Hoje tem o grande Magah no Chico Discos

Tenho um tio motorista de ambulância do SAMU. Em nosso encontro mais recente, embora eu não tenha dito isso a ele ou cantarolado com a boca (só com o pensamento), a música de Marcos Magah ficou me martelando o juízo: “mas quando eu cheguei no chão/ ninguém chamou o SAMU”.

Magah vai direto ao ponto. Acho que sua música tem tudo para acontecer fora do Maranhão embora o lance, ao menos para mim, é que, qual a literatura de Bruno Azevêdo, você se ouve dentro da música do cara. Você é parte da paisagem sonora. Não por acaso Z de Vingança, o disco, saiu pela Pitomba.

Aí ontem eu tava bebendo com DP e uma turma (era aniversário de mamãe), quando alguém falou em “centro da cidade”, no que eu emendei, sem muito pensar: “lá onde ela vende bugigangas”.

Se você não entendeu nada, só tem um jeito: ir lá no Chico hoje.

“Chorografia do Maranhão” estreia amanhã (3) em O Imparcial

Ideia acalentada há um tempinho, a série Chorografia do Maranhão chega amanhã ao papel. Mais precisamente às páginas do jornal O Imparcial, onde será publicada quinzenalmente aos domingos.

Este blogueiro e Ricarte Almeida Santos entrevistam chorões maranhenses, fotografados por Rivânio Almeida Santos. O objetivo principal é registrar as histórias e memórias destes grandes mestres. Depois de publicadas no jornal, Chorografia deve virar um livro, talvez algo mais.

A jornalistamiga Patrícia Cunha fez uma bela matéria nO Imparcial de hoje (2), divulgando a iniciativa. Continue Lendo ““Chorografia do Maranhão” estreia amanhã (3) em O Imparcial”

Semana Paulo Leminski 3

AINDA A MÚSICA (POPULAR)

Lembro de uma entrevista em que Leminski dizia algo mais ou menos como sonhar com o dia em que todas as pessoas fossem músicos, isto é, que cantassem, compusessem, tocassem algum instrumento. Era mais ou menos isso.

Na mesma entrevista, ou noutra, não lembro bem, ele se dizia chateado quando o chamavam de letrista. Que ele era compositor, letra e melodia, que muita coisa gravada por aí era completamente dele.

Outra história deliciosa, essa quem conta é Toninho Vaz na biografia cujo trecho ilustrou o post anterior, é a de quando Caetano Veloso gravou Verdura, no Outras palavras. Com a grana dos direitos autorais, Leminski, que não dirigia, comprou um fusca verde, a que batizou com o título da música.

Abaixo, ela e outros dois exemplos da lavra musical de nosso homenageado, letras e músicas dele.

Verdura, com Caetano Veloso

Mudança de estação, sucesso d’A Cor do Som, com a filhota Estrela Leminski e Os Paulêra (ao vivo)

Luzes, com Arnaldo Antunes (ao vivo)

A menina que conquistou o coração dos mestres do choro

[Release para Festejos, estreia em disco de Alexandra Nicolas]

Festejar é o destino de Alexandra Nicolas e de seus ouvintes

Maranhense estreia em disco com repertório de Paulo César Pinheiro

Festejos sai pela Acari, maior gravadora especializada em choro do Brasil

Márcio Vasconcelos

TEXTO: ZEMA RIBEIRO

“Eu cheguei sem ninguém saber que eu vinha”. Desde antes de nascer Alexandra Nicolas já era uma surpresa. Filha de mãe solteira, foi cúmplice da genitora, que escondeu a gravidez enquanto pode. O pai, músico e boêmio, ela só viria a conhecer aos cinco anos de idade. Foi criada por três mulheres – a mãe, a tia e a avó.

Sua mãe gostava de cantar e foi em uma tertúlia que seus pais se conheceram. Desde cedo a menina pegou gosto pela coisa. “Eu cantava desde criancinha. E eu não podia sair das rodas, que eles me chamavam: “agora é a vez da menina!”. E eu me lembro, muito nova, de cantar músicas de Nelson Gonçalves, Silvio Cesar, Elizete Cardoso, Clara Nunes, Rita Lee, Novos Baianos, Genival Lacerda, Elba Ramalho”, cita entre gostos passageiros e referências que permanecem até hoje.

Acreditando nos sonhos, a adolescente Alexandra chegou a largar o curso de Pedagogia e foi ao Rio de Janeiro estudar canto, dança e teatro. Sua mãe hospedou-a num pensionato, à época inviabilizando a carreira: “Todos os lugares em que eu podia cantar eram à noite e eu tinha que voltar para casa antes da meia noite”, lembra a cinderela de então.

Do pensionato para a música? Nem pensar! Alexandra só pode mudar-se para um apartamento quando passou no vestibular para Fonoaudiologia, profissão em que se formou e exerceu por pouco mais de 10 anos – a música sempre em paralelo, nunca de menor importância, a vida entre o consultório e os palcos. Após coordenar o curso de fonoaudiologia em uma faculdade particular em São Luís, ela deixou a profissão. Da música, afastou-se apenas para dedicar-se às primeiras infâncias de seu casal de filhos, hoje com sete e seis anos. Uma parada apenas temporária, embora ela não viva, ainda hoje, exclusivamente de música.

