São Benedito dos Colocados: lugar de existência e resistência

Vista aérea da comunidade quilombola São Benedito dos Colocados, em Codó/MA - fotos: Elson Paiva
Vista aérea da comunidade quilombola São Benedito dos Colocados, em Codó/MA – fotos: Elson Paiva
Árvore centenária tombada pelo desmatamento que vitima a comunidade
Árvore centenária tombada pelo desmatamento que vitima a comunidade

Neste mês de novembro, a comunidade quilombola de São Benedito dos Colocados, localizada a 8 km da sede de Codó/MA, completou 182 anos, acossada por interesses políticos e econômicos que têm tirado o sono e o sossego de sua população, notadamente a questão do desmatamento e a consequente degradação ambiental de áreas do povoado e arredores.

O território de 3.616 hectares já está georreferenciado desde 2017 e certificado pela Fundação Cultural Palmares — órgão vinculado ao Ministério da Cultura (MinC), responsável pela emissão de certidões às comunidades quilombolas e sua inscrição em um cadastro geral. Mas isto não tem impedido o assédio de políticos e empresários locais. Mais de 100 famílias vivem no local e produzem mandioca, arroz, milho, feijão e derivados de coco babaçu, entre outros produtos da agricultura familiar.

“O uso de veneno [agrotóxico] e o desmatamento geram insegurança alimentar, porque o veneno mata peixe, caça, coco, envenena a água, acaba com tudo”, denuncia o agricultor Valdivino Silva, liderança quilombola, sob uma coberta de palha e ao lado de diversos moradores da comunidade, que sob ela se protegiam do sol, quando da passagem da reportagem pelo povoado. Valdivino é agente da Cáritas Brasileira Regional Maranhão e membro da coordenação da Rede Mandioca e atualmente está sob proteção do Programa de Proteção a Defensores e Defensoras de Direitos Humanos.

“A gente faz as denúncias, mas o desmatamento sempre continua, passando a incluir o uso de motosserras. Um dia desses a gente trouxe a polícia para ver como é que estava o desmatamento. A madeira é levada daqui para uma empresa da cidade, que incentiva o desmatamento, mas as autoridades não tomam nenhuma providência”, continua Sebastião dos Santos, presidente da Associação de Moradores do povoado.

Os moradores sentem-se ameaçados e as árvores cortadas e derrubadas são símbolos dessas ameaças: algumas têm propriedades medicinais, outras dão alimento, como o coco babaçu. “Eu criei meus filhos quebrando coco”, assegura a quebradeira de coco Raimunda Nonata Silva. Azeite de coco e carvão são seus principais derivados, mas tudo se aproveita, inclusive a palha. “Acabou com muitas palmeiras [o desmatamento], onde se vai agora só se vê o descampado”. Mas as ameaças vão além, com jagunços fortemente armados circulando pelo território.

A insegurança denunciada pelos moradores de São Benedito dos Colocados afeta também a juventude. “Jovens, hoje, na comunidade, são poucos. Muitos não estão dispostos a mostrar sua cara, mas eles têm que entender que é a gente, essa geração mais nova, que tem que tomar conhecimento disso. Por que nem sempre, esses mais antigos, mais velhos, vão estar lutando de frente, e vai chegar uma hora que eles vão cansar, e é de agora que a gente tem que estar acompanhando, conhecendo a história, lutando, para a gente pegar uma base. Pouca escola hoje fala dessas comunidades tradicionais, como é a vida do quilombola”, afirmou Manoel Messias da Silva, estudante que manifestou o desejo de estudar Química e utilizar matéria-prima da região na fabricação de cosméticos, numa fala esperançosa e inspiradora.

São Benedito dos Colocados é um lugar de existência e resistência. Em certo sentido, não mudou muito o conceito de quilombo e comunidade quilombola desde antes da abolição formal da escravidão até hoje. Manoel Messias arremata: “Muita gente pode ser quilombola, mas ser quilombola, para mim, hoje, é estar com seus companheiros na comunidade lutando por seu território e praticando as culturas. Como já diziam os mais velhos, você estar na comunidade é uma coisa; você ser da comunidade é outra coisa”.

[Texto originalmente publicado na edição impressa do JP Turismo/ Jornal Pequeno de sábado (29 de novembro)]

Livro traça vasto panorama sobre a Rede Mandioca do Maranhão

“Rede Mandioca do Maranhão: perfil socioeconômico, práticas produtivas e de comercialização” foi lançado sexta-feira passada (14), na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UEMA

TEXTO: ZEMA RIBEIRO
FOTOS: BIG

O professor Marcelo Carneiro (ao centro) e parte da equipe de pesquisadores
O professor Marcelo Carneiro (ao centro) e parte da equipe de pesquisadores
A secretária executiva da Cáritas Brasileira Regional Maranhão Lucineth Machado
A secretária executiva da Cáritas Brasileira Regional Maranhão Lucineth Machado

A compreensão da agricultura familiar como um modo de vida, mais que um modo de produção, e a reivindicação de políticas públicas que reafirmem sua importância e relevância para o conjunto da sociedade deram o tom dos discursos durante a cerimônia de lançamento do livro “Rede Mandioca do Maranhão: perfil socioeconômico, práticas produtivas e de comercialização”, realizada na última sexta-feira (14), no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

A obra é fruto de pesquisa interinstitucional que reuniu professores e estudantes da instituição e da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), que revela diversos aspectos de grupos produtivos filiados à Rede Mandioca, articulação fundada em 2008, com apoio e assessoria da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, como uma estratégia de combate ao trabalho escravo contemporâneo.

Estiveram presentes representantes das citadas instituições de ensino superior, da Cáritas Brasileira (Secretariado Nacional, Regional Maranhão e Cáritas Diocesanas), o Bispo Referencial da Cáritas no Maranhão, representantes da Secretaria de Estado da Agricultura Familiar e de grupos produtivos filiados à Rede Mandioca.

“É inaceitável e repugnante que em pleno século XXI ainda tenhamos trabalhadores escravizados após a vergonhosa experiência do Brasil colônia”, pontuou Lucineth Machado, secretária executiva da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, referindo-se às origens da Rede Mandioca, que desde sua fundação têm se expandido, atuando em cerca de 50 municípios nas diversas regiões do estado, congregando grupos produtivos para muito além de seu nome, entre agricultores familiares, piscicultores, criadores de pequenos animais, extrativistas, artesãos, pescadores e catadores de materiais recicláveis, todos pautados, como preconiza a carta de princípios da articulação, por princípios da agroecologia e da economia popular solidária.

“Estamos vivenciando algo muito grande, mas ainda pouco conhecido. É um pouco dessa história o que se colocou nesse livro”, continuou Lucineth. “Nós precisamos dar visibilidade à nossa riqueza, aos nossos saberes. A juventude nas universidades colocou seu saber a serviço de quem mais precisa”, disse.

O livro traça um vasto panorama sobre a Rede Mandioca e sua produção sustentável, em contraposição ao agronegócio e aos agrotóxicos. Fruto de mais de 400 questionários aplicados em 23 municípios, a obra aborda aspectos como o perfil dos filiados à rede, características das famílias, situação fundiária e dos sistemas produtivos, comercialização de produtos, participação em diferentes tipos de mercados, práticas produtivas, utilização de insumos agropecuários, características do processamento de derivados de mandioca e perspectivas de investimentos futuros.

“O livro cumpre o propósito de dar visibilidade para a sociedade em geral, mas também entre os próprios integrantes da articulação, de se verem e reconhecerem a importância de seu fazer. É importante fazer o livro circular nas escolas, entre os jovens”, afirmou o professor Evaristo José de Lima Neto, um dos coordenadores da pesquisa. “Rede Mandioca do Maranhão: perfil socioeconômico, práticas produtivas e de comercialização” teve tiragem de 1.000 exemplares impressos e terá versão e-book.

O professor Marcelo Sampaio Carneiro, outro dos coordenadores da pesquisa, lembrou o que o motivou a realizar o trabalho. “Eu percebi estar diante de experiências sofisticadas e diversificadas que deveriam ser conhecidas pelo conjunto da sociedade”, afirmou. E continuou: “a pesquisa sobre a Rede Mandioca deve continuar”.

[texto originalmente publicado na edição impressa do jornal O Imparcial de hoje (20/2/2025)]

Fruto de pesquisa interinstitucional, livro traça perfil da Rede Mandioca

[release]

Os dados da pesquisa começaram a ser apresentados durante a VII Plenária Estadual da Rede Mandioca realizada em Vargem Grande em 2023 - foto: Zema Ribeiro/ divulgação
Os dados da pesquisa começaram a ser apresentados durante a VII Plenária Estadual da Rede Mandioca realizada em Vargem Grande em 2023 – foto: Zema Ribeiro/ divulgação
VII Plenária Estadual da Rede Mandioca - fotos: divulgação
VII Plenária Estadual da Rede Mandioca – fotos: divulgação

A Rede Mandioca surgiu em 2008, nas comunidades Riacho do Mel e Vila Ribeiro, na zona rural de Vargem Grande/MA, como uma estratégia de enfrentamento ao trabalho escravo contemporâneo, chaga social que ainda assola o Brasil e o Maranhão.

Com apoio e assessoria da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, a Rede Mandioca passou a congregar grupos produtivos, associações, sindicatos e comunidades, pequenos produtores rurais, extrativistas e artesãos, pautados por princípios da agroecologia e da economia popular solidária.

A articulação vem fazendo um trabalho significativo, dinamizando processos produtivos e inserindo pequenos produtores em redes e estratégias de comercialização antes inimagináveis, contribuindo para mudanças de perspectivas quanto à agricultura familiar.

