Rede Mandioca: agricultura familiar ganha força e cresce Maranhão adentro

Representantes de grupos e comunidades ao fim do encontro em São Luís, no último dia 28 de maio. Fotos: Acervo Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Divulgação

Encontro realizado no último dia 28 de maio em São Luís reuniu representantes de grupos e comunidades filiados, avaliou o período de pandemia e focou na expansão da articulação

Representantes de 26 comunidades e grupos produtivos filiados à Rede Mandioca reuniram-se no último dia 28 de maio na Casa das Irmãs da Misericórdia (Rua Boa Esperança, 142, Cantinho do Céu), em São Luís. Os grupos são beneficiários do Fundo de Crédito Rotativo Solidário da Rede Mandioca, articulação assessorada pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão, com apoio da Fundação Interamericana (IAF, na sigla em inglês). A atividade contou também com a presença do professor Marcelo Carneiro, do departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e de estudantes de uma pesquisa interinstitucional coordenada por ele em parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) junto a agricultores familiares.

Na análise de conjuntura que realizou durante o encontro, Carneiro destacou uma série de retrocessos a partir da deposição de Dilma Rousseff em 2016 e comparou o quadro atual com a luta camponesa pela terra na década de 1980, um dos períodos mais sangrentos no campo brasileiro, embora o Maranhão seja o estado com o maior número de assentamentos da reforma agrária; por outro lado, o Brasil voltou ao mapa da fome.

“Existe uma grande lacuna de estudos sobre a cultura da mandioca e uma visão muito preconceituosa, como se a agricultura familiar maranhense plantasse mandioca como há 40 anos. A pesquisa nasce dessa preocupação, de a gente ter uma visão mais atualizada sobre as formas como os agricultores têm trabalhado, não só a produção, mas o beneficiamento e a comercialização. O segundo aspecto é que o Maranhão é um estado muito diverso e a mandioca é a atividade por excelência da agricultura camponesa. Mas ela se articula de forma diferente no sul do Maranhão, na Baixada, nos Lençóis, nos Cocais, e como a Rede Mandioca tem essa capilaridade, a gente entrou em contato com a coordenação da Rede e da Cáritas, e apresentamos para um edital da Fapema [a Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão]. É uma pesquisa interinstitucional, UEMA, UFMA São Luís e UFMA Bacabal. A gente tinha a previsão de iniciar antes da pandemia. Quando a pandemia aconteceu, como essa pesquisa implica o deslocamento para cerca de 25 municípios em todo o estado, com entrevistas, aplicação de questionários, fotografias, ela não podia ser feita no contexto da pandemia. A Fapema foi sensível e aprovou a prorrogação, então estamos retomando agora os contatos para desenvolver essa pesquisa. A gente fez uma primeira versão do questionário com a coordenação da Rede Mandioca. A gente perguntou: o que vocês querem saber sobre os produtores? Porque tem uma dimensão da pesquisa do ponto de vista mais sociológico, mas a coordenação colocou uma série de questões importantes do ponto de vista de conhecer os diferentes grupos, conhecer os obstáculos, os desafios que eles enfrentam; com a pandemia, nós vamos voltar para rediscutir esse questionário; talvez surja aí um capítulo referente a impactos da covid”, explicou Marcelo Carneiro.

“Agora mesmo está se discutindo a questão dos fundos rotativos, a coordenação da Rede vai ter um conjunto de informações sobre os grupos que ela apoia, que inclusive pode ajudar na negociação no desenvolvimento de políticas públicas. Por exemplo: o Governo do Estado abriu mais de 100 restaurantes populares, mas esses restaurantes populares adquirem produtos da agricultura familiar? Um dado do censo agropecuário de 2017 que chamou muito a atenção é o seguinte: a agricultura familiar aumentou muito o gasto dela em relação, por exemplo, a energia elétrica. Se a gente notar que isso é um custo grande para os produtores, pode se pensar em algum tipo de política pública que ajude nesse custo. Nós queremos saber também sobre variedades de mandioca, irrigação, que também implica num custo com eletricidade. Enfim, tem uma série de informações, que uma vez a gente de posse delas, pode municiar a Rede para que ela possa negociar políticas públicas, discutir com diferentes agentes do Estado para potencializar essa produção”, continuou.

O clima era de retomada: mesmo que os grupos, em geral, não tenham interrompido a produção, momentos como o daquele sábado haviam acontecido muito raramente ao longo dos últimos dois anos, quando a pandemia de covid-19 impediu a realização de reuniões presenciais. Foram avaliados temas como as sequelas sociais da pandemia, para além das mais de 660 mil vidas perdidas para o coronavírus até aqui, a carestia, o avanço do latifúndio, o recrudescimento da pistolagem, o aumento dos índices de consumo de entorpecentes, a grilagem de terras, o envenenamento das águas e do solo, a perda de direitos, o avanço do armamento e dos índices de trabalho escravo.

