Idealizadores e produtores do BR135, Alê Muniz e Luciana Simões confraternizaram com a plateia. Foto: Marco Aurélio/ Projeto BR135
Alê Muniz e Luciana Simões fizeram, há algum tempo, uma opção a que alguns não hesitariam em taxar de suicida: morar no Maranhão e produzir a partir daqui. O casal Criolina, após dois discos e uma temporada em São Paulo, onde se conheceram, fixaram residência na Ilha e daqui tem realizado conexões importantes para o fomento da música pop(ular) produzida atualmente em seu lugar de origem. Tem dado certo.
Este ano, Alê e Lu lançaram Latino-americano, EP-ritivo enquanto o terceiro disco não chega, com quatro faixas: covers de Reginaldo Rossi (Garçom) e Osvaldo Farrés (Quizás, quizás, quizás), e parcerias inéditas com Bruno Batista. Também foi ao ar um videoclipe, da faixa-título, financiado por crowdfunding.
Deles ninguém nunca saberá ao certo a resposta à eventual pergunta “e o próximo disco?”, costumeiramente ouvida por artistas. É que eles, além de sua carreira enquanto duo, resolveram colaborar com a formação e consolidação de uma cena local. Tanto é que o Festival BR135, grife consolidada com a cara dos dois, é muito mais que um festival de música.
Aos shows em dois palcos na Praia Grande – reocupada com música de qualidade durante três dias de programação – se somam todas as mesas-redondas, debates, palestras, rodadas de negócios, painéis e workshops do Conecta Música, programação de formação e negócios paralelo ao evento musical.
Ontem o duo se apresentou para o ótimo público que bisou lotar a praça Nauro Machado. Não eram a cereja do bolo, tampouco realizam o evento para criar palco para si próprios, seria tolo e injusto alguém o dizer. Era, talvez, um momento de afirmar, com o que sabem fazer tão bem quanto produzir e coordenar eventos dessas dimensões, algo como “ei, o que nós fazemos é música!”, parafraseando um disco de Jards Macalé, ou “música serve para isso”, de Maurício Pereira: para agregar pessoas, colocar o Maranhão na rota dos grandes palcos do Brasil e para, a partir destes encontros, entre artistas e público, mas também entre os artistas entre si e entre pessoas do público, surgir outra/s coisa/s. É do atrito que nasce o novo.
Sua apresentação, no Festival que idealizaram e produzem, era uma espécie de confraternização, comunhão entre artistas e plateia e agradecimento mútuo: “obrigado a vocês por estarem aqui”, disseram Alê e Lu ao público, razão maior do festival; a plateia retribuiu os agradecimentos com aplausos e cantando junto músicas como O santo [Alê Muniz/ Luciana Simões], Eu vi maré encher [Alê Muniz/ Luciana Simões], A serpente (Outra lenda) [Zeca Baleiro/ Celso Borges/ Ramiro Musotto], Semba [Zeca Baleiro], Latino-americano [Alê Muniz/ Luciana Simões/ Bruno Batista] e Quizás, quizás, quizás [Osvaldo Farrés], entre outras.
Apresentação do compositor marca encerramento da temporada Milhões de Uns, de lançamento do cd homônimo
Joãozinho Ribeiro durante apresentação da temporada Milhões de Uns. Foto: Ton Bezerra
O compositor Joãozinho Ribeiro encerra a temporada Milhões de Uns, de lançamento de seu disco de estreia, homônimo, com show amanhã (27), às 19h30min, na Praça dos Catraieiros (Praia Grande). A apresentação integra a programação cultural da Feira da Tralha, evento organizado pelos Sebos Nas Canelas e Educare. A entrada é franca.
A ocupação cultural da praça ao lado da Casa do Maranhão tem como objetivos, segundo seus organizadores, contribuir para a revitalização da Praia Grande, prolongar a vida útil de uma série de objetos, gerar trabalho e renda para trabalhadores do segmento da economia criativa, além do comércio em si, de cds, dvds, vinis, livros usados, objetos de antiquário, artesanato, artigos de coleções, instrumentos musicais e equipamentos eletrônicos, entre outros.
A Feira da Tralha acontece todas as quintas e sextas, das 16h às 21h. As sextas, conta com a apresentação do Regional Deu Branco, um dos mais jovens grupamentos de choro de São Luís, formado por Bernardino Júnior (bandolim), Cleiton Canhoto (violão sete cordas), Dudu Lima (cavaquinho solo), Erivan Nery (flauta), Jamil Cartágenes (cavaquinho centro) e Valderson de Abreu (percussão).
Nesta sexta (27), o grupo abrirá o show Milhões de Uns, de Joãozinho Ribeiro, com a participação especial do duo Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões). Ele e os convidados serão acompanhados por Arlindo Carvalho (percussão), Arlindo Pipiu (contrabaixo), Danilo Santos (saxofone e flauta), Hugo Carafunim (trompete e flugel), Luiz Jr. (violão sete cordas), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Wanderson (percussão).
“É um prazer e um luxo poder contar com a participação do Criolina. Alê Muniz é um parceiro de longa data, e ao lado da Luciana forma um dos maiores acontecimentos da música produzida no Maranhão recentemente. Interessante também é poder contar com a presença da rapaziada do Deu Branco, valorosos garotos levando adiante o estandarte do choro”, afirmou o compositor.
