Casa das Minas documentada


Imponente. A Casa das Minas, na esquina do Beco das Minas com a Rua de São Pantaleão. Foto: divulgação

Em sessão gratuita, às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), acontece hoje o lançamento de Casa das Minas – Os voduns reais de São Luís, documentário sobre a casa de culto, uma das mais antigas em atividade no país.

Detalhes no Ponte Aérea São Luís.

Meninos/meninas eu vi e ouvi! Um olhar sobre Direitos Humanos, Palhaços e Noel Rosa

RITA DE CÁSSIA LUNA MORAES*

Para quem prima pelo melhor uso do tempo, dezembro, em nossa querida São Luís, está sendo pródigo: Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, comemoração do Dia Internacional do Palhaço e celebração dos 100 anos de vida de Noel Rosa. Tomando emprestado do poeta, em livre sentir: Meninos/meninas eu vi e ouvi!

Com temática tão abrangente quanto necessária, a Mostra de Cinema desembarcou em nossa terra para não mais deixar de integrar o circuito anual: cerca de 1600 expectadores assistiram 41 filmes em suas 24 sessões, incluídos nacionais e de mais nove países da América do Sul. Poderia ter sido maior essa presença, vez que houve sessões com ocupação do Cine Praia Grande de apenas de 50 a 60%. Talvez, se os professores, em todos os níveis, não permanecessem tão engessados em cumprir carga horária e dias letivos sem vislumbrarem o quanto seus alunos aprenderiam em uma Mostra de Cinema, que, no caso, possuía sessões desde a primeira hora da tarde e, sempre, com entrada gratuita e acessível a deficientes.

Tempos de violência explícita contra crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiências, mulheres, presos, negros, quilombolas, indígenas, homossexuais, para ficar apenas nestas populações próprias, ou, ainda, a violência contra o meio ambiente, faz de nosso Estado espectador, às vezes inerte, da constante violação de direitos humanos básicos, que não atingem apenas os envolvidos, individualmente, mas ferem profundamente a sociedade em que vivemos. Cedo ou tarde somos todos nós atingidos.

Os filmes da Mostra induzem à reflexão e mobilização, se nos permitirmos tanto. E, embora a temática seja em si dramática, a abordagem sensível e, por vezes, poética, trazida por seus produtores, diretores e atores carregam-nos de esperança e luz no caminhar diário por um mundo melhor.

Não há espaço, neste texto, para o comentário dos filmes. Pode ser encontrada a ficha técnica/catálogo no sítio eletrônico da Mostra, pois alguns estão disponíveis em DVD. Infelizmente, muitos dos curtas e médias-metragens não estão acessíveis e houve muitos de qualidade e abordagem maravilhosas, especialmente os nacionais.

10 de dezembro marca, igualmente, o Dia Internacional dos Direitos Humanos e o Dia Internacional do Palhaço. Coincidência feliz, não? Ser alegre também é um direito humano e dos mais básicos! Houve programação e celebração para ambos.

A Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, entidade valorosa existente há 30 anos, promoveu um Seminário para refletir, avaliar e propor ações em defesa dos “defensores” dos Direitos Humanos, ameaçados com a criminalização dos movimentos sociais. Os resultados podem ser conferidos em www.smdh.org.br, e amplamente divulgados, como contribuição efetiva mínima de cada um. No mesmo sentido, grupos organizados das comunidades de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais promoveram debates e propostas para a construção de uma rede de políticas públicas que garantam sua tão negada cidadania. A Campanha Estadual de Combate à Homofobia, com um calendário de ações até 2014, trará, certamente, desafios igualmente a cada um de nós, independentemente de que sejamos hetero ou homo, bastando apenas que sejamos humanos, vez que diversos já somos.

“A gente não quer só comida: a gente quer comida, diversão e arte”, dizem os poetas do grupo de rock Titãs. Assim, a “palhaçada” tomou conta da praça e trouxe à comemoração do Dia Internacional do Palhaço o sentido da alegria genuína tão própria nas crianças quanto esquecida entre nós, os adultos. Como parte do Projeto Treinamento Circense, coordenado pelo artista Gilson César, desfilaram palhaços, malabaristas e atores. Todos os palhaços merecem destaque por não deixarem sucumbir arte fundamental na nossa cultura popular. Houve também a encenação teatral baseada no cordel João Boa Morte: cabra marcado para morrer, do poeta maranhense Ferreira Gullar, que trata da problemática da posse da terra, as más condições de quem não possui a propriedade e se vê obrigado a trabalhar para os chamados coronéis. Aqui se cruzam de novo os direitos humanos básicos: alegria e terra.

Contundente e apropriado o protesto feito por um palhaço, no evento deste 10 de dezembro, contra a comparação maldosa feita entre este ilustre artista (o palhaço) e os políticos e governantes corruptos. Vale repetir seu bordão, acompanhado por toda a plateia: “Palhaço é Palhaço e ladrão é ladrão”. Também contestou o uso do “nariz de palhaço – a bola vermelha” quando há movimentos reivindicatórios de trabalhadores ou estudantes, ou seja, há, em ambos os casos, a depreciação da figura do palhaço. Vale a reflexão e a mudança de atitude. Que sobressaiam o sorriso e a alegria, capazes de nos encher de gás para toda a vida.

Para coroar a metade deste dezembro, juntaram-se os poetas/músicos Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho e Chico Saldanha e nos brindaram com uma emocionante homenagem aos 100 anos de poesia, música e vida do poeta Noel Rosa. Passeando pelos clássicos musicais que, com certeza, cantados por nossas queridas mães ou celebrados em nossas “fossas”, embalaram muitos de nós, os grandes “poetas da Ilha” bem representaram “o poeta da Vila”.

Canções como Feitiço da Vila, Conversa de botequim, Pra que mentir?, Último Desejo, O orvalho vem caindo, Com que roupa?, Até amanhã e Fita Amarela foram algumas das pérolas lançadas aos sedentos de boa cultura que prestigiaram o show/celebração. Casa lotada como deveria ser qualquer produção local.

Participações especiais de Lena Machado, Lenita Pinheiro, Célia Maria e Léo Spirro integraram o arco de benfeitores da música, que, traduzindo o sentimento de Noel, trazem para a nossa São Luís o sentimento de pertencimento a uma terra, como o foi Noel para a sua Vila Isabel. Samba, amor, alegria, cultura, diversidade, tudo havia em Noel e, mesmo morto jovem, produziu um acervo poético de rara beleza e envolvimento. A nos envolver em busca da plenitude de direitos humanos.

Vivas ao Cinema, ao Palhaço e à Música! Viva a Vida!

*Assistente Social e acadêmica de Direito

&

Agradeço a autora pelo compartilhamento do artigo acima, que recebi por e-mail e de que gostei bastante. Na mensagem sua autora afirmou ser “leitora e divulgadora assídua deste blogue”, honra e carinho a que agradecemos. Em breve este blogueiro deverá escrever sobre Noel, Rosa secular, show que, embora eu seja suspeito para falar foi algo que, para usar o próprio dizer de Noel, Não tem tradução.

Poesia em dose dupla hoje

Logo mais às 19h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), os poetas Paulo Melo Sousa e Laura Amélia Damous lançam seus novos livros: Banzeiro e Arabesco, respectivamente.


Clique para ampliar

O pequeno texto abaixo está nos preâmbulos do livro do primeiro (é o segundo que ele lança em 2010), onde figuro entre outros nomes: “Como a fotografia, outra expressão artística que admira e domina, a poesia de Paulo Melo Sousa capta instantes. E eterniza-os. Não hai-kais como 3×4, mas imagens, feitas de palavras, panorâmicas. Não à toa, nós, os amigos, o chamamos Paulão. Grande homem, como sua poesia” (Zema Ribeiro).

O Regional Feitiço da Ilha, formado por Domingos Santos (violão sete cordas), Juca do Cavaco e Vandico (percussão), executará algumas peças instrumentais enquanto Paulão e Laura Amélia autografam seus mais recentes rebentos poéticos.

Divirta-se

No caderno Divirta-se, n’O Imparcial de hoje, dou dicas culturais para o fim de semana. O caderno é editado por minha queridamiga Andréa Gonçalves. Veja abaixo o que este blogueiro recomenda.

