Impossível obedecer à recomendação de não fazer fotografias sem autorização prévia da produção (ou do espaço, sei lá). Fotosca: Zema Ribeiro
Sucessos é um nome bastante apropriado para o show que Edu Krieger apresentou sábado e domingo passados (6 e 7), de graça, no Espaço Furnas Cultural, na mítica Rua Real Grandeza, em Botafogo, Rio de Janeiro – este blogueiro assistiu ao segundo.
À frente do Edu Krieger Trio, como anunciado, acompanhado do irmão Fabiano Krieger (guitarra) e PC Castilho (flauta e percussão), Edu Krieger (voz e violão sete cordas) mostrou, em cerca de hora e meia de show, por que é um dos mais interessantes artistas da música brasileira da atualidade.
Completo, canta, toca e compõe como poucos e ouso mesmo dizer que Krieger é, apesar da pouca idade e tempo curto de carreira, apenas dois discos lançados – Edu Krieger (2006) e Correnteza (2009) –, um dos maiores cronistas musicais já surgidos neste Brasil de Noel Rosa e Chico Buarque, com quem sua obra dialoga diretamente.
Suas personagens e paisagens têm força e categoria para estar à altura deste e daquele. Basta ver os casos de Graziela, A mais bonita de Copacabana, Pole dance e Maria do Socorro (gravada por Maria Rita) – seus discos podem ser ouvidos na íntegra em seu site.
Aliás, para continuarmos às comparações a Noel e Chico, nunca o diminuindo, Krieger é um grande fornecedor de matéria-prima – ou obras primas, melhor dizendo – a nomes como a citada Maria Rita (Ciranda do mundo e Novo amor, além da citada), Roberta Sá (Novo amor), Aline Calixto (Saber ganhar), Pedro Miranda (Coluna social) e Ana Carolina (Combustível, Resposta da Rita e a citada Pole dance), entre outros, o que faz com que você muito provavelmente conheça-o, mesmo que (ache que) nunca tenha ouvido falar em seu nome.
“Eu gostaria muito que todos os políticos, tanto na esfera federal quanto na estadual, se sentissem homenageados com esta”, anunciou antes de tocar Coluna social, cujo verso inicial diz: “o Cinismo casou/ com dona Hipocrisia/ teve uma grande festança/ no apartamento da Demagogia”.
Como bom cronista que é, de língua ácida e afiada e pensamento ligeiro, o filho do maestro Edino Krieger sabe que sua opinião é importante e sobre determinados assuntos nos quais se quer e se deve meter o bedelho não dá para esperar disco. Assim vem pitacando sobre questões importantes se utilizando do youtube. São deliciosos e contagiantes seus hits Aos vinte e sete – decassílabo cujo mote afirma “rock’n roll pra valer foi Noel Rosa/ que partiu sem chegar aos vinte e sete –, Desculpe, Neymar – sobre a Copa do Mundo de 2014 –, e a Resposta ao funk ostentação – cujo ritmo foi marcado nas palmas pela plateia.
Ele cantou-as no show e comentou sobre as polêmicas geradas pelas duas últimas. “Me chamaram de coxinha, de reacionário. Até de eleitor do Aécio eu fui xingado”, disse entre risos, seus e da plateia. “O problema não é a ostentação do funk. O autêntico funk carioca, que mistura nossas raízes africanas ao eletrônico, é uma das mais importantes músicas surgidas no Brasil nas últimas décadas e eu mesmo quero aproximar essa relação da música brasileira com o funk”, afirmou. “De repente eu passei a ser chamado de comunista, marxista. O problema não está na ostentação do funk, mas na ostentação, seja ela no sertanejo, no camaro amarelo”, continuou.
Entre outras, Krieger cantou ainda Temporais (parceria com Geraldo Azevedo, “um cara que sempre foi meu ídolo, na MPB”, afirmou), Correnteza, Clareia e Rosa de açucena. No bis, uma versão eletrizante do afrossamba Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.
Edu Krieger está definitivamente entre os grandes.
A música popular brasileira tornou-se uma sigla importante após os grandes festivais, tidos como sua era de ouro, nas décadas de 1960 e 1970. Nenhum país tem uma música popular tão interessante quanto o Brasil, justo pela sofisticação que carrega.
O que parece contraditório é o trunfo do longevo Pau Brasil, grupo que chega aos 30 anos neste 2014, cuja turnê comemorativa passa por São Luís nesta quarta (10), às 20h30, no Teatro Arthur Azevedo.
O quinteto formado por Nelson Ayres (piano), Paulo Bellinati (violão), Ricardo Mosca (bateria), Rodolfo Stroeter (contrabaixo) e Teco Cardoso (flauta e saxofones) é a perfeita tradução da ponte entre erudito e popular sem linhas de segregação que acabam por fazer da música o que temos de melhor.
Não é à toa que este grupo se chama Pau Brasil. A sequência é lógica e pode soar óbvia: desta árvore nativa extraiu-se o nome do país, da madeira vem a maioria dos instrumentos, deles a música, obtida a partir do virtuosismo destes gênios, de relevantes serviços prestados, em grupo ou sozinhos, aos ouvidos mais exigentes, ao longo destes agora devidamente celebrados 30 anos de carreira.
Noites de gala, samba na rua, de Monica Salmaso, é um destes casos, um bom exemplo: no disco da cantora, cujo repertório é inteiramente de Chico Buarque, o grupo fez a cama para que a cantora reinventasse o compositor, trazendo novidade e rara beleza ao que já parecia definitivo, as gravações já conhecidas de músicas que ela regravou. Particularmente lembro-me do show, no mesmo Arthur Azevedo, em que, num determinado momento, a cantora beijava Teco Cardoso, seu marido, celebrando o amor pela música, contaminando a plateia apaixonada – impossível manter-se impassível.
Quem não conhece o Pau Brasil certamente há de se apaixonar. O repertório longe do óbvio, além de composições dos membros do grupo, passeia por nomes como Ary Barroso, Baden Powell e, entre outros, Heitor Villa-Lobos, a cujo repertório é dedicado Villa-Lobos Superstar, seu mais recente disco, que lhe garantiu os troféus de melhor disco e melhor grupo instrumental no 24º. Prêmio da Música Brasileira. O disco conta com as participações especiais do quarteto Ensemble SP e do cantor Renato Braz. O show traz um breve panorama da história da música e dos ritmos brasileiros.
Também amanhã, às 18h, o Pau Brasil dialogará com o público interessado sobre a concepção musical e de arranjos, em interação com os presentes – músicos, professores e estudantes de música e público em geral. Tanto para a oficina quanto para o espetáculo as entradas são gratuitas, devendo ser retiradas na bilheteria do teatro a partir das 14h.
Violonista, ex-integrante da Camerata Carioca, autor das trilhas sonoras de mais de 20 filmes e professor da Escola de Música, Joaquim Santos é o 21º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão
Filho do comerciante português Camilo Gomes dos Santos e da dona de casa Raimunda Moraes dos Santos, nascida em Bequimão, Joaquim Antonio dos Santos Neto nasceu em São Luís em 20 de dezembro de 1951. Além dele e seus pais, a casa da infância que lhe habita a memória era dividida com quatro irmãos – entre os quais o cineasta Murilo Santos –, a avó portuguesa, primos e tias.
Desde criança Joaquim Santos demonstrou talento e vocação para as artes. Aos sete anos já se dedicava às artes plásticas – desenho, pintura e escultura –, tendo vencido alguns concursos. Com o dinheiro destes, aos 14 anos, comprou o primeiro violão, que escondia no guarda-roupa, por puro receio da opinião do pai, bastante rígido. O músico, no entanto, reconhece o apoio da família na continuidade dos estudos da música e posterior carreira que seguiu. De seus três filhos, Juliano Santos reside no Rio de Janeiro e também se dedica ao violão.
Professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, em cuja sala Santinha Vasconcelos recebeu a chororreportagem, Joaquim Santos é um dos nomes mais importantes do violão brasileiro. Integrou a Camerata Carioca, grupo fundamental para a revalorização e revitalização do choro no Brasil, entre o fim da década de 1970 e início da de 80. Com o grupo gravou o disco Tocar, além de ter acompanhado nomes como Elizeth Cardoso e Nara Leão.
Outra área em que se destaca é a composição de trilhas para cinema: já assinou mais de 20, tendo recebido diversos prêmios Brasil afora. São dele, entre outras, as trilhas sonoras de O testamento, de Euclides Moreira Neto, O incompreendido, de Francisco Colombo, Ódio, de Breno Ferreira, Infernos e O exercício do caos, de Frederico Machado, Bandeiras verdes, O crime da Ullen, O massacre de Alto Alegre e Quem matou Elias Zi?, do irmão Murilo Santos. No último citado, também assina os desenhos [nota do blogue: recentemente assinou a trilha de O camelo, o leão e a criança, de Paulo Blitos].
Misto de trabalho e diversão é a pesquisa que desenvolve sobre a música produzida no Maranhão no século XIX. Joaquim Santos tem editado partituras do período, às vezes baseando-se em manuscritos. Em seu vasto acervo há verdadeiras joias de nomes como Pedro Gromwell, Antonio Rayol [nota do blogue: no vídeo acima, Retoques, última faixa de Shopping Brazil, de Cesar Teixeira, uma das músicas cantadas por Dona Teté é a Ladainha de Nossa Senhora, de Antonio Rayol] e Inácio Cunha. “Há muito choro, muito schottisch, valsas, mazurcas, que ninguém conhece. Os músicos precisam ir aos arquivos, tem muita coisa bonita”, afirma. Privilegiados, os chororrepórteres encerraram a entrevista ouvindo alguns temas em seu laptop.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Dá pra dizer que a música trouxe teu avô ao Brasil? Eu não sei o que motivou essa viagem dele. Ele, chegando aqui, trabalhava como violinista e carpinteiro. Ele tocava violino no cinema mudo. Na Faculdade de Farmácia, eu vim descobrir depois, por documentos, ele foi o chefe da carpintaria.
Como era o ambiente musical em tua casa, na infância? Muito bom. Meu pai ouvia muito música clássica, música popular. Tinha disco de choro, disco de Pixinguinha, aqueles cantores e cantoras da época, todos, a chamada era do rádio. Tinha esse lado da música popular, meu pai curtia muito, mas predominantemente música clássica. Discos de fado, violino, e discos norte americanos, orquestra. Sábado, todo domingo, era música o dia inteiro. A questão da música na minha vida surgiu mais ou menos quando eu tinha uns 14 anos. Eu, desde criança, aos sete anos, desenhava muito, com o incentivo de minha avó portuguesa, que morava com a gente. Com sete anos eu ganhei um concurso de desenho do Sesi. Minha primeira exposição de pinturas e de escultura, eu tinha 10 anos. Eu fiz uma coletiva nessa época, o governador Newton Belo ofereceu um jantar, medalha, eu tenho até hoje. Nesse período todo até uns 14 anos, minha dedicação exclusive era com as artes plásticas, pintura, escultura, eu fazia muita exposição. Eu estudei com Telésforo Moraes Rego, com Nilton Pavão. Depois eu retomei quando fui morar em Minas, trabalhei na Casa de Gravura, trabalhei para [Carlos] Scliar, pra [José Alberto] Nemer, [Carlos] Bracher, eram artistas [plásticos]. Quando eu comecei minha experiência com violão, eu comprei um violão com o dinheiro dos quadros, ficava tentando tocar, e naquela época eu conheci Ubiratan [Sousa, músico, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], não pessoalmente, ele tocava o Prelúdio de Bach, e eu ficava louco pra tocar daquele jeito, fiquei muito encantado. E também uma coisa que me influenciou bastante era um programa, logo que inaugurou a televisão, a Difusora, um programa, acho que era Panorama Panamericano, um filme em preto e branco, tinha a cena, uma das reportagens, [o violonista espanhol Andrés] Segovia tocando, e aí eu fiquei apaixonado pelo violão. Eu comecei a estudar escondido de meu pai, comprei o violão com meu dinheiro, mas escondia no guarda-roupa. No dia em que meu pai soube, eu já tocava alguns clássicos. Mas eu não tinha técnica. Eu aprendi a ler música sozinho. Quando eu cheguei para Lourdinha Lauande [a historiadora Maria de Lourdes Lauande Lacroix] eu já estava tocando violão. Ela era uma excelente pianista, eu morava do lado. Tinha um padre que tocava violino que almoçava lá, cônego Osmar Palhano de Jesus. Ele era pintor, foi meu professor de pintura também. Então eu comecei a tocar mesmo sozinho. Quando eu soube que João Pedro [Borges, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] estava na cidade, que tocava muito bem, aí eu fui estudar com ele. Quando eu fui estudar com ele, eu já estava tocando, mas sem técnica.
A tua primeira influência, vendo alguém tocar, foi Ubiratan? Foi. Eu vi Ubiratan, Segovia na televisão.
Ubiratan chegou a te dar aula? Nesse período, não. Depois eu tive acho que duas aulas com ele.
E Lourdinha Lacroix, chegou a te dar aulas? Exatamente. Eu chegava pra ela “e essa música aqui”, mostrava a música e ela dizia “isso aqui toca assim”. Ela dava umas orientações. Eu comecei a estudar bastante violão. E fiquei estudando com João Pedro no período de férias e fui avançando. Quando inaugurou a Escola de Música, em 1974, depois de um semestre, João Pedro sugeriu que eu ficasse não só como aluno dele, mas também como professor assistente, por que tinha uma procura muito grande de violão. Eu fiquei como assistente, depois ele foi embora e eu fiquei como titular. Em 1980, mais ou menos, 79, eu ganhei meu primeiro prêmio de trilha sonora, que foi do filme do Euclides [Moreira Neto, cineasta, ex-Diretor do Departamento de Assuntos Culturais da UFMA e ex-presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís], O testamento. Depois desse evento eu fui para o Rio estudar com o Ian [Guest, músico, professor de violão].
Teus pais sempre te apoiaram? Sempre! Inclusive, antes de ir pra Escola de Música, eu trabalhava como desenhista no Cema, a Fundação Maranhense da TV Educativa. Foi aí que o João Pedro sugeriu que eu largasse lá o emprego para ficar na Escola de Música.
Mas no começo você escondia o violão de teu pai. Era só um receio de ele não receber bem? Exatamente. Nós éramos cinco [irmãos], tinha muita gente na casa, ele era muito rígido, por que tinha os primos, as tias, enfim. Eu fiquei com medo de ele implicar com o violão, embora eu tivesse comprado com meu dinheiro.