Ele antecipa um balanço de 2015 e alguns projetos para 2016. “Este ano busquei conciliar a agenda de trabalho profissional com a profissão de fé da criação artística, dedicando-o a diversas apresentações, em vários palcos da cidade, ao lançamento do cd, registro que já era bastante cobrado por amigos e admiradores de nosso trabalho. Para ano que vem pretendo trabalhar no lançamento do segundo volume, além de lançar um segundo livro”, afirmou Joãozinho, que é funcionário público federal e professor universitário.
Autor de mais de 100 músicas, Joãozinho Ribeiro é um dos compositores mais gravados do Maranhão, tendo o nome em discos de artistas como Alê Muniz, Anna Cláudia, Célia Maria, Glad, Josias Sobrinho, Lena Machado e Rosa Reis. Em 2006 publicou Paisagem feita de tempo, livro-poema escrito em 1985. Milhões de Uns – vol. 1 é seu primeiro disco. Gravado ao vivo em duas noites no Teatro Arthur Azevedo, conta com as participações especiais de Alê Muniz, Célia Maria, Chico César, Chico Saldanha, Lena Machado, Milla Camões e Zeca Baleiro. Para o volume, Elba Ramalho gravou Asas da paixão em estúdio.
Parceria de Alê Muniz e Luciana Simões com o poeta Celso Borges, São Luís Havana, faixa de Cine Tropical (2009), segundo disco do duo Criolina, resume bem o espírito musical do casal: a ponte cultural entre as ilhas de São Luís e Cuba, citando mestres da música popular daqui e de lá.
Os ventos caribenhos que sopram nesta direção e ajudam a explicar as origens do reggae por estas plagas foram, desde o início, uma marca do som do Criolina, sempre impregnado desta latinidade.
Luciana Simões foi vocalista de banda de reggae, com sucesso nacional; Alê Muniz gravou alguns discos, participou de festivais, compôs em parceria com diversos nomes da cena local; ambos fixaram residência por longa temporada em São Paulo e decidiram voltar ao Maranhão, num ato de resistência, para produzir a partir daqui. Com o BR-135, projeto idealizado e tocado por eles, movimentaram a cena autoral da música produzida hoje no Maranhão, ajudando a revelar novos nomes e revalorizar outros.
“Muita gente pergunta, ainda com aquela ideia de sul maravilha, como uma necessidade indispensável. Por que São Luís? Vocês voltaram por quê? Hoje em dia é bem mais fácil tocar o barco daqui do que em outros tempos. Para quem quer fazer sucesso, não há a necessidade de morar no eixo Rio-São Paulo. Conhecemos vários artistas que conseguiram visibilidade e agenda morando nas suas cidades fora do eixo, como Siba [ex-Mestre Ambrósio], Lirinha [ex-Cordel do Fogo Encantado], artistas de Belém, Recife etc. Existem circuitos de festivais e mostras se consolidando no norte/nordeste e centro-oeste. As distâncias se encurtaram e também tudo depende da sua visão de carreira: artista não é só aquele que estoura, é também aquele que faz parte da trincheira, da resistência”, explica Alê Muniz.
Ele continua: “O fato é que, apesar dos pesares, nesse momento eu prefiro viver em São Luís, mesmo com todos os problemas da cidade. Aqui criamos e desenvolvemos projetos que acreditamos interferir positivamente na construção de uma São Luís que desejamos. A cidade nos inspira. A cultura local, as melodias, os sotaques, os personagens, os ritmos que visitam a nossa cabeça enquanto convivemos com a cidade. Aqui também temos a nossa família, amigos, o que nos alimenta também. É claro que dúvidas pairam sobre a cachola, porque não é tão simples assim; e seria muito sem graça se fosse. Afinal somos uma dupla dinâmica [risos]. Gostamos de aventura. Não é a toa que o Bye Bye Brasil serviu de inspiração para nosso segundo disco, onde percorremos o Brasil profundo de forma alternativa, semelhante à Caravana Rolidei de Cacá Diegues. E explorar o Brasil a partir daqui é muito legal. Às vezes acho que a receita é não ter receita. Sal, pimenta e farinha a gosto!”
Sempre cobrados pelo terceiro disco, o sucessor de Cine Tropical – estrearam com o homônimo Criolina, em 2007 –, eles se preparam para um aperitivo: o EP Latino-americano, que lançam no próximo dia 21 (quinta-feira), às 20h, no Barulhinho Bom (Rua do Giz, 217, Praia Grande). O ingresso (R$ 20,00) dá direito a um EP. Além de pocket show da dupla, haverá discotecagem de Jorge Choairy e os presentes assistirão em primeira mão o videoclipe da faixa-título, produção da Gataria Filmes, dirigido por Tatiana Natsu, que também assina o roteiro, e Diego Carvalho Sá. O clipe foi realizado com recursos obtidos com financiamento coletivo, através de uma campanha virtual.
O crowdfunding vem se consolidando como uma ferramenta interessante de financiamento de obras artísticas, sobretudo musicais, em tempos de mudanças rápidas e radicais na indústria fonográfica e, em sentido diametralmente oposto, do engessamento e estagnação das leis de incentivo. “Achamos incrível testar novos modelos de produção. Acredito que seja uma forma nova de passar o chapéu e uma forma de mobilizar e envolver o público, que sai da posição passiva para a prática concreta de apoio à produção cultural. Nós podemos sentir o sabor de realizar algo financiado diretamente pelo nosso público. E acho que o público também deve sentir o prazer que é contribuir com o que gosta”, opina Luciana.