“Tudo o que fiz até hoje foi por necessidade, por amor, por que eu não consigo fazer nada que eu não pense em fazer bem feito”, diz, talvez explicando a demora em gravar o primeiro disco, Festejos. Mas nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Eu já gostava muito do Paulo César Pinheiro, principalmente suas parcerias com Mauro Duarte, Sivuca, João Nogueira. Vinha de alguns shows por aqui e estava com a ideia de fazer um em homenagem a Clara Nunes. Numa viagem ao Rio, meu amigo Celson Mendes mandou um e-mail para Luciana Rabello. Segundo ele, ela poderia me dar algumas dicas. De início não acreditei muito que ela fosse responder. Ela respondeu e me convidou para ver e ouvir o bandão da Escola Portátil. Algo incrível! Todos os alunos da Escola Portátil, 40 pandeiros, 15 cavaquinhos, 10 flautas etc., juntas, sob uma árvore, tocando ao mesmo tempo com [o baterista] Bolão de maestro”. Terminada a apresentação, Luciana levou-a para tomar um chopp na Visconde de Caravelas, em Botafogo. Era a rua em que ela tinha morado, e Amélia Rabello, irmã de Luciana, morava no mesmo apartamento que Alexandra ocupou em seus dias e noites cariocas. Sem saber, a anfitriã acabou escolhendo ainda a mesma mesa em que a maranhense costumava sentar vindo da faculdade.

Nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Então você quer homenagear a Clara Nunes? Mas você gosta da cantora ou do compositor?”, indagou Luciana Rabello ao notar que nove das 16 músicas do roteiro eram de Paulo César Pinheiro. “Eu tenho certeza que Clara Nunes ia adorar este show se você pudesse transcender isso. Você precisa se mostrar como artista, sair de detrás dela. Eu recebo 80 e-mails por dia de gente querendo homenagear Clara”, aconselhou-a. “Paulinho [forma carinhosa como se referem ao compositor maiúsculo] tem mais de 2.000 canções. Se quiser eu te dou tudo inédito”, ofereceu.

Luciana Rabello acabou por descobrir a voz autoral de Alexandra Nicolas, mesmo esta não sendo compositora, e assumiu a função de diretora musical de Festejos. Mais que isso, se tornou amiga íntima, uma irmã querida e escolhida. “Ela foi uma bênção de Deus na minha vida”, diz a maranhense.

Tudo começou em Senhora das Candeias, show que ela apresentou duas vezes no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, e que batiza o projeto patrocinado pela Eletrobrás, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, que permitiu a feitura de Festejos, que sai pela Acari Records, a maior gravadora de choro no Brasil. Inicialmente ela recebeu uma fita com 20 composições de Paulo César Pinheiro: era o repertório do espetáculo. Para o disco, a amostra aumentou para quase 60 músicas, das quais 13 foram escolhidas, entre inéditas – a maioria – e regravações.

“Eu quero essas mulheres da festa!”, escolheu. “Todas as que Paulinho canta, elas são fascinantes, lindas e sensuais. É um amor puro! Elas possuem uma beleza que ninguém consegue ver. Quase ninguém consegue ver a beleza de uma lavadeira. Aí eu vi a verdade. Não era fantasia. Era palpável”. Alexandra começava a eleger o repertório de seu disco. Entre idas e vindas foram quase dois anos só na seleção do repertório, mergulhada de cabeça, corpo e alma.

“Paulo César Pinheiro é a pessoa mais leve que eu já vi na vida. Não sei de onde tira tanta simplicidade. Nem parece que existe, me deu o maior presente. Ele me deu a bênção e disse: “se você tiver que gravar um disco, quero que você grave aqui [no Rio de Janeiro]. Foi a partir daí que eu descobri verdadeiramente meu caminho”.

A partir de então, muitas idas e vindas na ponte aérea São Luís – Rio de Janeiro. Com ela festejam Adelson Viana (sanfona), Celsinho Silva (percussão), Dirceu Leite (flauta, picolo), Durval Pereira (percussão), João Lyra (arranjos, violão, viola), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Luciana Rabello (cavaquinho e produção musical), Magno Júlio (percussão), Marcus Tadeu (percussão), Maurício Carrilho (arranjos, violão sete cordas), Paulino Dias (percussão), Pedro Amorim (bandolim) e Zé Leal (percussão).

Ao final de um processo de aprendizado, amadurecimento, risos, lágrimas e muita emoção, o próprio Paulo César Pinheiro definiu a ordem das músicas no disco e, acima de qualquer suspeita, escreveu sua apresentação: “acho que a maranhense conseguiu um belo disco. Abram alas pra ela que a festa começou”, para ficarmos com apenas um trecho.

Embalada pelo capricho do design de Raquel Noronha, a bolachinha é ilustrada por fotos de Márcio Vasconcelos, que captam Alexandra Nicolas, risonha e faceira, no sobrado em que nasceu o dramaturgo maranhense Arthur Azevedo, em 1855, uma segunda coincidência literária – a primeira é que Paulo César Pinheiro, apesar de nunca ter estado em São Luís do Maranhão, conhece-a bem a partir da obra de Josué Montello, e escreveu uma música que leva o nome da capital maranhense, faixa que fecha o disco.

Alexandra Nicolas sonha: “Eu quero fazer o Brasil cantar”. Nada na vida dela acontece por acaso.

FAIXA A FAIXAMárcio Vasconcelos. Festejos. Capa. Reprodução

1. Mironga (Paulo César Pinheiro): “É uma música que abrange todas elas [as mulheres], uma espécie de resumo
do disco. São os homens tocando tambor para as mulheres dançarem e festejarem. É uma música completamente
masculina, mas eu consigo ver a mulher nela, as mulheres que dançam ao som do tambor. Ele descreve, na verdade, a maneira de tocar, como se aprende a tocar um tambor. No final ele diz que tem mironga aí, ou seja, tem algo muito especial na maneira de tocar. “Tem quem bate e faz zoeira/ tem quem toca como quê/ quem comprou tambor na feira/ esse não sabe bater./ Foi no couro e na madeira/ que me disse um alabê/ tocador de capoeira/ não é de maculelê”. Então ele começa a fazer uma série de pontuações no ato de tocar tambor e as mulheres, como ele diz no texto que me apresenta, estão mirongando ao som do tambor. Mironga é uma festa!”

2. Balacoxê de Iaiá (Paulo César Pinheiro): “Na hora em que eu li o título eu fiquei imaginando um bumbum enorme de Iaiá. Na verdade, Balacoxê veio por essa sensualidade, de cortar cana, da mulher, e eu fiquei fascinada, por que a maneira como Paulo cantou essa canção, o que eu ouvi, é como se estivesse na fala dele, essa mulher, Iaiá, que corta cana, que “bota a roda pra rodar/ eu só vejo esse desenho na cintura de Iaiá”. Foi uma canção em que eu me vi. Me perguntei, meu Deus, será que eu vou cantá-la eu vendo Iaiá ou eu sendo Iaiá? Eu acho que de todas que eu cantei, eu era a Iaiá. Tava em mim, passava por mim, essa história de “como eu vejo, com o punho nas cadeiras/ Iaiá fazer”. Essa descrição pra mim, essa mulher, essa Iaiá, ela é incrível”.

3. Passista (Paulo César Pinheiro): “Foi o primeiro refrão que me chamou muito a atenção: “seu povo já foi do cativeiro/ mas hoje que o samba é uma nobreza/ é ela que reina no terreiro/ do samba outra vez virou princesa”. Achei muito forte ele ter trazido como o povo dela sofreu e como hoje ela é uma rainha, comanda o samba na escola. Isso me fascinou, saber que tem muita gente que vai pra vê-la. O samba trouxe essa majestade pra ela”.

4. Coqueiro novo (Paulo César Pinheiro): “Foi a praia daqui. Uma homenagem à minha praia, à praia em que eu cresci, em que eu brinquei na areia e, lógico, às morenas do Cabedelo, na Paraíba, às quais ele se refere, que fazem acessórios com a palha do coqueiro, vivem disso. São mulheres sofridas, mas quando escuto, eu me vejo na praia, sombra, vento nos cabelos e água fresca. Uma valorização do trabalho dessas mulheres, transformando a palha em objetos, bolsas, cintos, acessórios femininos”.

5. Presente de Iemanjá (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Quando Luciana me mostrou ela falou de uma pessoa que tinha que dirigir os arranjos do disco, chamada João Lyra [que assina parte dos arranjos, violões e viola do disco]. A primeira vez que o ouvi cantando, fiquei fascinada por ele, com a alegria que ele põe na canção. E eu ouvi Presente de Iemanjá com ele cantando e me remete à fartura. Quando fala de “jogar a rede pro céu/ e a rede cai no mar/ o que cai na rede é peixe/ é presente de Iemanjá”, isso me vem como abundância, as mulheres tendo o que comer, os homens saem para pescar e trazem o pão de cada dia, o peixe para fazer o almoço. Eu me vejo numa vila de pescadores. Ele trouxe um arranjo fantástico com Toré de índio pra canção, ficou muito forte. Tem o canto pra sereia, por trás de tudo isso, que é muito marcante. Eu não cantei orixás no disco, mas cantei pra Iemanjá, que pra mim sempre foi uma mulher encantadora, embora eu de início não soubesse bem o que era um orixá. Eu sabia que ela vivia no mar e eu sempre lembro da Iemanjá da Ponta D’Areia toda vez que eu canto”.

6. Lavadeira (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Paulinho me mostrou essa canção, eu já fascinada pelas mulheres, e ele não me contou que ia me mostrar. Eu tava na cozinha da casa dele, comendo, e ele colocando músicas, que ele adora. Quando eu ouvi isso na cozinha eu saí correndo pra sala, “Paulinho, o que é isso?”, e ele já com o sorrisão aberto, por que sabia que eu ia me interessar pela música. Pedi pra ele botar de novo, ele botou. Eu ouvi na voz da Andréia, que é uma cantora que gravou a música. A Luciana perguntou, “mas Alexandra vai gravar? Já gravaram!” E ele disse “não importa. A Andréia sumiu. É ela [Alexandra] quem vai fazer essa música aparecer”. É a canção mais cinematográfica do disco, descreve tudo o que uma lavadeira faz. É de uma sensualidade, de uma sensibilidade tão profunda. A lavadeira passa a ser uma deusa em vez de uma simples lavadeira. Luciana faz um cavaquinho que dói na alma, Mauricio Carrilho fez o arranjo perfeito e ainda criou um canto para a lavadeira: “Lá lá lá ia lá ia/ Madalena foi lavar” e vai embora”.

