Em show hoje Karleyby Allanda reverencia Josias Sobrinho

A cantora Karleyby Allanda. Foto: divulgação
A cantora Karleyby Allanda. Foto: divulgação

 

As trajetórias de Josias Sobrinho e Karleyby Allanda guardam ao menos uma semelhança: se ele, moço, veio “de pra lá da Ponta d’Areia”, fixando residência na capital e tornando-se um dos mais reconhecidos compositores do Maranhão, ela, já gozando de certo prestígio em sua Imperatriz natal, há oito anos sentou praça na Ilha, onde torna-se cada vez mais conhecida.

Hoje (28), às 21h, ela sobe ao palco do Taberna da Bossa (Praça dos Catraieiros, Praia Grande) para apresentar o show O cancioneiro de Josias Sobrinho, em que interpretará 20 músicas do compositor, entre consagradas, lados b e inéditas.

Em Renascer, disco de estreia que deve lançar mês que vem, ela catou, no cofo do penalvense, Meu amanhã e Requebra no compasso, que o público conhecerá em sua voz, a intérprete somando-se ao vasto time dos que já gravaram sua obra: A 4 Vozes, Betto Pereira, Ceumar, Chico Maranhão, Cláudio Lima, Cláudio Pinheiro, Diana Pequeno, Flávia Bittencourt, Leci Brandão, Lena Machado, Papete, Salomão di Pádua e Xuxa, entre outros.

Com a faixa-título do futuro lançamento, de sua autoria, Karleyby Allanda foi recentemente classificada no Festival de Música do Sintsep. Aos poucos as coisas estão acontecendo para a artista que ama cantar e se divide entre os ofícios da música, do ensino (é professora da rede pública estadual) e da graduação em Direito, que cursa após ter se graduado em Letras e se especializado em Literatura Contemporânea.

Outra semelhança entre o compositor homenageado na noite de hoje e a intérprete está num verso de Terra de Noel, uma das músicas do repertório: “não vou tirar meu chapéu pra qualquer vagabundo”. Com seu chapéu e seu violão, Josias reverencia mestres como o Noel Rosa que homenageia já no título de uma de suas mais conhecidas criações. Karleyby lembra o ensinamento de outros ícones, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, e dá a Josias “flores em vida”, como ensinou o par.

Completam a noite de celebração Wilson Zara – amigo de Karleyby desde os tempos de Caneleiros Bar, em Imperatriz, onde ela fez suas primeiras apresentações –, que fará o show de abertura, o também imperatrizense Chico Nô e Zé Paulo, que farão participações especiais. Karleyby Allanda sobe ao palco acompanhada de Carlos Raqueth (contrabaixo), Fofo (bateria), Guilherme Raposo (teclados) e Jayr Torres (violão, guitarra e direção musical). O couvert artístico individual custa R$ 10,00.

No rastro do Bandeira de aço

[O Imparcial, ontem]

Como o LP de Papete tentou ser imitado por uma geração, que acabou presa a um rótulo-sigla e a herança às novas gerações

ZEMA RIBEIRO

Bandeira de aço. Capa. Reprodução
Bandeira de aço. Capa. Reprodução

No rastro da repercussão do LP Bandeira de Aço [Discos Marcus Pereira, 1978], em que Papete interpretava composições de quatro compositores maranhenses, elementos da cultura popular do Maranhão foram definitivamente absorvidos pelas classes médias e elites locais. Antes, era “folclore” de um lado e música erudita ou popular para outro.

As primeiras experiências de hibridização vieram justo de um grupo de artistas que, alguns anos antes, fundou o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte) e mergulhou na pesquisa de nossas raízes. Como se as missões folclóricas de Mário de Andrade passassem pelo Maranhão com 50 anos de atraso.

O compositor Josias Sobrinho. Foto Fafá Lago
O compositor Josias Sobrinho. Foto Fafá Lago

“Quando me incluí no grupo, no primeiro semestre de 1973, a turma já estava integrada. O trabalho girava em torno do teatro, mas cada um de nós compositores fazia sua parte, em sua busca individual de um trabalho próprio. A reação do público tinha os componentes do momento histórico: cenário político, preconceito social, de gênero, de pele, de cultura. Por minha parte ouvi algumas vezes que essas músicas não eram adequadas”, relembra Josias Sobrinho, autor de quatro faixas do Bandeira de aço.

No rastro, toda uma geração acreditou estar ali uma fórmula para o sucesso, apesar de o ex-publicitário Marcus Pereira não produzir com a cabeça no mercado. “A impressão que eu tenho é de que a geração do Bandeira de aço é uma espécie de Clube da Esquina desunido, sem continuidade”, provoca o músico Pablo Habibe, sobrinho de Sérgio Habibe, outro dos compositores gravados por Papete.

“O mercado aqui ainda é pequeno e devia ser insignificante na época. Gosto de pensar que o Bandeira de aço poderia ter sido grande nacionalmente se eles agissem como os mineiros e lutassem juntos pelo disco, divulgando no sul do país e tudo mais. Quem sabe, um Bandeira de aço II poderia ter saído. Tio Sérgio, Chico Maranhão [compositor não gravado em Bandeira de aço, mas que lançou no mesmo ano, também pela Marcus Pereira, o igualmente antológico Lances de agora], Josias e Papete, juntos, como uma banda, teria sido incrível”, continua.

O fato é que, aprisionados pelo rótulo da “Música popular maranhense” e a sigla bastarda MPM, nenhum disco lançado por um artista ou banda no Maranhão, ao longo dos próximos quase 20 anos alcançaria o nível estético de Bandeira de aço, não à toa eleito o melhor disco da música produzida no Maranhão em todos os tempos em enquete realizada pelo jornal Vias de Fato.

Pablo Habibe aposta em uma explicação. “Enquanto o pessoal do Bandeira de aço tem bossa nova, folclore, Clube da Esquina, incluindo uma inconfessável dose de rock progressivo e Beatles, a MPM era voltada para a ideia de fazer sucesso no rádio pela imitação imediata da programação. Eles atiravam pra todo lado: ora faziam reggae, imitavam Alceu Valença e sua trupe, voltavam para João do Vale, músicas românticas que soavam de novela… Tinham e têm todo o direito de fazer isso e conseguiram produzir algumas músicas bem bacanas, mas quero dizer que é uma geração, a da MPM, marcada pela perseguição do sucesso e não por uma estética musical especifica. O foco era outro”, defende.

Curiosamente, as coisas só parecerão mudar de figura quase 20 anos depois, com as estreias fonográficas de dois maranhenses que rumaram para o eixo Rio-SP, caminho natural de quase todos os maranhenses que alcançaram alguma repercussão nacional: Zeca Baleiro e Rita Ribeiro [hoje Benneditto], que em 1997 lançaram Por onde andará Stephen Fry? e Rita Ribeiro, respectivamente, ambos pela MZA Music, de Marco Mazzola, lenda viva da indústria fonográfica nacional.

Alê Muniz e Luciana Simões convergiram suas estradas musicais quando juntos inventaram o duo Criolina, hoje com dois discos e um EP gravados, responsáveis por tributos ao LP Bandeira de aço ocorridos desde 2013, quando o LP completou 35 anos, reunindo seus compositores (exceto Ronaldo Mota, o único que mora no Rio de Janeiro) e a nova geração, de nomes como Afrôs, Bruno Batista, Dicy Rocha e Madian e o Escarcéu. Hoje vivendo em São Luís do Maranhão, o casal Criolina é responsável por uma importante movimentação da cena autoral a partir do Festival BR-135, sucesso de público, crítica e intercâmbio – e frisamos o último aspecto pelo fato de o festival tanto trazer artistas de fora para deleite do público maranhense quanto servir de vitrine para artistas locais que, a partir dele, acabam conquistando outros palcos.

O cantor e compositor Tiago Máci. Foto Carla Pedraça
O cantor e compositor Tiago Máci. Foto Carla Pedraça

Onde e em quê isso vai dar, difícil responder. O jovem compositor Tiago Máci aponta, entre as principais diferenças entre aquela e sua geração, fatores como o mercado. “O mercado é uma coisa que mudou totalmente e isso acaba mudando todo o contexto de plateia, formação de plateia, não o talento ou a qualidade musical”, aponta.