Indagada sobre as dores e as delícias desses modelos alternativos, a partir da diminuição do espaço das grandes gravadoras, ela também se manifesta, sem esconder suas dúvidas e preocupações. “A música foi a linguagem artística que sofreu mais impacto dos avanços da tecnologia. Passamos de vinil para cd, de cd para download, de download para streaming num piscar de olhos, e acho que muita água ainda vai rolar até os artistas conseguirem monetizar a música através de venda digital ou outro caminho que ainda não conhecemos. As mudanças foram muito bem vindas para a cena independente, mas já evoluímos para um segundo ponto; o processo de gravação não é barato, é mais acessível do que já foi, mas você tem muitas pessoas envolvidas: músicos, estúdio, designer gráfico, fábrica, fotógrafo, técnico de gravação, técnico de mixagem e masterização. E aí o que acontece? Você disponibiliza para download. A conta não fecha. Como o compositor paga as contas? Vivemos um período ainda onde o direito à propriedade intelectual está em xeque”, diz.
Latino-americano inaugura também a parceria da dupla com o cantor e compositor Bruno Batista. “Nos identificamos muito com Bruno, ele compõe muito bem. No segundo semestre do ano passado passamos cinco meses em São Paulo e morávamos no mesmo bairro. Cada dia que a gente se encontrava saía uma ideia, muito bacana. Adoramos nos encontrar e ainda vamos fazer mais coisas juntos”, elogia e promete Luciana.
O EP antecipa um CD cuja previsão de lançamento é agosto que vem. Além da faixa-título e Pra ver se ela gosta, parcerias com Bruno Batista, Latino-americano reinventa covers de Osvaldo Farrés [Quizás] e Reginaldo Rossi [Garçom]. Na bolachinha, a Alê Muniz (guitarra e voz) e Luciana Simões (voz), juntam-se Gerson da Conceição (contrabaixo), João Simas (guitarra), Isaías Alves (bateria) e Marco Stoppa (trompete).
Pergunto o que mais cabe no balaio do duo. “Cabe de tudo!”, vibra Luciana. E continua: “pra gente Maranhão é como o Caribe brasileiro, as conexões que temos com ritmos como merengue, reggae, salsa, causa uma curiosidade. Há uma série de teorias para justificar essa ligação: navios cargueiros que aportavam trazendo a música caribenha, ou as ondas de rádio do Caribe que invadiram a ilha, mas acho que o fato desses ritmos terem caído no gosto popular e até se incorporado como manifestações culturais se deve a nossa herança negra. Mas sim, aproveitamos os ritmos regionais, misturamos a ritmos cubanos, ao ska, ao rock, e ao tropicalismo: isso é bem antropofágico [risos]”.
Compositor realizará shows mensais até o final do ano. Turnê alcançará São Luís e municípios do interior. Nas ocasiões será lançado o disco Milhões de Uns – Vol. 1. Estreia acontece nesta sexta (6), no Bar do Léo
Milhões de Uns – Vol. 1. Capa. Reprodução
Milhões de Uns – Vol. 1 apresenta uma significativa, embora pequena, parte da obra musical do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que completa 60 anos de idade no próximo abril. É o primeiro registro lançado com o autor interpretando sua obra, coalhado de participações especiais, gravado ao vivo em duas memoráveis noites no Teatro Arthur Azevedo, em novembro de 2012 – a exceção é a gravação em estúdio de Elba Ramalho para Asas da paixão (Joãozinho Ribeiro).
É que Milhões de Uns não é apenas título de uma das mais conhecidas músicas do artista, vencedora do Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos, na magistral interpretação de Célia Maria. A música que batiza o disco de estreia é a mais perfeita tradução do que são a vida e obra do bacharel em Direito, funcionário público e professor universitário nascido João Batista Ribeiro Filho.
A constelação presente ao disco reflete sua importância para a música produzida no Maranhão ao longo dos últimos mais de 30 anos. Ali estão nomes como o Coral São João, Milla Camões, Célia Maria, Zeca Baleiro, Chico César, Alê Muniz, Lena Machado, Chico Saldanha e Elba Ramalho, a interpretar sambas, choros, blues, reggaes, forrós e marchinhas, o que demonstra a versatilidade de Joãozinho Ribeiro.
Variedade refletida também no leque de parceiros: Betto Pereira (Coisa de Deus), Alê Muniz (Planos urbanos), Chico César (Anonimato), Marco Cruz (Tá chegando a hora) e Zezé Alves (Rua Grande).
O autor e seus convidados são escudados pela banda Milhões de Uns, outra constelação de craques à parte: Arlindo Carvalho (percussão), Danilo Costa (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Klayjane (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra semiacústica e viola caipira), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo) e Wanderson Silva (percussão).
Se médicos chegaram a desenganar o moleque João aos nove anos de idade, apostando-lhe cinco anos de sobrevida, o menino cresceu, tornou-se Joãozinho Ribeiro e teima em viver e fazer arte, desde um Festival Universitário de Música na UFMA, em 1979. Com seu otimismo quase insuportável, como gracejou Zeca Baleiro durante a gravação do disco, um de seus bordões é “eu não morro nem que me matem”, frase de quem teima em lutar pelas coisas que acredita, como diz outra conhecida canção sua.
Para festejar os seis ponto zero, Joãozinho Ribeiro, sempre acompanhado de convidados especiais, inicia nesta sexta-feira (6), às 20h, no Bar do Léo, uma temporada que circulará por alguns bares e outros espaços ludovicenses e deve descer também a alguns municípios do interior. A ideia é realizar, a partir deste início de março, shows mensais até o fim do ano.
