O novo disco de Josias Sobrinho chega às lojas em breve, com distribuição nacional, pelo selo CPC-UMES. Amanhã, 7/5, às 22h, o compositor faz show no Armazém da Estrela e promove a primeira audição de “Dente de Ouro”. No show, participações especiais de Lenita Pinheiro e Luís Jr. Este trabalho de Josias traz músicas inéditas e clássicos da música popular maranhense de sua autoria: a faixa-título, O Biltre, Rosa Maria, Catirina e Engenho de Flores, entre outras.
SIDERURGIA, CAMARÃO E SOJA: PARA ONDE VAI O MARANHÃO?
Ed Wilson Araújo*
A tentativa de implantação do Pólo Siderúrgico na Ilha de São Luís representa um novo ciclo no projeto de modernização conservadora do Maranhão: a era do aço. Simultaneamente, processam-se os primeiros licenciamentos para a carcinicultura (criação de camarão em cativeiro) e o agronegócio da soja avança do sul do estado em direção ao Baixo Parnaíba. Com este tripé produtivo, voltado unicamente para a exportação, promete-se reverter os indicadores sociais resultantes do fracasso administrativo hegemônico há 39 anos no Maranhão.
O projeto modernizador origina-se em meados da década de 1960, quando José Sarney assumiu o poder prometendo um “Maranhão Novo” e começou a gestar um esquema de administração centrado, na primeira fase, no incremento do latifúndio. Utilizando-se do instrumento jurídico da Lei de Terras (1969) e da Companhia Maranhense de Colonização (COMARCO), de 1971, o Esquema Sarney montou a estratégia para entregar uma vastíssima extensão de terras devolutas do Maranhão aos grandes grupos econômicos do Brasil. Toda esta operação foi combinada com a ditadura militar, da qual era caudatário, e que tinha no Estatuto da Terra (1964) diretrizes semelhantes às adotadas no Maranhão e que se estendia à ocupação predatória da Amazônia.
Montava-se, assim, a base legal para a concentração fundiária e suas desastrosas conseqüências para as relações sociais no campo: agravamento da situação das comunidades negras remanescentes de quilombos, restrições à prática extrativista, destruição das nações indígenas, trabalho escravo, exportação de mão-de-obra escrava e aumento da violência contra posseiros e colonos. Neste terreno degradado pela desigualdade social, nascia o embrião do crime organizado – a pistolagem – recrutada para garantir “segurança” ao latifúndio. Assim, a perspectiva de erguer um eldorado maranhense provocou o que já é de conhecimento público: aumento da pobreza e da violência.
Na década de 80 do século passado, novos agentes econômicos entraram em cena: os grandes projetos mínero-metalúrgicos. Sob a égide do governador João Castelo, aliado do Esquema Sarney, generosos subsídios e incentivos fiscais foram concedidos à Alumar/Alcoa e posteriormente ao Projeto Carajás. Na mesma época começa a implantação do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), com a desapropriação de 52 mil hectares de terra no município, desalojando 16 comunidades de trabalhadores rurais em cerca de 3.600 famílias, em grande parte remanescentes de quilombos.
O início do século XXI é marcado por um ousado projeto que visa transformar a Ilha de São Luís no maior produtor de aço do Brasil. O Pólo Siderúrgico encabeçado pela corporação chinesa Baosteel, em parceria com a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), é festejado pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de São Luís. O tema recebe tratamento discreto nas duas casas legislativas. Salvo raras exceções, nem na Assembléia nem na Câmara Municipal os parlamentares questionam as circunstâncias que o empreendimento propõe à capital maranhense. É como se a instalação de um dos maiores pólos siderúrgicos do mundo, com elevado impacto social e econômico, não fosse assunto dos ludovicences e do conjunto dos maranhenses, mas somente de Shanghai. Soma-se a este silêncio a cumplicidade dos meios de comunicação. Na maioria das vezes, a pauta só atende aos interesses positivos do empreendimento.
