Convite em forma de breve memória

[Diário Cultural de hoje; a diagramação do Diário da Manhã acabou incluindo trechos de minha coluna anterior, entre o fim do texto e o “Serviço”. Aqui vai, reproduzido como deveria ter sido publicado]

Paisagem feita de tempo. Capa. Reprodução

Ao completar 51 anos de idade, Joãozinho Ribeiro bota no mundo um filho já maior: nesta sexta-feira autografa Paisagem Feita de Tempo, longo poema-lembrança dos logradouros ludovicenses de sua infância/adolescência. Como já dito anteriormente pelo colunista: “Escrito em 1985, ‘Paisagem Feita de Tempo’ insere-se, de já, no panteão sagrado da poesia capaz de fotografar locais de um modo peculiar. Nada deve a um ‘Poema Sujo’ de Gullar, a‘O Cão Sem Plumas’ de João Cabral, ou ao Nauro do ‘Pão Maligno Com Miolo de Rosas’. É, por isso, desde sempre, um poema universal”.

Posso lembrar o dia em que conheci Joãozinho Ribeiro pessoalmente. Foi em março ou abril de 2003, no auditório do Sindicato dos Bancários. Ele, capitaneando um grupo para reivindicar algo pela cultura do Maranhão. Coisa que faz até hoje, incansável. Lembro também da ligação que fiz para Chico Saldanha, dias antes, que me deu o telefone de Joãozinho. Eu precisava de alguma informação para o jornalismo informal que eu cometia à época – nesse aspecto, pouca coisa mudou.

À época, Joãozinho estava envolvido com o projeto Samba da Minha Terra, que tentava democratizar o acesso à boa música comunidades ludovicenses afora. Dezoito locais foram contemplados com o melhor show daquele ano. Ao menos foi o que atestou a Rádio Universidade FM, no maior prêmio da música do Maranhão. O quixotesco projeto levou ainda os prêmios de melhor músico violonista (Celson Mendes, diretor musical do espetáculo, e Francisco Solano) e melhor produção (Vanessa Serra). O escriba aqui, dada a empatia imediata – pelo sobrenome há quem pense que somos parentes biológicos; mais que isso, somos parceiros de copo e alma, um brinde, João! –, assumiu o posto de Assessor de Imprensa do projeto e deu suas modestas contribuições para estampar o “Samba” nas páginas dos cadernos culturais dos jornais de São Luís.

O circuito musical alternativo, que teve o patrocínio da Caixa Econômica Federal, foi um dos raros momentos em que Joãozinho Ribeiro mostrava-se artista para a Ilha pela qual, de certa forma, deixou a carreira artística em segundo plano. Por uma boa causa, é claro: a militância cultural. Militância esta que permitiu que João visse artistas repartindo o pão e a poesia, seja enquanto presidente da Fundação Municipal de Cultura, seja enquanto cidadão comum, “rapaz latino-americano sem dinheiro no banco”, como diria outro compositor.

Para termos uma idéia da importância de discussões sobre cultura e política cultural na vida do poeta Joãozinho – o mesmo moleque do Desterro, técnico da Receita Federal e Professor Universitário: ele agora está à frente da Coordenação de uma pós-graduação em Gestão Cultural, na Faculdade São Luís, onde dá aulas no curso de Direito. Por essas e outras, seu livro Paisagem Feita de Tempo, escrito em 1985 e, portanto, já maior de idade, somente será lançado agora.

Um longo poema, bonito, sincero, relato da infância e adolescência do poeta por logradouros – outrora mais inocentes – da Ilha de São Luís, capital do Maranhão, cidade que pariu o poeta pro mundo, que Joãozinho é isso tudo, sem restrições geográficas.

Nesta sexta-feira, 28 de abril, às vésperas de completar 51 anos – idade emblemática para amantes da boemia – Joãozinho Ribeiro autografa sua Paisagem Feita de Tempo. A festa tem início às 20h, na Casa do Maranhão (Praia Grande) e espera ter o caro leitor como personagem nesta vasta e bonita paisagem.

