Barulho!

O imorrível Di Melo ontem na Praça da Criança. Foto: Marco Aurélio/ BR 135
O imorrível Di Melo ontem na Praça da Criança. Foto: Marco Aurélio/ BR 135

 

Barulho foi a palavra mais repetida por Di Melo ao longo de seu histórico show, ontem (26), na Praça da Criança (Praia Grande), na segunda noite da programação do Festival BR 135. Era uma saudação, referindo-se ao próprio som: “barulho para estes músicos maravilhosos!”, “barulho para todos vocês que vieram até aqui”.

O pernambucano esbanjou vitalidade, suingue e simpatia e não cansou de agradecer à produção do BR 135, leia-se o duo Criolina, Alê Muniz e Luciana Simões, pela oportunidade de se apresentar pela primeira vez na ilha.

Lenda vivíssima, a história é bastante conhecida: Di Melo lançou um excelente disco de estreia em 1975, mas o álbum demorou décadas para ser cultuado. O show de ontem foi majoritariamente baseado nesse repertório e o ótimo público cantou tudo junto a plenos pulmões.

Di Melo havia sumido do mapa e sido dado como morto. Reapareceu e assumiu a alcunha de Imorrível, título de seu segundo álbum, digamos, oficial, lançado este ano – o site do artista lista outros nove discos caseiros, feitos ao longo destes mais de 40 anos de carreira.

Ontem subiu ao palco trajando boina, óculos escuros e uma camisa com sua própria efígie – anunciando que na banquinha ao lado do palco era possível comprar camisas, CDs e LPs –, acompanhado de uma competentíssima banda local: João Paulo (contrabaixo), Fofo (bateria), Rui Mário (teclado), Hugo Carafunim (trompete), Danilo Santos (saxofone) e João Simas (guitarra). “Músicos maravilhosos, a gente teve 40 minutos de ensaio”, elogiou, tirando onda.

Além de Di Melo [1975] o repertório trouxe quatro músicas de Imorrível [2016]: Dioturno, que ele dedicou ao parceiro Waldir da Fonseca, recém-falecido (o outro parceiro é B.Negão, que no disco participa da faixa), Barulho de Fafá (na sequência de Se o mundo acabasse em mel, do disco inaugural, a música que também tem mel na letra: “Parei na filha da dona Emília e do seu Antônio/ ela é bonita e tem mel de abelha no olhar”, começa), Navalha e Milagre (quando tocou violão), agradecendo novamente ao público e à produção, tocando um reggae (parceria com Larissa Luz, que participa da faixa no disco) justo na Jamaica brasileira.

Não faltaram os hits Kilariô (que abriu e fechou a apresentação, a única do bis), A vida em seus métodos diz calma, Aceito tudo (Di Melo/ Vidal França), Minha estrela, Má-lida e Pernalonga.

Pouco depois da metade do show, Di Melo mandou, outra vez referindo-se ao entrosamento com a banda: “Estamos fazendo o podível e o impodível e nada é impodível para o Imorrível”. Está explicada a magia.

Os tropicalistas de hoje em dia

O trio durante o lançamento de Melhor do que parece, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Foto: Thany Sanches
O trio durante o lançamento de Melhor do que parece, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Foto: Thany Sanches

 

Em texto sobre a banda em seu site, O Terno se apresenta como um “power-trio de canção-rocknroll-pop-experimental de São Paulo”, mas é claro que é bem mais que isso. Há ecos das décadas de 1960 e 70 em seu som, sobretudo da Tropicália, mas longe de cheirar a mofo ou a um de seus antídotos, a naftalina.

Não são pautados pelo saudosismo – a propósito, de um tempo em que nem viveram, mas que conhecem bastante pelos discos e pela história – e atualizam o movimento, reprocessando suas influências explícitas.

Melhor do que parece. Capa. Reprodução
Melhor do que parece. Capa. Reprodução

Tim Bernardes (guitarra e voz), Guilherme d’Almeida (contrabaixo) e Biel Basile (bateria) acabam de lançar seu terceiro disco, Melhor do que parece [2016]. Sábado passado (19) estiveram na Ilha, para um show no Cidade Velha Pub – elogiaram o público ludovicense.

As citações à Tropicália, veremos, não são despropositadas, nem mera mania de crítico de encontrar um antecessor a qualquer novidade que apareça. O trio agradou a Tom Zé, um dos nomes mais interessantes do movimento, ainda na ativa – acaba de lançar, aos 80 anos, Canções eróticas de ninar [2016]. O Terno participou do EP Tribunal do feicibuque [2013] e do álbum Vira lata na via láctea [2014] – em ambos há parcerias de Tim e Tom.

Por motivos de força maior, Homem de vícios antigos não esteve na plateia dO Terno, sábado passado. Mas o blogue entrevistou Guilherme d’Almeida por e-mail – a ideia era publicar o papo antes do show, mas as respostas só foram recebidas depois da passagem do grupo pela cidade.

O início da carreira de vocês, com covers de Beatles e Mutantes, colaborou para a aproximação com Tom Zé, de quem vocês já participaram de discos?
Participar de gravações com o Tom Zé foi uma grande honra para nós. O convite veio através do [jornalista e produtor musical] Marcus Preto, que reuniu artistas da nova geração para gravar no EP Tribunal do feicebuqui, onde participamos de duas músicas. O trabalho ainda rendeu mais algumas gravações que foram incluídas no disco Vira lata na via láctea. Sobre o início da banda não sei dizer se o fato de um dia termos tocado músicas de outros artistas colaborou para o encontro, mas foi uma boa escola para aprender mais sobre arranjos e sonoridades, apesar de O Terno nunca ter sido uma banda cover.

66, seu disco de estreia figurou em várias listas de melhores em 2012 e lhes deu vários prêmios. Ao fazê-lo vocês tinham noção da seriedade da coisa ou essa repercussão toda lhes causou surpresa?
A repercussão do nosso primeiro disco foi muito boa para nós, que ainda estávamos começando nossa trajetória. O clipe de 66 foi um grande diferencial nessa fase, pois chegamos em públicos que não imaginávamos através do compartilhamento na internet. Acho que não tínhamos muita ideia de onde o disco poderia chegar, mas fizemos todo o trabalho com muita seriedade e planejamento, pensando repertório, clipes, datas de lançamentos e show com o intuito de levar o som o mais longe possível.

O segundo disco de vocês, que leva apenas o nome da banda, é autoral e foi realizado graças a financiamento coletivo, mecanismo a que cada vez mais artistas têm recorrido. Em tempos de golpe e crise, como vocês preveem o futuro da música independente no Brasil?
Acho que essa cena indie no Brasil está cada vez mais autodidata e, de fato, independente. O caminho pela frente parece bem obscuro, mas acredito que os músicos e o público saberão criativamente driblar essas adversidades.

As influências da Tropicália seguem em Melhor do que parece. É intencional ou é algo do qual simplesmente vocês não conseguem se desligar, de tão introjetado em seu DNA musical?
Não acho que seja intencional ou ocasional, é apenas uma questão estética que nos agrada. O disco traz diversas referências para alem da Tropicália: as gravações da Motown e da Capitol, bandas e artistas atuais como [o cantor, compositor e multi-instrumentista canadense] Mac de Marco, [a banda americana] Fleet Foxes, entre outras. Não costumamos pensar em influências como fórmulas diretas para isso ou aquilo, mas nossa formação musical tem uma base grande em comum, o que resulta em arranjos, timbres, formas que remetem certos períodos ou artistas.

E sobre São Luís, quais as impressões sobre esta primeira vez dO Terno na Ilha?
Foi quente! Público muito atencioso, cantando as músicas junto e um dos maiores calores que já passamos em cima do palco!

Veja o clipe de Culpa (Tim Bernardes):

Um convite à felicidade

Confissões de camarim. Capa. Reprodução
Confissões de camarim. Capa. Reprodução

 

O Brasil é um país de cantoras e Blubell é uma das mais originais deste vasto universo entre as surgidas neste início de século. Quem tiver ouvidos, ouça: Confissões de camarim [2016], seu quinto disco de carreira, é uma confirmação disso.

Luz vermelha, clima de cabaré, mas sem fossa, Blubell estreita a aproximação com o universo do jazz, que permeia todo o disco, inteiramente composto solitariamente por ela – as exceções são Pretexto (de Pélico e toco.na.escuta) e A tardinha, parceria com Zeca Baleiro, cantada em dueto com o maranhense, inexplicável e infelizmente ausente da versão física do disco.

Vida em vermelho, que abre o álbum, é um abolerado ska com diminutivos de bossa nova: “ando acordando cedinho/ junto com os passarinhos/ e nem é porque o dia tá brilhando/ brilhando estão meus olhinhos”, canta, para deixar os ouvintes com um brilho bobo nos olhos.

