O BALAIO DE BOGÉA

Parceiro menos conhecido – mas não menos importante – de Antonio Vieira, o compositor maranhense Lopes Bogéa tem parte do reconhecimento merecido quase quatro anos após seu falecimento, em 13 de dezembro de 2004, quando já estava em curso o projeto de registrar suas composições em disco. Zeca Baleiro, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro, Celson Mendes e João Pedro Borges fizeram diversas gravações na casa do compositor, antes de sua subida. Balançou no congá (2007) finalmente ficou pronto e foi lançado pelo Saravá Discos, que tem posto nas prateleiras, em pequenas tiragens, discos importantes, como o póstumo Cruel, de Sérgio Sampaio, e Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio, onde o autor de Vô Imbolá musicou poemas da falecida poeta paulista Hilda Hilst, com a participação de dez cantoras brasileiras. O selo de Zeca Baleiro também devolveu às prateleiras o esgotado O samba é bom, “estréia” ao vivo de Mestre Vieira, de 2001.


[Reprodução capa Balançou no congá]

Balançou no congá, o disco, traz 17 faixas, pequena amostra dum universo de mais de 300, em sua maioria inéditas. Artista multimídia quando a expressão sequer existia, Lopes Bogéa foi jornalista, radialista, poeta e compositor. Autor de vários livros, entre eles o clássico Pedras da rua (1988), onde contava pequenas histórias de loucos que andavam por ruas, becos e ladeiras ludovicenses, o vimarense já havia soltado a voz em ocasiões anteriores: em 1986 participou do compacto Velhos Moleques, com Antonio Vieira, Cristóvão Alô Brasil e Agostinho Reis. Dois anos depois, lançou, com seu parceiro em Balaio de Guarimã (no disco interpretada por Cesar Teixeira e Josias Sobrinho), o livro e o vinil Pregões de São Luís e Pregoeiros, reeditado em cd dez anos depois.

Em Balançou no congá, Alcione, Beth Carvalho, Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões), Genival Lacerda, Germano Mathias, Josias Sobrinho, Rita Ribeiro, Tião Carvalho e o próprio Zeca Baleiro embebem-se e embebedam-nos da poesia de Lopes Bogéa, de uma beleza e simplicidade que não se contradizem: o simples é o belo. O próprio Bogéa solta a voz em sete faixas, sendo três vinhetas. É ele quem convida, em Balaiei, sim, faixa de abertura do disco: “Vamo balaiar, menino! Oxente!”. Segue-se um desfile de importantes nomes da música brasileira por sambas, baiões, carimbós e toadas que bem poderiam ser clássicos dessa tal MPB, tivessem sido compostas nalgum lugar que não o Maranhão.

Aliás, de Maranhão, o homem tinha muito: coincidência ou não, João Batista Lopes Bogéa nasceu em 1926, no dia do santo que lhe deu nome, no povoado Jericó, município de Guimarães, interior do estado. A festa corria solta na terra do boi de zabumba. Figura plural, o tempo dedicado à música foi o mesmo dedicado, por exemplo, à caridade: durante meio século foi Diretor de Patrimônio do Asilo de Mendicidade. Em 1954, compôs sua primeira música, Manchete de jornal. Era um exímio cronista e suas composições não fogem disso. Bons exemplos são Eu sou do apartamento aqui de baixo (no disco interpretada por Germano Mathias), que narra uma briga de vizinhos, Papai Noel do rico e do pobre (por Chico Saldanha), que a seu modo trata da segregação social, e Produto de gafieira (por Criolina, no disco antecedida de vinheta na voz do próprio compositor), sobre namoricos em festas, mais uma vez o velho moleque se antecipando, o “fica”, quando ele ainda não era falado.

Certos artistas talvez não sejam seres humanos “normais”: ou são anjos ou são loucos. Bogéa devia ser um anjo louco. Como os que ele pintou nas páginas do citado Pedras da rua, ele mesmo um deles. Uma pedra rara, como bem disse Cesar Teixeira no texto de apresentação de Balançou no congá.