Com a palavra, o próprio João, em versos do livro: “O que já não me cabe / Está exposto, / Assim como uma culpa, um estandarte, / Que faz da minha vida a minha arte, / E da tua vida / A minha outra parte”.

Serviço

O quê: Noite de autógrafos do livro Paisagem Feita de Tempo
Quem: Joãozinho Ribeiro
Onde: Casa do Maranhão (Praia Grande)
Quando: sexta-feira, 28 de abril, às 20h

Boletim Famaliá

Marcelo Manzatti edita o boletim Famaliá, distribuido via e-mail; para solicitar cutuque em cima do nome do moço. Na edição 30, recebida hoje por este blogueiro, a nota abaixo.

4 – Bumba Boi de Guimarães, sotaque de zabumba, originário do Quilombo de Damásio (MA) no Copa da cultura.

A brincadeira, selecionada para fazer parte das apresentações brasileiras na Alemanha, irá representar a presença negro africana tão marcante no nosso Nordeste…

Estaremos em Munique entre os dias 24 e 29 de maio, com apresentações do Bumba Boi e Tambor de Crioula do Quilombo de Damásio. Serão oferecidas oficinas de música e mesas redondas sobre literatura oral e etnomusicologia, com mediação da profª. Dra. Ana Stela Cunha, lingüista, africanista, atualmente pesquisadora e professora visitante da Universidade de Havana (Cuba) e Centro Cubano de Antropologia.
Muito obrigada!!!
Ana Stela

três, rapidim

1. talvez eu já esteja até ficando enjoado de tanto encher o saco de vocês com isso. mas não é culpa minha, nem do incansável walter rodrigues (link ao lado). o colunão finalmente, depois de tantos atropelos, sai hoje. detalhes (sobre os atropelos), conto pra vocês em breve. assine! saiba como no blogue de wr.

2. sexta-feira, 28, é o lançamento de paisagem feita de tempo, livro-poema belo de joãozinho ribeiro. o convite, aí abaixo. apareçam!

3. meu espaço no uol encheu. ou eu teria que assinar ou apagar posts. como não queria nem uma coisa, nem outra, tou aqui. ainda tive que apagar duas mensagens, reproduzidas aqui, mas enfim…

Diário Cultural de ontem

Entre feriados

Quatro tópicos ligeiros para a terça que inicia a semana do colunista no Diário, após o feriado de sexta e já esperando o feriado da próxima segunda. O colunista tem aproveitado bem – “ótimo!”, ele diz – seus feriados.

Labô no Rio

A turma do Laborarte vai pro Rio. De 27 a 30 de abril, o Tambor de Crioula do Laborarte e o Cacuriá de Dona Teté se apresentam e ministram oficinas no Teatro Cacilda Becker. Os ingressos para as apresentações – 27, 28 e 29, às 20h30min e 30 às 19h – custam R$ 15,00; as oficinas – 28 e 29; Tambor de Crioula às 14h e Cacuriá às 15h30min – custam R$ 30,00. Maiores informações: (21) 2265-9933.

Carioca

Já pode ser comprado no site da gravadora Biscoito Fino, o disco “Carioca”, de Chico Buarque. “Carioca” era o apelido de Chico nos tempos da Faculdade de Arquitetura em São Paulo, onde foi contemporâneo de nosso Chico Maranhão. Trata-se, na verdade, da pré-venda do disco (com entregas a partir do dia 4 de maio), primeiro de inéditas do compositor desde “As Cidades” (1998). No site há a informação de que em breve será vendido um kit, com cd e dvd, sobre o processo de composição de carioca. O preço – do cd simples – faz jus ao nome da gravadora: biscoito fino não é para qualquer um. R$ 36,90. O site da gravadora: http://www.biscoitofino.com.br

Prêmio ABA

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) recebe até 1º de maio inscrições de trabalhos monográficos para o seu 4º prêmio. O tema é “Antropologia e Direitos Humanos: direitos culturais, desigualdades e discriminações”. Os trabalhos devem ter no máximo cinqüenta páginas de texto corrido em fonte times new roman, com espaçamento 1,5. O resultado será divulgado em 14 de junho, e o prêmio pode chegar a até cinco mil reais. Os trabalhos podem ser enviados por e-mail (abaford@ims.uerj.br) ou para Presidência do Prêmio ABA, aos cuidados da professora Maria Luiza Heilborn, Concurso ABA/Ford, Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rua São Francisco Xavier, 524, 6º andar, Bloco E, CEP 20.550-013, Rio de Janeiro/RJ. Editais e maiores informações em http://www.antropologias.com.br

Navegar é preciso!