A Rede Mandioca mereceu a atenção da academia, e uma pesquisa interinstitucional, reunindo pesquisadores das Universidades Federal (UFMA) e Estadual do Maranhão (UEMA), buscou conhecer melhor suas dinâmicas. A pesquisa de campo foi interrompida pelas restrições impostas pela pandemia de covid-19 e retomadas tão logo possível.

Mais de 400 questionários foram aplicados em 23 municípios de atuação da Rede Mandioca, entre outubro de 2022 e agosto de 2023, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema).

O resultado da pesquisa poderá ser conhecido no livro “Rede Mandioca do Maranhão: perfil socioeconômico, práticas produtivas e de comercialização”, organizado pelos professores Marcelo Sampaio Carneiro, Evaristo José de Lima Neto e José Sampaio de Mattos Junior, coordenadores da pesquisa.

“Esse momento é importante, porque vamos compartilhar com o conjunto da sociedade os resultados do trabalho dos pesquisadores sobre a ação desenvolvida pela Cáritas com a Rede Mandioca. Dar visibilidade para essa atividade que ao longo de décadas vem padecendo de invisibilidade no Maranhão. Fala-se muito em desenvolvimento, em grandes projetos, mas muito pouco no trabalho que é desenvolvido pelo povo maranhense através da agricultura familiar e suas diversas cadeias produtivas. Mais do que atividades produtivas, estes são modos de vida do povo maranhense. Padecem também da falta de apoio, da falta de políticas públicas concretas, de investimentos, de assistência técnica. Compartilhar essas informações com a sociedade é chamar a atenção para esse horizonte da agricultura familiar como uma perspectiva de vida, de trabalho, de geração de renda, de alimentos saudáveis. Neste momento em que o mundo está discutindo mudanças climáticas, a gente sabe que a agricultura familiar é a atividade que tem garantido alimento na mesa associada à sustentabilidade do planeta. Esses dados também apontam desafios para nós enquanto organização, e para os gestores públicos para que olhem com maior atenção e priorizem esses segmentos no estado do Maranhão”, pontua Aurilene Machado, da coordenação colegiada da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

“O lançamento do livro representa um momento importante da restituição dos dados coletados pela pesquisa. A primeira etapa foi a apresentação dos resultados no encontro dos 15 anos da Rede Mandioca. Agora, com o livro, oferecemos à sociedade uma visão sobre o perfil dos participantes da Rede, bem como de suas atividades de produção e comercialização. Ao apresentarmos essas informações, oferecemos também uma visão da grande diversidade que caracteriza a agricultura familiar no estado do Maranhão, uma vez que a Rede está presente em quase todas as regiões do estado”, avalia o professor Marcelo Carneiro, um dos coordenadores da pesquisa.

A obra será lançada na próxima sexta-feira, 14 de fevereiro, às 15h, no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UEMA (Rua da Estrela, 472, Praia Grande). O evento contará com as presenças dos coordenadores da pesquisa, pesquisadores, representantes das universidades participantes, representantes de grupos produtivos da Rede Mandioca e representação institucional da Cáritas do Maranhão e Cáritas Nacional. A entrada é franca.

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Rede Mandioca: agricultura familiar ganha força e cresce Maranhão adentro

Representantes de grupos e comunidades ao fim do encontro em São Luís, no último dia 28 de maio. Fotos: Acervo Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Divulgação

Encontro realizado no último dia 28 de maio em São Luís reuniu representantes de grupos e comunidades filiados, avaliou o período de pandemia e focou na expansão da articulação

Representantes de 26 comunidades e grupos produtivos filiados à Rede Mandioca reuniram-se no último dia 28 de maio na Casa das Irmãs da Misericórdia (Rua Boa Esperança, 142, Cantinho do Céu), em São Luís. Os grupos são beneficiários do Fundo de Crédito Rotativo Solidário da Rede Mandioca, articulação assessorada pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão, com apoio da Fundação Interamericana (IAF, na sigla em inglês). A atividade contou também com a presença do professor Marcelo Carneiro, do departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e de estudantes de uma pesquisa interinstitucional coordenada por ele em parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) junto a agricultores familiares.

Na análise de conjuntura que realizou durante o encontro, Carneiro destacou uma série de retrocessos a partir da deposição de Dilma Rousseff em 2016 e comparou o quadro atual com a luta camponesa pela terra na década de 1980, um dos períodos mais sangrentos no campo brasileiro, embora o Maranhão seja o estado com o maior número de assentamentos da reforma agrária; por outro lado, o Brasil voltou ao mapa da fome.

“Existe uma grande lacuna de estudos sobre a cultura da mandioca e uma visão muito preconceituosa, como se a agricultura familiar maranhense plantasse mandioca como há 40 anos. A pesquisa nasce dessa preocupação, de a gente ter uma visão mais atualizada sobre as formas como os agricultores têm trabalhado, não só a produção, mas o beneficiamento e a comercialização. O segundo aspecto é que o Maranhão é um estado muito diverso e a mandioca é a atividade por excelência da agricultura camponesa. Mas ela se articula de forma diferente no sul do Maranhão, na Baixada, nos Lençóis, nos Cocais, e como a Rede Mandioca tem essa capilaridade, a gente entrou em contato com a coordenação da Rede e da Cáritas, e apresentamos para um edital da Fapema [a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão]. É uma pesquisa interinstitucional, UEMA, UFMA São Luís e UFMA Bacabal. A gente tinha a previsão de iniciar antes da pandemia. Quando a pandemia aconteceu, como essa pesquisa implica o deslocamento para cerca de 25 municípios em todo o estado, com entrevistas, aplicação de questionários, fotografias, ela não podia ser feita no contexto da pandemia. A Fapema foi sensível e aprovou a prorrogação, então estamos retomando agora os contatos para desenvolver essa pesquisa. A gente fez uma primeira versão do questionário com a coordenação da Rede Mandioca. A gente perguntou: o que vocês querem saber sobre os produtores? Porque tem uma dimensão da pesquisa do ponto de vista mais sociológico, mas a coordenação colocou uma série de questões importantes do ponto de vista de conhecer os diferentes grupos, conhecer os obstáculos, os desafios que eles enfrentam; com a pandemia, nós vamos voltar para rediscutir esse questionário; talvez surja aí um capítulo referente a impactos da covid”, explicou Marcelo Carneiro.

“Agora mesmo está se discutindo a questão dos fundos rotativos, a coordenação da Rede vai ter um conjunto de informações sobre os grupos que ela apoia, que inclusive pode ajudar na negociação no desenvolvimento de políticas públicas. Por exemplo: o Governo do Estado abriu mais de 100 restaurantes populares, mas esses restaurantes populares adquirem produtos da agricultura familiar? Um dado do censo agropecuário de 2017 que chamou muito a atenção é o seguinte: a agricultura familiar aumentou muito o gasto dela em relação, por exemplo, a energia elétrica. Se a gente notar que isso é um custo grande para os produtores, pode se pensar em algum tipo de política pública que ajude nesse custo. Nós queremos saber também sobre variedades de mandioca, irrigação, que também implica num custo com eletricidade. Enfim, tem uma série de informações, que uma vez a gente de posse delas, pode municiar a Rede para que ela possa negociar políticas públicas, discutir com diferentes agentes do Estado para potencializar essa produção”, continuou.

O clima era de retomada: mesmo que os grupos, em geral, não tenham interrompido a produção, momentos como o daquele sábado haviam acontecido muito raramente ao longo dos últimos dois anos, quando a pandemia de covid-19 impediu a realização de reuniões presenciais. Foram avaliados temas como as sequelas sociais da pandemia, para além das mais de 660 mil vidas perdidas para o coronavírus até aqui, a carestia, o avanço do latifúndio, o recrudescimento da pistolagem, o aumento dos índices de consumo de entorpecentes, a grilagem de terras, o envenenamento das águas e do solo, a perda de direitos, o avanço do armamento e dos índices de trabalho escravo.

“Esses dois anos de pandemia não foram fáceis. Foram dois anos de muitas dificuldades, até por que as pessoas não tinham como se envolver um com o outro. Para nós que trabalhamos na agricultura ficou muito difícil. A gente não podia se juntar para trabalhar, para desenvolver nossas atividades. Mas nós tivemos a graça de ter o projeto da IAF, com o projeto a gente foi se sustentando. A gente nem esperava que a pandemia fosse acontecer, mas a gente tinha alguma coisa em nossas roças, em nossos quintais. Mesmo assim a dificuldade aumentou: quem estava no interior tinha alguma coisa para comer, mas quem estava na periferia da cidade passou muita necessidade, muita gente com fome mesmo, sem roupa para vestir, sem casa para morar”, comentou a lavradora Maria Pereira de Sousa Filha Coelho, 53 anos, de Vargem Grande. Maria integra a Coopervag [a Cooperativa Agroextrativista dos Pequenos Produtores Rurais de Vargem Grande], que acessou um recurso de 10 mil reais para a compra de congeladores para o armazenamento de polpas de frutas e já reembolsou o valor, que, uma vez devolvido ao fundo, beneficia outros grupos e comunidades.