“Isso de MPM talvez tenha trancado um pouco a própria música daqui, regionalizando uma coisa que na verdade é universal. Tanto que outros produtos musicais que talvez não se enquadrassem na MPM não é considerado MPM mesmo sendo feito aqui ou por gente daqui: Zeca Baleiro, Rita Ribeiro, Alcione. É uma coisa que parece que, saindo daqui, já não é mais regional, ficando aqui é regional”, confunde Máci, artista confessadamente influenciado por Cesar Teixeira, autor da faixa-título de Bandeira de aço.

Entre outras influências, Máci comenta: “o mais massa é que geralmente nossos ídolos de referência estão quase todos mortos, como Sérgio Sampaio, Noel [Rosa], Gonzaguinha. E [Marcos] Magah é um desses [ídolos], mas com ele eu tomo um café, compomos juntos, e ainda diz que é meu fã [risos]. E não menos que isso: está vivo [mais risos]”. A recíproca é verdadeira.

*

Ouça o disco Bandeira de aço:

Samba original aprofunda a pesquisa iniciada por Pedro Miranda em seus discos anteriores

Samba original. Capa. Reprodução
Samba original. Capa. Reprodução

 

Um meio sorriso de malandro e um bigode cortado fino, o retrato de Pedro Miranda estampado na capa de Samba original [independente/Tratore, 2016], seu terceiro disco solo, anuncia o duplo sentido ali contido.

Duplo sentido no bom sentido: o adjetivo do título, longe de pedante, dá conta do criterioso trabalho de pesquisa do sambista, exercício a que Pedro Miranda já se propunha desde os anteriores Pimenteira [independente/Tratore, 2009] e Coisa com coisa [Deckdisc, 2006].

Sua voz miúda dá conta do recado, com ginga de sobra, ele, revelado como percussionista do grupo Semente, que acompanhou o início da carreira de Teresa Cristina e colaborou para a revitalização da cena musical da Lapa carioca, cujos nomes ganharam o Brasil. O samba de Pedro Miranda é original tanto pela abordagem quanto por remontar às origens do gênero, recuperando raridades em baús musicais diversos.

Parceria de Elton Medeiros e Zé Keti, a faixa-título, que abre o disco, cita possíveis clichês do universo do samba sem cair no clichê. “Meu samba/ é um samba diferente/ pois, de fato, minha gente/ ele é muito original/ não fala/ das cadeiras da mulata/ do murmúrio da cascata/ ou do amor no carnaval”, desconversa a letra.

Caetano Veloso endossa o talento de Miranda, dividindo com ele os vocais em A razão dá-se a quem tem, parceria de Noel Rosa, Ismael Silva e Francisco Alves. O próprio Noel é citado em Garota dos discos (Wilson Batista e Afonso Teixeira), música de tempero saudosista, que traz à tona um universo em extinção, o das lojas de discos, cada vez mais raras, sob o prisma do compositor que se apaixona pela lojista: “Garota, garota/ diga pra essa madame/ essa é a nossa canção/ garota, garota/ ai, eu queria ser disco/ pra viver na sua mão/ e no seu coração”.

Passeio por cenários do Rio, Santo Amaro (Franklin da Flauta, Luiz Claudio Ramos e Aldir Blanc) evoca paisagens e nomes fundamentais para a música do Brasil. Destaque para o pianista Ernesto Nazareth [18??-1934], cujo Ameno Resedá – rancho carnavalesco homenageado pelo compositor em uma peça – é citado textual e musicalmente.

Noel e Nazareth são personagens também de Meu pandeiro, que fecha o disco citando Apanhei-te cavaquinho (Ernesto Nazareth), um raro samba da lavra do rei do baião, Luiz Gonzaga, em parceria com Ary Monteiro. “Ao chegar lá no céu/ serei bem recebido/ sempre fui bom sujeito nesse mundo/ e no outro serei bem acolhido/ falarei com São Pedro/ que é meu santo de fé/ vou fazer serenata/ com o velho Noel e Nazareth”, vaticina a letra.

Do lamento Imitação da vida, do baiano Oscar da Penha, vulgo Batatinha, ao samba de roda Samba de dois-dois, parceria de Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro, várias categorias de samba fazem-se presentes ao repertório.

Luís Filipe de Lima (violões de seis e sete cordas) assina a produção de Samba original, em que modernidade e tradição dançam agarradinhas. Desfilam por suas 12 faixas nomes como Alberto Continentino (contrabaixo), Arto Lindsay (guitarras em Batuca no chão, parceria de Assis Valente e Ataulfo Alves), Beto Cazes (percussão), Carlos Fuchs (piano em Santo Amaro), Henrique Cazes (violão tenor em Se passar da hora, parceria de Baiaco e Ventura), Luis Barcelos (cavaquinho), Marcos Suzano (berimbaus em Samba de dois-dois), Nicolas Krassik (violino em Samba de dois-dois), Oscar Bolão (bateria em Amanhã eu volto, parceria de Roberto Martins e Antonio Almeida), Paulino Dias (percussão), Pedro Sá (guitarras em Batuca no chão), Pretinho da Serrinha (percussão em Quero você, parceria de Wilson Moreira e Nei Lopes), Rui Alvim (saxofone e clarone) e Thiago da Serrinha (percussão em Lola crioula, parceria de Geraldo Babão e Roberto Mendes), entre outros.

Entre compositores e instrumentistas, um time de primeira linha para atestar a originalidade do samba de Pedro Miranda.

Era domingo: pop para qualquer hora do dia, qualquer dia da semana

Era domingo. Capa. Reprodução
Era domingo. Capa. Reprodução

 

Aos quase 20 anos de carreira, isto se contarmos apenas a partir do lançamento de seu disco de estreia, Zeca Baleiro é um dos maiores trabalhadores da música popular brasileira. Desde Por onde andará Stephen Fry? [1997], o maranhense nunca se acomodou, nem nunca fez dois discos iguais. Ou seja: sempre se arriscou a testar o gosto, a paciência e a fidelidade do público que cativou desde então. Ainda remontando ao início de sua carreira discográfica, basta lembrarmos as quebras que significaram entre si os seguintes Vô imbolá [1999] e Líricas [2000].

Estas rupturas seguem presentes: após um disco infantil [Zoró – Bichos esquisitos, de 2014], um disco especial dividido com Paulo Lepetit e Naná Vasconcelos [Café no bule, de 2015] e outro dedicado ao repertório de Zé Ramalho [Chão de giz – Zeca Baleiro canta Zé Ramalho, também de 2015], Baleiro apresenta ao público seu disco mais pop: Era domingo [Fidellio/Som Livre, 2016].

Todas as 11 faixas são facilmente assobiáveis e plenas candidatas a hits de rádio – imaginemos um mundo livre do jabá. Quando parece não haver o que inventar, o artista se reinventa e lança a si mesmo o desafio: cada faixa tem um produtor diferente. Ou um par. Sim, o disco tem mais de 11 produtores/arranjadores: Tuco Marcondes, Pedro Cunha, Rogério Delayon, Kuki Stolarski, Marcelo Lobato, Marcos Vaz, Fernando Nunes, Haroldo Ferreti, Henrique Portugal, André Bedurê, Rovilson Pascoal, Érico Theobaldo e Adriano Magoo. O resultado, no entanto, é coeso.

Era domingo, a faixa-título, abre o disco, traduzindo o granulado voyeurismo de celular estampado na capa: uma foto praieira feita pelo próprio Baleiro. “Toda beleza/ na Fortaleza/ de um céu cheio de azuis/ música bela/ pela janela/ soava feito um blues”, diz a letra.

Ela parou no sinal e seu naipe de sopros ecoa os momentos mais dançantes dos dois volumes de O coração do homem bomba [2008]. De mentira lembra o adágio do poeta português Fernando Pessoa: “você se diz poeta/ mas é só um fingidor/ finge tão completamente/ que até crê na sua dor/ tanta é a dor que mente”, arremata.

A presença de outro poeta no repertório do disco é mais uma prova de que Zeca Baleiro não se contenta com caminhos fáceis ou atalhos para o sucesso. A letra de Desesperança, penúltima faixa do disco, parceria dele com Paulo Monarco, é trecho do poema homônimo do maranhense Sousândrade, do livro Harpas selvagens [1857]. A outra parceria do disco é Deserta, com Lokua Kanza.