Volto hoje à série “Navegar é Preciso!”, capítulo perdi as contas. Isso, antes d’eu inventar aqui, e iniciar, a série “Resenha fora de hora”, onde escreverei sobre obras que não acabaram de ser lançadas/publicadas. Hoje recomendo o blogue do Ronaldo Robson, o Naldo. Poesia, opinião, crítica. Eu comentando com um amigo, ao lê-lo: “o legal de blogues é que a gente já não precisa tanto da ‘mídia convencional’”. Ao lerem As Vírgulas de Lilipute (http://asvirgulasdelilipute.zip.net) vocês vão entender o que estou falando.

Diário Cultural de domingo

Elegia Cesariana: o parto poético do músico

O arriscado e destemido mergulho do paraibano Chico César na praia profunda da poesia de fôlego. Em “Cantáteis – Cantos Elegíacos de Amozade”, a declaração de amor por uma amiga, a declaração de amizade pela mulher amada, a declaração de amor e amizade por São Paulo, cidade que adotou o “paraíba” que ganhou o mundo.

Um “paraíba” perante a imponência da arquitetura dos prédios e sentimentos de São Paulo. Sem estranhamento. Admiração mútua, talvez não num primeiro instante. Um sentimento de amor, em vez de platônico, correspondido, enquanto amozade (soma de amor e amizade). Que a amizade não exclui o amor e vice-versa, versa o verso, declaração de amor para uma mulher. E a cidade. A cidade mulher. A mulher que representa a cidade.

1.551 versos, divididos em 141 estrofes compõem “Cantáteis – Cantos Elegíacos de Amozade” (Editora Garamond, 2005, preço sob consulta em http://www.garamond.com.br), poema que Chico César dedica à amiga e parceira Tata Fernandes, ela a representação da mulher paulista/paulistana, o tipo. A mulher que freqüenta o círculo intelectual boêmio da cidade grande, que tem bom gosto literário, musical e – por que não? – etílico.

“Escrevi “Cantáteis” como um canto de amor e amizade a uma mulher, uma musa paulistana. Escrevi movido por esse sentimento híbrido (amozade) e que muitas vezes julgamos formados por partes que se negam: o amor e a amizade.”, conta Chico César, numa espécie de posfácio, no livro. “Escrevi (…) estimulado pela existência e consistência de poemas longos como “Os Cantos” de Erza Pound, “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, “Altazor” de Vicente Huidobro. Ou ainda “O Guesa”, de Souzândrade e “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Sei que o fato desses poemas existirem e pesarem decididamente na balança da literatura universal deveria me silenciar em definitivo. Mas deu-se o contrário. E cometi “Cantáteis”. Atribuo hoje à falta de juízo que acomete os apaixonados. Era como eu me encontrava. E me encontro”, completa.

Escrito em 1993, “Não num só fôlego, como seria mais heróico” – como diz o próprio Chico –, “Cantáteis” foi publicado ano passado, o mesmo 2005 em que o paraibano de Catolé do Rocha pôs na rua o disco mais lírico de sua carreira – “De Uns Tempos Pra Cá”, (Biscoito Fino, 2005, produzido por ele e Lenine) –, iniciada em 1994 com o ao vivo “Aos Vivos”.

Que Chico César é dos mais talentosos e competentes compositores que despontaram no cenário musical nacional – e internacional – nos fins do século passado, é notório e sabido por todos: dos que escarafuncham novidades em busca de coisas boas aos que o conheceram em trilha sonora de novela. Agora, (com)prova “Cantáteis”, que o jornalista de formação – o autor de “À Primeira Vista” e “Mama África” é graduado pela Universidade Federal da Paraíba – é também um erudito poeta popular, dada a facilidade com que parece brincar de pular corda com a tênue linha que separa estas “duas culturas”. Ainda bem que o músico não matou ou silenciou o poeta.

