“Só o que não se cansa é a gente se querer bem”

"Para viver um grande amor" (Vinícius de Moraes e Toquinho), às vezes é preciso olhar o retrovisor - foto: Zema Ribeiro
“Para viver um grande amor” (Vinícius de Moraes e Toquinho), às vezes é preciso olhar o retrovisor – foto: Zema Ribeiro

O título deste texto (ridículo, como toda carta de amor, não é, Fernando Pessoa?) é verso de “Nossa canção” (Ana Terra e Danilo Caymmi), sucesso de Nana Caymmi (1941-2025), não por acaso a música que abre a playlist “Depois daquela dança”, que alimentamos constantemente desde a dança que precedeu nosso primeiro beijo.

“O que fazer com este beijo represado há 20 anos?”, perguntei, ousado, logo após nossos lábios se encontrarem pela primeira vez. Tudo começou há 20 anos, na plateia de uma apresentação de Elomar — a música sempre presente — no finado Circo da Cidade (mais precisamente dia 19 de agosto de 2005), que assistimos em cadeiras lado a lado.

Apresentados por um amigo comum, eu me apaixonei, mas um coquetel de álcool, juventude (leia-se inexperiência) e lerdeza me impediu de perceber os sinais da reciprocidade, à época.

Como a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, “nossos destinos foram traçados na maternidade” (Cazuza, Leoni e Ezequiel Neves) — com distâncias geográficas e temporais mínimas: ela nasceu na Maternidade Benedito Leite e eu na Santa Casa de Misericórdia, ambas no Centro de São Luís/MA, com apenas 15 dias de diferença.

Mas desde o citado show de Elomar, quis o acaso que “as retas mais curvas que o mundo tem” (Chico Maranhão) nos provassem, na prática, a teoria de Vinícius de Moraes (1913-1980): “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida”.

Vivemos: acertamos, erramos, fomos felizes e tristes, pertos e distantes, mas sempre amigos, com gostos parecidos, posturas políticas semelhantes e vez por outra, entre “encontros e despedidas” (Milton Nascimento e Fernando Brant), nos esbarrando aqui e acolá, em agendas de “festa, trabalho e pão” (Gilberto Gil e Capinan), bem menos do que gostaria, é verdade, admito.

Mas já dizia Paulo Leminski (1944-1989), outro poeta-músico de nossa predileção: “um bom poema leva anos/ cinco jogando bola,/ mais cinco estudando sânscrito,/ seis carregando pedra,/ nove namorando a vizinha,/ sete levando porrada,/ quatro andando sozinho,/ três mudando de cidade,/ dez trocando de assunto,/ uma eternidade, eu e você,/ caminhando junto”.

É um poema sobre seu próprio ofício poético e sobre maturação, para além da poesia, também do amor: o nosso levou 20 anos para poder ser vivido plenamente. E está apenas começando, embora sempre estivesse ali, pulsando quietinho. “Ah, infinito delírio chamado desejo/ essa fome de afagos e beijos/ essa sede incessante de amor” (Gonzaguinha); “não dá mais pra segurar/ explode coração” (idem).

Quando nos conhecemos, logo apelidei-a, carinhosamente, “menina de olhos amendoados”, estas duas petecas cor de mel que me espelharam e abriram as portas da paixão, a primeira coisa que me chamou a atenção. “Quando vi você me apaixonei” (Chico César), para logo depois cantar o Djavan de “Um amor puro”: “te adoro em tudo”.

Quando nos reencontramos, até tentamos, mas foi impossível conter a explosão: “nós somos fogo e gasolina” (Carlos Rennó e Pedro Luís). Sempre me refiro à nossa história, que adoro contar, como “um caso de loucura e mágica” (Ritchie e Antonio Cicero).

“O futuro já sabia, mas a gente ainda não” (Barro e Ed Staudinger): a dona dos olhos amendoados é hoje, finalmente, a “dona da minha cabeça” (Fausto Nilo e Geraldo Azevedo).

Volto ao show de Elomar, tendo-o como um marco: 20 anos não são 20 dias. Pensei em escrever algo sobre tudo isto, aproveitando a efeméride, e dei de cara com um poema, escrito também há 20 anos, uma singela quadrinha, com algum poder de síntese, já estava tudo lá: “teus olhos, duas pedras raras/ me deixam mudo/ com tua beleza me calas/ e se sou teu, tenho tudo”.

*

para Diana Melo

Ilha, 20 de agosto de 2025

Re/encontrando Vicente Barreto

O cantor e compositor Vicente Barreto - foto: Zema Ribeiro
O cantor e compositor Vicente Barreto – foto: Zema Ribeiro

Eu devia ter uns 14 ou 15 anos. Estava em um bar, tomando refrigerantes e vendo uma apresentação do violonista rosariense Fran Gomes. À época eu já tinha um conhecimento razoável de música, adquirido fuçando as coleções de vinis de meus avós, pais e tios. Naquela tarde fiz do músico uma espécie de jukebox – algo que hoje condeno, obviamente – e desdenhava de algo que eventualmente ele não sabia cantar ou tocar.

Foram tantos “toca Zé Ramalho”, “toca Zé Geraldo”, “toca Geraldo Azevedo”, “toca Fagner”, “toca Gilberto Gil”, “toca Chico Buarque”, “toca Caetano Veloso”, “toca Belchior”, “toca Djavan” e toca tudo que eu conhecesse, sem falar do infaltável “toca Raul!”, que ele retrucou: “eu vou cantar uma que tu não conhece”. A letra me pegou na hora – é até hoje uma de minhas canções prediletas em toda a MPB – e ao fim ele perguntou quem era e eu não soube responder. Era “A notícia”, parceria de Celso Viáfora e Vicente Barreto: “O New York Times não deu uma linha/ a BBC de Londres nem uma palavra/ mas ontem no Xingu um índio se afogou/ e um guarda-marinha se atirou nas águas/ para salvar a sua vida/ Na mesma hora um favelado da Rocinha/ que tinha sete filhos, arrumou mais um/ era um menino loiro de olho azul/ que tinha sido abandonado nu/ numa avenida/ Gente má, gente linda/ dia vem, noite finda/ em todo lugar”. A música é tão marcante que digito sua letra consultando apenas a memória.