A hiperbólica Pequena canção remete ao Roberto Carlos de Eu te darei o céu [Roberto e Erasmo Carlos]: “eu te daria o Polo Norte/ qualquer brinquedo/ o meu segredo/ o samba-enredo/ das minhas penas/ te dava a Grécia/ te dava Troia/ a maior joia do meu garimpo/ o meu cavalo, o meu Olimpo”, promete a letra.

Desejo de matar é dor de cotovelo digna de Lupicínio travestida de rock’n roll: “você me transformou/ num cão vulgar e sujo/ um fulano vagabundo/ um maldito o dito cujo/ de quem todos falam/ sem nenhum respeito/ o pilantra, o pilintra/ o vilão, o feio, o mau sujeito” é o cartão de visitas do protagonista da letra que cita Charles Bronson.

Em Homem só, O amor é invenção e Ultimamente nada, com seus femininos gritos de gozo no grand finale, Baleiro tira um sarro da vida pequeno-burguesa, cujas ambições rotineiras parecem bobagens para poetas, sonhadores e que tais. “Os amigos falam que é isso, brou?/ nunca mais passou no café, no bar/ tenho trabalhado pra caramba e/ o trabalho é que/ pode nos salvar”, afirma o artista, que apenas finge se contentar.

Ouça Desejo de matar:

O axé político de Wado

Ivete. Capa. Reprodução
Ivete. Capa. Reprodução

 

Artista catarinense/alagoano remonta às origens do axé em Ivete, seu nono disco, recém lançado. Ele conversou com o blogue

Alagoano nascido em Santa Catarina Wado acaba de lançar o nono disco de sua carreira, descontada uma coletânea. O título, fina e ousada ironia, Ivete [independente, 2016]. Sim, uma homenagem a Ivete Sangalo, musa do axé, gênero a que o álbum presta uma espécie de tributo – ligeiro, o disco todo não tem 25 minutos.

São 15 anos de carreira desde a estreia com O manifesto da arte periférica [2001]. Ouvintes mais atentos – os que lhe acompanham a trajetória desde sempre – encontrarão links entre Ivete e Atlântico negro [2009], no som, na estética e no forte componente político dos álbuns – aliás, todos os álbuns de Wado estão disponíveis para download gratuito e legal em seu site.

Alabama (Wado e Thiago Silva), com seu “sangue nas folhas, sangue na raiz”, primeira música de trabalho do disco novo, remete ao açoite e linchamentos denunciados pelos versos de Abel Meeropol (sob o pseudônimo de Lewis Allan) em Strange fruit [1939] – o “fruto estranho” de que se apropria a letra, entre outros versos – gravada por, entre outras, Billie Holyday.

Acompanhado por Vitor Peixoto (guitarra e voz), Rodrigo Peixe (bateria), Dinho Zampier (teclado e programações), Bruno Rodrigues (contrabaixo), China Cunha (percussão) e Luciano Brandão (percussão), o axé de Wado (guitarra e voz) não soa estranho, isto é, não soa alheio ao conjunto de sua obra. Quer dizer: é axé, mas continua sendo Wado. Não tem “tira o pé do chão” ou “mexe a bunda para lá ou para cá”.

O axé de Wado, mesmo homenageando Ivete Sangalo no título do disco, remonta às origens do gênero, e seu tom de denúncia social, sobretudo contra o racismo e de exaltação à negritude, logo desvirtuado pela indústria, que fabricou ídolos tão descartáveis quanto despolitizados.

Em meio às 10 faixas do disco, releituras do hit Jesus é palestino (Carlinhos Brown, Gerônimo Santana e Alain Tavares), citada em meio a Terra santa (Jesus é palestino) (Wado, Junior Almeida e Dinho Zampier), Filhos de Gandhi, homenagem de Gilberto Gil ao bloco baiano de carnaval homônimo, e Um passo à frente (Moreno Veloso e Quito Ribeiro). As guitarras em profusão, desde o segundo inicial de Alabama, remetem ao Armandinho dos primeiros álbuns solo do também baiano Moraes Moreira, outra influência confessa.

Também desfilam parcerias por Ivete: Thiago Silva (Alabama e Sexo), Zeca Baleiro (em Mistério e Nós), Momo e Marcelo Camelo (em Você não vem, autores também de Samba de amor, sem Wado) e Beto Bryto (em Amanheceu). Sobre o disco, Wado conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

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Foto: Alzir Lima/HollyShot

Wado, você foi um dos primeiros artistas, de qualquer geração, a disponibilizar seus discos para download gratuito, logo no lançamento. O que te levou a esta postura e a mantê-la?
Acho que a música tem de chegar nas pessoas. Acho que até agora há pouco, antes das plataformas de streaming, essa era a melhor forma de chegar nas pessoas. Dinheiro ganhamos nos shows.

Como surgiu a ideia de um disco sobre o universo do axé?
É uma coisa que faz parte da minha formação, ouvi muito isso em Maceió no meio dos anos oitenta. É meio que um axe utópico de dentro da minha cabeça, adoro a estética, os temas.

E o título, Ivete?
Ele é um lance bem humorado mas respeitoso. É como se fosse uma tentativa de ser ela, sabendo que não chegaremos nunca lá. Como é um disco de axé e ela é um ícone, achei divertido e corajoso o título.

Sua música não soa nem pretende fácil como o axé, digamos, comercial. Reside aí uma fina ironia. É de propósito?
Acho que é verdadeiro em tentar ser, mas, também, verdadeiro em ser consonante com as minhas coisas. Ele é axé respeitando o gênero e sou eu também.

O repertório tem um forte componente político, inclusive nas regravações de Jesus é palestino e Filhos de Gandhi, meio que como uma volta às origens do axé. O gênero foi desvirtuado pela indústria?
Acho que nos anos noventa ele foi pra uma coisa super pop, mas a cultura é assim volátil. É bom que seja, mas o nosso foi bastante inspirado no início do gênero.

Outra referência citada no texto que apresenta o disco em teu site são os primeiros discos solo de Moraes Moreira. Terá o axé nascido ali?
Eu também fico pensando isso. O Moraes é um mestre da música festiva do Brasil e nesse primeiro disco solo dele já tinha Armandinho na guitarra baiana.

É um disco de axé, mas é um disco de Wado, no sentido de isso poder ser percebido, de cara, na primeira audição do disco. Alabama, primeira música de trabalho, remete a Strange fruit, retomando o elo do gênero predominantemente baiano com questões raciais e sociais. De algum modo, se lembrarmos Atlântico negro, mas não só, o axé e a política sempre estiveram presentes em teu trabalho, não é?
Sim, você pegou bem. Esse é meio que um desdobramento do disco Atlântico negro.

Quanto dessa preocupação social deriva do fato de você ser jornalista?
Deve ter isso sim embutido, nós somos esponjas, né?

*

Ouça Alabama:

De Holanda para Holanda

Samba de Chico. Capa. Reprodução
Samba de Chico. Capa. Reprodução

 

De gerações distintas, são dois craques da música brasileira. Um, gênio da composição, letrista e melodista esmerado, que também interpreta; outro, instrumentista inventivo e habilidoso, renovador de seu instrumento, inventor do bandolim de 10 cordas, que também compõe.

Dois de Holanda, ambos cariocas, o tributado Chico Buarque, e Hamilton, que lhe presta homenagem. O encontro – literal, já que o homenageado canta em duas faixas – não poderia ser diferente do ousado Samba de Chico [Biscoito Fino, 2016].

Se por um lado, a quem lê o repertório na contracapa, antes de ouvir o disco, pode parecer o que de fato é, um best of Chico Buarque, com todas as músicas por demais conhecidas e bastante assobiáveis – com exceção da faixa que dá título ao disco, da lavra de Hamilton de Holanda –, é justamente aí que mora o perigo, explicado em texto no encarte: “o desafio foi grande e agradável. Gravar um disco de músicas com letra, todas bastante conhecidas, sem letra, instrumental. O objetivo era encontrar um novo caminho para chegar ao mesmo destino: a emoção”. Missão cumprida.

