A MÚSICA É A MÃE

Segundo disco de Zé Modesto é pura beleza: belas melodias e letras em belas vozes. Um trabalho que não carece de explicação, mas de audição. Constante.


[Capa. Reprodução. E por aqui você não faz ideia do quão belo é o projeto gráfico de Xiló]

Xiló (2007, independente, R$ 26,81 no site http://www.mubi.com.br), de Zé Modesto, é daqueles discos que você nem precisa ouvir para saber que é bom. Ouvindo, descobre que é ótimo. Pudera: o compositor já despontava como um grande nome desde sua estreia, Esteio (2004), onde, “fórmula” repetida neste segundo trabalho, reunia nomes promissores e consagrados para emoldurar às suas cantigas.

O nome deste colunista consta na “eterna gratidão aos amigos de Xiló”, agradecimento às “queridas pessoas físicas de bom coração” que Zé Modesto faz aos que compraram, antecipadamente – e sem ter sequer ouvido um segundo do que viria a ser – o disco. Confiamos que a qualidade seria mantida nele e não nos arrependemos.

Ana Leite – irmã do compositor, de quem aguardamos ansiosamente a estreia em disco solo –, Ceumar, Dalci, Mateus Sartori, Marcelo Pretto, o grupo Nhambuzim (sobre cujo Rosário (2008) escreveremos em breve neste espaço), Renato Braz, Rubi e Zé Vicente são as vozes nada modestas e competentíssimas que enfeitam as canções de Zé – por si só já belíssimas – em Xiló.

Ainda lembro-me de quando abri a encomenda, quando me chegaram alguns exemplares do disco, com que presenteei uns amigos: as quase lágrimas de tanta beleza ali contida, antes mesmo de, bastante curioso, despejar o disco no cd-player e ouvir temas belíssimos como Antífona (na voz de Ceumar), Meio mistério (uma Ave Maria – a oração – musicada e cantada, longe de óbvia, interpretada pelo Nhambuzim), Sobrevidas (tornada ainda mais bela pela voz de Rubi, que canta versos como “é a preferencial das ancas/ colisão de umbigos/ na estrada invertida/ é o pulso armado e amado/ virtude e pecado/ dessa nossa vida”) e, entre outras, o belíssimo tema instrumental Para o Ernesto, dedicada ao sacerdote católico Ernesto Cardenal, poeta nicaraguense, dos nomes mais destacados da teologia da libertação.

Xiló, na explicação do encarte, é “leitura abrasileirada de “xilo”, que em grego quer dizer madeira. (…) em latim quer dizer matéria: substância que ocupa espaço e sensibiliza os sentidos. Matéria vem de “mater” que significa mãe, que não precisa explicar”. Como a própria arte de Zé Modesto.

[Tribuna Cultural, Tribuna do Nordeste, ontem, 8 de fevereiro de 2009]

CASTELO FAZ (?) 2

Fiz as duas fotos abaixo da sacada de meu apartamento, hoje. A primeira, mostra a vala “consertada” pela Prefeitura de João Castelo ontem. A segunda, um buraco, sinalizado desde antes do conserto, distante menos de 50 metros dali.

CASTELO FAZ (?)


[Paliativo total. A pessimáquina não ajuda, mas é asfalto novo (sonrisal: bateu água, derreteu!) dum lado e doutro e a água (es)correndo ao meio. Foto: Zema Ribeiro]

Os que acompanham este blogue sabem que, apesar de não votar em São Luís, declarei voto em Flávio Dino, caso votasse. Não é(ra) o ideal, mas era o tangível, àquele momento, para a ilha.

Castelo venceu as eleições. E eu poderia estar contente pelo “experiente” estar trabalhando. Como no conserto da vala localizada na esquina das ruas 21 de abril com Castro Alves, onde moro, na Vila Passos. O buraco, mais velho que aquela posição, era referência quando dava o endereço a amigos: “em frente à vala tal”.

São 22h17min enquanto escrevo o presente post. Acabo de chegar em casa. Tive que dar uma volta para poder passar, a rua interditada por cones, “homens trabalhando”. Homens consertando a tal vala, mais que velha, mais que citada.

