A cor do som

O Assanhado Quarteto em foto de Rafael Mota
O Assanhado Quarteto em foto de Rafael Mota

 

O clima de Feira [2015] vai muito além do nome do disco e do belo projeto gráfico da estreia do Assanhado Quarteto. André Milagres (violão sete cordas e guitarra), Bruno Vellozo (contrabaixo), Lucas Ladeia (cavaquinho) e Rodrigo Heringer, o Picolé (bateria, vibrafone e percussão) pegaram emprestado o choro de Jacob do Bandolim para batizar seu grupo, que foge do convencional – vide os instrumentos utilizados para tocar choro (mas não só) – para apresentar sua música, tão colorida quanto uma boa feira.

Os quatro cursavam mestrado na Unirio quando conheceram Mário Séve, ás dos sopros, integrante do Nó em Pingo d’Água, cuja sonoridade influenciou o quarteto. O bamba acabou aceitando o convite e produzindo o disco do Assanhado. No texto do encarte destaca o “repertório que, de uma forma instigante e inspirada, dialogava não só com o choro, mas com outros estilos musicais”, os “deliciosos arranjos “progressivos””.

Feira. Capa. Reproducao
Feira. Capa. Reproducao

Em vez de optarem por um caminho fácil (regravar choros conhecidos), um meio termo (mesclar choros conhecidos e inéditos), eles optaram pelo mais desafiador: Feira é completamente autoral e inédito.

Põe fiado! (André Milagres/ Lucas Ladeia/ Rodrigo Heringer) é a vinheta de abertura, uma balbúrdia sonora a lembrar o ambiente de trabalho dos feirantes. Tilho no choro (Lucas Ladeia) é um chorinho em que cavaquinho e contrabaixo dialogam inspiradamente. Dia bom (Rodrigo Heringer) começa a destacar o vibrafone, instrumento pouco usual no choro, mais comum no jazz. O instrumento volta a tomar as atenções para si em Maíra (André Milagres).

Mário Sève comparece a Atreva-se (Lucas Ladeia) e Do avarandado (Rodrigo Heringer), em que sola e dialoga com o quarteto, no que é uma das justificativas do título do disco: Feira é lugar de trocas e bastante popular.

A percussão que abre Cocada preta (André Milagres), reforçada pelo diálogo que se segue com o contrabaixo, remete ao bumba meu boi. O inventor inglês Richard Trevithick é o homenageado em Trevithick way (Lucas Telles). Ao mestre (André Milagres) é o momento em que mais o Assanhado Quarteto se aproxima da música erudita, o que poderia ser quase um imperativo para um grupo formado no âmbito da academia.

O cavaquinho vibrante de Bambolê evoca o bandolim de Jacob eu seus momentos mais próximos ao samba – com seus mais de sete minutos, a faixa mais longa do disco certamente é um dos arranjos progressivos de que falou Mário Sève, cujo saxofone assume ares progressivos em Do avarandado, faixa que encerra Feira.

Atualmente radicados no Rio de Janeiro, essa turma vinda da terra do Clube da Esquina faz bonito ao armar sua banca de boa música nesta imensa feira chamada Brasil.

Ouça o Assanhado Quarteto em Do avarandado (Rodrigo Heringer):

Galeria

Pedaco duma asa. Capa. Reprodução
Pedaco duma asa. Capa. Reprodução

 

Geralmente incorre em clichê o crítico que escreve sobre um disco dizendo tratar-se de uma pintura. Incorre em quê, então, o crítico que escreve que determinado disco é uma galeria? Depende. Mas se o disco for Pedaço duma asa [Brisa, 2015], de Mariana Aydar, é justamente isso, por reunir diversas pinturas.

Explico: o artista plástico Nuno Ramos assina quase a totalidade do disco. 11 das 12 faixas são dele: cinco em parceria com o também artista plástico Clima (que assina sozinho a única música que não é de Nuno, Samba triste), quatro sozinho, uma em parceria com a própria Mariana Aydar (Poeira) e uma em parceria com Rômulo Fróes, responsável por apresentá-los, o Barulho feio que batizou um disco do compositor.

No entanto, “o primeiro Nuno Ramos que eu conheci foi o da música, desconhecia sua vida ligada às artes plásticas”, adverte a cantora, logo no início do texto do encarte.

Mamãe papai, que abre o disco, é uma espécie de pedir a bênção aos pais, mesmo após uma carreira consolidada – Pedaço duma asa é seu quinto disco. “Mamãe/ papai/ dá licença de tentar/ eu cantar/ mal não faz”, começa a letra. Mariana Aydar é filha do músico Mário Manga (ex-Premeditando o breque) e de Bia Aydar, que já produziu um vasto leque de artistas brasileiros.

É o disco mais rock (a guitarra é quase onipresente) e mais axé (vide Dedo duro e Dentro das rosas, que dialoga com o carnaval das tribos de índio) de Mariana Aydar, mas o samba também segue firme e forte (vide Atrás dessa amizade, Samba triste e Caia na risada), destacando-se a guitarra de Guilherme Held, a percussão de Maurício Badé e a presença do esposo Duani em diversos instrumentos (contrabaixo, programação, violão, teclados, órgão).

Pedaço duma asa, a faixa-título, resume bem o disco: “eu vi o amor brilhar/ pedaço duma asa/ parecia carnaval/ zumbido em meu ouvido/ a voz que me dizia/ saber de mim o que eu já não sabia/ não sei tudo o que eu sonho/ talvez o que eu componho/ respondo ao que eu não sei mas sei, seria/ maior que a natureza/ que o som e que a beleza, que a arte, o canto, o sol/ e o bem maior, bem maior/ eu vi o amor cantar”.

Ouça Mariana Aydar em Dentro das rosas (Nuno Ramos/ Clima):

Samba de roda e mina

Quintais. Capa. Reproducao
Quintais. Capa. Reproducao

 

Roque Ferreira assina mais de um terço do repertório de Quintais [2016], novo disco de Clécia Queiroz, que dedicou à obra do compositor conterrâneo seu disco anterior, Samba de Roque [2009] – ela estreou com Chegar à Bahia [1999].

Parceria dela e dele, a faixa Quintais batiza este novo álbum da cantora baiana, plural deste sinônimo de terreiro, espaço propício para a prática do samba de roda, presença constante no repertório, feito a cavaquinho (Dudu Reis), violão (Marcos Bezerra), percussão (Sebastian Notini e Bira Monteiro) e marcado a palmas, com aparições ocasionais de flauta, saxofone, clarinete, trombone, violino, flugelhorn, com participações especiais de Targino Gondim (sanfona em Águas de Oxum, parceria de Roque com J. Velloso), Dona Nadir (voz no Trecho de sodade de domínio público que abre Samba bom, de J. Velloso e Alexandre Leão) e Sú de Oiá (voz na vinheta Salve Xangô, dela).

O título dialoga com o do mais recente álbum da também conterrânea Maria Bethânia, Meus quintais [Biscoito Fino, 2014], outra grande intérprete de Roque Ferreira e, de resto, do universo do samba de roda do Recôncavo Baiano, patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco. “Foi escolhido de uma maneira insólita, depois de muita hesitação. Era necessário encontrar alguma coisa bonita e direta, sincera mesmo e que, sozinha, desse conta de tantas histórias, reunisse em suas poucas sílabas tantos climas, ritmos, arranjos e textos diferentes”, explica Vítor Queiroz em texto no encarte – o projeto gráfico, fazendo lembrar um antigo compacto, no formato e tamanho, merece destaque.

Flor d’água (Samir Trindade) é homônima ao maior sucesso da Banda de Pau e Corda, de Pernambuco. Pedra papel e tesoura (Samir Trindade) usa o lúdico dos brinquedos infantis para falar de amor: “pedra papel e tesoura/ par ou ímpar zerinho ou um/ é só ter você na memória/ que o peito faz/ tum tum tum tum”, começa a letra.