Chico Buarque é autor solitário de quase todo o repertório. Em parceria apenas Piano na Mangueira (com Tom Jobim), Atrás da porta e Trocando em miúdos (ambas com Francis Hime). Ele próprio volta a temas que há tempos não cantava e afaga as mãos que lhe homenageiam: empresta sua voz a A volta do malandro e Vai trabalhar, vagabundo, endossando o álbum.

No geral mantendo-se fiel aos arranjos originais, Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas e direção musical) é acompanhado por Thiago da Serrinha (percussão), Guto Wirtti (contrabaixo acústico) e André Vasconcelos (contrabaixo acústico). Além do homenageado outros convidados são o pianista italiano Stefano Bollani (em Piano na Mangueira e Vai trabalhar, vagabundo) e a cantora catalã Silvia Perez Cruz (em Atrás da porta e O meu amor), garantindo charme extra com seu português com sotaque.

O projeto gráfico de Samba de Chico tem um mercado como locação. “Claro que não foi uma fácil escolha de repertório, daria pra gravar vários discos com sambas de Chico”, adverte o mesmo texto. Não faça ouvidos de mercador a esta seleção, eis o cofo com as escolhas de Hamilton de Holanda, no ano em que se celebram seus 40 anos de vida e os 100 anos de samba.

João Donato: vivo, jovem e musical

Donato elétrico. Capa. Reprodução
Donato elétrico. Capa. Reprodução

 

Quando Marc Fischer, em sua busca frenética pelo outro João inventor da bossa nova, o baiano Gilberto, espantou-se ao encontrar o acriano Donato vestido em uma camisa florida e fumando: “você deve ser o último brasileiro que fuma”, disse, referindo-se à diminuição, nos últimos anos, nos índices de consumo de cigarros no país. “E provavelmente devo ser o último brasileiro vivo também”, respondeu-lhe o pianista e compositor.

Cito de cabeça a história contada pelo escritor alemão em Ho-ba-la-lá – à procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2011], que ele não chegou a ver publicado: suicidou-se antes.

Uma das provas da verdade na resposta de Donato é seu mais novo álbum, Donato elétrico [Selo Sesc/SP, 2016], cujo título é outra: a eletricidade-vida, que afinal de contas, move quem pensa em música o tempo inteiro.

Aos 81 anos, João Donato esbanja jovialidade, frescor e originalidade, ao juntar-se a um timaço de jovens músicos com que gravou o álbum novo, de ficha técnica extensa, todos, de algum modo, influenciados pelo som “donatural”: Cris Scabello (guitarra), Cuca Ferreira (saxofones e flautas), Daniel Gralha (trompete), Daniel Nogueira (saxofone), Décio 7 (bateria), Douglas Antunes (trombone), Gustavo Cecci (percussão), Marcelo Dworecki (contrabaixo), Mauricio Fleury (guitarra), Rômulo Nardes (percussão) – o Bixiga 70 –, Anderson Quevedo (flauta e saxofone) – que fez participações especiais em todas as faixas de The Copan connection, mais recente álbum da super big band –, Aramis Rocha (violino), Beto Montag (vibrafone e percussão), Bruno Buarque (bateria), Daniel Pires (viola), Guilherme Kastrup (percussão), Gustavo Ruiz (guitarra), Mauro Refosco (percussão), Renato de Sá (violoncelo), Richard Fermino (trombone e flauta), Robson Rocha (violino) e Zé Nigro (contrabaixo).

Completamente autoral, Donato elétrico ecoa – longe de reduzir João Donato a mero cover de si mesmo – momentos antológicos de sua lavra, como o fundamental A bad Donato e álbuns divididos com Eumir Deodato, outro mago das brancas e pretas.

Produzido por Ronaldo Evangelista, cujo texto elegante no encarte remonta a gênese do álbum, em Donato elétrico optou-se pelo uso de instrumentos antigos, para valorizar a sonoridade de uma época, embora seja impossível o álbum soar mais atual, desde o título de faixas como Here’s JD, Urbano e Frequência de onda.

É um disco em que cabe de tudo: para registrar seu “jazz tupiniquim” (para usarmos a expressão que dá nome à música de Glorinha Gadelha e Sivuca, outro ás da sanfona, instrumento no qual Donato começou e único que ele não toca no álbum), o garoto Donato diverte-se com Fender Rhodes, Farfisa, Pro-One, Moog e Clavinet, além de usar a voz em Tartaruga e G8.

Com arranjos de Anderson Quevedo, Bixiga 70, Cuca Ferreira, João Donato, Laércio de Freitas e Marcelo Cabral, em Donato elétrico João Donato é um membro da grande banda. Em Xaxado de Hércules, por exemplo, destacam-se os saxes de Cuca Ferreira e Daniel Nogueira, como se Coltrane dançasse solando para o bando de Lampião dançar. Combustão espontânea exala a latinidade afro-cubana, outra marca da obra do acriano, e traduz o espírito coletivo em que o disco foi realizado: o título dessa música explica o que acontece (e cujo resultado ouvimos) quando um naipe de feras assim se encontra.

O pife é pop

Chego já. Capa. Reprodução
Chego já. Capa. Reprodução

 

Quando Gilberto Gil lançou Expresso 2222, em 1972, gravou Pipoca Moderna, do alagoano Sebastião Biano com letra de Caetano Veloso: “e era nada de nem noite de negro não/ e era nê de nunca mais”, anunciava a letra, cujo fecho era a aurora: “pipoca ali, aqui/ pipoca além/ desanoitece, amanhã tudo mudou”.

Os pífanos da Banda de Pífanos de Caruaru, desde muito antes liderada pela família Biano, ganhavam mais ouvidos brasileiros que os a que sempre estiveram acostumados. O instrumento rústico, primo da flauta, mais conhecido no meio rural, onde anima festas religiosas e profanas, tornava-se pop.

Anos depois os parceiros pernambucanos Carlos Fernando e Geraldo Azevedo prestaram bela homenagem aos Biano e à Banda de Pífanos de Caruaru, saudando-os como “os Beatles de Caruaru” em Forrozear, gravada pelo segundo em Futuramérica (1996).

Com 97 anos recém completados na última véspera de São João, Sebastião Biano e Seu Terno Esquenta Muié – assim assinam o disco, com expressões usadas como sinônimos de banda de pífanos – acabam de lançar Chego já [2016, com incentivo do Proac/SP e realização da Maracá Cultura Brasileira], com 17 faixas, quase completamente autoral – a exceção é Bendito de Nossa Senhora Aparecida, tema de domínio público que encerra o disco, o segundo solo da longeva carreira de Biano (o primeiro foi lançado ano passado).

A ele (pífano e voz) somam-se Junior Kaboclo (pífano), Filpo Ribeiro (viola, rabeca e marimbau), Renata Amaral (contrabaixo) e Eder “O” Rocha (zabumbateria). O grupo assina a direção musical, sob produção musical de André Magalhães.

Predominantemente instrumental, o disco passeia por dobrados, arrasta-pés, marchas, sambas e valsas, demonstrando a versatilidade do pífano – ou “pife”, como se costuma simplificar a pronúncia do nome do instrumento protagonista de Chego já.

Nas faixas faladas, Biano conta histórias. “Nós fazia [sic] música no compasso, era o compasso do toque do chocalho no pescoço do animal, que ele vai andando e o sonzinho vai saindo; nós trabalhávamos para fazer a música em cima daquele som; o compasso é o estilo da música, chamava o compasso; hoje em dia tem a palavra de ritmo, era o compasso”, revela em A zabumba, antes de entrar propriamente no método de construção do instrumento de percussão, com couro de bode e madeira de imburana, de que seu pai era um ás.

O trecho acima transcrito é uma aula de simplicidade. Como o que não carece ser complexo para ser bonito, qual um baile animado a pífano – ou pife –, Chego já é uma aula de musicalidade suprema, de sensibilidade posta à prova, onde qualquer coisa se transforma em beleza, servindo de inspiração.

Veja trecho do show de lançamento de Chego já:

Disco de Cesar Teixeira esgotado há anos, Shopping Brazil é finalmente relançado

Shopping Brazil. Capa. Reprodução
Shopping Brazil. Capa. Reprodução

 

Lançado em 2004, Shopping Brazil, disco de estreia de Cesar Teixeira, era o primeiro registro do artista interpretando sua própria obra, a despeito de ser um dos compositores mais gravados do Maranhão.