Eu poderia dizer que é verdadeiro o slogan de campanha de Castelo: fez, faz. Mas tanto fez, tanto faz. Entra prefeito, sai prefeito, os engenheiros parecem não mudar. Ou não mudam as concepções dos mesmos. Não adianta largar asfalto – sobre a água corrente, diga-se – e pensar que o problema está resolvido. O buraco é mais embaixo, para ficarmos em outra sabedoria popular. Seria necessário um trabalho mais profundo, algo que garantisse o escoamento das águas.

As ruas na Vila Passos – sobretudo a 21 de abril, que passa na lateral de nosso apartamento, e a Padre Anchieta, onde moram meus sogros – enchem facilmente quando uma chuva é mais grossa ou mais demorada. Desde sua fundação o bairro sofre com sérios problemas de drenagem: a água invade as casas provocando perdas e levando doenças. Não sei a idade do bairro e não tenho saco nem tempo para ir pesquisar agora, mas só a Igreja de Nossa Senhora das Graças já tem bem mais que 50 anos.

Querem apostar? Não dou um mês para estarmos novamente com o velho problema diante de nossos olhos e narizes.

MESTRE!

Gildomar Marinho agora tem blogue e myspace. Isso vai dar (já tá dando) coisa boa… o disco de estreia será lançado ainda neste primeiro semestre. Mais que um presente para quem tanto aguardou por este Olho de boi. Leiam, vejam! Ouçam!

DE ORGULHOS (OU NÃO)

Um comentário sobre a recente indicação de Joelma e Chimbinha (sim, o casal de frente da Calypso) ao Nobel da Paz, “incitava” (ou tentava) os paraenses a sentir orgulho disso. Bobagem! O maranhense Sarney (PMDB-AP) acaba de ser eleito presidente do senado (em minúsculas mesmo) e eu não me sinto nem um tiquinho orgulhoso disso.

MEME

Instruções: 1 Colocar o link de quem te indicou para o meme. 2 Escrever estas regras antes do seu meme pra deixar a brincadeira mais clara. 3 Contar os seis fatos aleatórios sobre você. 4 Indicar seis blogueiros para continuar o meme. 5 Não avisar os blogueiros indicados (essa regra não constava entre as que recebi; resolvi acrescentá-la a partir dos comentários que Gilda, que me indicou, fazia ao final da brincadeira, no blogue dela).

Já que já disse quem me indicou, vamos à brincadeira:

1 Não gosto da velocidade com que as coisas andam acontecendo no mundo. Não sou viciado em tecnologia. Não fico atrás do último lançamento de, por exemplo, celular para comprar só para ter “o da moda” e tal (botei os três num só tópico por achar que estão relacionados, ok?).

2 Só me interesso por cadernos, seções ou colunas de cultura em jornais e/ou revistas. Há determinados assuntos sobre os quais prefiro simplesmente não ler. Não chegam a me dar azia, falta é tempo e paciência mesmo. Não necessariamente nessa ordem…

3 Sou a prova viva de que casamento engorda. E isso é ótimo…

4 Concordo com o que Oscar Wilde diz em A alma do homem sob o socialismo: “A Arte nunca deveria aspirar à popularidade, mas o público deve aspirar a se tornar artístico. Há nisso uma diferença muito ampla”. Não vejo, na declaração (e menos ainda em sua reprodução), “nariz empinado”, arrogância ou arrotos de intelectualidade. E pela coisa não ser tão simples assim, penso que essa é, modestamente, uma das minhas missões, seja em blogue, jornal, papo de boteco ou qualquer outro espaço.

5 Essa podia ser juntada ao tópico anterior: em bares que têm (o acento permanece ou não nas novas regras?) minha simpatia, costumo presentear proprietários com cópias de discos com músicas que gosto, justamente na intenção de ouvi-las quando beber por lá. E mais: de que os outros ouçam, estando eu ou não. Às vezes funciona. Às vezes…

6 Não gosto de ouvir música em computador e entre os hábitos antigos que cultivo estão comprar discos e livros.

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Blogueiros indicados (em ordem alfabética): Bruna Castelo Branco, Donna Oliveira, Gisele Brasil, João Paulo Cuenca, Kamila Mesquita (aniversariante de hoje: parabéns, querida!) e Marcelo Montenegro.