“Cantáteis” é o mergulho visceral e destemido de se cantar o amor por uma amiga, ou a amizade pela mulher amada. É um Chico César que não vai tocar no rádio nem na novela, e talvez por isso não vá fazer sucesso. Mas deveria, alinhado que está, de já, com os poemas citados pelo autor em sua opção por não silenciar.

Serviço

O quê: “Cantáteis – Cantos Elegíacos de Amozade”
Quem: Chico César
Onde: Editora Garamond
Quanto: preço sob consulta no site http://www.garamond.com.br


SHOPPING BRAZIL MUDA DE ENDEREÇO

Moçada, estou mudando de endereço. Espero que para melhor (agora um blog com comentários, imagens, links etc.)

O preço da passagem (até lá) e da cerveja (lá) continua o mesmo.

Tô esperando vocês pra inauguração: http://olhodeboi.zip.net

Sexta, 11/2

SMDH COMPLETA 26 ANOS

Fundada em 12 de fevereiro de 1979, a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos – SMDH completa 26 anos com show em grande estilo. Celebrando a importante data, Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro e Gildomar Marinho sobem ao palco do Teatro Alcione Nazaré para prestar uma homenagem a entidade que tem como principal característica a defesa da vida e dos direitos fundamentais do ser humano, algo nada fácil num Estado como o Maranhão.

Gisele Padilha (do Centro de Cultura Negra, CCN-MA) e Lena Machado (da Cáritas) farão participações especiais. Os artistas não foram escolhidos à toa: Cesar Teixeira foi Assessor de Imprensa da SMDH durante onze anos e permanece como membro do Conselho Consultivo da entidade; Joãozinho Ribeiro foi um de seus fundadores; e Gildomar Marinho é um militante da defesa dos direitos humanos através das atividades que desenvolve como Agente de Desenvolvimento no Banco do Nordeste.

A festa começa hoje, 11/2, às 19h30min e a entrada é gratuita. Comemore com a SMDH.

Maiores informações: (98) 9609-8139, 3231-1897, 3231-1601

Sábado, 12/2

BAGDAD POP HITS

Os Dj’s Max Get Way e Vinicius Bogéa comandam as pick-up’s neste sábado no Bagdad Café (Rua Portugal, Praia Grande). A partir das 22h muito pop e rock numa festa que promete som e clima alternativo.

PROJETO GIRAMUNDO

Também a partir deste sábado o percussionista Luiz Cláudio retoma o Projeto Giramundo, na Casa Portuguesa (Rua do Giz, Praia Grande). A partir das 22h é outra boa pedida para a noite. A festa conta com a participação dos Dj’s Adaga (T. A. Calibre 1) e Juarez (ClãNorDestino). A idéia é misturar a discotecagem dos dois com a percussão ao vivo de Luiz Cláudio.

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DIREITOS HUMANOS: O AVESSO DA IMPUNIDADE

A SOCIEDADE MARANHENSE DE DIREITOS HUMANOS – SMDH está completando 26 anos de luta e defesa da vida. Para celebrar a ocasião, acontece na próxima sexta-feira, 11/2, às 19h, no Teatro Alcione Nazaré, Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande, o show DIREITOS HUMANOS: O AVESSO DA IMPUNIDADE, com os artistas maranhenses CESAR TEIXEIRA, JOÃOZINHO RIBEIRO e GILDOMAR MARINHO. Participação de diversos artistas maranhenses; entrada franca.

O Jornal Pequeno publicou em sua edição de hoje, texto do blogueiro, já pendurado por aqui, sobre o livro do mineiro Fabrício Marques: “Dez Conversas: Diálogos com Poetas Contemporâneos”.