“A Rede Mandioca foi uma oportunidade única. Ela chegou para ampliar nossa comunidade. Nessa fase de pandemia a gente não parou a produção de farinha, através da casa de farinha que foi implantada na comunidade. A gente vende no povoado, no município e também já vendemos para o Pará, Goiás e Tocantins, a partir de nosso ingresso na Rede Mandioca. Isso já é uma visibilidade graças à ação da Rede. Antes a gente fazia cinco sacos [de 50 quilos] por dia, quando era manual, e hoje, com a casa de farinha, a gente passou a fazer 25 sacos por dia”, comenta o agricultor familiar Vando da Silva da Costa, de 28 anos, do Assentamento Alegre, no município de Riachão, sobre o crescimento da produção a partir do apoio e assessoria da Rede Mandioca.

“A Rede Mandioca, nesse período de pandemia, foi uma estratégia fundamental para que os grupos vinculados e apoiados por ela, através dessas iniciativas, atravessassem a pandemia em uma circunstância de maior segurança alimentar, com oportunidade de uma renda extra pela comercialização do excedente. Esse é o papel que a Rede Mandioca tem cumprido na vida desses agricultores, com essas estratégias que estamos criando de forma coletiva, com o fundo de crédito solidário, a pesquisa sobre o perfil socioeconômico, a distribuição gratuita de embalagens para melhorar a apresentação da produção para comercialização do excedente. A Rede Mandioca continua se ampliando, chegando a novas regiões, espalhando suas experiências, o que tem sido fundamental nesse momento quase pós-pandêmico, numa perspectiva de segurança alimentar, trabalho e renda, mas também nesse momento que o Maranhão atravessa tantos conflitos agrários. É fundamental definir e ressaltar a relevância desse papel da agricultura familiar, da permanência desses homens e dessas mulheres no campo, diante do avanço do agronegócio no Maranhão, dos conflitos agrários, assassinatos voltando com força, então a Rede Mandioca se apresenta como essa alternativa”, enumera Lena Machado, assessora da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

Os 26 grupos apoiados pelo Fundo de Crédito Rotativo Solidário acessam um crédito de entre três e 10 mil reais, e devolvem esse recurso ao fundo corrigido com um acréscimo de 4,5%, com carência de seis meses a um ano e meio, dependendo da atividade produtiva – um comitê gestor eleito entre os próprios membros dos grupos define as regras quanto a valores, prazos e carências. Tais regras, inclusive, foram atualizadas neste último encontro, em uma verdadeira lição de democracia, inclusão, participação e solidariedade.

Todos os grupos que acessam o fundo são filiados à Rede Mandioca, sendo signatários de sua carta de princípios, o que envolve produção de base agroecológica e fundada na economia popular solidária, além de formação, intercâmbios, feiras, venda direta, parcerias e projetos.

Atualmente a Rede Mandioca participou de um projeto nacional composto por 17 redes, com 28 grupos inscritos nesta iniciativa, que incluiu formações, intercâmbios, estudos de viabilidade econômica, logística e comunicação. Através do projeto Redes de Comercialização Solidária, executado pela Cáritas Nacional, foram disponibilizadas embalagens plásticas que favorecerão uma melhor apresentação na comercialização de produtos da agricultura familiar, como farinha de mandioca, mesocarpo de babaçu e polpas de frutas, entre outros.

Área de fruticultura irrigada no Assentamento Nova Descoberta, em São Raimundo das Mangabeiras
Casa de beneficiamento de mandioca no Povoado Mirindiba, em Codó
Comunidade do Assentamento Alegre, em Riachão, no mutirão do beneficiamento da mandioca na casa de farinha
Plantio consorciado na comunidade Riacho do Mel, em Vargem Grande
Representantes de grupos e comunidades transportando as embalagens plásticas recebidas

Agroecologia em tempos de pandemia

Rodada de oficinas debateu conhecimentos e práticas agroecológicas junto a famílias de agricultores/as maranhenses

Orientações na plantação de mandioca durante oficina comunitária em Mirindiba, Codó. Foto: Acervo Cáritas Brasileira Regional Maranhão
Oficina comunitária em Guarimanzal, Belágua. Foto: Acervo Cáritas Brasileira Regional Maranhão

“Agroecologia em tempos de pandemia” é o apropriado tema de uma rodada de oficinas que mobilizou 19 comunidades no Maranhão entre os meses de agosto e setembro passados, com assessoria da Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Em um dia e meio de programação em cada uma das oficinas, foi possível aos participantes ter uma formação básica sobre agroecologia e uma visita de campo, com orientações técnicas acerca da atividade produtiva desenvolvida pelo grupo.

Agentes da Cáritas e técnicos agrícolas estiveram nos municípios de Água Doce (comunidades Rancho da Folha e Jabuti), Aldeias Altas (comunidade Gostoso), Amarante (comunidade Água Preta), Belágua (comunidades Guarimanzal e Estiva dos Cangatis), Benedito Leite (comunidade Forquilha), Codó (comunidades Mirindiba e São Benedito dos Colocados), Lago da Pedra (comunidade Nova Unha de Gato), Marajá do Sena (comunidade Água Branca), Riachão (Assentamento Alegre), São Raimundo das Mangabeiras (Assentamento Nova Descoberta) e Vargem Grande (comunidades Riachão, Riacho do Mel, Sororoca, Piqui da Rampa e Cooperativa Agroextrativista dos Pequenos Agricultores de Vargem Grande–Coopervag).

Entre as atividades desenvolvidas pelos grupos produtivos estão plantio de melancia e mandioca, melhorias em casa de farinha, hortas comunitárias, criação de peixes e aves e o beneficiamento de polpa de frutas.

“Entre os conhecimentos e práticas agroecológicas discutidas com as comunidades estão o uso de plantas para a fabricação de defensivos naturais, a fabricação de ração artesanal utilizando insumos da própria produção, como folhas e cascas de mandioca para alimentação de peixes e pequenos animais”, relata Ivo Rodrigues, um dos oito técnicos agrícolas que ministrou o conteúdo das oficinas. “Discutimos também questões ambientais, econômicas e sociais, conflitos nos territórios e a importância de eles estarem organizados em associações e produzindo alimentos de forma agroecológica para permanecerem no local, resistindo às ofensivas de latifundiários e do agronegócio”, completou.

Mais de 200 pessoas participaram do processo formativo, que integra o acompanhamento e formação dado pela Cáritas às comunidades, através da parceria com a Fundação Interamericana (IAF). A metodologia levou em conta as normas de segurança sanitária impostas pela pandemia da covid-19 – a maioria absoluta das atividades aconteceu em local aberto, observando-se o uso de máscaras, álcool em gel e distanciamento social.

Todos os grupos incluídos neste processo formativo foram beneficiários de repasses do Fundo de Crédito Rotativo, efetuados desde março do ano passado. Esse conjunto de ações integra o convênio entre as duas instituições para o “Fortalecimento e ampliação das ações da Rede Mandioca no Maranhão”.

“Esse conjunto de ações e estratégias desenvolvidas junto às famílias de agricultores/as, extrativistas, quilombolas, posseiros e assentados tem como horizonte maior a valorização da agricultura familiar associada a ações de economia solidária no campo, trazendo alternativas de trabalho, renda, segurança alimentar e melhorias nas condições de vida dessas famílias, além de contribuir para movimentar a economia local. Com essa formação, esperamos que estes segmentos assimilem novas práticas produtivas, que respeitem e valorizem o meio ambiente e proporcionem um alimento saudável para suas famílias e os demais consumidores da produção da agricultura familiar”, afirma Lucineth Cordeiro Machado, assessora regional para a economia solidária na entidade.

“Há poucos dias nós tivemos uma oficina sobre agroecologia. Quero destacar a importânciaque foi esse projeto para nossa comunidade, para os membros do projeto. Ela trouxe algo que veio nos conscientizar, trazer conhecimento de algo que nós já queríamos trabalhar aqui há muito tempo, mas não conhecíamos o caminho a ser seguido, que era o combate ao agrotóxico. Com essa oficina as pessoas ficaram conscientizadas, animadas, já aprenderam a fazer seus defensivos, todo mundo alegre e satisfeito. O resultado é que com essa oficina, com o conhecimento, a gente vai combater as pragas de outra forma. A gente vai ter uma alimentação saudável, proteger mais o meio ambiente como um todo, as águas que estavam sendo poluídas pelo agrotóxico. Foi um momento muito rico, muito importante, que nos deixou uma grande esperança, a gente só tem muito a agradecer, por que trouxe esse conhecimento que a gente estava precisando: as pessoas trabalhavam com agrotóxico não por maldade, mas por falta de conhecimento. A gente trabalhou na teoria e na prática e eu acredito que daqui pra frente a nossa comunidade vai mudar em muitas coisas, principalmente na proteção ao meio ambiente e na nossa alimentação”, declarou dona Expedita, membro da Rede Mandioca e articuladora do projeto IAF, na comunidade Água Preta, no município de Amarante.

A reflexão de dona Expedita faz todo sentido. A pandemia de covid-19 é um chamado à população mundial à reflexão: a agricultura industrial tem adoecido gerações, gerado impactos e desequilíbrios ambientais e é o pequeno produtor quem põe alimento saudável e a preço justo na mesa do brasileiro. Repensar as formas de convivência com a natureza e a própria alimentação é um caminho que precisa urgentemente ser levado em consideração por todos.

[A convite do Secretariado Regional da Cáritas Brasileira no Maranhão escrevi a matéria acima, também publicada no site do Secretariado Nacional da entidade e no JP Turismo, Jornal Pequeno de ontem (6), gracias, Gutemberg Bogéa!]

Solidariedade e agricultura familiar em pauta

17 grupos produtivos em 12 municípios maranhenses são beneficiados com iniciativa. Pautados pela solidariedade, eles superam problemas simples com soluções idem.

