalmente. Agora acontece também com botecos. Já conhecia o Boteco do Frei de seu site, sempre atualizado, a vantagem de ser um dos sócios, jornalista – o já citado Marcos Franco. Boteco que também pode ser seguido pelo tuiter e facebook.

A decoração, um charme, citando em imagens ou frases Drummond, Raul Seixas, a Mafalda do Quino, a Graúna do Henfil, Guevara, Jackson do Pandeiro, Jim Morrison, Roberto Carlos, Chico Buarque, Janis Joplin, cartazes de filmes como A marvada carne, Carandiru, O Mephisto, Cidade de Deus e Madame Satã. E a frase certeira de Belchior: “sempre desobedecer/ nunca reverenciar”.

Se isso é dar uma lufada de novidade ao em geral monótono cenário da noite imperatrizense, longa vida ao Boteco do Frei!

O sol do meio dia

Após um crime passional, Artur parte em uma viagem em busca de sua redenção. Ele conhece Matuim, dono de uma velha embarcação, de personalidade bastante diferente da sua. Eles iniciam a viagem pelo rio, mas logo são obrigados a seguir por terra. É quando conhecem Ciara, que se dirige à cidade de Belém. Os três formam um triângulo amoroso, que desperta em Artur lembranças do crime por ele cometido.

Sinopse d’O sol do meio dia, de Eliane Caffé, em cartaz até o dia 14 no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Os ingressos custam R$ 10,00 (R$ 5,00 para estudantes com carteira).

Para quem não lembra ou “não se liga nessas coisas”, Eliane Caffé é a mesma diretora de Narradores de Javé.

Tribo do Pixixita

Uma constelação de primeiríssima grandeza da música do Maranhão se reúne neste sábado, no Creóle Bar, em homenagem ao saudoso músico José Carlos Martins, mais conhecido como Pixixita: Célia Leite, Cesar Teixeira, Chico Maranhão, Chico Nô, Chico Saldanha, Erivaldo Gomes, Flávia Bittencourt, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Lenita Pinheiro, Nosly, Sérgio Habibe e Tutuca, fora os que pintam para homenagear o mestre sem confirmar presença antes.


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Os ingressos custam R$ 10,00 e a festa começa às 20h30min. O vídeo abaixo dá uma ideia do que foi a edição de 2009 do tributo:

Frederico Machado a lume

Frederico da Cruz Machado é um predestinado. Filho dos poetas Nauro Machado e Arleth Nogueira da Cruz, haveria de ser artista. Não é poeta – ao menos não o que conhecemos tradicionalmente, de escrever poesia. Tornou-se cineasta – premiadíssimo, dentro e fora do Brasil, com seus trabalhos exalando poesia – e empresário. Empresário das artes, diga-se. Bem sucedido e sediado em São Luís, por incrível que isso possa parecer.

Com 14 anos sua Backbeat (Rua Queóps, nº. 12, Edifício Executive Center, loja B/C, Renascença II) tem o maior acervo do Nordeste: cerca de 18 mil títulos, entre DVDs, CDs e Blu-Ray. Sua Lume Filmes, localizada no mesmo prédio que abriga a locadora, já lançou 128 títulos em 10 anos de existência. Raros, clássicos, lados-b, nacionais e estrangeiros, de diretores que vão de Akira Kurosawa a Rogério Sganzerla, entre muitos outros. A previsão para 2011 é que 48 novos títulos cheguem aos cinéfilos – a tiragem média de cada um é de 2.000 exemplares.

Quando esta 18ª. edição do Vias de Fato chegar às mãos de seus leitores, o Cine Praia Grande já estará exibindo Tetro, mais novo trabalho de Francis Ford Coppola (O poderoso chefão). Desde o dia 10, a única sala de cinema de arte da capital maranhense está, novamente, sob administração de Frederico Machado, via Lume Produções. Ele já havia coordenado o espaço entre 2000 e 2005, quando a sala registrou altos índices de frequência de público, seja nos festivais de cinema que realizou, seja em sessões ordinárias. Em 2009 ele voltou a gerir o cinema, que entre idas e vindas, sob administração terceirizada ou realizada pelo Governo do Estado, já abriu e fechou várias vezes, nos seus quase 20 anos de existência. O cinema, aliás, foi tema de apaixonado artigo do poeta e jornalista Eduardo Júlio no primeiro número deste jornal.