Yanna passou uma semana em São Luís. Descobrimos gostosamente um ao outro. E duas músicas marcam essa relação: “Como Dois Animais”, de Alceu Valença que, coincidentemente, ouvimos por três vezes seguidas em três bares e três noites diferentes (e sem pedir “toca Alceu!”); e “Talo de Capim”, música do conterrâneo da paraYbANNA em parceria com com Ronaldo Monte, cuja letra segue abaixo:

Talo de Capim

Brisa, fim de tarde, cheiro de maracujá

Talo de capim na minha boca

Beijo, febre arde, internoite, madrugar

Dormir com teu cheiro como roupa

Trégua enfim que a vida dá

Mimo para quem soube esperar

Copo d´água, sono calmo

Salva o coração coisa tão pouca

Chuva, terra, frio

Luz acesa preguiçar

Âncora da tarde em mar sem porto

Cama, pele, cio

Quarto escuro, deslizar

Mão-áspera-seda no teu corpo

Trégua enfim que a vida dá

Mimo para quem soube esperar

Copo d´água, sono calmo

Salva o coração coisa tão pouca

Milton Dornellas e Ronaldo Monte

Do disco “Ancestrais”

Gravado originalmente por Milton Dornellas e Quinteto da Paraíba

Julho/1998/João Pessoa-PB

Uma crônica de Yanna Nóbrega, minha namorada, em Brasília-DF

7235km de (re)encontros

Para Ingrid, Iana, Sara, Gabriel, Eduardo, Samara, Bruno e Zema, minhas crianças

Meu coração navega solitário as primeiras quietudes de dias de felicidade e plenitude muito recentes.

Ando inquieta pela casa… sento, deito, levanto, caminho! Caminho como se não coubesse em mim, como se todos os sentimentos que me percorrem não mais encontrassem as trilhas que os levam aos seus devidos lugares, como se tivesse que me catalogar pra ser encontrada em mim, como se me recomeçasse e pudesse ser reinventada.

Cansada das minhas rotinas e dilemas, acordei bandoleira, descortinei estradas e saí mundo afora à procura de mim. Parecia loucura, mas pela primeira vez em três anos e meio de Capital Federal, me permiti finalmente férias de destino incerto.

O primeiro “insight” da minha incerteza me fez viajar por 36 horas, de ônibus, 2500km, cortando GO-BA-PE-CE até chegar ao meu torrão PB (Patos, Vale das Espinharas, Sertão da Paraíba). Experiência tranqüila pra quem precisava exercitar a paciência e olhar a paisagem na janela mudar, como quem bebe as memórias de infância e embriaga-se com as lembranças.

Interessante me dar conta de que a viagem traz um limite de exaustão exato, e cada cidade torna-se o banheiro mais próximo e a distância de casa menor, pacientemente exercida à adaptação do momento temporário. E, enfim, dois dias e duas noites depois, respirar, como se diz na terrinha “o pingo da mei-dia” traz o alívio limite do reencontro com as raízes da minha gente, com “a gente” que me habita. “Agora pense, numa satisfação arretada da porra!!!”

Passado o cansaço inicial, o corpo já nem sente tanto porque a alma levita como as palavras que adentram os ouvidos e “puxam do juízo” a memória do dialeto próprio do meu povo, que é tão grandioso que faz com que “minha natureza não abaique” o alcance que pode atingir.

Minutos depois da chegada, em casa, sou surpreendendida por três pares de olhinhos curiosos no portão de casa (Ingrid, Iana e Sara), e recepcionada pelo abraço carinhoso de mainha e o cheiro de painho, tão esperados naqueles dois últimos dias. E aí tudo vira festa, comida boa, familiar e memorável, banho, cheiro de infância, casa com o sentido mais próprio de lar que se pode compreender.E o encontro mais esperado dos últimos anos, Alexandre, meu primo querido, depois de mais de dez anos sem contato, indescritível… e muito bom.

Dias de aconchego para uma alma solitária, cochilos no quintal, beijo de vó e vô, de tia, de tio, de primo, de criança. Fim de tarde ensolarado, calor, sorvete, pôr-do-sol na morada do sol, nascer da lua na caatinga braba do meu sertão ressequido, e muita, muita, muita comidinha caseira, feita com carinho do jeito que só mainha faz, e não há quem nesse mundo substitua.