[Lopes Bogéa com o parceiro Antonio Vieira, Tereza Cantu e Joãozinho Ribeiro na edição de 15 de outubro de 2004 da Serenata dos Amores, quando o primeiro foi homenageado com o Troféu Zé Pequeno. Foto: Gilson Teixeira]

Serviço

Logo mais, às 19h, na Casa de Nhozinho (no pátio da entrada pela Rua de Nazaré), acontecerá o lançamento de Balançou no congá, com entrada franca. Estão confirmadas as presenças de Antonio Vieira, Cesar Teixeira, Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões), Erivaldo Gomes, Josias Sobrinho, Luiz Cláudio, Luiz Jr., Patativa e Zeca Baleiro. Outras figuras devem aparecer. Não se trata de um show. Será uma roda informal, como bem gostava de fazer em vida o saudoso Lopes Bogéa: um encontro de amigos para cantar e tocar descompromissadamente. Certamente algo quase tão gostoso quanto levar a menina ao pomar para comer Sapoti.

CADÊ JOTABÊ?

Ao clicar no link que me levaria ao blogue de Jotabê Medeiros, fui parar em http://www.estadao.com.br/blogs, com um grupo de blogues do Estadão. Bateu um desespero, onde está o jornalista?, alguém aí sabe responder?

ATENTEM, TURMA!

Depois da Lei Seca (ver posts abaixo), era só o que me faltava! Já pensou? Em breve eu poder ser preso por blogar?

Penduro abaixo, na íntegra, um e-mail que recebi da querida professoramiga Larissa Leda, que trata de um Projeto de Lei que acaba com o uso livre da internet. Diminuí a freqüência cá no blogue, né? Tempo, meus caros. Não li a íntegra do PL, mas a carta que Larissa me passou vem assinada por gente séria (e é endossada por gente como ela). Leiam-na toda e participem, assinando a petição online para onde ela aponta (eu já assinei). Quem for blogueiro, multiplique. Quem não for, também, do jeito que der.

E, meus caros, estamos em ano de eleições. Municipais, mas eleições. É bom pensar bem, mas muito bem mesmo, antes de ir às urnas.

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———- Forwarded message ———-
From: Larissa Leda Rocha
Date: 2008/7/7
Subject: Movimento contra o Projeto de lei contra uso livre da Internet.

Movimento contra o Projeto de lei do senador Eduardo Azeredo que, se aprovado, no próximo dia 9 de julho, vai acabar com o uso livre da Internet. Existe uma petição online, para quem quiser assinar, disponível em http://www.petitiononline.com/veto2008/petition.html

Quem puder, por favor, divulgue.

EM DEFESA DA LIBERDADE E DO PROGRESSO DO CONHECIMENTO NA INTERNET BRASILEIRA

A Internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro. Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social do século XX. Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de criação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais. A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento e da sobrevivência da Internet.

A Internet é uma rede de redes, sempre em construção e coletiva. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento.

O uso dos computadores e das redes são hoje incontornáveis, oferecendo oportunidades de trabalho, de educação e de lazer a milhares de brasileiros. Vejam o impacto das redes sociais, dos software livres, do e-mail, da Web, dos fóruns de discussão, dos telefones celulares cada vez mais integrados à Internet. O que vemos na rede é, efetivamente, troca, colaboração, sociabilidade, produção de informação, ebulição cultural. A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial. A Internet representa, ainda que sempre em potência, a mais nova expressão da liberdade humana.

E nós brasileiros sabemos muito bem disso. A Internet oferece uma oportunidade ímpar a países periféricos e emergentes na nova sociedade da informação. Mesmo com todas as desigualdades sociais, nós, brasileiros, somo usuários criativos e expressivos na rede. Basta ver os números (IBOPE/NetRatikng): somos mais de 22 milhões de usuários, em crescimento a cada mês; somos os usuários que mais ficam on-line no mundo: mais de 22h em média por mês. E notem que as categorias que mais crescem são, justamente, “Educação e Carreira”, ou seja, acesso à sites educacionais e profissionais. Devemos assim, estimular o uso e a democratização da Internet no Brasil. Necessitamos fazer crescer a rede, e não travá-la. Precisamos dar acesso a todos os brasileiros e estimulá-los a produzir conhecimento, cultura, e com isso poder melhorar suas condições de existência.

Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral. O Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários, colocando cada um como provável criminoso. É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o projeto Substitutivo do Senador Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos. Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão. Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância.