À época, o LP Bandeira de aço já contava mais de um quarto de século: lançado pela Discos Marcus Pereira em 1978, era o primeiro registro fonográfico com músicas de autoria de Cesar: Boi da lua, Flor do mal e a faixa-título, interpretadas por Papete, as duas últimas regravadas pelo autor em Shopping Brazil.

Mas a trajetória musical de Cesar Teixeira, versado em outras expressões artísticas, como a poesia, as artes plásticas e, por que não?, o jornalismo, havia começado ainda antes, quando participou de festivais ainda em fins da década de 1960.

Tudo isso fazia de Shopping Brazil um disco bastante aguardado. Ao longo de 14 faixas – incluindo dois excertos de Dona Elza (do Caroço de Tutóia) e Mestre Felipe (do Tambor de Crioula homônimo), além de uma ladainha de Antonio Rayol, cantada em latim por Dona Teté (do Cacuriá homônimo) – Cesar atestava a quem ainda ousasse duvidar sua versatilidade como compositor e sua qualidade como intérprete. Não à toa venceu, no ano do lançamento, diversas categorias do Prêmio Universidade FM, o mais importante da música produzida no Maranhão.

Como não poderia deixar de ser, Shopping Brazil veio embalado em protesto. Um texto no encarte (reproduzido neste relançamento) e a faixa-título, composta ainda na década de 1970 e atualizada por Cesar para o hip hop à base de latas recicladas e transformadas em instrumentos musicais pela trupe do Som na Lata, denunciavam os lixões brasileiros como verdadeiros shopping centers de onde populações vulneráveis e marginalizadas retiram seu sustento, alimentação e moda.

Mas havia ainda espaço para o choro (Ray-ban), o samba (Vestindo a zebra), o coco (Parangolé), o bumba meu boi (Mutuca), o xote (Xaveco) e o “bolero de Waldick Soriano” (verso de Namorada do cangaço).

12 anos depois, Shopping Brazil [R$ 25,00 na Livraria Poeme-se] é relançado, de forma independente, dando fim a uma longa espera e respondendo à pergunta recorrente, sobre uma nova tiragem, sempre feita por quem nunca teve o disco, por quem teve e perdeu ou simplesmente por quem gostaria de presentear alguém querido ou algum amigo de passagem pelo Maranhão.

Uma pergunta tão ouvida por Cesar quanto “e o segundo disco, sai quando?”.

A guinada tropixelada de Céu

Tropix. Capa. Reprodução
Tropix. Capa. Reprodução

 

Bastam algumas gotas, ou segundos, de seu Perfume do invisível, faixa de abertura de Tropix, novo disco da cantora Céu, para inebriar os ouvintes: “no dia em que eu me tornei invisível/ passei um café preto ao teu lado/ fumei desajustada um cigarro/ vesti a sua camiseta ao contrário”, revela-se, “para me despir/ e ser quem eu sou”, prossegue, provocativa, inaugurando seu quarto disco de estúdio, o quinto da carreira, com este incontestável hit.

Os tons de cinza do projeto gráfico revelam um disco orgânico, calcado em timbres eletrônicos, em boa parte graças ao tecladista Hervé Salters (General Elektriks), um dos produtores do disco – o outro é o baterista Pupillo (Nação Zumbi). A banda se completa com Pedro Sá (guitarra) e Lucas Martins (contrabaixo). Tropix tem ainda participações especiais de Tulipa Ruiz (vocais em Etílica/Interlúdio) e Rosa Morena (vocais em Varanda suspensa), filha da cantora, a quem Céu dedica A menina e o monstro e o disco.

Arrastarte-ei (sic) é uma espécie de Dorival Caymmi feminino em pleno século XXI, o mar como metáfora para um flerte, um caso de amor. Céu é autora solitária de quase todo o repertório, lírico, noturno, “anunciando a noite néon”, como diz um verso de Varanda suspensa (parceria com Salters). Em Amor pixelado promete: “saiba, meu amor/ cuidarei de nós/ mesmo quando eu for/ em busca de mim”.

Outros parceiros são Lira, na abolerada Sangria, e Fernando Almeida, em Camadas. De Jorge Du Peixe Céu registra A nave vai e recria, do repertório pouco revisitado da oitentista Fellini, Chico Buarque song (Ricardo Salvagni/ Cadão Volpato/ Jair Marcos Vieira/ Thomas Pappon), a única do disco cantada em inglês.

Com bonito videoclipe, disponibilizado na rede antes mesmo do lançamento do disco, a faixa de abertura parece ligar este aos discos anteriores de Céu. Mas a maior parte das 12 faixas de Tropix pode soar um pouco mais difícil a fãs menos acostumados a guinadas. Pois é justamente o que este novo disco representa: uma guinada na carreira da artista, cujo talento incontestável é reafirmado com este tipo de ousadia.

Assista o clipe de Perfume do invisível:

O melhor show de Bruno Batista (até aqui)

Bruno Batista em Bagaça. Foto: Márcio Vasconcelos
Bruno Batista em Bagaça. Foto: Márcio Vasconcelos

 

Sobre Bagaça Bruno Batista já declarou ser seu melhor disco. Ontem (10), no Mandamentos Hall (Lagoa), em show concorrido, com ingressos distribuídos gratuitamente, por conta do patrocínio da TVN via Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o artista lançou seu quarto álbum.

Os DJs Franklin e Pedro Sobrinho prepararam o terreno – voltariam ao fim da apresentação de Bruno Batista; “quando o show termina a festa não acaba”, dizia uma das peças publicitárias do espetáculo – e a Pedeginja fez por merecer os elogios que o anfitrião lhes faria em seguida. “Essa rapaziada representa uma geração que chega e faz sem pedir licença. Há uma cena maravilhosa aqui em São Luís”, afirmou, após o show de abertura em que passearam entre o repertório de Contos cotidianos, seu disco inaugural (e até aqui único) e temas icônicos da MPB, entre os quais A menina dança (Luiz Galvão e Moraes Moreira) e Canto de Ossanha (Vinicius de Moraes e Baden Powell), com direito a citação do rapper (rótulo que há tempos já não lhe comporta) Criolo. “Fora Temer! Ocupa tudo!”, mandou o vocalista Paulão, seguido por boa parte do público.

Demorou nada para Bruno Batista estabelecer plena comunhão com a plateia e mostrar que sua evolução artística não está restrita ao disco, ao estúdio. Qualquer um que o tenha visto ontem e a seus shows anteriores – por exemplo, os de lançamento de e Eu não sei sofrer em inglês – pode perceber claramente que ele está cantando melhor ao vivo (apesar de alguns problemas técnicos na sonorização ao longo da noite), maior desenvoltura, melhor domínio de palco – “cheguei em casa”, como diz na letra de Batalhão de rosas, o palco agora é também sua morada.

Artista cosmopolita, Bruno Batista é dos raros que se apresentam por estas plagas conseguindo o feito de, mesmo concentrando-se no repertório de um disco lançado recentemente, ter o público como seu backing vocal. Abrindo o espetáculo com a faixa-título do novo trabalho, ele passeou por quase todo o repertório de Bagaça, sem deixar de lembrar canções de seus outros três trabalhos.

Casos de Nossa paz (gravada em dueto com Tulipa Ruiz em Eu não sei sofrer em inglês), Tarantino, meu amor (no mesmo disco), Hilda Regina (idem), Ela vai chegar e (do disco batizado por esta) e Acontecesse (do homônimo Bruno Batista de estreia, regravada por ele com adesão de Zeca Baleiro no segundo).

Flávia Bittencourt cantou Sobre anjos e arraias em andamento mais acelerado e Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) dividiram com Bruno Batista Latino-americano, música do trio lançada em ep do duo; em Bagaça os três assinam Pra ver se ela gosta, que o dono da festa cantou sozinho.

Quando cobrei-lhe A ilha ao cumprimentá-lo após o espetáculo, ele me respondeu, humilde e simpaticamente que ela não funcionaria naquele clima. Senhor da situação, o artista tinha razão: ele cumpriu a promessa de um show para ninguém ficar parado.