Os questionamentos públicos vêm sendo feitos por um fórum de entidades da sociedade civil; no Colunão, semanário editado pelo jornalista Walter Rodrigues (encartado aos domingos no Jornal Pequeno); pela deputada estadual Helena Heluy (PT) e pelo advogado Guilherme Zagallo, respaldados por documentos como a moção da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), um dos mais respeitados fóruns científicos do país, que alerta para os graves riscos ambientais da produção de aço dentro da Ilha de São Luís. Na mesma trincheira, os próprios moradores das comunidades abrangidas pela área onde pretende ser instalado o pólo conseguiram recentemente suspender a audiência pública convocada pela Prefeitura de São Luís para modificar o zoneamento do município, transformando uma parte da zona rural da ilha em área industrial. Na segunda-feira 7/3 uma nova audiência foi convocada com a mesma finalidade.
O negócio da China tem suas razões para escolher a Ilha de São Luís como sede do pólo. Os chineses não suportam mais a escalada poluidora do maior produtor mundial de aço (cerca de ¼ do planeta). Cercados pelas regras ambientais internacionais, eles pretendem desacelerar o crescimento da produção em 2005, priorizando a parte sofisticada (aço de alta qualidade para exportação), deslocando a produção bruta para outros países. São Luís não foi escolhida por acaso. O Maranhão está localizado em posição estratégica, tem porto em condições privilegiadas para a navegação internacional, malha viária e ferroviária que ligam facilmente o estado ao eixo central do país e diretrizes políticas afinadas com a empreitada.
O debate ainda é tímido e precisa ser ampliado para outros segmentos da sociedade maranhense. A interferência imediata é em São Luís, mas a dimensão do pólo afeta agentes econômicos e sociais além do Estreito dos Mosquitos, como a bacia do rio Itapecuru. Desde a década de 1980, quando foi implantado o consórcio Alcoa/Alumar, o rio foi acionado, através do Projeto Italuís, visando atender à demanda de água para o resfriamento das cubas utilizadas na produção de alumínio. Duas décadas depois, o Itapecuru é novamente requisitado na versão Italuís II, uma nova adutora, sem que tenham sido feito estudos seguros de impacto sobre a capacidade de fornecimento d’água para atender ao Pólo Siderúrgico. Anota-se ainda que durante todo este período o rio está em avançado estágio de degradação. Abrangendo cerca de 40 cidades, a bacia Itapecuru, que poderia ser um indutor do desenvolvimento agrícola no Maranhão, começa a apresentar sinais de falência.
A degradação do rio é provocada por vários fatores, entre eles o agronegócio da soja, que começa a avançar na região do Parque Estadual do Mirador, onde estão as nascentes do Itapecuru. Ampliando-se à região do Baixo Parnaíba, a monocultura sojeira está devastando gigantescas áreas do cerrado maranhense, desalojando populações, pulverizando grandes quantidades de inseticidas no solo, espalhando sementes transgênicas e destruindo culturas nativas como pequi, cupuaçu, bacuri e juçara, fonte de subsistência de milhares de pessoas.
Um terceiro foco econômico de grande envergadura começa a afirmar-se no Maranhão. Depois de encomendado o Zoneamento Costeiro, feito para identificar as regiões de potencial produtivo para pesca e aqüicultura, o Governo do Estado começou a licenciar as primeiras áreas para a carcinicultura (criação de camarão em cativeiro), atividade já colocada como a redentora dos indicadores sociais do Maranhão. Centrada em uma região delicada que envolve os apicuns e manguezais, a criação de camarão, se não for bem planejada, pode provocar sérios riscos à pesca de subsistência e à maricultura, já comprometidos com a constante prática de arrastões. A carcinicultura ainda é iniciante no Maranhão, mas precisa ser monitorada para evitar prejuízos a uma grande comunidade de pescadores artesanais que tem, no mar, a única fonte de subsistência.