A sequência formada por Caruru (Samir Trindade), Salve Xangô, o medley Homenagem a Xangô, com Xorodô (Emília Biancardi), A lua de Nanã (Clécia Queiroz) – “inspirado livremente em O celular de Naná, de Otto”, como alerta o encarte sobre as semelhanças entre a homenagem do pernambucano ao conterrâneo falecido este ano – e Eu saravei (Sú de Oiá), Águas de Oxum e Areia branca (Roque Ferreira) visita o universo dos orixás e do tambor de mina, de forte presença no Maranhão, sobretudo no interior do estado.

Difícil não querer entrar na roda e dançar, mesmo sem saber ou sem ter quintal.

Daqui pra todo ouvido

Daqui. Capa. Reprodução
Daqui. Capa. Reprodução

 

O mundo se encantou com a música brasileira com a explosão da bossa nova, em fins da década de 1950. Uma das mais sofisticadas do planeta, desde então a música popular brasileira, aquela que passa longe de modismos, conquista cada vez mais espaços, sem se importar com barreiras geográficas e linguísticas.

Setas apontam para todos os lados na capa do novo disco do grupo Pau Brasil, uma das mais longevas e destacadas formações instrumentais da música brasileira. Depois da audição de suas 10 faixas, o título pode soar óbvio – o que seria a única obviedade do trabalho: todos os compositores gravados são brasileiros, daí o Daqui [2015] do título.

Metade das faixas é de autoria de integrantes do quinteto. A outra metade reverencia nomes fundamentais para a música brasileira, revelando influências e um fio condutor.

O maestro pernambucano Moacir Santos (Agora eu sei) foi professor do violonista Baden Powell (Pai, em parceria com Paulo César Pinheiro, que abre o disco). Tom Jobim (Saudades do Brasil) é, digamos, herdeiro de Heitor Villa-Lobos (Bachianas brasileiras nº. 1 [Prelúdio/ Modinha] – a cujo repertório já haviam dedicado o disco Villa-Lobos Superstar (2012), com participação especial do quarteto de cordas Ensemble SP e do cantor Renato Braz. E aparecem ainda Ary Barroso e Lamartine Babo, autores de No rancho fundo, de longe a mais popular das citadas.

Junto às demais faixas, autorais – Pingue pongue (Paulo Bellinati), Sarapuindo (Teco Cardoso), Lá vem a tribo (Rodolfo Stroeter/ Paulo Bellinati), Agreste e Caixote (ambas de Nelson Ayres) –, sobressai o espírito de conjunto, com momentos de reafirmação de seus talentos individuais, os nomes dos integrantes do quinteto sempre espalhados em fichas técnicas de discos e shows de uma grande gama de artistas.

O Pau Brasil em foto de Gal Oppido
O Pau Brasil em foto de Gal Oppido

Ricardo Mosca (bateria), Teco Cardoso (saxofones e flautas), Paulo Bellinati (violão), Nelson Ayres (piano) e Rodolfo Stroeter (contrabaixo) – da esquerda para a direita no retrato; o último o único presente desde a formação original – são a atual formação (desde 2005) do Pau Brasil, fundado em 1982, tendo estreado em disco em 1983 num álbum intitulado simplesmente com o nome do grupo.

O nome Pau Brasil remete ao Manifesto da Poesia Pau Brasil, escrito por Oswald de Andrade, farol do movimento modernista – não à toa seu disco anterior, com a voz de Monica Salmaso (eram sua banda em Noites de gala, samba na rua, de 2007, inteiramente dedicado ao repertório de Chico Buarque) e a regência de John Neschling, chama-se Concerto antropofágico (2012).

Em Daqui sobram demonstrações de talento, versatilidade e capacidade de improvisação, num álbum que é, com pitadas jazzísticas, uma espécie de síntese da música (instrumental) brasileira. Como no poema de Olavo Bilac reproduzido no encarte: “E em nostalgias e paixões consistes,/ lasciva dor, beijo de três saudades,/ flor amorosa de três raças tristes”.

Veja/ouça o Pau Brasil em Caixote (Nelson Ayres):

Sabor de maturação

Conheça Hóspede da natureza, sétimo disco de Cátia de França, disponível para audição e download legal e gratuito no site da Natura Musical. Sobre o trabalho, a cantora e compositora paraibana conversou com Homem de vícios antigos

Hóspede da natureza. Capa. Reprodução
Hóspede da natureza. Capa. Reprodução

Hóspede da natureza [Natura Musical, 2016; ouça e baixe aqui], sétimo título da discografia de Cátia de França, já é um dos grandes discos do ano e poderia ser considerado como tal “apenas” pelo fato de tratar-se da volta da compositora paraibana à cena, mas é bem mais que isso: sua força poética e melódica mantém-se intacta, quase 40 anos após a estreia com 20 palavras ao redor do sol.

Com ecos líricos e melódicos de Bob Dylan e James Taylor, a faixa-título, que abre o disco, é baseada em trechos de Walden ou A vida nos bosques, de Henry D. Thoreau, livro de 1847, mantendo a sintonia literária da música de Cátia de França, cuja obra dialoga desde sempre com nomes como Guimarães Rosa, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto e Marconi Notaro. A primeira faixa fala ao mesmo tempo de esperança – “toda criança reinaugura o mundo” – e de descrença – “os homens e seus ternos limpos/ seus casacos sem remendos/ sua consciência nunca está tranquila/ na verdade existem poucos homens/ e uma infinidade de calças e paletós”.

Minha vida é uma rede, a faixa seguinte, é inspirada em frases de para-choques de caminhão, revelando o olhar atento de cantadora das coisas do mundo da artista, menos conhecida que conterrâneos como Zé Ramalho, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Geraldo Vandré e Chico César, entre outros.

Lagarto ao sol, mesmo com o “erro” na pronúncia do nome do réptil, parece tecer uma crítica ao individualismo nosso de cada dia: “acorda, a plateia quer mesmo é que você caia/ e depois, tome vaia, a arena é a mesma, rugem os leões” – o disco foi lançado um pouco antes, mas a música de Cátia de França bem poderia traduzir também a sessão no Senado Federal que decidiu pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, ao menos neste trecho.

Com um jeito todo particular para falar de sexo, vide a belíssima Coito das araras de seu disco de estreia, Geração volta ao tema: “o inseto pólen, a transa, é você na estrada/ fecundando nosso ninho”. Gaivota segue a trilha de amor e desejo: “me pegou de jeito, você raio de luz/ (…)/ desejo em mim, estou tão feliz”. É também a primeira de três faixas marcadas por toques, ora mais sutis, ora mais escancarados, consagrados a divindades de religiões de matriz africana. Aqui o Toque aguerê de Oxossi; em Luvana o Toque Ilu de Iansã, e em Trator/ As águas que brotaram dos meus óio o Toque Opanijé de Obaluaiê.

Pra doer, com letra de Júlio Sortica, é o apego desesperado, nem que seja pela dor da lembrança, de quem vê um relacionamento se esvaindo. “Deixe alguma coisa sua ao sair/ algo que não corte/ mas que doa ao lembrar”, agarra-se desesperadamente o/a protagonista.

A dor não cabe em apenas uma faixa e Evidências, com letra de Mônica Dantas, segue a trilha de fim de relacionamento: “e eu sem querer já sei que o nosso amor/ está rendido à luz das evidências/ e tanta essência o ar não segurou”, entrega-se.