Ao fim, chamou os convidados ao palco e, com eles, prestou homenagem ao cantor e percussionista Papete, recém-falecido: o quarteto cantou Dente de ouro (Josias Sobrinho), aproveitando a ocasião para anunciar que um tributo ao Bandeira de aço será apresentado por eles durante a temporada junina na capital maranhense. Homem de vícios antigos certamente voltará ao assunto.

O lugar (acentuadamente pop) de Bruno Batista

Bagaça. Capa. Reprodução
Bagaça. Capa. Reprodução

 

A ilha, faixa que encerra Bagaça [2016, disponível para download no site do artista], quarto disco de Bruno Batista, é uma das mais bonitas declarações de amor a São Luís jamais escritas. O artista foge de clichês ao citar lendas e o cotidiano da cidade. “As barbas de Nauro saem pra passear” e “Montserrat Caballé não entendeu quase nada” estão entre os versos que trazem nativos e turistas que um dia pisaram suas ruas de paralelepípedos.

Nenhum homem é uma ilha e somente em seu quarto disco Bruno Batista abre seu leque de parceiros: Dandara, Demetrius Lulo e Paulo Monarco em Caixa preta, Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) em Pra ver se ela gosta, e Zeca Baleiro em Nigrinha.

Bagaça é seu trabalho mais desbragadamente pop. Nas 11 faixas do álbum é possível perceber a bagagem de influências que moldou o cantor e compositor ao longo destes 12 anos de carreira, se contarmos a partir de sua estreia no mercado fonográfico, com o homônimo Bruno Batista [2004].

Maranhense nascido em Pernambuco, com férias da infância passadas no Piauí, hoje radicado em São Paulo após temporada no Rio de Janeiro, esta geografia afetiva se traduz musicalmente em Batalhão de rosas, toada de bumba meu boi rockificada que lembra a “areia branca” tema do caroço de Tutoia de Dona Elza, de saudosa memória. A faixa batizará o terceiro disco da cantora Lena Machado, a ser lançado este ano. A romântica Caixa preta evoca o Caetano político de Podres poderes.

O tambor de crioula ganha acento pop em Pra ver se ela gosta e Nigrinha tem ares caribenhos, de “amor sincero” em “novela das nove”, em diálogo com o “cinemúsica” de Blockbuster, a sétima arte uma das paixões confessas de Bruno Batista, que em álbuns anteriores já prestou homenagens a Quentin Tarantino [Tarantino, meu amor, de Eu não sei sofrer em inglês] e Michel Gondry [em Rosa dos ventos, de ].

Cerca-se dos mais requisitados instrumentistas da chamada “nova MPB” – rótulo que, como quase todo rótulo, não dá conta da turma – alguns dos quais com quem já tinha trabalhado em discos anteriores: Rovilson Pascoal (guitarra), produtor de Bagaça, Gustavo Ruiz (guitarra), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussão), Ricardo Prado (contrabaixo e rhodes) e Guilherme Kastrup (bateria e percussão) compõem o núcleo, em disco que conta ainda com participações especiais de Swami Jr. (violão sete cordas no bolero Você não vai me esquecer assim), André Bedurê (vocais em Você não vai me esquecer assim e Guardiã), Marcelo Jeneci (piano em Turmalina) e Felipe Cordeiro (guitarra em Nigrinha).

“O teu lugar, o teu lugar/ é o meu”, derrama-se em Turmalina, feita para sua esposa. Na faixa divide os vocais com Dandara, que compareceu em boa parte de , seu disco anterior. O lugar de Bruno Batista é nos ouvidos de fãs cativos desde a estreia – ali já havia se firmado como um dos mais talentosos artistas de sua geração – e cada vez mais outros, conquistados álbum após álbum.

Confira o videoclipe de Nigrinha (Bruno Batista e Zeca Baleiro):

Serviço

Bruno Batista lança Bagaça em show gratuito hoje (10), às 20h, no Mandamentos Hall. O espetáculo conta com abertura da Pédeginja, discotecagens de Franklin e Pedro Sobrinho e participações especiais de Criolina e Flávia Bittencourt.

Segundo álbum de Tom Zé é relançado

Tom Zé. Capa. Reprodução
Tom Zé. Capa. Reprodução

 

Em Tom Zé ou Quem irá colocar dinamite na cabeça do século [documentário, Brasil, 2000, de Carla Regina Gallo Santos], o compositor baiano, que venceu o Festival da Record de 1968 com São Paulo, meu amor (São São Paulo), revela a frustração com o comentário de Edu Lobo: “a música de Milton Nascimento é música em qualquer lugar”, teria dito o filho de Fernando sobre o preterido.

Tom Zé revela ainda que trabalhou a partir de então para se autossabotar. O mais tropicalista entre os tropicalistas, após a estreia no mesmo ano do disco-manifesto do movimento, lançou, dois anos depois, um álbum intitulado simplesmente Tom Zé [RGE, 1970], onde afirma que “as melhores ideias deste disco devem ser divididas com os meus alunos de composição da SOFISTÍ-BALACOBADO (muito som e pouco papo) e com Augusto de Campos”, grifo dele, em texto reproduzido na contracapa do álbum, que a Som Livre, braço fonográfico das organizações Globo, recoloca no mercado 46 anos após seu lançamento.

Ia na contramão da declaração no documentário, pois o segundo disco ganha em sofisticação e traz algumas de suas músicas mais marcantes. Uma pena o relançamento não trazer, no encarte, informações sobre os instrumentistas que participaram das gravações.

O autor de Dulcinéia Popular Brasileira, Qualquer bobagem (com Os Mutantes), O riso e a faca, Jimmy, renda-se (Jimi renda-se) e Jeitinho dela, para citar apenas faixas deste disco de 1970, deve muito a relançamentos. É por demais conhecida sua redescoberta, a partir do interesse do talking head David Byrne por seus discos, encontrados por ele por acaso em sebos cariocas, na década de 1990, especialmente Estudando o samba [1975], que desencadeou relançamentos nos Estados Unidos pelo selo Luaka Bop – a reboque, no Brasil, pela Trama. Tom Zé deixava o ostracismo por que passou boa parte das décadas de 1980 e 90 para reocupar definitivamente seu devido lugar na MPB, embora a sigla não seja suficiente para comportar-lhe.

De Com defeito de fabricação [1998] para cá, Tom Zé lança discos regularmente, com motes interessantes e sintonizado com a geração (Y) mais jovem, o que faz dele um dos compositores mais interessantes, geniais e joviais do Brasil. Em 2016 completa 80 anos de idade – e nem vou falar aqui de sua vitalidade no palco.

Antes tarde do que nunca, Tom Zé tem três músicas na trilha sonora da novela global Velho Chico – o que não deixa de ser sinônimo de sucesso: Dor e dor, Senhor cidadão e Um oh! e um ah!.

Sobre Tom Zé, o disco ora relançado, restam ainda três curiosidades: a burrice dos censores da ditadura militar brasileira alcançou a segunda faixa, Guindaste a rigor. Tom Zé foi obrigado a gravar “assopro de coca-cola” em vez de “arroto”, como dizia a letra original; a contracapa traz a seguinte cobrança: “aproveito a ocasião para informar que a Prefeitura de São Paulo não me pagou até agora o prêmio de primeiro lugar (São Paulo, meu amor) do Festival da Record de 1968 e até começou a dizer que não assumiu esta obrigação”.

A terceira é a seguinte: procurado por Homem de vícios antigos para uma entrevista sobre o relançamento e sua importância, o compositor afirmou, através de sua produção, não ter sido comunicado sobre o assunto pela Som Livre.

Ouçam Tom Zé em Guindaste a rigor:

O transe criativo de Tatá Aeroplano

Step psicodélico. Capa. Reprodução

Tatá Aeroplano não para. Ou, para não perder o trocadilho com seu nome artístico, Tatá Aeroplano não pousa: no máximo faz escalas. Entre um disco e outro. Entre uma ideia e outra. Artista outrora à frente de bandas como Jumbo Elektro e Cérebro Eletrônico, hoje ele se divide entre a sua própria carreira solo e a de seu alter ego Frito Sampler – ele anuncia para breve o sucessor de Aladins Bakunins.