TEXTO: ZEMA RIBEIRO
FOTOS: ACERVO CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL MARANHÃO

Comitê gestor do Fundo Rotativo Solidário em reunião em São Luís
Comitê gestor do Fundo Rotativo Solidário em reunião em São Luís

Com mais de 60 anos de atuação no país, a Cáritas Brasileira tem um sólido legado na organização de grupos e comunidades, pautada por princípios solidários, sustentáveis e de autogestão.

Recentemente, através de um projeto apoiado pela Fundação Interamericana (IAF, na sigla em inglês), a Cáritas Brasileira Regional Maranhão está apoiando ações que culminam na criação de um fundo rotativo solidário, cujo montante chega a 130 mil reais, beneficiando 17 grupos produtivos de agricultores familiares em 12 municípios maranhenses.

O regulamento do fundo prevê a devolução de 100% dos valores recebidos, acrescido de 4,5% de juros – valores estes que serão reinvestidos em ações produtivas de outros grupos. Algumas diferenças básicas entre este tipo de empréstimo e os comumente oferecidos por instituições financeiras são autogestão (a taxa de juros, por exemplo, foi definida pelos próprios trabalhadores que acessam os recursos) e a carência – que varia conforme a atividade produtiva: seis meses para horticultura, polpa de frutas e beneficiamento de farinha, um ano para criação de animais, e 18 meses para o plantio de mandioca.

O engenheiro agrônomo Marciel Bento dos Santos, 36, destaca a permanência das pessoas na terra a partir de uma iniciativa muito simples. “A partir deste projeto, os trabalhadores produzem para consumo e comercialização, realizada em feiras locais e territoriais”, comenta.

Ele também aborda as diferenças entre a operacionalização do fundo rotativo solidário e de um empréstimo comum, num banco. “Quando é no banco, se vê a atividade que as pessoas vão fazer, mas já chega um prazo tabelado; o banco é engessado; você chega ao banco, pega ficha de vida, se é de família tradicional, se tem posição, para poder o banco lhe dar o empréstimo”, compara.

O grupo produtivo que ele integra acessou 9.680 reais para plantar mandioca e adquirir motor, bomba, mangueira e tubulação para irrigar, além de estacas e arame para cercar a área. Começará a devolver o recurso a partir de setembro de 2020.

Plantação de melancia no povoado Nova Descoberta, em São Raimundo das Mangabeiras
Plantação de melancia no povoado Nova Descoberta, em São Raimundo das Mangabeiras

A agricultora familiar Antonia Pereira de Sousa, 57, vive em Nova Descoberta, povoado de São Raimundo das Mangabeiras. Através do projeto para acessar os recursos do fundo rotativo solidário, na ordem de 10 mil reais, seu grupo plantou melancia, banana, caju, acerola, milho, feijão, arroz e mandioca, além de adquirir material de irrigação e conseguir escavar um reservatório para 120 mil litros de água oriundos de um poço artesiano. Apesar de a carência ser de seis meses, o grupo já começou a devolver os recursos ao fundo.

“Já venho acompanhando a Cáritas e já conhecia seu trabalho em outras comunidades. Antes, aqui, a gente não podia expandir [as atividades] por que a bomba era fraca”, explica. A venda da produção é realizada diretamente na praça da cidade, pelos mais de 80 membros da cooperativa. “É muito melhor. Não tem burocracia para acessar [os recursos]. É rápido. Por bancos, assentamentos não conseguem acessar. Não conseguia na época de Lula e Dilma, imagina com esse aí”, diz, referindo-se ao presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Antonia lembra ainda de um crédito obtido através de empréstimo junto a um banco, cerca de um quinto do valor acessado através do fundo da Cáritas/IAF. “Só cerquei o quintal e nem os animais eu consegui comprar. A terra não é dividida, é no nome da associação, aí o banco não quer trabalhar de jeito nenhum”, explica.

Elmir Eurides dos Santos Andrade, 56, mais conhecido como Bebé das Lagoas, é lavrador em Belágua. O grupo produtivo de que é membro acessou 7,9 mil reais em fevereiro de 2019 e plantou seis hectares de mandioca, com colheita prevista para agosto de 2020. A expectativa é produzir cerca de 3 mil quilos de farinha. “A ideia é passar a produzir para vender, não apenas para comer, e tentar vender direto na cidade, sem a figura do atravessador”, afirma ele, que continua plantando milho e arroz para consumo.

“A estratégia da Cáritas está em um processo de fortalecimento de ações que ela já desenvolve com a Rede Mandioca. O fundo de crédito constituído tem a perspectiva do fortalecimento da agricultura familiar como um horizonte maior: fortalecer as ações junto a grupos produtivos de agricultores familiares e extrativistas, articulando uma rede de agricultores e agricultoras, com a perspectiva de envolvimento comunitário, geração de trabalho e renda, fortalecimento do trabalho coletivo, de ter alimento saudável na mesa, de segurança alimentar para o campo e para as cidades”, afirma Lucineth Cordeiro, assessora de Desenvolvimento Solidário e Sustentável da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

“O fortalecimento dessas iniciativas é uma forma também de contribuir para que essas comunidades tenham condições de permanecer em seus territórios, de fortalecer sua resistência, sua identidade e seus modos de vida”, complementa Lena Machado, secretária executiva da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

“Quando se fala de um projeto todo mundo se empolga”, reflete o lavrador Josemar da Conceição Oliveira, 37, do município de Água Doce. “Somos capazes, mas precisamos nos empenhar para alcançar os objetivos”, continua. E provoca: “se se faz um empréstimo num banco e de um jeito ou de outro se paga, por que não um valor desse, que vai beneficiar outros grupos?”.

Criação de peixes no povoado Jabuti, município de Água Doce
Criação de peixes no povoado Jabuti, município de Água Doce

O forte da produção do grupo integrado por ele é a mandioca, mas Josemar afirma ter um escape: “é o peixe, algo fácil de fazer um troco mais rápido”, revela o lavrador que também cria tambaquis em cativeiro. O peixe ele vende de porta em porta, sob encomenda. Com 7,5 mil reais seu grupo produtivo construiu quatro tanques, que receberam 2.000 alevinos. Ele finaliza: “a palavra-chave é solidariedade, é se preocupar com o próximo que irá receber [os recursos]”.

Festival apresentou resultados do projeto “Catadores de Direitos”

Sábado passado (26/10), no Festival Estadual “Nossos Talentos, Nossos Direitos”, crianças e adolescentes mostraram o que aprenderam em projeto realizado pela Cáritas no Maranhão

Foto: Elson Paiva
Foto: Elson Paiva

Foto: Elson Paiva
Foto: Elson Paiva

O time de Buritirana goleou um combinado de vários outros municípios maranhenses por 4×0. A partida durou meia hora. Caíque, de 11 anos, cursando o quinto ano, Luciano Jr., 10, também cursando o quinto ano, e Alan, 8, do terceiro ano, eram só alegria, pela vitória, terminando de gastar as energias que sobraram do amistoso pelos brinquedos e equipamentos de ginástica da Praça do Letrado, no Vinhais, em São Luís. “Sim” foi a resposta em uníssono quando indaguei-lhes se queriam ser atletas profissionais. O mais velho e o mais novo são flamenguistas; o do meio, são-paulino.

O conselho que lhes dei, “não basta ser bom de bola, não pode parar de estudar”, eles devem ouvir repetidamente. O trio integra o conjunto de crianças e adolescentes filhos e filhas de catadores e catadoras de materiais recicláveis ou de famílias de baixa renda atendidos pelo projeto Catadores de Direitos, realizado pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão com apoio da Kindermission desde 2012 – e de forma ininterrupta desde 2017.

É uma manhã ensolarada de sábado e estamos no “Festival Estadual Nossos Talentos, Nossos Direitos”, que ocupou a praça pública em São Luís, após ter etapas regionais realizadas nos municípios de atuação do projeto: Bacabal, Balsas, Imperatriz, Lago da Pedra e Loreto. Futebol, roda de capoeira, música, poesia, dança e teatro integraram o cardápio do festival, uma mostra de talentos a demonstrar o que a gurizada aprendeu durante o projeto, que passará por avaliação em novembro, ocasião em que definirá novos municípios de atuação. Também para novembro está previsto o lançamento de um vídeo-documentário sobre o projeto, em fase de finalização.

“Em alguns municípios as equipes estão bem organizadas e continuarão o trabalho. A  Cáritas está aberta a parcerias”, destacou Lucineth Cordeiro, da coordenação colegiada do organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no Maranhão, reforçando o princípio de rotatividade do projeto e das ações da Cáritas.

Luziane Alves é mãe de quatro filhos atendidos pelo projeto Catadores de Direitos. “Percebi que eles melhoraram em casa e no desempenho escolar, são interessados em leitura”, afirma sobre os filhos, que têm entre oito e 13 anos.

Instrutor de capoeira, Onivaldo de Assis, 44, atua há dois no projeto, em Bacabal. “É um longo trabalho de conscientização. É preciso despertar a vontade de querer aprender, valorizando o esporte e a cultura, fazendo essa moçada crescer como pessoas, ser alguém na vida. É um trabalho árduo, que une conhecer direitos com ter saúde”, comenta.

Gleicilene Araújo, 13, conta ter aprendido capoeira, carimbó, futebol e violão – ela foi uma das que se apresentou ao instrumento, cantando uma música sobre o meio ambiente. “É um projeto importante. Conheci pessoas que passaram a ir e conseguiram sair do mundo das drogas”, revela.