7. Roda das sete saias (Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro): “Eu ouvi cantada por Roque Ferreira, em uma das minhas viagens ao Rio, me apaixonei pela festa. Ela tem oito minutos, é um samba de roda fantástico. Fala das festas populares, tudo o que é cantado nas rodas das festas. Imagina um festejo acontecendo num terreiro, numa casa de festa… os grupos se formam a partir das afinidades: uma roda de samba aqui, uma caixeira tocando ali. Versos que surgem dessas afinidades da festa compondo um samba de roda com a música de Roque Ferreira, a letra de Paulo César Pinheiro e o arranjo de Maurício Carrilho. Eu costumo dizer que não sinto os oito minutos. Termino de cantar e pergunto: “vixe, já foi?” Ela foi uma música muito eleita aqui na minha terra. Fiz uma sessão com os compositores para ouvirmos o disco e muita gente gostou dela, por que ela é forte, ela lembra a gente, ela é muito Maranhão, é nossa…”

8. Coco da canoa (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Eu sou apaixonada por coco. Eu fui atrás de outro coco. Eu já tinha um coco no disco, acho um ritmo que mexe muito comigo. Quando eu era pequena, eu ia para a Rua Grande, e tinha uma cega que cantava um coco com um chocalhinho. Eu cresci com o coco muito presente na minha vida, mamãe sempre cantava em casa. Eu busquei mais um coco e como eu já tava encantada com o trabalho do João Lyra, com a alegria que ele emprega nas coisas, foi uma das canções que eu trouxe. Ela fala de um flerte na praia, de uma mulher faceira que não sabemos bem se é uma mulher ou uma sereia encantada. Gostei muito desse coco meio embolado, gostoso demais”.

9. Coco (Paulo César Pinheiro): “O coco é uma paixão. Ele é um trava-língua e a Luciana me mandou como um desafio para uma fonoaudióloga [risos]. Quando eu ouvi, pensei: “não vou conseguir cantar nunca!” É muita coisa e tudo muito rápido. Quando cantei e vi que o teatro todo cantou de novo… eu ensinei apenas uma vez e quando cantei a segunda parte todo mundo riu de tão embolado que tudo fica… e lindo… Fala de quebrar o coco, das quebradeiras de coco, a maneira como quebram o coco, que fazem a roda. Eu ia muito pra Pinheiro passar férias e comia muito coco babaçu. E pra mim não valia comer coco babaçu guardado, que mofa. Eu queria ver era ver o coco babaçu tirado por dona Mariazinha, que trabalhava na casa de meu pai, e a gente ia lá para um cantinho do quintal, debaixo duma árvore, quebrar coco”.

10. Bisavó Madalena (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Foi outra pescaria. Paulinho já atrás dos seus tesouros guardados e ele tentava falar para mim como era a canção. Mas como não vou me apaixonar por uma música que fala da bisavó de Wilson das Neves? Que rodou o Brasil inteiro, que era dançarina de primeira e rodou o país dançando todos os ritmos e era boa de gogó, de samba, de bumba meu boi… quando ouvi fiquei encantada pela música. Wilson já gravou e eu não resisti, por que ela dá um resumo dessa matriarca que recebe esse festejo. E eu pretendo abrir o show com ela”.

11. Soberana (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Wilson das Neves novamente. Essa música eu me lembro de Paulinho, ele não só me mostrou, mas ele dançou, me mostrando como eu devia fazer no palco com minha saia. Foi a maneira mais poética, mais romântica, mais soberana que eu vi um homem falar de uma mulher. Eu acho que qualquer mulher no mundo dava qualquer coisa para ser essa mucama à qual ele se referiu. Ela “nunca foi mucama de qualquer laia”. É a música que mais mexe comigo no disco. É a minha música! Eu sou apaixonada… As pessoas perguntam “qual é a música de trabalho?” Eu só digo Soberana. Eu sei que existe essa mulher, até por que eu sei de muitas mulheres que são soberanas. Mas você chega a duvidar, de tão incrível que ela é, você se pergunta, “é tudo isso?”, por que sempre escapa algo, ela é incrível”.

12. Ava Canindé (Paulo César Pinheiro): “Foi um Divino Espírito Santo que foi trazido para mim. Luciana mandou propositalmente, pois sabia que eu fui imperatriz na infância [em festejos do Divino, em Pinheiro, pagando promessas de sua mãe]. Eu sempre falo que vejo as mulheres indo para as festas do divino, as caixeiras, as arrumadoras da bandeira, e ela fala da simplicidade e da organização dessa festa. O dia a dia, como as pessoas se vestem, como chegam, descreve a cidade, a igrejinha. E João Lyra trouxe o que há de mais surpresa no disco, o arranjo dessa música. Para quase todos os músicos ela é a mais forte. João não conhecia a batida do Divino Espírito Santo, e no entanto ele trouxe sopros, viola. Ficou muito linda, simples, nostálgica. Para eu conseguir cantá-la do jeito que eu cantei eu me imaginava com João e Paulinho, em um morro bem alto, olhando lá de cima para esta cidade e cantando”.

13. São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro): “A maneira como Paulo descreve o Maranhão, a impressão que a gente tem é a de que ele estava aqui, e de uma maneira também muito cinematográfica. Você consegue ver o boi de uma forma tão simples. Cantar minha terra foi uma honra, com a letra dele, então. E ele não conhece. Conhece através de Josué Montello e é capaz de conhecer até mais que eu, por que Paulinho quando vai em um assunto, ele vai fundo, vai além, muito além… Pra mim foi um presente, ele interferiu nesse arranjo, ele estava presente nessa gravação, acompanhou de perto [o saudoso parceiro João Nogueira era, até então, o último artista visitado por Paulo César Pinheiro em estúdio durante a gravação de um disco]. E nada como o nosso mestre Arlindo Carvalho para dirigir e dar esse toque de Boi de Pindaré. Ela fecha o disco, fecha com minha terra, fecha onde nasci, fecha com São Luís”.