A D!CA
POR ZEMA RIBEIRO

Zema Ribeiro é assessor de comunicação da Cáritas Brasileira Regional Maranhão e da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos. Escreve no blogue http://www.zemaribeiro.blogspot.com. Apaixonado pela diversidade cultural, confira as valiosas dicas desta semana.

Sexta: “Após a semana de trabalho, sexta é dia de uma cervejinha com um bom papo para relaxar. Boas pedidas são o Sapucaia Bar (Av. Vitorino Freire), o Café Recanto Verde (Miritiua/Turu), o Cantinho da Estrela (Praia Grande) e o Sabor da Ilha (Praça Pedro II).”

Sábado: “Gosto de dedicar minhas manhãs de sábado a visitar sebos e livrarias: Chico Discos e Papiros do Egito (Rua da Cruz), Athenas (Rua 13 de Maio), Tambores (Shopping do Automóvel), Poeme-se (Praia Grande) e Sebo Nas Canelas (Rua das Flores). Particularmente neste sábado (11) a grande pedida é o show Noel, Rosa secular, tributo aos 100 anos do genial Noel Rosa, o Poeta da Vila, por Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, no Bar Daquele Jeito (Vinhais), às 22h. Nos outros sábados, ou qualquer dia, sempre vale a pena visitar o Bar do Léo (também no Vinhais), misto de bar e museu, com o maior acervo musical do Maranhão, cerveja gelada e a melhor tripinha de porco da Ilha.”

Domingo: “Não saio de casa sem ouvir o Chorinhos e Chorões (Rádio Universidade FM, 106,9MHz, das 9 às 10h), com meu amigo Ricarte Almeida Santos. Depois é dar uma esticada na praia para comer umas ostras ou ir comprar flores e plantas na CEASA ou no Parque do Bom Menino.”

Semana Noel Rosa

# 7

1937: NOEL, O SAMBA EM FUNERAL

RUY CASTRO

O dia de hoje marca os 30 anos da morte de Noel Rosa. O samba nascido na calçada e no botequim de subúrbio encontrou no poeta-cantor de Vila Isabel o seu expoente maior. Genial e boêmio. A tuberculose o levou cedo, aos 27 anos de uma vida noturna agitada: um samba, entre um copo e outro, fotografando a madrugada carioca.

Uma grande parte das camadas urbanas, proletarizada ou mesmo um pouco acima do salário mínimo, formula um contexto específico de que o samba, nascido na Praça Onze, é apenas uma das incontáveis ramificações. Mergulhado nesse contexto, produto de uma mistura de mulata, violão e botequim, o samba é a forma de expressão mais apta para comunicar aquela carga latente de nostalgia & desencanto, conseqüências da marginalização social e econômica.

Essa conjuntura deságua facilmente em Noel, menino de Vila Isabel, de mãe viúva e professora, sambista de subúrbio, desemprego e madrugada. Cada um de seus sambas ultrapassa o mero aspecto “descritivo” de um fato exótico, para traduzir todo o macrocosmo de uma classe empurrada para o último ou penúltimo degrau da escala social, indo tomar de noite o seu ópio musical, entre o pileque e a serenata.

Sem choro nem vela – Segundo Almirante, desde 1935 a vida de Noel vinha minando a sua frágil resistência física. A tuberculose já o rondava, por trás de seu defeito no rosto que o fazia comer de menos e beber de mais – dormir todo o dia e só depois sair, para seu samba engolir a noite. Constatada a doença, sucederam-se as estações de repouso, mas o samba de Noel não tinha férias nem tomava conhecimento de descanso. O compositor já iria regressar da última viagem, em Piraí, com a moléstia seriamente agravada.

Tudo terminou no dia 4 de maio de 1937, em Vila Isabel, presentes Orestes Barbosa e Marilia Batista, e, daí a meia hora, Aracy de Almeida acabava de gravar naquele dia, o último samba de Noel: Eu Sei Sofrer.

Triste cuíca – A morte de Noel lançou no limbo o compositor, repercutindo quase que unicamente nos arraiais do samba. Isto porque, segundo Almirante e Aracy de Almeida, nos idos de 30 qualquer sambista era violentamente marginalizado e acusado de vagabundagem, sofrendo todos eles os efeitos dessa discriminação. Menos Noel, que, apesar de sua família enfrentar uma série de dificuldades, jamais abandonou aquele despojamento e desprezo pelo sucesso.

Os seus sambas continuaram a ser tocados no rádio, sem grande alarme popular. Em 1942, Almirante produziu na Rádio Tupi o primeiro programa dedicado à revisão de Noel Rosa e, a este, seguiram-se vários outros. A “redescoberta” do compositor pelos cantores de maior contato com as massas, como Silvio Caldas, acabou de restituir-lhe a plena identificação com o público, especialmente depois de um show de sambas de Noel Rosa na Boate Vogue, com Aracy de Almeida, em 1948.

Feitiço de Noel – Aracy fala do samba, no tempo de Noel: “A gente ganhava pouco ou nada, mas vivia só pra sair de noite, cantar e fazer música, e viver na boemia. Não era à toa que sambista, naquele tempo, era sinônimo de malandro e vadio. De fato, naquela época, sambista era pinta-braba, tinha muito valente e mal-elemento querendo ser compositor. O Noel, que conhecia todos os pilantras do Rio, nunca foi muito aceito porque não saía da Lapa e do Mangue, de onde voltava com uma porção de sambas escritos em maços de cigarros Odalisca, que depois ele vendia pra pagar a farra do dia seguinte. Aliás, naquele tempo não houve sambista a quem Noel não tivesse dado uma mãozinha, trocando uma letra aqui, outra ali, e muito samba famoso por causa disso, tem o dedo de Noel Rosa, e ninguém sabe”.

Aracy conheceu Noel em 1932 e o seu primeiro contato maior com o compositor nasceu numa noite de samba em caixa de fósforo, regada com cerveja Cascatinha, na Taberna da Glória: era o début boêmio da jovem cantora. Do pileque na Taberna até a morte de Noel, em 1937, Aracy esteve presente a todo o processo de evolução do samba e da noite carioca, nos cabarés da Lapa e nos botequins detrás da Central, ao lado de Noel, com quem saía à noite, para varar as madrugadas. Dessa parceria de cantora & compositor nasceram Palpite Infeliz, O X do Problema, Pela Primeira Vez, Século do Progresso, Amor de Parceria, Triste Cuíca, Já Cansei de Pedir, Feitiço da Vila. Aracy conta: “Uma noite eu cheguei pro Noel e pedi pra ele fazer um samba pra mim gravar no dia seguinte. Noel pensou um minuto e ali mesmo, na mesa do Café Trianon, compôs O X do Problema, nas costas de um maço de Odalisca.”

O xis do samba – Em 30 anos, os sambas de Noel foram regravados algumas dezenas de vezes, desfechando aquela carga poética e musical que tanto influencia os novos compositores. Três livros foram escritos a seu respeito: um deles, o mais completo, por Almirante, testemunha ocular da história do samba e amigo de Noel desde 1923. Das suas madrugadas saíram cerca de duas centenas de músicas, algumas mulheres e uma série de lendas sobre sua vida e obra. Mas, o choro de flauta, violão e cavaquinho para os 30 anos de sua morte é a sua presença constante nestes 30 anos de samba.

Recolocada em órbita, a partir dos anos 40, a sua obra pode ser submetida hoje a um olhar de Raio-X sem perder nada de sua instigante contemporaneidade. Mesmo porque Noel traduz o X do samba, haja vista que a sua arte permanece pelo tempo, não só pela eternidade de suas criações gravadas na cera para a posteridade, mas principalmente pela sua poderosa influência no que de melhor se faz hoje em samba.

Trinta anos depois de Conversa de Botequim, Com que Roupa?, Coisas Nossas, Mentiras de Mulher, Fita Amarela, Noel encontra um eco nas criações de Chico Buarque de Hollanda e Sidney Müller. A mesma dimensão crítica e criativa dos seus sambas, por trás da historinha ingênua e bem temperada, está presente em Juca, Você não Ouviu, A Rita, etc. e nas duas mais recentes composições de Chico: Com Açúcar e com Afeto e Quem te viu e quem te vê. E quanto a Sidney Müller, é só ouvir O Circo.