O sol a pino não esmorecia os presentes, animados pelo mestre de cerimônias Tedd Mac, que sabe unir bom humor e dicas úteis para a garotada – em perfeita sintonia com os valores ensinados aos beneficiários do projeto. Motivos para sorrir não lhes faltavam: estavam ali a exibir seus talentos e ganhar medalhas, que penduravam no pescoço, orgulhosos, conscientes de seu papel de sujeitos de direitos, mesmo que uns insistam em negar ou dizer o contrário.

“Os meninos e meninas e o povo no poder eu quero ver”, era palavra de ordem, grito de guerra – ou de contra-ataque, com endereço certo. “Criança tendo voz, vez e lugar: esse é o país que a gente quer”, afirmou Lena Machado, secretária executiva da Cáritas no Maranhão. “Eles não precisam de sorte, é de oportunidades que precisam, de respeito a seus direitos, para que cresçam em graça e sabedoria”, finalizou, certa da missão ao mesmo tempo cumprida e em progresso.

(texto originalmente publicado no JP Turismo, Jornal Pequeno de hoje)

Fundos rotativos solidários: uma alternativa para o Brasil

Seminário estadual “Fundos solidários: autonomia comunitária para o bem viver” aconteceu no Oásis e reuniu 45 representantes de grupos e comunidades de 15 municípios

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O JP TURISMO

Estamos em plena corrida eleitoral e, como de praxe, candidatos se apresentam, alguns com soluções mirabolantes à busca de fisgar o eleitorado. Diante da crise que assola o país, alguns temas chamam a atenção: o reaquecimento da economia e a limpeza do nome do brasileiro estão entre os compromissos de alguns candidatos.

Não são tarefas fáceis, mas para boa parte da população, podem ser mais simples do que aparentam. Uma ideia que pode ser aproveitada pelos postulantes a cargos neste pleito são os fundos rotativos solidários. O Maranhão está repleto de bons exemplos.

Alguns participantes do seminário. Foto: Lena Machado

Entre a última segunda (3) e quarta-feira (5), na Casa de Retiros Oásis (Rua Frei Hermenegildo, Aurora, São Luís), a Cáritas Brasileira Regional Maranhão reuniu cerca de 45 representantes de comunidades e grupos produtivos para uma formação sobre a temática – alguns grupos já atuam nesta perspectiva há mais de 20 anos. A iniciativa tem apoio da Fundação Interamericana.

“A Cáritas celebrou um convênio com a Fundação Interamericana que prevê o apoio a grupos produtivos ligados à Rede Mandioca para o desenvolvimento de ações produtivas, fortalecimento de ações de economia solidária e de comercialização junto a esses grupos em 11 municípios do Maranhão e esse processo também prevê momentos de capacitação e acompanhamento desses grupos. Esse seminário estadual sobre fundos solidários é um desses momentos de capacitação garantidos por essa parceria, o primeiro”, destacou Lucineth Cordeiro, assessora regional de Economia Popular Solidária.

Momento de mística do seminário. Foto: Lena Machado

Para o desenvolvimento da Rede Mandioca, que já tem mais de 10 anos de atuação no Maranhão, a Cáritas também celebrou um termo de fomento junto à Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop). Somando as iniciativas, são 30 grupos e comunidades acompanhados em 15 municípios: Água Doce, Amarante, Aldeias Altas, Belágua, Benedito Leite, Codó, Lago Açu, Lago da Pedra, Lagoa Grande, Loreto, Marajá do Sena, Nina Rodrigues, Presidente Vargas, Riachão e Vargem Grande – onde teve início a experiência da Rede Mandioca.

Intercâmbio – Foi um rico momento de troca de experiências. Os fundos rotativos solidários funcionam à base de solidariedade – como o próprio nome entrega –, coletividade e confiança. Indago a alguns participantes do seminário se eles acreditam que esta solução poderia ser aplicada em larga escala pelo país e a resposta unânime é sim.

Dona Expedita. Retrato: Zema Ribeiro

Em Água Preta, comunidade do município de Amarante, por exemplo, o fundo rotativo solidário local teve início diante da necessidade de a comunidade construir uma casa de farinha em regime de mutirão, com o material doado pela Cáritas. “A união faz a força e em 15 dias construímos a casa. Havia a cultura de que nós somos pobres por que Deus quer, vamos sofrer por que é a vontade de Deus. Nisso não acreditamos mais”, conta a quebradeira de coco Expedita Pereira, de 75 anos.

Ela dá uma ideia da dinâmica de funcionamento dos fundos rotativos solidários: “hoje em dia a gente faz farinha todo dia. Cada um que faz tem que deixar uma porcentagem para a manutenção do forno, que é de todos. Um ajeitando, é para todos. Tem um dinheiro no caixa, uma pessoa adoece, não pode comprar o remédio, eles vão lá e ajudam”, explica.

Walter dos Santos. Retrato: Zema Ribeiro

Para o produtor rural Walter dos Santos, 48, a solidariedade é algo tão arraigado em sua comunidade que ele tem dificuldade em destacar o marco inicial do fundo rotativo solidário em Pequi da Rampa, comunidade de Vargem Grande. “Trabalhamos há muito tempo, vem de berço a questão da solidariedade na comunidade”, afirma.

Os moradores de Pequi da Rampa começaram a se organizar diante da necessidade de pagar um empréstimo, contraído com a finalidade de melhorar a casa de forno local. Ele cita o ano de 1995 como marco e conta: “nós trabalhávamos de roça no toco e no ano seguinte cada um deu meia linha de roça. Todo produto que desse nessa meia linha era botado no depósito, vendido e o arrecadado ia pro fundo. Só com as meias linhas de roça a gente conseguiu estocar mais de três mil quilos de farinha e o empréstimo que era para a gente pagar em três anos, a gente pagou em dois”, relembra.

Seu Zezinho. Retrato: Rose Panet

O catador José Ferreira Lima, de 67 anos, mais conhecido como Seu Zezinho, é presidente da Associação de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis de Imperatriz/MA (Ascamari). Ele lembra que quando a associação foi fundada, já havia um fundo de mil reais, cujo objetivo era a reforma de uma casa na Vila Cafeteira, bairro do município. O dinheiro acabou sendo usado, “em regime de economia solidária”, como ele mesmo frisa, para servir como uma espécie de capital de giro, beneficiando os catadores associados. A associação antecipava aos catadores o pagamento pelo material recolhido e o dinheiro era devolvido ao fundo quando o material era vendido, livrando os trabalhadores de uma espera média de 30 dias.

Através de parcerias desenvolvidas com a Prefeitura municipal, foi construído um galpão e a coleta seletiva está implantada, o que facilita os trabalhos de catação e triagem. A Ascamari tem 54 filiados, o que significa algo em torno de 10% dos catadores e catadoras em atividade em Imperatriz.

Diversidade – Percebe-se a diversidade do grupo reunido no seminário. “Durante esses dias, os integrantes de grupos e comunidades aqui presentes discutiram o que é um fundo solidário, como funciona, proposta de regimento, como organizar um fundo local, pra que serve, qual a perspectiva do fundo solidário dentro da economia solidária, o que é economia solidária. A gente esteve abordando esses princípios e também definindo um pouco a estrutura de gestão, propondo para as comunidades modelo de regimento, como fazer adaptações a partir de suas realidades e a partir também da vocação de cada comunidade”, comenta Lucineth Cordeiro.

Outra experiência apresentada ao longo do seminário foi a de São Benedito dos Colocados, em Codó, comunidade que produz arroz, feijão, milho e mandioca, transformada em farinha. O agente comunitário de saúde Valdivino Silva, 55 anos, agente Cáritas, é um dos integrantes da Coordenação Estadual da Rede Mandioca. O fundo solidário articula várias comunidades, que atuam, além da produção na agricultura familiar, com a produção de artesanato e de peças íntimas.

Valvivino Silva. Retrato: Rose Panet

“Os fundos têm duas frentes de ação: uma é o trabalho em mutirão, é a troca da diária, do serviço; as diárias são calculadas com valores, mas não têm papel [moeda], mas o valor é somado, é contado; a outra parte é a financeira: alguém precisa de um recurso, coloca isso na reunião, tem um tesoureiro, um secretário do fundo, ele anota no caderno e passa a grana”, explica Valdivino. Os valores são pequenos. Nenhum dos fundos solidários sobre os quais conversamos tem mais de seis mil reais em caixa. Mas como dizem os católicos, “o pouco com Deus é muito”, e esta é a premissa que lhes faz crer que, difundidos pelo país, os fundos rotativos solidários podem ser solução para alguns problemas brasileiros.

Pedro Silva Alves. Retrato: Zema Ribeiro

Os conhecimentos adquiridos ao longo das atividades serão multiplicados junto às comunidades, no retorno de seus representantes. O lavrador Pedro Silva Alves, de 26 anos, é morador da comunidade Bola de Coco, município de Lago da Pedra, uma das mais recentes a aderir aos fundos rotativos solidários. “Havia muito desperdício [de polpa de frutas, por exemplo]. O que tínhamos a gente não sabia trabalhar. A Cáritas mostrou o que a gente podia aproveitar e formar uma renda”, conta ele. Seu balanço dos dias de atividade aponta para o futuro: “Foram dias de muita experiência e aprendizado, uma rica troca de informações com outras comunidades. Vamos passar as informações adiante e, com fé em Deus, prosperar ainda mais”, finaliza.

[publicado na edição de hoje do Jornal Pequeno, em que também saiu uma exaltação a São Luís, por ocasião de seu aniversário, amanhã, encomenda do amigo Gutemberg Bogéa, editor do suplemento JP Turismo]

Diga não!