“Diva é a mãe”, afirmou no título de um disco anterior [2013], mas é impossível não classificá-la assim. Canta em português e inglês com igual desenvoltura – em 2012, pelo ótimo Blubell & Black Tie, levou o Prêmio da Música Brasileira de melhor álbum em língua estrangeira –, acompanhada por Estevan Sinkowitz (guitarra), Daniel Grajew (teclados), Carlinhos Mazzoni (bateria) e Márcio Arantes (contrabaixo, guitarra, samples e produção) e Igor Pimenta (contrabaixo), a banda base, com aparições de Mário Manga (violoncelos em Another day e vocais em Bolero do bem).

Bolero do bem é uma anti-fossa: “essa ideia de louco/ de juntar trapos sem muito esperar/ dividir teto sem ir pro altar/ e não podia ser outro lugar/ agora esse é meu lugar/ pois eu sei/ que você só me faz bem”.

We’re all alone, como entrega o título, trata de solidão. Com adesão de Moustache e os Apaches, é cheia de referências – Bonnie, Clide, Al Capone, François Truffaut, Antoine Doinel, Brigitte Bardot e Emanuelle “estavam todos sozinhos”, diz a letra em inglês.

Para aplacar a solidão e a consequente tristeza, Confissões de camarim na vitrola. “Se a vida anda cheia de sombra/ vamos tratar de acender mais luz”, convida Blubell em No camarim, para em seguida afirmar, anti-bossa nova: “aqui no meu camarim/ não tem vibração ruim/ aqui tristeza tem fim sim”.

Veja o clipe de Vida em vermelho (Blubell):

#ocupafeira

Patativa e Turma do Vandico farão três horas de samba na Feira da Praia Grande, na programação do Festival BR 135

Há dois anos, em novembro, a compositora Patativa realizava um sonho: pelas mãos do conterrâneo Zeca Baleiro, lançava Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia, que contou com participações especiais de Simone e Zeca Pagodinho, dois cantores de sua admiração, além do maranhense, idem.

Seu primeiro disco era há muito aguardado por um séquito de fãs e conhecidos que Patativa acumulou ao longo dos anos em que inventou e aprimorou o que ela mesmo chama de “samba de cachaceiro”, sambas de letras propositalmente curtas para evitar o risco do esquecimento numa manhã de ressaca.

Prestes a completar 80 anos, em 2017, quando lançará seu segundo disco, também produzido por Zeca Baleiro, Patativa esbanja, além do galho de arruda na orelha esquerda, uma saúde de ferro, de fazer inveja a muito jovem trabalhado na academia. Consultas e exames, aliás, contradizem a maledicência provinciana que lhe imputa o mal de Alzheimer – o HD privilegiado de Maria do Socorro Silva, nome de batismo da pedreirense, arquiva mais de 200 composições nos mais variados estilos, que o público conhecerá no sucessor de Ninguém é melhor do que eu, que privilegiou o universo do samba, vertente pela qual é mais conhecida.

A exceção, no primeiro disco, era Xiri meu, cacuriá malicioso, batizado pelo apelido maranhense dado à genitália feminina, que acabou por emprestar título a um documentário curta-metragem de Tairo Lisboa, que obteve algum êxito no circuito de festivais de cinema do Brasil. A música que fecha Ninguém é melhor do que eu é, no final das contas, um quase-samba de empoderamento feminino, que, no universo geralmente machista do samba, coloca as mulheres em seu devido lugar: fazendo o que quiserem, quando quiserem, com quem bem entenderem.

O Mercado das Tulhas ou Feira da Praia Grande, espécie de segunda casa de Patativa, que ela visita com frequência, tirando onda com feirantes, habitués e turistas, será o palco em que a madredivina dama estará à vontade, na companhia da Turma do Vandico, um dos mais longevos grupos de samba da Ilha.

A grande roda de samba e sorriso acontecerá no próximo sábado (26), a partir das 15h (a previsão é que siga até 18h), com entrada gratuita – a exemplo de toda a programação do Festival BR 135 e do Conecta Música, evento paralelo de formação e debates.

Patativa passeará pelo repertório de seu disco de estreia e do próximo (já gravado!), além levar ao público inéditas de seu cofo fundo e versátil de composições.

Há alguns anos o BR 135 e o Conecta Música ocupam com arte e discussões sobre seus rumos diversos espaços da Praia Grande, valorizando o patrimônio arquitetônico, cultural e humano. Alê Muniz, seu idealizador e organizador, ao lado de Luciana Simões, com quem forma o duo Criolina (que lança disco novo ainda este ano), reconhece o “formato de feira” do Festival, que este ano tem as ocupações culturais destes tempos temerários, mas não só, entre os temas de debate. Entrar na Feira, literalmente ocupá-la, é mais um acerto, que se soma a vários outros na estrada que o BR 135 já percorreu até aqui. Ainda mais com Pattaiva e a Turma do Vandico de cicerones.

Um quarteto fantástico dobrando na praça da basílica

Dobrando a Carioca - Ao vivo. Capa. Reprodução
Dobrando a Carioca – Ao vivo. Capa. Reprodução

Em meio a suas carreiras solo e outros projetos, o espetáculo Dobrando a Carioca já é apresentado há 17 anos. Zé Renato, Jards Macalé, Guinga e Moacyr Luz se apresentam hoje (6), às 22h30, na programação especial que celebra os 70 anos do Sesc, encerrando o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, na praça da Basílica do município. Produção de Tutuca Viana, o evento tem patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

A ideia de Moacyr Luz, que convidou os demais, vingou e acabou enveredando pelo samba, faceta comum presente às obras dos quatro. A apresentação de hoje ganha um sabor especial: acabam de sair o cd e dvd Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], gravado em dezembro passado no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro. São José de Ribamar será o primeiro município em que os fãs poderão adquiri-lo e pegar autógrafos.

O repertório equilibra-se entre temas autorais e músicas de artistas reverenciados pelo quarteto. Não faltam clássicos como Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé) e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), sucesso do grupo vocal Boca Livre.

Também comparecem Pixinguinha (Um a zero, que abre o show, parceria com Benedito Lacerda, que ganhou letra de Nelson Angelo), Padeirinho da Mangueira (Favela, parceria com Jorge Pessanha), Manezinho Araújo (Como tem Zé na Paraíba, parceria com Catulo de Paula, sucesso de Jackson do Pandeiro) e Geraldo Pereira (Acertei no milhar, parceria com Wilson Baptista), entre outros.

Com o tempo espremido entre um último ensaio, num salão do hotel em que estão hospedados, e a saída para o almoço e a passagem de som, Homem de vícios antigos conversou com o quarteto. Em tempo curto, os quatro desataram a falar, esbanjando bom humor, tirando sarro uns com os outros, tornando quase desnecessárias as perguntas do repórter. A entrevista começou com uma declaração de Macalé.

Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)
Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)

Jards Macalé – Eu declaro a independência do Brasil.

Como é conciliar a agenda do Dobrando a Carioca com suas carreiras solo e outros projetos?
Zé Renato – A gente vem tentando incluir o Dobrando a Carioca na nossa história profissional, na nossa trajetória. A gente tem um carinho muito grande pelo trabalho, o que dá uma motivação maior ainda.
Moacyr Luz – Uma coisa que eu nunca pensei: o Dobrando a Carioca é um exercício de despojamento que cada um de nós tem. Cada um tem sua carreira solo, faz seus shows individuais, o Zé com as coisas dele, eu com meus sambas, o Guinga, o Macalé. Quando chega aqui a gente troca mais.

É um show devotado ao samba? Foi um desembocar natural?
Zé Renato – A gente exercita a percussão. O foco maior é no samba. Não foi feito com essa intenção. É samba assim, vamos considerar o Um a zero um samba do Pixinguinha. Tem samba-canção, Como tem Zé na Paraíba, tem música que foge.
Moacyr – Guinga é o cara que gravou com Cartola, As rosas não falam, gravou com João [Nogueira], Beth Carvalho, Clara Nunes.
Guinga – Compositor brasileiro que não gosta de samba não é compositor.
Moacyr – [para Macalé] Você fez o 4 batutas e 1 coringa [disco de intérprete de Macalé de 1987, dedicado ao repertório de Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola].
Macalé – Sim.
Guinga – [para Macalé] Tem um elemento forte, virou disco [Jards Macalé canta Moreira da Silva, de 2001], o Moreira da Silva na tua vida.
Zé Renato – O Um a zero surge dessa ideia, a gente abre o show com Um a zero por causa dessa ideia de bater uma bola [a produtora Memeca Memeca Moschkovich adentra o salão com cds e dvds na mão].
Macalé [gritando] – Deixa eu ver! A gente sente saudade uns dos outros. Eu sinto saudades deles, eles dizem que sentem saudades de mim.
Zé Renato [para Moacyr Luz] – Você sente saudade do Macalé?
Moacyr [em tom de galhofa] – Não.
Guinga – [gargalhadas]
Zé Renato – [gargalhadas]
Macalé – Ele é um sincericida.
Guinga [rindo] – Eu odeio o Macalé. Nós estamos aqui para ver se a gente se mata. Quando Moacyr convidou a gente, isso é uma coisa engraçada, ele falou assim pra gente, “vê lá, vocês têm que ter paciência um com o outro”. Pô, criador de problemas zero [referindo-se a Macalé]. Nunca tivemos um problema. Nenhum problema.
Macalé – Como não? E quando a gente se desfez lá em Fortaleza?
Guinga – Você disse que ia seguir carreira solo [gargalhadas]. Esse filho da puta, saiu uma porrada de matéria em tudo quanto é jornal, com a foto dele na capa, ele ficou nervoso. Eu me lembro que foi muito engraçado, a gente estava no café da manhã e ele não se uniu com a gente.
Macalé – Mentira!
Moacyr – A gente tava no lobby do hotel e ele chega [imita Macalé puxando uma mala com rodinhas e gargalha]
Guinga – [gargalhadas] Dois dias depois a gente chega no Rio de Janeiro, tinha saído uma foto dele nos jornais, com a perna cruzada, com uma meia preta, quadriculada. Dois dias depois, quem está sentado no calçadão, pernas cruzadas, com a mesma meia da fotografia? Esse maluco! Eu digo, não é possível! Mas você pode perguntar uma coisa a ele: essa galera aqui, tudo amigo, não cria problema, tudo humilde. Não é, Macalé?
Macalé – [enfático] Não! [gargalhadas gerais]