“Esses dois anos de pandemia não foram fáceis. Foram dois anos de muitas dificuldades, até por que as pessoas não tinham como se envolver um com o outro. Para nós que trabalhamos na agricultura ficou muito difícil. A gente não podia se juntar para trabalhar, para desenvolver nossas atividades. Mas nós tivemos a graça de ter o projeto da IAF, com o projeto a gente foi se sustentando. A gente nem esperava que a pandemia fosse acontecer, mas a gente tinha alguma coisa em nossas roças, em nossos quintais. Mesmo assim a dificuldade aumentou: quem estava no interior tinha alguma coisa para comer, mas quem estava na periferia da cidade passou muita necessidade, muita gente com fome mesmo, sem roupa para vestir, sem casa para morar”, comentou a lavradora Maria Pereira de Sousa Filha Coelho, 53 anos, de Vargem Grande. Maria integra a Coopervag [a Cooperativa Agroextrativista dos Pequenos Produtores Rurais de Vargem Grande], que acessou um recurso de 10 mil reais para a compra de congeladores para o armazenamento de polpas de frutas e já reembolsou o valor, que, uma vez devolvido ao fundo, beneficia outros grupos e comunidades.

“A Rede Mandioca foi uma oportunidade única. Ela chegou para ampliar nossa comunidade. Nessa fase de pandemia a gente não parou a produção de farinha, através da casa de farinha que foi implantada na comunidade. A gente vende no povoado, no município e também já vendemos para o Pará, Goiás e Tocantins, a partir de nosso ingresso na Rede Mandioca. Isso já é uma visibilidade graças à ação da Rede. Antes a gente fazia cinco sacos [de 50 quilos] por dia, quando era manual, e hoje, com a casa de farinha, a gente passou a fazer 25 sacos por dia”, comenta o agricultor familiar Vando da Silva da Costa, de 28 anos, do Assentamento Alegre, no município de Riachão, sobre o crescimento da produção a partir do apoio e assessoria da Rede Mandioca.

“A Rede Mandioca, nesse período de pandemia, foi uma estratégia fundamental para que os grupos vinculados e apoiados por ela, através dessas iniciativas, atravessassem a pandemia em uma circunstância de maior segurança alimentar, com oportunidade de uma renda extra pela comercialização do excedente. Esse é o papel que a Rede Mandioca tem cumprido na vida desses agricultores, com essas estratégias que estamos criando de forma coletiva, com o fundo de crédito solidário, a pesquisa sobre o perfil socioeconômico, a distribuição gratuita de embalagens para melhorar a apresentação da produção para comercialização do excedente. A Rede Mandioca continua se ampliando, chegando a novas regiões, espalhando suas experiências, o que tem sido fundamental nesse momento quase pós-pandêmico, numa perspectiva de segurança alimentar, trabalho e renda, mas também nesse momento que o Maranhão atravessa tantos conflitos agrários. É fundamental definir e ressaltar a relevância desse papel da agricultura familiar, da permanência desses homens e dessas mulheres no campo, diante do avanço do agronegócio no Maranhão, dos conflitos agrários, assassinatos voltando com força, então a Rede Mandioca se apresenta como essa alternativa”, enumera Lena Machado, assessora da Cáritas Brasileira Regional Maranhão.

Os 26 grupos apoiados pelo Fundo de Crédito Rotativo Solidário acessam um crédito de entre três e 10 mil reais, e devolvem esse recurso ao fundo corrigido com um acréscimo de 4,5%, com carência de seis meses a um ano e meio, dependendo da atividade produtiva – um comitê gestor eleito entre os próprios membros dos grupos define as regras quanto a valores, prazos e carências. Tais regras, inclusive, foram atualizadas neste último encontro, em uma verdadeira lição de democracia, inclusão, participação e solidariedade.

Todos os grupos que acessam o fundo são filiados à Rede Mandioca, sendo signatários de sua carta de princípios, o que envolve produção de base agroecológica e fundada na economia popular solidária, além de formação, intercâmbios, feiras, venda direta, parcerias e projetos.

Atualmente a Rede Mandioca participou de um projeto nacional composto por 17 redes, com 28 grupos inscritos nesta iniciativa, que incluiu formações, intercâmbios, estudos de viabilidade econômica, logística e comunicação. Através do projeto Redes de Comercialização Solidária, executado pela Cáritas Nacional, foram disponibilizadas embalagens plásticas que favorecerão uma melhor apresentação na comercialização de produtos da agricultura familiar, como farinha de mandioca, mesocarpo de babaçu e polpas de frutas, entre outros.

Área de fruticultura irrigada no Assentamento Nova Descoberta, em São Raimundo das Mangabeiras
Casa de beneficiamento de mandioca no Povoado Mirindiba, em Codó
Comunidade do Assentamento Alegre, em Riachão, no mutirão do beneficiamento da mandioca na casa de farinha
Plantio consorciado na comunidade Riacho do Mel, em Vargem Grande
Representantes de grupos e comunidades transportando as embalagens plásticas recebidas

“Apesar dos coronas contrários”, EP de Joãozinho Ribeiro, será lançado sábado (12)

[release]

EP carnavalesco reúne cinco composições inéditas e traz participações especiais de Zeca Baleiro, Ronald Pinheiro, Flávia Bittencourt, Marconi Rezende e Allysson Ribeiro

Apesar dos coronas contrários. Capa. Reprodução

POR PAULA BRITO E ZEMA RIBEIRO

Em tempos difíceis para a população brasileira, tanto pelo momento político que o país atravessa, quanto pela pandemia que sua população enfrenta, nada melhor do que espalhar amor e alegria para as pessoas através da música.