Foto: Zema Ribeiro

 

Limpando o e-mail, encontrei esta foto, que fiz em junho de 2009, e capta Cesar Teixeira e Lena Machado cantando juntos por ocasião do lançamento do Tribunal Popular do Judiciário, movimento que agitou o segundo semestre daquele ano, desde este evento, no auditório da OAB/MA, em São Luís, até a grande plenária estadual, realizada em dezembro no ginásio do Colégio Dom Bosco (Renascença), precedida por diversas etapas estaduais, realizadas em municípios-polo em cinco regiões do Maranhão.

O movimento, encabeçado pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão, junto a outras organizações sociais, algumas de caráter estadual, outras com raio de atuação mais circunscrito aos municípios em que estão sediadas, tinha por objetivo denunciar uma série de desmandos da Justiça maranhense, que iam desde o não cumprimento do expediente por juízes – que deveriam residir nos municípios em que atuavam, mas eram apelidados TQQ, por só trabalharem às terças, quartas e quintas –, até juízes que, armados, comandavam ações de reintegrações de posse, agindo como comandantes da polícia, ou que mandavam prender funcionários de companhia aérea por perder um voo.

As diversas etapas do movimento estão fartamente documentadas no blogue do Tribunal Popular do Judiciário, que acaba funcionando como uma espécie de clipping de sua rápida, mas necessária, existência.

Uma das etapas mais aguardadas e concorridas das plenárias do Tribunal Popular do Judiciário era a Tribuna do Povo, quando eram apresentadas queixas contra o sistema de justiça – pensões alimentícias e aposentadorias que repousavam meses em mesas de juízes, por vezes condenando pessoas (velhos e crianças, inclusive) à fome, para ficarmos num único exemplo.

Feito por homens e mulheres simples, animado por um organismo da Igreja Católica, talvez por isso o Tribunal Popular do Judiciário tenha tido algo de profético.

Anos depois, ao rever a foto, impossível não pensar em magistrados que agem movidos por convicções e não por provas. Que aparecem sorrindo ao lado de figurões de um partido enquanto promovem toda a sorte de perseguições a gente de coloração partidária diversa da que lhe agrada.

Uma das músicas cantadas por Cesar Teixeira e Lena Machado quando disparei este clique foi Oração latina, dele, gravada por ela em seu disco de estreia, Canção de vida (2006), que celebrava os 50 anos de atuação da Cáritas no Brasil – o título vem da letra dessa música, originalmente lançada por Cláudio Pinheiro e Gabriel Melônio, vencedora do Festival Viva Maranhão de Música Popular, em 1985.

Oração latina foi composta três anos antes, em 1982, para a trilha sonora de uma peça de teatro. O Brasil já vivia a chamada “abertura democrática”, reta final da ditadura militar que assombrou o país entre 1964 e 1985. “Com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar”, cutucava o cão com vara curta a letra do jornalista e compositor.

Impossível não destacar aí, também, algo de profético. E necessário. Num tempo em que juízes tomam partido e ignorantes pedem a volta da ditadura militar, sob a égide de um golpe político-jurídico-midiático.

“Mas se for pra nos prender, diga não”, arremata a letra de Oração latina.

Conflitos maranhenses

Em busca do bem viver. Capa. Reprodução

 

Com grata satisfação, vi hoje (31), mais uma vez, o Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) lotado para a exibição de mais um documentário produzido no Maranhão. Desta vez, Em busca do bem viver, com roteiro, edição e direção de Murilo Santos, papa do cinema documental maranhense, tendo sido mesmo um de seus pioneiros. O filme foi realizado por encomenda das Pastorais Sociais do Maranhão, braços sociais da Igreja Católica.

O filme remonta à 12ª. Romaria Estadual da Terra e das Águas, realizada em Chapadinha/MA, em 2015. Este é o ponto de partida para um passeio nada agradável por todo o Maranhão, em todas as suas regiões. Situações de conflito e luta pela terra, com a batalha desigual de comunidades contra o capital, seja o agronegócio, as irmãs mineração e siderurgia ou a exploração de gás, entre outras.

Em busca do bem viver traça um panorama do Maranhão desde que grandes projetos começaram a se instalar no estado – por exemplo o Projeto Grande Carajás, com a estrada de ferro homônima –, sob as bênçãos da Lei Sarney de Terras, promulgada pelo governador de plantão, que não à toa dá nome à lei, que acabaria por transformar a zona rural do Maranhão numa terra sem lei, gênese de grande parte das questões que sobreviveriam às décadas seguintes.

Perpassa ainda as histórias de mártires como Flaviano Pinto Neto, liderança da comunidade quilombola de Charco, em São Vicente Férrer, ou Elias Zi, liderança sindical do município de Santa Luzia, ambos assassinados a tiros, em 2010 e 1982, respectivamente. Este, tema do documentário curta-metragem Quem matou Elias Zi? (1986), de Murilo Santos, o que o torna uma autoridade em se tratando de conflitos agrários – e do uso do cinema como ferramenta de documentação e denúncia – no Maranhão, sendo autor de pelo menos mais um filme fundamental sobre o assunto: o clássico Bandeiras verdes (1988), narrado por Paulo César Pereio.

Por falar em narração, quem empresta a voz aos relatos de Em busca do bem viver é a cantora Lena Machado, que divide o tempo entre a carreira artística e o Secretariado Executivo na Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Na trilha sonora, o filme de Murilo Santos une Joãozinho Ribeiro, compositor cuja vida e obra são marcadas pela denúncia de arbitrariedades, e Zé Vicente, poeta popular fortemente ligado ao catolicismo.

No entanto, nem tudo é tragédia ao longo dos 52 minutos de Em busca do bem viver. Estão postas ali as estratégias de resistência, avanços e a conquista da terra e de direitos de algumas comunidades. Que, como de resto o próprio filme, sirvam de exemplo para a continuidade das lutas das demais.

Serviço

O dvd Em busca do bem viver pode ser adquirido nas sedes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Regional Nordeste 5 (Rua do Rancho, Centro), Cáritas Brasileira Regional Maranhão (Rua do Alecrim, 343, Centro), Conselho Indigenista Missionário (Cimi/MA, Rua do Pespontão, 99, Centro) e Comissão Pastoral da Terra (CPT/MA, Rua do Sol, Centro), em São Luís/MA.

Ciranda do sincretismo

Bispo de Brejo, Dom Valdeci empunhou a caixa do divino para cantar com todas as raças no Terreiro do Egito. Foto: Zema Ribeiro
Bispo de Brejo, Dom Valdeci empunhou a caixa do divino para cantar com todas as raças no Terreiro do Egito. Foto: Zema Ribeiro

 

Eu já tinha lido algo sobre o Terreiro do Egito, um dos mais antigos espaços de culto afro da capital maranhense – conhecê-lo foi transcendental. Sabia da iniciação de Pai Euclides, ali, muito antes de ele fundar a Casa Fanti-Ashanti ou existir a Barragem do Bacanga e da instalação de empresas como Vale e Alumar. Isto é, quem morava do lado de cá da cidade, para chegar ao local sagrado, precisava enfrentar uma travessia (arriscada) de barco e mata fechada (incluindo cobras e outros bichos).

O Terreiro do Egito já não existe como edificação. Mas o lugar, reconhecido como sagrado por adeptos da umbanda, candomblé, mina e terecô, permanece sob a sombra de pés de caju, fornecendo a trégua para o sol inclemente de quem chega até ali após subir o íngreme Morro do Egito, uma das cinco áreas que compõem a Vila Cajueiro, na zona rural de São Luís.

Mais de 100 pessoas visitaram o local na tarde do último sábado (3), como parte da programação do Seminário Estadual Políticas Públicas e Direitos Humanos, organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Regional Nordeste 5 (CNBB/NE5), Cáritas Brasileira Regional Maranhão, Comissão Pastoral da Terra (CPT/MA), Conselho Indigenista Missionário (Cimi/MA), Pastoral da Criança e Associação de Saúde da Periferia do Maranhão (ASP/MA).

A visita marcou um momento de intercâmbio entre as experiências de resistência dos diversos grupos e comunidades presentes ao Seminário e a da comunidade de Cajueiro, que desde 2013 intensificou a luta contra a instalação, pelas empresas WPR e WTorres, de um porto privado na região.

No alto do Morro do Egito, foram entoados cânticos católicos, cantos indígenas e canções do repertório de Clara Nunes, entre as quais o Canto das três raças (Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte): era índio entoando música de branco, branco entoando música de preto e preto entoando música de índio, numa ciranda sincrética que bem traduzia, artística e popularmente, a necessidade de apoio e solidariedade entre os povos para vencer as duras batalhas, inclusive a que é motivo do grito mais ouvido ao longo de toda a programação do Seminário: “Fora Temer!”.

Que os gritos, cantos e preces sejam ouvidos.

Emoção marca inauguração do Centro de Referência da Agricultura Familiar

[Texto que escrevi pro site da Cáritas Brasileira Regional Maranhão]

Produção de grupos filiados à Rede Mandioca tem endereço certo. Centro de Referência em Comercialização de Produtos da Agricultura Familiar foi inaugurado na última sexta-feira, 6, na sede da Cáritas

POR ZEMA RIBEIRO

Emoção é uma palavra que bem poderia traduzir o que foi a inauguração do Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar, na sede da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, na manhã de sexta-feira, 6.

Cerca de 100 pessoas de diversos municípios maranhenses estiveram presentes à solenidade, que inaugurou os três pontos do centro: o Auditório Mané da Conceição, a biblioteca Dom Xavier Gilles e a Quitanda da Rede Mandioca.