Para a estreia estão escalados Célia Maria e Chico Saldanha. Os shows terão um formato intimista. As apresentações têm entrada franca. Milhões de Uns – Vol. 1 pode ser adquirido na ocasião, no local, e ainda nos seguintes pontos de venda espalhados pela Ilha: Banca do Dácio (Praia Grande), Livraria Poeme-se (Praia Grande), Rodrigo Cds Maranhenses (Praia Grande), Banca do Valdir (Renascença I), Papos & Sapatos (Lagoa da Jansen), Quitanda Rede Mandioca (Rua do Alecrim), Banca do Mundo de Coisas (Renascença II) e Play Som (Tropical Shopping).
Céu e banda: talento e entrega. Fotosca: Zema Ribeiro
O público lotou as dependências do Teatro Arthur Azevedo para a noite de abertura do Festival BR-135, ontem (18). Os ingressos foram trocados por um quilo de alimento não perecível.
Áurea Maranhão é a Tatá Werneck local: todo mundo acha graça, menos eu. A mestra de cerimônias carregou nas tintas ao encarnar uma “aborrecente”, forçando por demais a barra para parecer descolada.
Secretária de Estado da Cultura, Olga Simão era dispensável no púlpito. É tipo “jabuti trepado”, alguém sem nenhuma organicidade. Apesar de o órgão ser um dos patrocinadores do evento – ao lado de Cemar e Vivo –, ela não combinou com o resto da noite.
Acsa Serafim e Otília são talentosas. A primeira cantou uma música autoral e, juntando-se à segunda e ao guitarrista Márcio Glam, emendaram um repertório de covers de Beatles, Janis Joplin – Otília evocou-a nas vestes – e Queen. O Maratuque Upaon Açu acompanhou-os nos dois últimos números e foi interessante vê-los evocar a ciência do pernambucano Chico, mesmo sem citar seu nome ou tocar seu repertório.
O show de abertura era uma espécie de micropanorama da diversidade proposta pelo BR-135, projeto idealizado pelo casal Criolina – os músicos Alê Muniz e Luciana Simões –, que desde 2012 vem movimentando a cena autoral de São Luís.
A noite de ontem (18) era um cartão de visitas do Festival que eles realizam até amanhã (20), no Centro Histórico da capital maranhense. Além de shows estão previstas atividades formativas, através de debates, seminários, palestras, rodas de conversas e negócios, oficinas etc.
O BR-135 pode orgulhar-se de mais um feito, entre tantos mostrados em vídeo, ontem, na abertura do Festival: trouxe à São Luís, pela primeira vez, a cantora Céu, contando 10 anos de carreira, com cd e dvd Ao vivo [2014] recentemente lançados.
Calçando havaianas, o brilho de seu vestido curto reforçou seu brilho: é das mais talentosas cantoras em atividade neste país de cantoras. E é autora de quase todo o seu repertório. O do show de ontem tinha por base Caravana sereia bloom [2012], mais recente álbum de estúdio.
Mas não faltaram músicas de Céu [2006], Vagarosa [2009] e mesmo do Ao vivo. Deste último pinçou suas recriações para Piel Canela, bolero cinquentista de Bobby Capó, do repertório de Eydie Gormé com o trio Los Panchos, e Mil e uma noites de amor, sucesso oitentista de Pepeu Gomes, parceria dele com Baby Consuelo e Fausto Nilo.
Céu (voz, teclado e percussão) estava acompanhada de DJ Marco (scratches e MPC), Dustan Gallas (guitarra, teclado e vocais), Lucas Martins (contrabaixo e vocais) e Bruno Buarque (bateria e vocais), a mesma banda de Ao vivo. Ao cantar o bolero ela os apresentou como “quarteto Los Panchos”.
Ela ainda encarou outros covers: Mora na filosofia, de Monsueto de Menezes e Arnaldo Passos, aparece como incidental em Malemolência [Alec Haiat/ Céu] e Visgo de Jaca, de Rildo Hora e Sérgio Cabral, lançada por Martinho da Vila, ganhou uma interpretação característica desde que a gravou em Vagarosa.
O público delirou com a sequência de reggaes Concrete jungle, Slave driver e Kinky reggae, do antológico Catch a fire, de Bob Marley, disco que completou 40 anos em 2013 e que ela vem tributando em shows há algum tempo. De repente formou-se uma clareira na plateia e os corredores laterais viraram um clube de reggae, com muita gente dançando em pé.
À cantora não faltou simpatia. Elogiou a beleza do teatro e da cidade e revelou que espera voltar o quanto antes. “É muito bom tocar lá fora [no exterior], mas chegar aqui [no Brasil], é outra coisa. Nossa cultura é muito forte”, disse.
Para não deixar de citar, de sua lavra, ela foi de Falta de ar [Gui Amabis], Retrovisor [Céu], Sereia [Céu], Grains de beauté [Céu/ Beto Villares], Cangote [Céu], 10 contados [Alec Haiat/ Céu] e Lenda [Alec Haiat/ Céu/ Graziella Moretto], entre outras.
O bis, magro, trouxe Chegar em mim [Jorge du Peixe]. “Não dá para fazer outro, não há tempo”, justificou-se. Não sei se se referia a algum limite de horário do teatro ou a seu voo de volta ao Rio, onde ela tem show hoje (19), fazendo ao vivo justamente o repertório de Catch a fire.