Entre os próximos passos de Frederico Machado está a realização do I Festival Internacional Lume de Cinema, que já tem mais de 700 filmes inscritos – as inscrições seguem até 14 de maio. O festival acontecerá de 14 a 23 de julho e, além do Cine Praia Grande, terá exibições na sede da Lume Filmes e no Teatro Arthur Azevedo.

A influência dos pais, Lume Filmes, Backbeat, cinema no Maranhão, o Cine Praia Grande, entre o passado, presente e futuro, Frederico Machado, com uma incompleta graduação em Filosofia, aos 38 anos, concedeu a seguinte entrevista ao Vias de Fato.

ENTREVISTA: FREDERICO MACHADO
POR ZEMA RIBEIRO


Foto: Divulgação

Vias de Fato – Um texto de tua mãe sobre o compositor Chico Maranhão, de quem teus pais foram vizinhos na tua infância, retrata o também arquiteto desenhando para divertir o menino Fred. Quais as principais lembranças de tua infância? Frederico Machado – Sem dúvida nenhuma, minhas idas para o cinema com meus pais. Cine Passeio, Éden, Monte Castelo, Roxy, Alpha. Era o paraíso. Também a Praia Ponta da Areia. Todo sábado e domingo pela manhã. Andava com meu pai, jogava futebol. Bons tempos! E música: comprar discos de vinil na rua Grande e depois ficar a tarde toda os escutando no quarto trancado. Beatles, Prince, Stones, dividiam bem o espaço com as musicas clássicas e com os compositores maranhenses, entre eles o Chico Maranhão.

Teu pai é cinéfilo, um homem apaixonado por cinema. Em que medida o gosto dele te influenciou, tanto enquanto consumidor de cinema quanto enquanto realizador? A influência do Nauro e também da Arlete são enormes. Meus pais foram os grandes responsáveis por eu ser um apaixonado pelo cinema. O fato de ir quase diariamente para uma sala de projeção foi o que me moldou a ser hoje um cineasta. A literatura de ambos também é responsável em grande parte pelo meu gosto particular de cinema autoral. O gosto por filmes mais pesados e fortes se deve, acredito, ao gosto pela própria literatura de Nauro. Já a linha sensível e humanista que acredito que o cinema deva ter, se deve ao fato de ter lido muito minha mãe e a sensibilidade da mesma.

Quais as tuas principais influências, tanto em se tratando de cinema quanto em outras artes? Isto é, além de assistir, o que você gosta de ler e ouvir? Acredito que toda imagem pode ser transformada em filme. Depende muito de como ela é transformada em película e com qual propósito. Por isso sou bem eclético no que assisto em cinema. Tem vários filmes comerciais extremamente importantes para o cinema mundial e para minha formação intelectual. Não vejo mal nenhum nisso. É diferente de minha opção como realizador, de ser mais voltado para o cinema realmente como arte, autoral, instigante, diferente. Mas um grande cineasta que tenho como referência é [o polonês Krzysztof] Kielowski [das séries Decálogo e Trilogia das coresA liberdade é azul, A igualdade é branca e A fraternidade é vermelha, estes exibidos na década de 1990 no Cine Praia Grande], pela sensibilidade em lidar com seus temas, sempre carregados de dor e perda. Como leitor, sou muito mais criterioso, porque até mesmo, para se ler o livro é necessário muito mais concentração, tempo e imersão na obra. Gosto da literatura russa, alemã. Era um leitor muito mais voraz antigamente. Como no cinema, prefiro livros mais densos e pesados. Em termos de música, cresci ouvindo rock alternativo. Nos meus tempos de juventude foi a expressão cultural que me tomou com mais visceralidade. Era meu ato rebelde, ouvir rock, vindo de pais artistas e que gostavam mais de cultura erudita. Pixies, Nirvana, Pavement, Les Thugs… Até hoje os escuto sem culpa ou remorso. Tive inclusive uma banda punk chamada Decapitados. Entretanto com o passar dos anos abriu-se um leque enorme de possibilidades musicais com a internet. Infelizmente a música se transformou apenas em um passatempo para mim.