Fora as formações em artes plásticas e música, você teve outra formação? Eu me empreguei como desenhista, depois como professor de música. Depois eu comecei a fazer luthieria. Eu faço muito restauro. Meu sonho era fabricar, mas é tanto instrumento para consertar, os alunos pedem para regular, violino, violão, o que eu tenho para terminar…
Quem foi teu mestre de luthieria? Eu considero dois grandes mestres: um foi o [luthierjaponês Shigemitsu] Suguiyama, que foi o primeiro, e o outro foi Mário Jorge. Daí você vai pegando informação com várias pessoas. Eu frequentava muito a oficina do Mário Jorge, inclusive meu primeiro violão, que eu fiz, foi [o luthier] Sérgio Abreu quem me vendeu a madeira pra fazer.
Fala um pouco de tua ida pro Rio de Janeiro, como é que se deu? Eu fui para o Rio com uma bolsa, que era meu salário, aqui da Escola, em 1980. Depois, a Olga [Mohana, ex-diretora da EMEM], que era diretora, não queria que eu ficasse no Rio, queria que eu voltasse, e eu queria estudar mais um pouco. Acabou que eu perdi meu emprego. Chegando lá no Rio, eu continuei tendo aula com João Pedro e naquela época a Camerata Carioca ensaiava também na casa de João Pedro e eu ficava ouvindo ali. Coincidiu que o João Pedro se desligou da Camerata, queria investir na carreira solo, e me indicou. Tinha duas pessoas indicadas. Eu não sou chorão. Minha ligação com o violão sempre foi com a música clássica, sempre tive simpatia, mas eu aprendi muito sobre o choro quando entrei na Camerata. Pintou um concerto de última hora e eu tive umas duas semanas pra estudar, arranjos de Radamés [Gnattali, pianista e mastro gaúcho, fundador da Camerata Carioca]. Foi um concerto na Sala Cecília Meireles, com Joel Nascimento no bandolim, Henrique Cazes no cavaquinho, eu fiquei no primeiro violão, substituindo João Pedro, Maurício Carrilho no segundo, Luiz Otávio [Braga] no [violão] sete cordas e Beto Cazes no pandeiro. Nesse programa a gente tocou a Suíte Retratos [nota do blogue: no vídeo acima, a formação que executa a Suíte Retratos ainda tem João Pedro Borges ao violão], tocamos o Concerto de Vivaldi, com Radamés tocando, e tocamos também… tinha um repertório, eu não lembro, tinha Jacob do Bandolim e uns dois choros livres no final do concerto. Eu estava bastante tenso, era minha estreia, fiz o melhor possível, eu estava doente, um problema no dente que se agravou. Quando a gente estava no camarim, Henrique Cazes chegou todo contente: “sabem quem está aí? [Os violonistas] Sérgio e Odair Assad”. Aí foi que meu coração gelou, tocar pra esses caras! Mas foi legal, o concerto foi bom. Foi muito boa essa experiência. Daí a gente seguiu, foram várias apresentações. Gravamos o disco Tocar [1983] e outros discos também, com a Nara [Leão, cantora], a volta da Nara aos palcos foi com a gente, Teatro da Lagoa. Nós participamos de uma faixa do disco Nasci pra bailar [1982] e depois outro disco, Meu samba encabulado [1984].
Tocar foi o único disco que você gravou com a Camerata? Como grupo, sim. Esse disco foi muito bom, nós ganhamos o prêmio [da revista] Playboy de melhor disco.
Eu me lembro de um em que vocês acompanhavam Elizeth Cardoso, Uma rosa para Pixinguinha [1983]. Uma Rosa para Pixinguinha. A gente gravou o disco com a Nara, Meu samba encabulado.
Esse, vocês fizeram todo o disco com a Nara? A Camerata e a turma do Fundo de Quintal [grupo de samba e pagode]. Inclusive a gente fez o [a turnê do projeto] Pixinguinha com esse disco. Sem eles, a gente fez o Japão, com a Nara. Chegamos lá foi uma maravilha. Fizemos vários shows com a Nara, shows também com [o músico Roberto] Menescal. Fizemos um concerto só para jornalistas e críticos de música em Tóquio, alguém postou uma música no youtube, Jacaré de saiote, um frevo [de autoria de Antonio da Silva Torres, o Jacaré]. Depois eu produzi um disco, com a participação de Tom Jobim, chama-se Radamés [Gnattali, 1985], músicas que Radamés fez para alguns compositores e que alguns compositores fizeram para ele [o lado a tem seis faixas em que Radamés homenageia e é homenageado por Tom Jobim, Paulinho da Viola e Capiba; no lado b, três movimentos do Quarteto popular, de autoria do gaúcho].
E a convivência com Radamés, qual a importância, o que significou para você? Pra mim, aliás, pra todos nós que convivemos com Radamés, tivemos essa oportunidade, por várias maneiras: só como pessoa, você estar ao lado de um grande artista como Radamés, isso já é uma grande honra. Posso dizer que sou um cara de sorte e fico muito feliz com isso. Eu vi a Nara Leão na televisão aqui em São Luís, nunca imaginei que pudesse trabalhar com ela e fui até seu professor de violão. A mesma coisa com Paulinho da Viola, todos esses artistas. Radamés eu lembro de vê-lo tocando piano na televisão e, poxa, chegar, estar aqui do lado, na sala dele, tocando com ele, aprendi muito. Era super rígido, mas tinha um lado muito à vontade. Ele não gostava de ensaiar, fazia as coisas muito rápido. Não era o tipo de músico preocupado com detalhes, preciosista. Mas se aprendia muita coisa, de vida mesmo, de músico.
Qual a estatura de Radamés dentro da música brasileira? É pouco conhecido, não tem o reconhecimento merecido. A gente ouve mais as pessoas ligadas à música popular, principalmente ao choro, que conhecem, têm uma aproximação, mais que os compositores eruditos. Os compositores que colocam Radamés no programa geralmente são violonistas, que conhecem esse lado, que inclusive tocam o lado da música popular.
Os papeis que Pixinguinha exerceu durante quase cinco décadas, depois dele, quem assumiu essa tarefa no rádio, na televisão, nas gravadoras, foi Radamés, como arranjador, como um cara que deu rumo para a música brasileira durante tempo significativo. Exatamente. Foi um grande compositor. Foi editado há uns dois anos, um professor da UFMA, Ricieri [Carlini Zorzal, Dez estudos para violão de Radamés Gnattali: estilos musicais e propostas técnico-interpretativas; a dissertação foi defendida na UFBA, em 2005, e posteriormente publicada em livro], ele escreveu, foi a dissertação dele de mestrado, sobre os dez estudos de Radamés, eu até fiz o prefácio do livro, tem o pdf, está disponibilizado [para download]. É bem interessante, ele faz uma análise, embora o Radamés não aceitava essa questão do jazz, mas é interessante, por que ele começa a ver essa mistura da brasilidade, da música, com essa questão do jazz, que é presente na música do Radamés.
Na sua opinião, que papel exerceu a Camerata na trajetória do choro? Essa é uma boa pergunta. O choro surge exatamente dessa mistura dos ritmos brasileiros com a música da Europa, da África, toda aquela história que todo mundo conhece, vai pras ruas e pros salões. O choro é uma música erudita. Vamos dizer na linguagem de hoje, é uma música de concerto. A Camerata surgiu num período, ainda mais no formato em que ela veio, colocando e ressaltando esse lado refinado da música, camerístico. Foi muito importante e foi determinante, influenciou vários grupos. A gente pega vários grupos, como o Água de Moringa. Tem um muito interessante, que com certeza teve algum contato com a Camerata, chama Papo de Vento, é um conjunto de sopro. É muito bom. Eu acho que a Camerata teve esse papel importantíssimo. Dessa escola da Camerata, eu chamo até de escola, surgiram várias coisas. Depois que a Camerata acabou, infelizmente acabou no Japão, justamente no momento em que a gente recebeu todos os reconhecimentos e convites para tocar. Tinha o trabalho com a Nara, mas a gente foi convidado, só o conjunto, para fazer vários concertos, gravamos até com uma cantora pop japonesa, ela cantou Tom Jobim. Eu não queria que terminasse, mas foi uma decisão da maioria.
O fim da Camerata foi cercado de brigas? Como foi? Eu não vou dizer brigas, mas insatisfações. Já vinham se acumulando há um tempo.
Como é tua relação hoje com os remanescentes da Camerata? Excelente. O Henrique uma vez veio aqui, foi muito bom, Luiz Otávio, todos eles, Maurício. Eu gosto muito deles. Eu acho que na Camerata eu até consegui muitas vezes equilibrar essa balança das insatisfações e divergências, eu sempre conciliava. Acho que é o melhor caminho que tem. Depois acabou, Radamés morreu, nos reunimos, fizemos um concerto. Depois houve um segundo momento de reunião, não para continuar. Nessa ocasião, já o Maurício não quis ir. No lugar dele foi o [violonista] João Lyra e no lugar do Dazinho, que morreu, foi o [clarinetista] Paulo Sérgio Santos. A Camerata teve um papel muito importante, naquele momento, de abrir os caminhos. Eu aprendi muita coisa nessa vivência, de gravações.
Fora Tocar e os discos com Nara e Elizeth Cardoso, de que outros discos você participou? Teve um disco do Zé Tobias, Camerata, Radamés e Zé Tobias [José Tobias, Rapsódia Brasileira, 1984]. Gravei com Benito di Paula, com a Camerata, ele gravou umas músicas antigas, mas não sei se chegou a virar disco. Teve Taiguara [Canções de amor e liberdade, 1985]. Outros discos, tem um da Teca Calazans [Mário, 300, 350, 1983], várias pessoas da Camerata participaram, mas não com o nome da Camerata [ele não cita o disco Caymmi, de Dorival Caymmi, 1985].
Aqui no Maranhão você não chegou a gravar discos? Não.
Além da Camerata você participou de outros grupos? Lá em Minas, sim. Eu tinha um duo, flauta e violão, com Salomé Viegas, fizemos concertos em vários lugares, era legal, a gente tinha um repertório que incluía choro, Egberto Gismonti, Bach, Villa-Lobos. Depois a gente formou um trio, com um violoncelista. Eu tenho um vídeo que eu gravei, saiu na TV Cultura.
De uns tempos pra cá me parece que você anda meio afastado de palcos e estúdios, fora o lance de fazer trilhas sonoras. Você não tem vontade de voltar, não sente falta? Até foi legal falar nisso. Quando eu vim pra cá, eu vi que a realidade era outra. Tem gente que sobrevive de música e eu tiro o chapéu, é uma coisa bem difícil. Toca aqui, acolá, ganha um dinheirinho aqui, acolá, eu não sei se eu teria pique. Eu senti um choque muito grande, eu estava muito envolvido com a música de concerto, e pensei, “poxa, aqui não é minha praia”. Isso foi me afastando do palco até por uma questão, quando você deixa de tocar no palco, você vai criando medo de palco, e foi o que aconteceu comigo, de certa maneira, associado a uns problemas nas minhas unhas. Eu deixei, toquei pouco, fiz poucos recitais. Eu lembro de um na época do festival da prefeitura [o Festival Internacional de Música de São Luís, em 2002]. Eu toco assim, acompanhando aluno, e eu estudo todo dia. Todo dia! Tocar, eu toco aqui na Escola de Música. Agora eu descobri uma coisa que Yamandu [Costa, violonista sete cordas gaúcho] já usa e eu resolvi experimentar: unha artificial. Agora estou me preparando para tocar.
As trilhas para cinema são muitas. Não tem uma preocupação de tua parte de registrar esse material? Lançar isso em disco, no sentido, inclusive, de que muitos desses filmes, ninguém sabe onde está, como faz para assistir. Eu sempre pensei. Eu tenho vontade de fazer um cd. Seria um projeto bem caro, muita coisa eu teria que regravar, por conta da qualidade, da época. Muitas dessas músicas que eu faço para filmes, a maioria curtas, a maioria é para orquestra.
Você faz reparo, conserta instrumentos. Você toca outros instrumentos? Não. Só violão. Piano é uma coisa assim, não é nada. Eu estudo as cordas por que eu estou na direção da Orquestra de Cordas daqui [da EMEM], já faz bastante tempo, desde que eu cheguei aqui, em 1999. Eu aprendi muito aqui na Escola, na própria orquestra. Eu tenho alguns arranjos e orquestrações que acho que foram bem sucedidos, o pessoal gosta, muita gente me elogiou. Eu fiz arranjos para cordas para Água e vinho e Loro, de Egberto Gismonti, fiz orquestrações para umas mazurcas de [o violonista espanhol Francisco] Tárrega que acho que ficou legal. E fora isso tenho meu trabalho de pesquisador da música do século XIX, que a gente sempre toca. Não é arranjo, são edições.
Como é teu método na hora de compor uma trilha? É preciso ver as cenas antes? Eu já experimentei de todo jeito. Eu gosto muito da trilha de Infernos [de Frederico Machado]. Ele me encomendou a trilha e disse que queria inferno e céu, “tudo é baseado na poesia de meu pai”. Eu conheço a poesia de Nauro [Machado, poeta, pai do cineasta Frederico Machado] e sei que o inferno não é tão inferno, pela beleza poética com que ele descreve, e o céu não é tão céu, essa coisa densa que é Nauro. E ele disse: “agora eu vou só combinar uma coisa contigo que é fundamental: eu penso numa coisa de voz, [o compositor minimalista norte-americano] Phillip Glass, mas não vou te mostrar o filme”. Eu acho que foi uma das trilhas mais bem sucedidas, uma das. Por outro lado, já o inverso, eu assisto a cena, participo do filme, vejo as filmagens, converso com o diretor, aí é outro tipo de envolvimento, que funciona. Essa coisa diversificada é legal, são sempre desafios. Tudo é possível. De modo geral, a conversa do diretor com o compositor é fundamental. Quando eu vejo a cena eu sei exatamente onde eu posso colocar o silêncio e onde eu posso colocar a música.
Para você, como educador, o que significa o fato de São Luís ter, hoje, além da Escola, duas faculdades de música? Isso mudou bastante. A primeira coisa que a gente pode pensar é que existia um mito muito forte aqui em São Luís, que as pessoas que leem música não tocam de ouvido. Há essa tendência, lógico. É muito fácil você pegar, ler a partitura e não precisa tirar de ouvido, não treina. Tinha muita gente aqui que toca muito bem, que não sabe ler nem escrever [partitura]. Aqui mesmo na Escola, havia gente que não tinha habilidade com a leitura, mas são excelentes músicos. Hoje estão na universidade, já leem. É um caminho mais aberto, uma possibilidade. Eu volto à história do choro: o músico de choro gosta tanto de choro, que se interessa, vai atrás, acaba lendo [partitura]. Mas eu não resumo o curso de música só à leitura. Esses dois cursos formam professores, para ensinar música. Agora, lá, não é um curso de instrumento. Continua a Escola de Música sendo o grande centro de formação instrumental. Fora disso, um excelente espaço para o aprendizado de música são as igrejas. Acontece hoje uma coisa que acontecia no século XVIII: o centro de formação do músico era nas igrejas. Os compositores que nós temos do século XVIII, Manuel Antonio de Oliveira, Ermelindo Lobo de Mesquita, o próprio Antonio Rayol era regente, Leocádio Rayol. Isso está acontecendo hoje, de maneira informal, mas você vê grandes músicos em igrejas. Agora vai ter teste para o curso técnico. Se se fizer uma enquete, a maioria dos músicos que vêm fazer o teste, o propósito é melhorar a performance nas igrejas.
