Vanessa da Mata estreia na literatura com romance carregado de força poética

A filha das flores. Capa. Reprodução

A mato-grossense Vanessa da Mata despontou no cenário musical brasileiro em 1999, quando Maria Bethânia batizou o disco que lançou aquele ano com o título da parceria daquela com Chico César, A força que nunca seca. A cantora e compositora estrearia em disco em 2002 e com sete discos lançados estreia na literatura, com A filha das flores [Companhia das Letras, 2013, 278 p., leia trecho].

Adalgiza – ou simplesmente Giza, como economizam parentes e amigos – é a personagem-título. Ela mora numa cidade do interior do Brasil, cortada por uma BR que leva a qualquer lugar. Romance de formação, o enredo acompanha a transformação de sua protagonista, de inocente menina, cuja diversão é caçar formigas e a obrigação é ajudar as tias com o trabalho no jardim-floricultura, em mulher consciente de seus desejos e do que precisará enfrentar para realizá-los. A filha das flores é uma história de amor.

Talvez influência de seu ofício na música, a narrativa de Vanessa da Mata é carregada de força poética. Uma pitada de humor é garantida quando Giza descobre a Vila Morena, reduto de bêbados e prostitutas, um bairro desprezado pela cidade, depois da “peste” que dizimou boa parte da população da região. É lá que Giza se faz mulher e adentra uma trama de desencontros, dúvidas, teimosias, traições e reencontros com o passado e o futuro.

O lirismo de Paulo Mendes Campos revisitado

O amor acaba. Capa. Reprodução

O título O amor acaba [Companhia das Letras, 280 p., 2013] pode soar pessimista, mas ao leitor menos avisado, que não conhece o autor, ou dele não lembra, será quase certeza do contrário: amor à primeira leitura, o amor começa.

Um dos “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”, como classificou o amigo Otto Lara Resende – um deles – sobre grupo completado por Hélio Pelegrino e Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos é desde sempre um dos maiores cronistas do Brasil.

Talvez dizer isso hoje soe fácil, a crônica, este brasileiríssimo gênero, caindo em desuso; mas não o era quando o mineiro ocupou redações cariocas, tempos de Antonio Maria, Rubem Braga, de Drummond e dos próprios colegas citados, para ficarmos em poucos – e grandes – exemplos.

As “crônicas líricas e existenciais” – o subtítulo – do volume (leia três textos, incluindo a crônica-título) revisitam um Paulo Mendes Campos entre o amor, o cotidiano, a boemia, o futebol, a poesia. Poesia, aqui, deixemos claro, tanto o escrever em verso responsável pela estreia literária do autor, quanto seu texto em prosa – as crônicas deste volume carregadas de… poesia!

Selecionadas por Flávio Pinheiro – que assina a apresentação do volume. Ivan Marques assina o posfácio –, as crônicas deste O amor acaba foram publicadas originalmente em jornais e revistas entre 1951 e 1990, a maioria em Manchete, mas também no Correio Paulistano, Diário Carioca e Jornal do Brasil, além dos livros Homenzinho na ventania (1962), Os bares morrem numa quarta-feira (1980) e Diário da Tarde (1981) – recentemente relançado pelo Instituto Moreira Sales, no formato pensado pelo autor, assunto para outra resenha. Como também merece outra resenha O mais estranho dos países – Crônicas e perfis (2013), também publicado pela Companhia das Letras.

Com sua leveza e lirismo, Paulo Mendes Campos permanece atual e sua leitura tem muito a nos ensinar, de estudantes do ensino fundamental – onde o conheci em livros de gramática e paradidáticos – a jornalistas, mas não só. A quem se interessa pela vida e pelo que de mais prosaico esta tem. Ou a quem precisa, vez por outra, dar um tempo no corre corre para observar o que realmente importa: o canto de um passarinho, o sorriso de uma criança, um boteco com os amigos, um beijo em quem se ama, uma crônica de Paulo Mendes Campos.

Lembranças da infância com bom humor

Antonio Prata é um de nossos mais charmosos cronistas em atividade, e aqui poderia estar me referindo ao homem, mas falo da obra. Com elegância, idem, ele ocupa uma coluna dominical na Folha de S. Paulo, dono de um estilo fino, inconfundível.

Nu, de botas [Companhia das Letras, 2013, 144p., leia a primeira crônica], seu novo livro, reúne divertidas histórias de sua infância, numa mescla de memória e ficção – não é possível que apenas um moleque tenha sido agraciado com tantas experiências hilariantes como as que povoam as páginas do livro.