Quase 30 anos depois do episódio que me apresentou a obra de Vicente Barreto – porque depois do maravilhamento que foi ouvir Fran tocá-la e descobrir um artista que eu então não conhecia, ir atrás de outras composições, discos etc., foi um pulo. Aquele moleque de 14 ou 15 anos se tornou jornalista, perdeu a empáfia e teve a oportunidade de entrevistar o artista baiano, por ocasião de seu álbum mais recente, “Na força e na fé” – hoje finalmente conheci-o pessoalmente, por ocasião de entrevista que concedeu ao Timbira Cult, com Gisa Franco, na Rádio Timbira FM (95,5), quando contei-lhe a história com que abro este texto.

Parceiro de nomes como Alceu Valença (“Tropicana”, “Cabelo no pente”, “Pelas ruas que andei”), Tom Zé (“Hein?”, “Lá vem cuíca”, “Na parada de sucesso” e “Esteticar” – esta também com Carlos Rennó), Celso Viáfora (a citada “A notícia”, “A cara do Brasil”, gravada por Ney Matogrosso), Paulo César Pinheiro (“Capitão do mato”, gravada por Maria Bethânia), Chico César (“Ilusão retada”) e Zeca Baleiro (“Saudades de te ver, Paraíba”), Vicente Barreto se apresenta hoje (12) e amanhã (13), às 20h, no Miolo Café Bar (Av. Litorânea, 100, Calhau). O cantor e compositor maranhense Djalma Chaves faz o show de abertura.

Retrospectiva 2022

Balaio Cultural. Aos sábados, das 13h às 15h, na Rádio Timbira AM, com Gisa Franco e este blogueiro: Assis Medeiros, Almeida Marcus, Carlos Rennó, Bárbara Eugênia, Fred Zeroquatro (Mundo Livre S/A), Celso Borges, Carlos Careqa, Pedro Santos, Celia Catunda, Kiko Mistrorigo, Wado, Caetano Brasil, Carolinaa Sanches (Caburé Canela), Jaime Alem, Max Alvim, Fernando Salem, Otto, Angélica Freitas, Vitor Ramil, Péricles Cavalcanti, Gab Lara, Fi Bueno, Héloa, Ubiratã Trindade, Rodrigo Maranhão, Tatá Aeroplano, Maurício Pereira, Xico Sá, Simone Leitão, Luís Filipe de Lima, Pedro Luís, Yuri Queiroga, Zeca Baleiro, Vinícius Cantuária, Cláudio Lima, João Donato, Fernando Abreu, Lívia Mattos, Márcio Vasconcelos, João Cavalcanti, Cesar Teixeira, Rubi, Roberta Campos, Paulinho Moska, Thales Cavalcanti, Hélio Flanders (Vanguart), Lívia Nestrovski, Henrique Eisenmann, Arthur Nestrovski, Carlos Malta, Russo Passapusso, Patrícia Ahmaral, Otávio Rodrigues (Doctor Reggae), Zé Geraldo, Francis Rosa, Ligiana Costa, Bel Carvalho, José Miguel Wisnik, Erasmo Dibell (sábado que vem, 24) e BiD (31 de dezembro). Em 2023 tem muito mais!

Jair já vai tarde

Foto: Zema Ribeiro

Jair Bolsonaro (PL) se elegeu e governou com mentiras. Conspurcou o Evangelho de Jesus Cristo segundo São João como slogan de campanha em 2018: conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, repetia aos quatro ventos, mas uma vez no cargo, colocou seus crimes (e os dos filhos) sob sigilo de 100 anos.

Um dos traços do fascismo é acusar o outro do que você mesmo faz. Em 2018 Bolsonaro disse que o Brasil se tornaria uma Venezuela caso o vencedor do pleito fosse seu oponente, Fernando Haddad (PT), alçado à cabeça de chapa após a ilegítima prisão de Luís Inácio Lula da Silva (PT, que então liderava todas as pesquisas de intenção de voto), orquestrada pelo juiz parcial Sérgio Moro, em conluio com procuradores e a acusação. Mentira tem perna curta. E nariz comprido.

Em 2022, com o país de volta ao mapa da fome, o neofascista disse que é mentira que alguém passa fome no Brasil, que não se vê ninguém pedindo pão. O cruel Jair Bolsonaro vive em uma bolha, uma realidade paralela em que só se acredita no que querem ele e seus fanáticos seguidores.

Caminho e dirijo todos os dias pelas ruas da cidade em que moro e independentemente da rota e do tamanho do percurso, nunca antes na história deste país eu tinha visto as faixas de pedestres nos semáforos loteadas entre flanelinhas, malabares, imigrantes e famélicos em geral. A propósito, a foto que abre-ilustra este texto foi feita ontem, pouco depois de meio-dia, no Renascença, em São Luís.

A despeito de tudo isso, Bolsonaro manteve-se no poder, a peso de ouro, apesar da falta de decoro, das mentiras diuturnas e dos não poucos crimes cometidos em quase quatro anos de mandato. É asqueroso, canalha, cínico, covarde, deselegante, grosseiro, hipócrita, perverso, vil, “o impostor que com o posto não condiz”, como diz a letra da recém-lançada “Hino ao inominável”, de Carlos Rennó (com música de Chico Brown e Pedro Luís, gravada por 30 intérpretes antifascistas).