A depender do público não haveria limite. Céu é o limite.
Nem só de música vive o BR-135. Um resumo da história poderia defini-lo assim: uma ideia gregária do duo Criolina – o casal Alê Muniz e Luciana Simões, que depois de temporadas fora resolveram voltar à Ilha e viver de música –, que mostrou a quem se interessou novos e velhos nomes da música autoral produzida no Maranhão. Foram vários shows com a presença de um sem número de artistas dessa cena.
Já é hora, por exemplo, do Criolina lançar o terceiro disco, mas estes trampos mais coletivos têm contribuído um bocado para este justificável atraso. Certamente valerá a pena quando sair.
Pela primeira vez em São Luís, a cantora Céu é uma das atrações do Festival BR-135. Foto: divulgação
Sua empreitada mais recente é o Festival BR-135, que já selecionou as bandas que dele participarão nos próximos dias 18, 19 e 20 de dezembro, na Praia Grande, ocasião em que cantarão por aqui também nomes como Céu (foto), Filipe Cordeiro, Dona Onete e Mombojó. Um disco, com as bandas e artistas selecionados, foi lançado.
Não é pouco. Mas tem mais. Atrelado ao BR-135, o Conecta Música, com inscrições gratuitas, discutirá diversos aspectos sobre a produção musical, mercado, novas tecnologias, jornalismo cultural, crítica musical, cultura digital, arte e cidadania, entre muitas outras pautas. Um prato cheio!
Confira maiores informações e programação completa no site do BR-135.
Nesta quinta-feira (20), às 19h, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, 302, Centro), o duo Criolina, em evento para convidados, lança o Festival BR 135 e o Conecta Música, que ocorrerão em paralelo, em dezembro, na capital maranhense, e prometem sacudir a Ilha.
Já estão anunciados nomes como Céu, Dona Onete, Felipe Cordeiro e Mombojó, além dos selecionados pelo festival (lista completa na imagem acima).
Idealizador do Festival ao lado de Luciana Simões, Alê Muniz afirma que a intenção é mapear os vários Brasis existentes unindo-os através da música. Para ela é preciso “repensar o Centro Histórico, reconhecido patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, mas abandonado pelo poder público”. “Nosso maior patrimônio não é o conjunto arquitetônico, mas sua relação com as pessoas da cidade”, provoca Luciana.
Shows – Céu abre o Festival BR 135 dia 18 de dezembro, no Teatro Arthur Azevedo. Os demais shows acontecem na Praça Nauro Machado (Praia Grande), dias 19 e 20. A programação do Conecta Música inclui palestras, oficinas e workshops. O blogue voltará ao assunto.
Em primeira mão, a capa de A palavra acesa de José Chagas, disco em que a poesia do mais maranhense de todos os paraibanos é tornada música. A maioria é inédita, mas estão lá Palavra acesa e Palafita, já gravadas pelo Quinteto Violado, a primeira, tema da novela Renascer, da Rede Globo. Um de nossos maiores versejadores, José Chagas completa 90 anos em 2014.
Participam do disco este timaço de feras listado na capa. A produção é de Celso Borges e Zeca Baleiro. Os desenhos são de Paullo César e o projeto gráfico é de Andréa Pedro.
O lançamento acontece na próxima quinta-feira (5), às 21h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy). Haverá uma sessão de audição do disco e a exibição de um vídeo, realizado especialmente para o projeto.
O blogue voltará ao assunto.
Em tempo (já falei sobre, mas não custa repetir): a foto do cabeçalho deste blogue, clicada por Murilo Santos, mostra Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazendo um par de violeiros na peça Marémemória, baseada no livro-poema homônimo de José Chagas. O livro é de 1973, a peça, do ano seguinte.
O projeto BR-135 encerrou em grande estilo sua temporada 2013. Ontem (17), o Teatro Arthur Azevedo completamente lotado foi palco de uma justa e merecida homenagem ao compositor João do Vale, o maranhense do século XX, que teria completado 80 anos no último 11 de outubro.
A casa certamente registrou um dos melhores públicos desta temporada, esta uma das marcas do projeto pilotado por Alê Muniz e Luciana Simões: por onde passa, o BR-135 leva um bom público.
Outra marca é justamente o diálogo permanente entre gerações, basta ver qualquer lista de convidados para cada edição do projeto, cujo saldo até aqui é positivo.
Nascido em Cururupu e radicado há mais de 30 anos em São Paulo, o cantor, compositor, instrumentista, ator e dançarino Tião Carvalho encarnou o homenageado: seguiu o emocionado roteiro de Andréa Oliveira – biógrafa de João do Vale – e cantou Minha história, Peba na pimenta, O canto da ema e A voz do povo.
O mestre de cerimônias tinha convidados. O roteiro musical fechou-se com Pé do lajeiro e De Teresina a São Luís, interpretadas por Djalma Chaves, Uricuri e Estrela miúda, por Milla Camões, Pisa na fulô e Na asa do vento, por Santacruz, e Carcará e Coroné Antonio Bento, pela banda Vinil do Avesso. Este texto talvez pareça burocrático. O show não o foi, fluindo espontaneamente, o entrosamento dos músicos, os convidados à vontade no palco, Tião Carvalho entre cantor e contador de causos, lembrando diversas passagens da vida e obra de João do Vale.
Se parece óbvia a seleção do repertório, privilegiando músicas por demais conhecidas do pedreirense, não o foram os arranjos, transformando xotes em reggaes – caso das interpretações de Santacruz – e rockificando o voo do Carcará.