A sede da Cáritas no Maranhão passou por uma reforma para abrigar o Centro, financiada pela Fundação Banco do Brasil. O Banco do Nordeste financia o acompanhamento de grupos produtivos e os fundos rotativos solidários, que ajudam a garantir sua sustentabilidade.

Homenageado presente, Dom Xavier Gilles abençoou os presentes após a saudação inicial de Lucineth Machado, assessora de Desenvolvimento Solidário Sustentável Territorial da Cáritas. A experiência da entidade no assunto – a Rede Mandioca completará 10 anos de articulação em 2014 – foi apresentada em um documentário que cobriu um intercâmbio com grupos solidários atendidos por diversos regionais da Cáritas no Brasil. Realizado em setembro do ano passado em cidades como Codó, Lago da Pedra e Vargem Grande, o filme focou justamente a experiência da Rede Mandioca.

O ator Domingos Tourinho recitou o poema Latifúndio, de Joãozinho Ribeiro, em performance carregada de dramaticidade, representando a luta de trabalhadores e trabalhadoras rurais no interior do Maranhão – adiante ele dramatizaria ainda Pobreza incalculável, de Ricarte Almeida Santos. Os poemas, em que luta é sinônimo de vida, dialogam diretamente com as origens da Rede Mandioca: um projeto piloto desenvolvido pela Cáritas em Vila Ribeiro e Riacho do Mel, duas comunidades rurais de Vargem Grande. O principal objetivo era evitar o êxodo de trabalhadores rumo ao corte da cana no interior de São Paulo e outras atividades e geografias que se alimentam vorazmente do trabalho escravo.

Joãozinho Ribeiro, poeta, compositor e professor universitário, vinculado a diversos movimentos sociais e culturais do Maranhão, não escondeu a emoção e a honra: “Sei nem se conseguirei cantá-la até o fim”, temeu inicialmente, mas conseguiu empunhar o violão para apresentar Passamento, música composta em 1987 e cedida ao MST. A música homenageia o líder camponês Manoel da Conceição e aborda temas espinhosos enfrentados pelo próprio e por tantos outros trabalhadores maranhenses: grilagem, latifúndio, violência, assassinatos. Ao fim, sob aplausos, Joãozinho dedicou-a a Padre Victor Asselin, estudioso das questões, recentemente falecido.

A mesa solene foi composta com as presenças dos superintendentes João Batista Ayres (estadual) e Alaércio Dutra (regional) e do gerente de negócios de desenvolvimento sustentável Paulo Belarmino, do Banco do Brasil, Edmar Saturnino César, gerente de microfinanças do Banco do Nordeste, José da Luz Costa Filho, da Articulação Estadual da Rede Mandioca, Valtenir Moraes, da Comunidade Piqui da Rampa (Vargem Grande), Jaime Conrado, assessor do Secretariado Nacional da Cáritas Brasileira, e Ricarte Almeida Santos, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

A emoção – sempre ela – foi algo unânime nas falas. E não era para menos: uns emocionaram-se com as apresentações artísticas – “a Rede Mandioca também é cultura”, enfatizou a cantora Lena Machado, assessora da Cáritas, e mestra de cerimônias do evento –, outros por terem participado da construção da rede desde o início, outros por perceber os frutos que começam a ser colhidos por ela, alguns anos depois da semente plantada, outros ainda simplesmente por estar ali.

“Os governos têm muito que aprender com os movimentos sociais. A experiência da Rede Mandioca é riquíssima, há muito que pode ser copiado, é uma honra ter feito parte de seu início, poder reencontrar amigos aqui”, afirmou Jaime Conrado.

“O que queremos é corrigir o processo histórico de exclusão da mandioca para a valorização das coisas de fora, das monoculturas e grandes projetos que têm legado ao Maranhão vergonhosos indicadores sociais. A Rede Mandioca nasce como uma estratégia de enfrentamento ao trabalho escravo e hoje se consolida como uma experiência viável de produção e comercialização justa”, apontou Ricarte Almeida Santos.

João Batista Ayres relembrou o compromisso do Banco do Brasil com o Desenvolvimento Solidário Sustentável. “É necessário cada vez mais o envolvimento [do banco] com o social. Esta iniciativa da Rede Mandioca é um início. Quem sabe num futuro breve não teremos um pão com mais mandioca, mais gostoso?”, provocou. “Agora me sinto realmente chegado ao Maranhão. Entre vocês me sinto em casa”, revelou, ele que já trabalhou em 11 estados brasileiros.

A comunidade de Piqui da Rampa saudou os presentes com uma apresentação de seu tambor de crioula, antes do descerramento da placa que marcou a inauguração do Centro de Referência. Os presentes puderam adquirir produtos diversos, de grupos da Rede Mandioca: mel, azeite de babaçu, mesocarpo, farinhas d’água e seca, tiquira, toalhas, sabões e artesanatos, além de deliciar-se com um café da manhã repleto de iguarias também produzidas por filiados à Rede Mandioca.

Cáritas inaugura Centro de Referência

[Release para a Cáritas]

Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar será inaugurado dia 6 de setembro. Instalações incluem ainda o Auditório Mané da Conceição

O primeiro embrião da Rede Mandioca foi plantado há quase 10 anos, durante a execução do projeto Trilhas de Liberdade, executado pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão nas comunidades Vila Ribeiro e Riacho do Mel, em Vargem Grande.

“Vargem Grande era, como muitas cidades pobres do interior do Maranhão, um grande centro exportador de mão de obra escrava para outras regiões do país. Aquele projeto inicial tinha a intenção justamente de evitar aquele êxodo, de garantir trabalho e renda através da produção de derivados de mandioca”, explica Lucineth Machado, assessora de Desenvolvimento Solidário Sustentável Territorial da Cáritas no Maranhão.

Hoje são mais de 80 comunidades e grupos filiados, totalizando cerca de 2.500 famílias, de 22 de municípios: Araioses, Balsas, Barra do Corda, Bom Jesus das Selvas, Buriticupu, Cajapió, Centro Novo, Codó, Imperatriz, Itapecuru-Mirim, Lago da Pedra, Magalhães de Almeida, Monção, Pedreiras, Penalva, Riachão, São Bernardo, São Mateus, São Raimundo das Mangabeiras, Trizidela do Vale, Vargem Grande e Viana. Produtores de derivados de mandioca – farinha, mesocarpo, tapioca –, agroextrativistas – azeite e mel –, criadores de pequenos animais e artesãos. Toda a produção é orientada por princípios agroecológicos e da economia popular solidária.

Produção de grupos e comunidades filiadas à Rede Mandioca agora tem endereço certo

Estes produtos agora têm endereço certo para aquisição em São Luís: a Quitanda da Rede Mandioca, parte do Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar do Maranhão, instalado na sede da Cáritas, na Rua do Alecrim, 343, Centro (próximo ao Palácio dos Esportes).

A reforma do prédio para abrigar o centro durou pouco mais de um ano e contou com apoio da Fundação Banco do Brasil. “A primeira etapa garantiu a reforma da casa, que terá modernas instalações para receber os consumidores. Com a segunda foi possível pensar a própria dinâmica do centro, com estoque, atendimento, seu funcionamento, enfim”, explica Ricarte Almeida Santos, secretário executivo da Cáritas no Maranhão.

A inauguração do Centro, incluindo a Quitanda e o auditório Mané da Conceição, acontecerá dia 6 de setembro (sexta-feira), às 9h. Na ocasião serão servidas iguarias produzidas por filiados à rede. Entre as delícias, bolo de macaxeira, beiju, mingau de mesocarpo, ovos de galinha caipira fritos no azeite de coco babaçu e até mesmo a tão maranhense tiquira.

Homenagem – “Manoel da Conceição é um líder camponês pioneiro na organização de trabalhadores no interior de nosso estado. Tem uma contribuição ímpar às suas lutas e suas causas”, explica Ricarte sobre o escolhido para emprestar o nome ao novo auditório da Cáritas, um espaço que será usado pela própria entidade, para atividades de formação, bem como por entidades parceiras.

Sua inauguração acontecerá também na sexta-feira, ocasião em que será exibido um documentário curta-metragem sobre intercâmbio realizado em 2012, com a presença de representantes de várias Cáritas do Brasil, que conheceram a experiência da Rede Mandioca no interior do Maranhão.

Em sequência, performance do ator Domingos Tourinho, apresentação musical do cantor e compositor de Chico Nô e degustação de um café da manhã típico pelos presentes.

“Essa degustação inicial certamente fidelizará os consumidores”, ri Lucineth. Interessados poderão participar de uma cooperativa e adquirir cestas de produtos periodicamente, de acordo com a chegada do interior. “É uma alternativa viável de consumir alimentos mais saudáveis a um preço mais justo”, propagandeia.

SERVIÇO

O quê: café de inauguração do Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar.
Onde: Centro de Referência em Comercialização dos Produtos da Agricultura Familiar (Quitanda da Rede Mandioca e Auditório Mané da Conceição), sede da Cáritas Brasileira Regional Maranhão (Rua do Alecrim, 343, Centro).
Quando: 6 de setembro (sexta-feira), às 9h.
Quanto: entrada franca.
Maiores informações: caritas@elo.com.br, (98) 3221-2216.

De carinhos e conflitos

Não sei se chamo Igor de Sousa de amigo-irmão ou de filho. Ambos os parentescos caem bem: já o tinha visto umas poucas vezes, em geral por conta de nossa atuação em organizações de direitos humanos no Maranhão, e em meados do ano passado DP, como o chamo carinhosamente, veio estagiar na Cáritas Brasileira Regional Maranhão, onde além de trabalharmos, conversávamos muito sobre música, literatura, cinema e artes em geral, sempre um aprendendo com o outro.