Qual a importância do choro para a música brasileira? Choro é aquilo que há de mais fundamental que a gente possa pensar. É fundamental. A música brasileira, a raiz da música brasileira, qualquer gênero que surja depois, o movimento da bossa nova, tudo isso a gente pode ver que tem um pé no choro, e que é um gênero, uma questão de identidade, uma estrutura não só formal, mas também melódica, harmônica, ela tem toda essa abertura, não só pela questão do tradicional, ela se abre. Uma das coisas mais inovadoras que eu conheço de choro são as obras do Maurício [Carrilho] com o Choro Ímpar.
Talento precoce do violão, músico apresentou-se após João Pedro Borges na Mostra Sesc Amazônia das Artes. Maranhense foi jurado de concurso vencido pelo piauiense aos 17 anos, em 2004
Ponte musical entre o Piauí e o Maranhão, Josué Costa e João Pedro Borges tocaram juntos “Magoado”, de Dilermando Reis. Foto: Zema Ribeiro
João Pedro Borges não exagerou ao não poupar elogios a Josué Costa, talentoso violonista piauiense que sucedeu seu concerto na programação da Mostra Sesc Amazônia das Artes, ontem (23), no Teatro João do Vale.
O que o maranhense me havia dito em entrevista, reafirmou diante da plateia: o espanto causado pelo jovem, então com 17 anos, quando venceu em 2004 o I Festival de Violão do Piauí, de que eram jurados, além de João Pedro Borges, Turíbio Santos e Guinga, entre outros.
Depois de um repertório criteriosamente selecionado, que passou, entre outros, por Heitor Villa-Lobos, Paulinho da Viola, Radamés Gnattali, Ernesto Nazareth e João Pernambuco, os músicos ergueram uma ponte musical estreitando as relações entre Maranhão e Piauí. O que deveria ser feito mais vezes, a nosso ver, dada a proximidade geográfica entre dois dos estados mais pobres da nação – entretanto fertilíssimos quando o assunto é cultura. Insisto em dizer que pouco conhecemos dos vizinhos desde Torquato Neto e vice-versa.
“Eu não podia perder essa oportunidade. É para colocar no meu currículo”, anunciou João Pedro Borges, ao anunciar a última peça, que dividiu com Josué Costa: Magoado, de Dilermando Reis. Depois, o piauiense seguiu sozinho, em um concerto emocionante e corajoso – pois quase completamente autoral.
Ambos derreteram-se em elogios ao Sesc, destacando o papel fundamental que a instituição cumpre para a fruição da música brasileira, lembrando de suas participações em eventos promovidos por suas unidades em todo o Brasil.
Antes de continuar, Josué Costa devolveu os elogios a João Pedro Borges, destacando sua importância para o instrumento no Brasil. Com talento de sobra, ele desfilou um repertório quase todo de sua autoria, apresentando-se competente compositor e instrumentista. Mostrou músicas de seu disco de estreia, Luando, tema que escreveu em homenagem ao filho Luis Fernando e que também batizava o concerto de ontem. Abriu sua apresentação com um tema de sua autoria, ainda sem título, composto durante a turnê que se encerrava ontem em São Luís.
Bem humorado e supersimples, ia contando as histórias de suas músicas. Samba aranha, que escreveu para o amigo Yamandu Costa, que “hoje está bichado, sofreu um acidente, mas é um patrimônio do violão brasileiro”. O músico gaúcho fraturou a mão direita no início de agosto e cancelou algumas apresentações. Para o pai escreveu Mestre Riba: “ele nunca me disse para procurar outra coisa, nunca disse que música não dá certo, sempre gostou da música que eu faço”, agradeceu.
Ele próprio contando as histórias era engraçado e alguns títulos de suas músicas, idem: Chefe atrapalhado escreveu para um colega violinista de quem é – ou foi – subordinado. Asilado foi escrita após uma noite de conversa e música com Alessandro Penezzi. “O cara conversa, ouve tanto e depois quer fazer alguma coisa sob a influência. Aqui eu não sei como é que chamam, mas lá no Piauí, asilado é doido. Mas esse é um doido do bem, é o cara doido por música”, explicou. Ele dedicou sua apresentação a “um grande músico maranhense, Robertinho Chinês”, que estava na plateia.
Feito em casa foi composta sob encomenda para um programa homônimo da tevê piauiense. Josué Costa passeou ainda por temas de Tom Jobim (Passarim), Carlos Gardel (Por una cabeza, com letra de Alfredo Le Pera, tema do filme Perfume de mulher, de Martin Brest) e Edith Piaf (Sob o céu de Paris, tradução de Sou le ciel de Paris, de Hubert Giraud e Jean Dréjac).
“Estou muito feliz em estar aqui, estou me sentindo em casa, espero voltar mais vezes em breve. Estou há 10 dias na estrada, já começa a bater uma saudade”, anunciou, antes de despedir-se.
[Íntegra da entrevista publicada quarta-feira passada, 20, noAlternativo, O Estado do Maranhão]
Danilo Caymmi conversou sobre memória, o centenário do pai, Dorival Caymmi, download, biografias, festivais, Ecad, e é claro, música
O artista durante a entrevista no hall do hotel. Foto: Zema Ribeiro
O cantor e compositor Danilo Caymmi esteve em São Luís no fim da semana passada. Veio para um show no Ponta do Bonfim – Música e Por do Sol. Realização de um grupo de amigos apreciadores de boa música, o projeto já trouxe à Ilha, noutras edições, nomes como Paulinho Pedra Azul e Renato Braz.
O filho de Dorival, cuja obra foi celebrada no show, estava cansado – vinha de participar do Festival Sesc de Inverno, em Petrópolis/RJ, mas não se negou a nos conceder uma entrevista, um dia antes de sua apresentação, num dos cartões postais que admirou em São Luís.
Acompanhado do produtor Miguel Bacelar, Danilo trajava camisa preta, calção e tênis no fim da tarde da sexta-feira (8). Conversamos num sofá na recepção do Premier Hotel, onde estavam hospedados. Antes da conversa, em que esbanjou simpatia, sacou o celular e, já sentado, fotografou a tarde. Revelou-me ter conta no instagram: “Eu gosto de fotografar. Me divirto na estrada. Aqui tem um céu lindo”, elogiou.
Seu show no projeto Ponta do Bonfim foi precedido das apresentações de Alberto Trabulsi, que ofereceu um repertório de clássicos da música brasileira, acompanhado de Reuber Rocha (guitarra) e Guilherme Raposo (teclado), e Bruno Batista, que acompanhado de Luiz Jr. (violão de sete cordas, guitarra e banjo), mesclou músicas de seus dois mais recentes discos a inéditas, contando com a participação especial de Claudio Lima – chegaram a anunciar para setembro nova edição do show Hein?, em que os dois dividem o palco.
Entre canto e flauta (emprestada de Zezé Alves), Danilo Caymmi, acompanhado ao violão por André Siqueira, passeou por clássicos de sua autoria, de seu pai e músicas de Tom Jobim. Não faltaram Andança [Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós], Casaco marrom [Danilo Caymmi, Guarabyra e Renato Corrêa], O bem e o mal [Danilo Caymmi e Dudu Falcão], O que é o amor [Danilo Caymmi e Dudu Falcão] – as duas, temas da minissérie Riacho Doce, baseada na obra de José Lins do Rego –, Marcha dos pescadores [Dorival Caymmi], Você já foi à Bahia? [Dorival Caymmi], Maracangalha [Dorival Caymmi], Vamos falar de Tereza [Danilo e Dorival Caymmi] – tema da minissérie Tereza Batista Cansada de Guerra, baseada na obra de Jorge Amado –, Samba da minha terra [Dorival Caymmi], Marina [Dorival Caymmi], Eu sei que vou te amar [Tom Jobim e Vinicius de Moraes], entre inúmeros outros clássicos, cantados pelo público a plenos pulmões, com direito a aplausos de pé e insistentes pedidos de “mais um”.
Do pai, de quem herdou o bom humor, contou ainda histórias engraçadas, certamente já consagradas nos anedotários baiano e da música popular brasileira. O sol já havia se posto quando ele deixou o palco, reafirmando o prazer em estar em São Luís pela primeira vez e a vontade de voltar.
Com o violonista André Siqueira, durante o show na Ponta do Bonfim. Foto: Doriana Camello
Você já conhecia São Luís? Não. É a primeira vez que estou aqui. Trabalho desde os anos 1970 viajando, vamos ser bem específicos, 1973, depois de muitos projetos Pixinguinha, a única capital do Brasil que eu não conhecia era aqui, São Luís, o estado também. É a primeira vez que eu venho. Estou caprichando mesmo para fazer um show superlegal por que estou devendo muitos anos. É muito especial, estou encantado, não conhecia o Centro Histórico, mas sei da fama, dos Lençóis também. Estou fascinado. Eu me divirto muito com fotografia durante essas excursões, fotografei muitas coisas agora no trajeto do aeroporto para cá.
Como é que pintou o convite? Foi surpresa? Demorou muito a aceitar? Não, eu aceitei de primeira. O Miguel [Bacelar, produtor] recebeu o convite, aceitamos logo. Eles [a produção do projeto Ponta do Bonfim – Música e Por do Sol] já haviam feito um evento aqui com um amigo comum, o Renato Braz, grande cantor, amigo de meu irmão Dori [Caymmi]. Quando eu soube, “poxa, é a oportunidade bacana de conhecer”. Pra mim tá sendo meio show e turismo também.
Duas expectativas: qual a sua para o show de amanhã e o que o público pode esperar de você? A minha expectativa para amanhã é fazer o melhor possível. O público pode esperar isso. Como eu nunca estive aqui, é uma vontade de, como se tivesse muito tempo perdido, resgatar. Vou mudar um pouco o repertório. Vou cantar meus sucessos, Andança, Casaco Marrom, as músicas de Riacho Doce, até um arranjo especial para uma bem específica dessa trilha, O que é o amor, minha com Dudu Falcão, um arranjo do André Siqueira, que está comigo, que é um grande músico, e canções de Caymmi também. Nós estamos fazendo shows, eu Dori e Nana [Caymmi], pelo Brasil, vamos fazer dia 16 agora no HSBC em São Paulo. Estou muito feliz em estar aqui. Estou cansado, é lógico, estava na Serra, trabalhando no Rio, 10 graus de temperatura, chego aqui essa exuberância do calor, um almoço maravilhoso, uma pescada maravilhosa, estou encantado, realmente encantado. Sempre tem Caymmi, Jobim, músicas minhas, basicamente isso, com tratamento novo, embora eu não fique muito centrado nos discos que eu gravei.
Como outros grandes nomes da música do Brasil, entre os quais destaco os Chicos Buarque e Maranhão, você também chegou a cursar arquitetura. Isso! Como Tom Jobim também.
Alguma semelhança entre os ofícios? Compor é arquitetar? Tem. Por exemplo, algumas músicas do Riacho Doce são muito curtas, pequenas, e muito densas. Isso também é uma influência direta da arquitetura, da casa mínima, da simplicidade condensada. Sala, quarto, cozinha e banheiro, ali está tudo o que você precisa sem muitos arabescos, a ideia é essa. As canções são muito diretas, elas já entram dizendo a que vem. Como exemplos eu posso dizer O bem e o mal, minha com Dudu Falcão, O que é o amor também. São canções com uma síntese muito forte, é uma coisa proposital que tem a ver com a estrutura da arquitetura.
Teu pai chegou a ficar indeciso entre a pintura e a música. A arquitetura, ou algum outro ofício, tentou te desencaminhar da música? Sim. A Marinha. Tem um parceiro de meu pai, ele tem poucos parceiros, Hugo Lima era oficial da Marinha. Quando eu tinha uns 10 anos, 11 anos ele me levou para o Rio, nós fomos fazer um passeio, arsenal de Marinha, eu conheci aqueles barcos todos, Marinha de guerra, eu fiquei fascinado, quase eu entrei para a Marinha quando eu tinha uns 16 anos, a Escola Naval.
O que significou para você tocar no Som Imaginário, e pouco depois ter integrado a banda de Tom Jobim? Além, é claro, do fato de ter nascido em uma das famílias mais musicais do Brasil? Foi muito importante. No caso do Matança do porco [terceiro e último disco do grupo Som Imaginário, de 1973], arranjos do Wagner Tiso [compositor e pianista], na verdade a gente nem dava muita importância para o disco naquele momento, era uma fase muito fértil, muito criativa, praticamente a gente dominava a Odeon, músicos novos, numa faixa de 20 a 25 anos, todo o pessoal do Clube da Esquina, músicos cariocas como Robertinho, Luiz Alves. Por acaso a gente se cruzava muito da Odeon, a gente ia fazendo outras coisas, gravando, e Wagner Tiso me chamou para tocar essa flauta. Eu estava tocando muito, em vários discos importantes da MPB. Esse foi um ano muito fértil, saíram discos muito importantes em 1973. Depois, o Tom também tem uma importância enorme: ele me descobriu como cantor. Até então eu cantava com a voz mal colocada. Já era compositor, já tinha ganhado festivais com Andança e Casaco Marrom, e o Tom me disse, quando eu entrei pra Banda Nova, “canta, essas músicas assim”, ele dizia, “por que eu tenho a voz assim abafada ao alho” [risos], aí eu peguei solos, olha só que responsabilidade, Samba do avião [Tom Jobim] e A felicidade [Tom Jobim e Vinicius de Moraes]. A gente cantou no mundo inteiro meus solos dentro do show dele. Eu tive que me preparar para o canto com a professora Heloisa Madeira, que era prima dele, aí fui descobrir a minha voz mesmo, depois foi embora, gravei o primeiro disco de sucesso, pelas mãos do Mariozinho Rocha, na Globo.