Presidente em férias permanentes, Bolsonaro parece enfim fazer seu último passeio pago com dinheiro público: foi passar e nos fazer passar vergonha à vista, no débito, no crédito (sob o sigilo do cartão corporativo) e no pix (que ele continua mentindo ter inventado) no funeral da rainha da Inglaterra e na ONU, transformados em palanques e comícios, com suas habituais mentiras e a claque de ignorantes a lhe bater palmas e gritar “mito!”.

Ainda bem que o pesadelo está chegando ao fim. Já não era sem tempo.

Comunhão de Mariana Aydar com o público marcou encerramento do Festival Zabumbada

A cantora Mariana Aydar em comunhão com a plateia do Festival Zabumbada. Foto: Jesus Aparício. Divulgação

Quando a paulista Mariana Aydar venceu o Grammy latino em 2020, com o álbum “Veia nordestina” (Natura Musical), cujo repertório majoritariamente autoral é dedicado ao forró (e outros gêneros abrigados neste guarda-chuva), muita gente torceu o nariz: a cantora parecia estar invadindo um terreno sagrado de forma ilegítima; alguns até hoje lhe atribuem falas que não fez, em relação ao forró (e à música nordestina em geral).

A apresentação da cantora, ontem (10), no encerramento da programação do Festival Zabumbada, apenas reafirmou a veia nordestina de Aydar, filha do mago Mário Manga (do Premeditando o Breque) e de Bia Aydar, empresária e produtora que trabalhou com Luiz Gonzaga (1912-1989), cujos discos a cantora começou a ouvir ainda na infância, iniciando a paixão que se aprofundou nos três anos em que ela integrou a banda Caruá (sua primeira experiência profissional com música) e o casamento com o multi-instrumentista Duani, também um artista oriundo do forró.

Chamam a atenção a entrega da cantora no palco, a qualidade do repertório, o entrosamento com a banda (ela toca triângulo e dança quase o show inteiro), num misto de zelo e reverência ao forró e aí reside a verdade da artista: ela não é uma cantora convencional de forró, ao trazer para seu repertório a influência de outros elementos que já cantou ao longo de sua carreira, iniciada com o disco “Kavita 1” (2006), como o samba, a axé music e até mesmo o que convencionou-se chamar de brega.

Mariana Aydar subiu ao palco por volta de 23h20 e cantou por cerca de hora e meia, se equilibrando entre repertório autoral e releituras. O desafio era enorme: nas noites anteriores, o paraibano Chico César (8) e a paraense Dona Onete (9) fizeram apresentações antológicas, e a artista sabia que não podia deixar por menos.

Começou com “Coração bobo” (Alceu Valença), escolha sagaz para agradecer o convite do Festival Zabumbada: “zabumba bumba esquisito batendo dentro do peito”, diz a letra. Quando cantou os versos “tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais”, de “Anunciação” (Alceu Valença), fez o gesto do L com as mãos, para delírio da plateia.

Depois de cantar “São João do Carneirinho” (Isabela Moraes) e “Olha pro céu” (Luiz Gonzaga/ José Fernandes), agradeceu efetivamente o convite da produção, revelando a emoção de estar mais uma vez em São Luís – pelas reações da plateia, a recíproca era verdadeira.

Depois de “Te faço um cafuné” (Zezum), cantou “Tá?” (Carlos Rennó/ Pedro Luís/ Mariana Aydar) e ao final, no verso “pra bom entendedor meia palavra bas”, emendou “pra bom entendedor meia palavra bolso”, dando a senha para o público (e a própria artista) gritar/em “fora Bolsonaro!”e cantar/em “olê, olê, olê, olá/ Lula, Lula!”.

Em “Palavras não falam” (Mariana Aydar) o público sentiu os ares do tecnobrega, exalando a impureza do forró de Aydar – e é no atrito e no encontro que as culturas se reinventam e permanecem –, a prenunciar a sequência que incluiu “Morango do Nordeste”, composição dos pernambucanos Walter de Afogados e Fernando Alves, cujo epicentro do sucesso foi o Maranhão de Lairton e Seus Teclados, e “Medo bobo” (Juliano Tchula/ Maraísa/ Vinicius Poeta/ Junior Pepato/ Benicio Neto), hit de Maiara e Maraísa.

A plateia novamente foi ao delírio quando Mariana Aydar cantou “Espumas ao vento” (Accioly Neto) e após “Foguete” (J. Velloso/ Roque Ferreira) elogiou “o povo nordestino, que sabe votar”. Na sequência emendou um medley de forró pé de serra, em que, ao triângulo, se fez acompanhar apenas da zabumba de Felipe Silva e da sanfona de Cosme Vieira: “Forró do bole-bole” (Ton Oliveira/ João Silva/ Raimundo Evangelista), “Bulir com tu” (Antonio Barros/ Cecéu) e “No balanço da canoa” (Toinho de Alagoas). Sua banda se completava com Rafael Moraes (guitarra), Magno Vito (contrabaixo) e Bruno Marques (mpc).

Outra sequência que chamou a atenção em meio ao repertório foi a homenagem a Dominguinhos (1941-2013), com quem Mariana Aydar chegou a conviver – em 2014 dirigiu, com Eduardo Nazarian e Joaquim Castro, o documentário “Dominguinhos”. Cantou “Lamento sertanejo” (Dominguinhos/ Gilberto Gil), “Tenho sede” (Anastácia/ Dominguinhos) e “Gostoso demais” (Dominguinhos/ Nando Cordel).