Você também é um sincericida?
Macalé – Eu amo esses caras.
Moacyr – Outra coisa engraçada, a gente foi fazer o primeiro ensaio, fizemos o primeiro show, começamos a viajar e a primeira coisa que eu via era hotel e horário, pra não chegar atrasado. E eu falei: “Macalé, olha você!” E o Macalé todo dia chegava 20 segundos antes do horário [risos], “eu sou o primeiro, hein? Cheguei primeiro”.
Macalé – Hoje eu cheguei primeiro.
Guinga – Você só é indisciplinado artisticamente. Mas como homem, como cidadão, é super sério. Por que artisticamente você não tem vontade de ensaiar, você esquece o tom da música. Hoje quando você perguntou [imitando Macalé]: “lá menor ou si menor?” Eu ri muito por dentro. Eu digo: há 17 anos esse filho da puta toca essa música sozinho. Você tem defeitos e tem qualidades. A gente pode falar bem da gente?
Macalé – Agora vamos à entrevista.

Claro! Além de todos já terem vindo aqui com outros projetos, qual a relação de vocês com o Maranhão?
Guinga – Eu conheci João do Vale muito jovem. Eu era aluno de Jodacil Damasceno e ele tinha um assistente, João Pedro Borges. Depois eu passei a ter aulas com João e esses caras mudaram a minha cabeça em 180 graus, impressionante. Me mostraram a música brasileira que eu não conhecia, me mostraram o violão que eu não conhecia. Eu não sabia quem era Leo Brouwer [violonista e compositor cubano], eu me formando em odontologia. Esses caras foram muito importantes. Isso influencia minha música até hoje. Eu passei a tocar violão por causa deles.
Zé Renato – Meu primeiro contato com a música do maranhão foi o Popó [o compositor Cláudio Valente] e o Sérgio Habibe [compositor, de quem o Boca Livre gravou Boi danado], quando eles se apresentavam com o Papa Légua [músico], no show Mostração.
Macalé – Eu trabalhei uma vida com João do Vale no Opinião [show que o maranhense dividiu com Zé Keti e Nara Leão]. Eu fui casado com uma irmã de Turíbio [Santos, violonista], você quer mais relação do que isso? Eu toco num violão que foi de Turíbio, com que ele ganhou prêmio internacional na França. Até hoje ele pergunta: quanto você quer no violão? João Gilberto tentou roubar, mas eu recuperei. Ele foi fazer um concerto no Rio de Janeiro e estavam procurando um bom violão. Eu emprestei, com a condição de que no dia seguinte à apresentação o violão estivesse de volta no meu apartamento. Depois eu fiquei lendo as manchetes sobre o espetáculo, passaram dois dias e nada, eu fui bater no hotel. Comprei umas goiabinhas e fiquei comendo ali embaixo, até que apareceu o Otávio Terceiro [empresário de João]. Ele disse: “João adora goiabinha”. Ele subiu, entrou no quarto e trouxe o violão. Eu troquei meu próprio violão nas [aumenta o tom de voz] minhas goiabinhas [Zé Renato gargalha]. Nesse violão só tocaram Turíbio, Paulinho da Viola, João Gilberto e eu.

Uma jangada carregada de poesia

Escrito nas jangadas. Capa. Reprodução
Escrito nas jangadas. Capa. Reprodução

Escrito nas jangadas [2016] marca os cerca de 40 anos de parceria dos cearenses Eugênio Leandro e Márcio Catunda. O primeiro, cantor, compositor e instrumentista; o segundo, poeta, hoje morando na Argélia, na burocracia da diplomacia.

Desde a presença implícita no título, o mar é o personagem/paisagem mais constante, citado em quase todas as faixas, todas assinadas em parceria pela dupla – Grandes esperanças é assinada ainda pelo também cearense Nonato Luiz (que toca violão na faixa). Mas engana-se quem pensar que é um disco monótono – como não o é o vai e vem das ondas do mar.

Minha rua abre o disco com os tons da melancolia da saudade da infância, pontuada pelos violinos de Paulo Leniuson e Humberto Castro, arranjados por Tarcísio Lima. A faixa seguinte, que intitula o disco, lembra as noites de boemia e o vagar a pé pelas madrugadas de uma Fortaleza de outrora. A rica fortuna crítica do encarte ajuda a compreender melhor a parceria e alguns contextos.

Leandro e Catunda são de outra geração, mas é impossível negar a influência da música do chamado Pessoal do Ceará sobre o conjunto de canções de Escrito nas jangadas – como de resto sobre toda a produção cearense a partir de então. Novamente convém observar que isso não significa estarmos diante de uma cópia pura e simples de nomes como Ednardo, Fagner ou o desaparecido Belchior.

O disco é também uma celebração a uma geração ainda mais nova. Nomes como os cantores Fernando Neri (voz em El Malecon Cisneros), Clarice Trummer (voz em Arrebol), Gero Camilo (sim, o ator também é cantor e compositor – voz em Sortilégio marítmo) e Izaíra Silvino (voz em Grandes esperanças) formam um pequeno panorama da boa música produzida hoje no Ceará.

A poesia de Márcio Catunda se assenta no canto de Eugênio Leandro (voz e violão), com o acompanhamento de Lu de Sousa (violão, viola, contrabaixo, teclado), Igor Ribeiro (percussão), Rossano Cavalcante (percussão), Ricardo Pinheiro (bateria) e Nonato Lima (sanfona).

A onírica Ermo, que fecha o disco, leva o ouvinte a uma viagem por Cuba, guiado pelos sopros de Carlos Montanha (trompete) e Rômulo Santiago (trombone e arranjo de metais). Canto provinciano, que a antecede, remete ao início da parceria – a música deu título a um show de Eugênio Leandro em 1981, no auditório da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Daquele show participaram outros artistas, entre os quais o poeta Márcio Catunda.

“A infância do destino e da beleza/ são os versos da esperança/ são as faces da lembrança/ dos mares de Fortaleza”, diz a letra, cujo sabor nostálgico nos dá uma certeza: continuam belos os mares da capital alencarina e a obra consistente de Eugênio Leandro – que neste disco divide os créditos com Márcio Catunda.

Passeando por jazz e blues sem perder o próprio estilo

Retrato: Ben Mendes

 

A primeira vez que ouvi Ceumar foi completamente por acaso: flanava pela Rua de Santana (Centro), quando entrei numa loja de discos hoje extinta e me deparei com Dindinha [1999], cuja capa, desenhada pelo artista pernambucano Romero de Andrade Lima, dava vida à protagonista da canção de Zeca Baleiro, que produziu seu disco de estreia, inspirada na morna Sodade (Armando Zeferino Soares), sucesso do repertório de Césaria Évora, a musa de pés descalços cabo-verdiana.

Até então eu nunca tinha ouvido falar em Ceumar ou em seu disco. Quando virei o cd, deparei-me, na contracapa, com os nomes de Zeca Baleiro, Josias Sobrinho, Itamar Assumpção, Sinhô, Luiz Gonzaga, Chico César, Jacinto Silva e outros. Era a senha: levei sem pestanejar.

Foi paixão à primeira audição, o que aconteceu com muita gente e continua acontecendo até hoje: há quem descubra Ceumar e quem se apaixone ainda mais a cada disco novo. Ela não precisou de mais que Dindinha para mostrar a que veio: cantora, compositora (faceta que só revelaria em outros discos, depois), instrumentista, firmou seu nome entre os grandes da MPB em qualquer tempo.

A Dindinha seguiram-se Sempre viva! [2003], Achou [2006], dividido com o violonista Dante Ozzetti , Meu nome [2009], Live in Amsterdam [2010] e Silencia [2014].