A revalorização do trivial, do cotidiano e do popularesco, o reencontro do samba com as suas raízes, que são os vértices da moderna música brasileira, têm como base Noel, carioca e universal. De 1937 a 1967, Noel tem sido o X do samba.

*

Com dificuldades para postar nos dois últimos dias – muita coisa para fazer em pouquíssimo tempo – encerro com o texto acima a Semana Noel Rosa. 1937: Noel, o samba em funeral foi publicado em 4 de maio de 1967 no Correio da Manhã (RJ) por ocasião dos 30 anos de falecimento do Poeta da Vila. O hoje conhecidíssimo Ruy Castro, autor do artigo, estreava na imprensa (é seu primeiro artigo assinado) e dividia a página com ninguém menos que Nelson Rodrigues, que publicava suas memórias. Este blogueiro teve o trabalho de re-digitar o artigo, cujo fac-símile encontrei em Tempestade de ritmos: jazz e música popular no século XX (Companhia das Letras, 415 p., 2007).

Semana Noel Rosa

# 6

NOEL, ROSA SECULAR
POR JOÃOZINHO RIBEIRO

No próximo dia 11 de dezembro, Noel de Medeiros Rosa – Noel Rosa – o poeta da Vila Isabel, completaria um século de existência. Em todo Brasil, muitas celebrações como shows, seminários, publicações, ao longo do ano de 2010, aconteceram e estão acontecendo em homenagem ao centenário deste ilustre compositor, que influenciou e ainda influencia diversas gerações de músicos, poetas e compositores. A sua contribuição para a valorização e fortalecimento da Música Popular Brasileira é algo, por assim dizer, de natureza inestimável.

Deixou-nos um acervo lítero-musical de cerca de 230 obras que servem de referência para pesquisadores, estudantes e estudiosos, como leitura obrigatória, integrando o repertório hoje inteiramente caído em domínio público, já que a legislação autoral brasileira prevê que isto aconteça aos setenta anos, contados do ano seguinte ao da morte do autor.

Em São Luís, reservamos uma singela homenagem no formato de um show para celebrar a data, intitulado Noel, Rosa Secular. Dele fazem parte integrante os compositores Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, interpretando clássicos do repertório do “Poeta da Vila”. A obra musical editada destes quatro compositores sofreu e sofre marcante influência do “Poeta da Vila”, fato que explica e justifica a junção destas personalidades em prol de tão nobre causa.

Os outros intérpretes, especialmente convidados para o show, são: Célia Maria, Lenita Pinheiro, Lena Machado e Léo Espirro. O regional, formado exclusivamente para o acompanhamento dos artistas e convidados acima relacionados, será integrado pelos músicos: Juca do Cavaco (cavaquinho), Domingos Santos (violão de 7 cordas), João Soeiro (violão), Arlindo Carvalho (percussão), João Neto (flauta) e Vandico (percussão). O jornalista Zema Ribeiro assina a assessoria de imprensa do espetáculo, que ainda deverá ter valiosas contribuições dos artistas Nadilton Bezerra, Lena Santos e Joana Bittencourt.

A partir das 22 horas, do dia 11 de dezembro (sábado), no Bar Daquele Jeito, localizado no Conjunto Vinhais, próximo a Praça do Viva e do Bar do Léo, estaremos recepcionando um público diversificado, apreciador da boa música popular brasileira e do repertório de um dos maiores gênios do nosso cancioneiro nacional – Noel de Medeiros Rosa.

Música e poesia da melhor qualidade à disposição dos presentes numa festa de confraternização a altura da dimensão criativa do homenageado. A celebração serve também para a arrecadação de brinquedos, roupas e alimentos não perecíveis, para serem posteriormente distribuídos a entidades que trabalham com ações de valorização da vida em comunidades carentes.

Portanto, mais uma generosa razão para ampliarmos o convite aos homens e mulheres de boa vontade para fazerem parte desta função e contribuírem com o espírito de solidariedade e fraternidade que une as nossas sinceras intenções aos nossos elevados gestos. Responsabilidade social e cultural aliadas a uma boa e decente causa, nada mais justo e cabível neste momento de harmonia e confraternização bafejado pelos ventos natalinos.

Noel, Rosa Secular será muito mais do que um simples evento de reverência a memória do genial compositor de Vila Isabel. Com toda a certeza, o objetivo maior será cantar e encantar a paisagem humana desenhada pelas músicas e letras trazidas ao mundo pelo engenho e arte deste imortal compositor carioca, responsável, dentre outras contribuições, pela valorização e reconhecimento do samba como gênero musical na cena cultural brasileira.

A Noel Rosa, nossos maiores agradecimentos e antecipados votos de parabéns pela monumental obra que deixou como legado a todo o povo brasileiro.

Salve Noel e viva música popular brasileira!

Jornal Pequeno, Geral, p. 4, 6/12/2010

Entrevista

Você se definia um “quase jornalista”, por quê? Porque me falta apenas o diploma pra formalizar, mas trabalho na área há cerca de dez anos. Eu comecei no jornalismo a partir da boemia. Ia ao barzinho ver um amigo fazendo voz e violão. Daí o bar não enchia. Eu me perguntava: uma divulgação maior não ajudaria? Então comecei a redigir notinhas, achava os e-mails nos expedientes dos jornais, comecei a enviar, as notinhas começaram a ser publicadas nas agendas culturais. Depois havia determinado assunto que me chateava, eu mandava cartas pras redações, que também começaram a ser publicadas. Depois eu ia a shows, escrevia uma resenha pós-show, saía. Depois entrei na Faculdade, pouco depois abri o blogue. Aí não parei mais.

Agora, após o episódio das eleições 2010, você passou a se definir em três palavras: “carne, cerveja e indignação”, por quê? Gosto de carne e cerveja e isso representa boa parte da minha composição física. Já a indignação se dá pelo resultado das eleições, mas não só. A indignação e a preguiça movem o homem.

Por que escrever em um blogue? Criei para ter a possibilidade de escrever sobre um livro que li, um disco que ouvi e achei interessante, a vontade de compartilhar com outras pessoas, dialogar com o público, o que um jornal, ou outra mídia, de certa forma não me possibilita. A proposta do blogue é apresentar o que é novo, o diferente, não pautar aquilo que é comum e que os jornais fazem. É, por exemplo, falar de um filme que não ‘tá no circuito comercial dos cinemas.

Quanto tempo como blogueiro? Seis anos e meio, quatro anos no atual endereço, o zemaribeiro.blogspot.com. Meu primeiro blogue também foi no blogspot, o endereço shoppingbrasil.blogspot.com. Nesse tempo a plataforma era em inglês, eu sou monoglota, tinha dificuldade em usar os recursos como links, colocar vídeos. Eu só conseguia escrever e publicar. Aí fui para o zip, que é do UOL, o blogue manteve o nome, mas o endereço era olhodeboi.zip.net. Só que no UOL é disponibilizado um número determinado de caracteres por postagem, então escrever textos longos era bem complicado, tinha que dividir os textos em partes, publicar a última parte primeiro e a primeira parte por último pro texto ficar na sequência, era bem chato. Então resolvi voltar pro blogspot, por que é do Google, e o Google quanto mais tu usa, mais teu espaço cresce, meu e-mail é gmail, eu só tenho esse e-mail, então me facilita muito. O blogspot me disponibiliza vários recursos, eu é que não sei bem como operá-los.

Já trabalhou ou trabalha em outras mídias? Sim, sempre atuei em assessorias, trabalho com assessor de comunicação da Cáritas Brasileira Regional Maranhão há quatro anos, já fui colaborador para jornais, escrevi matérias independentes para jornais e há cerca de um mês sou editor da página de Cultura do jornal O Debate [as coisas mudaram entre a entrevista e sua publicação aqui: continuo na Cáritas (ok, isso não mudou), mas deixei O Debate e voltei à assessoria de comunicação da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos].