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Lembro que há quase dez anos, quando comecei a usar (de modo bastante limitado) internet, eu, reles estagiário do Banco do Nordeste (valeu o aprendizado, turma! Quem sabe eu volte a ser bancário um dia…), e-mails com brincadeiras do tipo costumavam circular: questionários que perguntavam desde nome completo até idade e outras coisas impublicáveis eram recebidos e enviados quase na velocidade com que caixas autenticavam documentos.

É, gente: pura falta do que fazer, risos. Nossa programação (a)normal ainda continua interrompida… E para não participar de um meme sem saber do que se tratava: meme é, em resumo, cópia, descobri aqui.

Gildoca, valeu!

VOLTANDO…

Acabei sumindo mesmo durante o FSM. Depois conto. Voltando aos poucos, deixo vocês com o texto de ontem do Tribuna do Nordeste (que eu havia deixado pronto antes de viajar). Daqui a pouquinho as coisas voltam ao (a)normal. Até!

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ALEGRIA CONTAGIANTE

Pautada na alegria, estreia do grupo carioca Fino Coletivo alia letras inteligentes a melodias dançantes, em reinvenções de funk e samba.


[Fino Coletivo. Capa. Reprodução]

Num tempo em que na música brasileira parece impossível se dançar ao som de letras inteligentes – como se os cérebros dos ouvintes fossem incapazes de executar duas tarefas aparentemente simples ao mesmo tempo – é chegado, em Boa hora, esta estreia do Fino Coletivo, em disco homônimo (2007, Dubas Music, R$ 26,90 em http://www.mubi.com.br).

A exemplo de Wado, seu ex-integrante alagoano, a banda esteve em São Luís recentemente, por ocasião do Laboratório Internacional de Mídias Livres – o show da banda carioca aconteceu sexta-feira passada, 23, na Praça Nauro Machado (Praia Grande). Deu sorte que apesar da chuva o público se manteve fiel para vê-los/ouvi-los tocar debaixo do maior temporal, este missivista incluso.

Adriano Siri (voz), Alvinho Cabral (guitarra, violão, voz), Alvinho Lancelotti (voz), Daniel Medeiros (contrabaixo, programações, voz) e Marcus Cesar (bateria) reinventam o samba e o funk – “tarja preta”, como avisa uma das faixas, de autoria de Wado (guitarra, voz) que, como Lucas Margutti (VJ, DJ), integrava a formação que gravou o disco – e com eles a alegria. Deles e nossa.

Se a gente só reclama da falta de inteligência na música brasileira contemporânea – e em seus ouvintes, principalmente, seja em casa, na rua, no trabalho ou no coletivo –, o Fino é uma grata surpresa. Como diz a letra de Uma raiz, uma flor (Wado/ Alvinho Cabral/ Georges Bourdokan – sim, o colunista da Caros Amigos), certamente não sobre eles, mas muito apropriadamente: “não diga que as estrelas estão mortas/ só porque o céu está nublado”.

[Tribuna Cultural, 1º./2/2009]

FSM 2009

Parto daqui a pouco para Belém, onde participarei do Fórum Social Mundial 2009. Durante essa semana não sei como ficará a frequência de atualizações no blogue. Espero que se mantenha normal ou que aumente com novidades acerca dos acontecimentos por lá, “ao vivo do Pará”. Vamos ver. E até a volta.

AINDA WADO

Sob o impacto da apresentação de Wado, quinta-feira passada (22), na programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres, escrevi o texto abaixo, publicado na Tribuna Cultural, Tribuna do Nordeste, ontem (25). Adivinhem qual será o disco da semana que vem…

*

O SOTAQUE DE WADO

Artista que disponibiliza toda sua obra gratuitamente na internet passou recentemente por São Luís.