Se, como diz o projeto de lei, é crime “obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida”, não podemos mais fazer nada na rede. O simples ato de acessar um site já seria um crime por “cópia sem pedir autorização” na memória “viva” (RAM) temporária do computador. Deveríamos considerar todos os browsers ilegais por criarem caches de páginas sem pedir autorização, e sem mesmo avisar aos mais comum dos usuários que eles estão copiando. Citar um trecho de uma matéria de um jornal ou outra publicação on-line em um blog, também seria crime. O projeto, se aprovado, colocaria a prática do “blogging” na ilegalidade, bem como as máquinas de busca, já que elas copiam trechos de sites e blogs sem pedir autorização de ninguém!

Se formos aplicar uma lei como essa as universidades, teríamos que considerar a ciência como uma atividade criminosa já que ela progride ao “transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado”, “sem pedir a autorização dos autores” (citamos, mas não pedimos autorização aos autores para citá-los). Se levarmos o projeto de lei a sério, devemos nos perguntar como poderíamos pensar, criar e difundir conhecimento sem sermos criminosos.

O conhecimento só se dá de forma coletiva e compartilhada. Todo conhecimento se produz coletivamente: estimulado pelos livros que lemos, pelas palestras que assistimos, pelas idéias que nos foram dadas por nossos professores e amigos… Como podemos criar algo que não tenha, de uma forma ou de outra, surgido ou sido transferido por algum “dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular”?

Defendemos a liberdade, a inteligência e a troca livre e responsável. Não defendemos o plágio, a cópia indevida ou o roubo de obras. Defendemos a necessidade de garantir a liberdade de troca, o crescimento da criatividade e a expansão do conhecimento no Brasil. Experiências com Software Livres e Creative Commons já demonstraram que isso é possível. Devemos estimular a colaboração e enriquecimento cultural, não o plágio, o roubo e a cópia improdutiva e estagnante. E a Internet é um importante instrumento nesse sentido. Mas esse projeto coloca tudo no mesmo saco. Uso criativo, com respeito ao outro, passa, na Internet, a ser considerado crime. Projetos como esses prestam um desserviço à sociedade e à cultura brasileiras, travam o desenvolvimento humano e colocam o país definitivamente para debaixo do tapete da história da sociedade da informação no século XXI.

Por estas razões nós, abaixo assinados, pesquisadores e professores universitários apelamos aos congressistas brasileiros que rejeitem o projeto Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo ao projeto de Lei da Câmara 89/2003, e Projetos de Lei do Senado n. 137/2000, e n. 76/2000, pois atenta contra a liberdade, a criatividade, a privacidade e a disseminação de conhecimento na Internet brasileira.

André Lemos, Prof. Associado da Faculdade de Comunicação da UFBA, Pesquisador 1 do CNPq.

Sérgio Amadeu da Silveira, Prof. do Mestrado da Faculdade Cásper Líbero, ativista do software livre.

João Carlos Rebello Caribé, Publicitário e Consultor de Negócios em Midias Sociais

QUER ALHO?

Receita

Pão de alho

Ingredientes: pães franceses, entre meio e um dente de alho para cada pão, a depender do gosto do freguês; aproximadamente 10g de manteiga por pão; queijo ralado e orégano a gosto.

Modo de preparo: socar o alho e misturar à manteiga, queijo ralado e orégano, mexendo bem até obter uma pasta homogênea. Cortar os pães ao meio (conforme a figura) e passar a pasta no lado interno. Levar ao forno até dourar.

OFICINAS

A edição 2009 do Programa BNB de Cultura, com inscrições abertas desde 1º. de julho, destinará 3 milhões de reais para patrocínio a projetos culturais na área de atuação do Banco: região Nordeste, além de norte de Minas Gerais e Espírito Santo.

Para prestar maiores esclarecimentos, tirar dúvidas etc., realizará diversas oficinas sobre o prêmio. Na capital maranhense, a oficina acontece nesta segunda-feira (7), às 8h, no Auditório da Faculdade São Luís (Rua Osvaldo Cruz, 1455, Canto da Fabril, Centro).

Interessados em participar devem confirmar presença pelos telefones (98) 3218-9962, 3218-9672 e/ou e-mail rosaline@bnb.gov.br

Mais detalhes e informações sobre o edital na página do Banco na internet. Sobre as oficinas no Maranhão (serão quatro: além de São Luís, acontecerão em Barra do Corda, Chapadinha e Zé Doca), no convite abaixo.