Pensando nisso, o poeta e compositor maranhense Joãozinho Ribeiro lança, no próximo sábado (12) a partir da meia noite, em todas as plataformas digitais, o seu mais novo EP, intitulado “Apesar dos coronas contrários”. O EP de carnaval traz cinco canções inéditas, sendo três frevos e dois sambas encharcados de maranhensidade.

“Coronas contrários”, um frevo criado em parceria com o cantor e compositor Zeca Baleiro, que também a interpreta, e é o carro-chefe da coletânea. O EP traz ainda “Memórias de Moraes”, composta em 2020, em parceria com o cantor, compositor e instrumentista Ronald Pinheiro, uma merecida homenagem ao falecido artista baiano Moraes Moreira, interpretada pelos dois autores. Nesta faixa, Ronald Pinheiro empresta o solo da sua criativa guitarra baiana ao saboroso gênero. “Azar do arlequim”, um frevo-canção, de autoria de Joãozinho Ribeiro, interpretado pelas belas vozes dos cantores e compositores Flávia Bittencourt e Marconi Rezende, é outra faixa do trabalho. Os sambas autorais “Valeu, Cacá!” e “Vou engomar” completam a lista sob a forma de pot-pourri, cantados, respectivamente, por Joãozinho Ribeiro e pelo cantor e compositor Allysson Ribeiro.

O maestro Rui Mário assina a direção musical e arranjos, e também participa com a sua sanfona e teclados em algumas faixas, assistido de perto pelo talentoso e respeitado músico Arlindo Pipiu (baixo, violões de seis e sete cordas e guitarra). O time de músicos se completa com Luiz Cláudio (percussão), Danilo Santos (saxofone e flauta), Hugo Carafunim (trompete e flugelhorn) e Jovan Lopes (trombone). Daniel Miranda (trombone) participa de “Azar do arlequim”. Robertinho Chinês entra em cena com o seu inconfundível cavaquinho no pot-pourri de sambas, adicionando um molho todo especial à batucada tipicamente maranhense.

Os vocais ficam por conta das cantoras Kátia Espíndola e Mariana Rosa, que participam de todas as faixas. Jaílton Sodré comanda, com apurada técnica, a mixagem e a masterização do EP, gravado no Estúdio Zabumba Records. A produção executiva e coordenação geral do projeto ficam a cargo do próprio Joãozinho Ribeiro.

Um dos parceiros e incentivadores de Joãozinho Ribeiro nesta empreitada é o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro. Ele resume esse trabalho como um ato de resistência: “Joãozinho Ribeiro já era “resistência” antes mesmo do termo virar lugar-comum em tempos de redes sociais e de ameaças neofacistas. Sempre resistiu. À imobilidade, à falta de ação política, à omissão na luta pela afirmação da cultura e até ao próprio cansaço – sim, porque a luta cansa até os guerreiros mais fervorosos. Neste momento político pavoroso, Joãozinho quer resistir cantando, provocando e espalhando ventos humanistas por este velho mundo. Por isso (e para isso), gestou este EP de carnaval, “Apesar dos coronas contrários”, com três frevos e um medley de dois sambas, da safra recente do compositor, ora sozinho, ora em parceria. O EP reúne vários parceiros – músicos, intérpretes e compositores – e é uma conclamação amorosa e divertida à dança e à festa. Por que a vida é essencial, especialmente em tempos de trevas”, afirma.

Serviço

O quê: Lançamento do EP carnavalesco “Apesar dos coronas contrários”
Quem: Joãozinho Ribeiro, com participações especiais de Zeca Baleiro, Ronald Pinheiro, Flávia Bittencourt, Marconi Rezende e Allysson Ribeiro
Onde: em todas as plataformas digitais
Quando: sábado (12), à meia-noite
Quanto: grátis

Pena capital ao genocida

Em memória dos mais de 255 mil brasileiros vítimas da covid-19 e da irresponsabilidade do presidente genocida de extrema-direita Jair Bolsonaro

“O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?”
Bertolt Brecht

“Se números frios não tocam a gente/ espero que nomes consigam tocar”
Bráulio Bessa/ Chico César

Uma estaca cravada no prepúcio
ainda é pouco pra este genocida.
Se a facada não lhe tirou a vida
é preciso tirar-lhe já o poder.
Quantos ainda precisarão morrer
no Brasil, hoje sinônimo de desgraça?
Bolsonaro, vá embora e leve a sua raça!
Meu povo não aguenta mais sofrer.

Uma corda em volta de seu pescoço,
um patíbulo, um grito desumano:
será que ao morrer faria o gesto insano
da arminha e elogio a torturador?
Quero que Bolsonaro saiba o que é dor
pra que enfim, acabe de vez a nossa.
Que o Brasil volte a ser o país da bossa,
do samba, do carnaval e não mais do horror.

Um tiro no meio de sua testa
distanciando seus olhos de facínora
sem empatia, cujo significado ele ignora.
Haverá quem chore por este desgraçado?
Milhares de corações dilacerados
pelas mortes de pais, mães, filhos e avós.
Precisamos, e logo, desatar os nós
da cilada em que nos meteu seu gado.