Qual o tamanho da responsabilidade, qual o peso de ser um Caymmi? Estou vendo isso muito na minha filha [a cantora Alice Caymmi]. No começo de carreira cobram muito, como estão cobrando dela. Parece que estou vendo a minha própria vida passando, por que ela, os tios são Dori e Nana, o avô Dorival Caymmi, ela com 24 anos. É o mesmo processo. Tem uma hora que as pessoas começam a destacar, o próprio público tira do contexto, diz assim, “pô, eu gosto é do Danilo, eu gosto muito da Nana, gosto do Dori”, e se vai juntando esses pedaços para uma personalidade musical, com a ajuda do público, naturalmente.
Qual o significado deste 2014, o centenário de Caymmi, a importância de celebrar a obra dele? Nós [a família] começamos desde o ano passado a trabalhar efetivamente no centenário. Temos vários produtos. Por partes, vamos começar pelo livro: tem a biografia [Dorival Caymmi – Acontece que ele é baiano], da minha sobrinha Stella, filha da Nana, que também tem textos de João Ubaldo [escritor baiano recém-falecido], talvez tenha sido o último texto grande de João Ubaldo, do Caetano Veloso, do professor Júlio Diniz da PUC, e da própria Stella, um livro maravilhoso. Tem quatro discos em andamento, o disco [Caymmi] que a família gravou pela Som Livre ano passado, que ganhou prêmio especial de música popular [no Prêmio da Música Brasileira], tem o disco [Dorival Caymmi – Centenário] a ser lançado, de produção de meu irmão e Mario Adnet [violonista], com participação do Chico Buarque, Caetano, Gil, eu, Nana e Dori, e o próprio Mario Adnet, um disco meu [sem título definido] já com outra conotação, produtores da cena contemporânea, Domenico Lancelotti e Bruno di Lullo, a ideia do disco é o seguinte: eu quero saber como eles olham Dorival Caymmi, eu estou somente como cantor e flautista.
Os arranjos são deles? Tudo deles. Repertório, a escolha do repertório, tudo. Shows, tem o Mar de Algodão, um show meu, do Francis [Hime, compositor e pianista] e da Olivia [Hime, cantora], com orquestra, tem formato para grande orquestra e também reduzido, direção do Flávio Marinho. Tem os shows, eu, Nana e Dori, que a gente vai fazer em São Paulo agora, e Salvador. Tem o [show] Dorivália, da Alice Caymmi, que já é uma coisa mais jovem, mas bem consistente, uma visão da obra, puramente dela. Agora estou fechando um balé também. E tenho também um trabalho com Claudio Nucci [cantor e compositor]. Uma exposição [Caymmi 100 anos] que está em São Paulo agora, patrocinada pelos Correios, com curadoria da Stella Caymmi, que deve seguir para Brasília em setembro. E eu tenho uma ideia também de transformar uma redução dessa exposição, estou buscando patrocínios, para que se possa passar essa exposição, com pocket show meu e do Claudio, por exemplo, aqui em São Luís, uma espécie de Semana Caymmi. A ideia é uma itinerância, e também as atividades de pensamento. É muito importante explicar Caymmi para professores, para que depois o professor transmita para os alunos, uma parte mais educacional para formação de massa crítica. A gente acabou de fazer isso no Festival de Inverno. Fomos eu, o professor Julio Diniz, Stella e um músico. A gente fala das coisas, da obra de Caymmi, das curiosidades, do que as pessoas não sabem, em determinado momento a gente ilustra isso musicalmente, o público pergunta. Isso deve acompanhar minha ideia, por exemplo, vem aqui, se faz uma Semana Caymmi em São Luís, vem a exposição, o show, essa atividade de pensamento é a menina dos olhos, pelo ponto de vista da memória. Estamos fazendo isso também para que sirva também de exemplo para outros centenários que virão, já se tem certo know how do que é preciso fazer. Você viu, por exemplo, o centenário de Vinicius [de Moraes] passou batido, a família entregou para uma firma só, o que é um risco muito grande. Eu mesmo estou negociando tudo separado.
A intermediação dos parentes pode ser um fator facilitador, por conta da preocupação com a preservação da memória, não apenas uma empresa querendo ganhar dinheiro. Absolutamente. Essas atividades de pensamento os cachês são irrisórios, pelo tempo e pelo sacrifício, mas a importância é enorme. Você ter um professor tão abalizado como o Julio, a Stella, que entende profundamente da obra, eu, ilustrando musicalmente e falando o que sei do convívio, com um bom músico, isso é bacana, é um lado de educação. Particularmente acho que o problema cultural do Brasil passa pela educação diretamente. A nossa preocupação é formação de massa crítica: quanto mais tem formação de professores, os professores ficam sensibilizados, levam isso para a escola, pedem para as crianças fazerem trabalhos sobre Dorival Caymmi, sobre a música. A gente precisa tomar cuidado com isso, de preservar a memória. É muito importante. Recentemente caiu num vestibular quem era Tom Jobim e ninguém sabia, mas as crianças não têm culpa disso. Tem que formar o professor e daí você chega na memória. A mídia quer ganhar dinheiro ou não pagar direito autoral. E não é um problema só do Brasil. O mundo hoje está ligado, tem grandes conglomerados interessados em não pagar direito autoral, então faz parte você eliminar o passado e só ver o presente, o imediato, a cultura relâmpago.
Você falou há pouco sobre a liberdade dada a produtores para recriar a obra de Dorival Caymmi. Li há algum tempo uma declaração de Dori, mais preocupado com a intocabilidade da obra do pai de vocês. Vocês divergem nesse quesito? A gente bate um pouco de frente, Dori pensa de uma maneira, eu penso de outra. Eu acho que você tem que motivar o jovem a pegar daqui e levar pra frente. Papai mesmo detestava isso de “naquele tempo que era bom”, ele já era muito progressista, olhava muito à frente. Sempre foi um esteta e um vetor. Eu também sigo isso. Tem que motivar o jovem a olhar, pelo que ele entende, se é rock, se é funk. Eu não sou dessa polêmica se a música tá velha. As coisas têm uma dinâmica própria, tem muita gente trabalhando, fazendo coisas incríveis pelo Brasil inteiro. Agora, tem que ter o pensamento mais aberto, para entender essa diversidade e essa complexidade dessa situação que a gente vive. É um mundo novo que se desperta com a internet. Aí é que está! As pessoas não aceitam computador, não aceitam essa informação. Eu adoro essa dinâmica que está no mundo, existem coisas belíssimas. Tem muita coisa acontecendo.
Como é sua relação com essa tecnologia em relação ao consumo e a produção da música? Como você enxerga, por exemplo, a figura do download? Eu fui diretor da Abramus [Associação Brasileira de Música e Artes] quatro anos, uma associação de direitos autorais. Eu sempre vi isso, o que acontece, a internet acaba ajeitando as coisas desfavorecendo ao autor. A gente está passando uma fase difícil, mas pela própria dinâmica, como a internet age, ela é livre, ela acaba ajeitando uma forma de remunerar o autor. Acho que estamos passando um momento de transição que penaliza o direito autoral, em função de grandes companhias, grandes conglomerados econômicos internacionais. Não tem como ser contra [o donwload] por que vai chegar um garoto de 10, 15 anos e vai hackear tudo. Essa coisa de “a minha privacidade”, isso não existe mais. Não existe pilar de concreto, é uma coisa mutante, ela anda, ela vai se formando, como nossas células. Ou você tem essa compreensão ou fica muito difícil conviver nesse mundo.
Parece uma discussão já encerrada a polêmica sobre as biografias. Qual a sua opinião sobre aquele imbróglio todo? Eu acho muito ruim cercear o direito de as pessoas escreverem biografias. Onde se discute isso é na justiça: você não gostou, vai atrás da justiça. Como também eu sou contra essa questão de colocar o diretor da estrutura do direito autoral num controle do governo, ou transformar uma lei que o governo controla isso. Amanhã você pode ter um governo diferente. Hoje nós vivemos num ambiente privado, amanhã isso pode ser uma arma voltada para a gente. Como a gente tem esse problema todo com a Ordem dos Músicos do Brasil há anos, é uma coisa de carimbo do Estado. Você não consegue sair disso. Se os músicos acabarem com a Ordem perdem direitos trabalhistas e por aí vai. Eu sou totalmente contra esse negócio de você controlar. A biografia não autorizada tem que existir. Vai esconder o quê? Não tem nada pra esconder. O artista já é transparente. A gente cai numa dinâmica que o mundo não aceita mais, uma dinâmica antiga, um conselho de cinco pessoas que vai decidir não sei o quê ou desqualificar o próprio autor.
Qual a sua opinião sobre o Ecad [o Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais]? O Ecad é um escritório de arrecadação de direitos autorais com todos os defeitos, mas é privado, é nosso, é do compositor. Eu sou contra a estatização de um ambiente privado. Quando eu trabalhava com direito autoral se discutia a criação do Instituto Brasileiro do Direito Autoral, com a criação de 200 empregos. Quem vai pagar isso? O compositor! As pessoas tratam o Estado brasileiro, “ah, o Ecad é uma porcaria, mas o governo é ótimo! O governo é uma vestal”. Quando se trata disso o governo é lindo e o Ecad é ruim. Agora vamos comparar o Ecad com a corrupção dentro do governo, em todas as esferas: como é que fica isso? Nada contra você ter, dentro do Ministério da Cultura, como tinha antigamente, um Conselho Nacional do Direito Autoral, o CNDA, como se fosse uma agência, ver o que está acontecendo. Agora, transformar num Instituto Brasileiro de Direito Autoral, com 200 empregos, diretorias, jetons, isso é ruim. Eu quero que o Ecad seja mesmo virado de cabeça pra baixo, só não quero que seja estatizado, por que eu não posso sair do pressuposto de que o Estado brasileiro no momento é uma vestal.
Hoje e amanhã (8 e 9) acontece em São Luís a 6ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, um festival não competitivo que tem a cantora Joyce Moreno entre as atrações. Você, cuja carreira começou em festivais, acha que o formato, bastante difundido nas décadas de 1960 e 70 se esgotou? Hoje os festivais promovidos pela televisão mais se parecem reality shows. Já. Pois é, não adianta, esse formato caiu. Hoje tem que se encontrar uma coisa diferente, alguém vai encontrar uma fórmula competitiva diferente, acredito que se passe pela rede. Primeiro que você tem vários segmentos. Essa juventude, tem um pessoal mais novo que há muito tempo não compra cd. Hoje os lançamentos são feitos só pela rede, ou vinil. A música tomou uma cara diferente, também está transformando, estão procurando maneiras de divulgar seu próprio trabalho, maneiras de ser ressarcido por esse trabalho também. Aí é que entra a dinâmica que vai mudar o direito autoral. O próprio jovem vai encontrar maneiras de ser remunerado, o jovem acha isso injusto, quem fez não ganha. Tom Jobim dizia, “ah, é um cachê simbólico. Poxa, mas a conta de luz não é simbólica, a conta de telefone não é simbólica”. Nós somos profissionais. Tem uma visão muito preconceituosa, às vezes, de achar que estamos em casa tocando violão, na rede. Se trabalha de segunda a segunda e não para de trabalhar. Trabalhar com arte no Brasil não é fácil. A gente precisa desse dinheiro de direito autoral, a arrecadação vem caindo, caindo, caindo. Essa forma antiga não existe mais. Eu dei sorte, peguei uma época áurea.
“E vou voltar em videotapes e revistas supercoloridas/ pra menina meio distraída repetir a minha voz”. A voz de Ednardo ecoa em minha cabeça ao saber da notícia que o documentário de Tairo Lisboa sobre Maria do Socorro Silva, a Patativa, chega ao Rio de Janeiro.
Com o título alterado para simplesmente Patativa, certamente para passar no filtro de curadorias mais conservadoras, o curta metragem será exibido na mostra Singular Periferia, dentro da programação do festival Visões Periféricas, que acontece de amanhã a 18 de agosto.
O filme de Tairo será exibido quinta-feira (12, às 18h), no Oi Futuro (Rua Visconde de Pirajá, 54, Ipanema).
Sou de pouca fala, disco de estreia de Patativa, será lançado em setembro.
Gildomar Marinho homenageou Manoel da Conceição e botou o 24º. Fesmap na História. Fotosca: Zema Ribeiro
Estive em Pinheiro sexta-feira passada (25), quando assisti a íntegra da primeira noite do tradicional Festival de Música Popular do município.
Era, antes de e mais que jornalista, apenas um rapaz latino americano descansando, passeando, revendo amigos e tomando cerveja.
Destaco, de cara, que qualquer coisa que dure 24 anos no Maranhão – exceto a velha oligarquia que já atingiu o dobro disso – merece que tiremos o chapéu.
Fui passar o fim de semana na Baixada e, em sabendo que o parceiro Gildomar Marinho faria o show de abertura do 24º. Fesmap, resolvi esticar, aproveitando-me da nobreza do sogro, que sempre opta por ser o anjo da rodada.
No geral, achei o festival abaixo das expectativas. O público na praça era pequeno e o nível das músicas concorrentes, em geral, ruim. Na boa banda destacavam-se Rui Mário (sanfona) e Marcos Lussaray (violão e guitarra) e entre os intérpretes sobressaíram-se Anna Cláudia e Fernanda Garcia – vencedora da última edição do certame, ano passado.
O show de Gildomar foi curto e, tocando seu violão, ele foi acompanhado por remanescentes da banda que fazia a cama para os concorrentes, de improviso. Não fosse isso, ele faria o show sozinho, ao contrário do que eu havia lido em jornais e no material de divulgação do Fesmap – sempre rodeado de um sem número de logomarcas e nomes de patrocinadores e apoiadores, também fazendo-nos crer numa dimensão maior que a conseguida.
Radicado no Ceará, com participações em outras edições do Fesmap, inclusive já tendo sido jurado, Gildomar desfilou um repertório autoral, começando pelo martelo agalopado A metade que manda, seguida de Ensejo de blues – ambas de Tocantes, seu terceiro disco, lançado ano passado.
Mas a noite entrou mesmo para a História quando o maranhense lembrou-se de, em meio a Ladainha da remissão – de Olho de Boi (2009), seu primeiro disco –, usar de incidental A batalha do cerrado, belo carimbó elétrico de Pedra de Cantaria (2010), que ele fez em homenagem a Manoel da Conceição.
O líder camponês faria 80 anos no dia seguinte. Um dos mais ferrenhos opositores à oligarquia Sarney e seu principal comandante, Mané – como gosta de ser chamado – foi homenageado em plena Praça José Sarney, na cidade em que nasceu o político ora em ocaso.
Desconheço os resultados do 24º. Fesmap. Mas pouco importa: esta edição já entrou para a História, de um modo bem particular.