Do sul do Maranhão à Ilha de São Luís, o projeto de modernização do campo e a era do aço podem agravar a situação dos indicadores sociais, ao invés de invertê-los, como acreditam seus defensores. A lógica do aço vai reeditar o filme da expansão da fronteira agrícola, que fez daqui um centro exportador de tensões sociais para a região amazônica e sul do Pará. Em um estado onde predomina uma vasta diversidade ambiental (baixada, sertão, litoral, cerrado e pré-amazônia), com todas as vantagens de irrigação natural do território, é inadmissível que não haja sinais de desenvolvimento e prosperidade. Ao insistir em um projeto de modernização conservadora, calçado na economia voltada unicamente para a exportação, o Maranhão nega uma vocação natural de incremento da produção com inclusão social – a agricultura. Ao contrário da maioria dos estados brasileiros, o Maranhão ainda concentra quase a metade da população no campo. No entanto, persistem os sistemas rudimentares de roça no toco, vivendo-se ainda em um sistema que beira a pré-história da produção agrícola.
Ao invés de persistir em uma visão equivocada e propositada de modernização, priorizando os enclaves econômicos,o Maranhão deve ter uma política agrícola arrojada, à luz da reforma agrária com inclusão social. Necessita dar um salto de qualidade nos mecanismos de produção, fortalecer a agricultura familiar, mecanizá-la, modernizá-la, oferecer assistência técnica e proporcionar as demais condições para escoamento e comercialização: estradas, transporte e mercado (interno e externo). Medidas semelhantes devem ser tomadas para incrementar a infra-estrutura para a pesca e aqüicultura, outros fortes potenciais econômicos do estado. Da mesma forma, incentivar a pecuária, beneficiando os subprodutos do gado e da caprinocultura.
Muitas destas decisões passam, necessariamente, pelo campo político. Portanto, não basta uma fissura pessoal ou entre os grupos que disputam hegemonia no Maranhão. É preciso haver uma ruptura também com o atraso econômico e com o protótipo de modernização conservadora do Esquema Sarney, que só concentrou renda e ampliou a exclusão social.
Durante quase quatro décadas a população maranhense assistiu a um engodo político-administrativo, tratado em intensa cosmética publicitária, que degenerou as relações sociais no campo, esvaziou as perspectivas de crescimento regional local e agora visa sufocar a Ilha de São Luís com mega-empreendimentos de alto risco social. Deve haver outro lugar para o Pólo Siderúrgico e mecanismos de regulação para o agronegócio da soja e da carcinicultura, articulados ao controle social sobre as políticas públicas.
O que não pode é o Maranhão obcecar-se por um projeto equivocado de modernização, maquiando os indicadores sociais. É chegada a hora de formatar um projeto de desenvolvimento e prosperidade para o estado. Não devemos mais suportar o paradoxo de entrar na era espacial com famintos no entorno da base de foguetes, nem de produzir soja para as pocilgas da Europa. E mais grave pensarmos que um dia o mar não vai estar para peixe, só para camarão tipo exportação. As condições geopolíticas, climáticas e culturais estão postas, prontas para elevar o Maranhão da condição de pior do Brasil para, pelo menos, um dos melhores do Nordeste.
* Ed Wilson Araújo é jornalista e professor universitário.
Contatos: edwilson_araujo@yahoo.com.br
Os grifos do texto são do autor.
UMAS…
Andei meio sumido… a ressaca do “JoãozinhoFolia” ainda perdura (foram três dias comemorando o aniversário de 50 anos de Joãozinho Ribeiro, com paradas etílico-estratégicas pelo Desterro, Vinhais e Renascença). Mas estou de volta, e trago notícias.
Uma, eu não gostei: João Paulo Cuenca para (ao menos temporariamente) de escrever para o JB. Com isso, creio que as atualizações de seu blog (link ao lado) vão rarear. Tomara que eu esteja enganado.
Outras, me animaram bastante:
o projeto Roda Cultural será retomado, numa parceria entre a UFMA e a Faculdade São Luís. Novidades em breve, por aqui.
E no projeto, estarei trabalhando com Reuben da Cunha, que tive o prazer de conhecer pessoalmente ontem. E além dele, conheci também a turma da UFMA que estará envolvida no Roda.