O Cine Praia Grande, a partir do dia 10 de março, volta a ser gerido por você, homem por trás da Lume, empresa que o administrará. Que tipo de problemas a nova administração enfrentará? Em que termos se dá o contrato entre a nova empresa administradora e o Governo do Estado, responsável pelo cinema? Problemas: enormes e os mesmos de sempre. Falta de público, dificuldades com divulgação, falta de apoio das empresas, dos órgãos públicos que poderiam ajudar, dos artistas que não comparecem a esse espaço tão importante, das pessoas que reclamam da falta de um cinema de arte na cidade, mas que também não frequentam a sala… Entretanto, nunca deixamos de acreditar na possibilidade real do Cine Praia Grande ser o espaço cultural mais importante da cidade. A programação será voltada toda para filmes de arte. Ficaremos no cinema durante quatro anos através de contrato com o Governo do Estado. Todos os custos com a sala serão de responsabilidade da Lume Filmes.

Qual o seu momento preferido do cinema nacional? E o que acha do momento presente, sobretudo os anos Lula? E o que esperar do governo Dilma para a área? Sem dúvida nenhuma o período do Cinema Novo, nos anos 1960, foi o período de maior prestígio e qualidade do cinema nacional. Com o Governo Lula, o cinema nacional teve a grande vantagem de ser visto novamente. Com os editais propostos pelo Governo Lula, a população brasileira se viu novamente nos cinemas. Tivemos vários filmes de sucesso e qualidade. Acredito que com o Governo Dilma, teremos uma continuação dessa política de exibição e que mais e melhores filmes nacionais surgirão aumentando esse público e a própria qualidade. Isso é o que eu espero!

Como você percebe o cenário cinematográfico maranhense? Há a deficiência, sobretudo em se tratando de salas de exibição ou, onde elas existem, do conteúdo exibido. As novas tecnologias e o barateamento de seus custos – filmar hoje é mais barato que há 30 anos, por exemplo – não nos fizeram perceber, ainda, o surgimento de uma nova geração, utilizando-se disso. Você acha que estamos caminhando para este momento? O cinema maranhense tem uma carência enorme de incentivo. Não há salas de exibição, não há escolas de cinema, não surgem cursos de cinema, não há leis de incentivo estadual nem municipais. Enfim, o cinema no Estado do Maranhão mendiga de políticas públicas. Como pode surgir um cinema forte e respeitado se não há formas de produzir cinema com o mínimo de respeito pelos envolvidos? É complicado. E eu sou um afortunado, que os poucos editais que houve no Maranhão consegui sair vencedor – por isso o Vela [ao crucificado], Infernos e Litania [da Velha] viram a luz. Pessoas talentosas há. Os poucos filmes que se produziram no Maranhão nos últimos anos tiveram uma carreira vitoriosa em vários festivais. Levamos o nome do estado e da cultura do estado para vários estados e países e realmente parece que ninguém dá valor.

Você se considera bem sucedido, tendo em vista ser um empresário no campo das artes que deu certo, estando situado em São Luís? Totalmente. A Lume Filmes é a distribuidora mais respeitada de cinema autoral no Brasil, sem sombra de dúvida. É muito mais conhecida fora do Maranhão do que no nosso estado. O Vela ao crucificado, meu último filme, foi o filme brasileiro mais premiado do ano de 2010, entre longas e curtas. Realizamos um Festival de Cinema que em 20 dias com inscrições abertas já teve mais de 700 filmes inscritos, do mundo todo. Temos uma locadora com o maior acervo do Nordeste. A Lume Filmes está vivendo um grande momento. E isso eu devo à minha família, minha equipe, as mais de 20 pessoas que trabalham comigo para o engrandecimento dessa empresa.

Os filmes (re)lançados pela Lume têm recebido, invariavelmente, críticas positivas por parte de cadernos e seções de cultura de diversas publicações de circulação nacional. A que você credita esta boa aceitação? Realmente à qualidade dos filmes. A curadoria da coleção é toda realizada por mim. São filmes que têm enorme relevância para o cinema mundial. Além disso, os críticos e o público consumidor veem na nossa empresa uma empresa que de fato, respeita e ama o cinema. Isso dá dignidade a toda estrutura.