Crítica ferrenha do bolsonarismo – e do que o guarda-chuva fascista abriga: machismo, misoginia, racismo, homofobia etc. –, ela não limou o bolsominion assumido Vital Farias do repertório. Dele, cantou “Ai que saudade d’ocê”, antes de “Preciso do teu sorriso” (João Silva/ Enok Virgulino), esta ampliando a homenagem a Dominguinhos, com quem gravou a faixa em “Cavaleiro selvagem aqui te sigo”, seu disco de 2011, produzido por Duani e o gênio Letieres Leite (1959-2021).

Do repertório da intercontinental Francisco, El Hombre pinçou “Triste, louca ou má” e mandou o recado: “o que antes passava despercebido, hoje a gente percebe que é machismo, que é agressão e não vai mais deixar passar”. Na porção autoral do repertório de “Veia nordestina” é perceptível o esforço da artista em combater este e diversos outros preconceitos nas letras. Exemplo disso, ela apresentou, após “A ordem é samba” (Jackson do Pandeiro/ Severino Ramos), com “Na boca do povo” (Fernando Procópio/ Tinho Brito), de letra espertíssima. A cantora tornou a dar seu recado: “tá tudo errado nesse país, de cabeça pra baixo”.

Ao cantar o “Forró do ET” (Mariana Aydar/ Isabela Moraes), lembrou a origem da música: ela estava em Caraíbas, na Bahia, em um festival de música em que se apresentavam Elba Ramalho (que duetou com ela na gravação da faixa em “Veia nordestina”) e o bandolinista Hamilton de Holanda; na ocasião, ambas e o marido de Mariana Aydar viram uma luz muito forte no céu, supostamente um disco voador.

Se a paixão de Mariana Aydar pelo forró começa com Luiz Gonzaga, o show de ontem fez valer a letra da não cantada “Sala de reboco” (Luiz Gonzaga/ José Marcolino): “todo tempo quanto houver pra mim é pouco”. O show seguiu com “Tropicana” (Alceu Valença/ Vicente Barreto), “Pagode russo” (Luiz Gonzaga), “Forró do xenhenhém” (Cecéu), “Feira de mangaio” (Sivuca/ Glorinha Gadelha), “Pedras que cantam” (Dominguinhos/ Fausto Nilo) e “Frevo mulher” (Zé Ramalho). A cantora deixou o palco sob o som do coro do público, que novamente entoava um festivo e vibrante “olê, olê,olê, olá/ Lula,Lula!”.

A comunhão de artista e plateia, musical e política, certamente se deve às dificuldades que os fazedores de cultura vêm enfrentando nos últimos quatro anos, no Brasil governado pelo neofascista Jair Bolsonaro, e à esperança de dias melhores, ontem certamente um sinal, com trilha sonora de Mariana Aydar. Que venham muitos outros assim!

A diversidade de Moska

Beleza e medo. Capa. Reprodução

 

Liminha foi um dos artífices da sonoridade do que se convencionou chamar de brock ou rock brazuca: produziu discos importantes daquela cena nos anos 1980, além de trabalhos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, não à toa os primeiros ídolos de Moska.

Não à toa, Moska também foi personagem importante daquela cena roqueira no Brasil: em meados da década de 1980 fez sucesso no rádio e tevê à frente da banda Inimigos do Rei, com seus hits Adelaide (You be illin) (I.Simmons/ R.White/ I.Mizell) e Uma barata chamada Kafka (Luiz Guilherme/ Marcelo Marques/ Paulinho Moska).

Sucessor de Loucura total, que Moska dividiu com o argentino Fito Paez, em 2015, Beleza e medo [Deck, 2018] marca o encontro de Moska e Liminha, em disco que diz muito sobre a dupla, e cujo título e os tons de cinza e vermelho dizem muito sobre o Brasil de hoje – a capa traz Moska mergulhado em local incerto, usando uma espécie de véu cor de sangue. Ele mesmo assina o projeto gráfico do disco.

A sonoridade do disco transita entre o pop do começo da carreira de Moska, a MPB que abraçou – e por quem foi abraçado –, um flerte com o reggae, escancarado em Medo do medo, parceria dele com Zélia Duncan, pontuado pelo contrabaixo do produtor Liminha (que ao longo do disco toca ainda violão 12 cordas, percussão e guitarras), em time que se completa com o próprio Moska (voz, violões e direção artística), Rodrigo Nogueira (guitarras e violão), Rodrigo Tavares (teclados), Adriano Trindade (bateria) e Adal Fonseca (bateria).

A propósito cabe destacar o leque de parceiros de Moska, ao longo das 10 faixas de Beleza e medo: além de Duncan, Carlos Rennó (com quem assina Em você eu vi, Nenhum direito a menos e Megahit) e Zeca Baleiro (Pela milésima vez).

O “que beleza” entoado na abertura de Que beleza, a beleza (Moska) evoca a “imunização racional” de Tim Maia, em faixa que versa sobre o belo, passando por indagações como “a tinta vibra quanto pinta a tela?/ o que Picasso achava de Dali?” e especulações como “ouvi dizer que Darwin passou mal/ sentindo um pouco de irritação/ olhando a cauda de um pavão real/ mudar sua ideia de evolução”.

Megahit é encontro de especialistas no assunto: Moska e Rennó são dois dos maiores hitmakers que o Brasil já conheceu. “Você não sai da minha cabeça/ como canção que toca à beça/ toca em excesso, é um puta sucesso/ um megahit”, começa a letra, que tem tudo para se tornar um.