Enquanto a indústria fonográfica se ressente da vertiginosa e constante queda nas vendas, batendo cabeça, quiçá por mero desconhecimento da realidade vigente, há vida inteligente fora dos escritórios dos conglomerados.

Músicos como o jornalista alagoano (nascido em Santa Catarina) Wado são prova disso. Toda a sua obra – até aqui, quatro discos muito bons, da estreia Manifesto da arte periférica (2001) ao título mais recente, Terceiro mundo festivo (2008) – está disponível para download, gratuito e legal, em seu site http://www.uol.com.br/wado.


[Terceiro mundo festivo. Capa. Reprodução]

Curiosos mais interessados podem comprar, pelo site, Terceiro mundo festivo, original, por apenas R$ 5,00. Uma alternativa, inclusive, ao que se convencionou chamar “pirataria”. O disco, a propósito, foi inicialmente disponibilizado na internet, para só depois ser vendido, além de via web, em shows do cantor, como o que ele realizou em São Luís quinta-feira passada (22), na programação do Laboratório Internacional de Mídias Livres.

Wado cria alternativas de comercialização para sua obra (o download gratuito de seus discos tem proporcionado mais shows, por exemplo), que alia letras inteligentes com melodias “de gastar as sandálias”, algo infelizmente raro na eme-pê-bê contemporânea.

Contemporâneo, aliás, é termo que cai muito bem para Wado (voz e guitarra) e a banda que o acompanha (disco e shows) – Dinho Zampier (teclados, violão de aço e voz), Pedro Ivo Euzébio (programações), Bruno Rodrigues (contrabaixo) e Rodrigo Peixe (bateria). Eles inspiradamente executam o “brazilian eletro-funk-disco-reggaeton-afoxé” anunciado na capa. O terceiro mundo de Wado é festivo, como o nosso, ao menos enquanto dura a audição de seu(s) disco(s). E merece ganhar todos os mundos com seu sotaque, digamos, universal.

UM COLETIVO LOTADO

Ainda peguei um pedaço da mixagem do mundo com Pedro Sobrinho [Festa Mixando o Mundo, sexta-feira, 23, 19h]. A praça Nauro Machado estava movimentada para além do fato de ser sexta-feira. A programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres estava impecável.

Depois do DJ-professor, era a vez de Didã, Erivaldo Gomes e a Fogo, Cordas e Tarraxas animarem o público ao som de hits já conhecidos, de tão ouvidos n’A vida é uma festa! e no rádio, via seus bons discos [Amor brotando, dela; Pensamentos drobados (sic), dele]. Fiquei bebericando uma cachaça com canela, prevendo que teria que estar aquecido, caso a chuva caísse: O céu escuro anunciava, forte, para logo mais.

Outros preferiam aquecer-se de outra maneira: correndo pela praça feito crianças. Até onde vi, a brincadeira era inocente e se dava entre íntimos. Não sei se estou certo, se vi (de) tudo. Afinal de contas, estava ali para assistir aos shows. O fato é que, a polícia, por um motivo ou outro, recolheu uma turma para seu trailer, instalado na calçada da Câmara Municipal de Vereadores. Bom, recolher não chega a ser eufemismo, mas oculta o que de fato os policiais faziam: algemavam os adolescentes, davam-lhes socos, tapas e “bicudos” (chutes) nas costas. Em homens que já não podiam reagir.


[Policiais torturavam adolescentes ao vivo, em cores e sob a chuva. Foto: Zema Ribeiro]

Cesar Teixeira já estava no palco – e certamente não viu isso, pois, conhecendo o seu temperamento como eu modéstia a parte conheço, teria dito umas poucas e boas aos policiais – quando a chuva desabou. Ficamos eu, Reuben e Bruno sob a chuva, enquanto minha esposa e Graciane foram se proteger sob a aba do trailer da polícia. Qual não foi a surpresa delas – e nossa – quando os fardados retiraram de lá os adolescentes e jogaram sob a chuva: “Te molha aí pra aprender o que é bom, vagabundo!”, ou coisa que o valha, diziam. Não sem mais tapas, socos e pontapés.