Oitavo disco da carreira do maranhense radicado em São Paulo será lançado em show intimista. Além de repertório autoral, espetáculo trará obra de grandes nomes da música brasileira
Com 29 anos da gravação de seu primeiro disco, o cantor e compositor Lourival Tavares volta a se apresentar em São Luís. O show será sexta-feira (11), às 20h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy). Na ocasião o músico lançará seu oitavo disco, Enluarado, mesmo título do espetáculo.
O repertório de Enluarado terá a íntegra do disco, que inclui, entre outras, Muito romântico, de Caetano Veloso (gravada por Roberto Carlos), e Pequeno concerto que virou canção, de Geraldo Vandré. No show, Lourival Tavares passeará também por músicas de outros discos seus, casos de Matadouro, parceria com o poeta Celso Borges, Velha calça de xadrez, parceria com Josias Sobrinho e Éden Bentes, além da obra de artistas que admira, como João do Vale, Luiz Gonzaga e Betto Pereira, de quem gravou Ana e a lua.
Enluarado é uma espécie de apanhado de sua trajetória. O disco, junto com o dvd O laço do olhar, aponta os destaques de sua produção e nomes que foram importantes para a sua formação musical. O dvd conta com a participação especial de Jarbas Mariz, músico da banda de Tom Zé, que já havia gravado com Lourival Tavares em seu disco ao vivo Na colheita dos versos. No palco ele será acompanhado por Marcos Lussaray (violão e guitarra).
“O roteiro do show é baseado no repertório do disco Enluarado, acrescido de músicas que gosto de cantar. Mas é claro que seu formato enxuto, somos eu e mais um músico no palco, permite certa flexibilidade. O público pode aguardar algumas surpresas”, avisa Lourival Tavares, natural de Santa Inês/MA, hoje radicado em São Paulo.
O músico voltou à São Luís para participar da temporada junina. “Fiz algumas apresentações, recarrego as baterias, as energias para viver em São Paulo e criar. Resolvi aproveitar o prolongar da passagem para lançar o disco novo em minha terra natal”, revela.
Serviço
O quê: show Enluarado Quem: Lourival Tavares Quando: 11 de julho (sexta-feira), às 20h Onde: Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy) Quanto: R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes e demais casos previstos em lei) Maiores informações: (98) 8122 0009
Mais que o título de um disco, Atento aos sinais [2013] poderia ser uma espécie de slogan do cantor Ney Matogrosso, reconhecidamente um dos mais talentosos artistas da música brasileira, sempre aberto a novidades, apontando caminhos.
O artista pode ter suas paixões antigas entre os criadores a quem empresta sua voz, mas não deixa de dar voz a novos nomes e a outros que estão entre o primeiro e o segundo time. Prova disso é a presença, neste novo disco, de nomes como Lenine, Arnaldo Antunes, Vitor Ramil, Itamar Assumpção, Paulinho da Viola e Criolo, entre outros, nos créditos de letra e música.
O disco foi ensaiado nos palcos: lançado no finzinho do ano passado, foi testado antes em turnê do cantor. Incêndio, de Pedro Luís, pode soar óbvia, se lembrarmos das recentes manifestações de rua que tomaram conta do Brasil, mas a música, da extinta Ruge, já conta mais de 20 anos de idade. É par perfeito para a regravação de Rua da Passagem (Trânsito), parceria de Lenine e Arnaldo Antunes, lançada pelo primeiro há 15 anos.
O título do disco vem de verso de Oração (Dani Black) e há espaço para o bom humor em Samba do blackberry (Rafael Rocha e Alberto Continentino). A ilusão da casa (Vitor Ramil) é lírica exceção em repertório mais “quente” e mesmo a recriação do samba Roendo as unhas (Paulinho da Viola) ganha ares que fogem à tradição.
Como Maria Bethânia, Ney Matogrosso grava o que lhe dá na telha, sem que o resultado seja um monstrengo sem molho, liga ou alma. A unidade de seu disco é ele próprio quem dá. Mais que o título de um disco, Atento aos sinais é um jeito Ney de ser.
Era uma tarde de sábado, véspera de uma data histórica para o choro no Maranhão. A chororreportagem encontrou Zé Carlos, percussionista do Regional Tira-Teima, no Bar do Léo, que diminuiu o volume do som do ambiente, seu museu particular, encravado no Hortomercado do Vinhais, garantindo a tranquilidade necessária para o papo e o posterior trabalho do responsável pela transcrição da entrevista – em alguns momentos de silêncio, entre perguntas e respostas, é possível ouvir as vozes de Cartola e Paulinho da Viola, que enfeitaram a conversa.
No dia seguinte (27/11), Zé Carlos, com seu grupo, subiria ao palco da Praça Nauro Machado, na Praia Grande, para a Noite do Choro, programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes que reuniu, pela primeira vez, no mesmo palco, tocando simultaneamente, o Regional Tira-Teima e o Instrumental Pixinguinha, mais antigos e tradicionais grupamentos de choro em atividade no Maranhão. A noite teve ainda uma quase reedição do Recital de Música Brasileira, espetáculo em que desfilaram os talentos do violão de João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], o Sinhô, uma lenda viva do instrumento, e da voz de ouro de Célia Maria, diva ainda menos conhecida do que deveria, rima involuntária.
José Carlos Silva estava tranquilo e sereno e a grande responsabilidade parecia não o abalar. Nascido no Centro de São Luís – “numa maternidade que tinha ali na Rua Rio Branco” – em 5 de outubro de 1945, o percussionista é modesto, a ponto de não se considerar um percussionista. Filho de Rufina Silva, “a mãe verdadeira”, criado por Filomena Silva Freitas, “a mãe que criou”, irmã da primeira, e Raimundo Freitas, o Tibinga, comerciante de quem herdou o apelido. “Até hoje, no Monte Castelo, em alguns lugares, sou conhecido assim”, revela, ele que não se zanga com a alcunha.
Zé Carlos não bebeu durante a entrevista. Mas, elegante, dispôs-se a pagar a despesa dos chororrepórteres.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Você morava no Centro? No Centro, se você considerar a Vila Passos. Morei em três bairros basicamente: Vila Passos, depois Monte Castelo e estou na Cohama há mais ou menos 20 anos.
Além de músico, você tem outra profissão? Sou funcionário público estadual aposentado. Trabalhei no Departamento de Estradas de Rodagem por muito tempo, mas fui me aposentar na Secretaria de Educação. Lá me aposentei em 1998.
Então hoje você se dedica integralmente à música? Eu me considero um cara que compreendo a música. Eu não sou um músico didático, um músico acadêmico. Sou um músico prático, por que eu sou curioso. Eu com 10 anos de idade, lá na Vila Passos, começava a pegar coisas, fazer minha bateria, lata velha, panela velha, caixa, e ali eu fazia minha festa.
Por falar na tua infância: como era o ambiente musical em tua família? Tinha alguém que gostava de música? Isso aí eu não sei de onde veio, essa veia, por que eu tenho uma veia musical. Eu tenho facilidade pra compreender a música, é um privilégio que eu tenho, não sei de onde veio. Eu sei onde tá a complexidade da música, a coisa bonita. Eu não misturo a beleza com a complexidade da música. Muita gente, principalmente instrumentistas, só gosta daquilo que é complexo. A música que eu gosto é aquela que me toca, não importa quem seja o autor. Eu sou um cara que gosta de Kenny G, o pessoal detesta. Eu gosto, eu choro, a música é bonita.
Você fala que começou a, com 10 anos, fazer uma bateria, uma coisa meio instintiva. Teve algum professor? Tem umas histórias depois disso. Inclusive eu toquei clarinete por algum tempo. Eu quando servi o Exército, eu lá naquele negócio, me mandaram fazer opção entre um curso e frequentar a banda de música. O coração falou mais alto, eu não pretendia fazer carreira, escolhi a banda de música. Inclusive na formatura do ano, desfilei na banda tocando clarinete. Estudei com o pai da [cantora] Alcione, o João Carlos [Nazaré, maestro]. Assim que perceberam a minha vocação pela música, contrataram um professor, me deram um clarinete e eu comecei a estudar. Depois, meu próprio ouvido me traiu. Eu como tenho essa facilidade de ouvir, de interpretar a música logo pela audição, eu abandonei logo a partitura e comecei a tocar tudo de ouvido. Quando chegou aqui o primeiro disco de [o saxofonista soprano] Saraiva, foi uma febre, tocava em todos os lugares. Eu consegui tocar todas aquelas músicas que tinha naquele disco, tudo aquilo eu tocava. Fazendo minhas serenatas por aí, arranjei um amigo que tocava sanfona de oito baixos, outro tocava violão, eu pegava minha clarineta e saíamos por aí por essas ruas da cidade. Nessa época, São Luís era um pouquinho mais atrasada do que hoje, ela não avançou muito, mas havia a possibilidade de você sair por toda a cidade, andava, sem o perigo. A gente pegava a estrada de ferro, do Monte Castelo pro João Paulo, Floresta, Madre Deus, Coroadinho, Fé em Deus, não tinha isso [violência].
Tua família incentivou, na medida em que te deu presentes. Havia alguma restrição? Não tinha restrição, tanto é que facilitaram a minha entrada nesse mundo. Pagando professor, um sargento reformado da polícia. Depois teve um outro professor, Pedro Grombell. Depois cheguei a tocar, eles organizavam ladainhas. Ele foi meu mestre, tocava violino e eu tocava clarinete com ele. Ele é pai de um grande músico, Osmaro, tocava contrabaixo.
Desse grupo que você falou, havia um nome? Não, isso tudo era farra, era festa. Saíamos sexta-feira. Éramos perdidos. Hoje eu sou um cara direito [risos].
Você falou dos brinquedos de bateria, depois do clarinete. Quando é que se dá a volta à percussão? No meio desse caminho começou a minha paixão, eu descobri que gostava de harmonia vocal e comecei a trabalhar isso ainda nessa época em que eu tocava clarinete. Eu cantava com o acordeonista, o violão, o repertório de Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano. A música era Uirapuru: “Uirapuru, ô, Uirapuru” [cantarola]. Essa música era vocalizada…
Na linha do Tonga Trio? O Tonga Trio começou a partir daí, mas antes de chegar no Tonga Trio, quando eu saí desse grupo, alguma coisa não deu certo, se dispersou. Aí eu conheci algumas pessoas, trabalhavam no departamento [o Departamento de Estradas de Rodagem, de que era funcionário], [o cantor José Leonardo Gonçalves, o Léo] Spirro e Jorge Barros, que vocês não conheceram. Eles fizeram a dupla Ponto e Vírgula, que era Jorge Barros e Othon Santos, e nesse grupo eu entrei, no JB Trio, eu, Othon Santos e Jorge Barros. Nessa época, a gente em época de eleição, a gente ficava no estúdio. Outro dia alguém falando sobre o Sampaio Correia, a gente que gravou o Hino do Sampaio Correia. Eu, Mascote, os filhos de Mascote.
Mascote é muito falado por todo mundo. Através dele, inclusive, é que conheci outros vocalistas aqui. Nós fizemos o Samba Cinco, um grupo vocal instrumental. Os componentes eram os seguintes: eu, Spirro, Mascote [o violonista e percussionista Antonio Sales Sodré], Luiz Sampaio e Marcelo Carvalho, que tocava uma pianola, era bem novo, mas já tocava bem. Luiz Sampaio tocava aquele contrabaixo guarda roupa, Mascote tocava violão, Spirro tocava tarol e timbau, ficava bonito. Fazíamos vocal com quatro vozes.
Essa história do vocal, que vocês fizeram aqui e fizeram sucesso, pelo que nos disseram. Quais eram os grupos referência para vocês no cenário nacional? Eram Os Cariocas, o MPB-4 já existia, era referência também.
Isso era em que ano? Anos 1970, começo de 70. Interessante é que na nossa época, a gente não tinha nada. Hoje em dia eu vejo a preocupação de guardar fotografia, se perdeu, ninguém ligava pra isso. Tinha [o colunista social] Evaldo Melo, onde a gente tocava ele estava fotografando. Hoje não tem nada, se perdeu tudo. Nós éramos um trio que tocava em festas, eu me lembro duma etapa do [concurso] Miss Brasil, a escolha da representante do Maranhão no Lítero [o Grêmio Lítero Recreativo Português], não lembro se essa festa era feita aqui por [as colunistas sociais] Maria Inês Saboia ou se era Flor de Lis. O Tonga Trio entrava lá e era atração daquela festa, eu, [o violonista] Hilton Assunção e Spirro.
Além de Tonga Trio, JB, Tira-Teima, teve algum outro grupo? Sim, eu te falei do Samba Cinco, que era um grupo vocal com quatro vozes, difícil. Com três é fácil, com quatro você já tem que usar dissonâncias. Depois disso, que o grupo acabou, já muitos anos depois… [interrompe-se, exclamando:] Ah, rapaz, eu trabalhei também no [hotel] Quatro Rodas, passei uns quatro anos, depois Hotel São Francisco, eu trabalhei em todos os hotéis de São Luís, até com [o multi-instrumentista] Zé Hemetério.
Teve alguma fase em que você viveu de música? A música é pano de fundo da minha vida, em toda a minha trajetória de vida a música sempre esteve presente. Eu tentei tocar cavaquinho, isso eu não aprendi, antes de Zeca Buiú [Zeca do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013] – ó, Zeca, tu é Buiú mesmo! [ri, mandando um recado ao colega de grupo] –, mas ele levou a sério a coisa. Tentei tocar contrabaixo, não consegui, também não levei a sério. Depois eu digo que o mais fácil mesmo, tocar tambor. Foi aí que eu comecei a tocar timba. No início do Regional Tira-Teima, na segunda formação, que a primeira formação é a de Ubiratan [Sousa, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] e companhia.
Você chegou a tocar na primeira formação? Não, que eu sou muito novo [gargalhadas]. Só Paulo [Trabulsi, cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], que fez uma viagem interplantetária, todo mundo envelheceu e ele continua novo [risos]. No Tira-Teima, eu tocava timba. Essa timba, tinha uma resistência. O cara que adotava, gostava da minha timba, era Gordo Elinaldo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013]. Ele achava que a timba era uma marca da gente. Mas havia uma resistência: “não, rapaz, tu tens que tocar pandeiro”. Eu pra não sair do grupo, pra não ser dispensado, aí eu peguei pandeiro. Nem sabia pra que lado era, mas eu tenho facilidade pra percussão. Não sou percussionista por que não tive oportunidade. Percussionista é um negócio terrível, bateria, é aquela porção de coisa. Se eu fosse músico, levando a sério mesmo, eu tinha que tocar gaita: terminou ali, botou no bolso [risos]. Essa minha percussãozinha já dá um trabalho.