E tem Sebo novo na Ilha: o amigo Chico inaugurou sua “Chico Discos”, na Rua do Ribeirão (à altura da Fonte). E o blogueiro aqui já andou catando coisas lá: os vinis deLances de Agora (Chico Maranhão) e o de estréia de Nelson Cavaquinho; e cd’s deJards Macalé, Paulinho da Viola e Pixinguinha. Vale uma visita!
E Xico Sá blogou e tá de casa nova: o link ao lado já tá arrumado. Confiram!
Um pouco de poesia…
Abaixo, um trecho de “Paisagem Feita de Tempo”, livro de Joãozinho Ribeiro, a ser lançado em breve:
(…)
cidade que até hoje não compreendo
quando embarca meus olhos
nas luzes da madrugada
pela barragem do Bacanga,
Sá Viana, Anjo da Guarda
até deparar com as garras
dos tratores sangrando a terra
para o futuro banquete
de vampiros capitalistas
porque a madrugada está na Cidade
e a Cidade também está nela
se espreguiçando
nas bancas do Mercado Central
nos quiosques do Portinho
assumindo sua própria forma e cor
na madrugada se engalfinham
os últimos suspiros da noite
com a vontade de ser do dia
verdureiros da Maioba
meninos sonolentos
tudo se transformando
num crescendo irreversível
que desemboca na manhã
com a abertura das escolas e feiras
manhã necessária
para a movimentação do calendário
das pernas, das rodas,
da cidade e do povo;
para internar as pessoas
nos seus difusos ofícios
e produzir novos valores
com o fruto de seus trabalhos
(…)
Texto nosso, publicado hoje pelos jornais Pequeno e Diário da Manhã
MEIO SÉCULO DE VIDA: UMA VIDA INTEIRA DE ARTE*
São Luís do Maranhão se enfeita para o baile de cinqüenta anos de Joãozinho Ribeiro, que tanto relegou sua obra em prol da mãe-cidade, paisagem feita de tempo, importantíssima personagem de sua vida e obra, que se confundem.
por Zema Ribeiro
Um dos mais importantes nomes da cultura popular, não só do Maranhão, mas do Brasil, completa 50 anos de idade neste 29 de abril. João Batista Ribeiro Filho, o popular Joãozinho Ribeiro celebra meio século de vida, vida esta caracterizada por lutas sempre em prol da coletividade. Cedo, aprendeu a tocar violão, educado pelas vitrolas da Zona do Baixo Meretrício, para onde se mudou com a família, menino ainda. Orlando Silva, Francisco Alves e Ângela Maria eram algumas das vozes cujas agulhas das vitrolas arranhavam as almas dos boêmios errantes – ele mesmo um dos milhões de uns, depois.
Arranhado por um câncer aos dez anos de idade, Joãozinho resistiu. Estudou. Quase economista. Quase engenheiro. Bacharel em direito, nunca chegou a exercer a profissão. Técnico da Receita Federal. Pós-graduado em Direitos Autorais, começou neste ano de seu cinqüentenário, a dar aulas de Propriedade Intelectual para os alunos do oitavo período do Curso de Direito da Faculdade São Luís. A cidade (e a faculdade) precisa(m) ouvir João.
Fundador do Partido dos Trabalhadores, é responsável por seu setorial de cultura no Estado do Maranhão. Artista militante, é membro do Conselho Consultivo da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos-SMDH. Principal articulador de diversas “confusões” (como ele mesmo gosta de dizer, no bom sentido) Ilha afora: Fórum Municipal de Cultura (cuja quinta edição foi realizada em setembro passado), Feiras Culturais da Praia Grande, Semanas Culturais do Desterro, Seminários de Desenvolvimento Territorial Sustentável – Desterro, Portinho, Praia Grande, circuito musical Samba da Minha Terra, Serenata dos Amores etc. Joãozinho Ribeiro é uma das figuras mais requisitadas para palestras, conferências, fóruns, seminários e debates país afora.