Teus filmes mais famosos e premiados, Litania da Velha, Infernos e Vela ao crucificado, tem relações literárias: o primeiro é baseado no poema homônimo de Arlete Nogueira da Cruz, tua mãe, o segundo é uma espécie de microbiografia poética de Nauro Machado, teu pai, e o terceiro é livremente inspirado no conto homônimo de Ubiratan Teixeira. Quais os próximos passos de Frederico Machado na condição de realizador? Estamos filmando novo curta – O exercício do caos – em roteiro original feito por mim. Temos dois projetos de longas para serem filmados no próximo ano. O I Festival Internacional Lume de Cinema para julho de 2011. O livro de ensaios Os filmes que sonhamos, com ensaios críticos dos filmes da Lume, inéditos, escritos pelos maiores ensaístas e críticos brasileiros atuais. Lançamentos para cinema no segundo semestre. Muita coisa boa!

Uma das tuas poucas ideias que não vingou foi o site Pastilhas Coloridas, revista eletrônica que abordava arte e cultura em geral – não só cinema – e agregou, entre outros, Eduardo Júlio e Reuben da Cunha Rocha. Pretendes retomá-la ou se concentrará especificamente no cinema, enquanto empresário e realizador? Era um projeto interessantíssimo. Mas dependia essencialmente de outras pessoas para vingar de fato. Pessoas que tivessem vontade de escrever e de colaborar. Temos vontade de retornar. É outro momento. Acredito que agora vingue. Era um projeto também que me deixou saudades.

[Vias de Fato, março/2011]

De obituários

[Por ocasião do falecimento de Jackson Lago e de sua respectiva cobertura midiátia. Com o devido respeito à dor de parentes, amigos e admiradores]

Obituários são, em geral, textos fáceis de escrever: informações na mão e/ou na cabeça, basta burilar o texto, trazendo datas de nascimento e falecimento, causa mortis, breve biografia do recém-falecido etc. A dificuldade maior, em geral, é quando o redator tem alguma proximidade com o finado: a emoção toma conta, lágrimas embotam as palavras.

O pecado de quem redige obituários, encomendados ou não, em geral é carregar nas tintas: principalmente em se tratando de políticos, a morte transforma-se em borracha, apagando todas as falhas de tantos anos de vida pública – como se a criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus fosse aqui elevada à sua máxima potência.

Nem tanto ao mar nem tanto a terra, obituários, de resto como quaisquer textos de não-ficção, devem dizer a verdade, embora haja a necessidade, o cuidado e o bom senso de respeitar as dores e os sentimentos da família, amigos, admiradores e outros.

Não fui amigo de Jackson Lago – como de Ivan Costa e Magno Cruz, para citar outros obituários, os mais recentes de que lembro, que escrevi até aqui. Nem era seu inimigo – durante seus pouco mais de dois anos à frente do executivo estadual, chefiei a assessoria de comunicação da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, então capitaneada pelo poeta e compositor Joãozinho Ribeiro.

Médico, professor universitário e político, nascido na hoje alagada Pedreiras, no interior do Maranhão, em 1º. de novembro de 1934, e falecido ontem, 4 de abril de 2011, Jackson Lago foi prefeito da capital maranhense por três vezes (1989-1992; 1997-2000; 2001-2002) e governador do estado (2007-2009). Seu último mandato à frente da Prefeitura Municipal de São Luís foi interrompido para que concorresse ao governo do Maranhão, ocasião em que foi derrotado nas urnas. Em nova disputa, eleito em 2006, teve o mandato de governador interrompido por um golpe judiciário.

Ali morria Jackson Lago. O pedetista será sepultado quase dois anos após sua morte, vítima dos tentáculos sarneystas tribunais afora.

José Sarney agora veicula nota de pesar pelo falecimento do adversário, cometendo o ato falho de dizer que Lago dominou a política maranhense ao longo dos últimos 40 anos – sinceramente, soa debochado. Roseana Sarney agora disponibiliza os palácios dos Leões e Henrique de La Rocque para o velório, em ato de cinismo já apontado pela turma do Vias de Fato.

Amanuenses do Sistema Mirante defendem que o corpo do ex-governador fosse ali velado. Ou na Assembleia Legislativa. Os mesmos acéfalos asseclas sarneystas que não hesitavam em tratá-lo pela alcunha de “governador sub-judice” à época em que corria o processo que culminou com sua cassação por motivo que poderia garantir o mesmo destino a quem ora está entronizada, fosse realmente cega e/ou imparcial a justiça deste país.