Tramas da cidade traduz os problemas comuns aos grandes centros urbanos do país. O texto de Cátia de França distancia-se, no entanto, do noticiário cotidiano, e mesmo questões urbanas graves como violência e poluição são encaradas sob o prisma por demais poético da paraibana, que canta e toca violão na faixa, acompanhada apenas pela guitarra de Walter Villaça. Não deixa de ser, também, uma canção de amor: “e se um dia aparece a pessoa certa/ eu fotografo na retina no meu doido descontrole”, promete adiante, depois de revelar que “com prazer o hálito da chaminé/ polui o ar, polui você” e noticiar que “um assaltante roubou o riso/ de uma criança e sumiu na multidão”.

O par formado por Rua do Ouvidor, em que sua voz e violão são acompanhados apenas pelos sopros de Marcelo Bernardes, e Rio Capibaribe traz à cena paisagens caras à Cátia de França, respectivamente no Rio de Janeiro/RJ e no Recife/PE – ambas as cidades integram a turnê de lançamento de Hóspede da natureza, que passará ainda por João Pessoa/PB, Vitória/ES e São Paulo/SP.

Luvana, única faixa instrumental do disco, traz vocalises de Cátia de França e o crescendo percussivo lembra, de longe, em determinados momentos, Kukukaya (Jogo da Asa da Bruxa), talvez sua música mais conhecida, gravada por nomes como Elba Ramalho e Xangai.

Debaixo da tamarineira/ Ô, Mateu reverencia o bumba meu boi. Está aí um dos versos mais bonitos do disco, “meu amor quando me olha com brilho de faca nova”, e não deixo de pensar no diálogo com Rosa Maria, que “tinha faca de ponta nos olhos”, da lavra do maranhense Josias Sobrinho.

A cantora no show de lançamento de "Hóspede da natureza" no Teatro Santa Isabel, no Recife/PE. Foto: Ademar Filho
A cantora no show de lançamento de “Hóspede da natureza” no Teatro Santa Isabel, no Recife/PE. Foto: Ademar Filho

Cátia de França faz soar um sino e é acompanhada apenas do tambor alegre de Mariana Bernardes (filha de Marcelo) em Trator/ As águas que correram dos meus óio, em que reúne a alegria e o espanto diante do belo, o infelizmente hoje raro chorar de emoção, diante dum mundo cada vez mais embrutecido. Ela celebra, “chegando enfim, chegou o meu tesouro”, talvez fazendo uma autorreferência sobre este disco, tesouro que nos entrega, com certo atraso – Hóspede da natureza foi gravado entre 2005 e 2006, antes de seu antecessor, No bagaço da cana – Um Brasil adormecido, de 2012. Nunca é tarde para este transbordamento de beleza, e ela presta reverência: “as águas que correram dos meus óio/ dos tambores do Mestre Beleza”.

Aqui e ali se ouvem “sons de floresta, chuva e pio de inhambu”, como registra a ficha técnica. O fecho é sublime: em Grandezas pantaneiras Cátia de França volta ao universo particularíssimo de Manoel de Barros e seu olhar poético inusitado. Para contrariar a frase final, “de repente faz um silêncio pelo capinzal”, só resta apertar novamente o play e contemplar tudo de novo.

Cátia de França (voz, violão, percussão) divide os arranjos de base do disco com Rodrigo Garcia (violão, teclado, percussão, contrabaixo, viola) e acercou-se de nomes como Walter Villaça (guitarra) e Lan Lan (percussão), músicos que trabalharam com Cássia Eller, além do veterano Marcelo Bernardes (flauta, flautim, sax, clarinete), da banda de Chico Buarque. Também comparecem Durval Pereira (percussão), Matias Corrêa (contrabaixo acústico em Evidências), Luiz Otávio (piano em Evidências), Alex Merlino (bateria em Pra doer e na faixa-título), Arthus Fochi (violões em Lagarto ao sol) e Jander Ribeiro (viola caipira elétrica), entre outros.

Através de uma rede social, Cátia de França concedeu uma breve entrevista a Homem de vícios antigos.

Foto: Thercles Silva
Foto: Thercles Silva

Homem de vícios antigos – Hóspede da natureza é seu sétimo disco de carreira, mas poderia ser o sexto, já que foi gravado antes de No bagaço da cana, que acabou sendo lançado na frente. O que explica esse, digamos, desvio de percurso?
Cátia de FrançaNo bagaço da cana saiu na frente através do FIC, apoio cultural da Paraíba. Aquela safra [de composições] era de 1975. Só veio à tona em 2012. Parece que gosto da maturação. Tem que sair na hora certa. Com as pessoas indicadas. Dar possibilidade de pagar uma orquestra como a Camerata Arte Mulher. Uma orquestra feminina. Tinha que ter financiamento. O Hóspede saiu através da Natura, que criou o alicerce à altura.

Parte da banda que toca em Hóspede da natureza acompanhou a carreira de Cássia Eller. Como é sua relação com músicos mais novos? O que você acha/va do trabalho de Cássia Eller e o que achou do trabalho deles em sua obra? Como foi este contato?
O distrito onde estou aqui na serra, próxima ao Rio De Janeiro, já era rota dos músicos [Hóspede da natureza foi gravado entre dezembro de 2005 e fevereiro de 2006 no Estúdio Luperan, em São Pedro da Serra, Nova Friburgo/RJ]. A própria Cássia andou aqui na época que eu ainda não residia em definitivo em São Pedro da Serra. A cidade a homenageou dando a uma montanha o nome dela. Quem facilitou a adesão dos músicos para tocar no Hóspede foi o produtor do cd, Rodrigo Garcia. Ele tocou com ela na fase espanholada [nos discos Dez de dezembro (póstumo, 2002), Com você… meu mundo ficaria completo (1999) e Veneno vivo (1998)], na escola do [falecido cantor espanhol] Camarón de la Isla. Além dele, parte da banda, ou seja, Lan Lan, fantástica percussão e Walter Villaça, guitarra, e sua economia magistral nas notas, os solos precisos. O embrião do Hóspede se deu num clima mágico: estúdio caseiro, no meio de uma floresta, em pela serra. Havia até um rio próximo do local. Estávamos longe do conturbado centro urbano. Músicos novos, como reajo perante eles? Quando escolho a formação de uma banda não levo em conta se é novo ou velho. O que me interessa é se eles respondem o rojão de um maracatu, de um coco. De um rock à sutileza de um blue. Inclusive na formação atual da banda o mais velho é o rapaz dos sopros, Marcelo Bernardes, deve ter uns 50 e poucos. O restante está na faixa dos 30. Meu diretor musical e baixista também. O que é que eu achava da Cássia Eller? Achava não: eu acho. O legado dela é eterno. A lacuna na MPB jamais será preenchida. O trono feminino do rock está vazio. Quem hoje fará no palco o que ela fez?

Debaixo da tamarineira/ Ô, Mateu traz o bumba meu boi. Qual a sua relação com o Maranhão e o que conhece da música daqui?
Maranhão. Meu envolvimento com o Maranhão ocorreu quando fui aí pela primeira vez, com a peça A peleja de Lampião, do Teatro Cordel, em 1975 ou 76, com direção de Luiz Mendonça e o elenco trazendo Elba Ramalho, Tonico Pereira, José Dumont, Tânia Alves. A direção musical quem fazia era eu, além de tocar violão, sanfona e percussão. Agora o que me impressiona é a força mística. O espiritismo em certas regiões daí, orixás, caboclos, pretos velhos. Musicalmente não dá para ouvir sentada. O reggae. Agora as festas populares. O povo nas ruas. Vi uns documentários por aqui… para quê viajar, se a gente tem um mundo com seus mestres dentro desse Brasil? Me dê licença, mas eu vou ver de perto, de bem perto esse Maranhão.