Lançada por pequenos selos, a artista sempre fez o que quis, da seleção de repertório à arregimentação e arranjos. Uma artista livre. Mineira de Itanhandu, ganhou o mundo. Após uma temporada em Amsterdam, na Holanda, está de volta ao Brasil. Lá, chegou a gravar um álbum ao vivo, acompanhada do Mike Del Ferro Trio.

Após um hiato, ela reencontra-se com o público maranhense: na Praça da Basílica de São José de Ribamar, dia 4 de novembro (sexta-feira), ela se apresenta na noite de abertura do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, evento inteiramente gratuito, produzido por Tutuca Viana, com patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. No repertório, músicas de diferentes fases de sua carreira, inclusive Silencia, o mais recente de sua discografia. Por e-mail ela conversou com Homem de vícios antigos.

Retrato: Ben Mendes
Retrato: Ben Mendes

Há alguns anos você mudou de endereço, trocando o Brasil pela Holanda. Quais as principais vantagens e desvantagens da mudança?
Passei quase seis anos em Amsterdam, fiz muitos projetos bacanas e criei um pequeno público por lá. A vantagem de morar na cidade das bicicletas e canais foi mesmo a liberdade e facilidade de ir e vir. Mas sentia saudade de coisas simples, andar de chinelo (a maior parte do ano é frio) e comer uns quitutes mineiros. Em termos profissionais também há uma diferença grande, pois no Brasil já tenho um público cativo e que me acompanha há muito tempo. Voltei este ano para Minas e acredito que toda experiência lá fora me enriqueceu muito como pessoa e artista.

Você está na programação do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival. Quem são os músicos que te acompanham e o que o público da Ilha pode esperar em termos de repertório?
O duo é formado por baixo acústico, meu sobrinho Daniel Coelho, que gravou o último álbum e tem feito muitos shows comigo, e Adriana Holtz no violoncelo, uma grande cellista que toca na Osesp [a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo] e nos acompanha em vários shows. Vamos tocar músicas do mais recente álbum, Silencia, e outras da carreira.

Através de nomes como Zeca Baleiro, que produziu teu primeiro disco, batizado por música dele, e Josias Sobrinho, de quem no primeiro disco você gravou duas músicas [Rosa Maria e As “perigosa”], o Maranhão sempre esteve presente em teu trabalho. Quais as expectativas e sensações a cada retorno por aqui?
Tenho muito afeto pelo público maranhense, desde as primeiras vezes em que estive aí. Trabalhei também com o grande percussionista Luiz Claudio Farias, que trouxe vários ritmos lindos para o som. Até hoje Dindinha é a canção que me arrebata. E as músicas de Josias são pérolas que pude conhecer através do Zeca. Tenho certeza de que será emocionante nossa participação no festival!

Já há planos de disco novo? O que você pode adiantar em relação ao assunto?
Estou compondo devagar, logo devo colocar mais foco nisto.

Desde o pioneiro Free Jazz no Brasil até festivais de jazz internacionalmente reconhecidos sempre aceitaram um pouco de tudo, em misturas bastante frutíferas. Na Holanda você chegou a gravar disco com o Mike del Ferro Trio, o que em tese credenciaria você ainda mais a este tipo de evento. Mas sua trajetória já uma prova de que vai mais longe quem não tem preconceitos nem se importa com rótulos. Qual o lugar de Ceumar?
Eu adoro o jazz e o blues. Fico muito feliz em poder transitar por estes estilos sem perder o meu próprio.

Ouça Engasga gato (Kiko Dinucci), com Ceumar:

Programação da noite de abertura do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival:

Sexta-feira (4):

20h15: Marcos Lussaray e Quarteto
21h15: Ceumar
22h30: Jefferson Gonçalves e Kléber Dias

Amor sempre! E música!

Caixa de música. Capa. Reprodução
Caixa de música. Capa. Reprodução

 

Xê Casanova assina simplesmente Xê em seu primeiro disco solo, Caixa de música [2016]. No álbum ele escancara a devoção a Marcelo Yuka (ex-O Rappa), que produziu o trabalho, a começar pela capa, em que credita o produtor.

É um disco sobre o amor, otimista, de vibrações positivas, com mensagens como “amor sempre” e “que todos os seres, em toda a parte, encontrem a felicidade”, no encarte, esta última tradução do mantra “loka samastha sukhino bhavantu”, misto de incidental e epígrafe em Todas as cores, cuja letra diz: “surgem no céu as cores/ de um novo tempo/ levam meu sonho adiante/ um mundo diferente, sim/ mas sem preconceitos”.

Alessandro Fontanari Casanova, seu nome de batismo, paulista de Mogi das Cruzes, onde mora, distante cerca de 80 km da capital São Paulo, vai com frequência ao Rio de Janeiro, onde gravou Caixa de música – no home studio de Yuka, na Tijuca, Zona Norte do Rio –, de que assina sozinho seis das oito faixas – as exceções são Ano bom, de Rui Ponciano, e Deixa rolar, que Xê assina em parceria com Sandra Vianna e Tatiana Fernandes.

Caixa de música foi gravado por uma banda enxuta, com os músicos se revezando entre instrumentos: Xê Casanova (voz, violão), Marcelo Yuka (bateria eletrônica, programação eletrônica, vocalize, colagem, egg shaker), Jomar Schrank (contrabaixo, guitarra, teclados, escaleta, backing vocal) e Fred Inglez (guitarra, guitarra cítara, revers), além de Katunga (violoncelo em O batuque, Todas as cores e Ano bom), Felipe Sobral Loureiro (guitarra em Deixa rolar, Ano bom e Não precisa falar) e Wagner Bagão Dubalize (sintetizadores e contrabaixo em Não abala).

Xê Casanova conversou com Homem de vícios antigos sobre o disco, o encontro com Marcelo Yuka, otimismo, amor e política.

O artista em foto de divulgação

Caixa de música é teu disco de estreia? Como foi sua gestação?
É meu primeiro disco solo. Já tive outras bandas [Tribo Brasil e Colomi], mas este é um disco em que me aventurei, eu que sou de Sampa, de Mogi das Cruzes, em ir pro Rio de Janeiro, a procura de algo “novo”, algo que me renovasse. E acabei tento um encontro com o Marcelo Yuka, que quis fazer esse trabalho. Demorou cinco anos essa gestação. Porque era só pra gravar no estúdio do Yuka, porém ele gostou das músicas e acabou sendo o produtor e tocando em todas as faixas, então só dava pra gravar quando ele tinha tempo, ele me chamava e eu ia pra casa dele gravar.

Parece-me até um som diferente de tudo o que eu conhecia do Yuka, sobretudo nO Rappa. Essa adoção dele por teu som acaba demonstrando a força de tuas composições, não acha?
Exatamente. Yuka curtiu a minha verdade, o simples. Você sabe o quanto ele é um grande poeta e tantas outras coisas. Isso que ele fez comigo, de gravar, se você pensar bem, é uma parceria. Poderia eu colocar que o disco é do Xê e do Yuka, mas eu não quero isso. Só a força, como você bem disse, da assinatura dele, é pra mim um divisor na minha carreira.

Caixa de música é um disco carregado de otimismo. Desde as composições até mensagens no encarte, como “amor sempre”, que lemos logo ao abrir, e o “loka samastha sukhino bhavantu”. Nestes tristes tempos que o Brasil vive, o quanto é necessário de otimismo e realismo para sobrevivermos?
Ufa, irmão! Eu acredito que o AMOR [maiúsculas dele], explicar essa palavra “amor” fica muito vaga, piegas, não sei como dizer. Quando comecei a praticar ioga, há sete anos, eu fui entendendo que o amor muda, transforma, e que se você pensar no amor de servir, deixar ser servido, olhar pro próximo, cachorro, inseto, água, sei lá, as coisas mudam. Pois bem, tô eu tentando, sempre, pinta a oportunidade de ir pro Rio encontrar o Yuka, eu sem banda, sem saber o que fazer. Pensei: é o amor me mandando a porra da parada. Fui. Se fosse antes não sei se acreditaria em mim, entende?

Perfeitamente. A ioga te permitiu ouvir uma voz interior?
Sim. A de confiar. Tem dias que é difícil, mas é uma ferramenta, e quando eu encontrei o Yuka, a primeira coisa que ele falou, juro: “agora que sou um praticante de ioga, blá blá blá”. Cara! Eu não acreditei

Lembrei da história do encontro de Baby Consuelo [hoje Baby do Brasil] com o [contrabaixista] Dadi. Ela nunca o tinha visto e mandou: “você toca contrabaixo, não toca?”. O resto é história. Caixa de música é um disco enxuto, poucos músicos tocando, coeso, você assina quase todas as faixas. E o amor permeia o conjunto. Quais as doses de acaso, inspiração e trabalho?
Eu gravei todas as canções só voz e violão. O Fred Inglez, técnico de som, fez os beats no metrônomo, em cima do meu jeito de tocar e ponto. Em dois dias já tava pronta a base do cd, sem nome sem nada de ideias. Yuka gosta da madrugada, do barulho que o silêncio faz. Então começamos o processo, desses anos todos, amizade, cumplicidade, amor, cozinhar com ele, ser uma extensão de seu corpo na hora de fazer um rango do jeito dele. Tudo isso foi refletindo no disco, nas longas madrugadas, o respeito com minha música. Quando entrávamos no estúdio, era pra ficar no mínimo 10 horas, sem choro.