Seja feita a vontade do pedetista: ser velado na sede do partido que ajudou a fundar. Talvez mesmo ele tenha pensado em só querer voltar ao Palácio dos Leões por via das urnas – derrotado em 2010, “nem morto”.

Jackson Lago, como milhares de maranhenses, é mais uma vítima do mandonismo e continuísmo perverso que massacra e confina o povo-gado à eterna miséria absoluta.

O que Jackson fez, da cassação-morte até aqui, a morte em si, foi, para usar bom “maranhês”, “estrebuchar”. Louve-se o fato de não ter usado sua doença para o marketing político – muitos não sabem, mas Jackson Lago já era vítima de câncer quando governou o Maranhão e tinha o quadro agravado no último pleito.

Cometeu erros? Sem dúvidas, como todo político e, antes, como todo ser humano. O último, bem lembrado pelo jornalista Rogério Tomaz Jr., a eleição de João Castelo.

Seu falecimento não o põe acima do bem e do mal, óbvia e definitivamente. Morreu digna e coerentemente. Ao contrário de boa parte de seus adversários – mortos ou com prazo de validade vencido – e da mídia moribunda que lhe cobre o féretro.

Obituário: Ivan Rodrigues Costa

O Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN/MA), a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), as comunidades negras rurais quilombolas deste estado, o movimento negro maranhense, militantes de direitos humanos, familiares e amigos estão de luto pelo falecimento de Ivan Rodrigues Costa (14/11/1962 – 2/4/2011), militante do movimento negro e intransigente defensor dos direitos humanos.

Nas duas entidades citadas, Ivan atuou como técnico e era sócio da segunda. Ivan vinha há tempos lutando contra um câncer no estômago. Internado no Hospital Aldenora Belo (São Luís), foi desenganado pelos médicos há três dias, após quadro de piora antes de uma sessão de quimioterapia. Desde então seu quadro clínico não apresentou reações. Resistiu bravamente, sendo novamente internado no Hospital Municipal Djalma Marques, o Socorrão I, onde viria a falecer na madrugada de hoje (2).

O Maranhão perde um de seus mais aguerridos militantes de direitos humanos. Para o advogado Luis Antonio Câmara Pedrosa, “Ivan deixou seu nome escrito na história das lutas das comunidades de quilombos do Maranhão”. Adiante, em texto publicado em seu blogue, afirma ainda: “O marco legal existente hoje sobre a temática tem também as digitais de Ivan (…). Não era um intelectual, mas nada foi produzido nessa área sem a sua contribuição”.

Desde 1986, Ivan articulou diversos Encontros de Comunidades Negras Rurais Quilombolas, atuou no Projeto Vida de Negro (PVN), desenvolvido em parceria pela SMDH e CCN/MA, exercendo papel importante na construção da Coordenação Nacional dos Quilombos (Conaq) e Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão (Aconeruq). O marco legal a que Pedrosa se refere é o artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal, que garante: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.

O designer Carlos Cesar Caoca, militante do movimento negro maranhense, acompanhou de perto os últimos dias de Ivan e, por e-mail, manteve informado um grupo de amigos. Em uma de suas mensagens, afirmou: “Se você não sabe quem é Ivan Costa Quilombo – como ele gostava de ser chamado – pergunte a qualquer quilombola. Quando ele abrir o sorriso… estará dada a resposta”.

Foi por uma mensagem de Caoca que viria a saber do falecimento de Ivan. É ele quem anuncia e convoca, citando outros militantes do movimento negro já subidos: “Toquem os tambores de Verekete… São Benedito está de braços abertos para recebê-lo… Silvia Cantanhede, Escrete, Magno Cruz, negrada do plano superior… deixem da molecagem de vocês e dêem espaço na roda pro parente…”

A leveza e graça de seu texto – como bem queria Ivan – não diminuem a dor da perda. Ivan Rodrigues Costa será velado na sede do CCN/MA (Rua dos Guaranis, s/nº., Barés/João Paulo). O enterro acontecerá amanhã (3), no Cemitério do Turu, às 9h.