Uma semana depois, já bem recuperada e acarinhada, pronta para novo trecho da viagem, destino João Pessoa, estrada e mais 300km pra frente. Chegar na minha capital querida, terra de boas energias e grandes “criaturas”. Rever amigos que há muito não via, reencontrar Artur e Amanda, e finalmente conhecer Gabriel, poder abraçar meu amigo Ricardo e conversar sem pressa, reencontrar os fotógrafos amigos de guerra e o nosso “Imagine”, David, Mônica, Helder e Amilton. Rever Adeildo, Déa, Nara e o meu querido clã Limeira, com as crianças crescidas. Sentar na sala de casa com Renato e Juciano como nos velhos tempos de universidade. E conhecer meu mais novo sobrinho, Bruninho! Mamãe Mana, minha velha e fiel amiga de muita estrada, feliz! Quantas lembranças boas preenchidas… saudadas com o pé na areia, um banho de mar em águas quentes, um pôr-do-sol e um nascer da lua nas areias do cabo branco. Três dias de emoções fortes e mais 300km pra casa.

Chegada em fim de tarde no sertão, “arribaçãs” em vôos, andorinhas e um céu sereno alaranjado, de encher a alma de qualquer sertanejo que já bebeu da água do jatobá e partiu da sua terra por circunstâncias necessárias.

Noite estrelada, conversas na calçada de vovó como em velhíssimos tempos, e na cozinha de casa com mainha e Alexandre, cheia de crianças, que se descobrem e me descobrem em suas vidas. Sono calmo…

Dia cheio, nova estrada, 1600km de “ôins” novamente, férias solitárias, destino São Luís do Mara. Um dia depois, e boas surpresas. Novos, previsíveis e imprevisíveis encontros! Grande descoberta: Zema; melhor prazer: resgatar vovô Peri em Mestre Vieira; grande achado: Lincoln. Melhor paisagem: Raposa; companhia inesperada: Cesar Teixeira em mesa de boteco; experiência de coletivismo: hospedar-se no albergue da juventude no centro histórico de São Luís e fazer amizades; trilha sonora: “Como dois animais” com direito a bis e sem escolha de caso pensado; trilha sonora escolhida: show de mestre Vieira; prazer gastronômico: sorvete de cupuaçu com casquinha caseira vendida nas ruas do centro histórico da Ilha do Amor, doce de espécie em Alcântara e o arroz de cuxá de dona Solange; novo vocabulário: xiri e bezerra ( pra ser entendida só pelos maranhenses, que me perdoem se a escrita não tiver correta). Momento paisagem: caminhada pelas dunas de Raposa; Momento eterno: Será ouvida em trio elétrico nas ruas de Madre Deus com Zema. E há mais espaços não coletivos na minha memória: olfativa, gustativa e emocional…

Estação de trem, segunda de manhã, silêncio de despedida, andar “sentido” de Zema ao me ver partir. Dez horas seguintes, 637km e muitas paisagens pelas janelas do trem da estrada de ferro de Carajás. A vida dos ribeirinhos à espera do trem, a comida colorida à venda pelos nativos, as frutas, as crianças em banhos de igarapés, o apito longe do trem que se despede e chega, o balanço gostoso do trem como sensação recém descoberta, e as lembranças felizes dos últimos dias a se acomodar no juízo. Estação final, Açailândia, sul do Maranhão, e lá está dona Antonia, mãe de Monice (velha amiga de faculdade) a minha espera. Chegada a Imperatriz.

Primeira volta na cidade, e o reencontro com Tia Luíza (amiga de Titia Neném) e longa prosa sobre a vida… Rever a pequenina Samara, crescida, o nosso bêbê embalado nas aulas da faculdade, conhecer Dudu, o menino levado. Andar pela vida da minha amiga e dos seus, e ser bem acolhida…

Destino final Marabá, 208km, desta vez de vam, e muita estrada de terra, sensação de terra sem lei, Amazônia, chão vermelho, gente explorando e sendo explorada, descaso, realidade forte, vida real do lugar. Duas da tarde, reencontro com Lincoln e nova diversão no sul do Pará.