Em geral não houve estranhamentos. Milla Camões, por exemplo, botou a plateia para cantar junto em Estrela miúda. A banda, um espetáculo à parte: Alisson Rodrigues (saxofone), Daniel Miranda (trombone), Hugo Carafunim (trompete), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra), Nataniel Assumpção (bateria) e Rui Mário (sanfona e teclado). Da plateia às galerias era possível ver, aqui e ali, entre sentados e em pé, muita gente arriscando uns passos, acompanhando a energia irradiada do palco.
O final apoteótico reuniu a todos – mais os anfitriões Alê Muniz (que havia subido ao palco para uma participação especial ao violão em Carcará) e Luciana Simões, além de membros da equipe de produção. Foram aproximadamente 1h30min de um show que deixa saudades – inclusive uma saudade temporária do projeto, que volta ano que vem, nos trazendo coisa boa, sabem Deus, Alê e Lu o quê.
Alê Muniz e Luciana Simões, o casal Criolina, foram bastante aplaudidos, sobretudo nas redes sociais – o que inclui este blogueiro –, pela aparição, competente e emocionante, sábado passado (12), no Som Brasil dedicado ao público infantil na Rede Globo.
Mas esta dupla merece aplausos por muito mais. Já há algum tempo eles capitaneiam, por exemplo, o projeto BR-135, iniciativa louvável, entre outras, por duas razões: primeiro, o fomento a uma cena autoral e de qualidade, a organização de artistas e o botar pra fazer, acabando com aquele chororô de “falta palco”, “ninguém me apoia”, “não tem plateia” etc., que por vezes acomete parte de nossa dita classe artística, sobretudo no campo musical – que contraditoriamente é o mais apoiado, se compararmos, por exemplo, com o povo do teatro ou das artes plásticas, para ficarmos em poucos exemplos, mas esta é outra discussão e este post não tem este objetivo; segundo, pela reverência ao que vem antes desta cena que o BR-135 – e o Criolina – ajuda(m) a consolidar.
Acertadíssimos os tributos já realizados aos 35 anos do disco Bandeira de Aço, o primeiro em maio passado no Teatro Arthur Azevedo, o segundo no último 6 de outubro, na Praça Nauro Machado, no encerramento da 7ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS). E agora me vêm com essa: uma merecidíssima – perdoem aí os superlativos – homenagem ao nada menos que genial João do Vale, que teria completado 80 anos – e eu achando que seriam 79, gracias Andréa Oliveira, Benedita Freire e Wilson Marques! – no último 11 de outubro.
João do Vale 80 anos será o último show do BR-135 em 2013. O espetáculo acontecerá nesta quinta-feira (17), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, com a seguinte seleção escalada para atacar com o repertório do autor de Carcará e tantas outras pérolas: Tião Carvalho, Djalma Chaves, Milla Camões, Santacruz e a banda Vinil do Avesso. O primeiro, que em 2006 dedicou o álbum Tião Canta João [Por do Som] ao repertório do pedreirense, será o mestre de cerimônias. Os ingressos poderão ser trocados na bilheteria do teatro, na data do show, a partir das 14h, por um quilo de alimento não perecível.
Painel na Vila Palmeira batiza de João do Vale Tião Carvalho
Louvo a iniciativa. Eleito o maranhense do século XX entre o fim daquele e o início deste, João merece a lembrança e certamente aprovaria a homenagem. Ajuda a reparar erros como o do muro do Parque Folclórico da Vila Palmeira, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), onde se vê uma foto de Tião Carvalho e lê-se João do Vale logo abaixo. Ambos são artistas negros, nascidos no interior do Maranhão – Tião é de Cururupu – e inegavelmente talentosos. As semelhanças são muitas, mas nada que justifique o vacilo da oficialidade.
Original desde o batismo, o BR-135 pega emprestado o nome de nossa única via de entrada e saída por terra da Ilha. Que o casal Criolina continue trilhando-a e ajudando a construir outras pontes musicais.
A segunda edição do BR 135 acontece neste sábado (20), a partir das 17h, na Praia de São Marcos. A primeira, em maio, homenageou os 35 anos do disco Bandeira de aço, no Teatro Arthur Azevedo.
O palco será armado na Praça do Pescador, na Av. Litorânea. A entrada é gratuita, mas recomenda-se ao público doar um quilo de alimento não perecível. O projeto unirá arte e ação social, na tarde e noite que contará com pedalada, coleta de lixo, exposições artísticas, intervenções poéticas e música.
Segundo o produtor Alê Muniz, a ideia é ocupar os espaços públicos com arte. Para 2013 há ainda duas edições do BR 135 previstas: uma em teatro e outra na praia, todas gratuitas.
O show deste sábado, que reunirá diversos artistas, tem o título de Arte e cidadania – essa é a nossa praia! e será realizado em parceria com o Movimento Nossa São Luís. Dele participarão o Bloco Afro GDAM, Nathália Ferro, Phil Veras, Gallo Azhuu, Pedeginja e Mano Bantu. Haverá ainda performances teatral e poética, grafitagem, malabares e participação do Movimento Brechoniano.
Público lotou o teatro na primeira edição do BR-135 em 2013. Repertório do disco foi tocado na íntegra
Um encontro para a história da música brasileira
O Teatro Arthur Azevedo ficou absolutamente lotado para a celebração aos 35 anos do disco Bandeira de Aço, de Papete, divisor de águas da música brasileira produzida no Maranhão.