Outra parceria da dupla, Nenhum direito a menos é incisiva e direta, marca particular da produção mais recente do letrista Rennó. Toca em feridas escancaradas pela invasão de Michel Temer ao Palácio do Planalto, após o golpe perpetrado por seus comparsas que depôs Dilma Rousseff. “Nesse momento de gritante retrocesso/ de um temerário e incompetente mau congresso/ em que poderes ainda mais podres que antes/ põem em liquidação direitos importantes/ eu quero diante desses homens tão obscenos/ poder gritar de coração e peito plenos:/ não quero mais nenhum direito a menos”, mandam direto, com direito a trocadilho cristalino, logo na primeira estrofe.

Minha lágrima salta (Moska), que fecha o disco, é sobre um fim de relacionamento. Tomara que em pouco tempo não se configurem politicamente proféticos os versos “porque um vazio foi se construindo em nós/ ficou distante pra escutar alguma voz/ e fomos desaparecendo sem ninguém desconfiar”.

*

Ouça Beleza e medo:

Um compositor de grandes canções

Retrato: Mayra Lins. Selo Sesc. Divulgação

 

Em 1985, interpretada por Tetê Espíndola no Festival dos Festivais da Rede Globo, Escrito nas estrelas, parceria de Carlos Rennó com Arnaldo Black, tornou-se para sempre um hit radiofônico, graças à vitória naquele certame. Muita gente até hoje assovia a música, que abre com os versos “você pra mim foi o sol/ de uma noite sem fim”, imortalizados pelos agudos da cantora sulmatogrossense, quase sempre sem saber quem são seus autores.

Nascido em São José dos Campos/SP em 29 de janeiro de 1956, Carlos Rennó é compositor, escritor e jornalista, tendo trabalhado na década de 1980 no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo. Em 1996 organizou Todas as letras: Gilberto Gil [Companhia das Letras]. Em 2000 assinou a produção artística do disco Cole Porter, George Gershwin: canções e versões [Geleia Geral], com composições do norte-americanos vertidas ao português e interpretadas por nomes como Caetano Veloso, Cássia Eller, Chico Buarque, Elza Soares, Rita Lee e Tom Zé, entre outros.

Carlos Rennó conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. O telefonema aconteceu em agosto, após a entrevista ser adiada algumas vezes diante da agenda apertada do artista, às voltas com novos projetos. O mote: suas canções de letras quilométricas que têm lançado um olhar poético e político sobre diversos temas da realidade brasileira.

Modestamente, digo sem medo de errar: Carlos Rennó é o autor das maiores canções brasileiras do século 21. E não me refiro apenas à extensão de suas letras. Ao blogue ele falou sobre esta faceta mais recente de sua obra, parcerias, política, além de disco e livro que pretende lançar ainda este ano.

Você ficou bastante conhecido graças ao sucesso de Escrito nas estrelas, parceria com Arnaldo Black, gravada pela Tetê Espíndola em 1985, vencedora do Festival dos Festivais da Rede Globo. Outra faceta que merece destaque no campo musical de tua carreira, que a gente sabe que tem outras vertentes, jornalista, escritor, é o trabalho como versionista, sobretudo do cancioneiro americano. Como é que tem sido nos últimos tempos se dedicar a mergulhos de maior fôlego como letrista?
Tem sido a tônica do meu trabalho. Nos últimos anos é um aspecto a se destacar em meu trabalho, a criação de determinadas canções de temática política, escorada em letras longas, algumas bastante longas, como foram os casos de Reis do agronegócio, com Chico César, e também com Chico César, Demarcação já!, que foi gravada por 23 cantores, defendendo a causa indígena principal, que é a de demarcação de terras, e este ano, Manifestação, uma letra também de mais de 100 versos, a exemplo de Demarcação já!, que foi musicada por três parceiros, o Russo Passapusso, do BaianaSystem, o Rincon Sapiência, que fez a parte do meio, que é de rap, ele fez a divisão ali, e o Xuxa Levy, que fez a melodia do refrão e foi o produtor da música, que teve a gravação de 30 vozes. Mais recentemente, saiu o quê?, há duas semanas, Nenhum direito a menos, com o Paulinho Moska, que é uma canção mais curta.

Mais curta, mas ainda assim longa [risos].
É. Considerando a extensão média das canções é notoriamente mais longa. Isso tem marcado meu trabalho nos últimos anos. Antes de Reis do agronegócio teve Quede água, com Lenine.

Eu estava lembrando, além dessas que você falou, de Todas elas juntas num só ser, que não é essencialmente política, mas que a letra também é longa.
É, já é de 2005.

Um aspecto que eu ia destacar nessas tuas composições, é que elas estão entre as maiores, tanto em qualidade quanto em duração, em termos de tempo, fugindo do padrão radiofônico, e de versos, não é uma coisa de uma introdução longa ou um improviso de um músico pelo meio, quer dizer, o tempo que elas têm, as que têm seis minutos, as que têm 10 minutos, elas são o tempo todo cantadas. Então: letras longas, como você já frisou. Isso as coloca, em minha opinião, entre as maiores canções já escritas no século 21 no Brasil.
Em extensão, você quer dizer.

Em extensão e em qualidade, eu arrisco dizer.
Puxa, eu agradeço seu elogio [risos]. Em termos de extensão de versos não há dúvida, não há dúvida. Reis do agronegócio tem 96 versos, Demarcação já! tem 114, Manifestação, 117.