Para celebrar estes cinqüenta anos bem vividos, uma turma de amigos está reunida com vistas a resgatar e tornar (mais) pública ainda, a obra de Joãozinho, sempre relegada por ele a um segundo plano em prol de outros projetos. O Projeto “50 & Tantas” será lançado oficialmente nesta sexta-feira, 29 de abril, na Igreja do Desterro, onde às 19h uma missa será misturada a teatro, poesia e música, num pirão religioso-profano de farta sustança. Em maio, o poeta lança seu livro “Paisagem Feita de Tempo”, escrito há vinte anos. No segundo semestre seguem o disco “Coisas que Acredito” e o DVD “Do Ofício de Viver e Outros Vícios”. Bem vindos à aventura do reencantamento!
* Título copiado das comemorações pelos cinqüenta anos do Jornal Pequeno: “Meio século de vida: uma vida inteira de luta”.
50 E TANTAS
Hoje completo um ano de blog. Somando o endereço antigo, é claro! Começo as comemorações em mais uma edição d’A Vida é uma Festa!, logo mais, na Praia Grande. Por enquanto, deixo um texto emocionado e sincero de Cláudia Lobo, em homenagem a Joãozinho Ribeiro, que amanhã completa cinqüenta anos de história.
DEVO AO NEGRO: NÃO NEGO!
por Cláudia Lobo*
Sempre que desço ladeiras do Desterro sinto a sensação de que ali há alguém com cheiro de raça, cor de cultura, jeito de história e história de causo. Caminho sempre naquele lugar e me invade o orgulho de saber que é meu também aquele espaço, pedaço da vida que hoje sei amar.
Quando carrego uma bandeira, consciente das transformações que esse gesto poderá causar, penso que há alguém com o perfil da luta, a cor do trabalho, cheiro de terra e pose de rei. Já carrego bandeiras há um bom tempo e faço de cada passo um motivo pra continuar caminhando na luta pelo bem comum.
No momento em que escrevo, vejo-me crítica dos meus pensares e crenças, mas sempre busco alguém com o perfil de filósofo da vida, pedagogo da arte, psicólogo dos ébrios. Aprendi, no entanto, a respeitar os erros e deixar o coração ditar as palavras, corrigindo verbos e impondo adjetivos.
Muita coisa tenho aprendido desde que pisei na Ilha e encontrei alguém com perfil de Desterro, cheiro de mestre e cor de raça, que me mostrou que a diferença entre história e causo está na importância da bandeira que se carrega.
Hoje sou capaz de deixar o coração falar sem pensar nos julgamentos alheios, faço de cada ato um conto e de encanto o ato de sobreviver. Devo muito e não quero encerrar a conta.
Meu credor é o negro João.
O tal de Joãozinho, poeta da vida, das ladeiras, dos becos e das bandeiras. Amigo da arte, filho da cultura, irmão do tempo.
Hoje posso muita coisa, mas não sei o que fazer pra mostrar tamanha admiração por este perfil de história, exemplo de vida, lição de coragem.
Parabéns é pouco, mas não consegui descobrir nenhuma palavra que mostrasse o tamanho da emoção em ver e ter participado da vitória do negro João.
* Cláudia Lobo é Secretária de Organização do Partido dos Trabalhadores – PT de São Luís-MA.
DOIS LINKS NOVOS
Vale visitar esse Palco nada Submerso e o mais atingível que nunca Ponto Gê.
SOBRE PÓLO SIDERÚRGICO…
Aos que acham que São Luís do Maranhão é o melhor lugar do mundo para a implantação deste mega-empreendimento (não sei de onde tiraram essa idéia!), deixo a seguir, um poema de José Chagas, de 1983, do livro Maré de Aço (Onda de Alumínio) ou O Naufrágio da Ilha. (Pesquei recentemente a obra, por módicos R$ 3,50, noPapiros do Egito, à Rua da Cruz, Centro).
Ninguém é contra o progresso.
Mas que ele não nos degrade
todo o amor que está impresso
no coração da cidade.
Que ele não nos elimine
o fervor que nos irmana.