A arte do encontro, do canto e do encanto

O cantor Renato Braz volta à Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves
O cantor Renato Braz volta à Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves

 

O cabelo de Renato Braz esvoaçava ao vento e ele, ao anunciar a saideira, “uma ária de Bizet”, afirmou: “com esse vento, vai ser uma maravilha”, para risos da plateia, antes de cantá-la à capela.

Ao fundo, o mar e a Ilha do lado de cá, belo cartão postal emoldurando seu canto, que num texto noutra ocasião, já chamei de “sagrada vocação”.

Antes, Renato Braz dedicou Cálice (Chico Buarque/ Gilberto Gil) a Cida Moreira, atriz, cantora e pianista, sua conterrânea, que se apresentaria na sequência, cujo Cida Moreira canta Chico Buarque (Kuarup, 1993) é inteiramente dedicado à obra do compositor. O cantor comentou a atual situação do país – “como pode essa música ser tão atual”, disse – e de incidental no Cálice serviu o Fado tropical (Chico Buarque/ Ruy Guerra): “ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ ainda vai tornar-se um império colonial”.

Um dos melhores cantores do Brasil em atividade, cantou ainda O ciúme (Caetano Veloso), O amor (Caetano Veloso sobre poema de Vladimir Maiakovski), antecedido de um aviso: “eu não sou a Gal Costa”, para risos da plateia. Seu repertório passeou ainda por Oriente (Gilberto Gil), O dia em que o morro descer e não for carnaval (Paulo César Pinheiro/ Wilson das Neves), Anabela (Paulo César Pinheiro/ Mário Gil), entre outras.

Fato destacado pela produção e cerimonial, o projeto Ponta do Bonfim [ontem (17), das 14 às 21h30, aproximadamente, na Ponta do Bonfim, em São Luís] é a soma de boa música, bela paisagem e amizade. Acontece sem periodicidade específica, a partir da reunião de amigos que decidem trazer à São Luís artistas que admiram – era a segunda vez que Renato Braz subia a seu palco. O barulho intenso de boa parte do público prejudicou sua apresentação, emocionante, apesar disso.

Sete anos após apresentar show dedicado a Cartola em São Luís, Cida Moreira estreia no palco da Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves
Sete anos após apresentar show dedicado a Cartola em São Luís, Cida Moreira estreia no palco da Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves

Cida Moreira subiu ao palco na sequência. Precisou de ajuda: estava com três dedos do pé quebrados, história que contou rindo de si mesma, bem humorada. “Já é noite, tem mais a minha cara”, saudou a bela lua. O vento intenso descabelou-a também e alguém lhe emprestou algo para amarrar os cabelos. “O modelito foi embora”, tornou a rir e a fazer a plateia rir.

“Tássia” [Campos] – que havia aberto a sequência de apresentações, acompanhada por Rui Mário – “cantou uma música que eu ia cantar, Renato Braz cantou outra”, comentou Cida. Alguém da plateia retrucou: “canta de novo!”. “Não tem cabimento repetir. Tem muita música para cantar”, respondeu.

“Eu vou dedicar a essa menina linda que cantou antes de mim. Ela cantou muito bem Speak Low, do Ira Gershwin com o Kurt Weill; eu vou cantar uma dos irmãos George e Ira Gershwin”, anunciou, antes de cantar The man I love, dedicando-a a Tássia.

Esquivou-se elegantemente de pedidos: “há músicas que eu vou abandonando, deixando de tocar, o Soneto (Chico Buarque) faz tempo que eu não canto”. Alguém gritou “Geni e o zepelim!” e ela respondeu: “pra Geni eu já dei um plano de previdência privada”; a plateia caiu na gargalhada.

Depois contou uma história: “eu passei 25 anos ouvindo essa música e eu sempre chorava. Só depois eu consegui cantá-la. É uma música muito dura, muito forte, como tudo o que Chico Buarque faz. É uma canção de ninar, e eu vou oferecer ao Renato, que está com filho pequeno, vou oferecer para todos os que têm filhos”, e eu me senti contemplado, lembrando de José Antonio, que ficou em casa e era o nobre motivo de eu não ter como ver todos os shows deste pequeno festival de boa música – perdi também a apresentação do sambista paraense João Lopes, que encerraria a noite lembrando repertório exclusivamente formado por sambas imortalizados pelo saudoso xará, Nogueira. E Cida Moreira mandou a emocionante Uma canção desnaturada.

Ao cantar o tango Sou assim (Toquinho/ Gianfrancesco Guarnieri), tirou onda: “essa letra o Guarnieri fez para uma peça, o Toquinho musicou. Os maldosos gostam de dizer que essa é uma do Toquinho dos bons tempos”.

Em determinada altura do show atrapalhou-se com algum botão do teclado. “Teclados têm vida própria”, disse, e ao apertar uma tecla, o instrumento insinuava começar a típica batida programada das serestas. “O dono do instrumento, me socorra, por favor!”. O prestativo Rui Mário subiu ao palco e desativou a função.

“Essa é de um compositor brasileiro muito importante. Muito, muito, muito importante”, repetiu para frisar. “Ele deu uma sumida, ninguém sabe por onde anda. Belchior!”, continuou, trazendo Na hora do almoço.

Antes de cantar Forasteiro (Thiago Petit/ Hélio Flanders), recomendou: “quando vocês ouvirem uma música numa novela não pensem que a música foi feita para a novela. Às vezes eles solicitam alterações. Essa aqui, por exemplo, já existe há uns sete anos, aí a Globo pediu para incluir um trecho em francês. É do Thiago Petit e do Hélio Flanders [vocalista do Vanguart], de uma nova geração que está surgindo, uma geração talentosa, diferente do que essa mídia ordinária tenta nos vender como país. Eu cantei com o Thiago há três dias, são artistas maravilhosos. Eu busco sempre dialogar com os mais novos, tenho gravado”.

A música, que está na trilha sonora de Velho Chico, interpretada por Pethit e Tiê, foi gravada pela cantora em Soledade (2015). Lembrar a novela foi o mote também para ela homenagear o amigo Domingos Montagner, que interpretava o personagem Santo dos Anjos no folhetim, que morreu afogado num trágico incidente quinta-feira passada (15).

Cida teve melhor sorte com a galera do “selfie-se quem puder”. Ao anunciar a última, começou a ouvir gritos de “mais uma!”. “Mais uma é essa. Eu precisei de ajuda para subir no palco, vou precisar de ajuda para descer. Não dá para sair e voltar”. Despediu-se com Summertime (Doroty Heyward/ DuBose Heyward/ George Gershwin/ Ira Gershwin), faixa que batiza seu disco de 1981, o primeiro da carreira.

Que me perdoem o clichê do título deste texto, mas quem estava lá para ver e ouvir os artistas sabe do que estou falando.

Música doce

Vai sobrar doçura hoje (16), no palco do Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro). Às 20h, com abertura do maranhense Sfânio, apresentam-se os curitibanos Ana Larousse e Leo Fressato.

Ele, mais vinculado à MPB, ela, ao rock, mas ambos transitando um no universo do outro. O encontro potencializa elementos cênicos de sua música, que ecoa contemporâneos do naipe de Mallu Magalhães, Los Hermanos, Vanguart e Tiê, entre outros.

Tudo começou aqui, disco de estreia de Larousse, foi lançado em 2013. No ano seguinte Fressato lançou Canções para o inverno passar depressa, seu álbum inaugural. Os dois trabalhos formam a base do repertório que o par apresentará hoje à noite na ilha.

Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do Teatro da Cidade, por R$ 50,00 (meia para estudantes e demais casos previstos em lei).