Quem te ensinou a tocar pandeiro? Aprendi sozinho. A princípio pegava um livro, comecei a fazer os movimentos. Eu queria aprender pandeiro, mas aprender corretamente. Depois internet. Hoje eu toco pandeiro por que fui assistindo vídeos, procurando vídeos, grandes pandeiristas, Jorginho do Pandeiro, mas eu tenho outras referências.
Quem são tuas referências? Tem um cara que eu admiro demais, o Léo Ribeiro. São dois Léos, um toca clarinete, o pandeirista é Léo Ribeiro. Marcos Suzano também é muito bom, mas o cara que eu procuro copiar não é ele. Léo Ribeiro é um cara novo ainda.
Você lembra em que ano entrou no Tira-Teima? Como pintou o convite? Não lembro. Eu já tocava, eu conheci o Paulo, músicos se conhecem, tocam num lugar, aquele entrosamento, as pessoas vão se conhecendo. E Paulo me convidou pra tocar com Anna Cláudia [cantora paraense radicada no Maranhão, ex-esposa de Paulo Trabulsi]. Nós tocamos por muitos anos, fazendo principalmente restaurantes. E a partir daí, criamos amizade e resolveram reestruturar o Tira-Teima e eu estava lá.
Eu já te vi tocando algumas vezes com a turma da nova geração. Como é essa relação? É boa. Essa turma está escrevendo [partitura] inclusive. Eu acho o seguinte: eu te falei ainda agora que eu sou um músico prático. É besteira você pensar que só aquele músico que lê partitura ele é capaz, ele é o tal. Às vezes é preciso, facilita. Uma hora seu ouvido manda fazer uma coisa, seu coração manda fazer outra, e como é que fica isso? Eles estão escrevendo com facilidade. Você vê Wendell [Cosme, cavaquinhista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], o próprio Robertinho [Chinês, cavaquinhista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014]. Esse pessoal está aí, está estudando.
Além de instrumentista, você desenvolve alguma outra habilidade na música? Não. Eu me atrevo a fazer arranjo. Outro dia estávamos tentando organizar um grupo, eu, [o multi-instrumentista Arlindo] Pipiu, Spirro, eu me atrevi a fazer um arranjo para quatro vozes. Eu sou perseverante, quando eu quero fazer uma coisa, eu luto, luto, e consegui.
E o canto? É outra coisa. Antes eu quero dizer o seguinte: atualmente, todo mundo que tem algum sentimento musical pode cantar. Não adianta você dizer “não, eu não consigo cantar”. Atualmente você tem ferramentas que dão condições, a chamada técnica vocal. Qualquer pessoa. Vocês já cantaram alguma vez? Não? Fala a verdade!
Em casa, no banheiro, em farras. Melhora muito, muito, a partir de começar a fazer os exercícios, vocalização. Cantar hoje você aprende. Eu tou vendo esses atores e atrizes globais, de vez em quando partindo pra cantar e cantando bem. “Ah, fulano canta? Canta!”. Eu, pelo fato de ter trabalhado muito, forçando, fazendo vocal sem nenhuma técnica, fumando, bebendo, eu perdi.
Das vezes em que te vi cantando no Clube do Choro [Recebe] gostei do resultado. É algo que você faz pouco. Por que você não canta mais? Por que eu não confio. Olha, eu tenho uma autocrítica. Eu critico a mim mesmo, por que eu não posso falar do meu amigo? Embora algumas pessoas digam “Zé Carlos, tu tem condição de cantar”, eu sei que eu não tenho. Além disso, ainda tem o negócio de decorar letra, como é que eu vou cantar todo tempo com uma coisa na minha frente? Se um vento der, eu perco? Tem isso, e minha voz… agora eu tou fazendo uns exercícios vocais, eu acho que já dá pra sair alguma coisa.
De quantas gravações de discos você já participou? Memórias [Memória – Música no Maranhão, antologia com vários intérpretes registrando a obra de compositores do Maranhão, em que Zé Carlos canta Zuza, de João de Deus, faixa que abre o disco], uma faixa, e o disco de seu Antonio Vieira [compositor]. Acho que não tem outro. No Antoniologia [disco produzido por Adelino Valente, seleção de composições de Antonio Vieira nas vozes de vários intérpretes] eu canto a música Ê saudade.
Você acha que o choro é uma música meramente instrumental ou ela pode ser também cantada? Há uma polêmica sobre isso. Tem o compositor de um tipo de música e tem o compositor de choro. O compositor de um tipo de música, boa música, ele faz a música, ele compõe, pensando em como vai ser o resultado daquele disco, como vai vender, pensa no lado comercial da coisa, pensa em agradar uma camada, pensa em vender milhões. Ele é diferente do compositor do choro: ele não compõe para o público, se você pensar, ele compõe para o outro músico. Quando faz o trabalho dele, seguramente, ele está pensando em levar o trabalho dele para o colega dele. Ele não pensa em vender esse disco. É a minha maneira de ver, o compositor do choro é diferente, ele faz o choro pensando no outro músico. Se outro músico diz, “poxa, tá legal”, ele tá realizado.
Você gosta de choro cantado? Tanto faz. Tem choro cantado bonito.
Quais são as tuas principais referências no campo do choro? Você falou há pouco no campo da percussão. Eu gosto de tudo o que é bom. Gosto de tudo o que me agrada. Encontro coisas que me agradam em todos os segmentos.
Mas quem são os compositores e instrumentistas de choro que te chamam mais a atenção? Quem lida com choro, o primeiro nome que vem à cabeça é o de Pixinguinha. Jacob do Bandolim. Eu não penso diferente, as minhas referências são essas.
Você tem acompanhado essa nova geração do choro no Brasil? Quem são os nomes dessa nova geração que têm te chamado a atenção? O que eu acho é o seguinte: Brasília tem um movimento muito forte nesse mundo do choro. Eles estão lançando muita gente. Você vê um Hamilton de Holanda [bandolinista], um cara desses. E não é só ele, muita gente igual a ele, Danilo Brito [bandolinista], rapaz, tem uma gente por aí, que tá tocando principalmente bandolim, Pedro Vasconcelos, no cavaco. Estão estudando, levando a sério.
Quais são os meios que você usa para acompanhar essa cena? Internet? Compra de discos? Internet. Não, eu não compro discos. Chorinhos e Chorões [programa dominical dedicado ao choro apresentado por Ricarte Almeida Santos há mais de 20 anos, sempre às 9h, na Rádio Universidade FM] eu ouço toda vez, vocês é que não sabem [risos]. Música é o meu gosto.
Como você está vendo o choro no Maranhão? Essa gurizada que está surgindo. Eu gosto, mas parece que parou. Eu não estou vendo articulação nenhuma. Há um desestímulo, você olha pra um lado, olha pra outro, se sente só, parece que está fazendo as coisas sozinho.
Em que pé está o disco do Tira-Teima? Os arranjos estão prontos, os arranjos encomendados para Ubiratan [Sousa] já foram entregues. Por enquanto quem está entrando em estúdio é Zeca [do Cavaco], pra fazer as bases.
Isso quer dizer que o repertório está definido, obviamente. É todo autoral? Tem três músicas nossas, mas são músicas daqui da região, de compositores daqui.
Entre instrumentais e cantadas? Sim. Está sendo gravado no estúdio de Gordo [Elinaldo].
Você se considera um chorão? A música que eu escuto hoje é só choro. Sim, eu sou um chorão.
Que recado você deixaria para os chorões, os mais novos e os mais velhos? O preço da perfeição é a repetição, o cansaço, você repetir exaustivamente. Se você repetir, você aprende.
Nascido, criado e formado no choro entre os bairros da Madre Deus e Monte Castelo, Gordo Elinaldo é o 18º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão
A entrevista com Gordo Elinaldo já havia sido marcada ao menos duas vezes. Em uma foi reagendada por incompatibilidade entre as agendas do músico e dos chororrepórteres; na segunda, teve que ser suspensa por conta do clima de pânico instaurado na cidade – o que incluiu uma “greve” relâmpago do sistema de transporte público, após uma sangrenta rebelião na Penitenciária de Pedrinhas.
Trabalhador da música, Elinaldo de Oliveira Silva mora na rua 1º. de Maio, no Monte Castelo, subindo a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, mesmo endereço em que mantém seu estúdio, onde recebeu a chororreportagem. “Isto aqui não vai tomar muito tempo”, advertiu o músico a um técnico que chegou por lá durante a conversa. Longe de traduzir qualquer desdém, a fala do músico dá ideia de sua imersão workaholic quando o assunto é música.
Nascido em 28 de agosto de 1966 em São José de Ribamar, Gordo Elinaldo é multi-instrumentista – além do violão sete cordas pelo qual é mais conhecido, toca violão, cavaquinho, banjo e percussão, entre outros –, arranjador, compositor, diretor e produtor.
Filho de Eliezer Adauto Costa Pereira da Silva, ex-vereador de São Luís por várias legislaturas, e de Maria das Dores de Oliveira Silva, Gordo Elinaldo presenteou os chororrepórteres com uma audição em primeira mão de seu disco de estreia, que pretende lançar ainda em 2013, com a ideia de levá-lo a escolas públicas, difundindo a música instrumental produzida no Maranhão. Ele assina as 10 faixas, incluindo Tributo a Zé Hemetério, faixa já gravada em Na palma da mão, disco do grupo Serrinha & Cia, com a participação especial do Regional Tira-Teima. O homenageado foi seu primeiro professor e é um dos nomes lembrados na entrevista que ele concedeu à Chorografia do Maranhão.
Você tem essas lembranças de mais ou menos com que idade [referindo-se ao avô, Joaquim Pessoa de Oliveira, músico de quem Gordo Elinaldo começou a falar antes do início da entrevista e a quem dedica Doce lembrança, valsa gravada em seu disco de estreia, a ser lançado ainda em 2013 Update exclusivo do blogue: o disco não saiu]? Coisa de sete, oito anos de idade. 10 anos. Era o único músico que eu via pegar em instrumento ainda criança. Eu sabia que ali tinha uma alma, uma vida, um sentimento, ele já velhinho, quase sem forças. Eu compreendi o que ele queria fazer com aquele violão, aquela rabeca.
Foi a partir de ver teu avô que você sentiu vontade de se dedicar à música? Foi. Eu tenho um irmão que aprendeu primeiro do que eu, César, e ele é solista. Ele ouvia o disco, tirava, mas não tinha quem ensinasse. Até que uma vez passou o mestre Zé Hemetério aqui na porta. Aí eu disse: “César, esse é o Zé Hemetério, fala com ele, vê se ele ensina a gente alguma coisa”. E ele: “Zé Hemetério toca violino, será que ele conhece esse negócio de chorinho?”. E ele já vinha festejando, era final de semana, já vinha tomando umas brahmas [risos]. Chegamos lá, Zé Hemetério conhecia tudo, sabia tudo, e começou a passar os choros de Waldir Azevedo, de Jacob [do Bandolim], os choros que ele tocava pra César, quando ele disse: “e tu, meu filho? Vai ficar só olhando teu irmão aprender?” Eu disse: “não, minha parte eu já sei, é só a dele que tá faltando”, eu metido [risos]. Conversa fiada! Faltava coisa pra danar. E ele disse: “então me mostra aí”. César tocava, aprendendo, eu ia atrás do jeito que eu tinha ouvido no disco, do meu jeito, e ele disse: “olha, tá quase bom. Não tá bom, mas vai ficar”. Aí a gente começou a frequentar as aulas de Zé Hemetério, às tardes, quando ele podia. Ele botava discos, a gente sentava ali na sala. Depois eu passei a levar a sério o estudo, passei por métodos de música, segui em frente estudando música, sete cordas. Logo depois eu passei a ir pra festas com ele, aniversários, casamentos, ele era muito solicitado na época, as famílias, no Calhau, o grande bairro da época.
Foi teu primeiro professor? Foi o primeiro. Depois eu saí, pra fazer conservatório em Brasília, Recife, andei estudando muito ainda, mas o começo foi lá com ele, toda a base, a história do choro. Depois eu tive que seguir outros caminhos, a gente faz da música nosso meio de sobrevivência.
Além de teu avô e teu irmão, quem mais na tua família… Não, não tinha mais ninguém. Eu tinha um pai que cantava muito bem. Não deixa de ser música. Era um seresteiro, gostava daquelas histórias ao luar.
Então se ouvia muita música na tua casa. Muita. Eu acordava ouvindo música. Eu achava o maior barato. Aquelas músicas bonitas, Nelson Gonçalves. Hoje eu fico puto quando acordo com forró, fico indignado.
A tua moradia era aqui? Era. Depois, primeiro casamento mais em frente, na mesma rua, segundo casamento Madre Deus, terceiro de volta ao quadrado [Gordo Elinaldo mora na mesma casa que pertenceu a seu pai].
Teve incentivo da família para seguir esse caminho musical? Muito pouco. Eu tinha que fazer uma faculdade de artes, por que eu gostava de desenhar, tinha muito talento. Aquele quadro não fui eu quem pintou, foi meu irmão César, mas a gente era bem parecido na arte [levanta e vai buscar um quadro com temas musicais em cores vibrantes, lembrando um pouco o estilo de Romero Brito]. Esse aqui foi um dos quadros que ele pintou, me deu de presente. Não deu para seguir. Aí foi quando abri o olho, a música entrou muito forte, foi derrubando tudo. E a música requer muito estudo, um tempo exclusivo para você aprender, saber o que é.
Como você se definiu pelo [violão] sete cordas? Foi rápido. Assim que eu comecei a estudar com [Zé] Hemetério, quando eu pegava o violão [de seis cordas] eu já sentia falta de alguma coisa. O cara fazia no disco, eu tentava e não conseguia, “ah, não, tá faltando alguma coisa”. Aí pintou o primeiro sete cordas na Mesbla [extinta loja de departamentos], um Di Giorgio, ô, maravilha! Quando eu peguei aquele violão, que o disco fazia, eu fazia, ô, satisfação! Aí o cara que acompanhava Waldir Azevedo, bêi, ele caía na sétima, eu junto com ele, bêi [imita o som da bordoada com a boca], de ouvido. A gente passou a se reunir, tinha uma reunião muito boa de músicos ali na Raimundo Correia [rua no Monte Castelo], 30 músicos, 40 músicos, todos os domingos, só chorões.
Ainda há pouco você falou em uma faculdade de artes. É, eu ia. Mas não deu. A música veio muito forte, era quase uma cegueira.
Você sempre viveu de música? Nunca teve outra profissão? Não. Olha, meu pai era vereador, eu passei muito tempo, vereador tinha 10 assessorias, eu tinha uma dessas. Vivia também de música, gostava da música, depois ela virou profissão. Eu levei a sério, papai, mamãe começaram a esculhambar, meu irmão, sério, engenheiro, “não tem futuro, vai largar teus estudos”, e eu “quem não tem futuro é tu como engenheiro” [risos]. “Rapaz, será? Pensa bem”.