– Mais do que aço e alumínio
vale a natureza humana.
MEU MSN MESSENGER, A QUEM INTERESSAR POSSA…
da Folha de São Paulo, 21/4/2005
A REPÚBLICA DOS DOUTORES
por Contardo Calligaris
Numa época, as universidades particulares procuravam ansiosamente por doutores. O fato é que, para autorizar novos cursos, o Ministério da Educação exige que o corpo docente inclua pesquisadores qualificados, ou seja, doutores.
Ultimamente, as universidades particulares descobriram que o salário dos doutores é caro. Na medida do possível, querem substituí-los por mestres e graduados.
Esse cálculo poderia comprometer a qualidade do ensino. Mas não é o caso de preocupar-se: os donos das universidades particulares não acharão os mestres e os simples graduados necessários para efetuar a substituição, pois, no Brasil do começo do século 21, só há doutores. Prudente de Moraes pode festejar: a República dos Bacharéis se pós-graduou.
Faça a prova: ligue para advogados, psicólogos, arquitetos e outros profissionais liberais. Ouvirá: “A doutora está em consulta”, “Vou ver se o doutor pode atender”. Ligue para uma agência de publicidade, um escritório comercial ou uma empresa e tente falar com um dirigente (engenheiro, arquiteto, administradora etc.). É a mesma coisa: “O doutor está em reunião”, “Quer deixar um recado para a doutora?”.
Mas, trégua de brincadeiras. Em geral, esses profissionais não se apresentam como doutores num encontro com membros de sua classe social. Eles são doutores para suas secretárias e, graças a elas, para quem telefona.
Algumas semanas atrás, para assinar um contrato, fui até um elegante escritório comercial, na área de São Paulo (ao redor da avenida Berrini) que se apresenta como cartão-postal da modernização. Anunciei ao porteiro que eu devia encontrar o senhor E., que estava me esperando. O porteiro, modulando a voz de modo a acentuar a correção de minhas palavras, perguntou: “Você quer ver o doutor E.? E você é o senhor…?”. Ele parecia treinado para produzir uma tentativa de intimidação social. Não achei graça e retruquei: “Ah, o senhor E. é doutor? Ele é médico ou tem doutorado em alguma outra especialidade?”. O porteiro ficou atônito: como ele deveria reagir a essa resposta imprevista?
As regras do uso legítimo do título de doutor dizem que doutores são os que completam um doutorado e, por consideração especial, os médicos. Não sei se o porteiro conhecia essas regras. No entanto, graças a uma sabedoria vital em nosso mundo, ele sabia certamente que o título de doutor do senhor E. não designa uma excelência acadêmica, mas serve para significar uma distância social.
No caso, não há diferença nenhuma entre ser doutor e ser marquês de Carabás: ambos são títulos cujo uso vale como um gesto de submissão, como uma genuflexão. Reconhecendo que o senhor E. pertence a outra casta, o porteiro me convidava a dar prova da mesma deferência.
Ora, a modernidade triunfa quando a diversidade das origens, das funções sociais e das condições econômicas não altera o fato de que somos todos essencialmente iguais.
Na adolescência, participei da fundação de um pequeno círculo liberal “extremista”, em que a gente praticava o costume jacobino de chamar os outros de “cidadão” ou “cidadã” (título que era para nós uma honra suprema), acompanhado da função de cada um: cidadão professor, cidadã estudante, cidadão carpinteiro. Um pouco mais tarde, sonhei com um mundo em que nos chamaríamos um ao outro de “companheiro” ou “companheira”.
Isso acontecia numa outra sociedade de doutores, a Itália dos anos 60. A sociedade italiana acabava de se tornar republicana e vivia um conflito agudo entre a modernização acelerada, as desigualdades econômicas violentas e a nostalgia das antigas hierarquias. Com isso, as diferenças sociais modernas (diferenças de formação e de função) eram extraviadas e usadas como indicadores de privilégio e de casta. “Doutor”, um título que deveria assinalar a competência específica de um cidadão, era usado para afirmar que ele pertencia à tribo dos abastados.