Assista Leo Fressato em Enquanto eu não (Leo Fressato):

E Ana Larousse em Vai, menina (Ana Larousse):

Fazendo do mundo um lugar mais legal pra viver

Fábrica de Animais. Capa. Reprodução
Fábrica de Animais. Capa. Reprodução

 

Melhor nome de banda desde a Isca de Polícia do saudoso Itamar Assumpção, a Fábrica de Animais acaba de lançar seu segundo disco, pelo mítico selo Baratos Afins, de Luiz Calanca. O álbum, a exemplo do de estreia, leva apenas o nome da banda, inspirado no romance que o ator e escritor Edward Bunker escreveu quando de sua passagem pela penitenciária americana de San Quentin.

A máxima dos Stones se aplica perfeitamente à banda paulista: é só rock’n roll, mas eu gosto. Na verdade é mais que rock: Flávio Vajman (gaita), Cristiano Miranda (bateria), Fernanda D’Umbra (voz), Caio Góes (contrabaixo) e Sérgio Arara (guitarra) fazem um rock vigoroso, com pitadas de blues e letras de alta voltagem poética.

Seguindo a trilha das referências, umas mais, outras menos explícitas – capa e ilustrações são assinadas por Angeli –, Hendrix é a primeira palavra que ouvimos no disco, em De quando lamentávamos o disco arranhado (Beatriz Provasi/ Fábrica de Animais), sua faixa de abertura. Um delicioso rock’n roll sobre o fim de um relacionamento e seus símbolos.

Jogo de dardos (Marcelo Montenegro/ Cristiano Miranda) também é sobre separação: “saca só o tamanho do estrago/ o que tá escrito na fita não é o que tá gravado/ pode levar o Crumb/ eu só quero ficar com esse jogo de dardos”.

Tudo errado (Fernanda D’Umbra/ Fábrica de Animais) é um blues visceral sobre um amor impossível e cita Roberto Carlos de raspão: “eu sei, eu tô acostumada a sair sem pagar/ voltar de madrugada pro mesmo lugar/ passar os dias latindo em frente ao seu portão/ tá tudo errado”.

Noite daquelas (Marcelo Montenegro/ Sérgio Arara/ Fábrica de Animais) dialoga com Diversão (Sérgio Britto/ Nando Reis), hit dos Titãs: “posso até te ligar pra te convidar/ mas só de ouvir meu alô, você vai sacar/ que hoje não tem jogo nem beijo de novela/ pois hoje o que eu preciso/ é de uma noite daquelas”. A atriz band leader encarna a personagem protagonista da faixa numa interpretação de total entrega, afinal uma marca da grande cantora que é, e precisa urgentemente ser descoberta por mais gente Brasil afora – torço para que De carona com Fábrica de Animais (veja trailer ao fim deste post), documentário de Edson Kumasaka (autor da foto da banda no encarte do disco), tenha sucesso no In-Edit Brasil e cumpra esse papel.

Se bem observarmos, o amor permeia todo este Fábrica de Animais, o disco. Erro (Sérgio Arara) talvez seja um de seus nomes possíveis, não dizem que ele é cego? “Tem um erro encravado na parede da sala/ que atravanca minha vida/ que me fode em nome do amor”, dispara a letra, para arrematar: “erro, tente esquecer/ aceite sua sorte/ encare sua morte/ tenha ele o nome que for”.

A esperançosa Tarde demais (Cristiano Miranda/ Rubens K), uma das mais “tranquilas” do álbum, é sobre o amor possível: “tarde demais você falou algumas coisas banais/ não importa o que aconteça/ tarde demais você falou algumas coisas legais/ e era o que eu mais precisava”.

A irônica Água salgada (Fernanda D’Umbra/ Fábrica de Animais) evoca melodicamente Raul Seixas e toda a pré-história do rock, de nomes como Carl Perkins, W. Penniman e Neil Sedaka, entre outros, lembrada pelo baiano em 30 anos de rock (1973). “No meio do mar não adianta chorar/ o que não falta aqui é água salgada”.

Em Ritalina (Fernanda D’Umbra/ Sérgio Arara) a quase homônima Rita Lee é citada: “não vou mais ouvir Rita Lee/ vou tomar ritalina”, diz a letra, citando a droga hoje bastante popular, em meio a “prestar atenção nos detalhes desse mundo chato” e suas coisas aparentemente simples.

Som cafona (Sérgio Arara) é uma espécie de blues abolerado, mais uma faixa sobre fim de relacionamento e o balanço natural a que normalmente são levados os que passam por isso.

Nervosa, Bossa nóia (Sérgio Arara) fecha o disco em meio a mais um fim de relacionamento, e talvez a vontade de voltar, dialogando com Malandragem (Cazuza/ Frejat), sucesso de Cássia Eller: “princepezinho virou sapo, tchau!/ tem chulé meu sapato de cristal/ no truco nunca serei ás de paus/ essa vida é engraçada/ quando alguém sonha com fadas/ tem-se a sensação de não viver/ só que a minha fada é foda”.

Fechar o disco é modo de dizer: uma faixa escondida, sem título, explode num rock alucinante, escancarando o modus operandi punk da Fábrica de Animais. “Eu não tenho dinheiro”, repetem o verso carma, o que nunca foi uma desculpa para deixar de fazer, enquanto desconstroem símbolos do conforto da classe média.

Violentar o status quo foi desde sempre uma tarefa que coube ao bom e velho rock’n roll. “Vou prestar atenção nos detalhes desse mundo chato”, voltamos à letra de Ritalina, a Fábrica de Animais subvertendo-os e ajudando a tornar este mundo um lugar menos chato pra viver.

*

Assista trailer de De carona com Fábrica de Animais, documentário de Edson Kumasaka:

Alexandra Nicolas promete bulir com o público em guinada rumo ao Nordeste

A cantora Alexandra Nicolas conversou sobre a nova empreitada artística com Homem de vícios antigos. Foto: Veruska Oliveira
A cantora Alexandra Nicolas conversou sobre a nova empreitada artística com Homem de vícios antigos. Foto: Veruska Oliveira

 

Os ritmos nordestinos já estavam presentes em Festejos [Acari Records, 2013], disco de estreia de Alexandra Nicolas, mais identificado com o universo do samba e do choro, seja pelo time de instrumentistas que a acompanha ali, bambas dos gêneros, ou pelo compositor que gravava: o repertório era inteiramente dedicado à obra de Paulo César Pinheiro.

Em temporada que inicia nesta sexta-feira (2 de setembro), às 21h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), o Nordeste deixa a periferia para ocupar o centro das atenções. Na ocasião, a cantora realiza o primeiro de sete shows gratuitos com que percorrerá diversas praças públicas de São Luís, além de lançar o videoclipe de Bulir com tu (Antonio Barros e Cecéu), repescada do repertório de Marinês e, já em sua voz, um hit em rádios locais e redes sociais. O videoclipe tem participação especial do bailarino Carlinhos de Jesus, que virá à São Luís para a apresentação de encerramento da temporada, marcada para 10 de dezembro (sábado), no Espigão Costeiro da Ponta d’Areia.

A temporada passa ainda por Praça da Saudade (Madre Deus, 16 de setembro), Igreja de Santa Teresinha (Filipinho, 1º. de outubro), Largo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (Monte Castelo, 15/10), Praça da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré (Cohatrac, 4 de novembro) e Parquinho da Avenida Litorânea (11/11).

“Meu coração sempre bateu mais forte para os ritmos da minha região. Tenho certeza que nasci pra cantar o meu Nordeste. É bem simples, quando eu ouço meu corpo responde”, revela a cantora ao Homem de vícios antigos. “Tudo mexe e remexe aqui dentro e minha alegria e orgulho ficam estampados no rosto. Adoro o jeito de fazer música dos nordestinos. Eles são faceiros, entusiastas e compartilham alegria, abundância, conquista e até quando se fala de dor, nostalgia e saudade tem humor. E eu vivo assim, desse jeito, vendo o lado bom de tudo. E pra ser bem honesta de fato e de direito, eu me encanto com o jeito que eles falam da mulher. Ela tem cheiro de erva, tem gosto de fruta e tem a cor do sertão”, continua.