As primeiras descobertas, as brincadeiras e os brinquedos, a vizinhança num bairro de classe média em São Paulo nos anos 1980, a admiração pelo palhaço Bozo, o maior astro da televisão de então na inocente opinião dos petizes, até a descoberta das revistas de sacanagem e do amor, não necessariamente nessa ordem. Nada fica de fora do crivo memorialístico e do talento de ficcionista do escritor, o leitor não suspeita onde termina um e começa o outro, tão habilidoso é o autor na condução dos enredos – para quem não sabe, por exemplo, Antonio Prata integrou o elenco de roteiristas da novela Avenida Brasil.

Embora as histórias sejam independentes entre si, a coleção de crônicas pode ser encarada como um romance, já que o leitor não vai conseguir parar de rir e consequentemente desgrudar do livro antes de terminá-lo. Não há um rigor por lê-las na ordem em que aparecem, mas como as próprias experiências infantis, cada leitor se relacionará com os textos de maneira diferente, uns certamente voltando páginas para reler e garantir ainda mais risadas.

O peso das escolhas

[O Imparcial, ontem]

Michel Laub lança segundo volume de trilogia em que analisa o peso individual de grandes catástrofes. A maçã envenenada relaciona o genocídio étnico em Ruanda e o suicídio de Kurt Cobain para contar uma história de amor

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O gaúcho Michel Laub é um dos mais talentosos escritores em atividade no Brasil – e um dos 70 que está representando o país na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. A maçã envenenada [Companhia das Letras, 2013, 119 p., leia um trecho] segue um modo particular de escrever: capítulos curtos e certeiros, espécies de notas numeradas, daquelas que facilitariam ao leitor interromper a leitura, um marca páginas, e continuar logo em sequência – isso se se conseguisse parar.

O título retirado de um verso do Nirvana – de Drain you, do mítico Nevermind, de 1993 – une temas aparentemente sem relação alguma: o suicídio de Kurt Cobain e o martírio de Immaculée Ilibagiza, escritora ruandesa que sobreviveu ao confinamento por 91 dias em um banheiro enquanto sua família era dizimada por um genocídio étnico, ambos em 1994 – a relação entre os dois acontecimentos se dá pelo jornalismo, outro ofício de Laub, e o tom autobiográfico não está aí à toa ou por ego. O título, que caberia a um conto de fadas, deve ser levado a sério.

O que o autor conta é uma dolorosa história de amor, iniciada e terminada nos verdes anos juvenis: uma história de perda. Ou de perdas. A maçã envenenada é o segundo volume de uma trilogia iniciada por Diário da queda [Companhia das Letras, 2011, 151 p.], em que Laub analisa o peso de catástrofes de repercussão global a partir de um olhar particular, mesclando memória, autobiografia e ficção.

O dilema entre ir ou não ao show do Nirvana no Brasil – que o próprio Kurt Cobain classificaria como o pior show da banda em todos os tempos – por um estudante que cumpre o serviço militar obrigatório – uma aberração que sobrevive aos quase 30 anos do fim do regime militar brasileiro – é o ponto de partida para uma trama bem construída, em que cenários e personagens se alternam para contar uma história acima de tudo humana, o início de uma biografia cujos capítulos juvenis morarão na saudade quando um adulto olhar para trás e se perguntar o que poderia ter acontecido se tivesse feito outras escolhas – ir a um show de rock e desertar ou ficar e não ser punido?

(Mais de) 600 tons de poesia

“Eu sou uma pessoa má/ eu menti pra vocês”, parafraseio a adorada Karina Buhr.

Mas menti por uma boa causa: como poderia a Temporada Paulo Leminski ter acabado acá en el blogue? O poeta não é fruta de estação, é autor de música de título parecido, Mudança de estação, sucesso d’A Cor do Som, então tem que pintar por aqui o tempo todo, já que é uma das referências/inspirações deste modesto espaço.

Outro post dedicado a ele, pois. O mote: seu Toda poesia acaba de desbancar do primeiro lugar da lista de mais vendidos da rede da Livraria Cultura o best seller 50 tons de cinza.

Prolífico e popular, o curitibano foi fenômeno editorial na década de 1980, com o lançamento de Caprichos e relaxos (1983), pela Brasiliense, responsável por lançamentos de, entre outros, Ana Cristina César, Jack Kerouac e Yukio Mishima. Não por acaso Luiz Schwarcz, hoje proprietário e editor da Companhia das Letras que nos devolve a obra leminskiana era editor da Brasiliense, à época. Agora o autor volta a ocupar seu merecido lugar de destaque na cena literária, no mercado editorial, pelo que também merecem louvores os trabalhos de Sofia Mariutti e Alice Ruiz S.