Hoje você vive de música? Hoje eu vivo de música, não tem dúvida. Vivo muito bem, satisfeito. Hoje eu sou um profissional realizado. Talvez não financeiramente, mas profissionalmente. Já rodei o mundo todo com minha música, já rodei os quatro cantos do mundo, tocando banjo, cavaquinho, violão. Só com o Barrica eu já fiz 18 viagens internacionais, China, Japão, Coreia, a Europa inteira. O que me dá prazer é isso aqui, isso aqui é meu orgasmo [bota novamente faixas de seu disco para tocar]. A minha obra tocada do jeito que eu quero. Arranjos que eu faço pra gravar, pra Barrica, pra Bicho Terra, eu faço pro gosto deles. Aqui não, eu faço pra mim. Como eu pensei, como eu gostaria de ouvir.
Esse é teu primeiro disco solo? Autoral, é. Acho inclusive que é o primeiro do Maranhão. Autoral de um só compositor, né?
Como ele vai se chamar? A princípio, o projeto era chamar A arte de Gordo Elinaldo. Pela diversidade dos instrumentos que eu domino, principalmente do choro. Se eu me colocar pra tocar um pandeiro de choro, eu toco, surdo eu toco, cavaquinho, sete cordas, violão seis cordas. No começo, a primeira ideia, era eu fazer um disco sozinho, eu tocando tudo, Gordo e Gordo. Mas depois eu consegui um apoio da lei de incentivo [Lei Estadual de Incentivo à Cultura], que o disco pegou uma dimensão, cresceu, vieram novas ideias. Digo, pô, por que eu não boto a nata do choro pra tocar comigo, minhas músicas?
Quem está contigo nele? Quem vai estar, por que ainda falta muita gente pra gravar. Quatro cavaquinhos: Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013] e Biné [Gomes, vulgodo Cavaco]. Aí vem, de sopro, de palheta, o sax, Zequinha [Gomes, vulgo Zequinha do Sax, irmão de Biné], os flautistas, vem Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] e o Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013]. Bandolim: Adelino [Valente], Wendell [Cosme, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013] e o outro, César Jansen. É um time pesado, um time bom.
Uma grande representatividade. Antes do Tira-Teima você integrou algum outro grupo? Eu tinha um grupo com meu irmão, mas não era um grupo de choro. Era um grupo de forró, foi quando eu conheci Paulo Trabulsi em Nina Rodrigues. Nós tocávamos forró. Forrozinho, baiãozinho, pé de serra. Era um violão, um cavaquinho e um pandeiro. Antes de começar a festa, pro pessoal dançar, a gente fazia o chorinho.
Como chamava esse grupo? GMax. A gente tocava aqui e viajava muito, Itapecuru, Nina Rodrigues, Vargem Grande. Era um regional, não era uma banda. Éramos eu, meu irmão, César, outro irmão no atabaque, Belmonte, Marciano da Madre Deus, que tocava bongô e pandeiro, e Renê, que fazia um ganzazinho.
Isso era que ano? Coisa de 1982, 81.
E o Tira-Teima, quando aparece? O Tira-Teima, na primeira versão, de Ubiratan [Sousa, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], eu já ouvia falar. Depois, o Tira-Teima me aparece pela primeira vez depois daquelas rodas na Raimundo Correia. Quando eu cheguei lá, tanto Paulo, como Juca, como Biné, os três tinham seu repertório de choro. O repertório de Hemetério era tão grande, que com ele eu acabei me preparando para os três simultaneamente. O repertório dos três estava debaixo de meus dedos. Não demorou muito eu recebi um convite. Serra tocava no Quatro Rodas [extinto hotel], com [o violonista] Luiz Sampaio e Juca. Paulo me parece que não tocava profissionalmente na noite. Zeca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013] já veio de outra turma, da Vila Passos, mais do samba, Solano [Francisco Solano, violão sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], já é do Mascote [o violonista e pandeirista Antonio Sales Sodré], é outra linha. Foi legal. Paulo é o nome que ainda resta daquele time fantástico, [o compositor] Antonio Vieira, Ubiratan Sousa, [o compositor] Cesar Teixeira, Adelino Valente, uma turma pesada.
Fora Tira-Teima, Barrica, Bicho Terra e GMax, algum outro grupo de que você fez parte? Eu fiz, eu fiz um grupo de samba aqui, chamado Zeca Diabo e seus Diabinhos. Era eu, Zeca do Cavaco. Era pagode pra todo lado, mas a gente não queria tocar pagode, a gente queria tocar samba, embora eu ache que samba é pagode e pagode é samba, tudo é dois por quatro. Mas tem gente que “não, isso é samba de raiz”. Nós fizemos um grupo pra tocar esse tipo de samba, que chamavam samba de raiz. Aí não sei quem deu a ideia, “bota Zeca Diabo e seus Diabinhos”, olha os diabinhos: [os percussionistas] Josemar, Caju, Sabujá, só fera. Não deu certo. Como não deu certo, eu fiquei com a banda. Tava no auge o negócio do pagode aqui, [o cantor] Serrinha saiu do [grupo] Magia, e eu não queria ficar com aquele projeto parado. Aí eu chamei Serrinha pra compor comigo o [grupo] Serrinha & Cia.
Qual era a formação do Serrinha & Cia.? Era eu, Serrinha, Josemar, Caju e Sabujá. Quando nós gravamos aquele disco [Na palma da mão], que [o cantor] Jorge Aragão veio participar, ele vinha muito no Maranhão, ele levou a gente pro hotel, eu dei uma força, de carro, leva Jorge aqui, leva acolá, eu era cunhado de [o produtor cultural Antonio Carlos] Tote, foi através dele que chegamos a Jorge Aragão. Ele não tinha essa fama toda, veio a ideia de pedir uma música pra ele, estávamos fazendo o primeiro disco. Ele disse: “rapaz, eu tenho uma, eu fiz pra Beth Carvalho” [cantarola trechos de Uns e Alguns, faixa cujo refrão “na palma da mão” dá nome ao disco]. O movimento do samba em São Luís, eu lembro, A Máquina de Descascar’Alho eram cinco mil pessoas, todo mundo na palma da mão, a música é essa. Ele gravou, Serrinha gravou depois, montamos, fizemos um grande disco, vendeu demais, mas aí a gente não teve cabeça. Nós não tivemos cabeça, capacidade, estrutura, pra lidar com aquele sucesso imediato. Não levamos pra frente. E nem eu conseguia conciliar o Barrica, eu já tinha um sentimento muito forte pelo grupo, com o pagode. O que me fascinava era que era um trabalho autoral. A gente cantava na praia, os pagodes dos outros, depois chegava no Ceprama pra fazer o show com o Bicho Terra, fazendo sua própria música, a multidão delirando com a gente. Éramos os reis, mas descia do palco, ninguém nem te conhecia. Não conseguíamos apoio pra disco, pra nada.
Você tem catalogadas todas as suas músicas? Sabe quantas músicas você já compôs? 40. 41. Gravadas tem umas 15. 10 nesse disco. A maioria choros. Arranjos eu tenho espalhado por aí um monte: Bicho Terra, Barrica, Turma do Quinto, Isaac [Barros], Serrinha & Cia. Feras, bloco tradicional, Vagabundos do Jegue eu fiz todos os discos, praticamente todos os arranjos.
Você pretende com este disco que ele tenha uma vida, no sentido de show de lançamento, temporada, ou é só um registro? Não, é só um registro, inclusive nem tem caráter comercial. O disco vai ser distribuído em escolas, vamos falar sobre o disco em escolas públicas. Vamos ver o que a gente pode fazer para melhorar a vida social desse povo sofrido, que a gente tá vendo o resultado aí na criminalidade.
Ainda faltam coisas pra gravar e a ideia é lançá-lo ainda em 2013, ou seja, ainda está em processo. Mas dado o fato de ter mais de 40 músicas, você já consegue pensar num segundo volume? A ideia é lançar no final de outubro. Com certeza! Isso aí é o que eu mais gosto, é dessas 10. São o xodó. Mas com certeza virão outras, vou fazer outro disco. O próximo eu vou fazer só, o que era o projeto original, eu tocando tudo, do pandeiro ao cavaquinho centro. Isso vai ser muito bom pra cidade, vai estimular os chorões, Serra, por exemplo, vai voltar a tocar. E saber que é um trabalho autoral, e é nosso! Passamos a vida inteira tocando Jacob, não que a gente queira se comparar, mas nós temos uma identidade própria superimportante.
Com essa sua agenda intensa de viagem, Barrica, arranjo, disco, estúdio, parece não estar sobrando tempo para uma vivência que você já teve no passado, das rodas. Dá saudade? Como você lida com isso? Faz falta. Mas eu voltei. Estou me encontrando com Paulo, Serra, Zeca, Solano, [o violonista sete cordas] João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], todos os domingos. Inclusive a gente está se preparando para gravar o disco do Tira-Teima. Vai ser produzido e gravado aqui, sob minha direção, vai ser um disco fantástico, a hora é essa. Chega uma hora, o momento agora é “peraí, cara, agora eu também quero dar uma respirada”. Já corri muita praia, já lutei muito, se chega num ponto, daqui eu não vou passar. Não vou ganhar mais dinheiro do que isso, não vou ficar mais pobre do que isso. Agora eu vou curtir, vou parar, vou viver. Vou tocar aquilo que eu gosto, aquilo que eu quero. Lógico, a gente faz da música nosso meio de sobrevivência, mas eu também sinto prazer, não é pra me transformar num robô. É botar isso aqui [coloca novamente trechos do disco para tocar], vocês podem achar que o som está muito feio [os chororrepórteres discordam], mas pra mim isso aqui tá lindo, é minha alma que tá aí. Isso é que é importante.
Você tem noção de quantas participações você já fez em discos? Não tenho. São muitos. Assim como já acompanhei muita gente em shows. Eu lamento não poder contar nesse disco com um grande amigo que eu tive em Brasília: [o flautista] Carlos Poyares. Aquele homem quando soprava naquela flauta matava a raiva de qualquer um. Era uma coisa maravilhosa.
Pra você, o que é o choro? Qual a importância dessa música para o Brasil? Antigamente era assim, na minha ótica, na minha leitura, no meu pensamento: o que é o choro? É um instrumentista que domina certo instrumento, que ele transforma todo sentimento dele através daquelas notas dadas uma após a outra, o conceito técnico de melodia. Pra mim é isso, ele consegue passar aquela beleza. Nós temos isso, o Jacob, as músicas não têm uma letra, mas a gente consegue sentir o que está se passando na alma do cara, ler o coração, o pensamento, o que ele está sentindo, o que ele passa pra gente e o que a gente passa a sentir ao ouvi-lo. Não adianta ser um chorão, “ah, eu quero ser o Jacob”, tocar com uma velocidade, tem que ter o sentimento. Eu conheço gente que plim plim plim plim plim [imita um dedilhado veloz com a boca]: aquilo não se sente nada. Mas eu tenho que chegar e dizer “como tu é bom, estudou, evoluiu bastante, tá muito veloz”. Mas eu não tenho coragem de chegar e dizer: “mas eu não senti nada”.
Você se considera um chorão? Eu não. Eu me considero um clínico geral. Eu também sou um amante do bumba boi, do carnaval, eu adoro carnaval, nossos ritmos. E adoro choro. Choro é uma coisa que me arrepia todo.
Quem te chama a atenção na nova geração do choro no Brasil? Eu gosto muito do rapaz do bandolim, o Hamilton de Holanda. Ele tem a velocidade, tem a execução, tem a beleza e tem o sentimento. É impressionante! Fantástico, gosto demais dele. Tem um bandolinista em Brasília, presidente do Clube do Choro, o Reco [do Bandolim], também gosto, mas como Hamilton…
E do violão? Tem um violonista em São Paulo que eu gosto muito dele, na linha do choro, do samba, Edmilson Capelupi. Eu gosto demais, admiro muito.
Como você avalia o choro hoje no Maranhão? Acho que cresceu bastante, acho que o movimento está bem. A gente vai aos lugares, vê a turma tocando. Tem Wendell ali, Robertinho, Juca, Paulo, melhorou bastante. João Eudes, falando dos solistas. Maicko, meu sobrinho, sete cordas, está no samba, mas também curte o choro. Solano, o tempo todo estudando, se dedicando.
Você acha que o choro aqui deve ser tocado com a influência da cultura popular daqui, como o é em Pernambuco? Eu acho que pode. Por exemplo, eu tou botando aí uns agogôs com umas células de bloco tradicional. Eu acho legal. Deixa seguir. Tou botando uma cabaça [imita o som dos instrumentos percussivos com a boca]. Quanto mais maranhense, melhor pra gente.
Músico visitou projeto socioambiental em Lago do Junco e conheceu ainda experiências de São Luís e do Delta do Parnaíba. Show no formato voz e violão acontece às 20h30, no Patrimônio Show. O espetáculo é gratuito – ingressos foram distribuídos ontem (3), no local
Foto: Zema Ribeiro
Após 10 etapas realizadas pela turnê Música e sustentabilidade numa só nota, Lenine revelou-se surpreso com os projetos que tem visitado em diversas regiões do país. “Eu sou um felizardo, por que eu trabalho com música e a música é um passaporte. Ela te leva pra muitos lugares. Eu achava que eu conhecia o Brasil, mas eu tenho certeza que eu não conheço nada”, confessou. “É muito bom constatar que tem uma turma do bem espalhada por esse Brasil, apesar de uma turma do mal jogando contra”, provocou.
O músico chegou com cerca de 20 minutos de atraso ao Patrimônio Show, onde se apresentará logo mais às 20h30 encerrando sua passagem pelo Maranhão. Despojado, trajava sandálias havaianas, bermuda branca e a camiseta Mãe Terra – desenvolvida especialmente para a turnê pela designer Marceli Mazur –, mimo do kit de imprensa distribuído aos jornalistas presentes. Lenine usava um brinco em cada orelha, dois cordões, três pulseiras e dois anéis, no braço e mão direitos – do lado esquerdo uma tornozeleira.
Ontem (3) ele esteve em Lago do Junco, onde visitou projeto desenvolvido por quebradeiras de coco babaçu, com apoio da Petrobras – que patrocina a turnê, dentro do Programa Petrobras Socioambiental. “Eu voltei lavado. E não foi só por causa do sabonete [de coco babaçu] que elas me deram”, elogiou o projeto, dividindo com os meios de comunicação presentes suas dificuldades, incluindo a de deslocamento. “Foram oito horas para ir e sete para vir, estou até agora com a bunda quadrada”, disse sorrindo.