Patrocinada pela Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, a temporada servirá para mostrar este outro lado da versátil Alexandra Nicolas, mas será também um teste para o repertório do disco novo, cujo título também é Bulir com tu, a ser lançado em 2017. Ela confessa que a escolha não tem sido fácil, mas duplo sentido inteligente, de que o dial anda tão carente, tem presença garantida. Os testes, aliás, começaram no período junino: “a resposta foi forte!”, celebra.

“Escolha complicada e difícil, pela quantidade de música boa que chega pra mim. Já tenho material pra gravar disco por toda a vida. Não existe nesse mundo homem pra falar de sexo de forma mais inteligente do que o nordestino. Não tem! Primeiro o desejo, é aquele que dá água na boca e tem até forma, dá pra ver na música, é cinematográfico. Antigamente, a censura fazia com que eles arrodeassem o assunto de todo jeito e isso deu passagem para o duplo sentido inteligente, sagaz e cheio de malícia refinada, campo no qual João do Vale era rei”, afirma, citando um dos autores escalados para a seleção, ou devo dizer “bulição”? Outros nomes já definidos são os também maranhenses Betto Pereira, João Madson e Ronaldo Mota.

Outro maranhense que comparecerá é Zé Américo Bastos, com longo currículo de bons serviços prestados à música brasileira, durante muito tempo produtor de Elba Ramalho, com talento posto à prova também em discos de Alceu Valença, Alcione, Ednardo, Gilberto Gil e Vicente Barreto, outros ícones nordestinos que dispensam apresentações.

Ela conta como se deu o re-encontro: “Zé Americo, antes de maestro, é tio de minha infância, amigo do meu pai, parte integrante das festas na casa de minha avó. Papai sempre disse que Zé , era o maestro certo pra mim. A vida deu muitas voltas, até que Betto Pereira, meu amigo de fé, meu irmão camarada, repetiu essa frase de meu pai. Aí se tornou imperativo pra mim. Segui o conselho do amigo e fomos juntos até a casa dele no Rio. O encontro foi emocionante. Como tenho juízo, tomo a benção pra Zé, até hoje. Esse detalhe eu acho que já revela tudo”.

Bulir com tu, primeira música de trabalho do novo disco, vem dando a tônica do que serão disco, videoclipe, shows e as aparições surpresa em que aparece cantando, acompanhada de Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho), seu diretor musical, que vem angariando inúmeras curtidas e compartilhamentos nas redes sociais – a banda que a acompanhará ao longo da temporada se completa com Carlos Raqueth (contrabaixo), David Ginja (sanfona), Edson Reis (percussão), Gil Costa (vocal), Jonny Wekner (teclado), Lee Fan (sax e flauta), Nataniel Assunção (bateria), Rony Cravo (vocal) e Wanderson Silva (percussão).

“Tenho muitos mestres na vida, graças a Deus! Essa escolha eu devo a um deles: Arlindo Carvalho. É o grande culpado dessa escolha. Ele me deu de presente de aniversário em 2013 uma cópia do CD de Marinês e sua Gente, 50 anos de Forró, idealizado por Elba Ramalho e produzido por Marcos Farias em 1999, no qual Marinês faz duetos com grandes ícones da música nordestina, gente da gente. É um disco pra se ter pro resto da vida e passar de gerações pra gerações”, comenta o achado. “Ali estava o filme da minha infância, da minha vida de menina, que nasceu e foi criada na batida do forró. Lá estava meu novo xodó, Bulir com tu, que por sinal Marinês divide com o próprio produtor. Nascia ali minha frase de trabalho: “eu vou bulir com tu”, revela. É mais que uma promessa: ela bole mesmo, este repórter atesta.

Dicy Rocha: de Flor de Cactus a Rosa Semba

Em entrevista a Homem de vícios antigos a cantora relembra sua trajetória enquanto se prepara para participar do show Toca Raul, do amigo Wilson Zara. Ela está às voltas também com o lançamento de Rosa Semba, seu disco solo de estreia

A cantora Dicy Rocha. Foto: Afonso Barros
A cantora Dicy Rocha. Foto: Afonso Barros

Foi o acaso quem apresentou Dicy Rocha e Wilson Zara. Foi o cantor que transformou o trio formado por ela, sua irmã Jovinha Rocha e Helyne Julle em Flor de Cactus. Logo o grupo passou a acompanhá-lo em apresentações em festivais por municípios da região e no Caneleiros Bar – mítico bar que Zara manteve durante certo tempo em Imperatriz, onde se apresentaram nomes como Jorge Mautner, Tetê Espíndola, Ednardo e Tadeu Franco, entre outros.

Natural de Coroatá, Dicy chegou a Imperatriz aos quatro anos de idade. Hoje vive em São Luís, onde prepara o lançamento de seu primeiro disco solo, Rosa Semba. É assessora de comunicação e mobilização social da Agência de Notícias da Infância Matraca e do Centro de Cultura Negra do Maranhão.

Dicy e Zara se reencontram, desta vez não por acaso, nas duas edições de Toca Raul, tributo a Raul Seixas que ele apresentará em São Luís [hoje, às 21h, na Praça dos Catraieiros, Praia Grande, com abertura de Marcos Magah e Tiago Máci e participação especial de Louro Seixas] e Imperatriz [dia 27 de agosto, às 22h, no Rancho da Villa, com abertura de Nando Cruz e Tony Gambel], com patrocínio da Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Em entrevista a Homem de vícios antigos, a cantora Dicy Rocha fala sobre o início da carreira, o encontro com Zara, de sua generosidade, das mudanças para Imperatriz e São Luís e, é lógico, de música.

Dicy Rocha lembra as origens e fala do momento atual de sua carreira em entrevista. Foto: divulgação
Dicy Rocha lembra as origens e fala do momento atual de sua carreira em entrevista. Foto: divulgação

Qual a sensação de reencontrar Zara no palco?
É muitíssimo especial, uma saudade já experimentada. O Wilson é um artista admirável. Com ele, eu e minhas irmãs, do Trio Flor de Cactus, colecionamos boas  lembranças e aprendizados. Será ótimo estar com ele e seu público, que é um espetáculo à parte. É pra matar, ou melhor, deixar mais viva a saudade.

O início de sua carreira foi no Flor de Cactus. Como foi o encontro do trio com Zara?
O trio já existia. Nós – eu, minha irmã Jovinha Rocha e Helyne Jullee – estávamos envolvidas com a música desde os oito anos de idade. Nossa musicalidade era explorada mais especificamente em volta da nossa vivência na comunidade católica que fazíamos parte, a de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na cidade de Imperatriz. Mas foi Wilson quem nos viu e ouviu como Flor de Cactus. Ele chegou um dia no portão da minha casa, procurando o endereço de umas mulheres, que alguém havia indicado pra fazer o vocal de apoio do seu show de tributo a Raul. Lembro que faltavam poucos dias para o show e a cantora Lena Garcia, que fazia parte da banda, não poderia mais acompanhá-lo, por problemas de saúde. Assim, ele bateu por lá procurando essas cantoras. Me pergunto até hoje, se não foi equívoco: o espanto era notável ao encontrar um trio de adolescentes. Então o convite feito foi aceito, agarramos com felicidade e muito empenho, pegamos o repertório em pouco tempo e fomos fazer o show. Após o show, o convite foi estendido para continuamos as apresentações no Caneleiros Bar, e fomos em festivais e outros municípios vizinhos, já como Flor de Cactus. Assim, nós o acompanhamos e depois dividimos muitas cantorias, ainda continuo.