TIROS CERTEIROS

“Se eu conseguisse ir até o banheiro pegaria uma toalha para pendurar na frente desta TV desgraçada, pelo cheiro posso sentir que está passando o noticiário”.

Hunter S. Thompson, Screw Jack

*

“Precisamos de mais mestres discretos e menos astros exibidos. Jornalismo e gramática não são show. A cobertura do caso da menina esborrachada, aqui, nos nauseia tanto quanto a do menino ralado, lá no Rio, e também estou enjoado de ouvir aquelas bobagens do “risco de morte” ou da “presidenta” na tevê”.

Glauco Mattoso, em sua Porca Miséria na Caros Amigos de junho (nº.135, com Ney Matogrosso na capa)

PROIBIDO ESTACIONAR! A BELEZA LUDOVICENSE AGRADECE

Lembro, com uma saudável dose de saudade, das inúmeras vezes em que almocei ou apenas bebi nO Bacana, como apelidamos o Recanto das Flores, tradicional quitanda, hoje finada, na esquina da Cândido Ribeiro com outra rua que não sei o nome. Bacana era o apelido do bonachão Antonio Carlos Alves Rocha, proprietário do local, ao que parece, a ele alugado à época.

Lembro de nos sentarmos a uma mesa, na calçada – e de fazer malabarismos quando o carro do lixo passava: a rua estreita, carros estacionados, os pneus do lado direito do caminhão não raro subiam o calçamento, todo irregular, mesa geralmente em falso, um dos pés apoiado em um ou outro objeto, geralmente a tampinha da primeira garrafa aberta ou algo que o valha.

Lembro de Vinicius – salvo engano é esse o nome do então moleque –, filho do artista Édson Mondego, à época vizinho dO Bacana. Lembro de minhas primeiras incursões num arremedo informal de jornalismo, quando um e-mail no dia seguinte – passado aos que comigo bebiam ali, quase diariamente, a cerveja que nos aliviava o stress após mais um dia de trabalho puxado – contava as peripécias daquela turma. Lembro do recorde quebrado quando as torres gêmeas foram derrubadas: em 11 de setembro de 2001, em meio a comentários sobre o dia em que a ficção se tornou realidade – digo, houve quem pensasse que os aviões entrando no World Trade Center eram um filme fora de hora, invadindo a programação matinal, em geral voltada ao público infantil –, bebemos a grade de cerveja mais ligeira da história daquela humanidade.

Tantas lembranças e eu me deparava, todos os dias úteis em que por ali passo a pé, com as placas de venda, dois números de telefone para contato, penduradas nas fachadas do antigo Bacana e da casa vizinha, outrora de Mondego. De primeira, uma idéia correu-me ligeira: alguém comprar aquilo e reeditar O Bacana. Quem se atreveria? Segui meu caminho e sequer tive a curiosidade de ligar para saber os preços. O espaço careceria de grande reforma, sem dúvidas.

Algum tempo depois, as placas de venda já não mais estavam penduradas. Vi janelas serem lacradas, telhado derrubado e por uma porta aberta, via homens trabalhando no interior das duas casas, tornadas uma apenas.

Sem perguntar – eu não queria perguntar, por já ter certeza da resposta –, descobri: o antigo Bacana virará estacionamento. Como outro, a poucos metros, em frente à Pousada Cristo Rei, onde ainda hoje, vez em quando almoço.

Sem a devida atenção, “acompanhei” – entre aspas mesmo – algumas broncas sobre esses crimes contra o patrimônio (ver, por exemplo, O Estado do Maranhão de hoje). Penso que devem ser punidos com todo o rigor. Ora, derrubar é mais fácil que construir. Estacionamento é negócio altamente rentável: você não constrói nada – ao contrário! –, e ganha por hora (ou por dia). E o Centro Histórico de São Luís, Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, transforma-se num deserto sem beleza, ocupado por máquinas barulhentas (seja pelos próprios motores, seja pelos porta-malas abertos), como na ficção em que pensei em escrever, já desnecessária.

CHUVEIRADA

Jane Deluc, que já trabalhou na produça da finada Lasciva Lula, mandou-me e-mail divulgando essa festa. Achei massa e compartilho com vocês.