Cínicos, uns dizem “eu não sabia”.
Não foi falta de aviso, digo e repito.
Todos sabíamos no que daria falso mito
em lugar que deve ser ocupado por gente,
não por falso herói nada eloquente.
Faltará borracha pra apagar tamanho erro
e aqui e acolá ainda se ouve o berro
do gado que aplaude quem fode a gente.

Impeachment é nada e cadeia é pouco:
Bolsonaro merece passagem só de ida
para sofrer por toda eterna vida
em companhia de ídolos como Hitler e Ustra.
Nem no inferno o diabo quer esses filhos da puta
que tanto mal fizeram à humanidade.
Nem na lata de lixo da história lhes cabe.
Contra suas fake news, eis a verdade absoluta.

Reencontro

Retrato: Guta Amabile
Retrato: Guta Amabile

És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho, nos ensinou um antigo compositor baiano, sobre o tempo.

Ontem ele veio me visitar, após meses nos falando apenas por videochamadas, imposição do isolamento social, por sua vez imposto pela pandemia da covid-19. Novos tempos, novos hábitos.

Distância não é sinônimo de ausência.

Mas as videochamadas não me permitiam perceber o quanto meu filho cresceu nesse tempo. Como está comprido, admirou-se a avó, que, no passeio ligeiro com ele, levei para visitar, ela também há tempos sem vê-lo pessoalmente.

Ele riu o trajeto inteiro, para minha surpresa – achei que fosse estranhar mais, diante da quebra da rotina. Em casa, da janela lateral do quarto de dormir, vimos a ponte e suas luzes com seu trânsito como se (já) estivéssemos em dias normais, vimos a árvore e as plantinhas; infelizmente não vimos os passarinhos, pois já era noite.

Brincamos um pouco com um Cebolinha “vintage”, um boneco que eu tenho desde que tinha mais ou menos a idade do menino, um boneco que você abaixa a aba do boné e ele muda as feições – são quatro, do alegre ao zangado. Como o menino, que da gargalhada mais gostosa, muda para o aborrecimento, a reivindicar os vídeos com as músicas que tanto aprecia.

Deu tempo de verouvir Vanguart, Beatles, Partimpim e os Muppets relendo o Queen – juro que a rima não foi intencional (mas as coisas se deram exatamente nessa ordem).

Saindo de casa apenas por extrema necessidade, vejo muita gente a descumprir as normas sanitárias de uso de máscaras ou distanciamento social – certamente gente que não perdeu nenhum parente ou não sentiu saudade de um filho.

Se liga nas lives!

Como eu já disse aqui, a onda agora é live!

Hoje (30), no Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, tive a honra e o prazer de conversar com Juliano Gauche. Amanhã, às 16h, ele se encontra com Tatá Aeroplano para uma live que eu reputo histórica: o encontro de dois dos mais talentosos artistas de sua geração. Vale muito conferir!

A quem perdeu o programa, eis a íntegra, incluindo o anúncio de outras lives muito interessantes por estes dias. Na TimbirAlive de quinta que vem conversarei com Jotabê Medeiros. Não percam!

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A onda agora é live!

Recebi o honroso convite para participar ontem (26) de uma live com tema-slogan “Direitos culturais, sem perder a ternura jamais”, organizada pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), entidade de que fui assessor de comunicação e presidente.

A live não foi alive, mas também não chegou a ser dead. Explico: problemas técnicos e motivos de força maior impediram sua transmissão ao vivo. A conversa foi gravada e já está disponível nos canais e redes sociais da SMDH.

Além das participações especiais de um cachorro latindo na rua durante minha fala de abertura e de Rose Teixeira, esposa de Joãozinho Ribeiro, ele, um dos convidados da live, ao lado de Zeca Baleiro, com as presenças também de Dicy e João Simas, mediados por este que vos perturba, conversamos (eles também cantaram) sobre direitos e políticas culturais, pandemia e isolamento social, a aprovação na Câmara dos Deputados da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc (na mesma “tarde noite” em que conversávamos), a cadeia produtiva da cultura e, obviamente, o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.

A quem interessar possa, aí está o vídeo com a íntegra do papo. Ele é finalizado com Equinócio, composição de Elizeu Cardoso que Dicy gravou em seu disco Rosa Semba, o que destaco para anunciar que, amanhã (28), noutra live, o compositor, cantor, escritor, webradialista e professor (olha o respeito com seus alunos!) é meu entrevistado no TimbirAlive, que a Rádio Timbira AM está transmitindo em seu instagram (@radiotimbira), sempre às 17h, às terças (saúde, com Aécio Macchi e Amanda Couto se revezando na apresentação), quartas (esporte, com Quécia Carvalho) e quintas (cultura, com Gisa Franco e Zema Ribeiro, também em revezamento). Como diria o Gabriel DCastro, faça como seu time: não perca!

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O palco do impeachment

CESAR TEIXEIRA*

Charge de Edgar Vasques. Reprodução
Charge de Edgar Vasques. Reprodução

 

Três batidas. A plateia se espreme no cercado de alumínio, devorando chocolates Kopenhagen, enquanto ele desce ao centro do palco imaginário. Jair Bolsonaro, no papel de presidente, não possui nem mesmo um rascunho de programa de governo. Apenas um texto sinistro e mal ensaiado para minar a democracia brasileira. Trata-se de um ator medíocre, que utiliza redes sociais para divulgar fake news e provocar desordem, enquanto literalmente empurra sua gestão com a barriga – o que nos faz lembrar a célebre facada.

Seu truque é uma indigitada transparência. A plateia aplaude, sabendo que ele é padrinho das milícias cariocas; estimula o crime ambiental e o extermínio de indígenas; torce pelo coronavírus; troca ministros de acordo com interesses pessoais, de parentes e amigos, obedecendo a critérios “técnicos” e “sem viés ideológico”, entre outros crimes. Ocupar cargo no governo é como assinar a própria demissão, se os caprichos do presidente forem ignorados. Logo surge um dublê fardado para tapar o buraco.

Isso nos remete à mise en scène do senador Auro de Moura Andrade (PSD), dirigindo a sessão do Congresso Nacional em 2 de abril de 1964, quando declara vaga a Presidência da República, argumentando que João Goulart havia abandonado o governo e o território nacional, quando na realidade se encontrava no Brasil. Era a senha para oficializar o golpe já deflagrado, logo após o presidente anunciar as Reformas de Base, que para a extrema direita seriam um avanço do comunismo no País. Jango foi obrigado a exilar-se no Uruguai e o governo foi ocupado pelos militares até a reconquista de uma tímida democracia em 1985.

Trinta e cinco anos depois, um ex-capitão do Exército Brasileiro toma posse como presidente da República, mas voluntariamente não assume o cargo, já que desobedece ao compromisso de “manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil”, conforme o Art. 78 da Carta Magna. O Messias exilou-se em algum lugar do seu cérebro avariado, de onde pretende dar um golpe no seu próprio governo e ressuscitar generais de pijama, abafando a “conspiração comunista” que acredita estar infiltrada na ciência, na educação e, sobretudo, na cultura.

Para impedir que o réptil ensaie romper a transparência do ovo é preciso que a Câmara Federal autorize com urgência o impeachment reivindicado por partidos políticos, entidades civis e movimentos sociais. Ainda há democratas no Congresso, apesar da sua estrutura bichada, de um lado pelo BBB, como são conhecidas as bancadas da bala, do boi e da Bíblia; do outro pelo Centrão, que reacendeu o “toma lá, dá cá” antes repudiado pelo presidente. Quem tem medo do impeachment?

A pusilanimidade do Legislativo pode despertar a esquerda e as organizações de direitos humanos. Mesmo que as mobilizações de rua estejam limitadas pela pandemia, a união de forças numa rede nacional e até internacional poderá fazer o Congresso votar o impeachment. O confronto será inevitável. Bolsonaro confia nos velhos oficiais e amigos mercenários. Mas será que as Forças Armadas, que são instituições do Estado, topam pagar um mico por conta de um governo estelionatário?

Falta pouco para baixar a cortina desta comédia de mau gosto. Talvez a plateia do cercadinho, espalhada pelo País, ainda reaja com gritos histéricos e slogans fascistas em seus cartazes quando o entijucado ator ouvir sua última deixa, e se retirar para as coxias. Trocando em miúdos, Jair Bolsonaro não passa de um personagem fictício, criado pela direita ultraconservadora e genocida. Sendo assim, o cargo de presidente já pode ser considerado tecnicamente vago. E ponto final.

*Cesar Teixeira é jornalista e compositor

Socorro Mota (1955-2020)

Socorro Mota com José Antonio no colo em janeiro de 2017. Foto: Zema Ribeiro
Socorro Mota com José Antonio no colo em janeiro de 2017. Foto: Zema Ribeiro

 

A notícia me alcança pela tela do celular, para tristeza imediata: “tia Socorro se foi”, me escreve Luiza Fernandes, sister in soul, como a chamo desde que nos conhecemos, amiga e colega de profissão.

Entre as lágrimas que começam a rolar e a tentativa de responder sua mensagem com algo que não soe mais do mesmo – o que dizer nessas horas, não é? – penso que Luiza nunca mais ouvirá a tia chamando-lhe pelo apelido de “Maria Bonita” ou me dizendo “Maria Bonita vem aí”, avisando de alguma visita da sobrinha radicada em São Paulo à Ilha, e me vêm imediatamente à memória o sorriso franco e fácil de Socorro Mota (27/2/1955-14/5/2020), sempre elegantemente vestida, fosse para ir à missa ou visitar os amigos.

Foi assim desde sempre e é a lembrança que dela vou guardar. A professora, graduada em Letras, que me saudava de um jeito particular toda vez que nos encontrávamos. “Zema Ribeiro”, ela dizia, antes de apertarmos as mãos ou nos abraçarmos, e emendar alguma conversa sobre política ou outro tema do noticiário, as atividades culturais da Ilha, o gato Olaf, por quem nutria especial carinho, e José Antonio, meu filho, adorado por ela.

Penso no amigo Tarcísio, médico e amigo, irmão de Socorro, com quem habitualmente circulava pelas rodas de choro da cidade e outros eventos artísticos, ela superprotetora a controlar as quantidades de gordura ingeridas pelo doutor.

Católicas fervorosas, penso na comadre Rafaela, madrinha de José Antonio, com quem costumeiramente viajava, tirando alguns dias para merecidos descanso, diversão e compras.

Talvez Socorro aproveitasse as viagens também para colocar-se off line de tanta notícia ruim, sobretudo nestes tempos mais recentes, de um Brasil entristecido. Alguns seguem tratando irresponsavelmente o coronavírus que a vitimou como mera gripezinha. Difícil arriscar qualquer previsão sobre quanto tempo nossa agonia vai durar, mas uma coisa é tragicamente certa: ninguém escapará ileso da pandemia. Quando tudo isso passar, qualquer um/a terá perdido um conhecido, um amigo, um vizinho, um parente próximo ou distante, um artista admirado.

Socorro Mota se chama saudade. Eterna em nossos corações, os que tiveram o privilégio de conhecê-la e com ela conviver. Obrigado por tudo e sempre, minha amiga!

Sérgio Sant’Anna (1941-2020)

O escritor Sérgio Sant'Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução
O escritor Sérgio Sant’Anna. Foto: Daniel Ramalho. Jornal Cândido. Biblioteca Pública do Paraná/ Reprodução

 

Os últimos contos que Sérgio Sant’Anna (30/10/1941-10/5/2020) publicou em vida, Das memórias de uma trave de futebol em 1955, no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo em 26 de abril passado, e A dama de branco, em 1º. de maio, na revista Época, atestavam que o peso dos anos não lhe afetou a qualidade da obra. O par de contos podia figurar em qualquer de seus livros mais recentes, Anjo noturno: narrativas (2017), O conto zero e outras histórias (2016) e O homem-mulher (2014) todos publicados pela Companhia das Letras.

O escritor faleceu nesta madrugada, vítima do coronavírus. Era merecidamente considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade, com sua prosa elegante entre o conto e o romance, povoada de tipos urbanos, violência, sexo e em diálogo permanente com outras linguagens, como a música, as artes visuais e o cinema, arte a que teve adaptadas algumas de suas obras, com destaque para Um crime delicado (Companhia das Letras, 1997), que ganhou a tela grande pelas mãos do diretor Beto Brant em 2005.

O declínio do Rio de Janeiro (e do Brasil) também estava entre seus temas prediletos. Lembrava com solenidade os bares de paredes espelhadas que podiam se tornar o paraíso de quem queria flertar ou o inferno de um cônjuge eventualmente acusado de algo que sequer estava fazendo. Também as apostas no turfe, frequentado por homens elegantemente vestidos, como se, justamente, para figurar em sua prosa, além do futebol, sobretudo os jogos e treinos do Fluminense, seu time do coração, que nos legou obras-primas como Páginas sem glória (Companhia das Letras, 2012).

Quando descobri seu perfil no facebook, a princípio desconfiei, como daquele lendário perfil de João Gilberto entrevistado pela revista Trip – um dos livros mais festejados de Sant’Anna é justamente O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982). Perderia Sérgio Sant’Anna tempo em redes sociais, sempre burilando um próximo conto genial com que nos deleitaríamos quando do lançamento de uma próxima coletânea? Sim, e mesmo fora da página no livro, o capricho de sempre com as letras: escrever confundia-se com sua própria vida, entre o ganha-pão, a diversão e o descanso.

Era um ardoroso combatente do bolsonarismo e de toda a desumanidade impregnada e exalada pelo regime neofascista tupiniquim. Na rede social chegou a escrever que “o Brasil é um filme de terror”, entre suas manifestações diárias de preocupação com os rumos do país, desgovernado por gente que nunca leu uma linha escrita por ele e tampouco dirá qualquer coisa sobre seu falecimento, aos 78 anos, com um legado monumental.

Pela rede social também, anunciou a suspeita de ter contraído a covid-19, o que viria a se confirmar com sua internação. “Hoje pra mim foi barra, tive vários sintomas e achei que estava com o vírus. Mas meu clínico veio aqui e me receitou antibióticos. Estamos vivendo no fio da navalha”, manifestou-se em 28 de abril.

Atencioso, um pouco antes, me respondera um e-mail, negando um pedido de entrevista que lhe fiz. A ideia era que ele falasse ao Radioletra sobre o conto recém-publicado na Folha. “Agradeço o convite, mas estou com problemas de saúde e não posso aceitá-lo. Um abraço. Sérgio”, escreveu.

A morte era também uma das obsessões do escritor. Como lembra este parágrafo de “Lencinhos”, conto de O homem-mulher, um de meus prediletos, entre tantos: ““Vou contar uma coisa para vocês”, eu disse. “Às vezes imagino que renasço numa vida futura e encontro meu pai já falecido e outros amigos mortos e todos nos regozijamos, e é como se não houvesse passado tempo nenhum desta vida para a outra.””. No facebook escreveu, em 23 de abril: “A gente morre, mas se diverte”.

Mas sua obsessão mesmo era escrever e reinventar-se. Como revelou ao jornalista Alvaro Costa e Silva em um perfil publicado no jornal Cândido, publicação mensal da Biblioteca Pública do Paraná: “A cada nova obra, procuro fazer alguma coisa diferente. Do contrário, perderia a graça”. Ou como se manifestou pela rede social, também a 23 de abril: “Meus queridos e minhas queridas, não quero assustar ninguém, mas acho a peste que nos assola simplesmente aterrorizante. Não encontro outro modo de reagir se não escrevendo”.