Uma grande notícia, que sem dúvida merece comemoração.

Dum Paulo gênio a outro: Stocker homenageia Leminski

Temporada Paulo Leminski 6

TODA POESIA NO METRÓPOLIS

O programa Metrópolis, da TV Cultura, dedicou uns bons minutos anteontem (5) ao lançamento de Toda Poesia (Companhia das Letras), que reúne a obra poética de nosso homenageado.

O destaque é o papo com Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes, que qual Leminski militam em várias frentes/linguagens: poesia, prosa, música, jornalismo etc. Ao final (no segundo vídeo abaixo), o segundo canta Adeus, poema do samurai malandro que ele musicou.

Semana Paulo Leminski

BEM NO FUNDO

no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela – silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas

Paulo Leminski. Distraídos venceremos, p. 44. São Paulo: Brasiliense, 2002

*

A Semana Paulo Leminski, que este blogue “cachorro borracho” (gracias, DP!) inicia hoje poderá ter mais ou menos de sete dias, até eu receber o Toda poesia do samurai malandro, lançamento da Companhia das Letras cujo título diz tudo, já encomendado. Depois disso me abraço com o calhamaço. A programação normal do blogue continua, durante e depois da espera.

Beijo beijos

qual o sentido da palavra beijo?
ato de tocar com os lábios em alguém
ou alguma coisa, fazendo leve sucção; ósculo?
ou aquele que o cauã reymond deu na mariana ximenes na novela?
ou aquele que você deu no daniel que só você sentiu?
que é diferente do que eu dei na dolores que nunca vou esquecer.
já a gabi, sempre que sai de casa, dá em sua mãe um beijo automático
parecido com os dois beijos de cumprimento que eu dou numa garota
se estiver no rio, um em são paulo ou três em minas gerais.
diferente ainda do beijo de despedida apaixonado que você deu no julinho
quando ele foi para a austrália
diferente do derradeiro beijo no leito de morte que o luís deu na laís, sua avó
ou do beijo da traição de judas ou do beijo que a princesa deu no sapo.

diante de tantos sentidos diferentes da palavra beijo,
a melhor forma de saber o que significa é ir direto ao assunto:
língua pra que te quero!

*

Um poema da delícia, um beijo na poesia, que é Murundum [Cia. das Letras, 2012, 71 p.], livro novo que o Chacal fez “pensando nos adolescentes, turma da qual nunca me distanciei muito. (…) um livro de combate, de formação de leitores, leve, ligeiro, para você ler e postar”.

A volta de Luiz Gê

A Paulista é a avenida mais importante da maior cidade do Brasil. Av. Paulista [Companhia das Letras/ Quadrinhos na Cia., 2012, 88 p.], de Luiz Gê, é um profundo retrato do corredor, espécie de miniatura do mundo.

Surgiu de encomenda, em 1991, quando a história foi publicada na extinta Revista Goodyear, distribuída apenas para clientes, que naquele dezembro levaram-na ao recorde de 30 mil pedidos.

Fruto de extensa pesquisa de Gê, os quadrinhos contam a história da via que lhe dá título, desde sua fundação até os dias atuais – 20 anos depois, ganhou atualizações nos textos e mais páginas com desenhos.

Os quadros se mesclam a textos que funcionam como um guia, conduzindo o leitor a um passeio não só pela paisagem, mas pela história da avenida, fugindo do óbvio e do rigor acadêmico: Av. Paulista é também uma análise de sua “evolução”, sem poupar críticas ao conservadorismo de sua fauna e à especulação imobiliária, pragas contemporâneas.

Por isso falamos em miniatura do mundo: todos já ouvimos falar e de algum modo fomos atingidos por expressões como capitalismo, globalização, neoliberalismo, crise e FMI, temas que também passeiam pelo traço fino e crítico de Luiz Gê, nome menos conhecido do que deveria.

Talvez por que ele, arquiteto, doutor em Comunicações e Artes, professor universitário, tenha feito um monte de outras coisas, além de quadrinhos, a que Av. Paulista marca sua volta triunfal: foi um dos editores da saudosa Circo – um dos maiores sucessos dos quadrinhos nacionais, chegando a vender 40 mil exemplares mensais em bancas –, desenhou as HQs que inspiraram Clara Crocodilo (1980) e Tubarões Voadores (1984) – os discos mais conhecidos de Arrigo Barnabé – e foi roteirista do infantil global TV Colosso.