Como foi chegar nesse padrão? Se bem que não dá para falar em padrão por que cada música tem uma história, mesmo elas transitando nessa seara mais política, mas como é que foi pensar nesse formato mais longo?
Eu tinha uma tendência a fazer letras longas, por influência de alguns compositores importantes na minha formação, compositores letristas, como Cole Porter, como Bob Dylan, e mesmo Caetano, Chico Buarque, que têm algumas letras compridas. E aí aconteceu o seguinte: até um período, até metade da minha carreira desenvolvida até hoje, eu mais escrevia letras sobre música pré-existente do que o contrário. E aí eu passei a fazer, a partir de um determinado momento, mais letras sem música, para serem musicadas. E aí nesse processo, influi mais no meu trabalho de compositor a formação literária. A formação e a informação literária, de poesia. E aí eu tendo a fazer letras mais longas, por causa da influência de alguns poetas e de alguns poetas de música, entre os quais eu citei alguns, que tendem a fazer letras longas, ou poemas longos, e versos metrificados. Então minhas letras tendem a ter, quando feitas antes de uma melodia pré-existente, elas tendem a ter um formato fixo de estrofes e de versos metrificados. É o caso de Nenhum direito a menos, por exemplo, são seis sextilhas, não seguindo rigorosamente a regra da sextilha, por que tem rimas emparelhadas, o final do primeiro [verso rimando] com o final do segundo, o final do terceiro com o final do quarto e o final do quinto com o final do sexto. E aí além das seis sextilhas, um verso que é o refrão, então são cinco estrofes de seis versos mais o refrão. No caso de Manifestação também tem uma fórmula rigorosa que eu estabeleci antes de escrever a letra, ou no começo de quando eu estava escrevendo. Tem três partes: a primeira parte, 10 redondilhas maiores, versos de sete sílabas, que é a parte cantada, a melodia, aí vêm duas estrofes de oito versos, são decassilábicas, às vezes dodecassílabos, que é a parte do rap, e aí o refrão, um refrão curto de três versos mais curtos.

Rennó, quando eu te provoquei a falar, o mote eram essas cinco letras longas, incluindo Todas elas juntas num só ser, que é menos política, e no meio saiu Nenhum direito a menos.
Teve também Ecos do ão, com Lenine, além de outras com Lenine, É fogo, isso é só o começo.

Essas que a gente citou, além das que você citou agora, Todas elas juntas num só ser, Quede água, Reis do agronegócio, Demarcação já!, Manifestação, e agora Nenhum direito a menos, todas elas primeiro letra depois melodia feita pelos parceiros?
Isso.

No caso de Manifestação e, antes, Demarcação já!, a experiência de gravar com um grande número de artistas, como é que é arregimentar esses times? Eu acompanho pelas redes sociais e você acaba se envolvendo muito com a produção das faixas. Como é essa experiência?
Eu realmente acabo sendo produtor artístico. Para alguns isso é muito difícil de fazer, não têm paciência para isso. É um trabalho que realmente requer paciência, não só paciência. Eu faço com certa naturalidade. Trata-se de projetos meus, projetos que saíram da minha cabeça, e eu sei que se eu não fizer esse trabalho de convidar um a um os artistas e ficar em contato, com produtor, ir a shows, eventualmente tenho que fazer isso, ir a shows de artistas para falar com eles pessoalmente, o que não é um problema, por que se são artistas que eu quero para um projeto meu são artistas cujo trabalho eu aprecio, então é um prazer ver o show. Mas às vezes isso é por trabalho mesmo. Então é um trabalho trabalhoso esse da produção artística, mas que eu faço por que se vincula a projetos que eu concebi.

No caso de Manifestação, o que veio antes, a letra dela ou a decisão de ela servir às comemorações de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Anistia Internacional?
Ah, não, veio antes a letra. O que aconteceu foi o seguinte: um ano antes eu tinha feito Demarcação já!, na verdade um ano e meio antes eu tinha composto Demarcação já! e vieram umas pessoas, uns ativistas do Greenpeace aqui em casa, para conhecer uma canção minha com [o guitarrista paraense] Felipe Cordeiro sobre hidrelétricas da Amazônia, canção essa que vai sair agora num cd que eu vou lançar com canções minhas em setembro, pelo Selo Sesc, e eles acabaram conhecendo uma gravação demo que eu tinha de Demarcação já! A canção ia ao encontro de uma campanha que o Greenpeace tinha pela demarcação de terras indígenas. Por isso acabou servindo a essa campanha e o Greenpeace se tornou um grande parceiro na produção da música, do vídeo, que ficou maravilhoso, aqueles artistas incríveis. No caso de Manifestação foi a mesma coisa: eu estou escrevendo Demarcação já!, eu comecei a trabalhar em Manifestação. Inicialmente me dediquei quatro meses exclusivamente à feitura da letra e quando eu tinha a coisa em mente e à medida em que fui fazendo a letra, o que eu tinha em mente, dentro do tema, de assunto, de causa, se confirmou. E aí eu vi que aquilo combinava com a campanha da Anistia Internacional por direitos humanos da mesma forma que a letra de Demarcação já! combinava com a campanha do Greenpeace pela demarcação de terras indígenas. Aí eu já conhecia uma ativista da Anistia, a Jandira Queiroz, que eu conheci na casa de uma amiga comum, a cantora Luciana Oliveira, e apresentei pra ela a ideia e ela achou ótima. Eu já tinha inclusive falado um trechinho pra ela da letra, e aí o pessoal da Anistia curtiu e foi ótimo, deu certo. Mas sempre assim: a canção pré-existiu em relação ao projeto, à parceria, à utilização da música para campanhas dessas duas organizações.

A gente vê nessas obras todas que são o mote principal dessa entrevista uma preocupação profunda e constante com a necessidade de uma tomada de posição. Você toca em temas muito sensíveis da realidade brasileira: demarcação de terras indígenas, o esgotamento dos recursos hídricos, são várias pautas pelas quais você passeia nessas canções de fôlego maior. Como você enxerga o papel do artista diante de tantos desmandos? O Brasil vive um momento terrível de sua história, você tem se posicionado. Você acha que o artista tem essa obrigação ou deveria ter? Como você avalia isso?
Eu não acho que o artista tenha obrigação de expressar em seu trabalho uma preocupação, uma visão, uma sensibilidade em relação a esses aspectos da realidade brasileira. Não tem a obrigação disso. Mas ele pode ter, não é? [risos]. No meu caso, sim, existe essa preocupação em comentar poeticamente na arte que eu pratico, a arte da canção popular, que eu considero importante, o que está acontecendo no plano social, político, no Brasil e no mundo.