Qual a diferença entre teu trabalho no blogue, para teu trabalho no O Debate, ou na Cáritas? Na Cáritas o trabalho é de uma assessoria normal, mas com certo grau de dificuldade por que a gente trabalha com direitos humanos e conseguir espaços para essas pautas na mídia é bem difícil, mas temos conseguido furar os bloqueios na base da amizade. N’O Debate eu trabalho com a agenda pública, com o que ‘tá acontecendo para tentar cobrir esses eventos. Eu tenho a preocupação também de não só copiar e colar a programação do cinema, por exemplo, mas agente faz, claro. Às vezes acontecem falhas por conta da falta de estrutura, de equipe, de condições. No blogue meu trabalho é mais livre, embora eu tenha compromisso com o leitor. O blogue é pessoal, um espaço que busca satisfazer uma necessidade minha e acabei caindo no vício de querer escrever todo dia, pois sei que alguém vai passar e ler uma opinião minha sobre determinado assunto, vai querer uma dica pra saber onde se divertir à noite. É um espaço, por exemplo, onde eu posso publicar uma receita que minha esposa fez, posso postar um vídeo engraçado que um amigo enviou, uma opinião sobre política. O blogue tem esse caráter mais livre.

Você reproduz teus textos produzidos para O Debate no blogue, por quê? O que sai n’O Debate eu procuro reproduzir no blogue, aviso o leitor que é reprodução, porque tem gente que lê o blogue e não lê O Debate e vice-versa.

Qual é teu critério de reprodução de conteúdos de outras fontes em teu blogue? Eu procuro evitar reproduzir no blogue releases, quando faço freela [trabalho como free lancer] de algum show eu reproduzo em outro blogue que tenho específico para isso, o Ponte Aérea São Luís, tem um link para ele no Zema Ribeiro. Agora quando é matéria de interesse público, bem elaborada eu publico e coloco a fonte. Já aconteceu de eu fazer matérias jornalísticas para outros jornais e publicar no blogue [o blogue acaba funcionando como uma espécie de auto-clipping].

O blogue te rende dinheiro? Não. Às vezes eu gasto dinheiro com o blogue. Por exemplo, eu gosto de um livro e quero escrever sobre, mas não consigo com a editora, nem com o autor, acabo que compro livro. Já gastei muito dinheiro com livros, discos e shows, mas não é uma coisa que me preocupa, o jornalista e o assessor pagam o trabalho do blogueiro. Ah, o link do Pesca Preço é um link pago, recebi cem reais para mantê-lo ali por um ano, valor irrisório, menos de dez reais por mês, mas como era só um link, não custava. Enfim, o contrato acaba em novembro próximo. Se eles quiserem renovar, mantenho o link [‘cês perceberam que sumiu, né?].

Dá prazer? É só o que dá, prazer. É poder escrever sobre discos e livros e produtos culturais que muitas vezes a população não sabe, ou não tem acesso.

Você se considera um blogueiro bem sucedido? Bem sucedido não sei, acho que estou cumprindo um pouco do papel de divulgar o que não tem espaço em outros meios. Eu fico muito feliz quando recebo elogios de ex-professores meus, eles pedem para eu terminar logo, pegar o diploma, formalizar aquilo que eu já faço tão bem [palavras deles/as], ou alguém que me diz que foi a um determinado show por que leu no meu blogue e gostou muito.

Já pensou em desistir do blogue? Não. O blogue não me toma muito tempo e é uma atividade da qual eu gosto muito. Já pensei em dar um tempo pra monografia, mas não é meu plano parar de blogar.

Na tua opinião por que política é o tema mais comum nos blogues de jornalistas? Acontece que quem faz blogue tem interesses, faz um blogue pra falar bem de A e desagradar B. A cada momento ‘tá de um lado, eu considero um exercício bem feio.

Com teu trabalho no blogue portas se abriram? Em 2006 eu fui convidado por Itevaldo Júnior para ser correspondente do Overmundo aqui no Maranhão. Ele na época não poderia mais assumir a função e credito isso à minha prática de fazer jornalismo no blogue. Eu consegui publicar em uma revista francesa um texto sobre São Luís numa revista chamada Brazuca, texto em português e em francês [distribuída gratuitamente na França, a revista tem edição bilíngue].

A escolha do layout simples por quê? O template do blogue é do blogspot. É simples por isso e está no formato antigo do blogspot, já pensei em mudar umas coisas sim no blogue, a questão de disposição dos conteúdos, mas não no layout [outra “coisinha” que já mudou]. Esse negócio de letra preta no fundo branco facilita a leitura. Minha preocupação é agradar de cara o leitor e o visual conta muito, fazer ele querer voltar sempre à página, se tornar um leitor frequente.

Média de visitas diárias? No mês de setembro foi de 170 visitas diárias, eu considero muito pouco.

Qual o tempo máximo que você ficou sem postar? Foi de uma semana, por motivo de viagem. Eu costumo postar uma vez por dia e folgar nos fins de semana, mas não é uma regra. Eu posto na base do “quando dá”. Eu acho que blogue não precisa ter uma linha específica, você é livre para falar do que quiser. Por exemplo, teu blogue, tu escreve sobre moda, mas tu pode falar de política também. As pessoas que lêem o blogue vão se acostumar a ler o que tu escreve sobre qualquer coisa, se gostarem do teu texto, do teu estilo.

Já foi cobrado por não postar? As pessoas mandam e-mail, deixam comentários, perguntam se eu estou de férias, se eu estou viajando e o número de acessos cai. A constância das postagens faz o leitor sempre procurar a tua página.

Você realiza ou já realizou enquete no blogue? Não realizo nem nunca realizei.

Já fizeste promoção? Já fiz algumas, sorteios de livros, discos e camisas para o primeiro que comentar.

Tens conhecimento dos recursos que a plataforma disponibiliza, por exemplo, os FEED e RSS? Acho que o próprio blogger disponibiliza, mas eu mesmo nunca me preocupei com isso. Eu uso o Twitter para atualizar meus leitores sobre as postagens novas no blogue. São tecnologias que não domino nem nunca fui atrás de. Mas é uma coisa a se pensar para um futuro breve, quando pretendo dar uma repaginada na página que, tirando conteúdo postado, anda meio largada em relação ao visual e a estas possibilidades.

Qual o critério de moderação dos comentários? Eu procuro ser educado com os meus leitores, respondo todos os comentários individualmente, a política de comentários do blogue é clara. Tem a opção de comentário anônimo, mas só é aceito se a pessoa assina abaixo do comentário, uma contradição em termos, mas isso possibilita que, por exemplo, quem não tem uma página, um login possa comentar. Ninguém precisa concordar comigo desde que isso seja feito da maneira correta. Já aconteceram episódios chatos. Ninguém pode me acusar de censurador ou de publicar somente os comentários favoráveis, isso facilita o debate e isso é legal. As pessoas comentam também por e-mail, recebo comentários no Twitter, e eu respondo também a todos. Esse retorno é uma coisa bacana, essa interação, essa via de mão dupla funciona bem no blogue.

O leitor do teu blogue pode comentar na opção anônima, sem colocar e-mail, nem informação alguma. Não é um risco pra ti? Acho que não, a pessoa tem que ser educada, não dá pra xingar no blogue, eu sou o responsável pela página, os pseudônimos não dá pra controlar, e nem é meu interesse descobrir identidade de ninguém. Já tirei comentários assinados, o blogue é um blogue de família. Eu acho que se eu tenho a preocupação com o que eu vou escrever, as pessoas têm que ter a preocupação com o que vão comentar, pra ficar essa relação entre quem escreve e quem lê.

Já teve problemas por conta de comentários? Não por que os comentários indevidos eu retiro, sou eu quem responde por qualquer coisa na página.

Quando teus posts são mais comentados? Depende muito, não sei dizer, tem vezes que passo semanas sem receber nenhum comentário, tem postagem que eu recebo vinte comentários, é uma coisa que varia muito.

Quem é teu publico leitor, você sabe? Algumas pessoas eu conheço, outras conheço virtualmente, enfim acho que é público pequeno.