Deixei a Cáritas semana passada e ele permanece por lá, onde espero que tenha vida longa, pois reconheço neste estudante de Ciências Sociais um belo quadro para as lutas, não só naquela entidade.

Com nossas meninas temos também bebido um bocado, descobrindo e redescobrindo botecos, bares, calçadas, shows, churrasquinhos e nossa cozinha, onde ele sempre pede para ouvir Celso Borges, Itamar Assumpção, Jards Macalé, Miles Davis e Ferreira Gullar, entre outros. Pedidos raros e atendidos na medida do possível, a depender do clima da farra e do resto da galera que porventura nos acompanhe.

O apelido “depê” vem de um endereço de e-mail que ele ainda hoje usa, embora já disponha de um e-mail “sério”, “adulto”, feito, aquele, quando ele tinha mais ou menos a metade da idade que tem hoje, 22 bem vividos e estudados: desajustado underline punk arroba hotmail ponto com.

Mas comecei a falar dele e quase me perco por conta de um texto seu que recebi hoje. Queria minha ajuda na edição e para fazer repercutir o assunto. Já saiu no site da Cáritas/MA, mas roubo-o ao “blogue cachorro”, como ele carinhosamente chama este espaço, especialistas que estamos em reeditar velhas gírias, este blogue que divide a honra de sua leituratenta apenas com o Socialista Morena. “Quando encontrar a Cynara [Menezes] novamente, diga-lhe que só leio dois blogues: o teu e o dela”, pediu-me certa vez. Quando encontrá-la novamente ela já saberá.

Sobre o texto abaixo, DP demonstra uma sincera indignação: “como é que um cara desse pode ser ofensivo? Ele é menor que eu”, revela. “O cara tá com mais de 30 boletins de ocorrências nas mãos e não acontece nada! É por isso que eu estudo, para ver se consigo ajudar esse povo”. Qual professor Raimundo para Ptolomeu, penso: “eu queria ter um filho assim”.

“A GENTE NÃO SABE O QUE TÁ ACONTECENDO”

Vítima de prisão irregular e ameaçado de despejo, José da Cruz Monteiro, liderança quilombola, concedeu entrevista coletiva na manhã de hoje (4), na sede da CPT-MA

TEXTO E FOTO: IGOR DE SOUSA*

Em uma coletiva de imprensa realizada na manhã de hoje (4), na sede regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT-MA), foi exposto que dois policiais militares encarceraram de forma ilegal o líder quilombola José da Cruz Monteiro (51), da comunidade de Salgado, área que se encontra em processo de titulação via Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra),  no município de Pirapemas/MA.  A prisão ocorreu devido à morte de um caprino que invadiu a sua roça. José da Cruz já havia feito vários boletins de ocorrência na delegacia local para providenciar soluções sobre a invasão dos animais à sua propriedade, não obtendo qualquer resultado por parte da polícia.

Em 31 de janeiro, após abater o animal que estava em sua pequena plantação, foi à delegacia comunicar o feito e solicitar a retirada do mesmo. Porém, após relatar o fato, foi preso pelos policiais que ali estavam de serviço. A prisão foi feita sem qualquer flagrante, sem qualquer mandado de prisão. Ao ser preso, o líder quilombola recusou-se a receber algemas, sendo jogado à força em uma cela, havendo incitação por parte dos policiais para que os presos espancassem o referido senhor. Após horas sem comer nada, passando o dia apenas com o gole de café que havia tomado em casa, foi transferido para a delegacia de Itapecuru-Mirim. Lá foi comunicado ao advogado Diogo Cabral, assessor jurídico da CPT-MA, que a situação de José da Cruz Monteiro era de depoente, configurando completa arbitrariedade aos fatos ocorridos em Pirapemas. Durante o período em que esteve preso, José da Cruz teve sua casa invadida e vasculhada por policiais. Ele relatou ainda que sua casa e a de seu cunhado estão ameaçadas de demolição por Ivanilson Pontes Araújo, proprietário da área.

O que se percebe pela recorrência dos fatos, seja no que tange à quantidade de boletins de ocorrência registrados pelo senhor José da Cruz Monteiro, sem qualquer providência por parte da polícia, seja pelo envenenamento de animais e água potável na comunidade Salgado, ocorrido em 2011 e sem resposta até o presente momento, é uma total complacência do governo do estado do Maranhão quanto à situação de violência e conflito no campo referente às comunidades quilombolas e camponesas. Há violência cotidiana contra essas comunidades, havendo inclusive a existência de grupos armados no interior do estado. Quanto aos órgãos responsáveis pela titulação, há lentidão e descaso. Hoje o Incra conta com mais de 300 processos aguardando titulação, contando com um quadro ínfimo de funcionários para os referidos trabalhos. A própria comunidade de Salgado é um exemplo notável dessa morosidade: já titulada certificada pela Fundação Cultural Palmares (FCP), a área aguarda titulação pelo Incra. O processo está parado desde 2000.

Outro dado alarmante é tratamento dado pelas autoridades estaduais. No ano passado, a delegada geral agrária foi categórica ao afirmar que no Maranhão não há conflitos no campo, havendo apenas conflitos entre vizinhos. Será?

Somente no último semestre do ano passado foram vitimadas quatro pessoas: duas lideranças sindicais e dois indígenas.

E assim segue a vida real de trabalhadores rurais na terra do faz de conta do governo Roseana Sarney.

Ameaçado de despejo, José da Cruz Monteiro (C), entre outro morador de Salgado e o advogado Diogo Cabral (D)

 

ENTREVISTA: JOSÉ DA CRUZ MONTEIRO

Qual a situação da sua comunidade? Lá, a nossa situação nós não aguenta, é muita escravidão. Muita injustiça. Ele [Ivanilson Pontes] coloca os vizinho [a reportagem optou por manter a transcrição da entrevista o mais próximo possível da fala de Monteiro] da gente contra a gente para matar o que é nosso. Ele coloca a própria polícia de Pirapemas contra a gente.

De quem o senhor fala? Quem persegue vocês? São três irmãos que vivem nos perseguindo. Eles são filhos de Moisés Sotero Araújo. Ele se diz proprietário das terras lá em Pirapemas. Quem afronta a gente lá é o Ivanilson Pontes Araújo.

Há situação de conflito na sua comunidade? Existem ameaças de morte? Ameaças às pessoas da comunidade? Como ocorrem? As ameaças que acontecem lá são com nossas criações e com a gente. Ele ameaça nós de morte e mata nossas criações para não ter o que comer. Ele mata e manda os outros matar, manda os capangas.

E a polícia? O que faz? A polícia sempre protege ele [o proprietário]. A gente se queixa e a polícia só protege o proprietário. Ela [a polícia] é bandida, só protege o proprietário. Diz que não pode fazer nada porque tem outras autoridades no conflito.

Como aconteceu a sua prisão? Eu fui preso pelo delegado de Pirapemas, pelo doutor Ricardo porque eu queria terminar de assinar o boletim de ocorrência. Nessa hora ele disse que eu estava preso, que eu era um bandido. Me pegaram, me jogaram para um bandido numa cela. Nesse dia eu passei o dia com um gole de café. Eu vinha registrando boletim de ocorrência, era a quarta vez que os bode entrava na minha roça. Na quarta vez eu matei. O dono não tira, eu tive que matar. Eu fui preso em Pirapemas e fui levado para Itapecuru para ser preso lá. Eu matei o bode para pesar a carne e vender para esperar o Ivanilson para ele pagar o meu prejuízo. Mas ele já tinha dado a carne do bode para a polícia. Eu saí jurado de lá, prometeram derrubar minha casa e a do meu cunhado hoje. Disseram que vão derrubar a do meu cunhado e depois a minha. A gente não sabe o que tá acontecendo, tá marcado pras 10 horas. Disseram que em dois dias vão me tirar de lá, de um jeito ou de outro.

*IGOR DE SOUSA é estudante de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), estagiário da Cáritas Brasileira Regional Maranhão e membro do jornal Vias de Fato.

O debate (de verdade)

Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), União Estadual por Moradia Popular, Cáritas Brasileira Regional Maranhão, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Quilombo Urbano, Pastoral da Comunicação, Comitê Padre Josimo, Central de Movimentos Populares, Cooperativa de Mulheres Trabalhadoras da Bacia do Bacanga, jornal Vias de Fato e Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Maranhão (OAB/MA) providenciaram a gravação do debate realizado no auditório da última, lotado, na tarde de quarta-feira passada (19). O evento teve transmissão ao vivo pela internet.

Dos oito candidatos a prefeito, cinco se fizeram presentes ao debate moderado por Zaira Sabry Azar (MST): Edivaldo Holanda Jr. (PTC), Eliziane Gama (PPS), Haroldo Sabóia (PSol), Marcos Silva (PSTU) e Tadeu Palácio (PP). Não compareceram os candidatos Edinaldo Neves (PRTB), que alegou problemas de saúde, João Castelo (PSDB), candidato à reeleição, e Washington Oliveira (PT), candidato oficial do Sistema Mirante/ Oligarquia Sarney. Os dois últimos sequer enviaram representantes de suas coordenações de campanha para a reunião que definiu as regras do debate. Como comentei há alguns posts, o Sistema Mirante disse que o mesmo foi marcado por “tensão” e “polêmica”. Vejam com seus próprios olhos e tirem suas próprias conclusões.