Entre as participações de Demarcação já! está a Sônia Guajajara, que hoje é pré-candidata a vice-presidente da república, na chapa encabeçada pelo Guilherme Boulos. Como você está sentindo esse momento de Brasil, desde que Dilma foi tirada do poder, Temer assumiu e Lula foi preso? Vem uma eleição com uma ameaça real de um candidato reacionário, de extrema-direita. A eventual eleição de Bolsonaro seria o Brasil ter uma nova ditadura, agora pela via do voto.
O Brasil vive um grande retrocesso no plano da mentalidade social e no plano político, econômico. É algo para tirar o que chamam de esperanças, a curto e a médio prazo. É uma onda de direita que vem tomando conta não só do Brasil e isso é muito ruim para o que já foi conquistado e vem se perdendo. A melhor coisa nesse quadro eu acho justamente a candidatura da Sônia Guajajara, pelo que significa, pelo que ela simboliza. Uma candidata indígena e só mesmo talvez uma candidata indígena para ter a consciência ao mesmo tempo social e ambiental que necessariamente um político tem que ter hoje no mundo, não só no Brasil. Particularmente no Brasil por que nós temos aqui caminhando juntas uma desigualdade social abissal e uma devastação avassaladora, coisas a que a nossa sociedade assiste dormindo. Particularmente a devastação ambiental. Não há uma consciência aguda disso e lamentavelmente não há uma consciência disso, nem na esquerda, haja vista governos que tivemos, do PT, de Lula e Dilma, que, se por um lado fizeram totalmente o que um governo tinha que fazer desde o começo da história do Brasil independente, ou seja, olharam e fizeram pelas classes desfavorecidas o que nunca ninguém havia feito, por outro lado, do ponto de vista ambiental, eles foram governos que agiram igualzinho aos governos de direita. Por que, justamente, a sensibilidade ambiental prevalente no PT é uma visão de desenvolvimento idêntica à da direita. Entende? Que não leva em conta o fato de que a natureza se meta, a coisa do crescimento, que é algo tipicamente capitalista. O capitalismo quer sempre indefinida e infinitamente crescer e crescer e crescer. Isso não é mais possível. Tem que se pensar em salvar o planeta, a civilização, a maior parte da humanidade, incluindo os excluídos. Por que se forem incluir os excluídos, como sugere a letra de Manifestação, aí só resta uma coisa: acabar a desigualdade. Pra salvar o mundo é preciso acabar com a desigualdade. De um lado a riqueza, o acúmulo e o desperdício de riqueza pelas classes dominantes no Brasil e no mundo são absurdos. E a gente sabe há muito tempo que o que eles acumulam e desperdiçam daria muito bem para não só para matar a fome dos famintos, mas para dar educação para todos. A conjugação de social e ambiental nunca foi tão premente. Na verdade já é há 20 anos, mas a sociedade assiste à devastação dormindo, como eu disse. Incluindo a esquerda, boa parte da esquerda. Então, nesse quadro, a chegada de uma política como a Sônia Guajajara, que para mim não é vice-presidente, ela é copresidente, junto com o Boulos, essa chegada, pra mim, é pra ser celebrada, por que ela representa uma política de fato feminina, que é a única coisa capaz de salvar nosso futuro de uma característica prevalentemente catastrófica. Uma política feminina, ou seja, que leve em conta [enfático:] a mulher que é a mãe natureza. Mãe natureza por que é mulher. A política desenvolvimentista destrutivista da natureza é uma política machista. E é a que prevalece na esquerda [risos]. Lamentavelmente.

Portanto é tua chapa?
É, é a minha chapa. É em quem eu vou votar no primeiro turno.

Eu queria destacar outro aspecto da Sônia Guajajara. Além de tudo que você enumerou, é maranhense. Qual a tua relação com o Maranhão? O que você conhece daqui, gosta?
Eu fui aí apenas uma vez. Não faz muito tempo, gostei muito. Fiquei assim de voltar, conheci as pessoas que me levaram, muito legais, amigas. Gostei de São Luís, fui a Pinheiro, curti também. Eu gostei muito do que vi e senti aí. Maranhão, da minha amiga Sônia Guajajara [risos].

Poesia – Canções de Carlos Rennó. Capa. Reprodução

Para fechar: essa entrevista demorou um pouco a acontecer, você estava sempre com a agenda lotada, me pedia uma semana, outra. Mas finalmente aconteceu. Essa agenda lotada indica que você está aprontando coisa. O que vem aí de Carlos Rennó, em 2018, 2019?
[Risos] Pois é, eu estou muito ocupado mesmo com a realização de alguns projetos importantes. Um reúne um disco pelo Selo Sesc [Poesia – Canções de Carlos Rennó, R$ 20], comemorando 40 anos da primeira gravação de uma canção minha [Pássaro no cerrado, de 1978]. Vai sair pelo Selo Sesc com vários parceiros, são 16 faixas e parcerias que vão de Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola a Lenine, Chico César, Moska, Gilberto Gil, João Bosco, Zé Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Moreno Veloso. É um disco que vai sair junto com um livro, pela Perspectiva, com letras minhas, com boa parte da minha produção de letras. Esse livro, por sua vez, vai trazer embutido um álbum digital, com mais cerca de 16 canções, com vários parceiros. Eu estou às voltas com a finalização disso, desse disco e desse livro, com a preparação do show, hoje mesmo nesse momento, desligando o telefone aqui, eu vou estar às voltas com a necessidade de resolver problemas urgentes sobre esse show, a definição do elenco, vai ter uns oito artistas nesse show, então eu estou às voltas com esses trabalhos todos nesse momento [nota tardia do blogue: os shows aconteceram dias 26 – com Moreno Veloso, Chico César, Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola – e 27 de setembro – com Marcelo Jeneci, José Miguel Wisnik, Moreno Veloso, Tetê Espíndola, Ellen Oléria e Rubi – no Sesc Bom Retiro, em São Paulo].