Já teve algum post teu copiado, plagiado? Não considero plágio, pois sou licenciado no Creative Commons, o termo no meu blogue diz que qualquer pessoa pode usar desde que cite a fonte e use sem fins comercias [na mudança do layout o selo se perdeu e o blogueiro aqui ainda ‘tá apanhando para recolocá-lo]. Porque não é justo, visto que eu produzi o texto e não ganhei nada. Não é justo que alguém reproduza esse conteúdo sem minha permissão, sem citar a fonte. Mas não é uma regra engessada, eu abro exceções quando alguém fala comigo, pede parar publicar em um jornal, por exemplo, eu libero. O jornal vende, o dono ganha dinheiro, mas ‘tá valendo.

Como você define teu blogue? Jornalismo ou diário? Fica num limbo aí entre tudo isso e mais um pouco. Mas se for para priorizar rótulos, eu apostaria em jornalístico. Embora o primeiro pedaço da resposta seja melhor.

Você considera jornalismo a tua prática blogueira? Na maioria das vezes sim. Eu sigo todos os preceitos e regras do jornalismo ao escrever no meu blogue. Até quando vou emitir minha opinião eu procuro saber mais sobre o assunto, apurar, ouvir todos os lados.

Em qual categoria jornalística você se enquadra? Considero-me jornalista cultural, embora isso não passe de tautologia, tendo em vista que todo jornalismo é cultural, mas, enfim, acabamos usando o termo, a expressão, pra diferenciar o jornalismo cultural, isto é, o jornalismo de artes, espetáculos e entretenimento, digamos assim, do jornalismo econômico, político, policial, geral, de cidades etc. Dentro do jornalismo cultural, que é o que mais pratico, minhas grandes áreas de interesse são a música e a literatura, embora música e literatura sejam, digamos assim, instituições: o que eu gosto, na verdade, é de ouvir (música) e ler (literatura). São coisas que me dão prazer. O que não exclui meu interesse por teatro, cinema, artes plásticas, cultura popular etc. E o que também não me furta de opinar sobre política, cidades, geral, policial etc.

Qual o critério de seleção do que você vai postar ou não? É uma coisa natural, meus critérios são pessoais, eu recebo muito material por e-mail para postar no meu blogue, muitos releases. Embora não me leve muito a sério, mas eu tenho uma vaidade que me motiva, que é a coisa de ser o primeiro a escrever sobre determinado assunto. O triste é que às vezes eu sou o único também.

E a apuração das informações, como fazes? Minha apuração, na área de jornalismo cultural, acontece da seguinte maneira: eu procuro, antes de publicar, conhecer o trabalho, ouvir, pra saber se é bom mesmo [no caso de um disco, por exemplo], e aí eu escrevo sobre.

Pelo fato de teu blogue publicar notícias inéditas, ele já pautou a imprensa? Acontece muito, eu publico uma coisa e alguém, algum jornalista, me liga dizendo que viu no meu blogue, e que quer escrever sobre também, aí passo as informações, os contatos.

Qual característica principal dos textos pro blogue? O texto escrito para o blogue costuma ter uma leveza, é mais despreocupado, despojado, incorpora mais gírias, a linguagem da própria internet. É um texto mais rápido. Eu, particularmente, mesmo quando produzo releases, procuro fugir do “padrão lead“, o quê?, quem?, quando?, onde?, como?, por quê?, quanto?, pra quê?. É claro que eu respondo essas perguntas todas ao longo do texto, mas não carece entregar o ouro ao bandido já no primeiro parágrafo. Eu tenho um estilo próprio, claro que seguindo algumas influências.

E os palavrões nos teus posts? É pra dar leveza, palavrão é uma coisa maldita, mas é um recurso linguístico muito interessante. Na maioria das vezes é brincadeira, nunca tive reclamações. Quando eu escrevo “caray”, que é um portunhol, é reflexo de um grupo que tem principalmente em São Paulo e que eu acompanho, formado por poetas, escritores, jornalistas que criaram uma língua própria, o portunhol selvagem, que utiliza português, espanhol e guarani. O Estadão há dois anos publicou uma matéria toda em portunhol selvagem, então é uma homenagem minha.

Como você caracteriza a blogosfera ludovicense? Pra mim a grande maioria se divide em duas categorias. Eu, modéstia à parte, não me incluo em nenhuma dessas. A primeira, que está preocupada com seu salário no fim do mês e escreve pra agradar fulano e desagradar beltrano. Vive de negociar influência, quem pagar mais leva a “pena” do garoto. E a segunda é a blogosfera que está limitada naquela coisa de diário, que posta poesia, conto, coisas da vida particular. Claro que tem exceções, das duas partes. Há quem faça jornalismo político de forma limpa e quem faça dessa coisa do diário um “jornalismo literário”, briga com a namorada e vai para um bar, lá se depara com um universo antropológico diverso e escreve sobre isso, descreve as relações, às vezes fica bem interessante.

Em 2009 a Coca-Cola deu a 10 blogueiros influentes aqui no Brasil uma nova bebida produzida por eles. Só que a bebida estava dentro de uma geladeira com entrada USB. Os blogueiros afirmaram não se sentirem obrigados a escrever sobre a bebida em seus blogues e nem a falar bem da Coca-Cola por isso. Você já passou por situação parecida? Acontece muito de eu receber ingressos para ir a shows e não me sinto obrigado a escrever sobre, se não quero, se acho que o show não foi bacana, simplesmente não escrevo. Acontece de eu divulgar e receber depois ingressos. Antes de tudo eu gosto de ser honesto com meus leitores, digo a verdade que é a primeira premissa do jornalismo.

És contra a propaganda nos blogues? Tenho um link pago no blogue, o Pesca Preço [tinha]. Não sou contra, só que têm que ficar claro pro leitor. Acho que em algumas situações a propaganda pode sim influenciar no conteúdo, por exemplo, você tem uma propaganda da Vale no teu blogue, você nunca vai escrever sobre as pessoas que moram às margens dos trilhos e que são prejudicadas. Talvez até você queira falar, mas pra não perder o patrocínio, evita. Pra mim desde que não comprometa a informação e se comprometer isso tem que ficar claro pro leitor. Eu por exemplo declarei todos os meus votos no tuíter e meu voto para deputado federal no blogue.

Já retirou algum post que foi publicado? Não, eu me nego por que quero o arquivo, mesmo quando trato de temas espinhosos. Eu procuro me cercar de cuidados ao escrever sobre temas polêmicos.

Você se acha totalmente livre para escrever sobre qualquer assunto? Eu sou sim, procuro respeitar as premissas do jornalismo, saber o que posso ou não dizer para de repente não tomar um processo, ou uma ordem judicial que tire o post, o próprio blogue do ar.

Você sempre quis ser jornalista? Sim. Na verdade, quando comecei a redigir as notinhas, quando comecei a enviar as cartas, a fazer as resenhas pós-show, eu cursava o ensino médio, mas já tinha a manha de escrever, foi algo que eu sempre gostei. Entrei na Faculdade buscando aprimorar isso, aprender as técnicas, melhorar a prática.

*

Dia 8 de outubro concedi a entrevista acima a Aline Coelho, na sede da Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Ela está concluindo o curso de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, na Faculdade São Luís, para onde me arranco agora: às 16h, Aline Coelho defende a monografia Novas formas de se fazer jornalismo: um estudo dos blogues itevaldo.com e zemaribeiro.blogspot.com, cujo pdf em breve ela disponibilizará na internet.

Semana Noel Rosa

# 5

OS COMPOSITORES QUE DERAM ALMA À MPB*


Acervo do Museu da Imagem e do Som, RJ

O segundo dos grandes compositores da Era de Ouro foi Noel Rosa. Como Ary [Barroso], Noel vinha da classe média, o que está a demonstrar, de maneira muito categórica, que o campo do entretenimento, a partir do rádio e da gravação elétrica, tornava-se um veículo cada vez mais promissor de profissionalização, de prestígio e de reconhecimento populares.

Noel de Medeiros Rosa (RJ, 1910 – RJ, 1937), o Poeta da Vila, veio ao mundo no coração de Vila Isabel. E o dia de seu nascimento o marcaria traumaticamente para o resto dos seus 26 anos e meio de vida – o defeito físico no queixo, ocasionado pelo afundamento do maxilar inferior no momento do parto, provocado pelo fórceps, além de uma pequena paralisia na face direita, que o deixou desfigurado, apesar das cirurgias sofridas aos 6 e 12 anos de idade. Noel nasceu, viveu e morreu na mesma residência, na rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel.

Quando tinha apenas 13 anos, começou a tocar bandolim de ouvido e também o violão, que aprendeu a manejar com a ajuda do pai. Já dominando o instrumento, fazia serenatas com o irmão no bairro de Vila Isabel, em 1925. Sem deixar de lado o violão e as serenatas, ao terminar o ginásio Noel preparou-se para a Faculdade de Medicina, que viria a abandonar em 1932, deixando dessa experiência o samba anatômico “Coração”, gravado no ano seguinte. Em 1929, moradores de Vila Isabel e alunos do Colégio Batista formaram um grupo musical, Flor do Tempo, que se apresentava em festas locais. Quando foram convidados para gravar, o grupo foi reformulado, mudando o nome para Bando de Tangarás. Aos integrantes originais do Flor do Tempo (João de Barro, Almirante, Alvinho e Henrique Brito), juntou-se Noel Rosa, que já tinha fama de bom violonista no bairro. A primeira gravação do Bando dos Tangarás foi o samba “Mulher exigente”, seguido por uma embolada e um cateretê, todos de autoria de Almirante.

Mas a primeiríssima composição do poeta foi a embolada “Minha viola” (1929), feita na esteira da influência do fluxo de música nordestina – trazida por Catulo [da Paixão Cearense] e depois pelos Turunas da Mauricéia, de Augusto Calheiros e Luperce Miranda. A embolada passaria em brancas nuvens, o que não ocorreria com o samba “ Com que roupa” (1931) que, gravado pelo próprio Noel, já refletia uma página da vida do compositor, como, de resto, quase todas suas composições.

A partir do seu primeiro sucesso no carnaval de 1931, Noel faria para mais de vinte músicas, algumas delas clássicos até hoje como “Três apitos”, “Cordiais saudações” e “Gago apaixonado”. Já então seu estilo estava cristalizado – Noel cantava o simples das coisas e dos fatos cotidianos. Foi o poeta dos versos escorreitos e despojados de preciosismo, o cronista musical mais preciso e enxuto de sua época, que traria para o começo dos anos 1930 a simplicidade e o bom gosto, tão revolucionários quanto a então contemporânea Semana de Arte Moderna de 1922. Aliás, qualquer análise mais profunda que se faça sobre a poética de Noel revela que ele trouxe para seus versos muita coisa dos cânones modernistas de 1922, sobretudo ao comentar (apaixonadamente, é certo, mas isso já era o seu toque particular) o cotidiano, e ainda na liberdade dos versos e das palavras empregadas.

No ano seguinte, Noel teve dois encontros musicais importantes – Ismael Silva, seu parceiro em dez sambas, e o musicista paulista Oswaldo Gogliano, o Vadico, com quem também fez pelo menos dez obras-primas, entre as quais “Feitio de oração”, “Conversa de botequim”, “Dama de cabaré” e especialmente o “Feitiço da Vila”, um hino ao bairro onde nasceu e morreu, que acabou inserido na célebre polêmica musical mantida com o sambista Wilson Batista.

A pesquisadores mais argutos como João Máximo e A. Didier, seus biógrafos, não poderia mesmo passar despercebido que a vida de Noel foi quase toda registrada em seus sambas; difícil é uma música sua que não tenha uma história específica. E suas composições que falam de amor comprovam que Noel apaixonou-se por muitas mulheres. Numa noite de São João, no Cabaré Apolo da antiga Lapa, ele conheceu a bailarina Ceci, uma jovem campista de 16 anos que trabalhava num cabaré da Lapa e de quem o poeta seria enamorado até morrer. Para Ceci, Noel fez “Prá que mentir”, “O maior castigo que te dou”, “Dama de cabaré”, “Silêncio de um minuto”, “Ilustre visita” (“Só pode ser você”), e ainda o póstumo “As pastorinhas”.

Apesar de casar-se em fins de 1934 com a jovem Lidaura, a vida de Noel só registrou uma única mudança: saiu de seu quarto uma cama de solteiro e entrou uma cama de casal. A boemia, as noites dissipadas, a bebida e o cigarro acabaram por lhe destruir os pulmões já enfermos. Noel morreu apenas 6 anos depois de seu primeiro sucesso, “Com que roupa”.

Pouco antes (março de 1937), voltando de um mês nas montanhas (Friburgo) em busca de melhor clima para a doença, o poeta visitara Ceci, sua grande paixão. Triste e amargurado, deu-lhe os versos do samba “Último desejo” (gravado dias antes de sua morte por Aracy de Almeida), no qual vaticina de modo profético o seu próprio fim e relembra o início de seu amor tumultuado com Ceci: “Perto de você me calo/ Tudo penso, nada falo/ Tenho medo de chorar/ Nunca mais quero teu beijo/ Mas meu último desejo/ Você não pode negar.”

Noel morreu na noite do dia 4 de maio de 1937, enquanto em frente à sua casa se comemorava o aniversário de uma vizinha numa festa em que tocavam suas músicas. Diversas versões sobre sua morte foram publicadas em diferentes jornais e biografias, onde se fez referência até a um ataque cardíaco. Ao enterro compareceram muitas personalidades da música e do rádio. À beira de seu túmulo, Ary Barroso fez um discurso emocionado, homenageando o amigo e parceiro. Contudo – e isso sempre foi muito comum no Brasil – seu nome ficou esquecido durante a década de 1940, até que Aracy de Almeida, em 1950, passou a cantar na famosa boate Vogue, incorporando sambas inéditos de Noel ao seu repertório. Desde aí, o compositor foi redescoberto e passou a ser homenageado pelo público, pela crítica e por autoridades, como no caso do busto inaugurado na praça Tobias Barreto. O pequeno monumento hoje se encontra na praça Barão de Drumond, Vila Isabel – com toda justiça! Além deste, a comunidade de Vila Isabel inaugurou um monumento no cemitério São Francisco Xavier, onde está o túmulo do compositor, em comemoração ao cinqüentenário do nascimento do Poeta da Vila.

*excerto do “Capítulo 2: A década de ouro”.

Ricardo Cravo Albin em O livro de ouro da MPB: a história de nossa música popular de sua origem até hoje (p. 115-118. Ediouro, 2003). Do livro tirei também a ilustração do samba “Onde está a honestidade”, que abre o post.

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Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho apresentam, dia 11/12, às 22h, no Bar Daquele Jeito (próximo ao Viva Vinhais), o show Noel, Rosa secular.

Cuidado!

(OU: O MONSTRO SOUZA ATACA EM TRÊS CAPITAIS)

“Eu gosto de Cu… ritiba” (Carlos Careqa). “Acho que gosto de São Paulo” (Legião Urbana). “Sei que preciso aprender/ quero viver pra saber/ e conhecer Brasília” (Sérgio Sampaio).

Às populações de Curitiba, São Paulo e Brasília, um aviso: cuidado! O Monstro Souza está chegando por aí essa semana.

Leiam uma entrevista que fiz com Bruno Azevêdo, quando do lançamento em São Luís. Mais informações no Romance Féstifud.

Semana Noel Rosa

#4

NOEL ROSA: GÊNIO E PROFETA DA RAÇA


Noel pela primeira vez. Capa. Reprodução

A monumental obra do compositor carioca Noël (com o trema do registro) de Medeiros Rosa (1910-1937) recebe um altar à altura, aos 90 anos de seu nascimento. Resultado de 13 anos de pesquisa e batalha para a realização do projeto, a caixa Noel pela primeira vez (Velas), produzida pelo professor paulistano Omar Jubran, reúne em sete CDs duplos 229 gravações do poeta da Vila Isabel. Nessa conta incluem-se primícias que se tornaram clássicos atemporais como “Fita amarela” com Francisco Alves e Mário Reis, em 1932, “Conversa de botequim” com o próprio Noel, em registro de 1935, “Palpite infeliz” (1935) e “Último desejo” (1937), ambos por Aracy de Almeida. Requinte da seleção: na briga pelo posto de mais fiel intérprete de Noel, Marília Batista aparece mais adiante interpretando a referida “Último desejo” com uma estrofe (que lhe teria confiado o autor) não incluída na gravação de Aracy. A mesma disputa ocorre nos registros do outro totem, “Silêncio de um minuto”, na versão completa por Aracy em 1951 e numa mais enxuta por Marília em 1940. De outra absoluta, “Três apitos”, ao registro oficial de Aracy, lançado apenas em 1951 (14 anos após a morte do compositor), e outro raro de Orlando Silva, nunca editado comercialmente. Do banquete de iguarias preciosas salta uma questão. Pelo volume, qualidade e profundidade da obra composta no curto período dos 19 aos 26 anos de idade, entre os criadores da música popular, parodiando uma música sua, Noel talvez seja “o melhor do planeta”.