Cidade de ritmo próprio, arquitetura própria, que se inunda uma vez a cada ano, com direito a mão inglesa em estrada férrea e tudo. Paisagem própria, comida e casas de identidades marcantes, habitantes de jeito peculiar na aparência e no comportamento, estrutura do lugar.

Para não esquecer a agradável companhia de Lincoln: tucunaré na beira do rio Araguaia, açaí no fim de tarde pra refrescar, farinha de tapioca, remendo de mapa, conversas na calçada do condomínio com Roberto e Rodrigo, passeio na feira, fotos na cidade, gasolina no aeroporto, como aprender a comer castanha-do-pará na feira, ver filme e conversar “psicologicamente”. Tomar tacacá como iguaria gastronômica da viagem e descobrir a “tremidinha” causada pelo jambu do tacacá à moda e tradução paraense.

E para não parar de rir usar a classificação de Lincoln nas seguintes situações: primeira, o Pará é a terra de “ALÁ”, não o substituto de Deus para o mundo oriental, mas a contração de “olha lá” que os paraenses tanto usam para mostrar ou indicar algo próximo. A segunda, no Pará as mulheres adoram calcinhas vermelhas, explicação observacional feita pelo meu querido amigo, que depois de ver mulheres em bicicletas e motos desfilando as tais calcinhas já não as vê com sensualidade alguma, mas talvez os homens paraenses sejam atraídos assim, vai entender?! Terceira e última, herança de São Luís em noite a caça de reggae, explicação pra gringo entender, “como identificar azulejos portugueses na cidade? Muito simples, se quatro se juntarem e formarem desenho, é português! Basta lembrar da piada simples de português, quantos deles são necessários para trocar uma lâmpada? Quatro, um na escada de lâmpada na mão, e três para girá-la”.

Volta a Brasília, vôo de duas horas, abaixo 1590km de chão, vontade de novas aventuras, próxima viagem, adeus real de aeroporto pra guardar o sorriso e as últimas palavras na memória, regressar…

Dias simples, pessoas reais, sentimentos verdadeiros, exercício de viver a verdade em plenitude, amar e compreender as várias formas de amor que somos capazes de ilimitar!

Saudade gostosa, serena, resolutiva para o recomeço!!!

Yanna

(regurgitando as lembranças em 26 e 27/01/20005)

Pequeno auxiliar de tradução:

“o pingo da mei-dia” : sol quente do sertão na moleira do cristão em pleno meio-dia

“minha natureza não abaica” : expressão de beradêro para explicar aquilo que ele é incapaz de compreender e assimilar pra si, de tão grandioso que representa o feito. E se não entender beradêro, mais uma chance, matuto!

“criaturas”: expressão usada para se referir a pessoas fantásticas que conhecemos na vida, seja pelo jeito pitoresco ou por estima de personalidade. Pode ser jeito carinhoso de se chamar pessoa íntima, próxima.

“ôins”: em bom paraibanês, ônibus em português!

“sentido”: andar sentido ou estar sentido, o mesmo que, estar magoado, triste, sentindo falta. Expressão do paraibanês.

“tacacá”: comida típica do Pará, espécie de caldo, servido em cuia, com uma espécie de goma servida ao fundo, mais folhas de jambu e camarão (pra se pescar com palito de dente).

“jambu”: como citado acima, folha que deixa a boca anestesiada servida no tacacá

“tremidinha”: expressão explicativa da vendedora de tacacá, que me disse que minha boca iria tremer. Depois de cinco minutos procurando explicação e tentando não ter medo da experiência, descubro a tradução, tremer para os paraenses é sentir a boca anestesiar ou adormecer. Muitos risos…..

“doce de espécie”: maravilha vendida em Alcântara (que fica a uma hora de barco de São Luís), principalmente nos festejos do Divino. Doce de côco muito parecido com doces portugueses, vendido a R$0,50 nas casas da cidade histórica.

“arroz de cuxá”: maravilhosa iguaria da ilha maravilha, tão bem cantada por Zeca Baleiro. Feito com uma planta nativa, a vinagreira (que tem um sabor azedinho) e camarão seco. Não se pode deixar de provar.