Música e poesia em duas noites memoráveis

Joãozinho Ribeiro, "o gregário"
Joãozinho Ribeiro, “o gregário”

ZEMA RIBEIRO

Joãozinho Ribeiro adiou por muito tempo a gravação de seu disco de estreia, que reunirá pequena parte de sua significativa obra, fruto de mais de 30 anos de carreira, contados aqui a partir de sua participação em um festival de música universitária na capital maranhense em que nasceu em 1955.

Ocupou-se de outras missões, não menos nobres, tendo estudado engenharia e economia, sem concluir, formando-se bacharel em Direito. À época do citado festival era liderança ativa nos movimentos da greve da meia passagem e contra a ditadura militar então vigente. Hoje, ajuda a formar novos bacharéis, dividindo com o ofício de professor universitário a existência de também funcionário público e, não menos importante, poeta e compositor.

Não por acaso Do ofício de viver e outros vícios é título de um segundo livro, a ser lançado sabe-se lá quando, que as coisas com Joãozinho não funcionam de modo tão planejado, exceção feita às ocasiões em que foi gestor público. João Batista Ribeiro Filho, seu nome de pia, já foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e secretário de estado da Cultura do Maranhão, além de ter sido coordenador executivo da II Conferência Nacional de Cultura, função que ocupou no MinC, quando Juca Ferreira era o ministro. Aquele título se somará ao livro-poema Paisagem feita de tempo que ele publicou em 2006, 21 anos depois de concluído.

Milhões de uns, o disco de estreia, toma emprestado o título de sua música talvez mais conhecida, imortalizada na voz de Célia Maria, que venceu o Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos. O disco foi gravado ao vivo nos últimos 27 e 28 de novembro, ao vivo, no Teatro Arthur Azevedo, em duas noites memoráveis. Noites de música, poesia, teatro, arte, encanto, beleza, vida, enfim.

Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro
Joãozinho Ribeiro entre os parceiros Chico César e Zeca Baleiro

Milhões de uns não é apenas um título de música. Ou de disco. É a mais perfeita tradução de Joãozinho Ribeiro, o “gregário”, como cravou Chico César, um de seus ilustres convidados, que presenteou o compositor e o público musicando-lhe um poema: Anonimato, que escrevera em homenagem ao vimarense João Situba, seu pai.

Só entre convidados e participações especiais estavam Alê Muniz, Célia Maria, Cesar Teixeira, Coral São João, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro, fora o o ator Domingos Tourinho, que apresentou belas intervenções poéticas durante os shows. Fora a superbanda arregimentada por Joãozinho Ribeiro para o par de noites que deixou a plateia pisando em nuvens: Arlindo Carvalho (percussão e direção artística), Celson Mendes (participação especial ao violão), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Barbosa (trompete), Josemar Ribeiro (percussionista convidado), Kleyjane Diniz (vocal), Luiz Jr. (violão, guitarra, viola, direção musical), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo), Wanderson Santos (percussão), Xororó (percussionista convidado) e Zezé Alves (flauta).

"Cantador que canta só canta mal acompanhado"
“Cantador que canta só canta mal acompanhado”

O público merece esse registro. Joãozinho, apesar de não ter disco gravado até hoje, é um de nossos mais gravados compositores, em vozes alheias. O próprio Joãozinho merecia – e se/nos devia – esse registro, como fez por merecer cada aplauso nestas noites memoráveis.

João foi ao fundo do baú. Ou melhor, do cofo. Milhões de uns botou na roda diversos gêneros musicais – choro, samba, bumba meu boi, tambor de crioula, blues, afoxé – feitos na solidão (nunca, que “cantador que canta só, canta mal acompanhado”, como ele mesmo canta) ou em parceria. Na primeira categoria estão Matraca matreira (interpretada por Chico Saldanha), Pegando fogo (por Rosa Reis), Amália, Erva santa (interpretada pelo autor com Chico César e Zeca Baleiro), Saracuramirá (interpretada pelo autor com Chico César), Saiba, rapaz (interpretada por Célia Maria), Esquina da Solidão (por Cesar Teixeira), Derradeiro trem (por Zeca Baleiro), Palavra (idem), Passamento, Terreiro de ninguém (por Josias Sobrinho) e Milhões de uns (que o autor cantou com o Coral São João). Na segunda, Samba do capiroto (parceria com Cesar Teixeira, que os dois cantaram juntos), Cidade minha (parceria com Marco Cruz, interpretada pelo Coral São João), Gaiola (parceria com Escrete, interpretada por Lena Machado), Rua Grande (parceria com Zezé Alves, idem), Tá chegando a hora (idem, que marcou o encerramento das noites, em que todos os convidados retornavam ao palco para cantá-la juntos) e Coisa de Deus (parceria com Betto Pereira), cuja interpretação arrebatadora de Milla Camões, programada para participar apenas do primeiro dia, fizesse a cantora voltar ao palco na noite seguinte, que protocolos e scripts não podem barrar sentimentos e/ou Joãozinho Ribeiro.

Há material para um cd duplo, no mínimo, e um dvd. A quem não foi, resta esperar. E a quem foi, também, torcer para poder reouvir/rever o quanto antes. Como já disse ao próprio “little John”, apelido carinhoso com que o tratamos alguns íntimos: o resultado não pode demorar (mais ainda) a ganhar estantes, coleções, cd-players, ouvidos, cabeças e corações.

Vias de Fato, dezembro/2012. Leia o texto que escrevi para o programa de Milhões de uns (distribuído aos espectadores por ocasião do espetáculo). Continue Lendo “Música e poesia em duas noites memoráveis”

Bom dia!

Clipe de Passione, de Junio Barreto, com Mariana Ximenes e Xico Sá. A quem (re)interessar possa (eu já havia recomendado), Setembro pode ser baixado aqui.

Semana Joãozinho Ribeiro 5

PEQUENO DANADO, SIÔ!

POR JOSIAS SOBRINHO*

Já faz um tempão que conheço o João, Batista Ribeiro Filho.

Se bem que, talvez, desde sempre…

…. me alembro bem de um dia na casa de Óder, na companhia luxuosa de Paquinha e sua viola espertíssima, num domingo de feijoada regada a garrafões de sangue de boá, como diz Bertinho, meu querido bróder, quando lhe ouvi versos inquietos querendo galgar o mundo.

E não foi de outra forma.

… ou no Corre Beirada, de tão nobre memória, onde mambembes cruzávamos
a cidade, seja lá como fosse, carregados de arte e com vontades de ver o circo
pegando fogo,

…. e, tínhamos Paulinho bicho do mato, Omar tiro de misericórdia, Zezé rabo
de vaca e tais e tantos,

…. como bendiz Mestre Vieira, que nem é rasta, mas como quem sabe arrasta:
… a pedra rolou…

Rolou pra nós nas trincheiras que ao longo dos dias fomos incrustando em
nossas carnes, cheios de esperança de ter vez e dar voz ao fado, de silenciar o
enfado.

Ora, ora…

Pois sim, pois não! Alguns companheiros de viagem vão pouco a pouco se
tornando permanentes em nossas cruzadas, como Neymar, que nem Pelé ou o
Santo Ofício, ou a Sharon Stone, pela vida se rebobinando vão. Milhões de uns
raimundosgeraldosfranciscas um dia nos chegam iluminando caminhos,
derrubando porteiras; aquém nós, nos vamos segurando, à borda, dando tempo
ao tempo de dar pé, até podermos mergulhar profundamente ao mais longínquo
profundo, por âncoras seguras, seguros de nós.

O João que conheço é um desses cabras danados de grandes, cheios de olhos
perscrutando tudo, que tudo que vêem, que tudo sentem. Que o absoluto
pressentem e apoderados das coisas que acreditam, dão sentido e são
significados por uns milhões de unsoutros. Das amálias aos capirotos.
Amealhando parcerias a torto e a direito, as trilhas dos poetas são cheias de
revolteios e, belas como pindobas aos ventos de maio numas manhãs quaisquer
de uns barros vermelhos de um dia, iluminando tudo em volta como se a
totalidade coubesse no pio de um coroca ou no dorso de uma égua resoluta
pastando na calmaria de um vasto campo à beira do Aquirí.

Cheio de planos, não somente urbanos, acima de tudo humanos, meu querido
little John, as coisas de Deus lhe acompanham.

No espetáculo da vida, tu e tua trupe de bardos e bardas, esse cangaço da
gente a volta da mesa reunido, rapaziando o pão, e o vinho!!! reclama, esse terreiro de ninguém onde seu Ninga vende uma erva na santa esquina da solidão da palavra passamento, enquanto um derradeiro trem matraca matreiro sobre minha cidade, cidadela sitiada, na beira duma praia absurdamente voltada pro mar.

*O compositor Josias Sobrinho participa do show Milhões de uns na noite de hoje (27). Veja abaixo a programação das duas noites de espetáculo, sempre com início às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.

27

1. Cidade Minha (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João
2. Coisas que Acredito (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
3. Estrela (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
4. Tire as Mãos do Meu Pandeiro (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
5. Terreiro de Ninguém (Joãozinho Ribeiro) – Josias Sobrinho
6. Pegando Fogo (Joãozinho Ribeiro) – Rosa Reis
7. Amália (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
8. Te Gruda no Meu Fofão (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
9. Gaiola (Joãozinho Ribeiro / Escrete) – Lena Machado
10. Planos Urbanos (Joãozinho Ribeiro / Alê Muniz) – Alê Muniz
11. Coisa de Deus (Joãozinho Ribeiro / Beto Pereira) – Milla Camões
12. Passamento (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
13. Palavra (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
14. Derradeiro Trem (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
15. Milhões de Uns (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro e Coral São João
16. Tá Chegando a Hora (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João + Todos

28

1. Cidade Minha (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João
2. Coisas que Acredito (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
3. Tire as Mãos do Meu Pandeiro (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
4. Matraca Matreira (Joãozinho Ribeiro) – Chico Saldanha
5. Pegando Fogo (Joãozinho Ribeiro) – Rosa Reis
6. Amália (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
7. Te Gruda no Meu Fofão (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
8. Azulejo (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
9. Saiba Rapaz (Joãozinho Ribeiro) – Célia Maria
10. Rua Grande (Joãozinho Ribeiro / Zezé Alves) – Lena Machado
11. Samba do Capiroto (Joãozinho Ribeiro / Cesar Teixeira) – Cesar Teixeira e
Joãozinho Ribeiro
12. Esquina da Solidão (Joãozinho Ribeiro) – Cesar Teixeira
13. Erva Santa (Joãozinho Ribeiro) – Chico César
14. Saracuramirá (Joãozinho Ribeiro) – Chico César
15. Passamento (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
16. Palavra (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
17. Derradeiro Trem (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
18. Milhões de Uns (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro e Coral São João
19. Tá Chegando a Hora (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João +
Todos

Semana Joãozinho Ribeiro 4

Ontem postei aqui um texto de Chico Saldanha em que ele comenta a emoção de participar de Milhões de uns, show que resultará no primeiro disco de Joãozinho Ribeiro. No texto, o autor de Itamirim bem define Zeca Baleiro: “esse maqueano, “chefe de torcida” dos compositores maranhenses”, ele, o filho de seu Tonico e dona Socorro, certamente um dos maiores entusiastas das noites de hoje e amanhã e do que nelas/delas (se) vi(ve)rá.

Abaixo, palavras de Zeca Baleiro sobre Joãozinho Ribeiro e Milhões de uns. Palavra, no singular, a propósito, é uma das peças da lavra do segundo que o primeiro cantará.

JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS

POR ZECA BALEIRO*

Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.

Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.

Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.

Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.

Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.

Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.

Saravá, João, meu poeta!

*O cantor e compositor Zeca Baleiro participa das duas noites de Milhões de uns, hoje (27) e amanhã (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo. Os ingressos custam R$ 50,00 e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro.

Semana Joãozinho Ribeiro 3

QUE SE ACENDAM OS FOGOS!

POR CHICO SALDANHA*

Lembro-me bem, noite de lua cheia, no Bar Coqueiro, ano de 1990, quando fui surpreendido pela musica de Joãozinho Ribeiro.

Identifiquei-me, de pronto, com a sua musicalidade, seu talento imenso e peculiar, com a sua versatilidade na arte de compor sem se prender a determinado tema ou ritmo.

Já naquela época eu poderia ter antecipado o célebre bordão: “quando é que tu vais gravar vinil?”

De lá prá cá, passaram-se duas décadas e Joãozinho calcou seu nome não só no campo da música e da poesia. Transitou com afincada coerência pela política e administração pública onde se destacou como único secretário de cultura a pensar e discutir os rumos da política cultural do Estado, com seriedade.

Mas, essa variedade e amplitude de seus interesses não me bastavam como admirador do seu trabalho musical. Queria que uma gama maior de pessoas conhecesse também sua obra. Queria ver aquele cofo de canções rodando mundo.

Afinal, a arte, fenômeno individual gerado por cada indivíduo é o mais coletivo dos fenômenos quando atinge toda a humanidade.

Mas, a história é a história e o artista teve que encarar.

Não é que o Capiroto, influenciado por esse maqueano, “chefe de torcida” dos compositores maranhenses, Zeca Baleiro, vai gravar não só CD, mas DVD, tudo em dose única. De quebra ainda me convida para colaborar na Matraca Matreira.

A minha participação no projeto Milhões de uns como artista, ao lado de tão queridos companheiros, me deixa muito feliz e é uma forma de reverenciar e agradecer a um dos maiores nomes da nossa música.

Que se acendam os fogos!

Salve Joãozinho!

*O compositor Chico Saldanha participará do show Milhões de uns, em que Joãozinho Ribeiro grava ao vivo seu disco de estreia. O espetáculo será apresentado em duas noites (27 e 28/11) no Teatro Arthur Azevedo, às 21h. Saldanha participa cantando a citada Matraca Matreira, quarta-feira.

Semana Joãozinho Ribeiro

O poeta e compositor Joãozinho Ribeiro grava ao vivo seu primeiro disco, Milhões de uns, em show homônimo que apresentará nas próximas terça (27) e quarta-feira (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.

Nas duas noites, o artista terá como convidados Alê Muniz, Coral São João, Célia Maria, Cesar Teixeira, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro.

Até o segundo dia de apresentação do artista e seus amigos de copo, alma, música e vida a Semana Joãozinho Ribeiro trará a este blogue diversas histórias, notícias, textos, imagens etc., deixando a galera por dentro da empreitada. Para inaugurá-la, texto que o último convidado listado escreveu em agosto passado sobre a iniciativa.

JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS
POR ZECA BALEIRO

Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.

Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.

Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.

Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.

Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.

Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.

Saravá, João, meu poeta!

Duas coisas

Ontem bebi no Retão. Sim, reabriu. Funcionará, agora, apenas de quinta a sábado, sempre à noite. O garçom me disse que vão meio que ver no que dá, terminar 2012, avaliar se vale a pena e, se for o caso, alugar o ponto ano que vem. Torço pra que continue, vida longa ao Retão!

Tratei equivocadamente, por puro esquecimento mesmo, o disco A obra para violão de Paulinho da Viola como um disco dele. Não é. É um dos volumes de Brasil Instrumental, disco-brinde duplo distribuído por uma empresa mineira de mineração a clientes, amigos, parceiros, fornecedores e que tais em fins de 1985. No primeiro volume, o violonista maranhense João Pedro Borges executa 10 peças instrumentais de autoria de Paulinho da Viola, acompanhado por este ao cavaquinho e César Faria, pai do compositor, ao violão. No volume 2, Brasil, sax, violão, cello e trombone, um encontro sui generis, um quarteto, no mínimo inusitado, tanto quanto talentoso: Paulo Moura (sax, clarinete), Raphael Rabello (violão sete cordas), Jacques Morelembaum (violoncelo) e Zé da Velha (trombone). Brasil Instrumental nunca chegou ao formato digital, ao menos não oficialmente. Mas seus dois volumes podem ser abracadabaixados.

Viva Paulinho da Viola!

Paulinho da Viola completou 70 anos ontem. Não houve estardalhaço como para outros setentões de 2012 (ou como imagino que haverá, não imerecidamente, para Chico Buarque daqui a dois anos). Não é de hoje a diminuição quase sempre imposta a este grandessíssimo artista, em geral tido apenas como sambista (como se isso fosse coisa menor) e não como um artista da MPB (o que é MPB? Samba não é música?, não é popular?, não é brasileiríssimo?).

Paulinho da Viola é fundamental! Artista de nobre linhagem e rara elegância, merece figurar em qualquer panteão da música brasileira. Se a mídia não deu a devida atenção, mesmo que apenas por ocasião da efeméride, o artista anuncia shows (no Rio, de graça, na Madureira berço de sua Portela do coração, e no Carnegie Hall) e caixa com discos, informações que li na Folha de domingo, onde soube também que a Portela irá homenageá-lo na avenida em 2013.

O maranhense João Pedro Borges, que tocou em A obra para violão de Paulinho da Viola, dividindo o disco com o artista e o pai dele, César Faria (violonista do conjunto Época de Ouro que acompanhou Jacob do Bandolim), já afirmou que é bastante valiosa a contribuição do músico para a escola brasileira do instrumento. Esta sua faceta, de compositor de choros sofisticados, é bem menos conhecida que a de sambista, porém não menos importante. O disco citado é hoje tão desconhecido quanto raro: foi distribuído como brinde de fim de ano aos clientes de uma empresa em meados da década de 1980, nunca tendo chegado ao formato digital.

Um dos momentos de maior emoção na vida do músico aconteceu quando sua Foi um rio que passou em minha vida foi cantada no aquecimento, o “esquenta”, o samba que anima os membros da escola antes de a mesma entrar na avenida. Isso foi em 1971, o disco lançado no ano anterior, espécie de resposta que Paulinho dava a si mesmo, depois de ter escrito Sei lá, Mangueira (parceria com Hermínio Bello de Carvalho), enaltecendo a rival.

Até hoje há quem acredite que sua Sinal Fechado, regravada por, entre outros, Fagner e Chico Buarque, seja de autoria do último.

Para um amor no Recife já teve regravações de Marina Lima e Zé Ramalho, alguém aí ainda desconfia que Paulinho é só do samba (o que não seria pouco)?

Paulinho é também presença constante nos discos de Marisa Monte, seja emprestando obras primas do quilate de Para ver as meninas e Dança da solidão, seja tocando um violão aqui, um cavaquinho acolá.

Acompanhada do grupo Semente, Teresa Cristina estreou em disco há 10 anos, com um trabalho inteiramente dedicado à obra do mestre: o duplo A música de Paulinho da Viola.

Ainda há muito por dizer e muito mais com o que ilustrar este post. Paulinho da Viola tem obra vasta e bem mais merecem as celebrações e homenagens por seus 70 anos. Uma frustração? Nunca ter sido gravado por Aracy de Almeida, “uma das maiores cantoras de samba” que o Brasil já (ou)viu. Uma historinha? Já cansada de ser sempre cobrada para cantar o repertório de Noel Rosa, sua maior intérprete um dia confessou estar cansada de “carregar o peso desse morto nas costas”, disse, referindo-se, “sei lá, não sei”, ao samba de Noel ou ao próprio compositor. Caetano Veloso compôs um samba novo, A voz do morto, em que homenageia Paulinho da Viola, “viva Paulinho da Viola”, vivíssimo, atuante e elegante aos 70.

“Prefiro continuar a ser um produtor de cultura que me tornar um gestor”

Baleiro em pose de “alto lá!”

Indagado pelo blogue sobre a campanha “Eu quero Zeca Baleiro Secretário de Cultura de São Luís”, que ganhou alguma repercussão no Facebook, assim manifestou-se o cantor e compositor maranhense, através de sua assessoria. Sábio Zeca!

Ao lado de diversos outros nomes, Baleiro participa nos próximos dias 27 e 28 de novembro, no Teatro Arthur Azevedo, do show Milhões de uns, de Joãozinho Ribeiro, quando este grava ao vivo o primeiro disco de sua carreira.

Músico maranhense, Tião Carvalho está internado no Hospital das Clínicas

O cantor e compositor Tião Carvalho está internado no Hospital das Clínicas, em São Paulo, acometido de malária. O quadro do artista ainda inspira cuidados, mas ele já deixou a UTI.

Segundo Cacau Amaral, percussionista que acompanhou o músico na banda Mafuá, Tião Carvalho estava em Maputo, Moçambique, onde fez shows e ministrou oficinas de danças populares brasileiras entre o fim de setembro e início de outubro.

Maranhense de Cururupu, Tião Carvalho vive em São Paulo há cerca de 30 anos. Na capital paulista é responsável pela difusão da cultura popular maranhense no Morro do Querosene, o que lhe rendeu o título de cidadão paulistano, honraria concedida pela Câmara de Vereadores. Gravou com os grupos Mafuá e Boi de Cupuaçu, além de discos solo, o mais recente Tião canta João (2006), em que interpreta a obra do conterrâneo João do Vale. É autor de Nós, sucesso de Cássia Eller.