Ouça Poesia – Canções de Carlos Rennó:

Arte como arma: Chico César peita os reis do agronegócio

Para vocês, que emitem montes de dióxido,
Para vocês, que têm um gênio neurastênico,
Pobre tem mais é que comer com agrotóxico,
Povo tem mais é que comer, se tem transgênico.
É o que acha, é o que disse um certo dia
Miss Motosserrainha do Desmatamento.
Já o que acho é que vocês é que deviam
Diariamente só comer seu “alimento”.
Vocês se elegem e legislam, feito cínicos,
Em causa própria ou de empresa coligada:
O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos,
Que bancam cada deputado da bancada.
Té comunista cai no lobby antiecológico
Do ruralista cujo clã é um grande clube.
Inclui até quem é racista e homofóbico.
Vocês abafam mas tá tudo no YouTube.

Trecho de Reis do agronegócio, parceria de Chico César (música) e Carlos Rennó (letra). Uma porrada de arrepiar!  Vejam e ouçam a obra-prima completa:

Palco, o Chão de Lenine

Sobre Chão, show que Lenine apresentou ontem (6) no Teatro Arthur Azevedo

Para os mais puristas, acostumados à acústica de seu violão percussivo, Chão, o show que Lenine apresentou ontem (6) no Teatro Arthur Azevedo, talvez tenha exagerado na eletrônica. Eram ele, revezando-se entre violões, e os com ele produtores do disco que batiza o espetáculo, a turnê, JR Tostoi e Bruno Giorgi, músicos jogando nas mais de onze entre contrabaixos, guitarras, bandolins, computadores e uma pá de instrumentos, equipamentos e toda uma parafernália eletrônica.

Tudo para recriar ao vivo a atmosfera do disco, permeado de efeitos e interferências sonoras não musicais para alguns, barulhos cotidianos: a batida do coração do neto do compositor (ambos estampam a capa de Chão), passos, uma chaleira, motosserra, um canário, cigarras, máquinas de lavar e escrever. No palco, Lenine se sentiu em casa, em espetáculo que está percorrendo o Brasil apenas em teatros, justo pela necessidade de fazer o público sentir-se dentro do som, no caso, (n)a casa do pernambucano.

Chão, show e disco, mostram que, mesmo Lenine sendo hoje um artista extremamente popular graças a várias de suas músicas terem comparecido a trilhas sonoras de novela e programas de tevê outros, seu público não é de se contentar com o fácil, com o óbvio. Daí ele poder se permitir guinadas como a presenciada pelo público ludovicense, que ontem lotou completamente o Arthur Azevedo.

Lenine cantou o repertório inteiro do disco novo e trouxe ao público diversos sucessos da carreira, como Rua da Passagem (Trânsito, parceria com Arnaldo Antunes), A rede (com Lula Queiroga), Leão do Norte, Candeeiro encantado (com Paulo César Pinheiro), Tubi Tupy (com Carlos Rennó) e Jack Soul Brasileiro, entre outras. A ponte (com Lula Queiroga) pareceu feita sob medida para a ilha de São Luís.

Ponte Pernambuco-Maranhão no camarim

Entoando a clássica Não deixe o samba morrer (Edson/ Aloísio), chamou ao palco Alcione, convidada da noite, com quem trocou elogios e interpretou O silêncio das estrelas (parceria de Lenine com Dudu Falcão) e Relampiano (com Paulinho Moska).

No bis, deixou o público cantar Paciência (parceria com Dudu Falcão) – um de seus maiores êxitos – e repetiu Se não for amor eu cegue (parceria com Lula Queiroga), do disco novo.

Aos quase 30 anos de carreira, Lenine segue em plena forma. O amante de orquídeas, a quem já dedicou o título de um disco – Labiata (2008) –, estreou em 1983, com Baque solto, que dividiu com Lula Queiroga. Somente 10 anos depois viria o hoje raro Olho de peixe (1993), um de seus melhores discos, dividido com o percussionista Marcos Suzano. Mas foi O dia em que faremos contato (1996) que o tornou um compositor realmente popular. O álbum, cujo projeto gráfico remete a obras de ficção científica – a faixa-título é assinada por Lenine e Bráulio Tavares, este um autor de –, trouxe músicas como Hoje eu quero sair só (parceria com Mu Chebabi e Caxa Aragão) e Dois olhos negros (de Lula Queiroga) – ambas ficaram de fora do repertório do show em São Luís.

Vamos amar

Há uns dias caí num programa da TV Brasil que exibiu o clipe abaixo (que eu não conhecia, confesso). Sempre gostei dessa música, Façamos (Vamos amar), versão do genial Carlos Rennó para música de Cole Porter, magistralmente gravada por Elza Soares e Chico Buarque em Do cóccix até o pescoço, excelente disco da diva.

O apresentador do programa falava algo acerca da “safadeza” da letra e comentava como caíram bem as ilustrações de mestre Angeli para o videoclipe. Concordo. Tirem suas próprias conclusões: