Música de brincante

Fotos: Guta Amabile

“Todo brasileiro deveria ter um pandeiro”.

A manchete nunca me saiu da cabeça, uma fala de Antonio Nóbrega quando capa da revista Caros amigos, uma entrevista há quase 20 anos. Foi a frase de que me lembrei quando fui avisar minha esposa e enteada do concerto que ele e a Orquestra Ouro Preto deram ontem (3), no Teatro Arthur Azevedo.

“Tirando a casaca” é um desses espetáculos que não se deve perder por nada.

De certa forma, o encontro de Nóbrega, ex-Quinteto Armorial (que Ariano Suassuna inventou há mais de 50 anos), com a orquestra regida pelo maestro Rodrigo Toffolo, é uma conexão (nunca de todo perdida) com as ideias do dramaturgo, defensor de uma arte genuinamente nacional, que deram origem ao Movimento Armorial, de que o quinteto foi um dos maiores expoentes: a realização de uma música de concerto com raízes profundas nas tradições e na cultura popular brasileira, particularmente do Nordeste.

Não faltam fôlego e disposição ao quase setentão Nóbrega – ele completa 70 anos no próximo dia 2 de maio: canta, toca violino, dança e se diverte enquanto diverte e deleita a plateia. Sentada a meu lado, minha esposa puxou-me a mão para sentir-lhe o arrepio quando ele cantou sua “Excelência”, título que bem poderia referir-se à qualidade do repertório levado ao palco, quase completamente autoral.

São Luís foi a segunda cidade a receber o espetáculo. A temporada 2022 da formação foi aberta na capital mineira, após dois anos de eventos sem plateia, em decorrência da prolongada pandemia de covid-19. Os ingressos a preços populares (R$ 30,00 para qualquer setor do teatro) certamente colaboraram para que o público lotasse a casa – antes do espetáculo, parte dos presentes se deparou com uma espécie de “overbooking”, com alguns lugares tendo sido vendidos em duplicata pelo sistema digital que operava a venda de ingressos, mas logo o problema foi resolvido; este repórter, com ingressos para uma frisa, acabou na plateia. A turnê tem patrocínio do Instituto Cultural Vale, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

O que se viu foi uma verdadeira comunhão entre público e plateia: a alegria estampada nos rostos, duas violinistas cantarolando o repertório enquanto cumpriam suas funções, o público cantando os refrões quando provocado por Nóbrega, que chegou a se deitar no palco, tão à vontade estava, e mesmo a descer dele para cantar à altura do público. Quando solou uma peça acompanhado apenas de pandeiro e zabumba, chegou a desamarrar o cadarço do tênis do pandeirista e atirá-lo à plateia.

Tudo era literalmente brinquedo.

Nóbrega dedicou a apresentação a Mestre Zumbi Bahia, capoeirista, e ao antropólogo gaúcho Norton Correa, ambos adotados por São Luís. Foi comovente também ouvi-lo cantar “O trenzinho do caipira”, tema de Heitor Villa-Lobos que ganhou letra no “Poema sujo” do maranhense Ferreira Gullar.

O artista esbanjou versatilidade e aqui e acolá arriscou uns passos de frevo e maracatu, ritmos que dominam o repertório do concerto, passeando por várias fases de sua carreira, desde o Quinteto Armorial até temas quase inéditos, executados também na apresentação inaugural da turnê.

Todo brasileiro deveria ter um pandeiro. E poder ir, ao menos uma vez, a uma apresentação de Antonio Nóbrega.

Palco Mundo e a alegria do reencontro com a boa música

O Gabriel Grossi Quarteto. Foto: Zema Ribeiro

O baixista Nema Antunes dedicou seu show a seus pares de instrumento Arthur Maia (1962-2018) e Mauro Sérgio, falecido ano passado, vítima de covid-19. Com ele, no palco, um sexteto formado no Maranhão, para a apresentação, incluindo dois integrantes do Quarteto Buriti – de que o contrabaixista Mauro Sérgio, ex-professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, fez parte: Ronald Nascimento (bateria) e Daniel Cavalcanti (trompete e flugelhorn), este também professor da Emem. Ao piano, Marcelo Carvalho, autor de um dos números instrumentais do roteiro, gravado por Nema em “Plúmbeo”, seu disco mais novo. O grupo se completava com Israel Dantas (guitarra), Ricardo Mendes (saxofone) e Renato Serra (teclado) e demonstrou, ao longo da apresentação, que a prática leva à perfeição, tal a qualidade da performance.

Era o show de abertura do Palco Mundo 2022, projeto que integra o circuito Lençóis Jazz e Blues Festival, normalmente realizado em paralelo ao evento, no segundo semestre, com apresentações em Barreirinhas e São Luís. Nenhuma das seis atrações do line up dos dois dias do evento é novidade na produção de Tutuca Viana: todos já se apresentaram em edições anteriores do LJBF. Mas valeu a pena o reencontro de artistas com a plateia, sentimento recíproco traduzido em palavras ouvidas tanto no palco como entre o público.

Os artistas celebravam esse reencontro, após dois anos de lives e esporádicas apresentações presenciais. Não sei se isso potencializou a ranzinzice do repórter, cada vez menos tolerante com aqueles que vão a teatros para ver o show através da tela do smartphone ou que aproveitam qualquer intervalo para ver ou ouvir, obviamente sem fones de ouvido, para azar da vizinhança, o último vídeo do tik tok ou a última mensagem de áudio enviada no grupo da família. Depois não me venham reclamar de Zé da Chave, que obviamente chegou na metade da primeira apresentação, instalou-se na frisa mais próxima à direita do palco e atacou com seu molho.

A apresentação seguinte era do gaitista brasiliense Gabriel Grossi, acompanhado por Eduardo Farias (piano e teclados), Michael Pipoquinha (baixo) e Sérgio Machado (bateria), outro super grupo.

O show foi pautado no repertório de seu disco mais recente, “Re disc cover”, um trocadilho esperto que joga com o fato de ser um disco de releituras de clássicos do pop rock das décadas de 1960 a 90 e sua redescoberta, seja por um público mais jovem, seja por amantes da música instrumental brasileira com pouca relação com bandas como Oasis, Nirvana, Queen e Jackson 5, entre outras – em maio do ano passado ele conversou com Gisa Franco e este repórter, no Balaio Cultural, da Rádio Timbira AM, sobre o álbum.

Grossi se entrega completamente no palco, entre despir o repertório das letras que estamos acostumados a cantar e vesti-lo com sua gaita, quase à beira do esgotamento físico: seu rosto se avermelha, os joelhos dobram, e entre um solo e outro dos músicos que lhe acompanham, muitos goles d’água, para dar conta do recado. De “Isn’t she lovely”, de Stevie Wonder, passando por “Smells like teen spirit”, do Nirvana, “Wonderwall”, do Oasis, “Ben”, do Jackson 5, “Message in a bottle”, do Police, e “Another one bites the dust”, do Queen. Ao reafirmar o prazer de estar em São Luís e falar da força da cultura do Maranhão, lembrou-se que a ilha do amor é também a Jamaica brasileira, antes de atacar de “Redemption song”, de Bob Marley.

Foi o grande show da noite, numa noite de três grandes shows. A quinta-feira seria encerrada com a apresentação do majestoso Filó Machado, setentão paulista mais conhecido e respeitado fora do Brasil, como tantos de nossos gênios. Cantor, compositor, arranjador e multi-instrumentista, apresentou um show autoral, em que prestou homenagens a “Vadeco” (o título da música remete a seu professor de violão), e lembrou a importância do aprendizado oferecido pela experiência de tocar na noite, em bares e boates.

“Se eu não tivesse tido essa experiência, agora eu estaria nervoso, me perguntando o que fazer”, disse, senhor da situação e arrancando risos e aplausos da plateia. Quando um roadie assomou ao palco para corrigir uma sobra de frequência no violão de Felipe Machado (seu neto, que cantou dois bonitos sambas autorais), ele tornou a divertir o público: “eu sou curioso. Eu fiquei vendo aqui e até esqueci de vocês”, disse, para mais gargalhadas. E continuou, num jogo de melismas e onomatopeias repetido pelo público, elogiado pelo artista. Nessa brincadeira, cantou sem o microfone, sempre acompanhado pelo público, e assim, desceu do palco e deu uma volta ao redor da plateia até retornar para junto do grupo que o acompanhava, que se completava com o mesmo baterista de Gabriel Grossi, Sérgio Machado (seu filho), Fábio Leandro (piano e teclados), Carlinhos Noronha (baixo) e Jota P (saxofones).

A programação do Palco Mundo continua hoje (25), a partir das 19h, com apresentações de Gabriela Marques, Bebê Kramer e Arismar do Espírito Santo. A entrada é gratuita e as pulseiras de acesso ao teatro podem ser retiradas na bilheteria, desde as 14h de hoje, sugerindo-se a troca por um quilo de alimento não perecível. A arrecadação será doada à ONG ludovicense Pouso Obras Sociais.

Acalanto: música pelas praças, sem aglomeração

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Divulgação

A pandemia de covid-19 foi prorrogada para além de qualquer expectativa: nem os mais pessimistas poderiam acreditar que estaríamos onde estamos praticamente dois anos depois de sua eclosão.

O distanciamento social, medida necessária para a contenção do contágio, provocou mudanças de hábitos e, nesse sentido, atividades culturais provaram, ou melhor dizendo, reafirmaram sua importância.

Foi uma explosão de lives e exposições online, entre outras atividades, que ajudaram a população a permanecer mais tempo em casa. Quem dispunha de uma boa biblioteca ou de uma razoável coleção de discos, também delas se valeu, tornando a travessia do período mais suportável.

O poeta Ferreira Gullar dizia que “a arte existe por que a vida não basta”, sentença atestada na prática pelos poucos exemplos aqui trazidos.

A pandemia ainda não acabou. Isolamento e distanciamento social, bem como uso de máscaras e constante higienização das mãos com álcool em gel e/ou água e sabão continuam sendo necessários.

A classe artística foi uma das mais afetadas pela pandemia. Shows, exposições, peças, noites de autógrafos, entre outras, são atividades que promovem aglomeração, em sua essência, exigem contato físico, um prato cheio para a proliferação do vírus.

O cantor Wilson Zara, o baixista Mauro Izzy e o guitarrista Moisés Ferreira são três dos mais conhecidos artistas da noite de São Luís e também sentiram os impactos das medidas restritivas.

“De uma hora pra outra, simplesmente tudo parou, parecia uma profecia de Raul Seixas, embora na música dele a Terra pare por apenas um dia. A gente precisou respeitar, se apropriar de novos mecanismos, repensar o nosso fazer artístico, além de se cuidar, para poder voltar a toda, quando isso fosse possível”, comenta Zara.

As idas e vindas das curvas de contágio e número de óbitos promoveram um efeito sanfona ou gangorra, num estica e puxa, sobe e desce, vai e vem, com a retomada gradual de atividades (artísticas, inclusive) e novos passos atrás.

Zara, Izzy e Ferreira, parceiros de longa data e de outras empreitadas, se uniram no Trio Zamoma, e irão percorrer oito cidades maranheses com o projeto Acalanto.

“A música tem esse poder de acalentar as pessoas, não no sentido de botar pra dormir, mas de instigar sentimentos, recordações, momentos. É esse o espírito”, revela Zara.

As apresentações acontecerão prioritariamente em áreas residenciais, em praças de bairros, de modo que as pessoas, ou a maioria delas, possa ouvir a música dos artistas de suas próprias calçadas e janelas, evitando aglomerações.

As normas de segurança sanitária serão observadas e é possível que em algumas cidades a transmissão seja realizada em modo online, a partir de algum logradouro do município.

Acalanto tem patrocínio da Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. “Ao realizar este projeto e fomentar a cultura nos municípios, a Potiguar cumpre um mandamento constitucional, que qualquer empresa deve guardar, que é sua função social, demonstrada através da preocupação com impactos que vão além dos econômicos, sobretudo durante a pandemia, com o entristecimento do espírito e da alma das pessoas que vivem nos lugares”, comenta Moisés Ferreira, que além de músico é advogado e estudioso de mecanismos de incentivo à cultura.

Gratuitas e abertas ao público interessado em geral, as apresentações terão inicio ainda em fevereiro e os destinos serão divulgados em breve.

“Apesar dos coronas contrários”, EP de Joãozinho Ribeiro, será lançado sábado (12)

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EP carnavalesco reúne cinco composições inéditas e traz participações especiais de Zeca Baleiro, Ronald Pinheiro, Flávia Bittencourt, Marconi Rezende e Allysson Ribeiro

Apesar dos coronas contrários. Capa. Reprodução

POR PAULA BRITO E ZEMA RIBEIRO

Em tempos difíceis para a população brasileira, tanto pelo momento político que o país atravessa, quanto pela pandemia que sua população enfrenta, nada melhor do que espalhar amor e alegria para as pessoas através da música.

Pensando nisso, o poeta e compositor maranhense Joãozinho Ribeiro lança, no próximo sábado (12) a partir da meia noite, em todas as plataformas digitais, o seu mais novo EP, intitulado “Apesar dos coronas contrários”. O EP de carnaval traz cinco canções inéditas, sendo três frevos e dois sambas encharcados de maranhensidade.

“Coronas contrários”, um frevo criado em parceria com o cantor e compositor Zeca Baleiro, que também a interpreta, e é o carro-chefe da coletânea. O EP traz ainda “Memórias de Moraes”, composta em 2020, em parceria com o cantor, compositor e instrumentista Ronald Pinheiro, uma merecida homenagem ao falecido artista baiano Moraes Moreira, interpretada pelos dois autores. Nesta faixa, Ronald Pinheiro empresta o solo da sua criativa guitarra baiana ao saboroso gênero. “Azar do arlequim”, um frevo-canção, de autoria de Joãozinho Ribeiro, interpretado pelas belas vozes dos cantores e compositores Flávia Bittencourt e Marconi Rezende, é outra faixa do trabalho. Os sambas autorais “Valeu, Cacá!” e “Vou engomar” completam a lista sob a forma de pot-pourri, cantados, respectivamente, por Joãozinho Ribeiro e pelo cantor e compositor Allysson Ribeiro.

O maestro Rui Mário assina a direção musical e arranjos, e também participa com a sua sanfona e teclados em algumas faixas, assistido de perto pelo talentoso e respeitado músico Arlindo Pipiu (baixo, violões de seis e sete cordas e guitarra). O time de músicos se completa com Luiz Cláudio (percussão), Danilo Santos (saxofone e flauta), Hugo Carafunim (trompete e flugelhorn) e Jovan Lopes (trombone). Daniel Miranda (trombone) participa de “Azar do arlequim”. Robertinho Chinês entra em cena com o seu inconfundível cavaquinho no pot-pourri de sambas, adicionando um molho todo especial à batucada tipicamente maranhense.

Os vocais ficam por conta das cantoras Kátia Espíndola e Mariana Rosa, que participam de todas as faixas. Jaílton Sodré comanda, com apurada técnica, a mixagem e a masterização do EP, gravado no Estúdio Zabumba Records. A produção executiva e coordenação geral do projeto ficam a cargo do próprio Joãozinho Ribeiro.

Um dos parceiros e incentivadores de Joãozinho Ribeiro nesta empreitada é o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro. Ele resume esse trabalho como um ato de resistência: “Joãozinho Ribeiro já era “resistência” antes mesmo do termo virar lugar-comum em tempos de redes sociais e de ameaças neofacistas. Sempre resistiu. À imobilidade, à falta de ação política, à omissão na luta pela afirmação da cultura e até ao próprio cansaço – sim, porque a luta cansa até os guerreiros mais fervorosos. Neste momento político pavoroso, Joãozinho quer resistir cantando, provocando e espalhando ventos humanistas por este velho mundo. Por isso (e para isso), gestou este EP de carnaval, “Apesar dos coronas contrários”, com três frevos e um medley de dois sambas, da safra recente do compositor, ora sozinho, ora em parceria. O EP reúne vários parceiros – músicos, intérpretes e compositores – e é uma conclamação amorosa e divertida à dança e à festa. Por que a vida é essencial, especialmente em tempos de trevas”, afirma.

Serviço

O quê: Lançamento do EP carnavalesco “Apesar dos coronas contrários”
Quem: Joãozinho Ribeiro, com participações especiais de Zeca Baleiro, Ronald Pinheiro, Flávia Bittencourt, Marconi Rezende e Allysson Ribeiro
Onde: em todas as plataformas digitais
Quando: sábado (12), à meia-noite
Quanto: grátis

Croniqueta em tempos de pandemia

De den’do hospital ela me fotografa à sua espera. Foto: Guta Amabile

Um segurança do hospital impediu minha entrada, em nome das restrições impostas pela prolongada pandemia. Fiquei do lado de fora, em pé, envergando o tijolo “Menino sem passado”, do Silvano Santiago. Havia cadeiras vazias, que o distanciamento social e as marcações recomendavam não usar. Encostei-me no corrimão da rampa por onde sobem veículos e pedestres e lia, enquanto táxis, ubers, carros de passeio e ambulâncias deixavam e levavam passageiros e pacientes.

Um homem cuja idade era difícil precisar, trajando máscara, camisa do Flamengo e luvas, entregou-me um papel. Desavisado, peguei, mesmo contra a recomendação dos protocolos de segurança sanitária. Interrompi a leitura para ler: era um apelo para ajudá-lo a construir sua casa, ele, mudo de nascença, como dizia no pequeno pedaço de papel, como aqueles que inspiraram Valêncio Xavier em “Rremembranças da menina de rua morta nua e outros livros”. Indicava os valores de um, dois ou três reais para a contribuição. Enquanto ele distribuía e recolhia dos outros acompanhantes, devolvi-o quando de sua passagem, sem colaborar. Eu realmente estava sem trocado nem lenço, nos bolsos só havia documentos.

Uma senhora encostou a meu lado, aproveitando uma pausa na leitura para checar o celular. Por ele me comunicava com ela, lá dentro fazendo os exames. “Seu celular faz ligação para qualquer operadora?”. “Sim”, respondi imediatamente, me arrependendo tão ou mais rápido e pensando: “ela vai pedir o celular para ligar para alguém e eu vou ter que pegar de volta, sem álcool em gel. E se ela estiver com covid?”, perguntei-me, paranoico – ou não. Bingo! “O senhor pode fazer uma ligação para minha filha? É para ela pedir um uber pra mim, eu saí de casa e esqueci o celular”. Já ia entregar-lhe o aparelho quando ela mesmo sugeriu: “o senhor mesmo liga” e me deu o número e o nome da filha. Liguei um par de vezes e em ambas a ligação caiu na caixa postal. “A senhora vai pagar o uber em dinheiro?”. “Sim”. “Posso pedir um para a senhora”, ofereci-me, no que ela concordou, me passando o endereço. Aguardamos o carro, de que lhe indiquei modelo, cor e placa, apontando-lhe quando ele chegou. Ela agradeceu e me estendeu um papel, com 50 centavos. “Se o moço aparecer o senhor entrega para ele”, pediu e me agradeceu mais uma vez. Fiquei vendo-a pegar o uber de volta para casa com o marido adoentado e esperei mais um pouco por ela, que terminava de coletar sangue para os exames.

O homem não voltou e não o alcancei, mesmo lançando meu olhar a 360 graus, procurando-o. Quando ela saiu, descemos a rampa até onde o carro estava estacionado. Coloquei o papel amarrotado no bolso de trás da calça idem e paguei o flanelinha com os 50 centavos. “Obrigado e vá com Deus!”, ainda consegui ouvir antes de subir o vidro da janela e ela ligar o rádio.

Pena capital ao genocida

Em memória dos mais de 255 mil brasileiros vítimas da covid-19 e da irresponsabilidade do presidente genocida de extrema-direita Jair Bolsonaro

“O que é roubar um banco comparado a fundar um banco?”
Bertolt Brecht

“Se números frios não tocam a gente/ espero que nomes consigam tocar”
Bráulio Bessa/ Chico César

Uma estaca cravada no prepúcio
ainda é pouco pra este genocida.
Se a facada não lhe tirou a vida
é preciso tirar-lhe já o poder.
Quantos ainda precisarão morrer
no Brasil, hoje sinônimo de desgraça?
Bolsonaro, vá embora e leve a sua raça!
Meu povo não aguenta mais sofrer.

Uma corda em volta de seu pescoço,
um patíbulo, um grito desumano:
será que ao morrer faria o gesto insano
da arminha e elogio a torturador?
Quero que Bolsonaro saiba o que é dor
pra que enfim, acabe de vez a nossa.
Que o Brasil volte a ser o país da bossa,
do samba, do carnaval e não mais do horror.

Um tiro no meio de sua testa
distanciando seus olhos de facínora
sem empatia, cujo significado ele ignora.
Haverá quem chore por este desgraçado?
Milhares de corações dilacerados
pelas mortes de pais, mães, filhos e avós.
Precisamos, e logo, desatar os nós
da cilada em que nos meteu seu gado.

Cínicos, uns dizem “eu não sabia”.
Não foi falta de aviso, digo e repito.
Todos sabíamos no que daria falso mito
em lugar que deve ser ocupado por gente,
não por falso herói nada eloquente.
Faltará borracha pra apagar tamanho erro
e aqui e acolá ainda se ouve o berro
do gado que aplaude quem fode a gente.

Impeachment é nada e cadeia é pouco:
Bolsonaro merece passagem só de ida
para sofrer por toda eterna vida
em companhia de ídolos como Hitler e Ustra.
Nem no inferno o diabo quer esses filhos da puta
que tanto mal fizeram à humanidade.
Nem na lata de lixo da história lhes cabe.
Contra suas fake news, eis a verdade absoluta.

A política do luto e da merda

TEXTO E ILUSTRAÇÃO: CESAR TEIXEIRA*

Agora que o Menino Jesus de barro foi despejado dos presépios natalinos pelo Ano Novo, o Brasil se benze para continuar aguentando um inquilino indesejável, modelado em bosta, que já pensa em se recandidatar em 2022 sem ter realizado qualquer gesto democrático como “presidente”. Ao contrário, abusou dos seus dotes de malfeitor para cometer inúmeros crimes que continuam impunes e vão ficando por isso mesmo.

Bolsonaro elogiou um torturador em pleno Congresso Nacional e persiste debochando de pessoas torturadas durante a ditadura civil-militar deflagrada em 1964, enquanto chora a derrota do seu “amigo” Donald Trump (ex-presidente do país que apoiou o golpe) e lança farpas contra a China, maior parceiro comercial do Brasil.

O falso Messias, vale repetir, elegeu-se à custa de milícias digitais, de acordos partidários espúrios e de uma facada de mentira, fora a contribuição dos patos e bonecos infláveis da Fiesp, com digitais do Tio Sam – mesmas armas que patrocinaram o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula. Não era à toa que se esmerava em aparecer na imprensa mundial ao lado de Trump em jantares e reuniões politicamente inúteis para o Brasil

Todavia, Bolsonaro não almejava ser apenas Presidente da República. Esse cargo ele abandonou antes mesmo de assumi-lo. Seu sonho de infância é tornar-se um Duce ou Führer latino-americano, ou pelo menos um caudilho meia-sola, mantendo como bunker o Gabinete do Ódio, que pode mudar de endereço e possui franquias em todo o País. Na pressa de alcançar a glória, feriu pelas costas a Constituição Federal, participando de atos que fazem apologia à ditadura e interferindo politicamente na Polícia Federal para proteger a família.

No início da pandemia pelo Covid-19 buscou privilegiar a elite empresarial e expor trabalhadores ao risco de contágio. Depois teve a cara de pau de “receitar” cloroquina (não recomendada pela Anvisa) no tratamento dos infectados. Regozija-se em transformar o luto em política de Estado, indiferente à saúde pública e ao “direito à vida”, expressão maior inscrita na Carta Magna, no Código Civil Brasileiro e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário.

O “presidente” chegou a indispor empresários e escalafobéticos fogueteiros contra o STF, visando aumentar a pressão sobre governadores e prefeitos para afrouxarem o isolamento e o lockdown. Cometeu crime de responsabilidade previsto na Lei nº 1.079/50 (Lei do Impeachment), de acordo com o Art. 4º, ao atentar contra a Constituição Federal e especialmente contra o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais, bem como a segurança interna do país (incisos III e IV).

É crime a “propaganda pública de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social”, conforme o Art. 22 da Lei de Segurança Nacional, ironicamente criada para enquadrar opositores do governo.

Bolsonaro estimulou a invasão da Amazônia por garimpeiros e madeireiros, minimizando o desmatamento e os grandes incêndios; desmontou os mecanismos institucionais de defesa da floresta, além de desprezar o apoio internacional. Uma verdadeira tabelinha com seu infralegal ministro Ricardo Salles, que propõe “deixar passar a boiada”, sem qualquer respeito por seus habitantes indígenas e ribeirinhos, muito menos pela fauna e pela flora. Trata-se de crimes previstos na Lei 9.605 (artigos de 29 a 53), da legislação ambiental.

Aqueles que o elegeram, tal como os ratos do Congresso empenhados no “toma lá, da cá” antes repudiado pelo “presidente”, também são cúmplices das suas caneladas, sem falar na caterva de magistrados coniventes. Por último, no calor da guerra ideológica dos imunizantes, o Messias tem influenciado negativamente a população, espalhando a lorota de que a vacina chinesa contém microchips que podem controlar a mente e transformar a pessoa num jacaré.

Declara repetidamente que não vai se vacinar. Nem precisaria. Bolsonaro já é um camaleão, sobretudo das palavras e dos atos – com todo respeito aos animais da família chamaeleonidae da ordem squamata. O sujeito é capaz de instantaneamente mudar o tom de suas bravatas toda vez que está chegando ao fundo da latrina política em que se meteu.

Enfim, Bolsonaro se assemelha a um produto falsificado por contrabandistas e estelionatários. Não serve como presidente, como capitão e muito menos como jogador de futebol, já que ele só faz gol contra o povo brasileiro, apontando arminha, na ânsia de proteger a prole criminosa com suas asas de galinha pelada. Pelo seu incompatível “histórico de atleta”, certamente não pulou as sete ondinhas de merda do Ano Novo.

*Cesar Teixeira é jornalista e compositor maranhense

Raul Seixas terá tributo no ano em que a Terra parou

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Cantor Wilson Zara realizará show em homenagem ao artista baiano em formato live, no próximo dia 15

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Era uma vez um baiano que acabou ganhando o apelido de Maluco Beleza, por conta do título de um de seus inúmeros clássicos. Esse roqueiro, fã de Elvis Presley e Luiz Gonzaga, previu “O dia em que a Terra parou”, canção que dá nome a seu álbum lançado em 1977.

Raul Seixas (1945-1989) não viveu para ver a pandemia de covid-19 fazer o planeta parar, não por um dia, mas por quase um ano. 2020 foi o ano em que ninguém pode dizer que não cumpriu a lista de resoluções de ano novo por pura falta de vontade. Muitos planos, quase todos, tiveram que ser adiados.

Foi assim também com o já tradicional “Tributo a Raul Seixas”, show anual realizado pelo cantor maranhense Wilson Zara, que desde 1992, quando estreou “A hora do trem passar”, em Imperatriz/MA, presta-lhe as devidas homenagens, sempre por volta da data de seu aniversário de falecimento, em 21 de agosto.

Mas o Tributo vai acontecer, se não nos moldes a que os fãs-clubes – de Raul Seixas e Wilson Zara – estão acostumados, do jeito que o ano e a pandemia permitem: no próximo dia 15 de dezembro (terça-feira), às 19h, em uma live transmitida a partir dos estúdios da TV Guará, raulseixistas de toda parte – graças à transmissão pela internet – poderão acompanhar o desfile de clássicos e lados b, num longo passeio pela vasta obra de Raulzito.

Além de músicas já citadas ao longo deste texto, Wilson Zara e banda – Mauro Izzy (contrabaixo), Moisés Profeta (guitarra), Marjone (bateria), Dicy e Heline (vocais) – passearão por repertório que inclui “Ouro de tolo”, “A maçã”, “Sessão das 10”, “Rockixe”, “Eu nasci há 10 mil anos atrás”, “Meu amigo Pedro”, “Gitâ”, “Sociedade alternativa” e “Cowboy fora da lei”, entre muitas outras. Um show que certamente vai deixar satisfeitos todos os que gritam “toca Raul!”.

Serviço – Realização da Zarpa Produções, o “Tributo a Raul Seixas” tem patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc. A transmissão da live acontece dia 15 de dezembro (terça-feira), às 19h, a partir dos estúdios da TV Guará, pelo site da emissora, além de seus perfis no youtube e instagram, e pelo perfil de Wilson Zara no facebook. A TV Guará apresentará o show em sua programação em data a ser confirmada posteriormente.

Do bar ao vinil

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Ao longo de um ano de “Vinil & Poesia”, a dj Vanessa Serra reuniu a nata da música e poesia produzidas no Maranhão; o resultado pode ser conferido no elepê que leva o nome do projeto

Vinil & Poesia. Capa. Reprodução

Em dezembro do ano passado, em casa de nome mais que apropriado, o Cazumbá Lounge, na Lagoa, a dj Vanessa Serra estreou seu projeto “Vinil & Poesia”, aliando duas paixões.

Já era uma dj consagrada, apesar do pouco tempo de estrada. Jornalista de formação e produtora de profissão, só começou a levar a discotecagem a sério em 2016. Sem firulas, como escrevi em seu release oficial, que tive a honra de escrever a pedido.

Não me peçam impessoalidade: fui o primeiro a subir àquele palco, recitando Paulo Leminski e Marcelo Montenegro, dois poetas de minha predileção, e é impossível não lembrar disso com emoção.

Além dos vinis de seu ofício, Vanessa Serra havia levado uns livros, priorizando autores e autoras maranhenses, instigando o público a participar. O que no início tinha jeito de brincadeira, tomou ares sérios, mas não ficou algo careta. Às quartas-feiras, a tertúlia semanal começou a receber poetas e músicos como convidados, para canjas ao vivo, durante o set da dj.

Aí veio a pandemia. O isolamento social. O lockdown. As inúmeras lives que foram/fomos inventando e reinventando para suportar a saudade da vida social, de ir ao bar, de jogar conversa fora, de ouvir boa música nas companhias de amores e amigos. Entre elas o “Vinil & Poesia”, que Vanessa Serra nunca deixou de fazer, mesmo quando foi obrigada ao formato online.

Somente recentemente, com a liberação de eventos de pequeno porte, observadas as normas de segurança sanitária vigentes, ela voltou a realizar o evento ao vivo, a partir do Cazumbá Lounge.

O projeto já era vitorioso ao estimular o diálogo entre música de qualidade e tirar a poesia do lugar solene da página do livro e levá-la ao bar, para ser dita e ouvida por gente atenta, curiosa e esperta. Gente antenada, enfim. Mas uma vitória de um a zero é menos gostosa que uma goleada e Vanessa Serra marca mais um golaço: 14 participações de artistas nas noites do “Vinil & Poesia” estão registradas em um disco de vinil. É luxo só, como diria o poeta.

“Vinil & Poesia” é uma realização de VS Comunicação e Cultura, com patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc. Gravado no estúdio Zabumba Records, reúne uma constelação de primeira grandeza da música e poesia produzidas em terras maranhenses.

Na ordem de aparição, Lúcia Santos diz seu poema “No umbigo da noite insana”; Célia Leite zabumba em “Pedras de cantaria” (parceria dela com Jorge Passinho, que faz participação especial na faixa); Mano Borges evoca os ares oitentistas da intensa produção musical maranhense daquela década em “Duas ruas desertas”, de sua autoria; “De São Marcos a São José” nos conduz, pelo sotaque, ao Vale do Pindaré, na parceria de Eloy Melônio e Josias Sobrinho, cantada por este; “Esse tu” é mais uma delicada amostra da parceria profícua de Celso Borges e Nosly, que a interpreta; “Tanto fogo” (Jorge Passinho/ Inaldo Lisboa/ Maninho Quadros), interpretada por Dicy, com participação especial de Santacruz, mete o dedo em ferida atualíssima da tragédia brasileira; César Nascimento cantando o xote “João do Vale, minha homenagem”, de sua autoria, fecha o lado A do disco.

O lado B abre com a voz de Celso Borges em seu poema/toada hi-tech “Tambor de crioula”; “Chovia no canavial”, com que Zeca Baleiro presenteou o projeto, ganha interpretação especial do grupo As Brasileirinhas; o multifacetado Jorge Thadeu comparece com “Guajajara”, de sua autoria; “Ventre livre”, de Luís Du Rosário, é a bela estreia em disco de um artista que não encarou a música como profissão, apesar do imenso talento; Gerude relê o clássico “Jamaica São Luís”, parceria sua com Cyba Carvalho; Betto Pereira comparece ao disco para além da embalagem: canta o reggae “Nação vibration”, parceria sua com o jornalista Gilberto Mineiro; e Tutuca Viana fecha o álbum com a balada “Luz de neon”, que escreveu em parceria com João Marques.

A riqueza deste álbum está no atrito entre poesia e música, para além da leitura de poemas com fundo musical e da pergunta mofada “letra de música é poesia?”, num diálogo estimulante entre gêneros, gerações e a diversidade da cultura popular do Maranhão, ao mesmo tempo plural (pela variedade) e singular (certas coisas só existem por aqui).

“Aqui conseguimos reunir um belo roteiro de canções… Acordes e versos, palavras e tons, memórias profundas, alimento para a alma da gente… “Vinil & Poesia”, de fato, é uma imensidão de sentimentos… É coletividade, pertencimento, entrega e amor”, sintetiza a jornalista, dj e produtora Vanessa Serra em texto na contracapa do elepê.

Ela assina a concepção do projeto e direção geral, que tem direção técnica de Maurício Capella (companheiro de arte e vida), direção artística de Luiz Cláudio, direção musical de João Simas, produção executiva de Suzana Fernandes e produção técnica de Joaquim Zion (seu padrinho no ofício da discotecagem). As artes de capa, contracapa e encarte são de Betto Pereira e o projeto gráfico é de Eric Félix. O álbum é dedicado “à memória, vida e obra de Raimundo Nonato Rodrigues de Araújo (Maestro Nonato), Nonato Buzar, Papete e Gérson da Conceição”.

Muita gente procura o bar para espairecer e vai ao lugar certo. Outros afogam mágoas e também não estão no lugar errado. Alguns, no dia seguinte, querem esquecer o que fizeram. Vanessa Serra eterniza um momento bonito e importante, de um projeto frequentado por “gente fina, elegante e sincera”. Agora, mesmo quem não sai à noite, não frequenta bares ou não curte um drinque, pode levar “Vinil & Poesia” para casa. A inscrição “volume 1”, que lemos na capa do disco, já nos leva a responder, como naquele velho rock: mais uma dose? É claro que eu tô a fim.

Serviço – A live de lançamento de “Vinil & Poesia”, com a presença dos artistas que participam do álbum, será realizada dia 16 de dezembro (quarta-feira), às 20h, com transmissão simultânea pelos perfis da dj Vanessa Serra no instagram e youtube. O projeto é uma realização de VS Comunicação e Cultura, com patrocínio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), com recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc.

Gigi Moreira (31/1/1957-10/11/2020)

O artista em seu habitat natural, o palco. Foto: reprodução/ Facebook.

Nunca esquecerei a ocasião em que o percussionista e compositor Erivaldo Gomes me disse: “Gigi Moreira era pra ser nosso Tom Zé”. Referia-se à genialidade da música de Gislenaldo Machado Moreira (31/1/1957-10/11/2020), falecido hoje, após alguns dias internado no Hospital de Cuidados Intensivos (HCI), na capital maranhense – chegou a ser intubado por sequelas da covid-19.

Piauiense de nascimento, Gigi chegou à São Luís ainda na infância. Era graduado em Educação Física (Ceuma) e tinha pós-graduação em Gestão Cultural (Estácio São Luís). Servidor da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) desde 1981 estava à disposição da Secretaria de Estado de Esporte e Lazer (Sedel), onde ocupava o cargo de Chefe do Departamento de Lazer.

Era um artista múltiplo: ator, diretor, cantor e compositor. Foi no campo das artes que deixou sua mais profunda contribuição ao Maranhão. Foi um dos fundadores do Grupo Independente de Teatro Amador (Grita), do bairro do Anjo da Guarda, onde morava, um dos mais longevos em atividade no Maranhão, encenando a Via Sacra pelas ruas da área Itaqui-Bacanga há cerca de 40 anos. O velório acontece esta tarde no Teatro Itapicuraíba, sede do grupo, no Anjo da Guarda.

“A Secma e o secretário Anderson Lindoso prestam condolências aos familiares e amigos do artista nesse momento de tristeza”, manifestou-se a Secma em nota de pesar publicada em seu site.

“O Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal do Maranhão manifesta o seu mais profundo pesar pelo falecimento do artista Gigi Moreira por todas as contribuições culturais ao nosso Estado”, afirmou outra nota de pesar, distribuída pelas redes sociais.

Era um amigo querido, mais um a que a pandemia de covid-19 obrigou a nos virmos com menos frequência do que gostaríamos. Um de nossos últimos encontros presenciais foi por ocasião do lançamento do “Frevo desaforado”, de Joãozinho Ribeiro, que congregou uma constelação de artistas na Galeria Valdelino Cécio, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), pouco antes do carnaval. Com seu habitual sorriso estampado, Gigi Moreira deu sua canja. De outra feita dividimos algumas cervejas na calçada do Botequim da Tralha – também antes da pandemia – ocasião em que conversamos sobre amenidades, projetos e a tragédia que é o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.

Em 2009 estivemos juntos no Fórum Social Mundial, em Belém/PA. No Acampamento Balaiada, Gigi Moreira foi um dos artistas maranhenses a emprestar sua voz para denunciar ao mundo o golpe judiciário então em curso que acabaria por cassar o mandato do então governador Jackson Lago (1934-2011).

Gigi sempre teve lado e nunca escondeu. O assassinato do artista popular Jeremias Pereira da Silva, o Gerô, espancado até a morte por policiais militares, em 22 de março de 2007, instituiu o Dia Estadual de Combate à Tortura, celebrado a todo 22 de março, no Maranhão, por iniciativa da então deputada estadual Helena Heluy (PT).

Em 2008 o bloco tradicional Pau Brasil, do Anjo da Guarda, prestou merecidas homenagens a “Linguafiada”, um dos pseudônimos com que Gerô assinava seus cordéis. O samba-tema, na oportunidade, tinha melodia de Gigi Moreira e Wilson Bozó e letra deles e Ribão, Jeovah França, Josias Sobrinho e este que vos perturba.

Ouçam “Salve Gerô!”:

Agroecologia em tempos de pandemia

Rodada de oficinas debateu conhecimentos e práticas agroecológicas junto a famílias de agricultores/as maranhenses

Orientações na plantação de mandioca durante oficina comunitária em Mirindiba, Codó. Foto: Acervo Cáritas Brasileira Regional Maranhão
Oficina comunitária em Guarimanzal, Belágua. Foto: Acervo Cáritas Brasileira Regional Maranhão

“Agroecologia em tempos de pandemia” é o apropriado tema de uma rodada de oficinas que mobilizou 19 comunidades no Maranhão entre os meses de agosto e setembro passados, com assessoria da Cáritas Brasileira Regional Maranhão. Em um dia e meio de programação em cada uma das oficinas, foi possível aos participantes ter uma formação básica sobre agroecologia e uma visita de campo, com orientações técnicas acerca da atividade produtiva desenvolvida pelo grupo.

Agentes da Cáritas e técnicos agrícolas estiveram nos municípios de Água Doce (comunidades Rancho da Folha e Jabuti), Aldeias Altas (comunidade Gostoso), Amarante (comunidade Água Preta), Belágua (comunidades Guarimanzal e Estiva dos Cangatis), Benedito Leite (comunidade Forquilha), Codó (comunidades Mirindiba e São Benedito dos Colocados), Lago da Pedra (comunidade Nova Unha de Gato), Marajá do Sena (comunidade Água Branca), Riachão (Assentamento Alegre), São Raimundo das Mangabeiras (Assentamento Nova Descoberta) e Vargem Grande (comunidades Riachão, Riacho do Mel, Sororoca, Piqui da Rampa e Cooperativa Agroextrativista dos Pequenos Agricultores de Vargem Grande–Coopervag).

Entre as atividades desenvolvidas pelos grupos produtivos estão plantio de melancia e mandioca, melhorias em casa de farinha, hortas comunitárias, criação de peixes e aves e o beneficiamento de polpa de frutas.

“Entre os conhecimentos e práticas agroecológicas discutidas com as comunidades estão o uso de plantas para a fabricação de defensivos naturais, a fabricação de ração artesanal utilizando insumos da própria produção, como folhas e cascas de mandioca para alimentação de peixes e pequenos animais”, relata Ivo Rodrigues, um dos oito técnicos agrícolas que ministrou o conteúdo das oficinas. “Discutimos também questões ambientais, econômicas e sociais, conflitos nos territórios e a importância de eles estarem organizados em associações e produzindo alimentos de forma agroecológica para permanecerem no local, resistindo às ofensivas de latifundiários e do agronegócio”, completou.

Mais de 200 pessoas participaram do processo formativo, que integra o acompanhamento e formação dado pela Cáritas às comunidades, através da parceria com a Fundação Interamericana (IAF). A metodologia levou em conta as normas de segurança sanitária impostas pela pandemia da covid-19 – a maioria absoluta das atividades aconteceu em local aberto, observando-se o uso de máscaras, álcool em gel e distanciamento social.

Todos os grupos incluídos neste processo formativo foram beneficiários de repasses do Fundo de Crédito Rotativo, efetuados desde março do ano passado. Esse conjunto de ações integra o convênio entre as duas instituições para o “Fortalecimento e ampliação das ações da Rede Mandioca no Maranhão”.

“Esse conjunto de ações e estratégias desenvolvidas junto às famílias de agricultores/as, extrativistas, quilombolas, posseiros e assentados tem como horizonte maior a valorização da agricultura familiar associada a ações de economia solidária no campo, trazendo alternativas de trabalho, renda, segurança alimentar e melhorias nas condições de vida dessas famílias, além de contribuir para movimentar a economia local. Com essa formação, esperamos que estes segmentos assimilem novas práticas produtivas, que respeitem e valorizem o meio ambiente e proporcionem um alimento saudável para suas famílias e os demais consumidores da produção da agricultura familiar”, afirma Lucineth Cordeiro Machado, assessora regional para a economia solidária na entidade.

“Há poucos dias nós tivemos uma oficina sobre agroecologia. Quero destacar a importânciaque foi esse projeto para nossa comunidade, para os membros do projeto. Ela trouxe algo que veio nos conscientizar, trazer conhecimento de algo que nós já queríamos trabalhar aqui há muito tempo, mas não conhecíamos o caminho a ser seguido, que era o combate ao agrotóxico. Com essa oficina as pessoas ficaram conscientizadas, animadas, já aprenderam a fazer seus defensivos, todo mundo alegre e satisfeito. O resultado é que com essa oficina, com o conhecimento, a gente vai combater as pragas de outra forma. A gente vai ter uma alimentação saudável, proteger mais o meio ambiente como um todo, as águas que estavam sendo poluídas pelo agrotóxico. Foi um momento muito rico, muito importante, que nos deixou uma grande esperança, a gente só tem muito a agradecer, por que trouxe esse conhecimento que a gente estava precisando: as pessoas trabalhavam com agrotóxico não por maldade, mas por falta de conhecimento. A gente trabalhou na teoria e na prática e eu acredito que daqui pra frente a nossa comunidade vai mudar em muitas coisas, principalmente na proteção ao meio ambiente e na nossa alimentação”, declarou dona Expedita, membro da Rede Mandioca e articuladora do projeto IAF, na comunidade Água Preta, no município de Amarante.

A reflexão de dona Expedita faz todo sentido. A pandemia de covid-19 é um chamado à população mundial à reflexão: a agricultura industrial tem adoecido gerações, gerado impactos e desequilíbrios ambientais e é o pequeno produtor quem põe alimento saudável e a preço justo na mesa do brasileiro. Repensar as formas de convivência com a natureza e a própria alimentação é um caminho que precisa urgentemente ser levado em consideração por todos.

[A convite do Secretariado Regional da Cáritas Brasileira no Maranhão escrevi a matéria acima, também publicada no site do Secretariado Nacional da entidade e no JP Turismo, Jornal Pequeno de ontem (6), gracias, Gutemberg Bogéa!]