DE DO(LO)RES E ELEGÂNCIA

“Não me toquem nessa dor/ ela é tudo o que me sobra/ sofrer vai ser a minha última obra”. Os versos dos gigantes Itamar Assumpção e Paulo Leminski, sempre mestres, monstros de nossa música-poesia, bem poderiam ser de Dolores Duran, mulher que já carregava o sofrer no nome (artístico. O de batismo era Adiléia da Silva Rocha).

Dor e noite eram as personagens mais freqüentes na paisagem de sua obra (não a última: a única), de onde o produtor Thiago Marques Luiz (com direção musical de Ronaldo Rayol) pescou as 21 faixas do longo tributo Dolores – A Música de Dolores Duran [Lua Music, 2007], disco “dedicado à Marisa Gata Mansa (1933-2003), a grande intérprete de Dolores Duran”, esta, nascida em 1930 faleceu aos 29 anos.


[Capa. Reprodução]

Sobre a compositora, Roberto Nogueira, em A noite de Dolores, texto de apresentação do precioso resultado sonoro, escreve: “Os que conviveram com ela sabiam de sua alegria de viver, apesar do casamento fracassado, de não ter tido filhos, do coração frágil e da sua música que dilacerava até a alma”.

Afastem navalhas e objetos cortantes: “Olha, você vai embora/ não me quer agora/ promete voltar/ hoje você faz pirraça/ e até acha graça se me vê chorar”. “Se eu soubesse/ naquele dia o que eu sei agora/ eu não seria este ser que chora/ eu não teria perdido você”. “Ai, a solidão vai acabar comigo/ ah, eu já nem sei o que faço, o que eu digo/ vivendo na esperança de encontrar/ um dia um amor sem sofrimento”. “Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar/ há um adeus em cada gesto, em cada olhar/ mas nós não temos é coragem de falar”.

Acima, pequena amostra do universo das dores de Dolores. Trechos de Olha o tempo passando (parceria dela com Edson Borges), Castigo, Solidão e Fim de caso, pérolas belamente interpretadas por Célia, Fagner, Paulinho Moska e Wanderléa (completam a lista de intérpretes: Leila Pinheiro e João Carlos Assis Brasil, Fafá de Belém, Zezé Motta, Vânia Bastos, Alaíde Costa, Claudette Soares, Tetê Espíndola, Claudia Telles e Tito Madi, Pery Ribeiro, Cida Moreira, Leny Andrade, Fátima Guedes, Carlos Navas, Dóris Monteiro, Jane Duboc e Keco Brandão, Toni Platão e Denise Duran, irmã da homenageada).

Parceira de Tom Jobim (por exemplo em Estrada do sol, que ganhou tempero pop quando Zeca Baleiro usou-a como incidental de sua Telegrama), Dolores Duran é, injustamente, quase sempre reconhecida apenas por sua belíssima A noite do meu bem (já gravada por, entre muitos outros, Tom Zé), que abre o tributo na voz de Leila Pinheiro (acompanhada ao piano por João Carlos Assis Brasil).

O disco dói e, por alguns instantes, sofrer é bom. Transporto-me a uma paisagem elegante, noite num filme em preto e branco: bebo e choro num balcão de bar. Delicio-me com a elegância da obra (e a beleza das fotos do encarte, acrescente-se) que Dolores Duran construiu com seu sofrer. Não poderia ser menos que encantadora, pois, esta homenagem que lhe prestam.

LEI SECA

Achei meio (meio?) exagerada a lei 11.705, publicada no Diário Oficial da União do último dia 20 de junho, que dispõe sobre a proibição total da ingestão de bebidas alcoólicas por motoristas (antes de dirigir, diga-se).

Vá lá, conheço bem os malefícios do álcool e se fosse contar histórias, lembraria rapidamente de dúzias delas: acidentes, mortes e o diabo a quatro e a catorze. Mas não creio que duas latas de cerveja façam mal a ninguém. Conheço péssimos motoristas que sequer bebem.

Não, não estou fazendo apologia ao álcool ou a dirigir embriagado.

Gostaria que fosse diferente, mas pensem comigo: isso não gerará uma altíssima carga, uma indústria, digamos, de propina? Sim, sairá bem mais barato molhar a mão de guardas e agentes com, sei lá, cinqüenta reais, que pagar uma multa de mais de 900, além da perda da carteira.

Sobre álcool, acho ridículo, para dizer o mínimo, a proibição da venda de bebidas alcoólicas próximo a estádios de futebol, por exemplo. Parece que dessa já recuaram, não é Susalvino?