À pesquisa para a realização de Av. Paulista se mistura a ficção, em que prédios ganham e perdem vidas, onde não se sabe o que é glória e decadência, passado e futuro. Mais ou menos como diria o poeta: “a arte existe por que a vida não basta”.

Cadernos de passado e futuro

Michel Laub mistura autobiografia, ficção e memórias em sua novela Diário da queda

POR ZEMA RIBEIRO

A palavra Auschwitz aparece muito em Diário da queda [Companhia das Letras, 2011, 151 p.], quinto livro de Michel Laub. O autor esbanja talento para tratar de tema tão repisado na literatura e no cinema e ainda assim soar original.

Diário da queda, como entrega o título, é construído em forma de diário, não que saibamos o que o autor/protagonista estava fazendo tal dia e tal hora, mas pela estrutura, em notas breves, conduzindo uma deliciosa leitura.

Trata da descoberta de cadernos do avô e do pai e poderia ser a terceira geração de escritores de diário, tomadores de notas ou coisa que o valha, Laub construindo seu próprio diário a partir das experiências com as leituras dos anteriores, numa ficção confessional.

“As primeiras anotações nos cadernos do meu avô são sobre o dia em que ele desembarcou no Brasil. Já li dezenas desses relatos de imigrantes, e a estranheza de quem chega costuma ser o calor, a umidade, o uniforme dos agentes do governo, o exército de pequenos golpistas que se reúne no porto, a cor da pele de alguém dormindo sobre uma pilha de serragem, mas no caso do meu avô a frase inicial é sobre um copo de leite.” (p. 24).

O avô começou a tomar notas como uma enciclopédia sobre aquilo com que ia se deparando, um copo de leite, o porto, a pousada Sesefredo onde inicialmente se hospedou ao chegar ao país. O pai o faz como um exercício quando é acometido do mal de Alzheimer, como os habitantes da Macondo de Gabriel García Marquez, que anotavam nomes e funções de coisas para não esquecê-las.

Não há limites entre a autobiografia e a invenção na prosa de Laub: não sabemos onde começa e termina uma e outra. No fim das contas ele escreve uma bela carta/declaração de amor a uma quarta geração que vai chegar. Livro e autor merecem cada prêmio recebido até aqui.

[Essa nanoresenha (copyright by Joca Reiners Terron) saiu no Vias de Fato de junho. Leia o primeiro capítulo do livro aqui]

A história de joelhos

RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO – Biógrafos, editores, juristas e demais interessados na liberdade de expressão reuniram-se ontem na Biblioteca Nacional para apoiar o projeto de lei do deputado federal Newton Lima Neto (PT-SP) propondo-se a corrigir os artigos 20 e 21 do Código Civil, que agridem justamente essa liberdade garantida na Constituição. Pelos ditos artigos, que pretendiam proteger as pessoas simples de exposições indevidas, as figuras públicas, inclusive as mortas, ganharam poder de autorizar ou não os livros que contam suas histórias.

Conheço bem essas “autorizações”. Uma semana antes da publicação de “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha”, em 1995, o advogado das herdeiras do jogador -sem ter lido o livro- telefonou para ameaçar a Companhia das Letras com um processo por danos morais e falta de autorização. “Mas”, acrescentou, “tem acordo…”. Que consistia no pagamento de US$ 1 milhão, na época, R$ 1 milhão.

Significa que, com uma “autorização” desse valor, podiam-se praticar quantos danos morais se quisessem e, no caso, o biografado fosse lamber sabão. Para não abrir um precedente fatal, a editora preferiu o processo, o qual resultou na proibição do livro por um ano, arrastou-se por outros 11 e foi danoso para todos, inclusive para as pobres filhas de Garrincha. Pela ferocidade do processo, que assustou muita gente, o craque deixou de inspirar muitos subprodutos que poderiam beneficiá-las.

Uma biografia se compõe do protagonista, de uns 20 personagens secundários e de 200 ou 300 terciários. Com a interpretação que a Justiça dá hoje aos artigos 20 e 21, qualquer um desses, por mais insignificante, pode alegar que “não autorizou” sua participação ou a de seu pai ou avô no livro, e partir para a extorsão.

A cada “autorização” pedida por um biógrafo, é a história do Brasil que rasteja e se humilha.