POR ZEMA RIBEIRO, assessor de comunicação da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH)

Duas notas

NOTA PÚBLICA DA SMDH CONTRA TENTATIVA DE INTIMIDAÇÃO E CRIMINALIZAÇÃO DE MILITANTE DE DIREITOS HUMANOS

As matérias “Carlos James move ação contra presidente dos Direitos Humanos” (imirante.com, 27.mar.2011, 9h02min) e “James move ação contra presidente da CDH da OAB” (O Estado do Maranhão, 27.mar.2011, Polícia, p. 9, acesso mediante senha para assinantes), publicadas em portal de internet e jornal do Sistema Mirante de Comunicação, de conteúdos semelhantes, torna pública – pela via midiática – ação movida pelo ex-secretário adjunto de Administração Penitenciária Carlos James Moreira da Silva contra o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil/ Seccional Maranhão (OAB/MA) Luis Antonio Câmara Pedrosa.

Publicadas um dia antes da primeira audiência acerca do processo em tramitação no 2º. Juizado Especial Criminal de São Luís, que acontece hoje (28), os textos são tendenciosos, pois só dão voz a uma das partes, fazendo supor uma tentativa de intimidação ao defensor de direitos humanos.

Além do grau de intimidade demonstrado pelos veículos de comunicação para com o ex-secretário, afastado de suas funções em agosto do ano passado, há uma clara tentativa de personificar no militante Luis Antonio Câmara Pedrosa, também advogado da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), uma reivindicação apresentada, à época, pelas entidades que integram o Fórum Estadual de Direitos Humanos (FEDH/MA). Após nota pública do FEDH/MA, Carlos James Moreira da Silva foi exonerado da secretaria adjunta de Administração Penitenciária para a garantia de isenção nas investigações das denúncias apresentadas pelo detento Marco Aurélio Paixão da Silva, o Matosão, assassinado em julho de 2010.

As declarações de Luis Antonio Câmara Pedrosa, quando do citado assassinato e do afastamento de Carlos James Moreira da Silva, baseavam-se em notícia de crime recebida por aquele Fórum, que cumpriu sua obrigação de representar para que a mesma fosse averiguada, tendo o poder público também cumprido sua obrigação: de afastar imediatamente os membros acusados para que a apuração se desse de forma independente.

A Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) vem a público repudiar esta tentativa de intimidar e calar as vozes dos defensores de direitos humanos através de uma de suas lideranças.

São Luís, 28 de março de 2011

Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH)
Em defesa da Vida

&

PRESIDENTE DA OAB/MA REAGE EM DEFESA DO PRESIDENTE DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS

O presidente da OAB/MA, Mário Macieira, e demais conselheiros reagiram, indignados, diante da tentativa de intimidação e das ameaças sofridas pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos, Luís Antônio Pedrosa (foto). O advogado está sendo processado pelo ex-secretário adjunto do Sistema Penitenciário, Carlos James Moreira, que move Ação Penal, por crime de calúnia, em razão das graves denúncias apresentadas pela Comissão.

O presidente da OAB/MA, Mário Macieira, e demais conselheiros seccionais reagiram, indignados, diante da tentativa de intimidação e das ameaças sofridas pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Seccional, Luís Antônio Pedrosa. O advogado está sendo processado pelo ex-secretário adjunto do Sistema Penitenciário, Carlos James Moreira, que move Ação Penal, por crime de calúnia, em razão das graves denúncias apresentadas pela Comissão. A OAB/MA impetrou habeas corpus perante a Turma Recursal, visando ao trancamento da Ação Penal.

Na edição de ontem (27/3), na página 9, o jornal O Estado do Maranhão publicou notícia sobre a ação movida pelo ex-secretário, que declara serem denúncias “falaciosas e sofismáticas”.

“Não permitirei, como presidente, que qualquer conselheiro, membro ou presidente de Comissão venha a ser intimidado ou ameaçado”, declarou o presidente da OAB/MA, Mário Macieira. Ele destacou ainda a atuação corajosa da Comissão de Direitos Humanos da Ordem, ao denunciar a existência de uma organização criminosa que, nos últimos anos, passou a ter o controle do tráfico de drogas, do tráfico de armas, da venda de proteção, da venda de benefícios no Sistema Prisional e, que segundo a apuração, está por trás da insuflação que levou às últimas rebeliões nas prisões do Maranhão. Os documentos, depoimentos e provas estão em poder da Comissão, com informações colhidas entre presos e autoridades da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Em todas as denúncias o nome do ex-secretário adjunto de Administração Penitenciária, Carlos James Moreira, aparece como um dos principais envolvidos.