A faixa Não abala é o momento do disco em que você mais se aproxima da temática social que norteia o trabalho do Rappa, do Furto [grupos que Yuka integrou] e do Yuka. Ela não destoa do resto do disco, já que é impossível amar sem medo, concorda?
Pois é! Medo de ser livre, de escolher. Daí a ignorância e a inteligência. Batem cabeças. Me lembrei da musica do Beto Guedes [cita trecho de O medo de amar é o medo de ser livre, parceria de Beto Guedes com Fernando Brant]: “O medo de amar é o medo de ter/ de a todo momento escolher/ com acerto e precisão/ a melhor direção”.

E o que você tem a dizer a quem ousar criticar Caixa de música por ser um disco sobre o amor e, portanto, talvez dirão, piegas?
Pô, tá no direito. Eu sei que pra mim foi uma honra ser produzido por uma pessoa que  influenciou toda uma geração, um cara visionário, olhos atentos no futuro. Então, se o conceito que ele deu ao Caixa de música for classificado por alguns como piegas, eu aceito. AMOR SEMPRE! [maiúsculas dele].

Você visita com frequência o Rio de Janeiro, onde gravou seu disco. O que achou do resultado da eleição para prefeito lá? E em São Paulo?
[Risos]. Gravei na casa/estúdio do Yuka, na Tijuca, Zona Norte do Rio, bairro de tantos artistas, terra de Tim Maia. Na eleição passada o Yuka foi [candidato a] vice[-prefeito] do [Marcelo] Freixo, então já tava torcendo pra ele. Fiquei chateado sim com o resultado, mas acho que é um trabalho de formiguinha. O bispo papão é foda. Em Sampa? [gargalhadas]. Jura mesmo?. Dória Jr.? Não rola.

Ouça Caixa de música, o disco:

As conexões de som e sentimento

Conectar. Capa. Reprodução
Conectar. Capa. Reprodução

 

Uma leitura mais apressada, menos atenta, pode enxergar o convite: “vem conectar”. Não estará de todo errado. Mas ali está Wem Conectar [2016], nome do artista e título do disco, em cuja capa ele aparece, emoldurado por bela paisagem, sentado num cubo com seu nome/marca, com um fio caído do céu plugado – conectado – ao violão que empunha. O verbo-título transforma o “ar” em voo de pássaros.

Uma andorinha só não faz verão, sabemos, e ao abordar o universo das conexões, as humanas, sem mediação de máquinas, o disco de Wem soa como uma doce lufada de esperança no humano, na humanidade. Doçura, aliás, não falta. Outro ponto destas conexões que merece destaque é o fato da realização de Conectar ter sido possível graças a uma campanha de financiamento coletivo.

Wem é autor das 11 faixas de Conectar, somente as três iniciais com parceiros: Se eu te encontrar (com Chico Salem), a faixa-título e Nosso quarto (ambas com Amanda Basani). “As manchetes vão virar poema/ Marginal Pinheiros vira mar/ a televisão vira cinema/ roda de fogueira vira altar”, diz o otimismo escancarado da faixa de abertura. “A segunda vira sexta-feira/ a quaresma vira carnaval/ qualquer gafe vira gafieira/ bad trip vira alto astral”, continua, com o lendário Dadi ao contrabaixo e piano, o que conecta o artista a Novos Baianos, A Cor do Som e Tribalistas.

Em Antes, a voz de Wem é emoldurada pela companhia de Marcelo Jeneci, que além de cantar, toca piano e sintetizador. São artistas de timbres, estilos e doçuras parecidos – aliás, quem gostou dos dois discos solos de Jeneci certamente vai gostar também de Conectar, mais uma em um disco de tantas conexões.

As letras, com cifras para violão no encarte, tratam basicamente do amor – a melhor conexão possível. Wem (voz, violão, assovio, piano, guitalele, guitarra, cuatro, palma) é escoltado por – ou conectado a – Fabio Pinczowsky (guitarra, palma, violão, teclado), Ricardo Prado (sanfona, teclado, contrabaixo, palma, piano, guitarra), Guilherme Kastrup (bateria, percussão) e Bruno Buarque (bateria em Se eu te encontrar).

Nestes tempos botocudos, Conectar é um disco necessário e preciso. Como as constatações e o convite da faixa-título: “Não consigo te conectar/ mas não canso de te procurar/ sobra megabyte falta amor/ desencana desse servidor/ Chega a hora de dormir/ liga a tv pra se distrair/ queria tanto te conquistar/ larga desse celular e vem pra cá me amar/ Meu bem vem que tem/ um abraço um amasso é melhor/ que essa tela fria, vai na minha/ isso é alta tecnologia humana/ se enrosca na rede real do amor a dois”.

Veja o clipe de Solidão Jamais (Wem):

Vanessa Bumagny e o poder (do) feminino

O segundo sexo. Capa. Reprodução
O segundo sexo. Capa. Reprodução

 

Vanessa Bumagny toma emprestado do clássico de Simone de Beauvoir, o título de seu terceiro disco, O segundo sexo [2015], mas engana-se quem esperar encontrar ali um manifesto feminista ou coisa do tipo.

No entanto, esta discreta parceira de nomes como Chico César e Zeca Baleiro – que comparece ao disco em participação especial na faixa-título – demonstra seu empoderamento feminino, por exemplo, ao assinar, sozinha ou com parceiros, todas as faixas do disco.

Acompanhada de músicos como Adriano Magoo (sanfona, teclado), Érico Theobaldo (programação de bateria, bateria, baixo, guitarra), Fernando Nunes (contrabaixo), Roger Menn (guitarra, violão), Rovilson Pascoal (violões) e Zeca Loureiro (guitarra), entre outros, Vanessa Bumagny desfila toda sua versatilidade e talento.

O segundo sexo (Luiz Pinheiro/ Vanessa Bumagny) tem clima de new wave e lembra o pop do Metrô. “É duro ser o segundo sexo, o primeiro, o terceiro e todos os demais”, provoca a letra, para reafirmar, mais adiante: “é duro ser o primeiro filho, o caçula, o do meio e todos os demais”. Música alegre para tristes tempos: no fundo, é duro ser humano, hoje em dia.

Nada igual por aí evoca Cor de rosa choque (Rita Lee/ Roberto de Carvalho): “isso vermelho é sangue cuidado está vivo e pulsa/ quente como nunca se viu nada igual por aí”, diz a letra de Vanessa Bumagny, cujo arranjo é outro ponto do disco que nos leva a pensar em bons momentos do pop rock nacional oitentista. “Este disco é dedicado a quem escuta inocentemente como se fosse sempre a primeira vez”, a artista arremata no encarte provocantemente.

No repertório do sucessor de De papel [2003] – título que é o significado de seu sobrenome – e Pétala por pétala [2009] – batizado por parceria com Chico César, também gravada pelo parceiro – destacam-se ainda O que for melhor (Vanessa Bumagny), faixa que abre o disco com sua luminosidade musical, a valsa Você era meu sonho (Heloiza Ribeiro/ Vanessa Bumagny), A Carlos Drummond de Andrade, em que ela musica um poema do “anti-musical” João Cabral de Melo Neto, Tristeza só (Vanessa Bumagny), samba à base de baixo, guitarra e bateria, e Do meu jeito (Luiz Tatit/ Vanessa Bumagny), em que a protagonista parece fraquejar, mas no fundo é senhora de sua decisão.

Ouça Tristeza só (Vanessa Bumagny):

Intimidade e entrega

Lancamento de Dois tempos de um lugar no Auditório Ibirapuera. Foto: Chema Llanos
Lancamento de Dois tempos de um lugar no Auditório Ibirapuera. Foto: Chema Llanos

 

Ex-namorados, Dandara e Paulo Monarco esbanjam intimidade ao figurarem nus na capa e encarte de Dois tempos de um lugar [2016], disco produzido por Swami Jr. e Tó Brandileone e mixado por Ricardo Mosca (Pau Brasil). O par não precisa de mais que uma faixa para provar que estamos diante de dois artistas talentosos.

Ela, cantora habilidosa, que ouvintes mais antenados lembrarão de [2013], terceiro disco de Bruno Batista, que poderia também ter sido assinado por ela; ele, compositor interessante, autor, com diversos parceiros, de quase todo o repertório do disco – as exceções são Toca aí, de Túlio Borges, Trovoa, de Maurício Pereira, e a faixa-título, de Celso Viáfora.

Ame (Paulo Monarco/ Kleuber Garcêz), quase toda rimada no título, entre a “delicadeza do origami” e a “força do índio Yanomami”, abre o disco, cumprindo bem o papel de apresentar a dupla e despertar o interesse do ouvinte pelas faixas restantes.