Outra ridicularidade anti-alcoólica é a lei seca que impera em dia de eleições. Gosto de votar e dia de eleição para mim é feriado. Vou votar, sempre. E o resto do dia, eu fico fazendo o quê? Manter a lucidez para votar? O que tem de gente que cumpre a lei e vota mal não ‘tá escrito.

Bom, depois dessas, só tomando uma (sem dirigir depois, é claro!). Ou rindo com o sempre ótimo Tulípio. Fiquem com ele!

MOINHO DE ROSAS, PÉTALAS, PÉROLAS, CANÇÕES

Datas redondas, naturalmente, evocam celebrações das mais diversas. 2008 é repleto delas, uma, o centenário de nascimento de Cartola (1908-1980), dos mais geniais compositores brasileiros em todos os tempos.

Tributos ao bamba de Mangueira certamente pipocarão aos montes, ao longo do ano. Corrijo-me: tributos ao bamba mangueirense têm pipocado aos montes. Já ouvi falar de alguns, por vezes meros caça-níqueis.

Por fora da onda, da “moda”, merece especial atenção, pela qualidade no trato das canções de Angenor [Lua Music, 2008] – nome de batismo de Cartola que acabou por batizar o projeto –, de Cida Moreira.


[Capa. Reprodução. Clique sobre para comprar o disco]

O repertório não fugiu dos clássicos – estão lá Alvorada, Cordas de aço, O mundo é um moinho, Sim – mas trouxe canções menos óbvias do repertório do homenageado: A canção que chegou, Evite meu amor e Feriado na roça, entre outras.

A bela voz de Cida Moreira tem o acompanhamento dos violões de Camilo Carrara (cavaquinho em Acontece e Sala de recepção) e Omar Campos (baixo elétrico em Sim, viola caipira em Feriado na roça), da percussão de Adriano Busko e do contrabaixo de Renato Loyola, com participações especiais ali e acolá: Julia Porto (voz em Alvorada), Chiquinho de Almeida (clarinete em A canção que chegou e Acontece), Oswaldinho (acordeon em Feriado na roça), Marcelo Fonseca (voz em O silêncio de um cipestre) e Toninho Carrasqueira (flauta em O inverno do meu tempo), entre outras.

Cantora experiente – seu primeiro disco é de 1981 –, já com outros tributos na bagagem (Brecht em 1988 e Chico Buarque em 1993, além de Na trilha do cinema, de 1997), Cida Moreira está à vontade nas canções de Cartola, que, no caso, não ganham tão somente uma nova gravação, embora a cantora se poupe (e aos ouvintes) de quaisquer exageros.

Simples e eficiente, plástica e musicalmente. Belo, enfim. Singelo como a própria obra de Cartola. Angenor, o disco de Cida Moreira é, sem dúvidas, um tributo à altura da genialidade desse grande mestre de nossa música popular.

CHUTE(S) NO(S) CONSUMIDOR(ES)

Detesto lojas em que vendedores/as brigam entre si. E o comércio ludovicense está empestado delas, a Vidal um exemplo clássico: é quase certo eu ver uma discussão “pública” entre vendedores/as todas as vezes em que vou ali.

Sábado, entro no Varejão dos Calçados, apenas acompanhando minha namorada, que iria comprar uma sandália – acabei saindo com um par de tênis e ela com dois pares de calçados, adianto-lhes o fim da história.

Entramos na loja e Fulana (como chamaremos a primeira vendedora que nos abordou) oferece-nos seus préstimos. “O preço que vale é o da placa”, ela diz, avisando-nos que mesmo que o preço na peça fosse maior, valia, óbvio, o menor. Continuamos olhando e minha namorada não se decidia. Quando se decidiu, Beltrana (como chamaremos uma segunda vendedora) foi buscar o que lhe foi solicitado e efetuou-nos a venda. Fulana, sem se conter – e uma discussão envolvendo duas outras Cicranas já tinha rolado – ainda nos abordou: “vocês não me procuraram”. O ó, como dizem. É claro que há lojas – de discos, quando elas existiam, por exemplo – em que prefiro ser atendido por um vendedor específico: ele já sabe meu gosto, já me indica um lançamento etc.; numa loja de sapatos, não é(ra) o caso.