“Eu tenho fama de filósofo amador”, gaba-se ele em “Com mulher não quero mais nada”, uma de suas inúmeras pérolas descobertas postumamente, em gravação de integrantes do conjunto Coisas Nossas. A obra desse cronista de costumes que sempre viajou entre a filosofia de botequim (no melhor sentido) e a observação sarcástica ou lírica do cotidiano é tão vasta que Noel pela primeira vez ainda desenterra inéditas tantos anos após sua morte. Boa parte foi registrada em programas de rádio e nunca lançada em disco, como relata o esmerado libreto de 160 páginas que acompanha a caixa, com ricas notas de Carlos Didier, co-autor com o jornalista João Máximo do livro Noel Rosa, uma biografia. O próprio Didier no vocal e violão, em desempenhos para o programa Noel Rosa: as histórias e os sonhos de uma época, da Rádio Cultura, desvela, entre outras, “Faz de conta que eu morri”, parceria com Henrique Gonçalves (“Não quero escutar/ declarações de amor/ pois de tanto chorar/ minha fisionomia já mudou de cor”), “Amor com sinceridade”, com Sylvio Pinto (“Pode haver muita amizade/ mas há sempre falsidade/ como um dia Judas fez”), e “Habeas corpus”, com Orestes Barbosa (“Tu tens as agravantes da surpresa/ e também as da premeditação/ mas na minha alma tu não ficas presa/ porque o teu caso é de expulsão”).

Do mesmo programa há registros de inéditas pela cantora Vânia Bastos (“Não morre tão cedo”, “Marcha da prima… Vera”), paródias noelescas de temas estrangeiros como “I’m looking over a four leaf clover” (“Belo Horizonte”), gravado por João Gilberto na versão comportada de Nilo Sérgio (“Trevo de quatro folhas”), e “Cheek to cheek (Vagolino de cassino)”, trabalhos de Noel recuperados por seus biógrafos. De outro programa de rádio, No tempo de Noel Rosa, de Almirante (colega do compositor no Bando dos Tangarás e um dos primeiros a avaliar sua importância na MPB), na Tupi, em 1951, são desempenhos de Roberto Paiva em “Deixa de ser convencida” (rara parceria que encerrou a polêmica de Noel com Wilson Batista), Jamelão na paródia “Canção do galo capão” (em cima da “Marchinha do grande galo”, de Lamartine Babo e Paulo Barbosa) e até um certo Alegria (José de Souza Pinto), motorista de táxi das farras de Noel para quem este escreveu, em 1931, a canção sertaneja “Mardade da cabocla”. Mas à parte as curiosidades e especiarias, a caixa que apresenta as canções dentro da cronologia de seus registros iniciais (e não seguindo a data em que foram compostas) atesta que o gigantesco Noel nasceu pronto.

Desde as primeiras composições, como a embolada “Minha viola”, de 1929 (regravada por Martinho da Vila), de letra acaipirada mas cheia de manha, o compositor já demonstrava seu ceticismo com as convenções sociais (vide “Filosofia” mais adiante, gravada por Mário Reis e Chico Buarque). Centrava fuzilaria nos estragos causados pelo vil metal (“Onde está a honestidade”) e questionava a dominação econômico-cultural estrangeira (“Não tem tradução”). Seu célebre retrato do país em “São coisas nossas” (“O samba, a prontidão e outras bossas”) destila farpas. Outra vertente principal de seus enredos aborda a guerra conjugal de um prisma que seria considerado machista pelos politicamente corretos (“O maior castigo que eu te dou”, “Mulher indigesta”, “Para me livrar do mal”). Numa tabulação temática rápida, a revanche amorosa (“Cansei de pedir”, “Riso de criança”, “Isso não se faz”, “Seja breve”, “Tenho raiva de quem sabe”, “Quem não quer sou eu”) – do artista que não primava pela beleza e teve o queixo afundado num erro de parto a fórceps – predomina sobre a ilusão amorosa leve, a chamada dor de cotovelo (“Meu barracão”, “Vejo amanhecer”, “Três apitos”). Traições, fingimento, alpinismo social amoroso, nada escapa ao implacável Noel, um obcecado pelas mentiras de mulher, como diz numa das músicas. Ou “Você só… mente” (“Você é um ente/ que mente inconscientemente”), como vergasta num fox gravado em 1933 por Francisco Alves e Aurora (irmã de Carmen) Miranda, um dos muitos pares estelares – a nata dos cantores da época – que desfilam pela caixa interpretando suas músicas.

Além de Mário Reis e Francisco Alves (juntos e separados), destacam-se seus clones Jojoca & Castro Barbosa (que lançaram o clássico “Adeus”, em 1932), também em desempenho com outros cantores, como no caso do heráldico “Feitio de oração” (“Quem acha/ vive se perdendo”), disparado nas vozes de Francisco Alves e Castro Barbosa em julho de 1933. Outros intérpretes bastante assíduos de Noel, além dos supracitados, foram Almirante (“Eu vou pra Vila”, “Contraste”, “Tarzan, o filho do alfaiate”, “Só pra contrariar”, “Já não posso mais”, “E não brinca [Não brinca não]”, “Maria fumaça”), João Petra de Barros (“Até amanhã”, “Quero falar com você”, “Nem com uma flor”), Silvio Caldas (“Pastorinhas”, “Pra que mentir?”, “Mão no remo”, “Vitória”), Orlando Silva (“A dama do cabaré”, “Pela primeira vez”, “Cidade mulher”). Carmen Miranda teve a primazia da marchinha “Assim sim!” (parceria de Noel com Chico Alves e Ismael Silva) e do samba “Tenho um novo amor” (de Noel e Cartola). Mas o próprio Noel, vencendo a barreira que separava os criadores dos microfones, é um de seus mais assíduos (e eloquentes) intérpretes. Levemente abaritonado, sotaque carioca marcante e um modo coloquial de dizer as letras antecipando as vozes de travesseiro da bossa (expressão que usou muito em suas composições), ele lançou desde a obscura toada “Festa do céu” (1929) a emblemas como “Com que roupa?”, “Um gago apaixonado” (1930), “Cordiais saudações”, “Mulata fuzarqueira” (1931), “Felicidade”, “Mentiras de mulher”, “Mulher indigesta” (1932) e muitas outras.

Embora o paulistano modernizador Oswaldo Gogliano, o Vadico (1910-1962), pré-bossa-novista co-autor de “Feitiço da Vila”, “Feitio de oração”, “Conversa de botequim”, tenha entrado para a história como parceiro mais afamado, a caixa atesta que o classe média Noel, que chegou a cursar (mal, vide os erros técnicos do ótimo samba “Coração”) medicina, não ficou nas mesas de bar entre os coleguinhas de classe social como os parceiros Lamartine Babo (“AE.IOU”, “Absurdo”, “Nega”), Ary Barroso (“Mão no remo”, “Estrela da manhã”), João de Barro (“Pastorinhas”, “Lataria”, “Samba da boa vontade”) e Hervê Cordovil (“Triste cuíca”, “Não resta a menor dúvida”, “O que é que você fazia?”). Embora escrevesse que o samba nasce no coração, ele foi aos morros (e arrabaldes) beber o gênero na fonte. Ao lado de Cartola (“Não faz, amor”, “Tenho um novo amor”) e Ismael Silva (com quem gravou em duo e assinou vários sambas numa trinca profissional com Chico Alves), ele dividiu trabalhos com Canuto (“Esquecer e perdoar”, “Já não posso mais”), que chegou a gravar dois sambas em primeira mão, e o lendário Antenor Gargalhada (“Eu agora fiquei mal”), além de Donga (“Este meio não serve”), Heitor dos Prazeres (a clássica marcha-rancho “Pierrô apaixonado”) e João Mina, com quem praticamente inaugura o partido alto em “De babado”, gravado em 1936, em duo com Marília Batista.