Dez conversas. Capa. Reprodução

DEZ CONVERSAS: POETAS QUE NÃO DESCONVERSAM

Dez conversas. Capa. Reprodução

por Zema Ribeiro

Citando o escritor gualtemateco Augusto Monterroso, Joca Reiners Terron defende, no prefácio de “Dez conversas – diálogos com poetas contemporâneos”, a entrevista como único gênero inventado pela Modernidade. Como um minucioso investigador, o jovem mineiro Fabrício Marques, autor do livro (Gutemberg/Autêntica Editores, 2004, 268 páginas, R$ 28,50, em média), consegue traçar um diversificado panorama da poesia produzida no Brasil na atualidade.

Embora por condições geográficas, a obra concentre-se nos Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia.

Dez poetas são entrevistados: os mineiros Affonso Ávila, Edimilson de Almeida Pereira, Maria do Carmo Ferreira, Ricardo Aleixo e Sebastião Nunes; os cariocas Armando Freitas Filho, Chacal e Millôr Fernandes; o baiano Antonio Risério e o pernambucano Sebastião Uchoa Leite, que se mudou definitivamente para o Rio de Janeiro aos trinta anos, aonde veio a falecer em 2003, sem ver pronta esta obra.

AS ENTREVISTAS

A garimpagem poética de Fabrício Marques – ele próprio um poeta, editor do elogiadíssimo Suplemento Literário de Minas Gerais – aconteceu entre 1997 e 2003. A idéia central da obra é a tentativa de entendimento de certa produção poética acontecida no país, de 1970 aos dias atuais. “Dez conversas” é uma edição bilíngüe – todas as entrevistas foram vertidas para o espanhol pela poetisa Prisca Agustoni – com fotos inéditas de Guilherme Bergamini.

No Suplemento Magazine, do Jornal O Tempo, e no citado Suplemento Literário de Minas Gerais – entre outros – foram publicados anteriormente, trechos da maioria das entrevistas aqui reunidas.

DIÁLOGOS

Como nos indica o subtítulo da obra, as entrevistas transformam-se em verdadeiros diálogos, nada maçantes; ao contrário, bastante inteligentes e particulares. O fôlego dos bate-papos varia de poeta para poeta; a vantagem de ser Fabrício Marques um deles é a adaptação (rápida): não há como entrevistar, por exemplo, um Millôr Fernandes, por demais conhecido, da mesma maneira que se entrevista uma Maria do Carmo Ferreira, que, apesar de ser contemporânea de Drummond, permanece inédita em livro.

Norteiam os diálogos – e isso não é nada óbvio – a poesia, seja ela a influência sofrida pelos poetas aqui reunidos, ou sua própria obra.

Apesar da característica comum – a contemporaneidade – os dez poetas divergem bastante: estilo, influências, volume da obra etc.; apesar das divergências, a obra tem unidade, sendo Fabrício Marques o cadarço que percorre os dez ilhós do tênis na capa do livro. Quando o assunto é poesia, esses onze poetas não “desconversam”.

29 de janeiro

para Janaína Campos Lobo,

pela passagem de aniversário

Teu Cancioneiro

Ao lado de meus extratos bancários

Me fazem crer que ainda vale a pena viver

Tua poesia, pra cima

Meu saldo, abaixo de zero

Sei que quero algo, mas não sei o que quero

Eu quero uma máquina do tempo

Pra voltar atrás e não me arrepender de algo que não fiz

Eu quero a felicidade! Não pra ser, mas para te fazer feliz

Janaína Campos Lobo é indescritível. Nos conhecemos através de uma amiga comum (Vanessa Cristine, que estagiou comigo no Banco do Nordeste); à época, Janaína – hoje estudante de Ciências Sociais na UFMA – era estagiária de O Imparcial. Por um bom tempo, ela foi uma “amiga sem rosto”. Depois nos conhecemos pessoalmente e Jana se transformou (ou assim eu a descobri) numa daquelas pessoas que me demonstram (mesmo sem querer) que vale a pena viver, que vale a pena sonhar, que vale a pena escrever poemas…



Jana, mil desculpas por tudo. Um beijão de quem te adora!



* “Cancioneiro” é o nome do zine editado e distribuído por Jana…