Revoltadas, as meninas argumentaram corretamente que este não é(ra) papel da polícia, sendo retrucadas por algum babaca que dizia que “por causa de gente como vocês é que existe esse tipo de marginais”, ou coisa que o valha. Penso que é por conta de policiais e de pessoas (com pensamentos) assim que as coisas andem do jeito que (des)andam.


[Cesar Teixeira: artista e público se confundindo. Foto: Zema Ribeiro]

A chuva caía ainda mais grossa e antes que a confusão piorasse, saímos dali para o palco, onde à beira, o público não pequeno tentava se proteger da chuva. Cesar Teixeira, vendo a agonia, deixou que artista e público se misturassem sobre o palco: “podem subir”, autorizou. O forró comia solto quando a produção temeu pelo desabamento do palco – risco iminente. “Vamos cair na chuva, que quem tem medo de morrer não nasce”, Moisés Nobre pedia que a turma descesse. Ordem obedecida, não sem um pouco de demora. O jornalista compositor mandou Boi da Lua, anunciando sua saideira: “Vamos encerrar que a turma tem que puxar um fino para pegar o voo”.

Depois era a vez do Fino Coletivo subir ao palco e mandar hits de seu primeiro e ótimo disco. A turma contagiou os molhados. Experiência inédita para a banda: “Essa vai entrar pra nossa história”, disseram. Certamente para muitos ali também: o blogueiro nunca esteve tão ensopado para ver show de artista nenhum. “Nunca antes” na história.


[Fino Coletivo. Capa. Reprodução]

A chuva de matar sapo não permitia que ninguém acendesse um fino, particular ou coletivo. Nem arrisquei tirar a pessimáquina fotográfica do bolso. Temia por vê-la estragada, de tão molhada que estava minha roupa. Estávamos encharcados até a alma: água e boa música. “Minha língua é um copo d’água na tua boca de dragão”. Água, boa música e cachaça com chuva – já não havia como proteger o copo – o corpo, há muito estava desprotegido.

Os ladrilhos da praça nos seguraram em momentos de tarja preta sem receita, “esse funk é tarja preta/ remédio forte/ esse samba é tarja preta/ remédio forte”. O Fino Coletivo – como Wado, seu ex-integrante, que tocou na noite anterior –passou por São Luís em Boa hora. Que voltem logo!

WADEANDO

A primeira lembrança que tenho de Wado é de Cinema auditivo, disco que milagrosamente consegui comprar em alguma finada loja de discos em São Luís (se você mora na capital maranhense e tem – ou tinha – o hábito de comprar discos, sabe do que estou falando).

Lembro da dúvida: seria ele pernambucano?, por conta da música que evocava o mangue(-beat), mas não entregava o ouro. Não se tratava de mero discípulo de Chico Science e cia., mas foi certamente influenciado por ele(s). Wado, descobri tempos depois, é catarinense de nascimento, há muito radicado em Alagoas.

Há quase três anos, nos topamos num encontro do Overmundo, quando éramos “correspondentes” do site em nossos estados. Fizemos amizade. De uns dias para cá não sai do cd-player seu Terceiro mundo festivo, mais recente trabalho do moço, disponível, como todos os seus outros títulos, para download em seu site.


[o blogueiro tietando, após a passagem de som. Foto: Danielle Moreira]

Mas o que já é muito bom em disco, ganha ainda mais força ao vivo, deixemos meus preâmbulos de lado. A apresentação de Wado e banda, ontem (22), na programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres foi simplesmente sensacional. Música dançante aliada a letras inteligentes, coisa cada vez mais rara na dita eme-pê-bê.


[Terceiro Mundo Festivo. Capa. Reprodução]

Wado ficou contente com o convite e eu, como membro da Comissão Organizadora do Laboratório, também curti a disponibilidade, a seriedade do trabalho, a postura do moço, cuja formação – o compositor é jornalista – por si só já justificaria sua participação na programação. Músicas como Reforma agrária do ar (Wado/ Adriano Siri/ Pedro Ivo Euzébio), que versa protesto contra “o latifúndio das ondas do rádio”, como diz a própria letra, mais ainda.

