Entre desajeitado, esquisito, engraçado e, talvez, milimétrica e friamente calculado, Arnaldo Antunes dança, se balança, bate os pés, carrega o pedestal do microfone, onde, enquanto canta, balança a cabeça para lá e para cá. Tudo em preto e branco, charme adicional, coisas do gênio de Tadeu Jungle, que dirige o dvd “Ao vivo no estúdio” (disponível também em cd, Biscoito Fino, 2007, R$ 42,90 e R$ 28,90, respectivamente), todo gravado em 14 de agosto do ano passado.
Acompanhado apenas dos músicos Marcelo Jeneci (teclados e sanfona), Chico Salém (violões) e Betão Aguiar (violão e guitarra), Arnaldo Antunes passeia entre diversas fases, ele, sempre vários em um: o titã (“Não vou me adaptar”, com participação de Nando Reis, voz e violão), o compositor de hits para uma pouco mais que estreante Marisa Monte (“Eu não sou da sua rua”, com Branco Mello), o tribalista (“Um a um” e “Velha infância”, com os amigos e parceiros Carlinhos Brown, Marisa Monte e Dadi), e sua carreira solo (“Qualquer”, “Saiba”, “O silêncio”, entre outras), além de um pé no – sem eufemismos – brega: “Judiaria” (de Lupicínio Rodrigues), com pegada rock na intervenção magistral da guitarra de Edgard Scandurra, e “Quarto de dormir”, de tom jovem-guardesco, inédita da lavra de Antunes.
Gravado, como anuncia o título, ao vivo no estúdio Mosh, com pouco e privilegiado público, que se emociona com coisas como a citação à capela de “Desafinado” (de Tom Jobim e Newton Mendonça, em meio à “O silêncio”, num inovador arranjo que valoriza a sanfona de Jeneci) e canta junto versos de “Socorro”. Por detrás dos homens no palco, diversas imagens são projetadas, ondas no mar parecem mãos acariciando peles. Valorizada pela formação instrumental e pelas letras que canta, a voz de Antunes, áspera, é carícia em ouvidos, com ou sem brincos prateados – para manter seu agradável tom cinza. Brilhante!
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