Ontem (27), Tatá Aeroplano disponibilizou em diversas redes seu terceiro álbum solo: Step psicodélico [Voador Discos, 2016]. É seu disco mais plural, ao menos do ponto de vista do leque de parceiros: Peri Pane (Todos os homens da terra), Dustan Gallas (na faixa-título), Flávio Lima (Outono à toa), Gustavo Galo (Luz no fim da tela), Luiz Gayoto (Aventureiros), Juli Manzi (Eu Inezito) e Julia Valiengo (Copo de pedra e a faixa-título), voz onipresente no disco, ela que assina ainda as fotografias do encarte e o projeto gráfico do trabalho.

Metade do disco estava pronta em um dia – um dia inspirado, em que ele compôs ainda outras quatro faixas, que acabaram ficando de fora, mas que serão lançadas um dia. Além dos citados parceiros, Tatá Aeroplano cercou-se de nomes requisitados da nova cena: Junior Boca (guitarra), Bruno Buarque (bateria e percussão) e Dustan Gallas (baixo e teclado) fazem a base, num disco que tem ainda participações especiais do poeta arrudA, Bárbara Eugênia e Ciça Góes.

Sobre o lançamento, Homem de vícios antigos conversou com Tatá Aeroplano.

O múltiplo Tatá Aeroplano em clique de Julia Valiengo
O múltiplo Tatá Aeroplano em clique de Julia Valiengo

Seus trabalhos são marcados por canções que são, de algum modo, retratos do cotidiano. A música me parece uma coisa orgânica em você. A impressão que se tem é que Tatá Aeroplano está o tempo todo pensando em e fazendo música. É correto pensar assim?
Isso veio comigo desde pequeno. Compus a primeira canção, letra e melodia, com seis anos de idade. Nos últimos tempos, acho que com a idade, abrindo a mente e o corpo para coisas novas, eu tenho vivido epifanias musicais, entro numa espécie de transe criativo incorporativo, as letras e melodias chegam e eu escrevo. Metade desse novo álbum surgiu assim. Lembro que o Peri Pane me mostrou a letra de Todos os homens da terra numa madrugada em que estávamos participando do disco Frou Frou da Bárbara [Eugênia]. Ele me mostrou a letra e a melodia me veio na hora, eu tinha recém chegado da minha turnê em Portugal e estava com a música dos artistas Sergio Godinho e Fausto na cabeça. O Peri gravou eu cantando e no dia seguinte logo cedinho me enviou a música com ele tocando e cantando. Entrei nesse estado de transe criativo, o Gustavo Galo tinha me enviado uma letra por e-mail, abri o computador e fui nela e assim nasceu Luz no fim da tela. Nesse mesmo dia peguei o violão e compus, na sequência, Dois lamentos, Step psicodélico e Passando o chapéu na noite purpurina. Em menos de 24 horas metade do disco nasceu. Eu tenho que agradecer a generosidade do cosmos comigo, viu?

Quais as principais influências de Tatá Aeroplano no geral e, particularmente neste Step psicodélico?
Eu sou apaixonado por música de todos os tipos. Eu gosto de escutar e conhecer coisas novas. Então, no ano passado, quando fui pra Portugal, trouxe comigo os primeiros álbuns do compositor e cantor Sergio Godinho, intitulados Pré-histórias e Sobreviventes, e também dois discos clássicos do músico e compositor Fausto, Por esse rio acima e O despertar dos alquimistas. Me apaixonei por eles, é a mesma sensação que eu sempre tive desde criança e adolescente descobrindo músicas novas. Eu coloco esses discos pra rolar e meu corpo e minha mente são tomados por uma sensação indescritível de prazer. Então eles foram grandes influências no meu estado de espírito no ano passado, assim como The Kinks, nos últimos três anos. Eu vou escutando tudo que vem de novo e me faz um bem danado, pirei com o disco da Alice Caymmi, com o disco da Ava [Rocha], acompanhei as gravações do amigo Juliano Gauche e seu belíssimo disco Nas estâncias de Dzyan, Hélio Flanders [vocalista do Vanguart] com seu disco solo, Trupe Chá de Boldo veio com o álbum Presente, com canções alto astral, dançantes. Isso tudo vai virando dentro da minha cachola e acabou reverberando no Step psicodélico. Gravando esse disco, pensando nas referências gerais, de todos os tempos, eu acho que eu sou um ser humano em constante estado de psicodelia, eu realmente estou imerso dentro dessa sonoridade, me faz tão bem escutar discos assim. A canção Por esse rio acima, do Fausto, tem uma psicodelia fabulosa ali que não é a psicodelia sessentista, mas como os instrumentos estão lá, as vozes, o violão. Sei lá, eu amo isso mesmo.

Step psicodélico é coalhado de referências: Gal Costa, Lanny Gordin, Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias, Roberto Villar, Arnaldo Baptista. Como foi o processo de feitura do disco, desde a composição até a escolha do repertório?
Pois é, como eu disse, cinco canções nasceram em menos de 24 horas. Aliás, nesse dia eu ainda compus mais quatro que ficaram de fora, mas que, com certeza, lançarei num futuro breve. As referências de Outono à toa, minha parceria com o incrível amigo, compositor e pássaro da Boemia, Flavio Lima, ser afestanista e retrofuturista. Em 2007 ele colou em casa e me mostrou uma canção instrumental, eu cantei uma letra e melodia inteira nessa base instrumental… e ele foi embora. Alguns meses depois ele me liga e diz que a nossa música tinha ficado muito legal. Quando ele me enviou a gravação, estava tudo ali… a letra de Outono à toa foi composta automaticamente e conta uma história do menino que grava os discos da Gal Costa pra menina que ele gosta e eles vão ver um show do Lanny Gordin e depois vão ver um filme do François Truffaut… O último metrô e Atirem no pianista são filmes dele. Então, essa letra é um apanhado de coisas que eu tinha vivido de fato. E nesse exato momento escuto Velvet Underground, e Sunday morning e o primeiro álbum deles como um todo, me tocam profundamente até hoje. Em Luz no fim da tela, minha parceria com outro canário psicodélico, o mister Gustavo Galo, aí aparece o Ozualdo Candeias, a quem eu dediquei o Na loucura & na lucidez [2014, seu segundo disco solo] e o mestre Sganzerla, referência total eterna. Essa música que eu fiz com o Galo, a gente terminou mesmo, a letra e tudo, em dezembro do ano passado, nos encontramos em casa, tomando birita e proseando… e a letra fala que no fim nós somos curvas, não tem jeito, somos inquietos e quem anda torto não tem conserto… Aí eu chego finalmente em Roberto Villar, que aparece em Eu Inezito, parceria com meu amigo príncipe, o mister Juli Manzi. Eu amo os dois discos que o Roberto Villar gravou e tem dias que eu coloco esses discos e fico cantando e dançando sozinho aqui no apartamento e daí me lembro do meu pai, quando ele tomava umas a mais ele me ligava e ficava me mostrando pelo telefone as músicas que ele estava escutando em estado de epifania. Isso é muito bom!

Este terceiro disco de carreira traz um leque mais amplo de parceiros, um disco solo menos, digamos, solitário. Como se deu essa mudança?
É um disco de parcerias e de amizade, de confidentes da música. Conviver e gravar com Dustan Gallas, Junior Boca e Bruno Buarque me levou ao novo momento na minha vida e pude finalmente voar do jeito que eu sempre quis, porque eles são amigos que viajam juntos, a gente cria juntos os arranjos, é tudo coletivo e tudo parceria. E nesse disco a Julia Valiengo esteve presente total, cantamos juntos boa parte das canções e meus amigos de copo e de estrada estiveram juntos com a gente nessa festa: Peri Pane, Flávio Lima, Gustavo Galo, Juli Manzi, Bárbara Eugênia, Lenis Rino, arrudA e Ciça Goes.

Tatá Aeroplano solo, Frito Sampler, Jumbo Elektro, Cérebro Eletrônico, um requisitado dj na noite e um instrumentista bastante frequente em discos de amigos. Como é encarar e se dividir entre todas estas personas?
Confesso que isso tudo me deixa às vezes totalmente fora da casinha. Fico meio louco, mas com o passar do tempo fui acostumando a lidar com todas essas personas. Me inspiro no Fernando Pessoa e seus heterônimos. O ciclo do Jumbo Elektro foi muito intenso e bacana e acabou no Frito Sampler, assim como o ciclo com o Cérebro Eletrônico acabou também, não vamos mais lançar discos nem fazer shows. Com a chegada do Frito e meus trabalhos autorais, ficou humanamente inviável levar tantas bandas ao mesmo tempo, porque, apesar de ser maluco das ideias, eu vivo profissionalmente da música que eu faço, então foquei total no Frito Sampler, que é uma viagem incrível e me dá um prazer maravilhoso, e também nos meus discos autorais… Ah, o [segundo] disco do Frito está quase pronto e lanço ele em alguns meses… É muita coisa, e eu amo mesmo essa diversidade.