Uma inversão o fez subir ao palco antes das atrações locais – Lena Machado e Choro Pungado e as bandas, que não vi, Pedra Polida e Kazamata: Wado sairia literalmente voado pelo circuito palco/autógrafos-hotel-aeroporto. Seu voo de volta a Alagoas não demoraria a decolar, ele já precisava estar no trampo hoje, não deu para negociar outra folga. Tipo o blogueiro.

Sobre as duas apresentações que presenciei, só ouvi elogios: a caixa de comentários aí embaixo está aberta, não só a eles, à vontade.

Numa das músicas que Wado cantava sem tocar, deixei um bilhete sobre a guitarra, no chão do palco. Lembrava-lhe de anunciar que estava com discos para vender – só R$ 5,00 – e dos downloads em seu site. Uma amiga, também jornalista, se/me perguntou: “ele é jornalista, vende discos a cinco reais e os discos podem ser baixados de graça. Ele vive do quê?”.

De nos fazer felizes, resposta possível. Para quem perdeu o imperdível, outra chance de ver algo imperdível, reforço: hoje tem Fino Coletivo, depois do DJ Pedro Sobrinho (20h; “obrigado pelo Wado, Zema!”, ele me disse), Erivaldo Gomes, Didã e Cesar Teixeira – também compositor jornalista.

INÉDITOS

WADO E FINO COLETIVO PELA PRIMEIRA VEZ EM SÃO LUÍS

O cantor alagoano e a banda carioca tocam pela primeira vez na capital maranhense, dentro da programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres.

A programação do Laboratório Internacional de Mídias Livres, que acontece em São Luís de hoje (22) até sábado (24) será completamente marcada pelo ineditismo. O encontro discutirá alternativas e estratégias de comunicação, na perspectiva de garantir o acesso democrático à comunicação, algo ainda distante no país, apesar da garantia constitucional desse direito. A idéia é a criação de um laboratório permanente, reunindo profissionais, professores, estudantes e curiosos em geral.

A programação cultural segue a mesma trilha e também trará à São Luís nomes importantes do cenário alternativo nacional. Além das atrações locais, todas com alguma ligação com a temática do evento pioneiro.

Hoje (22), a partir das 22h, na Praça Nauro Machado, onde se concentrará a programação cultural do Laboratório Internacional de Mídias Livres, sobem ao palco a Banda Pedra Polida, Lena Machado e Choro Pungado, Banda Kazamata e o alagoano Wado.

Amanhã (23), a festa começa mais cedo, no mesmo local. Às 19h o palco estará livre para bandas e/ou artistas que desejem mostrar seu trabalho. Interessados em participar devem se inscrever pelo site http://www.laboratoriodemidiaslivres.org. Às 20h, o DJ Pedro Sobrinho comanda as pick-ups na festa Mixando o Mundo. E a partir das 22h acontecem shows de Erivaldo Gomes e Didã, Cesar Teixeira e a banda carioca Fino Coletivo.

WADO – Catarinense de nascimento, Wado reside em Alagoas, onde trabalha na imprensa. De influências várias – o funk, o afoxé, o reggaeton – tem construído sua obra, cujo título mais recente é Terceiro mundo festivo (2008), disponível para download (legal) em seu site, http://www2.uol.com.br/wado.


[Wado. Foto: divulgação]

As periferias do mundo têm produzido música com quase nada de matéria prima. É a seca do sertão juntada a microfones baratos, estúdios caseiros, pouco conhecimento técnico, mas muita vontade e urgência. Entre os títulos de sua discografia há um Manifesto da arte periférica (2001, sua estréia).

Wado já participou do Tim Festival, Projeto Pixinguinha (da Funarte) e de festivais pela Europa. A caravana por ele integrada no Pixinguinha foi escolhida para representar o Brasil quando das comemorações do Ano do Brasil na França, em 2005. O artista tocará em São Luís pela primeira vez, justo no Ano da França no Brasil, 2009.