O projeto BR-135, capitaneado pelo casal Criolina, Alê Muniz e Luciana Simões, propôs uma revisita ao repertório do antológico LP lançado pela Discos Marcus Pereira e revelou o que todos já sabíamos: todo mundo que faz música aqui bebe na fonte do disco que reuniu a obra dos “compositores do Maranhão”, como assinalava a capa da obra que muitos ouvem hoje como se fosse uma antologia, dada a qualidade do repertório. Não à toa Bandeira de Aço encabeçou a lista dos 12 discos mais lembrados da música do Maranhão, recentemente realizada pelo jornal Vias de Fato.
Um balanço do projeto ao longo do ano passado mostrou números impressionantes no telão, principalmente de artistas que passaram pelos palcos do BR-135 – iniciado no ainda desativado Circo da Cidade, que precisa ser urgentemente reativado pela atual gestão municipal –, e de público presente aos eventos, cujo principal objetivo é a formação de plateia – o que se viu ontem no TAA é o bom resultado da iniciativa.
A projeção de um documentário, dirigido e narrado pelo poeta e jornalista Celso Borges, revelou histórias que jogam luz às polêmicas que sempre envolveram o Bandeira de Aço, sempre envolto por uma aura mística, justo também por isso. Entre os entrevistados, os quatro compositores das nove faixas, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota (o único que não mora no Maranhão e que não participou do show de ontem) e Sérgio Habibe, além do intérprete Papete, Chico Saldanha (que jogou a fita com a obra dos quatro nas mãos do percussionista maranhense e este apresentou-a a Marcus Pereira e o resto é história) e de diversos artistas para os quais o álbum é referência.
Ao longo do show o filme continuou dialogando com a plateia, entre uma música e outra, apresentando o contexto da época, as insatisfações de cada compositor com a interpretação de Papete para suas obras, o clima em que foi gestado e a repercussão do disco para suas carreiras artísticas e para a música do Maranhão e do Brasil em geral.
A homenagem do BR-135, a exemplo das edições anteriores do projeto, propôs também um diálogo entre a velha guarda e a nova geração de instrumentistas, cantores e compositores, percebido desde a formação da ótima banda que acompanhou a todos os artistas que pisaram no palco para a celebração: Erivaldo Gomes (percussão), Isaías Alves (bateria), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado, sanfona e laptop). Alê Muniz assinou os arranjos do que foi ouvido na noite histórica.
O repertório seguiu a ordem do disco, sob o cerimonial do ator César Boaes, ou de sua personagem na comédia Pão com ovo, sucesso de bilheteria que volta ao palco do TAA nas comemorações dos 196 anos da casa de espetáculo: o mestre de cerimônias carregou no humor, os risos da plateia em peso garantidos também pelas deliciosas histórias que os protagonistas relatavam.
Boi da lua, de Cesar Teixeira, abriu o show com interpretação do autor, num arranjo próximo ao original. De Cajari pra capital (Josias Sobrinho) foi interpretada por Bruno Batista, entre a lentidão e uma “porrada de pista”. Flávia Bittencourt interpretou Flor do mal (Cesar Teixeira), música registrada por ela em Sentido (2005), seu disco de estreia. Boi de Catirina (Ronaldo Mota) teve o vigor interpretativo de Madian, com vocais das Afrôs. Fechando o lado a, Josias Sobrinho cantou e dançou sua Engenho de flores.
O lado b seguiu com Josias Sobrinho sendo interpretado pelas Afrôs: Dente de ouro, com direito a mina incidental. Eulália, interpretada por seu autor Sérgio Habibe ficou entre o bumba meu boi e a cantiga de ninar, reforçada pelo teclado de Rui Mário – muita gente foi ninada pelas letras das músicas do disco. Catirina, de Josias Sobrinho, ganhou arranjo reggae na interpretação competente de Dicy Rocha. Com introdução tango, o casal Criolina subiu ao palco para interpretar a faixa título, que fecha o disco. Entre o tango e o bumba meu boi, convidaram Papete ao palco, e depois todos os outros que por lá já haviam passado. A plateia tornou-se um imenso arraial, com muitos dos presentes batucando pequenas matracas distribuídas pela produção, e já que todo mundo havia engrossado o coro do batalhão, o assíduo Zé da Chave também estava no palco, dividindo a percussão com Erivaldo Gomes.
Há tempos eu não via o Arthur Azevedo tão cheio para um espetáculo de artistas genuinamente maranhenses. Que a semente do BR-135 floresça, a começar por um bis desta homenagem a Bandeira de Aço e, quem sabe, ainda este ano, uma homenagem ao também antológico Lances de Agora, de Chico Maranhão, outro disco trinta-e-cincão de nossa música. Fecho com o que declarou o dj Joaquim Zion (esposo de Dicy) em sua conta no facebook: “uma noite pra ficar na história da Música Popular Brasileira”.
Joãozinho Ribeiro adiou por muito tempo a gravação de seu disco de estreia, que reunirá pequena parte de sua significativa obra, fruto de mais de 30 anos de carreira, contados aqui a partir de sua participação em um festival de música universitária na capital maranhense em que nasceu em 1955.
Ocupou-se de outras missões, não menos nobres, tendo estudado engenharia e economia, sem concluir, formando-se bacharel em Direito. À época do citado festival era liderança ativa nos movimentos da greve da meia passagem e contra a ditadura militar então vigente. Hoje, ajuda a formar novos bacharéis, dividindo com o ofício de professor universitário a existência de também funcionário público e, não menos importante, poeta e compositor.