O conselheiro Marco Lara também reagiu: “Trata-se de uma tentativa odiosa de intimidação contra a qual o Conselho deve, sim, posicionar-se firmemente em favor do colega conselheiro Pedrosa”. O Conselho Seccional da OAB/MA emitiu a seguinte Nota Oficial em defesa do presidente da Comissão de Direitos Humanos, Luís Pedrosa:

NOTA OFICIAL

O CONSELHO SECCIONAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL, por seu Presidente abaixo assinado, vem a público, em razão de matéria jornalística divulgada no último domingo, dia 27 de março de 2011, dando conta de que o ex-Secretário Adjunto de Administração Penitenciária, Sr. Carlos James Moreira, está processando criminalmente o Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA, Dr. Luís Antonio Pedrosa, informar o seguinte:

1. Cabe, em primeiro lugar, afirmar que todas as afirmações feitas pelo Conselheiro Seccional Luís Antonio Pedrosa, na qualidade de Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA representam a posição oficial desta entidade, e estão fundamentadas em um farto conjunto de documentos, depoimentos e denúncias que demonstram o envolvimento do Sr. Carlos James Moreira em fatos ilícitos, ocorridos no interior de unidades prisionais do Maranhão, fatos que não apenas foram denunciados pelo Ex-detento Matosão, morto logo após denunciá-los, como também estão claramente descritos em relatório investigativo da Polícia Federal, em poder da OAB/MA.

2. As denúncias, feitas publicamente pela OAB/MA, representada pelos seus conselheiros e dirigentes, foram encaminhadas também aos órgãos de correição internos do Sistema Penitenciário e à Secretaria de Segurança Pública, buscando sua responsabilização administrativa e criminal e também justificaram o pedido de CPI encaminhado à Assembléia Legislativa. A desconcertante, para dizer o mínimo, morosidade na apuração dessas denúncias contra o ex-Secretário Adjunto de Administração Penitenciária, provoca indignação da OAB e da sociedade maranhense, que continua lutando para que todas as denúncias sejam apuradas e os fatos contrários a lei sejam severamente punidos.

3. A malsinada ação penal intentada pelo indigitado agente “público” contra um dos mais respeitados e destemidos membros do conselho seccional da OAB não passa de uma aventura, que de acordo com o bom direito é qualificada “lide temerária”. Primeiro, porque bem sabe o seu queixoso que as denúncias que a OAB/MA recebe, torna públicas e encaminha às autoridades encarregadas de sua apuração estão embasadas, como dito acima, em documentos, depoimentos e provas recebidas pela entidade e seus representantes, sendo fácil a constatação de sua veracidade. Segundo, porque, agindo na condição de Advogado e Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, o Conselheiro Luis Antonio Pedrosa é inviolável, nos termos do art. 133 da Constituição Federal e art. 1º § 3º da Lei 8.906/94.

4. Se a medida é aventureira, então se pode depreender que o único objetivo do ex-Secretário Adjunto de Administração é o de tentar intimidar o Conselheiro Luís Antonio Pedrosa, a Comissão de Direitos Humanos e a OAB/MA. Não intimidará! A OAB/MA continuará sua luta para o completo desbaratamento das organizações criminosas que, nos últimos anos, passaram a controlar o tráfico de drogas e de armas no interior dos Presídios do Maranhão; a venda de proteção, a venda de benefícios legais como a saída temporária, deturpando e enfraquecendo esse importante instituto; e que, nos últimos meses é responsável pela insuflação que resultou nas barbáries do anexo do Presídio São Luís e da Delegacia Regional de Pinheiro.

5. A OAB/MA, por seu Conselho e sua Diretoria, defenderá até as últimas conseqüências e perante todas as instâncias do Poder Judiciário o Conselheiro Luís Antonio Pedrosa, que corajosamente tem atuado em nome da OAB/MA, honrando e dignificando a Classe dos Advogados.

6. Ao ensejo, a OAB/MA reitera a reivindicação de toda sociedade no sentido de que os graves crimes denunciados pela Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA sejam rigorosamente apurados e seus autores punidos, tanto administrativa, quanto criminalmente.

São Luís (MA), 28 de março de 2011.

Mário de Andrade Macieira
Presidente