FINO COLETIVO – Mais que uma banda, o Fino Coletivo é uma reunião de artistas. Com um cd lançado, o homônimo Fino Coletivo já coleciona hits e fãs. Atualmente é formado por Adriano Siri (voz), Alvinho Cabral (guitarra, violão e voz), Alvinho Lancelotti (voz), Daniel Medeiros (baixo, programações e voz) e Marcus Cesar (bateria).


[Fino Coletivo. Foto: divulgação]

O Fino já teve Wado como integrante, mas a distância geográfica entre o Rio de Janeiro da banda e a Alagoas do compositor-jornalista levou-os a trilhar caminhos não tão distintos assim: ambos continuam fazendo boa música. Sorte a nossa.

Bebendo em várias influências, somadas umas às outras, cada integrante trouxe as suas, o Fino Coletivo passeia com desenvoltura e qualidade, principalmente por funk e samba. Parte do repertório do primeiro cd da banda pode ser ouvido em http://www.myspace.com/finocoletivo. O site oficial, com maiores informações, é http://www.finocoletivo.com/. Também é a primeira vez que eles vêm à São Luís.

O Laboratório Internacional de Mídias Livres é uma realização da Universidade Federal do Maranhão, Ministério da Cultura, Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, FAPEMA e diversas organizações da sociedade civil. A programação completa do Laboratório Internacional de Mídias Livres pode ser acessada pelo site http://www.laboratoriodemidiaslivres.org ou pelo blogue http://laboratoriodemidiaslivres.blogspot.com.

[Texto do blogueiro publicado no site da Secma e distribuído aos meios de comunicação maranhenses]

A TUA CABE?

Tudo é extremamente real em Nossa vida não cabe num Opala, filme brasileiro que obteve relativo sucesso no cenário alternativo, ano passado. Talvez o excesso de álcool incomode certos puristas. É bom que saibam que existem pessoas assim, de verdade.

Essa realidade nua e crua é o que há de melhor no filme: a história de irmãos ladrões de carros que precisam continuar no ofício para honrar uma dívida do pai falecido com um mafioso de desmanches, saga de tragédia e chantagem geração após geração, maldição (?). As vidas dos ladrões, “coisas” pelas quais, às vezes, não damos o mínimo valor.

O filme, no entanto, não tenta nos passar lições de moral, ao menos não no sentido formal, “moral da história” ao pé da página. Mas chega a incomodar – e este é um bom sentimento para durar além das letras subindo ao final.

Adaptação da peça Nossa vida não vale um Chevrolet, de sua autoria, o dramaturgo Mário Bortolotto não gostou do resultado final, segundo depoimentos em seu blogue, o Atire no Dramaturgo. Bortolotto, aliás, aparece tranqüilo, bebendo num boteco, numa das cenas.

Leonardo Medeiros (Lavoura Arcaica) é Monk, o filho mais velho que deseja honrar Oswaldão, o pai falecido. Medeiros se sai bem como protagonista: é, a contragosto, exemplo para Slide (Gabriel Pinheiro), que também por conta da dívida do pai vai lutar boxe – ofício abandonado por Monk: “Eu queria mesmo era ser ladrão”, o irmão mais novo confessa a admiração pelo mais velho.

O elenco conta ainda com nomes como Jonas Bloch, Milhem Cortaz (Tropa de Elite), Maria Manoella (Crime delicado), Maria Luiza Mendonça, Paulo César Pereio, o pugilista Maguila e Dercy Gonçalves – sua última aparição no cinema, recheada de palavrões.


[Dercy disparando palavrões em sua última aparição no cinema. Foto: divulgação]

Reinaldo Pinheiro saiu-se muito bem em sua estreia como diretor. Por trás, uma trilha sonora impecável, a cargo do Maestro Amalfi e Mário Bortolotto. Somada à bem trabalhada fotografia, cria um clima diferente do que é comumente visto no cinema nacional.

Eu recomendo: Nossa vida não cabe num Opala está em cartaz no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com sessões às 16h, 18h30min e 20h30min. Os ingressos custam R$ 4,00 e R$ 2,00 (para estudantes com carteira e pessoas com mais de 60 anos; para todos, aos domingos).