“Botei todos os fracassos nas paradas de sucesso”

Durante o período de isolamento social imposto pela pandemia da covid-19 participei de dois editais/concursos: o de minicontos do Itaú Cultural, cujo texto com que concorri já compartilhei por aqui com os poucos mas fiéis leitores; e o 8º. concurso de poemas das farmácias Pague Menos.

Não ganhei nem um nem outro (neste último nem algum prêmio em dinheiro para os cinco primeiros lugares, nem a participação na coletânea para os 100 primeiros); mas roubo o verso de Caetano Veloso, de uma de minhas faixas prediletas [Épico] de um de meus discos prediletos [Araçá azul, de 1972] do velho baiano, para mostrar-lhes o poema com que concorri, já que não escrevo nada para gavetas, sejam poemas, letras de música, matérias, reportagens ou entrevistas, não necessariamente nessa ordem.

O poema é, obviamente, dedicado a Guta Amabile, com amor, e o título decorre do tema da edição do concurso este ano, “Viva plenamente”.

AMOR PLENO

Andar pela calçada,
nós dois de mãos dadas
sentindo os pingos da chuva
molharem as lentes.
Beijo-te e tudo embaça
e no banco molhado da praça
sinto-me vivendo plenamente.

A vida só faz sentido
se vivida com intensidade.
De você, quero amor,
passado ficou na saudade.
Dor se cura com remédio,
aventura cura tédio,
mas ficção não cura realidade.

Por isso digo agora
o que quero para sempre.
Quero o teu amor
para poder viver plenamente.
Nada adianta pelo meio:
você, minha metade, me faz cheio.
Contigo eu quero ser eternamente.

This is true

Retrato: Zema Ribeiro
Retrato: Zema Ribeiro

Há alguns dias saímos em missões por shoppings e Rua Grande para fazer uns “mandados” da mãe dela, cumprindo rigorosamente o isolamento social imposto pela pandemia de covid-19.

Entramos em diversas lojas e, munidos das especificações, procurávamos roupas para a sogra, com a vida à distância, como requer o momento, facilitada pela comunicação via aplicativos de bate-papo.

Numa delas saquei o celular e fotografei o vestido colocado em frente ao corpo, por cima da roupa mesmo, espécie de meio-manequim vivo. Encaminhei a foto à sogra e comentei com a filha: tua cara tá ótima! Rimos.

Só depois me toquei que no vestido está escrito “isto é verdade” em inglês, mais uma dessas coincidências (Deus ou acaso, chamem/os como queiram/os) com que a vida tem nos presenteado desde que a vi pela primeira vez.

Minha modelo predileta surgiu assim para mim naquela tarde quente de domingo cuja história já devo ter contado muitas vezes para amigos íntimos e outras tantas aos poucos mas fiéis leitores. Aliviava o calor com uma cerveja gelada quando ela passou na calçada defronte o Botequim da Tralha, os paralelepípedos da Godofredo Viana transformados em passarela. Não era concurso de miss por que em meu coração ela é hors concours.

O faro detetivesco que de algum modo me deu o jornalismo se responsabilizou pelo resto: perguntar quem era, tão linda, e correr atrás e contar com um pouco de sorte. A vida é gangorra ou montanha russa, com seus altos e baixos – tê-la ao lado torna os obstáculos mais fáceis de transpor, apesar do sedentarismo mútuo, entre horas vendo séries, arrumando (e vendouvindo) livros e discos, cuidando de plantas, botando água para garantir a visita diária e colorida dos passarinhos com seu barulhinho bom, não necessariamente nessa ordem, nesse quase um ano.

Ambos tomamos café sem açúcar e o fim da xícara guarda a porção mais amarga, dada a proximidade com a borra. Esse texto, intencionalmente mais doce que guaraná Jesus, poderia aumentar as taxas de glicose dos leitores, ainda mais os ressacados numa manhã de sábado – como misteriosamente não está o autor.

Na falta de fecho adequado, aproveito para mostrar um poema que escrevi para ela há um tempo, que o parceiro Gildomar Marinho me deu a honra de musicar – está em seu novo disco, Estradar, a (quase) inédita Amor ateu (é a terceira música do vídeo, começa aos 6’17”; tentei programar, mas o youtube está me pregando alguma peça; peço que pulem aí manualmente, mas quem quiser ouvir as três, está valendo também).

Reencontro

Retrato: Guta Amabile
Retrato: Guta Amabile

És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho, nos ensinou um antigo compositor baiano, sobre o tempo.

Ontem ele veio me visitar, após meses nos falando apenas por videochamadas, imposição do isolamento social, por sua vez imposto pela pandemia da covid-19. Novos tempos, novos hábitos.

Distância não é sinônimo de ausência.

Mas as videochamadas não me permitiam perceber o quanto meu filho cresceu nesse tempo. Como está comprido, admirou-se a avó, que, no passeio ligeiro com ele, levei para visitar, ela também há tempos sem vê-lo pessoalmente.

Ele riu o trajeto inteiro, para minha surpresa – achei que fosse estranhar mais, diante da quebra da rotina. Em casa, da janela lateral do quarto de dormir, vimos a ponte e suas luzes com seu trânsito como se (já) estivéssemos em dias normais, vimos a árvore e as plantinhas; infelizmente não vimos os passarinhos, pois já era noite.

Brincamos um pouco com um Cebolinha “vintage”, um boneco que eu tenho desde que tinha mais ou menos a idade do menino, um boneco que você abaixa a aba do boné e ele muda as feições – são quatro, do alegre ao zangado. Como o menino, que da gargalhada mais gostosa, muda para o aborrecimento, a reivindicar os vídeos com as músicas que tanto aprecia.

Deu tempo de verouvir Vanguart, Beatles, Partimpim e os Muppets relendo o Queen – juro que a rima não foi intencional (mas as coisas se deram exatamente nessa ordem).

Saindo de casa apenas por extrema necessidade, vejo muita gente a descumprir as normas sanitárias de uso de máscaras ou distanciamento social – certamente gente que não perdeu nenhum parente ou não sentiu saudade de um filho.

Se liga nas lives!

Como eu já disse aqui, a onda agora é live!

Hoje (30), no Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, tive a honra e o prazer de conversar com Juliano Gauche. Amanhã, às 16h, ele se encontra com Tatá Aeroplano para uma live que eu reputo histórica: o encontro de dois dos mais talentosos artistas de sua geração. Vale muito conferir!

A quem perdeu o programa, eis a íntegra, incluindo o anúncio de outras lives muito interessantes por estes dias. Na TimbirAlive de quinta que vem conversarei com Jotabê Medeiros. Não percam!

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