Chico Discos: um bar

Ao contrário do que muita gente é induzida a pensar o Chico Discos é um bar. Explico: quem diz isso é o próprio Francisco de Assis Leitão Barbosa, o Chiquinho, seu proprietário, em entrevista ao jornal Vias de Fato, em sua edição de março, que saiu da gráfica quinta-feira passada (22).

Uma entrevista hilária concedida ao colega de redação, copo & alma Emílio Azevedo, nosso redator-chefe, editor, gerente e quantas outras funções “a dor e a delícia” de parir este jornal às ruas mês após mês exigirem.

Chico, desde antes de eu conhecê-lo, e já se vão mais de 12 anos, ele uma dessas amizades qual uísque, que melhoram com o passar dos tempos, sempre foi, como este blogueiro, “um homem de vícios antigos”, sempre comprando muitos discos, livros e dvds. Não raro nos encontrávamos no saudoso Bar de Seu Adalberto, um dos “bares pequenos” que ele cita na entrevista e onde costumávamos beber (e onde A vida é uma festa começou), cada qual com uma sacola debaixo do braço num doce e saudável exercício de fazer inveja um ao outro, exibindo mutuamente nossas mais recentes aquisições literárias, musicais, cinematográficas, afetivas, enfim.

Chico diz que seu bar, localizado no segundo andar de um casarão na esquina das ruas Treze de Maio e Afogados, no centro de São Luís, não passa disso: um bar. Nega as charmosas denominações de “centro cultural”, “casa de eventos” e outras pomposas honrarias. O fato é que ele começou vendendo livros e discos usados e locando dvds, atividade que abandonou em sequência. Hoje em dia vende cervejas, cachaças e outros alcoóis, petiscos, tira-gostos e o que mais nós, chegados a um grogue, tanto gostamos.

Quinta-feira passada (22) estive lá. Participando do Papoético, que acontece semanalmente, sob organização de Paulo Melo Sousa, o primeiro à esquerda, na foto acima, feita a meu pedido por Andréa Oliveira, esposa de Celso Borges, o terceiro. O segundo sou este que vos tecla e o quarto o músico André Lucap, que na semana anterior iniciou uma temporada de shows no bar.

Preciso deixar a cretinice e a preguiça de lado e aparecer mais no Chico Discos, bar em que, ao lado do Bar do Léo, sinto-me bastante à vontade, em casa mesmo. No Papoético em que a foto que ilustra este post foi feita acontecia o lançamento da Campanha Estadual de Combate à Tortura, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e outras entidades do Comitê Estadual de Combate à Tortura.

Além do Papoético (às quintas, 19h30min, grátis) e da temporada de Lucap (uma sexta-feira por mês, R$ 10,00 o ingresso; este blogue avisará da próxima edição e seu autor estará na plateia), também o cineasta Beto Matuck tem organizado aos sábados (19h, grátis) a sessão Encontro com Cinema, seguida de música, com pesquisa de Eduardo Júlio (eles não estão na foto, mas também encontrei ambos, quinta passada).

Finalizo recomendando a leitura da entrevista, hilária, repito, de Chiquinho, no Vias de Fato, já nas bancas, que traz ainda dois textos meus, já publicados aqui e aqui.

Ficção científica alarmou a população*

O que você faria se ligasse o rádio e escutasse que a terra – sobretudo a sua terrinha – está sendo invadida por extraterrestres? Homenzinhos verdes descendo de naves espaciais com antenas na cabeça, capacetes transparentes e com consequências inimagináveis.

Hoje em dia, provavelmente você acessaria a internet, à caça de maiores informações. Ou dispararia torpedos a torto e a direito em busca de saber mais de seus amigos.

Mas e há quarenta anos, quando não existiam internet ou telefones celulares?

30 de outubro de 1971. A Rádio Difusora havia completado, no dia anterior, 16 anos. Para comemorar a data, uma turma levou ao ar o programa A Guerra dos Mundos, que simulava a tal invasão com que se abre este texto.

O feito já havia sido realizado nos Estados Unidos, em 1938, por iniciativa de Orson Welles, que viria, depois, a ficar mundialmente famoso com Cidadão Kane, um dos melhores filmes já realizados em todos os tempos, na opinião de, entre muitos outros, Elvas Ribeiro, o insuspeito Parafuso, um dos envolvidos na empreitada.

A diferença? Nos Estados Unidos de mais de 30 anos antes, as pessoas sabiam tratar-se de um programa de ficção, da adaptação radiofônica do livro homônimo de H. G. Wells. Em São Luís, a incauta população foi pega de surpresa – os avisos de que se tratava de uma obra de ficção foram colocados depois, nos espaços “em branco” da fita, para evitar problemas com a Polícia Federal.

Graças a Parafuso uma equipe coordenada pelo professor Francisco Gonçalves da Conceição (UFMA) conseguiu recuperar a gravação do programa: ela está em um cd encartado em Outubro de 71 – Memórias fantásticas da Guerra dos Mundos, que faz o resgate deste importantíssimo capítulo da radiofonia maranhense – a historinha da fita apenas uma das inúmeras e deliciosas lembradas no livro.

A equipe: Aline Cristina Ribeiro Alves, Andréia de Lima Silva, Elen Barbosa Mateus, Kamila de Mesquita Campos, Karla Maria Silva de Miranda, Mariela Costa Carvalho, Romulo Fernando Lemos Gomes e Sarita Bastos Costa. Privilegiadamente, este blogueiro já havia escutado trechos dessa história, a “memória fantástica” de Parafuso, sempre bem acompanhado de seu copo de uísque, habitué do Bar do Léo, onde vez por outra nos encontramos. Agora, recontada em livro com maior riqueza de detalhes e visões múltiplas.

A obra celebra os 40 anos do ocorrido em entrevistas com cinco personagens que trabalharam no acontecimento: Sérgio Brito (roteiro), Pereirinha (direção técnica), o citado Parafuso (sonoplastia), J. Alves (reportagem) e Rayol Filho (locução) – as entrevistas foram concedidas entre 2005 e 2006 e o resultado final foi lido e aprovado pelos entrevistados, já neste 2011.

Outubro de 71, o livro, resgata também o script original do programa. Um trabalho silencioso, árduo, mas certamente prazeroso. Francisco Gonçalves e seu time nos pegam de surpresa, como há 40 anos o foram os ouvintes da Difusora. À época, pânico, terror, bares e lojas fechados, o saldo dA Guerra dos Mundos. Outra historinha deliciosa: um pastor protestante que reuniu a família para ler o livro do Apocalipse, a fim de se preparar para o fim do mundo; ao descobrir a “farsa”, ligou para a rádio e “esculhambou” o conhecido Parafuso – mais não conto.

ServiçoHoje (26) será diferente: às 19h, no Palácio Cristo Rei (Praça Gonçalves Dias), acontece o lançamento de Outubro de 71 – Memórias fantásticas da Guerra dos Mundos. Entrada franca. O livro – com cd encartado – será vendido por R$ 30,00.

*Manchete de capa do jornal O Imparcial de 31 de outubro de 1971