Você é de Coroatá. O que te levou à Imperatriz e depois te trouxe à São Luís?
Cheguei em Imperatriz pequena, aos quatro anos de idade. Meus pais buscavam outras possibilidades de vida. Deixamos então a beira do Itapecuru pelas margens do Tocantins. Ficamos por lá acho que uns 20 anos. A música foi quem me carregou a primeira vez pra ilha. Eu, as meninas do Flor de Cactus e Lena Garcia passamos um tempo vivendo a delícia de cantar quase todos os dias pelos bares e casas da época. A noite aqui fervilhava de cantores e cantoras, até na minúscula lanchonete perto de onde morávamos rolava música ao vivo. Conhecemos e convivemos com grandes músicos e grandes pessoas nessa temporada na ilha, Celson Mendes, Josias Sobrinho, Carlinhos Veloz, Dona Teté, Banda Guetos, Luciana Pinheiro e tantos queridos e queridas. Com o tempo, outras atividades nos afastaram aos poucos do palco. Voltei para casa novamente, e depois de três anos a dor foi quem me trouxe pela segunda vez à ilha. Após perder meu pai em um trágico acidente de carro foi importante pra aquietar o coração e recomeçar. Não demorou muito e o ritmo da ilha começou a me levar novamente para o palco.

Você é jornalista de formação. A música sempre foi um ofício paralelo? Você tem vontade de ele ocupar mais espaço entre teus afazeres?
Minha formação é Comunicação Social com atuação em Marketing e Propaganda. Sou assessora de comunicação e mobilização social na Rede Amiga da Criança e no Centro de Cultura Negra do Maranhão. Sempre estive fazendo outras coisas além da música, é uma correria boa. Tenho pensado bastante sobre isso, afinal o meu primeiro disco está chegando e com ele outras demandas, assim me preparo para estar mais disponível para esse projeto. Quem me conhece bem sabe que eu não busco viver através da música, ela e uma vivência cotidiana muito forte para além do palco, experimento o movimento oposto e são as experiências, as pessoas e toda essa mística que vem se traduzindo para o meu ofício musical.

Da MPB do Flor de Cactus você acabou enveredando na carreira solo por uma linha mais ligada ao universo do reggae e da black music, com o disco Rosa Semba. O que te levou a esta guinada?
Eu e as meninas do Flor de Cactus nem pensávamos muito no futuro com a música, mas era bem certo e sabíamos que nosso destino era estar sempre cantando. Todas nós estamos até hoje envolvidas atividades musicais. A alma do nosso trabalho refletia muito das descobertas e tudo que estávamos tendo acesso em conteúdos musicais na época. Acabamos por ter um repertório bem especial e incomum para os bares na época. O trabalho solo veio da minha aproximação com uma turma muito massa, compositores e jovens músicos como Elizeu Cardoso, João Simas, Beto Ehongue e o meu marido, o produtor cultural e DJ Joaquim Zion, de onde veio o incentivo maior pra esse retorno.  É muito do movimento da vida, com tantas pessoas, com o movimento social e estando atenta aos sons daqui, seja da cultura popular, roots reggae, que o Rosa Semba chegou a mim.

Ouça Rosa Semba (Beto Ehongue):

Frutífero encontro

Dio & Baco. Capa. Reprodução
Dio & Baco. Capa. Reprodução

 

Eugênio Dale e Suely Mesquita fundem-se na capa de Dio & Baco [2015], disco de acentuada pegada pop que dividem. O repertório é quase todo formado por parcerias da dupla – as exceções são Pactocombaco (apenas dele) e Zona e progresso (dela com Pedro Luís e Aricia Mess).

Facilmente assoviável e altamente radiofônico, Dio & Baco é mais escancaradamente etílico apenas nas exceções e em Cortina de fumaça (Suely Mesquita e Eugenio Dale): “Saindo de manhã eu nem olhei pra trás/ pergunta se água ou vinho, eu digo: tanto faz”, começa a letra. “Eu fiz um pacto com Baco/ deus do balacobaco” e “Dionísio é o deus da zona/ abençoa essa zona imortal/ que eu faço vir à tona”, dizem as letras de Pactocombaco e Zona e progresso, respectivamente, esta última já gravada por Pedro Luís e a Parede, no disco batizado por ela.

Eugenio Dale pilota praticamente todos os instrumentos e além de sua voz e da de Suely, são poucos os músicos que frequentam esta deliciosa bacanal sonora: Sidinho Moreira (berimbau de boca em Pactocombaco), Frederico Puppi (violoncelo em A vela e a chama e Bora), Bianca Porto (palmas em A vela e a chama), Lucas de Moraes (palmas em A vela e a chama), Delia Fischer (pianinho em Bora), Glaucio Martins (flauta em Bora), Sidney Santos (contrabaixo em Até que chova dinheiro) e Thiago Silva (bateria em Até que chova dinheiro).

Dio e Baco são o mesmo deus em mitologias diferentes, a grega e a romana. Dio & Baco, o disco, foi gravado “entre 2000 e 2015”, informa o encarte, sem pressa, para assim ser degustado, como um bom vinho em ótima companhia. Deuses do vinho e a julgar pela parceria de Dale e Mesquita, deuses da fertilidade.

Ouça Até que chova dinheiro (Suely Mesquita e Eugenio Dale):

O sublime em família

Pós você e eu. Capa. Reprodução
Pós você e eu. Capa. Reprodução

 

Música é música. Sem classificações, amarras ou limites. Prova inconteste disso é este Pós você e eu [Circus, 2016], de Lívia e Arthur Nestrovski, filha e pai, voz e violão.

Americana de Iowa, Lívia é uma grande cantora brasileira, com o talento posto à prova em discos, como por exemplo, o ótimo De nada mais a algo além [2013], antecessor de Pós você e eu, dividido com ninguém menos que Arrigo Barnabé e Luiz Tatit.

Este novo trabalho atesta as competências e qualidades de Lívia como intérprete e de Arthur – diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) – como instrumentista, compositor e versionista.

Das 11 faixas de um repertório rico e diverso, ele é autor da faixa título, Um milhão, Matusalém (as três em parceria com Luiz Tatit) e Canção de não dormir (parceria com o poeta Eucanaã Ferraz) e assina as versões Serenata (Ständchen, de Franz Schubert e Ludwig Rellstab), Adeus, amor (I’m through with love, de Fud Livingston, Matty Malneck e Gus Kahn), Pra que chorar (Ich grolle nicht, de Robert Schumann e Heinrich Heine) e Vejo você (I only have eyes for you, de Harry Warren e Al Dubin).

Pai e filha se expõem munidos apenas de voz e violão, o que torna as exigências – deles mesmos e dos ouvintes – ainda maiores. Em disco denso, entre popular e erudito, passeiam ainda por Arrigo Barnabé (Londrina), Ary Barroso (Folha morta), Tom Jobim e Dolores Duran (Por causa de você), Jaime Florence e Augusto Mesquita (Molambo), estas ligadas pelo tema instrumental Body and soul (Johnny Green, Edward Heyman, Robert Sour e Frank Eyton).

Serenata abre com trecho não creditado de A saudade mata a gente (João de Barro e Antônio Almeida) e Pra que chorar traz, também sem créditos, incidental instrumental de Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro).

Comovente, Pós você e eu é sublime do começo ao fim, para além da música: antes ou depois de botar o disco para rodar, o ouvinte já começa a se emocionar pelo texto de Sofia Nestrovski, filhirmã da dupla. “O que eu aprendi com este disco, e que pra mim não é pouco, é que eu não preciso de silêncio. Eu, assim como vocês, assim como todo mundo – vamos abrir a festa –, preciso, sempre, de música”, finaliza.