Após um contato entre uma loja e outra, por telefone, ainda armaram uma troca, já que eu havia trazido um tênis que não chegaria a ficar apertado, mas também não é o necessariamente confortável para quem, como eu, costuma caminhar algo em torno de três quilômetros diários (divididos em três fatias). Cheguei na loja B e o prometido tênis não existia. Uma ligação para a loja C e nada de tênis. Voltando à loja A, disse que ia experimentar e, se fosse o caso, iria fazer a troca. “Pode me procurar”, disse Beltrana. Nesse caso, é claro que eu procuraria.

Fiquei com o tênis pelo preço, a promoção valia a pena. Só preços baixos me fazem agüentar baixarias entre vendedores/as.

Ilustra este post, capa do disco de Lô Borges que tem os tênis mais clássicos da música popular brasileira.

CONVERSA PARALELA

Outro grande show a que assisti na temporada junina ludovicense, sem dúvida, foi o da Maria Preá, o bando, a banda, vocês decidem. Fui ao da Nauro Machado, na sexta-feira (27). Um bom público para o horário – eles subiram ao palco algo em torno de 19h15min –, comportado, vibrando com a eletrificação de pontos de tambor de mina e o repertório a base de maranhenses (Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Dibell, João do Vale e outros) mais o Juriti do Liga-Tripa brasiliense e o mineiro Caxangá de Milton, como, de nascença, Laetícia Madsen – “mas podem me chamar de Maria Preá”, ela disse, a certa altura da apresentação –, ela, cidadã do mundo, para citar verso de Josias de música que ela não cantou.

Minha memória fez paralelo com outro show que vi em São Luís, há um bocado de tempo: o Jogos de Armar, de Tom Zé. A semelhança: no do baiano, passei a apresentação inteira conversando com Dona Neusa, sua esposa e memória; no da Maria Preá, conversei quase o tempo inteiro com Márcia Navai, produtora da banda, do bando. Na verdade, já havia trocado alguns e-mails com ela, por força da divulgação do trabalho do grupo: quando escrevi sobre o disco, quando divulguei alguma apresentação e agora estas que fizeram por aqui no período junino. Vi um rapaz com uma pilha de discos na mão. “Quem é Márcia Navai?”, perguntei, e ele me indicou uma moça que fotografava: “É aquela ali de mochila nas costas“. Fui até ela, apresentei-me. Papo vai, papo vem, a mim, pareceu, éramos amigos de infância, atenção dividida entre o show e a boa conversa.

Rios, pontes e overdrives, no bis, porção manguebit da world-girl, encerrou a apresentação da turma e o nosso papo – que certamente continuará noutras ocasiões e canais. Eles iriam ao Armazém, para uma apresentação, mais tarde. Eu, com outra turma, fui à Feira da Praia Grande, recarregar as baterias: a noite é uma criança e muito ainda havia por ver dos festejos juninos maranhenses.

DE ONTEM

O carioca Noel Rosa e o maranhense Cesar Teixeira: acima de tudo, dois dos mais importantes compositores brasileiros em todos os tempos.

Um não deve nada ao outro, nem em termos de qualidade nem de quantidade, e neste duelo misturado com dueto com que nos brindará Zeca do Cavaco, um dos grandes intérpretes da música brasileira, vocês perceberão que, nesse jogo que terminará empatado, os vencedores são vocês, que nos honram com suas presenças, abrilhantando o Projeto Clube do Choro Recebe.

Noel Rosa de Vila Isabel, Cesar Teixeira do Beco das Minas: dois compositores do mundo.

Se um tem Feitiço da Vila, outro tem Flanelinha de avião; se o primeiro tem Feitio de oração, o segundo tem Oração latina; se, de Noel, Zeca canta Pela décima vez, Das cinzas à paixão, de Cesar, não faltará ao repertório.

A todos que vestem a camisa do projeto, aos patrocinadores e a vocês, presentes, nosso muito obrigado!

Neste jogo só tem gol de placa! Noel tabela com Cesar, e Zeca do Cavaco marca! Impedimento? Vocês tiram a teima!

[Ontem, o Regional Tira-Teima já se apresentava quando cometi o texto acima, às pressas, a pedido de Ricarte, que apresentou o convidado Zeca do Cavaco lendo-o. Cesar Teixeira marcou presença.]

*

Ontem foi aniversário de Reuben, e aqui a gente dá os parabéns atrasados. Sucesso, mano! Um grande abraço!