RIP Aldir Blanc: “chora a nossa pátria, mãe gentil”

O compositor Aldir Blanc num boteco com João Bosco (E), seu parceiro em tantas obras-primas. Foto: reprodução
O compositor Aldir Blanc num boteco com João Bosco (E), seu parceiro em tantas obras-primas. Foto: reprodução

 

Com Aldir Blanc (2/9/1946-4/5/2020) se vai uma parte da inteligência, da elegância e do bom humor brasileiros. Médico psiquiatra de formação, é um dos maiores letristas da Música Popular Brasileira, assim mesmo com as iniciais maiúsculas.

Cronista também com C maiúsculo, retratou o Brasil como ninguém, nas parcerias musicais principalmente com João Bosco e Guinga, mas também nos textos que publicou em jornais como o Pasquim e O Globo por cerca de meio século. Era também versionista de mão cheia – poucos lembram, mas é dele a versão de Amarillo by money (T. Stafford/ P. Frazer), que virou Entre a serpente e a estrela na voz de Zé Ramalho e um grande sucesso nas rádios, alavancado pela presença na trilha sonora da novela Pedra sobre pedra (a mesma gravação integrou, mais recentemente, a trilha sonora da novela O sétimo guardião).

O êxito radiofônico de letras de Aldir Blanc não era algo incomum. Qualquer brasileiro já assobiou alguma criação sua, às vezes sem saber quem é o autor. Outro ótimo exemplo é Resposta ao tempo (parceria com Cristóvão Bastos), imortalizada por Nana Caymmi, antes de sua adesão ao bolsonarismo – em nome do que chegou a chamar Caetano Veloso, Chico Buarque e seu ex-marido Gilberto Gil de “chupadores de pica” de Lula.

Não me venha o leitor desavisado ou “neutro” – a esta altura do campeonato só itens de higiene de bebês podem se dar ao luxo de sê-lo – achar a citação desnecessária: Aldir Blanc era um esteta da palavra, que passeava com desenvoltura pelo sublime mas que bem podia também beirar o grotesco, a depender da exigência do momento, da circunstância. Além do quê era um libertário que não flertava com o conservadorismo. Em suas crônicas nunca escreveu o nome do golpista Michel Temer, por exemplo, sempre tratou-o como Temerreca – nunca deixou também de chamar Paulo Maluf pelo adjetivo cabível: ladrão.

Aldir Blanc era desses brasileiros que os brasileiros precisavam e deveriam conhecer mais. Como escreveu na letra de Querelas do Brasil, em parceria com Maurício Tapajós: “O Brazil não conhece o Brasil/ O Brasil nunca foi ao Brazil”. E adiante: “O Brazil não merece o Brasil/ O Brazil tá matando o Brasil”.

Iconoclasta por excelência e princípios, em 2003 compôs uma letra para Bola Preta, choro de Jacob do Bandolim em homenagem ao famoso Cordão carnavalesco carioca, entre o politicamente incorreto, para o qual não dava a mínima, e homenagens (?) a grandes nomes da música brasileira.

Escrever sobre seu falecimento é arriscar-se a chover no molhado (e usar este clichê é desde já uma prova disso): melhor seria se, em vez de um obituário, lêssemos suas crônicas, ouvíssemos suas criações geniais. Ou ainda arriscar-se a soar piegas: este arremedo de cronista, por exemplo, adoraria ter tomado alguns chopes em sua companhia, quiçá entrevistando-o, e chora sua perda como a de um parente mais velho, tão distante quanto querido.

Como Paulo Leminski, Aldir Blanc elevou o chiste de mesa de bar à condição de obra de arte. Dedicou seu Guimbas (Desiderata, 2008) à “memória de Henfil que, em O Pasquim, vivia me dizendo: “Humor é pé na cara””, chutes que ele nunca hesitou em dar. Num dos aforismos do mesmo livro ele anotou: “a distância entre a vida e a morte é do tamanho de um carrapato”.

Aldir Blanc estava internado desde o dia 10 de abril, com infecção urinária e pneumonia, quadro que evoluiu para infecção generalizada. Não tinha plano de saúde e uma campanha que uniu artistas, amigos e admiradores garantiu sua transferência de hospital. Acabou falecendo vítima do coronavírus.

É clichê dizer que artistas não morrem, já que sua obra fica; mas fará falta ao Brasil, sobretudo neste momento ao menos duplamente trágico, a pena mordaz de Aldir Blanc.

O ator Flávio Migliaccio. Foto: Isabella Pinheiro/ GShow/ Reprodução
O ator Flávio Migliaccio. Foto: Isabella Pinheiro/ GShow/ Reprodução

Este blogue lamenta profundamente registrar também o falecimento do ator Flávio Migliaccio (15/10/1934-4/5/2020). O Brasil certamente terá menos graça quando essa pandemia passar. Esta cada vez mais difícil se cumprir o desejo de Nani, expresso no prefácio de Guimbas: “E este livro, Guimbas, no futuro, quando o Brasil for o país que queremos, com certeza vai cair no vestibular”.