Antes da entrevista coletiva, representantes da Petrobras apresentaram o Programa Petrobrás Socioambiental. Além do projeto anfitrião, desenvolvido pela AMTR, a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais, de Lago do Junco/MA, também os projetos convidados, Biomade – Biodiversidade Marinha do Delta, que trabalha a preservação ambiental na região do Delta do Parnaíba – e o Mara-kizumba – desenvolvido pela ONG Mandingueiros do Amanhã, sob a batuta do Mestre Bamba –, também patrocinados pela Petrobras, apresentaram suas experiências e revelaram-se muito contentes com a presença de Lenine, valorizando seus trabalhos. “Minha ideia com essa turnê é justamente colaborar para dar visibilidade a estas iniciativas e favorecer trocas, já que muitas vezes temos projetos fazendo coisas parecidas, apoiadas pelo mesmo programa, sem dialogar entre si. Precisamos ter uma visão mais holística de tudo”, disse o músico.
Bem humorado, Lenine confessou não gostar da expressão meio ambiente. “Gosto do ambiente inteiro, com o ser humano inserido nele”. Orquidoido, como se autodetermina quando o assunto é sua gigantesca coleção de orquídeas, ele não é um neófito quando se trata da questão. Sua preocupação com a preservação ambiental e com as injustiças sociais permeia sua obra desde o distante Baque solto, seu primeiro disco, lançado em 1983, dividido com o parceiro Lula Queiroga.
Lembrei-me do samba de 1992 do Suvaco do Cristo – agremiação carnavalesca carioca que teve o pernambucano em sua ala de compositores –, quando o Brasil sediou a Eco 92 [a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento], intitulado cacofonicamente Eco no ar. Perguntei-lhe se não estava faltando humor para lidar com estes temas. Ele sorriu e respondeu: “Tá até bem humorado. Às vezes é bom não ter tanta sisudez. Mas o problema é sério, por mais que a gente brinque, tem um momento de seriedade. A gente [o Estado brasileiro] podia estar dando uma resposta para o mundo, uma resposta bela, verde, desde o Eco 92. E a gente não deu”.
A palavra cultura não aparece nas linhas de ação do Programa Petrobras Socioambiental – produção inclusiva e sustentável; biodiversidade e sociodiversidade; direitos da criança e do adolescente; florestas e clima; educação; água; e esporte – nem nos eixos transversais – equidade de gênero; igualdade racial; e inclusão de pessoas com deficiência. Lenine diz que o show não faz essa ponte, que seu encontro musical, no formato voz e violão, com a plateia é uma forma de ele agradecer a vivência e o aprendizado: “Eu queria retribuir a essas pessoas de alguma maneira. Estou retribuindo da melhor maneira que eu sei, que é fazendo música”.
Sempre simpático e sorridente, ele não adiantou o repertório: “[O show] é mais livre, por conta desse formato [voz e violão]. O mais importante é a intimidade, é estar ali, próximo. Pra mim também é uma experiência bacana de mostrar a canção como ela foi feita, sem roupagem, sem nada. Essa desnudez tem a ver com isso tudo. A iluminação também é toda solar, tem uma série de coisas que envolveu todo esse processo de a gente fazer isso”.
Ainda provoquei-lhe, “de repente dá pra lembrar uns sambas do Suvaco”: “É, quem sabe, no calor das coisas, da hora. O negócio é memória. Eu compondo há mais de 30 anos, às vezes umas letras quilométricas, às vezes eu pago mico”, sorriu sem se esquivar, antes de posar para fotos oficiais com membros dos projetos e a tietagem.
Sobre o show de lançamento de Lá, terceiro disco de Bruno Batista, ontem (30), no Teatro Arthur Azevedo
Foto: Maristela Sena
Pareceu descortesia, mas era intimidade, entrosamento. Primeiro entre ambos, e imediatamente entre eles e a plateia.
Bruno Batista subiu ao palco acompanhado da paulista Dandara Modesto sem apresentá-la de imediato. Atacaram de Batalhão de rosas, inédita dele, um belo bumba meu pop (ou pop meu boi).
O cenário, assinado por Cláudio Lima com base no caprichado projeto gráfico de Lá [2013], do piauiense Antonio Amaral, levava o público a se sentir à vontade, em casa, neste lugar musical que é o disco e ontem era Lá mesmo no Teatro Arthur Azevedo.
O compositor parece menos inibido no palco e está cantando melhor – não tivesse citado uma virose que lhe acometeu, não sem um quê de charme no aviso, nem se teria percebido a dificuldade para exercer o ofício no palco.
O repertório de Lá não foi tocado na íntegra, mas o show foi além, reinventando faixas de Eu não sei sofrer em inglês [2011], o disco anterior, e do próprio Lá: disco é disco, show é show.
Reinventar é a palavra certa: em participação especial, como de praxe em shows de Bruno Batista em São Luís, Claudio Lima deu a exata carga dramática necessária à interpretação de Do abraço. Dandara Modesto tornou o tango Tarantino, meu amor um rock abolerado. E arrepiou o público ao inserir uma tribo de índio em Rosa dos ventos, para citarmos duas que cantou sozinha.
Ao fim foi às lágrimas e quem viu sabe que não era jogo de cena. Elogiou o trabalho do parceiro de disco e palco, o incentivo, agradeceu o convite e revelou: “estou muito feliz em estar aqui. Antes de conhecer o Bruno eu já tinha uma vontade enorme de cantar neste teatro”. Ela ainda substituiu à altura Tulipa Ruiz – que divide os vocais com Bruno Batista na gravação do disco anterior – em Nossa paz.
Bruno Batista é uma espécie de ponte: se traz para o Maranhão a modernidade cosmopolita da São Paulo que hoje lhe abriga, leva para Lá os elementos de nossa cultura popular que acabam por influenciar seu fazer musical. Prova disso é que os músicos que o acompanharam e à Dandara Modesto no show de lançamento do disco estão bastante à vontade em bumba boi e tribo de índio e noutras influências confessas ma(i)s sutis.
E que banda! Ele trouxe à Ilha quase o time inteiro que lhe acompanhou no disco: Chico Valle (percussão), Guilherme Kastrup (bateria e percussão), André Bedurê (contrabaixo e guitarra), Rovilson Pascoal (guitarra, violão e cavaquinho) e Ricardo Prado (guitarra e piano).
Em Lá, o disco, Dandara Modesto canta em cinco faixas. No show demonstrou conhecimento do repertório inteiro de Bruno Batista, incluindo a inédita que apresentou e as músicas do disco anterior: As cigarras e Hilda Regina, além das já citadas. Sobre anjos e arraias ele cantou só, juntando-se à banda ao violão, que tocou em boa parte do show.
O casamento musical de Bruno Batista e Dandara Modesto é terreno fértil para a música brasileira: reafirma a força poética do compositor e revela o imenso talento de intérprete da cantora. Fosse eles não vacilava: um disco dela produzido (e composto, ao menos em parte) por ele já começa a tardar.
Alguns paragrafinhos sobre o show que Paulinho da Viola apresentou quinta-feira passada (22) em São Luís
Foto: Paulo Caruá
Um set de samba cuidadosamente preparado pelo DJ Franklin preparava o terreno para Paulinho da Viola, que surgiria às 23h40 no palco do Patrimônio Show. Com a abertura, o show produzido por Ópera Night foi anunciado para 21h.
O público era menor do que supus, levando em conta a grandeza e importância de Paulinho da Viola e os 12 anos de sua última vinda à Ilha. A divisão entre pistas e mesas acabou não fazendo muito sentido, com nem um nem outro espaço lotando. Nos camarotes menos gente ainda.
Impossível não redundar e falar em elegância ao lembrar a subida de Paulinho da Viola ao palco, bastante aplaudido e atacando de Prisma Luminoso (parceria com Capinan), samba que deu título a seu disco de 1983.
Otávio Costa, querido amigo-irmão e leitor atento deste blogue, apostara que Paulinho da Viola abriria o show com Timoneiro (parceria com Hermínio Bello de Carvalho) – errou –, que acabou vindo em meio ao rosário de sucessos desfilado pelo artista. Não faltaram Ame (parceria com Elton Medeiros), Coração leviano, Coração imprudente (parceria com Capinan), Pecado capital, Foi um rio que passou em minha vida, Eu canto samba, Dança da solidão, Pra jogar no oceano, Argumento, No pagode do Vavá, Foi demais (parceria com Mauro Duarte) e Onde a dor não tem razão (parceria com Elton Medeiros), entre outras, em pouco mais de hora e meia de show.
Paulinho da Viola cantou em pé quase o tempo inteiro e durante quase todo o show tocou cavaquinho. Em Dança da solidão desistiu do violão – voltando ao cavaco – antes de a música terminar. No bis, mandou Sinal fechado e Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues), inteiras ao violão, para delírio da plateia.
O charme da voz de Paulinho da Viola foi bastante prejudicado pelo equipamento de som: de onde assisti ao show foi impossível ouvir qualquer coisa que ele disse, as histórias que contou entre algumas músicas. O que cantou era possível entender, sobretudo por conhecer-lhe a obra e ser capaz de assobiar algumas melodias.
“Não sou eu quem me navega/ e nem me navega o mar”, Bruno Batista ousou contrariar Paulinho da Viola, influência confessa, em sua Rosa dos ventos. Cantarolei-lhe este trecho ao encontrar e abraçar o compositor na plateia do outro. Conversamos rapidamente sobre seu show, em que lançará Lá, semana que vem em São Luís.
Paulinho da Viola fez sua parte. As águas de maio continuam oferecendo obras-primas aos ilhéus. Que o 2014 em que o mestre completa 50 anos de carreira continue assim.
Like a Bob Dylan terá no palco artistas influenciados pela obra do americano
Like a Bob Dylan é daquelas ideias que surgem de um encontro-estalo e fermentam o tempo necessário até que esteja pronta para ser apresentada. Trata-se de um espetáculo de celebração à vastíssima obra do mais importante poeta da música popular mundial.
A ideia do mix de show e recital surgiu há cerca de dois anos, do encontro do poeta Fernando Abreu e do cantor Wilson Zara, ambos admiradores do repertório dylanesco. A eles somam-se Acsa Serafim, Daniel Lobo e Lucas Sobrinho, todos fortemente influenciados pelo autor de Blowin’ the wind.
O espetáculo passeará pelo repertório de Dylan em inglês e português, através das muitas versões de nomes como Babau, Caetano Veloso, Fausto Nilo, Geraldo Azevedo, Péricles Cavalcanti e Vitor Ramil. Mas nem só à música restringe-se a noite, que incluirá ainda leitura de trechos de Tarântula, livro de prosa experimental lançado em 1971.
A Dylanight acontece dia 29 (quinta-feira), às 22h30, no Amsterdam Music Pub. Os ingressos, à venda no local, custam R$ 20,00.
Sobre Like a Bob Dylan o blogue conversou por e-mail com Fernando Abreu, que produz o espetáculo e subirá ao palco para algumas leituras.
ENTREVISTA: FERNANDO ABREU
Como surgiu a ideia de Like a Bob Dylan? Me ocorreu que o Zara, que já fazia o lance do Raul [o anual Tributo a Raul Seixas] com muita verve, poderia fazer um show dedicado à obra de Dylan. Mas eu não o conhecia. Um dia saí com Nosly e o encontramos com, dei a sugestão e ficou assim. Agora ele me ligou querendo saber se eu ainda tava a fim. Claro!
Os artistas envolvidos têm alguma ligação com o universo dylanesco. Foi fácil escolher? Sim, ja admirava a Acsa Serafim compondo folk lindamente. Foi a primeira pessoa em que pensei, e ela foi muito simpática e receptiva, vibrou com o convite. Lucas Sobrinho é especialista em Beatles, que tem uma conexão forte com Bob Dylan, os dois se influenciaram e trocaram energias criativas. Zara é o homem do violão e gaita, estradeiro, operário da música, e mais o Daniel Lobo, músico experiente, mais chegado ao blues, se despedindo do Brasil. Estas são pessoas que tem referências mais ou menos explícitas de Dylan, mas sua presença é muito disseminada, diluída, está no DNA da música popular dos anos 1960 para cá no mundo inteiro, a coisa da música popular levada ao extremo de suas possibilidades poéticas. Dylan está em todos, de Caetano a Josias Sobrinho.
Bob Dylan é um compositor muito traduzido no Brasil e suas letras quase sempre sofrem poucas alterações para efeitos de adaptação. O que você acha destas versões, em geral? Geralmente se traduz aquilo que é mais maleável, mais aberto a uma tradução mais ou menos literal, como costuma ser a da música pop. Eu mesmo já me aventurei nesse terreno e acho que não me saí mal, comparando depois com outra versão da mesma canção. Mas é Bob Dylan, ou seja, um universo criativo inteiro com suas nebulosas, quasars e pulsars. Boa parte da obra dele é pura pedra no caminho de qualquer tradutor, alguma coisa talvez não funcionasse fora da língua inglesa, porque a poesia de Dylan não pode ser separada de seu caldo cultural, principalmente do falar das ruas, coloquial. Mas aí mesmo é que está o embate amoroso do tradutor, nas promessas mais difíceis de gozo.
O que o público pode esperar de Like a Bob Dylan? Música e poesia, em português e em inglês? Vai ter mais clima de recital, sem performances pirotécnicas. A ideia é exaltar a obra criativa do bardo por meio de suas canções, textos e poemas. Vamos de inglês e português, os textos de Tarântula ganharam versão especialmente feita para o recital, pela tradutora paulista Claudia Freire.
Qual a sua música preferida de Bob Dylan? E o disco? E a versão preferida, entre as feitas no Brasil? Acho que listaria pelo menos umas dez preferidas, tenho períodos de paixão por essa ou aquela canção. No momento, viajo em Sad-Eyed Lady of the Lowlands, linda, do disco Blonde on Blonde. Cara, Negro Amor [versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti para It’s all over now, baby blue, gravada por Gal Costa em Caras e bocas, de 1976] é imbatível, primeiro por ser um grande poema. Mas gosto do faroeste do Raimundo Fagner, Romance no Deserto [versão de Fausto Nilo para Romance en Durango, parceria de Dylan e J. Levy, gravada pelo cearense no disco que leva o título da versão, de 1987].
O que você achou de Full Moon and Empty Arms [Mossman/ Keye], sucesso da lavra de Frank Sinatra recém-gravado por Dylan? O certo é que vai rolar esse disco voltado para as canções de Sinatra. Achei a voz de Dylan melhor do que eu seu último disco [Tempest], que chega a causar certo desconforto. De qualquer forma, é sempre bom ver o velho bardo na ativa, um cara que vive para as canções. Gosto disso!