Gênio (e profeta) da raça, sambista também cultor da “Rumba da meia noite” ao rock da época, o fox-trot (“Julieta”), Noel que viveu num Rio de Janeiro ainda bucólico, onde o despertador podia ser o guarda civil (de salário atrasado), previu até o fim da malandragem cordial. E prenunciou a guerra civil não declarada: “No século do progresso/ o revólver teve ingresso/ para acabar com a valentia” (“O século do progresso”, 1934).

(Jornal do Brasil, 5/12/2000)

Tárik de Souza em Tem mais samba: das raízes à eletrônica (p. 43-46), Editora 34, 2003.

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AMANHÃ (5)

Ricarte Almeida Santos entrevista os bambas de Noel, Rosa secular no Chorinhos e Chorões, às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Termina amanhã 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul

Tudo o que é bom dura pouco. Termina amanhã, em São Luís, a 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, que até o próximo dia 19 de dezembro terá percorrido 20 capitais brasileiras. Ótima programação. Quem perdeu, resta torcer para que São Luís seja mantida na rota do ano que vem – a ideia da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que realiza a Mostra, é chegar a todas as capitais em breve.

Confira a seguir a programação de amanhã. As sessões, gratuitas, acontecem no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Ingressos podem ser retirados na bilheteria do cinema, meia hora antes das sessões.

13h30min

Groelândia, de Rafael Figueiredo
Brasil 17 min 2009 ficção

Franco volta para casa depois de dez anos. Ao atravessar a porta, ele encontra a mãe e um passado indesejado.

Mundo Alas, de León Gieco, Fernando Molnar e Sebastián Schindel
Argentina 89 min 2009 doc

Mundo Alas é um road movie, uma viagem iniciática de um grupo de jovens artistas que mostra sua arte junto com a voz, o talento e a experiência de León Gieco durante uma turnê por diferentes províncias argentinas. Músicos, cantores, bailarinos e pintores, todos eles grandes artistas, e portadores de necessidades especiais, expressam e comunicam sua maneira de ver o mundo: aquilo que lhes preocupa, que os anima e que os inspira, em um show que combina música, dança e pintura. Nele se destacam o rock, o folclore e o tango junto a grandes sucessos de León Gieco. Ao longo da turnê e do filme, vão sendo conhecidas as histórias de vida de cada protagonista e sua evolução artística. Os shows, ensaios, a estrada e os hotéis são os cenários de histórias e músicas que geram novos sonhos: conseguir gravar o disco de Mundo Alas, e encerrar a turnê com um grande show no Luna Park. Surgem também histórias de amor e relações que demonstram que a integração é possível. Um filme único, inclusivo, que dá nome e reconhece as pessoas por suas capacidades, uma maravilhosa experiência musical sobre a superação e o amor.

15h30min

Carreto (já exibido com audiodescrição na sessão de 13h30min, dia 1º./12)

Bailão, de Marcelo Caetano
Brasil 17 min 2009 doc

A memória de uma geração visitada por seus personagens. O cenário é o centro de uma grande cidade; o enredo, a urgência da vida. E o Bailão, o ponto de convergência dessas histórias.

Defensa 1464, de David Rubio
Equador/Argentina 68 min 2010 doc

Esta é a história de um grupo de emigrantes afro-equatorianos que chegaram a Buenos Aires para repensar a história e resgatar seus antepassados do esquecimento.

17h30min

O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger
Brasil 110 min 2006 ficção

Em 1970, o Brasil e o mundo parecem estar de cabeça para baixo, mas a maior preocupação na vida de Mauro, um garoto de 12 anos, tem pouco a ver com a ditadura militar que impera no País, e seu maior sonho é ver o Brasil tricampeão mundial de futebol. De repente, ele é separado dos pais e obrigado a se adaptar a uma “estranha” e divertida comunidade – o Bom Retiro, bairro de São Paulo, que abriga judeus, italianos, entre outras culturas. Uma história emocionante de superação e solidariedade.

19h30min

Eu não quero voltar sozinho (já exibido com audiodescrição na sessão de 13h30min, dia 1º./12)

Imagem final, de Andrés Habegger
Argentina 94 min 2008 doc

Junho de 1973 em Santiago do Chile. Leonardo Henrichsen, um cinegrafista argentino, filma sua própria morte. 33 anos mais tarde, Ernesto Carmona, um jornalista chileno, descobre a identidade do homem que o matou. Imagem Final é um filme sobre um das imagens mais famosas da história. Sobre um grupo de jornalistas filmando um continente que afunda na violência. Uma oportunidade de ver o material de arquivo mais incomum e revelador dos últimos 40 anos. Imagem Final é um passeio pela história recente da América Latina, através da vida e das imagens de um só homem.

19h30min

O filho da noiva, de Juan José Campanella
Argentina 124 min 2003 ficção

Rafael Belvedere não está satisfeito com a vida que leva. Não tem tempo para se dedicar às suas coisas nem a seus parentes. Não tem ideais, vive enfiado até a cabeça no restaurante fundado por seu pai; sustenta um divórcio; não teve tempo suficiente de ver crescer sua filha Vicky; não tem amigos, e prefere adiar um novo compromisso com sua namorada. Além disso, há mais de um ano não visita sua mãe, que sofre do Mal de Alzheimer e está internada em uma casa de repouso. Rafael quer apenas que o deixem em paz. Mas uma série de acontecimentos inesperados irá obrigá-lo a repensar sua situação. E no caminho, dará apoio ao seu pai para cumprir o velho sonho de sua mãe de se casar.

Eis a sinopse do filme da sessão de agora, 19h30min, no Cine Praia Grande, dentro da programação da 5ª. Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul. Outros filmes exibidos hoje (4) foram Mãos de outubro, Juruna, o espírito da floresta (13h30min), Halo, Andrés não quer dormir a sesta (15h30min), Maribel e O quarto de Leo (17h30min). Todas as sessões são gratuitas.

Já já

Recebi por e-mail, da cantoramiga Lena Machado, algumas fotos que a Thays Tuzzi, que não conheço, fez de seu show Samba de Minha Aldeia, apresentado no último dia 30 de novembro, no Feitiço Mineiro, na capital federal. Colei algumas aí, para avisar que já já, em pouco mais de meia hora, ela canta acompanhada dOs Pregoeiros, no encerramento do Dezembro de Paz. Às 19h30min, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande, de graça. Detalhes no Ponte Aérea São Luís.

Semana Noel Rosa

#3

SERESTEIRO OBTUSO

Noel Rosa gostava das madrugadas e, quando não tinha carro, escalava motoristas de táxi para acompanhá-lo no périplo noturno.

Um desses motoristas tinha o apelido de Malhado, em função do vitiligo. Possuía voz possante, que gostava de exibir em serenatas, e vivia pedindo a Noel uma música em que pudesse exibir seus dotes vocais.

Noel percebeu um detalhe interessante. Malhado cantava valsas e canções com palavras difíceis de que ele não conhecia o significado. Diante disso, resolveu compor uma canção para o amigo motorista.

Depois de pronta a composição, Noel ensinou versos e melodia para Malhado, e combinou de fazerem a estreia da obra numa serenata para as filhas de um coronel lá de Vila Isabel.


Ilustração: Redi

Ao chegar diante do sobrado do coronel, Noel disse que ficaria do outro lado da rua, para dar o destaque que a voz de Malhado merecia. Feriu o tom e o cantor atacou:

“Saí da tua alcova
Com o prepúcio dolorido,
Deixando teu clitóris gotejante
De volúpia emurchecido
Porém o gonococos da paixão
Aumentou minha tensão”

O coronel levantou atirando. Malhado correu para a esquina onde Noel já o esperava. Lívido, parou diante do Poeta da Vila, que o consolou:

“Isso é pra você ver, Malhado, o que é a falta de sensibilidade dessa gente”.

(De Suite gargalhadas (p. 19/20), de Henrique Cazes. José Olympio Editora, 2002. Do livro foi tirada também a ilustração do post)

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11/12: Noel, Rosa secular.