A seguir, 13 obras-primas de Aldir Blanc:

O bêbado e a equilibrista (João Bosco/ Aldir Blanc), com Elis Regina

De frente pro crime (João Bosco/ Aldir Blanc), com João Bosco

Nação (João Bosco/ Paulo Emílio/ Aldir Blanc), com João Bosco

A nível de… (João Bosco/ Aldir Blanc), com João Bosco

Resposta ao tempo (Cristóvão Bastos/ Aldir Blanc), com Nana Caymmi

Miss Suéter (João Bosco/ Aldir Blanc), com João Bosco e Angela Maria

Dois pra lá, dois pra cá (João Bosco/ Aldir Blanc), com Elis Regina

Bala com bala (João Bosco/ Aldir Blanc), com João Bosco

O mestre sala dos mares (João Bosco/ Aldir Blanc), com Elis Regina

Entre a serpente e a estrela (Amarillo by money) (T. Stafford/ P. Frazer/ versão: Aldir Blanc), com Zé Ramalho

Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), com Leila Pinheiro

Me dá a penúltima (João Bosco/ Aldir Blanc), com João Bosco

Bola preta (Jacob do Bandolim/ Aldir Blanc), com Aldir Blanc, Jayme Vignoli e Água de Moringa

Diário da quarentena (mal e porcamente ilustrado)

Desenho de Zema Ribeiro
Desenho de Zema Ribeiro

Para Elizeu Cardoso, grande contador de histórias (e estórias)

Uma das coisas que mais tenho feito nesta quarentena é abrir e fechar janelas. São Pedro ameaça e, mesmo com a chuva fina, fecho a janela de modo a evitar molhar a sala e os quartos do apartamento. Às vezes levantar para fazer isso vale a pena, às vezes a chuva dura nem cinco minutos e lá vou eu abrir tudo novamente.

Há pouco aconteceu isso e, ao reabrir a primeira janela, deparei-me imediatamente com uma cena infelizmente nem tão inusitada no Brasil de 2020, em que dinossauros ajoelham-se para esperar meteoros, baratas votam em inseticidas e há toda a sorte de pessoas que, como diria o poeta Reuben, comprovam a existência da viagem no tempo: há muitas cabeças do século retrasado neste.

Um motoqueiro subia a rua em que moro com um passageiro na garupa; este, usava o capacete corretamente e zuniram tão rápido que não tive tempo de saber se era homem ou mulher – o que pouco importa para este relato.

O piloto usava um capacete com a viseira aberta, o que, por si só, configura infração de trânsito. Mas não foi isso o que me chamou a atenção: para fora do capacete, pendia, pendurada em apenas uma orelha, uma máscara, dessas que há mês e pouco passaram a fazer parte de nosso guarda-roupa diante da pandemia de coronavírus.

Li, outro dia, numa rede social, algo como “máscara no queixo é o novo capacete no cotovelo”. Não estava com o celular na mão, logo, perdi de fotografar a cena, emblemática de nossos tempos – ao menos foi o que considerei.

Abertas as janelas, sentei-me e arrisquei um desenho. Indagado sobre o que eu estava fazendo, contei toda a história acima a ela, destacando, no desenho, as hachuras, que representam os visores dos capacetes e a malfadada máscara.

Ela, obviamente também reconhecendo a minha falta de talento para desenhar, afirmou: “esse capacete do piloto ficou parecendo um pato”. Não perdi a piada, com que ela concordou e ambos rimos: “deve ser mesmo, algum pato da Fiesp, desses que ainda vão em carreata contra o isolamento e, apesar de tudo, ainda defendem o boçal que ocupa o Palácio do Planalto”.

Isolamento social. São Luís, 17 de abril de 2020

TEXTO: ZEMA RIBEIRO
FOTOS: GUTA AMABILE

Por absoluta necessidade, precisamos sair de casa hoje. No trajeto, enquanto eu dirigia, ela, com o carro em movimento, fotografava. Era assustador ver o número de pessoas nas ruas, em descumprimento às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Governo do Estado do Maranhão. Nem de engarrafamento na Jerônimo de Albuquerque escapamos.

Feiras, supermercados, bancos: tudo extrapolando o limite do razoável na presente situação, imposta pela pandemia de coronavírus.

É preciso reconhecer: em um supermercado fomos barrados; ela tentou entrar para acessar o caixa eletrônico, mas estava sem máscara. A rede de supermercados se adapta ao disposto no último decreto do governo estadual sobre o tema.

O isolamento social não é uma questão de opinião ou ideológica: é, cientificamente comprovado, o melhor método de diminuir a proliferação do vírus. Não é questão de “eu acho”.

Não sei onde iremos parar, num tempo em que o formato da Terra é posto em questão, um ministro é demitido por fazer o seu trabalho e o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro segue demonstrando sua absoluta incapacidade de lidar com o assunto – qualquer assunto.

Não sei onde iremos parar enquanto a população não tomar consciência e fazer a sua parte, salvando a si mesmo. Aqui, reconheça-se, o governo tem feito seu papel, vide o drible que Flávio Dino deu em Bolsonaro e Donald Trump, ao adquirir respiradores da China.

Como vovó já dizia: esse povo está brincando com a cor da chita! Fica em casa, disgranha!

Agência da Caixa Econômica Federal na Av. São Marçal, João Paulo

Agência do Banco Itaú na mesma avenida

Feira do João Paulo

Parada de ônibus na mesma avenida

Feira do João de Deus

Tráfego intenso na Av. Jerônimo de Albuquerque

 

Agência da Caixa Econômica Federal na Av. Kennedy, onde também é intenso o comércio e serviços de peças automotivas, com a quase totalidade dos estabelecimentos abertos