[Folha de S. Paulo, Opinião, hoje]

Musa Rara

Há tempos o poeta Edson Cruz me falou dum projeto que estava desenvolvendo e convidou-me a colaborar, do Maranhão. Topei. Há  tempos o Musa Rara foi ao ar e eu ali, sem saber o que escrever no meio de tanta gente e tanta coisa boa. Pra não mais esperar, joguei, na estreia, o mesmo texto que havia escrito pro Vias de Fato de fevereiro, que, motivos de força maior, só foi às bancas agora no comecinho de março.

Estreio pois no Musa Rara com um texto que escrevi sobre Ho-ba-la-lá, livro em que me viciei após a recomendação certeira do professoramigo Flávio Reis. Impossível escapar ileso, imune, impune à leitura. Eu, que sempre tive “problemas” com a Bossa Nova, passei ao menos a ouvir seu papa, João Gilberto, com outros ouvidos. Continue Lendo “Musa Rara”

Malditos, mas sem perder a ternura

DIOGO GUEDES

Comparada com o passado, a época atual lida melhor com o choque e as quebras de convenção. Tanto que a ideia de algo maldito, renegado, uma constante na história da literatura, hoje parece bem mais rara – mesmo as obras que rompem com a moral, com as convenções estéticas e com os paradigmas do tempo atual são facilmente aceitas, concorrem a prêmios disputadíssimos e recebem críticas elogiosas até mesmo de acadêmicos respeitados. Apesar disso, a Companhia das Letras decidiu agora lançar uma coleção, a Má Companhia, apenas com livros polêmicos, politicamente incorretos e “malditos”. Algo estranho, quando o controverso parece cada vez mais aceito.

Não que o “maldito” não exista mais. Na verdade, escolher o que merece o adjetivo parece ser algo como tachar algum autor de “poeta marginal”. Nos dois casos, é claro que existem traços que levam leitores, crítica ou mercado a fazerem a relação entre os vagos conceitos e a obra. O problema é que o termo acaba funcionando como uma prisão tautológica, uma definição e um limite que o escritor vai passar a carreira tentando superar. Uns parecem conformados e até satisfeitos com a alcunha, mas, mesmo para esses, ela normalmente não passa mais do que um recurso preguiçoso para estabelecer a imagem contracultural de sua produção.

Joca Reiners Terron, Reinaldo Moraes e Marçal Aquino: seus livros são boa companhia

Até agora, o selo da editora paulista possui três títulos lançados, além da confirmação de lançamentos futuros. A coleção começou com Tanto faz e Abacaxi, obras de Reinaldo Moraes da década de 1980 reunidas em um único volume, e O invasor, de Marçal Aquino, que completou dez anos de sua primeira publicação. Os dois livros, como propõe a coleção, saíram em formato pocket, com um belo projeto gráfico do Estúdio Retina 78.

Em julho, mais um título: Sonetos Luxuriosos, de Pietro Aretino, com tradução e apresentação do falecido poeta José Paulo Paes. A obra, escrita originalmente no século 19, mostra bem o movimento da coleção de referir-se a livros que se marcam como polêmicos e malditos em relação a um contexto específico, mas que conseguem carregar essa fama até os dias atuais.

Isso parece evidente mesmo nos lançamentos mais recentes, como O invasor e Não há nada lá (2001), de Joca Reiners Terron, que deve sair neste último semestre do ano. Eles se reportam sempre ao seu momento histórico e à reação da crítica e do público daquele instante, ao que se convencionava como status quo literário da época.

Segundo Joca Reiners, a ideia da coleção da Companhia das Letras veio de um jantar com o fundador da editora, Luiz Schwarcz, e Marçal Aquino. “Eu vinha fazendo a piada de que criaria uma nova editora chamada de Má Companhia das Letras desde uma conversa que tive com o escritor Paulo Sandrini no Encontros de Interrogação, evento no Itaú Cultural em 2004”, lembra Joca Reiners. A brincadeira incluía imaginar versões “maléficas” dos elegantes logos da casa, com aviões explodindo e carros colidindo. “No jantar, depois de uns goles, arrisquei contar a piada ao Luiz. Para minha surpresa, ele a levou a sério”.