A banda que te acompanha neste Step psicodélico também é bastante concorrida, todo mundo toca com vários outros artistas, entre discos e shows. Como foi conciliar as agendas e o processo de gravação?
A gente sempre combina um período do ano onde nossas agendas estão mais tranquilas, que é no fim do ano… ou como foi o Step psicodélico, gravado em janeiro e início de fevereiro. A gente pega uma semana e vive o disco dia e noite. Isso é uma coisa muito boa, cada vez mais os discos demoram menos pra ficar prontos!

A faixa-título ecos de marcha e clima carnavalescos, com direito a “batom vermelho na boca dos meninos”, uma celebração à psicodelia, como entrega o título. A realidade brasileira, com seu momento político, ao contrário, parece não haver o que comemorar. Como você tem acompanhado os diversos retrocessos perpetrados neste campo?
Acompanho esse retrocesso com muito pesar e receio, mas tenho muita esperança na arte libertária. A música que eu crio, sinto que uma parte dela é libertária e exalta o estado de espírito conectado a isso. Agora vivemos um momento crucial em entender melhor isso tudo. Eu estive algumas vezes na Ocupação da Funarte em São Paulo, fiz uma apresentação com o Galo, o Gauche e o Peri, e tem muita gente mobilizada para combater esse tipo de político e política arcaica, opressora. As ocupações são incríveis nesse sentido. Sim, eu passo batom vermelho às vezes e às vezes saio na rua de peruca rosa pela cidade. É minha maneira de fazer política, não tenho o dom de escrever sobre política. Em Step psicodélico eu falo das casas noturnas de São Paulo, algumas foram lacradas como o Puxadinho, a própria “Nossa Casa” sofreu com isso, por conta de uma especulação imobiliária sem escrúpulo nenhum. Os caras não querem saber, eles querem fazer mais dinheiro, custe o que custar. E por isso eu canto: batom vermelho na boca dos meninos… Serralheria, Francisca, ciclovias… Eu quero mais! Ciclovias é o futuro total! Eu sou um andarilho do meu tempo, não tenho carro e nunca terei um, me conectei com a natureza, com existências que estão por aqui antes da gente, tudo isso me faz refletir e apontar para coisas novas. Estou terminando de ler A queda do céu do Davi Kopenawa [e Bruce Albert, Companhia das Letras, 2015; leia um trecho], eu recomendo que todos leiam esse livro o mais rápido possível: é um evangelho atual sobre como a gente não tem noção nenhuma do que anda fazendo por aqui. Eu sei que o momento é terrível, o que eu sei fazer desde pequeno é música, nunca pensei em fazer música para um mercado, e acho que a música nesse sentido, quando é feita dessa maneira livre, ela é um lance que entra dentro da gente e nos dá muita força pra lutar contra esses caras que chegaram no poder da maneira que chegaram.

Julia Valengo aparece em nove das 10 faixas, dividindo os vocais com você, repetindo experiências de Bruno Batista, em , com Dandara, e Marcelo Jeneci, em De graça, com Laura Lavieri, para citar nomes de sua geração. É uma tendência?
Pois é, eu a Julia nos amarramos na Banda do Mar, o disco do [Marcelo] Camelo com a Malu [Magalhães], escutamos bastante. Eu sempre pirei com o disco do John [Lennon] com a Yoko [Ono], o Double fantasy e eu a Julia já tínhamos feito um disco nesses moldes, o Aladins Bakunins do Frito Sampler. A gente já dividia uns vocais bem loucos e cantamos junto praticamente no disco inteiro. Foi natural, a gente tem um show que são dois erês, voz e violão. Lá cantamos Aventureiros, Cadente e tal… então levamos isso pro disco, buscamos umas vozes bem diferentes e nossas vozes combinam, timbram, às vezes não dá pra saber que é quem, vozes psicodélicas, que eu gosto tanto! A Julia foi uma presença incrível em Step, gravou comigo pacas, criou e assinou todo o projeto gráfico do disco. Fez as fotos, pensou locação e tudo mais.

O lançamento virtual de Step psicodélico aconteceu sexta-feira (27), em diversas plataformas virtuais, e o disco físico estará disponível a partir de semana que vem. Já há shows de lançamento agendados? E qual a perspectiva de apresentações no Nordeste, particularmente em São Luís do Maranhão?
Tenho muita vontade de tocar por aí, vamos tentar articular algo para São Luís em breve! O show de lançamento em breve vai pintar, estamos fechando os primeiros shows! O disco já está disponível para download no meu site e também está à venda no meu site.

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Ouça Step psicodélico no youtube:

O pop que (infelizmente) não toca no rádio

Lamina. Capa. Reprodução
Lamina. Capa. Reprodução

Assis Medeiros assina simplesmente Assis neste Lamina [independente, 2016, disponível para download no site do artista], sem acento mesmo, seu novo disco, sucessor de petardos como Burrodecarga [2007] e o duplo Baiãozinho nuar [2010].

Pernambucano criado na Paraíba, hoje radicado em Brasília após temporada no Maranhão, Assis faz música pop(ular) brasileira. Da boa! Embora não seja popular, é pop, como atesta a sonoridade destas 14 faixas, que não o prendem a rótulos – pena que a qualidade delas seja inversamente proporcional ao que as rádios brasileiras costumam tocar, com raras e honrosas exceções.

Sua obra é pessoal, seu timbre, particular: ele compõe para si mesmo, canta e toca violão, guitarra, teclado e ukelele. Assina todas as faixas do disco, quase sempre sozinho – as exceções são Aviso (parceria com o poeta Celso Borges) e Sombra seca (com Fernando Rodrigues e Marco Guedes).

Assis não é panfletário, mas é impossível não relacionar certas letras com o turbulento momento político de hoje no Brasil. Caso de Eu vou dizer: “só tem canalha nessa ala de pedestre/ só tem migalha para gente que merece/ eu vou dizer vou avisar/ não se engane/ com o clima do lugar/ esse Brasil é muito grande e apertado/ pra mim e pra você…”

Ou de Um pouco de sol, adornada pela bela voz de Flora Lago (que canta também em Agora e Sombra seca): “a gente vê o semblante/ da cidade ardida/ sob o teto imenso/ a gente quer paz/ e um pouco de sol/ de mais um dia nesse cenário/ de mais um dia áspero”.

Noutra seara destaca-se ainda Tudo é pop, em que questiona: “por que é que hoje/ tudo tem que ser pop?/ sacos de hits/ sucessos instantâneos de butique/ solos de vocal brejeiro/ o caralho de asa que canta no chuveiro/ o grito que encobre o punk sertanejo/ a misoginia do funk que engole a pista/ a alegria hype gay dos eletronistas/ levante o rabo daí e dance/ dance para ficar leve solto serelepe/ e não arrede o pé desse salão/ balance a bundinha na minha/ e assim vai ficando atoladinha”, pérola irônica cuja letra na íntegra fiz questão de transcrever.

A faixa-título, que encerra o disco, soa autobiográfica, retrato de um artista aos mais de 40: “parece que nada dá certo/ parece que não há remédio/ num dia tô branco/ no outro amarelo/ no fundo do fundo do poço/ no poço sem fundo do tédio/ num dia sem verbo e insano/ num rumo quase deserto”, diz a letra, que fala ainda em dores de amores e nas costas, calos de sangue, hérnias de mola, enjoo, inflamação e irritação, irmã de O pulso, hit dos Titãs.

Sem trocadilhos, é um disco pulsante, alto astral, solar – para voltarmos a versos de Um pouco de sol: “a gente quer paz/ e um pouco de sol/ pra cauterizar a dor”. Um disco dançante e quente, como no rock abolerado Fogo: “um lero um bolero de raiz/ (…)/ e o amor pegando fogo na sala”.