Não por acaso Do ofício de viver e outros vícios é título de um segundo livro, a ser lançado sabe-se lá quando, que as coisas com Joãozinho não funcionam de modo tão planejado, exceção feita às ocasiões em que foi gestor público. João Batista Ribeiro Filho, seu nome de pia, já foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e secretário de estado da Cultura do Maranhão, além de ter sido coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, função que ocupou no MinC, quando Juca Ferreira era o ministro. Aquele título se somará ao livro-poema Paisagem feita de tempo que ele publicou em 2006, 21 anos depois de concluído.
Milhões de uns, o disco de estreia, toma emprestado o título de sua música talvez mais conhecida, imortalizada na voz de Célia Maria, que venceu o Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos. O disco foi gravado ao vivo nos últimos 27 e 28 de novembro, ao vivo, no Teatro Arthur Azevedo, em duas noites memoráveis. Noites de música, poesia, teatro, arte, encanto, beleza, vida, enfim.
Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro
Milhões de uns não é apenas um título de música. Ou de disco. É a mais perfeita tradução de Joãozinho Ribeiro, o “gregário”, como cravou Chico César, um de seus ilustres convidados, que presenteou o compositor e o público musicando-lhe um poema: Anonimato, que escrevera em homenagem ao vimarense João Situba, seu pai.
Só entre convidados e participações especiais estavam Alê Muniz, Célia Maria, Cesar Teixeira, Coral São João, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro, fora o o ator Domingos Tourinho, que apresentou belas intervenções poéticas durante os shows. Fora a superbanda arregimentada por Joãozinho Ribeiro para o par de noites que deixou a plateia pisando em nuvens: Arlindo Carvalho (percussão e direção artística), Celson Mendes (participação especial ao violão), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Barbosa (trompete), Josemar Ribeiro (percussionista convidado), Kleyjane Diniz (vocal), Luiz Jr. (violão, guitarra, viola, direção musical), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo), Wanderson Santos (percussão), Xororó (percussionista convidado) e Zezé Alves (flauta).
“Cantador que canta só canta mal acompanhado”
O público merece esse registro. Joãozinho, apesar de não ter disco gravado até hoje, é um de nossos mais gravados compositores, em vozes alheias. O próprio Joãozinho merecia – e se/nos devia – esse registro, como fez por merecer cada aplauso nestas noites memoráveis.
João foi ao fundo do baú. Ou melhor, do cofo. Milhões de uns botou na roda diversos gêneros musicais – choro, samba, bumba meu boi, tambor de crioula, blues, afoxé – feitos na solidão (nunca, que “cantador que canta só, canta mal acompanhado”, como ele mesmo canta) ou em parceria. Na primeira categoria estão Matraca matreira (interpretada por Chico Saldanha), Pegando fogo (por Rosa Reis), Amália, Erva santa (interpretada pelo autor com Chico César e Zeca Baleiro), Saracuramirá (interpretada pelo autor com Chico César), Saiba, rapaz (interpretada por Célia Maria), Esquina da Solidão (por Cesar Teixeira), Derradeiro trem (por Zeca Baleiro), Palavra (idem), Passamento, Terreiro de ninguém (por Josias Sobrinho) e Milhões de uns (que o autor cantou com o Coral São João). Na segunda, Samba do capiroto (parceria com Cesar Teixeira, que os dois cantaram juntos), Cidade minha (parceria com Marco Cruz, interpretada pelo Coral São João), Gaiola (parceria com Escrete, interpretada por Lena Machado), Rua Grande (parceria com Zezé Alves, idem), Tá chegando a hora (idem, que marcou o encerramento das noites, em que todos os convidados retornavam ao palco para cantá-la juntos) e Coisa de Deus (parceria com Betto Pereira), cuja interpretação arrebatadora de Milla Camões, programada para participar apenas do primeiro dia, fizesse a cantora voltar ao palco na noite seguinte, que protocolos e scripts não podem barrar sentimentos e/ou Joãozinho Ribeiro.
Há material para um cd duplo, no mínimo, e um dvd. A quem não foi, resta esperar. E a quem foi, também, torcer para poder reouvir/rever o quanto antes. Como já disse ao próprio “little John”, apelido carinhoso com que o tratamos alguns íntimos: o resultado não pode demorar (mais ainda) a ganhar estantes, coleções, cd-players, ouvidos, cabeças e corações.
O poeta e compositor Joãozinho Ribeiro grava ao vivo seu primeiro disco, Milhões de uns, em show homônimo que apresentará nas próximas terça (27) e quarta-feira (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.
Nas duas noites, o artista terá como convidados Alê Muniz, Coral São João, Célia Maria, Cesar Teixeira, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro.
Até o segundo dia de apresentação do artista e seus amigos de copo, alma, música e vida a Semana Joãozinho Ribeiro trará a este blogue diversas histórias, notícias, textos, imagens etc., deixando a galera por dentro da empreitada. Para inaugurá-la, texto que o último convidado listado escreveu em agosto passado sobre a iniciativa.
JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS POR ZECA BALEIRO
Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.
Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.
Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.
Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.
Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.
Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.
E avisar que ele estará acompanhado, além de Beto Ehongue, por Alê Muniz e Luiz Cláudio, repetindo assim a formação do espetáculo de abril passado, maiores informações sobre aquele e o de hoje nos links do post anterior.