Ouça Serenata (Ständchen, de Franz Schubert e Ludwig Rellstab, versão de Arthur Nestrovski):

Vozes extraordinárias

Rio de Choro. Capa. Reprodução
Rio de Choro. Capa. Reprodução

 

A voz é um instrumento musical. Dizer isso da voz de alguém é, em geral, um baita elogio. Para começo de conversa, os Ordinarius são extraordinários. Em Rio de Choro [2015], segundo disco do sexteto vocal, a música cantada continua instrumental. E a música instrumental é cantada, mesmo quando não há letra.

Alice Sales, André Miranda, Augusto Ordine, Leticia Carvalho, Maíra Martins e Marcelo Saboya interpretam um repertório que mistura clássicos do choro a pérolas contemporâneas. No primeiro grupo, músicas como André de sapato novo (André Correa), Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu), Rosa (Pixinguinha e Otávio de Souza), Choros nº. 1 (Heitor Villa-Lobos) e Santa morena (Jacob do Bandolim); no segundo, Baião de quatro toques (José Miguel Wisnik e Luiz Tatit), Um chorinho em Cochabamba (Eduardo Neves e Rogério Caetano) e Vide Gal (Carlinhos Brown).

Mateus Xavier toca sutis percussões ao longo de todo o disco. Em Tipo zero (Noel Rosa), Maíra Martins e André Miranda tocam kazoo e cavaco, respectivamente. O primeiro é uma espécie de apito com divertido timbre de zumbido. As do cavaco são as únicas quatro cordas ouvidas no disco – além, é claro, das cordas vocais do sexteto.

Num Brasil de tradição em grupos vocais – basta citarmos Os Cariocas, Quarteto em Cy e Boca Livre (que se apresenta hoje na Praça Maria Aragão na programação do 8º. Lençóis Jazz e Blues Festival) para ficarmos em ótimos exemplos – o Ordinarius é a continuidade dessa tradição, soando moderno e bem humorado, sem nunca descuidar da qualidade do repertório e dos arranjos.

Ouça Tipo zero (Noel Rosa):

O som original dos Passarinhos do Cerrado

Origens. Capa. Reprodução
Origens. Capa. Reprodução

 

Passarinhos com raízes ou árvores que voam são boas metáforas para definir o grupo goiano Passarinhos do Cerrado, que aos 10 anos de carreira, chega ao segundo disco, o ótimo Origens [2016], realizado com recursos captados pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Goiânia/GO e por crowdfunding.

Rodrigo Kaverna, Cleber Reizin, Milca Francielle e as irmãs Bruna Junqueira e Nádia Junqueira dividem-se entre vozes e percussões, passeando por cocos, cirandas, torés, divino e folia de reis, demonstrando ao Brasil que a cultura goiana é bem mais que o comumente visto e ouvido em rádios e tevês.

Os Passarinhos do Cerrado não se fecham em si em busca de suas raízes – como poderia sugerir o nome deste segundo disco –, dialogando com ritmos nordestinos, sobretudo o coco que passa a predominar no repertório do grupo desde o álbum de estreia, Coco de folia [2014].

Passarinhos do Cerrado em foto de Ney Couteiro
Passarinhos do Cerrado em foto de Ney Couteiro

É música festiva, para agradar espíritos dançantes, mas com conteúdo fortemente político, na melhor acepção da palavra. “Já ouvi o chamado/ eu vou/ atrás de minha origem/ eu vou/ origem de um povo sofrido/ eu vou”, cantam em Origens/ Toré de abertura, de Rodrigo Kaverna, que sozinho ou em parceria assina a íntegra do repertório.

Este conteúdo político a que me refiro diz respeito também às participações especiais: na faixa citada, por exemplo, os indígenas Inkrer – Cukõn Krahô e Honcrepoj – Xauty Krahô. Uma resposta – política, nunca é demais frisar – ao genocídio indígena cujos rankings no Brasil Goiás lidera há tempos.

No belo projeto gráfico, assinado por Luana Santa Brígida, pousam e voam os que lhes dão nomes, vários passarinhos do cerrado, muitos deles citados em letras, por exemplo a de Pica pau (parceria de Rodrigo Kaverna com Léo Ápice, ex-integrante do grupo, e Sutor Ápice), que abre o disco, pródiga em espécies. Além da que lhe batiza voam por lá arara azul, arara vermelha, coruja caburé, coruja buraqueira, papagaio, periquitinho maracanã, jacucu, canarinho, aracauã, juriti, tucanuçu.

Em busca de suas origens, não faltam participações especiais: todas as faixas têm uma. Siba (ex-Mestre Ambrósio) é o mais conhecido: canta e toca rabeca em Folha amarela (outra parceria de Kaverna e Léo Ápice).

Nesta volta às Origens, mais asas que raízes para os Passarinhos do Cerrado: para quem já foi até a África do Sul em 2010, quando participaram do Festival Mundial da Juventude, sua música merece ser mais conhecida em seu país de origem – por centros e periferias.

Ouça Toré de abertura (Rodrigo Kaverna):

Geraldo Vandré está de volta

Geraldo Vandré. Capa. Reprodução
Geraldo Vandré. Capa. Reprodução

 

“Incluindo Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando) proibida desde 1968”, anuncia uma faixa no canto superior esquerdo da capa do LP homônimo de Geraldo Vandré lançado em 1979, ano da controversa lei da anistia.

Geraldo Vandré, o disco, recentemente relançado em cd, abre e fecha com versões ao vivo e em estúdio da música que acabou símbolo da resistência à ditadura militar, defendida pelo artista no 3º. Festival Internacional da Canção, em 1968, no Maracanãzinho, ocasião em que foi feita a foto da capa.

Geraldo Vandré, o artista, é uma das mais radicais e controversas figuras da música popular brasileira a qualquer tempo. Seu completo sumiço, ainda na década de 1970, contribuiu para a proliferação de uma mitologia particular ao redor de sua figura.

Com toda a discografia fora de catálogo este álbum certamente contribuirá para a redescoberta (de parte) da obra do artista, por vezes injustamente tratado como um one hit wonder, além dessa mitologia de almanaque ao redor do personagem.

O repertório demonstra a versatilidade de Vandré para além do estigma de cantor de protesto. Ardoroso defensor da cultura nacional, estão ali, com o acompanhamento do Trio Novo (Airto Moreira, Heraldo do Monte e Théo de Barros, que se tornariam Quarteto Novo após o ingresso de Hermeto Pascoal), a apropriação de temas nordestinos (Canção nordestina e Fica mal com Deus), a evolução da bossa nova, superando estereótipos de sua origem, como os diminutivos e a paisagem carioca (Quem quiser encontrar o amor, parceria com Carlos Lyra, com o violão de Baden Powell), o carnaval (a belíssima marcha rancho Porta estandarte, parceria com Fernando Lona) e o diálogo com Guimarães Rosa (Réquiem para Matraga, da trilha sonora de A hora e a vez de Augusto Matraga [1966], filme de Roberto Santos baseado em conto do mineiro).

Réquiem para Matraga, aliás, está na trilha sonora da novela global Velho Chico: é tema do personagem Santo dos Anjos (Domingos Montagner). Originalmente lançado pelo selo Som Maior, da RGE, o disco é relançado pela Som Livre, braço fonográfico das organizações Globo, que apoiou o golpe militar de 1964 – que obrigaria artistas como Vandré e outros ao exílio.

“As músicas deste álbum tornaram mais leve a vida do brasileiro e mais encorajada a vontade de liberdade daqueles que viveram em um dos períodos mais obscuros da nossa história”, diz, no entanto, um trecho de um cínico texto na parte interna da embalagem.

Apesar de tudo, o relançamento e a transposição de sua trilha são mais uma possibilidade de mais gente conhecer a obra de Vandré, que segue recluso, fazendo raríssimas aparições públicas. Bem poderia esta reedição ser o início da de toda sua breve discografia.