É basicamente um disco de vozes (Dandara e Monarco) e violão (Monarco, que toca guitarra em Escuta). As únicas exceções são o piano de armário em Toca aí e a gaita em Escuta, ambos tocados por Tó Brandileone. Zeca Baleiro canta em Tem dó, parceria dele com Paulo Monarco.

Dois tempos de um lugar. Capa. Reprodução
Dois tempos de um lugar. Capa. Reprodução

Dois tempos de um lugar é um disco profundo, de entrega. Como atesta a letra de Pra acordar (Paulo Monarco/ Suely Mesquita): “sorrir sem medo com a alma em carne viva/ alargo o peito pra poder acomodar/ um coração que cresce além da sua medida”.

É um disco para se apaixonar à primeira vista – ou melhor, à primeira escuta. Em tempos líquidos, a intimidade se dá ligeira, mas no que a dupla canta não é mera aventura. Em Escuta (Paulo Monarco/ Túlio Borges), pedem atenção com uma pitada de erotismo: “Escuta a história que vou te contar/ que vou te lamber/ o aparelho auditivo/ que vou te chupar/ a intimidade do ouvido”.

O ofício musical e suas delícias também são temas em Dois tempos de um lugar. Na faixa-título voltam a pedir atenção e a demonstrar intimidade: “É tudo muito estranho, eu sei, você nunca me viu, mas por favor, escuta/ não me pergunte como nem por que, mas sei que temos vidas muito juntas”. Em Madrigal (Paulo Monarco/ Dandara/ Bruno Batista), que fecha o disco, idem: “talvez seja essa tristeza/ ou o costume da esperança/ que me faz, nunca querendo,/ querer sempre mais/ e o meu único desejo é morrer cantando/ o meu único desejo é sempre cantar”, este certamente também o desejo de quem ouvi-los.

Ouça Contenteza (Paulo Monarco/ Alisson Menezes):

A mensagem de Criolo merece atenção independentemente de rótulos

Ainda há tempo. Capa. Reprodução
Ainda há tempo. Capa. Reprodução

Criolo Doido passou a assinar apenas Criolo, lançou o petardo Nó na orelha [2012] e angariou elogios de Caetano Veloso, Chico Buarque (que o homenageou em meio à sua Cálice, parceria com Gilberto Gil), Milton Nascimento (com quem chegou a dividir show), Emicida (com quem dividiu show e o disco Ao vivo, de 2013) e Ivete Sangalo (com quem dividiu o disco Viva Tim Maia, de 2015).

No rastro, Convoque seu Buda [2014] mantinha a pegada e o diálogo entre rap, samba e soul, principalmente. Criolo definitivamente havia saído do gueto e falava para multidões. No recém-lançado Ainda há tempo [Oloko Records, 2016, disponível para download no site do artista], Criolo volta às origens (que, de fato, nunca abandonou): depois do inegável sucesso, é seu disco mais acentuadamente “rhythm and poetry”, formado por composições datadas de entre 1996 e 2005.

São nove faixas e 11 produtores diferentes, sob direção musical de Daniel Ganjaman, que com Marcelo Cabral assina a produção da faixa-título, que fecha o disco, além de cantar e tocar contrabaixo, piano, sintetizadores e programação.

A verve de Criolo continua afiada e é uma constante no disco a mensagem positiva que predomina no rap, sobretudo destinada às juventudes das periferias, em sua maioria negros que perdem a vida para a polícia ou para o tráfico de drogas. “Eles querem que você desista/ mas jamais se dê por vencido/ rap nacional envolvidão até o pescoço/ se não fosse assim/ ai de mim/ só tava o osso”, diz a letra de No sapatinho (produzida por Renan Samam e Filiph Neo).

As vozes dos indígenas Shirley e Euclides Krenak, da tribo Krenak, são ouvidas na fortíssima Chuva ácida (produzida por Sala 70), em que Criolo critica, a partir da tragédia de Mariana/MG – até o lançamento do disco e a publicação desta resenha, nem Samarco nem Vale nem ninguém punido –, a política praticada a partir de conchavos e propinas, incluindo o Congresso nacional, departamentos de “responsabilidade social” de grandes empresas e organizações do terceiro setor.

Criolo não receia tocar feridas profundas em temas que lhe são caros. É freireano no sentido de aproximar a teoria da prática, a fala da ação ou, resumindo: o que canta do que vive. A juventude é uma preocupação constante e sobram críticas à violência, ao consumismo, ao capitalismo, ao preconceito, ao sexismo, ao consumo de drogas lícitas e ilícitas.

“Eu tenho fé nessa nova geração/ nesse povo maravilhoso/ a nossa juventude toda” e “as pessoas não são más/ elas só estão perdidas/ ainda há tempo/ eu não quero ver/ você triste assim, não/ que a minha música possa/ te levar amor”, têm esperanças Tô pra ver (produzida por Grou com participação especial de Rael) e a faixa-título, respectivamente.

Sonoramente Ainda há tempo talvez seja o disco mais hermético de Criolo. Ouvi-lo é necessário, pelo que discute, sobretudo no Brasil atual – espero que seja compreendido pelos fãs conquistados ao longo dos últimos anos, quando as lojas colocaram o artista nas prateleiras de MPB.

Ouça Chuva ácida (Criolo):

Funk do amor explícito

Amor geral. Capa. Reprodução
Amor geral. Capa. Reprodução

 

Com os dois pés no funk e majoritariamente eletrônico, Amor geral [Sony, 2016], disco novo de Fernanda Abreu, é um disco libertário. De um jeito ou de outro, todas as músicas falam de amor e prazer. Certamente é o trabalho mais erótico e despudorado da cantora.

Outro sim [Fernanda Abreu/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano], que abre o disco – e seu primeiro hit –, vai direto ao ponto, sem falsos moralismos ou meias palavras: “outro marido traído/ outra esposa ansiosa/ outra amante excitante/ querendo dar”.

O tema volta em Double love amor em dose dupla, de Fausto Fawcett [em parceria com Laufer], autor de Kátia Flávia, a godiva do Irajá, um dos maiores sucessos da ex-Blitz. “Não fica se achando/ me cercando insinuando/ perdido em egotrip/ que eu sou sua refém apaixonada/ que nada, meu querido/ meu negócio é double love/ amor em dose dupla/ no meio da cidade nua”, escancara a letra, com citação de Je t’aime moi non plus [Serge Gainsbourg].

O samba é tema do funk Tambor [Fernanda Abreu/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano/ Afrika Bambaataa], com adesão do americano Afrika Bambaataa [Zulu Nation]. À música, que cita o samba-enredo de 1982 do Império Serrano, Bumbum praticumbum prugurundum [Aluísio Machado/ Beto Sem Braço], comparecem os violões de Davi Morais e os teclados de Donatinho, herdeiros de dois reinventores da música brasileira.

Deliciosamente [Fernanda Abreu/ Alexandre Vaz/ Jorge Ailton] e Saber chegar [Fernanda Abreu/ Donatinho/ Tibless/ Play Pires] falam direto ao coração, como começa a letra da primeira: “deliciosamente/ boca, pele e mão/ tudo que se quer dizer/ falar ao coração”. Candidata a hit, Antídoto [Fernanda Abreu] evoca baladas radiofônicas oitentistas.

Se O que ficou [Fernanda Abreu/ Thiago Silva/ Qinho] é a faixa “coração partido” do disco, Por quem [Fernanda Abreu/ Qinho] é “sinal dos tempos”, trazendo os recursos tecnológicos para dentro do jogo (do amor). Valsa do desejo [Fernanda Abreu/ Tuto Ferraz] é explícita, como de resto quase todo o disco: “me olha/ imagina/ pra eu me sentir despida/ me fala/ sussurra/ o que até Deus duvida/ me beija/ de língua/ pra eu me sentir perdida”, provoca, costurada por quarteto de cordas.

“A gente briga mas se ama/ tenta entender o quanto de ódio esconde o amor/ e o quanto de amor tá implícito no ódio/ a gente briga mas se ama/ porque somos condenados a amar”. As contradições do sentimento dão o tom de Amor geral [Fernanda Abreu/ Fausto Fawcett/ Wladimir Gasper], que encerra o disco em clima de reconciliação, ilustrada pelos graves do violão sete cordas de Rodrigo Campello: “mas o que importa é parar/ numa esquina e perceber/ o gigantesco coração do planeta batendo/ Ouçam!/ O coração do mundo batendo/ gigante coração, gigante coração/ do amor geral”.

*

Assista o clipe de Outro sim [Fernanda Abreu/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano]:

Filarmônica de Pasárgada: “se ela não tocar no rádio/ já tocou seu coração”

Algorritmos. Capa. Reprodução
Algorritmos. Capa. Reprodução

 

Herdeiros diretos da vanguarda musical do Grupo Rumo e da crônica presente à obra de Tom Zé – este e alguns integrantes daquele aparecem em participações especiais – a Filarmônica de Pasárgada chega ao terceiro disco, Algorritimos [2016], o ótimo sucessor de Rádio lixão [2014] e O hábito da força [2012].