Entre parênteses: a universidade italiana, cúmplice do atraso nacional, chamava de “doutor” qualquer graduado.
A alusão a uma educação superior, que é contida no título “doutor”, serve também para justificar o privilégio: se alguém é doutor, “merece” ser rico. Com isso, a classe média, sempre ameaçada por seu retrocesso, pode acreditar que seu privilégio não seja arbitrário e efêmero. Explica-se assim o mistério das reuniões de condomínio em que todos os condôminos são doutores e doutoras.
Enfim, é provável que o uso de “doutor” como índice e justificação do privilégio social seja um sintoma constante em todas as sociedades em que formas arcaicas de domínio desvirtuam as formas modernas da diferença social. “Doutor”, nessas sociedades, não é médico nem pós-graduado: é quem tem cartão de crédito, acesso à sala VIP do aeroporto e carro importado.
Nota. A república dos doutores é especialmente risível hoje, quando a hierarquia social que parece contar é aquela produzida pela notoriedade. Nessa hierarquia, o que importa não são os títulos, mas os nomes próprios, à condição que sejam reconhecíveis. Você acha que Giorgio Armani e Paulo Coelho querem ser chamados de dr. Armani e dr. Coelho?
FELIZ ANIVERSÁRIO, MOARA!!!
E hoje é aniversário da amiga Moara Gamba, e daqui a pouco vamos tomar umas, juntos, comendo um delicioso creme de camarão (não é propaganda enganosa!) preparado por mamãe. E de lá do ap da moça, sigo pro Projeto Pixinguinha, no Circo da Cidade (vide post abaixo). Pra vocês um abraço, pra ela, o poema abaixo, presente por hoje e sempre:
Mais uma primavera completa esta flor,
O jardim onde ela está, é sagrado.
Amor: é onde está esculpida, divina.
Ri, certeira, me faz rir, mulher-menina,
A quem devolvo o meu riso amarelado.
Goza da juventude e ignora a dor
Ama o prazer e aproveita cada instante.
Mulher que me deixa feliz o viver
Bastando para isso, apenas, ser:
Aqui dou os parabéns à aniversariante.
DICA PROS AMIGOS DE JOÃO PESSOA
Adeíldo Vieira apresenta o show LaGambiaja neste sábado, 23, às 22h, no Bar dos Artistas (Teatro Santa Roza). O compositor paraibano lançou até agora um único (excelente) disco: Diário de Bordo; nele, versos como “amar demais até parece mal, mas nenhum outro mal me faz tão bem”. Lindo, não?
SOBRE ENFORCAMENTO E MAIS UMA DICA
Reza a lenda que Tiradentes morreu enforcado. Hoje é feriado por isso. E, cá pra nós, feriado na quinta, dá vontade de enforcar a sexta.
E aqui vai mais uma dica pros amigos de São Luís. Quem não enforcou a sexta e não viajou ou coisa parecida, não deixe de conferir mais uma edição do projeto Pixinguinha, que traz, amanhã, 22, às 21h, no Circo da Cidade, Lui Coimbra, Lula Barbosa e Mônica Salmaso. A gente se vê!
A DOENÇA DE CHAGAS
Quem ainda não conhece, visite: www.algumapoesia.com.br
O espaço já está linkado ao lado há algumas semanas.
O destaque da edição atual é o maranhense (nascido na Paraíba) José Chagas. O poeta sofre de uma doença: a rima. A poesia de Chagas tem uma musicalidade incrível (alguns poemas seus já foram musicados pelo Quinteto Violado, a exemplo de “Palavra Acesa” e “A Palafita”, esta um trecho de “MarÉMemória”). Que o poeta não se cure!
DICA PROS AMIGOS DE SÃO PAULO…
Minha amiga blogueira (link aí do lado) Ivana Arruda Leite lança seu novo livro, “Ao homem que não me quis”, no próximo dia 27, na Livraria da Vila, às 19h30min. Por tudo o que já li da moça, sei que vale a pena.