Maldições Literárias – Em entrevista ao Pernambuco de fevereiro, Reinaldo Moraes comentou parte do processo de releitura e re-edição de suas duas obras. Ambas contam com o mesmo personagem, o jornalista Ricardo de Melo, narrando suas vivências com mulheres, porres e escatologias – como o próprio autor descreve, “um Ulisses avacalhado que vive atrás de umas nereidas”. “Só dei umas garibadas pontuais no texto, sem mexer na estrutura das frases nem nos coloquialismos ‘de épóca’. Mexi onde achei legal mexer pro texto fluir e ‘dizer’ melhor. Como dizia o Murilo Mendes, outro grande mexedor de obras relançadas, posso mexer à vontade, pois não sou meu sobrevivente, sou meu contemporâneo”, revelou o escritor na ocasião.

Já o primeiro lançamento de O invasor, de Marçal Aquino, se deu simultaneamente à finalização do filme do seu parceiro Beto Brant. Com a edição anterior esgotada, o livro volta às prateleiras acompanhado do roteiro da película e de fotos da filmagem. A obra é descrita pelo escritor como um “policial puro-sangue”, tratando, com um ponto de vista pessoal, dos planos de dois engenheiros paulistas para matar seu sócio.

Não há nada lá, de Joca Reiners, traz em seu próprio enredo as marcas do adjetivo “maldito”. William Burroughs, Rimbaud, Raymond Roussel, Aleister Crowley e Torquato Neto são alguns dos interlocutores da obra, marcada por uma prosa ousada e experimental . “O livro trata de preocupações muito em pauta na virada do século, como a do fim do mundo, a da extinção do livro etc. Foi escrito sob essas condições”, descreve. Segundo ele, a obra ainda faz a defesa de uma literatura imaginativa, em detrimentos dos valores jornalísticos e naturalistas – para a nova versão, recebeu uma apresentação bastante elogiosa assinada pelo escritor catalão Enrique Vila-Matas.

Como é de se imaginar, republicar o texto finalizado há dez anos trouxe alguns incômodos. “É muito difícil. Sinto grande dificuldade em reler coisas antigas. É como se ver numa foto na qual você não se reconhece mais”, revela Joca Reiners. O livro, segundo ele, traz as marcas de uma época em que ele levava sua “tendência à pompa” a sério, o que levou ao corte de alguns excessos e à revisão de frases, buscando uma maior clareza.

Sobre o selo que ajudou involuntariamente a criar, o escritor diz não conseguir enxergar o que há de exatamente em comum entre sua obra e os demais títulos da coleção. Para ele, na verdade, há pouco em comum em quaisquer dos livros seus. “No Não há nada lá eu ainda tinha cabelos, e talvez por isso o texto fosse mais barroco e as ideias mais complicadas. Hoje sou completamente careca e busco ser mais direto”, reflete bem-humorado.

Incluído no rótulo, Joca Reiners se reporta às origens do adjetivo para aceitar a alcunha. “Existe aquela literatura designada ‘maldita’ por Paul Verlaine, que organizou uma antologia de poetas do século 19 com esse título. Na época, esses poetas (Rimbaud e Corbiére entre eles) não tinham recebido a atenção que mereciam”, conta. “Nos dias de hoje, creio que quase toda a ficção literária é maldita, pois merece pouca atenção do público leitor, cada vez mais adepto da não-ficção. A única maldição a ser evitada é aquela que o escritor cria para si próprio”.

Assim, para ele, além da temática, a restrita primeira edição de Não há nada lá, com apenas 500 exemplares, que saiu pela Ciência do Acidente, é o seu próprio atestado de marginalidade e maldição. Já Reinaldo Moraes, um dos autores no Brasil que mais recebe a adjetivação de “maldito”, conta que se vê, por meio de resenhas de jornalistas, acadêmicos e blogueiros, “perigosamente próximo ao mainstream literário, não mais estacionado na margem”. Mas se diz ciente do perigo: “Sei que isso é momentâneo e pode mudar a qualquer momento”.

Como amigo de André Conti, responsável pelo selo, Joca Reiners promete, depois de ter um papel importante no surgimento da coleção, continuar participando dela, ao menos como opinante. “Fico enchendo o saco do André Conti, o editor, com sugestões”, confessa. A atitude é completamente compreensível. Afinal, no fundo, os leitores parecem saber que a literatura que marca verdadeiramente a vida pessoal é aquela suja, sem amarras, tanto comprada como lida de forma escondida e obscura. Talvez só através dos malditos é possível ser contaminado pela maldição da literatura.

Estou re-devorando os dois primeiros volumes lançados pelo Má Companhia. Pesquei o texto acima, do Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, nº. 66, páginas 8 e 9 (leia e/ou baixe a íntegra), do tuiter do Joca Reiners Terron, onde soube também que está sendo lançado em Curitiba/PR o jornal literário Cândido, que eu adoraria receber.