O mote é a internet e seu vasto universo: redes sociais, emoticons, relacionamentos, pornografia, propaganda, vírus. Tudo embalado pela ótima música e bom humor a que os fãs já estão acostumados – e que mais gente precisa urgentemente conhecer. Nos títulos das 15 faixas já fica evidente do que eles estão falando: Você quis dizer: Filarmônica de Passárgada, 144 caracteres, WWW e Cavalo de Troia, todas assinadas por Marcelo Segreto, entre outras.

O grupo em foto de Edson Kumasaka
O grupo em foto de Edson Kumasaka

André Teles (contrabaixo e voz), Fernando Henna (sanfona, piano, órgão, teclado e voz), Gabriel Altério (bateria, percussão e voz), Ivan Ferreira (fagote), Marcelo Segreto (guitarra, violão, ukulele e voz), Migue Antar (contrabaixo), Paula Mirhan (kazoo e voz) e Renata Garcia (clarinete e clarone), compõem a banda-orquestra, cujo nome é inspirado na cidade da antiga Pérsia que por sua vez inspirou o poema de Manuel Bandeira.

Em Você quis dizer: Filarmônica de Passárgada uma tiração de onda – só o humor salva – com a impopularidade da banda: “sem fama, sem fã, mas sem fantasia/ no carnaval no perfil/ o bolso cheio de canções/ mas o chapéu vazio”, a letra dá a real. No funk Kiwi (Marcelo Segreto), dedicada a Jean Wyllys, o cenário é o almoço de domingo em família, e suas semelhanças com as caixas de comentários (e ódio, intolerância e preconceito) de sites de notícias e redes sociais: “No almoço de domingo/ tem piada pra contar/ tem burrice pra comer/ opinião pra vomitar”, provoca a letra. E continua: “Que é que tem que eu sou marica?/ que é que tem que eu sou kiwi?/ que é que tem que eu sou sapata?/ que é que tem? Sou travesti”.

WWW é uma colagem, com citações de Baby (Caetano Veloso), Love me do (Lennon/ McCartney), Ne me quitte pas (Jacques Brel) e Estoy aquí (Shakira/ Luis Fernando Ochoa). Por falar em colagem, Ctrl c ctrl v (Paula Mirhan/ Marcelo Segreto), a faixa seguinte, aborda a linha cada vez mais tênue entre “originais” e “piratas”, escancarada na “terra de ninguém” – e, portanto, de todos – chamada internet, onde frequentemente se atribuem a Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo e Nelson Rodrigues, a falsa autoria de textos quase sempre piegas. “Sabe o gabarito da Fuvest?/ sabe o modelito da Madonna?/ sabe o seu bocejo? Seu jogo de cintura?/ Copiei colei na cara dura// Sabe aquela lá do kama sutra?/ sabe o seu registro de patente?/ sabe o epitáfio da sua sepultura?/ copiei colei na cara dura”, perguntam, provocando.

Marcelo Segreto (idealização, composição, arranjos e direção musical), espécie de líder da Filarmônica de Pasárgada, há algum tempo colabora com Tom Zé, de quem participou de discos. Eles assinam, com Tim Bernardes (de O Terno) – que toca guitarra na faixa –, São SP, faixa que evoca São São Paulo, do primeiro disco do baiano, lançado em 1968, e Com defeito de fabricação, disco lançado por ele 30 anos depois. Não pensem que o grupo fugiu do tema central de Algorritmos nesta declaração de amor à capital paulista: “São pra lá de dez milhões/ mas aqui ninguém, cadê?/ cada um no seu perfil/ cada um no seu apê”, começa.

7 comentários tem sete compositores (Marcelo Segreto, Rafa Barreto, Julinho Addlady, Tatá Aeroplano, Caê, Gustavo Galo e Cacá Machado) e seis participações especiais: Guilherme Arantes, Ná Ozzetti (ex-Rumo), Tom Zé, Juçara Marçal (Metá Metá), Luiz Tatit (ex-Rumo) e Zé Miguel Wisnik cantam na faixa, que traduz no canto o universo dos emoticons – em versos como “hashtag amo amo amo muito/ menor que três menor que três menor que três”, simbolizando um coração –, a ironia típica da rede – “que cara de bundão/ me assustei/ cê tá tipo o Brad Pitt/ só que não/ mas até compartilhei” – e volta a evocar Tom Zé: “bota mais parente aí/ bota foto de cachorro/ bota a janta e o almoço/ bota graça nesse rosto/ que a felicidade é uma foto engarrafada/ vagando na rede”, ele próprio canta, atualizando seu Parque industrial (1968).

O tom carnavalesco da marcha Fernando Henna está online (Marcelo Segreto/ Fernando Henna) volta a cantar emoticons, em letra engraçadíssima em que dois amigos contam, um ao outro, em um chat, como foi o carnaval de cada um. “O meu foi ruim demais/ roletrando na cidade/ sem amor/ sem colombina/ eu fui cantando/ a minha pipa não sobe mais/ rsrsrsrs”, conta um, lembrando programa de tevê e vinheta de Silvio Santos de outrora.

Parte de Algorritmos foi realizado com recursos do Proac/SP, programa de incentivo à Cultura do Estado de São Paulo. Como se a música não bastasse para o mote, a outra parte foi possível com recursos obtidos por meio de financiamento coletivo, a chamada vaquinha virtual. Mais real, impossível.

Livre que só ele

Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos sobre Só vou chegar mais tarde, disco que acaba de lançar, política e arte

O cantor e compositor Edvaldo Santana. Foto: Juvenal Pereira
O cantor e compositor Edvaldo Santana. Foto: Juvenal Pereira

São Luís e o tambor de crioula eram citados na letra de Jataí (2014), faixa-título do penúltimo álbum de Edvaldo Santana. Naquele ano ele chegou à capital maranhense, quando se apresentou em novembro, na semana da Feira do Livro de São Luís, no Teatro da Cidade (antigo Cine Roxy). O mote do show eram as comemorações de seus 40 anos de carreira.

Como arte e vida não são ciências exatas, esta matemática também não: as comemorações do artista se prorrogaram. Como ele diz em 40, faixa que abre Só vou chegar mais tarde (2016), “quando resolvi sair de casa pra cantar de vez/ já faz mais de muitos anos”.

Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução
Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução

O cantor e compositor conversou por e-mail com Homem de vícios antigos. Só vou chegar mais tarde aprofunda algumas características do trabalho de Edvaldo Santana, por exemplo o trânsito entre ritmos nordestinos e o blues americano.

A faixa de abertura é coalhada de referências. Entre outros, estão lá a Matéria Prima, sua banda inaugural ainda na década de 1970, passando por Tom Zé, com quem chegou a tocar, o poeta Ademir Assunção (o Pinduca), Arnaldo Antunes, Paulo Lepetit e Haroldo de Campos, cujo Galáxias, musicado por Caetano Veloso em Circuladô de fulô, é evocado na letra: “e não me peça nunca que eu te guie/ eu não nasci pra fazer teste”.

Edvaldo Santana (voz e violão) é acompanhado por banda base formada por Luiz Waack (banjo, violão, guitarra e cavaquinho), Reinaldo Chulapa (contrabaixo) e Leandro Paccagnella (bateria). A estes somam-se instrumentos ocasionais, como a sanfona e teclado de Adriano Magoo (em Retorno do cangaço; ele toca ainda piano elétrico em Dom), a gaita de Bené Chireia (em Sou da quebrada, Dom e Arte depura), a tuba de Eliezer Tristão (na faixa-título e em Retorno do cangaço), a sanfona de Antonio Bombarda (em Ando livre e Gelo no joelho), o piano de Daniel Szafran (em Predicado e Fazendo pra aprender; ele toca órgão em Domínio), além de naipe de sopros em 40 e Gelo no joelho.

Edvaldo Santana é autor solitário das 13 faixas. As exceções são Gelo no joelho (parceria com Luiz Waack) e Canção (poema provençal de Guillaume de Poitiers versionado por Augusto de Campos e musicado por Edvaldo Santana).

O disco passeia por temas como futebol (Gelo no joelho e Dom, homenagem ao ídolo Sócrates), viagem e liberdade (Ando livre, com participação especial de Rita Benneditto, em que São Luís volta a aparecer, na citação ao Bar do Léo), tecnologia e o vazio de relações virtuais (Predicado), a competição capitalista e um dar de ombros do autor na faixa-título, tema que volta a aparecer em Retorno do cangaço, em que tece críticas também ao mercado da fé televisionado e o jogo sujo da política em geral, com suas propinas e traições como regra.

Em Sou da quebrada outro tema caro a Edvaldo: a homenagem a pessoas simples, como seu Valdemar, protagonista de A poda da rosa, do disco anterior. Fazendo pra aprender é uma canção romântica, com ecos de filme de faroeste e do desaparecido Belchior. Em Arte depura cita Judite, sua mãe, e Divino maravilhoso (Gilberto Gil/ Caetano Veloso), anteriormente citada pelo cearense na antológica Apenas um rapaz latino-americano (Belchior). Domínio é uma homenagem a São Miguel Paulista e Cabeça na mesa tem a participação especial de Alzira E.

Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos. Foto: Milton Michida
Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos. Foto: Milton Michida

Homem de vícios antigos – Você esteve em São Luís em 2014, quando realizou um show de voz e violão em que comemorava os 40 anos de carreira. 40, faixa que abre Só vou chegar mais tarde, traz inúmeras referências a teu próprio trabalho e artistas de tua influência e convívio. Em que medida este disco é a continuação destas comemorações?
Edvaldo Santana – Sim, 40 é uma música que procura falar dessa trajetória das influências e referências nessa estrada de 40 anos, mas Só vou chegar mais tarde e as outras canções desse álbum estão em sintonia com o presente, refletem o que vivo e penso no momento, sem esconder o aprendizado que o caminho da arte possibilita. Celebrar a arte tem que ser uma constante na nossa vida. Minha estada em São Luís foi muito proveitosa.

Por falar em São Luís, Ando livre, que conta com a participação especial de Rita Benneditto, fala no Bar do Léo, que você visitou quando esteve aqui. Fale um pouco de suas impressões do lugar e de como se deu este encontro com a cantora maranhense.
Pois é, fiquei muito impressionado quando conheci o Bar do Léo, através de você,  uma mistura de diversas formas de artes: plástica, música, literatura, dança, diversão e um cara, o dono do bar, muito interessante, de papo bom e cordial. Ando livre é uma música que escrevi refletindo as observações da viagem que fiz pelo nordeste em 2014, passando pelo sertão do Piauí, pelo Rio São Francisco, na divisa da Bahia com Pernambuco, pelo Ceará e pelo Maranhão. Já conhecia a Rita, de quando ela morou em São Paulo, sempre gostei muito de sua voz e de seu jeito de cantar. Como queria convidar uma cantora pra dividir os vocais, que tivesse uma ligação com a letra, não titubeei em convidá-la pra cantar comigo esse bolero. Conversei com sua irmã Elza Ribeiro, enviei uma gravação e Rita depois de ouvir, aceitou meu convite. Como ela mora no Rio tivemos o auxílio luxuoso do amigo e grande artista Lenine, que acionou seu filho Bruno Giorgi, que colocou seu estúdio à disposição, para que pudéssemos registrar a voz dessa cantora genial. Momento muito feliz, onde a amizade e a tecnologia contribuíram generosamente para que esse encontro artístico fosse concretizado.

Você é paulistano, descendente de piauiense: a geografia e a genealogia fazem de você o artista brasileiro que melhor reprocessa certa sonoridade americana, isto é, você faz o que podemos chamar de brazilian blues, contrariando a tristeza típica do gênero. Ao longo de Só vou chegar mais tarde, há autorreferências que citam, entre outros, teu álbum Reserva de alegria. Apesar de tudo, o Brasil ainda é a terra da alegria?
Sou paulistano da periferia, do bairro chamado São Miguel Paulista, filho do piauiense Félix e da pernambucana Judite, que já partiram para outra esfera. Desde pivete que as sonoridades da gaita e da sanfona vivem dialogando no coração e na mente, trazendo melancolia. Talvez um dos motivos sejam as dores e as alegrias do povo nordestino e do povo negro americano, que apesar de todas as dificuldades conseguem doar para o planeta uma música primorosa. Sim, gosto demais do jazz, do blues, da salsa, do reggae, como adoro samba, xote, moda de viola, e essas virtudes sonoras transitam pelas minhas ideias, aguçando a sensibilidade. Nesse disco tem um ingrediente do dixieland, uma das últimas misturas entre a música africana e a europeia no começo do século passado. Pra você viver num mundo contrariado, só com muita reserva de alegria e com o auxilio luxuoso do suingue sofisticado que a música negra brasileira, americana, cubana, caribenha, nascida do povo nos dá de graça.

Por falar em teus pais, uma característica marcante de tua poética é a revelação das pessoas comuns como heróis, de uma professora ou um jardineiro serem teus ídolos, e aí podemos citar Judite e seu Waldemar, entre outras personagens. Ao risco de fazer música a partir de uma poesia hermética, posto que, em tese, só a entenderia quem conhecesse as personagens, você fala de sentimentos que todo mundo entende. A seu ver, por que mais gente não faz isso?
Apesar dos seres serem diferentes, acredito que quando você fala de sua aldeia, das pessoas comuns, você acaba falando pra todo universo, os sentimentos de respeito, bondade, amor, dignidade, são virtudes essenciais na vida do planeta. Outros artistas já fizeram isso muito bem: Jackson do Pandeiro, Bezerra da Silva, cantando os heróis e os vilões de suas comunidades.

Você é autor de músicas definitivas sobre o universo do futebol, embora, infelizmente, menos falado que nomes como Chico Buarque e Jorge Benjor. Em Só vou chegar mais tardeGelo no joelho e Dom se somam a O jogador e O goleiro, para citarmos algumas. Nas duas deste disco você fala de sua própria experiência como praticante do esporte e homenageia o ídolo Sócrates. O futebol é uma boa lente para observarmos o Brasil?
Futebol tá no sangue, faz parte da minha vida e acredito que de boa parte da população brasileira. Além de jogar, eu e meus irmãos fundamos um time de futebol na adolescência. Jogo minha bolinha até hoje. Vira e mexe gosto de cantar músicas que falam do jogador de futebol. O Sócrates é uma figura especial que, além de jogar muito bem, sempre se colocou ao lado da população mais desfavorecida, comprou briga com a imprensa marrom, defendendo suas ideias. Fui convidado para fazer a trilha sonora do seu doc, que acabou não rolando, e fiz esse samba em sua homenagem, que registrei nesse novo trabalho. O futebol às vezes é muito passional, como está enraizado no coração das pessoas, pode sim servir de lente para observar o Brasil.

Por falar na politização de Sócrates, algo raro entre jogadores de futebol em qualquer tempo: em meio a esta entrevista acaba de consumar-se a cassação do mandato da presidente da república Dilma Rousseff. Como você recebeu a notícia e qual a sua percepção do processo?
Estou muito triste e injuriado com esse momento funesto, apesar de saber que não teria volta. O Brasil interessa pra muita gente e depois da votação na Câmara os picaretas não iam largar o poder. Novamente tomamos um chapéu do xaveco, temos que aprender que a comunicação é um instrumento a serviço do capital, que não se interessa por igualdade, amizade. O momento é de reflexão e ação imediata. Ficou claro, mais uma vez, que acordo onde o inimigo dá as cartas, nunca deu certo. Vamos à luta, não temos tempo de temer a morte

“Não temos tempo de temer a morte”, verso de Divino maravilhoso, parceria de Caetano e Gil, além de traduzir bem o atual momento por que passa o país, é citado em Arte depura. “A arte existe por que a vida não basta”, já disse Ferreira Gullar. Só a arte salva?
A minha vida foi salva pela arte. Seguir o caminho da música foi fundamental. Quando percebi o definhamento da escola pública e que ficar batendo cartão para ganhar uma mixaria, que não custeava as despesas, poderia ter escolhido o caminho do crime,  mas o coração falou mais alto e no começo dos anos 1970,  resolvi cair na estrada e estou vivo traçando minha trajetória com alegria e respeito.

Outra convidada neste disco é Alzira E., que de algum modo demarca, digamos assim, tua ligação com a vanguarda paulistana. Pra você, o que significou a participação e aquele momento, liderado por nomes como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção?
Alzira também é uma amiga de muitos anos. Quem me falou desse seu lado mais rock foi Luiz Waack, ele disse que seria legal convidá-la. Fiquei feliz com sua participação em Cabeça na mesa, ela tem um timbre diferente. Pois é, sou contemporâneo dessa safra do Arrigo, do Itamar. No começo dos anos 1980 em Pinheiros, Zona Oeste, havia o [Teatro] Lira Paulistana, que se tornou o espaço alternativo que abrigava diversas formas de manifestações artísticas. Nessa mesma época em São Miguel, Zona Leste, havíamos fundado o MPA, o Movimento Popular de Arte, que agregava também várias manifestações artísticas na periferia de São Paulo, ocupando praças, ruas, galpões, anfiteatros. Era um momento de ebulição, processo de abertura política em andamento. Essa estética paulistana é uma referência muito forte no meu trabalho.

A seu ver o atual momento político brasileiro contribuirá para uma maior espontaneidade artística, isto é, artistas voltando a se reunir em coletivos, a tocar em atos públicos, de protesto, a uma maior participação política, que de algum modo acaba por ter reflexos na estética de um período ou de um grupo?
Acredito que é a democracia que contribui para a construção de novas estéticas. O que pode acontecer daqui pra frente já é fruto de você poder experimentar, de você saber que pode fazer o que quiser, que ninguém vai te cercear. A liberdade é o grande alicerce da arte. Já estavam acontecendo encontros substanciais nesses últimos anos. Esse momento político adverso mexe com a sensibilidade e vai contribuir para a potencialização da produção artística.